sexta-feira, janeiro 19, 2007

A ousadia dos empresários, por Paulo da Costa Domingos


Portugal não tem, nesta matéria, motivo de queixa. Basta termos em mente o exemplo do feliz empresário que foi Salazar. Repare-se:Tomou as rédeas do poder num momento de crise, invalidando sistematicamente, e com processos que a legislação produzida tornava inquestionáveis, os seus adversários e concorrentes directos e indirectos. Neste particular, tanto mandava quebrar as pernas ao zé-ninguém como as cabeças pensantes da alta burguesia com pretensões dirigentes. Quem não ia por ele, é porque estava contra ele, dizia-se. Daí, este nosso país, volvidos tanto tempo, ainda sofrer hoje do complexo de «Maria vai com as outras». Se nas fábricas, nos campos, nos mares e nas cadeias fervilhavam os inimigos dele, o mesmo não se poderá dizer das igrejas, dos conventos, dos corpos docentes, dos quartéis (sim… até nos quartéis!), das confederações, dos grémios, da banca, dos ranchos folclóricos, do funcionalismo público. Mas os ódios que gerou mantiveram-no, afinal, no mando deste país quase meio século.
Pedir hoje, aos actuais empresários, que sejam mais ousados, é pedir-lhes despudor, abuso, atropelo de tudo e de todos, é pedir-lhes que agravem as miseráveis condições de vida dos trabalhadores, e da sociedade em geral. É dar cobertura a arbitrariedades, a despedimentos, à destruição de justas regalias obtidas nas lutas sociais, reformulando leis e regras básicas de manutenção da máquina social. Gerar riqueza para o país significa, nas mãos desta gente, apropriarem-se de todos os recursos materiais e humanos disponíveis. Gerar riqueza significa aqui roubar a riqueza difusa de todos nós, porque, como disse Asger Jorn, «ninguém pode ganhar mais que aquilo que outro perde». Significa acelerar o colapso radical da micro-economia, da economia caseira (apodada agora de "economia paralela"!!…), acelerar a falência dos pequenos empresários. Significa ir por diante com o projecto nuclear, chafurdando agravadamente no meio-ambiente. Significa permitir que mudem as regras a meio do jogo dos compromissos assumidos pelos que foram forçados a endividar-se junto dos bancos. Significa que o próprio Estado vai estimular o mergulho na barbárie do capitalismo selvagem. Significa que, num mundo de reservas limitadas e a esgotarem-se, vamos ser obrigados a assistir impassíveis à sua rápida concentração nas mãos dos mesmos que alimentam hoje um comércio de luxo galopante.
Significa, concomitantemente, o instrumentalizar da opinião pública através da comunicação social. E utilizar o retorno desses meios informativos para sondar e auscultar a multidão. Significa a nidificação ininterrupta da "crise", dos receios inspirados pela ideia de crise, melhor dizendo. Significa, em suma, uma estratégia política fundada no desvio das atenções e na mentira… Lá diz o povo: Com a verdade me enganas.Ó Estado, não é preciso tocar a reunir. A clique empresarial, o patronato assim como os chefes no terciário, já aí estão a dar cabo da boa vida.

Paulo da Costa Domingos
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