Quetzal, 2026. Tradução de Salvato Teles de Menezes
É necessário muita coragem para escrever um anunciado último livro. Não é só ser destemido, é ter um enorme respeito pelos leitores, é saber antecipadamente que este não terá a importância de um primeiro, ou mesmo de um segundo e um terceiro livros, talvez estes últimos dos mais decisivos para uma chamada «carreira» literária. Trata-se igualmente de não cair em clichés abundantes nos romances actuais e que Julian Barnes nos avisa, evitando repetições escusadas que podem ter sido usadas em narrativas anteriores ou tornar-se uma espécie de registo cansado, sem a subtileza e inteligência que deu mostras; daí, a coragem de um último livro. Já se escreveu bastante sobre «Partida» que, segundo Julian Barnes, pode ser uma nova chegada. Assim é. Prenuncia-se os temas que estão presentes no livro: a memória e o seu significado a partir da tal madalena embebida no chá de tília de Marcel, de «Em busca do tempo perdido», que nos obriga a desenrolar todo um novelo de memórias da nossa infância e adolescência. Não por acaso. A memória está connosco de um modo autoritário, sem pedir licença, sem que saibamos o seu sentido ou por que umas se transcendem a outras. É o que Barnes chama de MAI, «memória autobiográfica involuntária» que, feliz ou infelizmente, povoa a nossa consciência com múltiplas facetas e imagens. Muitas, já nem sabemos se são verdadeiras, pouco importa, aliás. Com a memória, vive-se no nascimento, na degenerescência e na morte que Barnes nos apresenta com uma elegância e um cuidado britânicas. E os amigos e familiares que faleceram, cujas memórias ainda mantemos vivas em nós, sem que pensássemos se seria assim que queriam que fossem lembrados. Será que Julian Barnes, ao escrever este livro e desenvolvesse todos os pensamentos que o acompanham, não estaria certo que o leitor pudesse circunscrevê-los à sua própria vida? Mesmo com o receio que as ondas de choque e suicídios que teve no século XVIII, por exemplo, o «Werther» de Goethe, se pudessem mimetizar com «A Partida»? Mesmo que isso fosse pouco provável numa sociedade hedonista e pouco dada a essas influências românticas, Barnes não deixa de colocar a possibilidade e isso deixa-nos inquietos; esse desconforto não é bem o da finitude, coisa que estaremos já familiarizados com a idade, mas sim com aquilo que deixamos aos que ficam e quase com algum alívio o vemos «partir» numa fase terminal de cancro e com a descrição dolorosa como o faz. O mundo que resta não será o melhor de todos para dizer o mínimo dos mínimos; é, antes, um amontoado de ódios, de desprezo pelo que ainda há de democracia e de liberdade, de uma aposta na guerra e no genocídio, de um inverno nuclear ou da destruição do que ainda resta de altruísmo pelo egoísmo. Um presente já apocalíptico, «à beira de um penhasco». De qualquer modo, Julian Barnes despede-se com a elegância já referida:
«É óbvio que, como agnóstico/ateu, não vejo muitas vantagens em estar morto. Apenas me são disponibilizados pequenos consolos. A sorte do tempo de vida (em grande parte, pacífico, com muitas e maiores liberdades do que gerações anteriores), a a sorte da minha vida (livre da pobreza, não mutilada pela religião, em grande parte feliz, sempre interessante - pelo menos para mim - e na segunda metade profissionalmente bem-sucedida).» (pág.183). Como ele nos diz: «sentirei a vossa falta».
Lido, com a entrega que exige, não nos deixa outra opção senão lembrá-lo vivamente.
alc
