sexta-feira, janeiro 02, 2026

"Artigo 353", Tanguy Viel

 

Antígona, 2024. Tradução de Luís Leitão
Os anos 80 significaram, em quase todo o mundo ocidental, o início de uma época em que o capitalismo se chamou a si próprio de «popular». Coincidiu essencialmente com os governos de Reagan e Thatcher em que se observou o desmantelamento das instituições públicas e da indústria, entre outras. O liberalismo em roda livre e sem freio pelas oposições tradicionais fizeram com que desaparecesse uma classe operária envelhecida, mas com um espírito vivo de antagonismo social contra a burguesia. Tudo estava à venda, quer na bolsa, quer na vida quotidiana e nos espaços públicos. Assim foi em França no tempo de Miterrand, um socialista também ele influenciado pelas virtudes liberais, particularmente na Bretanha, onde as antigas relações sociais de anos a fio, foram substituídas por vínculos onde ganhava a avidez e o lucro. Esta história passa-se numa pequena localidade piscatória onde existiu um antigo arsenal desactivado e onde os desempregados, recentemente indemnizados, serviram de bóias de salvação para «empresários» sem escrúpulos que os exploraram e seduziram com investimentos turísticos. Investimentos esses que lhes dariam lucros fabulosos e que foram respaldados por instituições políticas locais. A narrativa passa-se num tribunal e o modo de apresentá-la surgiu pela pena extremamente lúcida e verosímil na personagem principal a que Tanguy Viel deu forma. Nada que o nosso país não conheça ou que ainda conhece. A especulação imobiliária não tem fronteiras e as consequências na vida das pessoas que se deixam levar pelo canto das sereias do lucro fácil são, na sua maior parte, destruidoras de uma coesão social que ainda possa existir nas pequenas comunidades. É este estado de coisas, descrito na vida de um ex-operário bretão, que este livro tão bem nos conta.

alc