Mostrar mensagens com a etiqueta Emmanuel Carrère. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Emmanuel Carrère. Mostrar todas as mensagens

sábado, dezembro 20, 2025

"L' Adversaire", Emmanuel Carrère


P. O. L., Folio, 2000
Emmanuel Carrère parte de um acontecimento baseado em factos reais, sórdido, o de um assassinato, em 1993, de uma família inteira perpetrado por um indivíduo que, além da mulher e dois filhos, mata igualmente os seus velhos pais reformados, para construir uma narrativa em que nada o que parece é. Há uma componente social importante que se estende para a análise psicológica de um assassino e de um enquadramento religioso muito caro a Emmanuel Carrère, autor de «O Reino» já aqui referido nestas páginas, tal como «L'Uchronie». 

O autor questiona-se sistematicamente no seu papel como escritor de um verdadeiro massacre, que destapa uma vida assente em mentiras forjadas num ambiente suburbano da classe média francesa. Revela-nos os quotidianos seráficos, as leituras, os hábitos pensados ao milímetro, as ansiedades sociais, as contrariedades, os gestos sopesados por pessoas para quem subir o elevador social é uma necessidade absoluta. Pede ao assassino autorização para privar com ele, saber o que o levou a um tal acto, não escondendo alguma empatia para Jean-Claude (assim se chama o assassino) e para com outros que se aproximam dele, numa tentativa de o regenerarem pelo cristianismo. Troca com ele cartas, visita-o na prisão, quer saber como se tentaria suicidar e se esse fim era o seu objectivo real. Assiste ao seu julgamento e fala com outros jornalistas, questiona os psiquiatras que o analisaram. Aborda o seu advogado e ouve os argumentos do ministério público perante o tribunal. 

Sabemos de outras experiências literárias que seguiram este caminho, nomeadamente as de Truman Capote, com evidente solidez e seriedade de propósitos não cedendo ao espectáculo muito comum dos tablóides e das tv's; Emmanuel Carrère vence na franqueza demonstrada em cada linha de «L'Adversaire», reparte connosco as suas dúvidas e incertezas perante, mesmo, o que é dito por ele ou o que lhe dizem num jogo de sombras e de zonas indefinidas. 

De qualquer maneira, este livro não será muito aconselhável para pessoas plenas de certezas.

alc

domingo, setembro 14, 2025

«Uchronie», Emmanuel Carrère

 

P.O.L, 2025 (1986, com o título de «Le Détroit de Behring»)
O conceito de ucronia é relativamente recente e nem os principais dicionários, mesmo o respeitável Larousse e ainda em 1980, conheciam a palavra, embora ela tenha sido utilizada pela primeira vez em 1876 por um filósofo francês de nome Charles Renouvier. Fui rapidamente consultar o meu Houaiss e helas! lá estava ela, a ucronia, junto com o fundador do conceito com a seguinte definição: «1. História apócrifa, recriada em pensamento como poderia ter ocorrido; 2. período, época, tempo imaginário; recordação fictícia dentro de um tempo.» Quanto ao étimo o dicionário coloca-o no francês, embora seja mais óbvio o grego com a partícula de negação «u» junto com «cronos» que, como sabemos, significa «tempo» (com o respectivo deus grego a acompanhar). Portanto, o sr. Renouvier, criou a palavra no seguimento da «utopia» de More no século XVI: o termo «distopia» cujo étimo também é aposto no inglês dystopia só é reconhecido como entrada em meados do século XX com Orwell e Huxley. 

Quanto a utopias e distopias qualquer um de nós já trata por tu estas definições, por via de vidas políticas miseráveis (logo derrotadas) que experimentámos logo aos vinte. Os mais novos terão outras realidades não menos exaltantes. Isto não é para todos e conhecemos bem quer o entusiasmo utópico, quer o horror distópico (o computador disse-me agora que não conhecia esta expressão, imagine-se) tenha as formas que tiver. Mas...e a ucronia? Conhecia-a pela primeira vez com a leitura de «O Homem do Castelo Alto», de Philip K. Dick e que aqui fichei num post. Emmanuel Carrère, na minha opinião um grande escritor, também o cita como livro importante para o desenvolvimento de uma narrativa ucrónica em que os americanos teriam perdido a II Guerra com os japoneses. Este imenso «SE» é a base de toda a ucronia. Mas Emmanuel Carrère avisa-nos, com toda a razão, que não basta somente um «se» para tudo ser uma ucronia. Tem ser observado um registo sério em que as causas e os efeitos históricos tenham sentido, ou seja, que a História adquira uma certa verosimilhança, que a cronologia tenha sentido e as consequências sejam consonantes às causas que as provocaram. O processo histórico nada terá então de novo, a não ser o baralhar dos dados. O que é claramente um processo ideológico, de escolha do escritor e anuência ou rejeição do leitor. Voltando à ucronia de P.K. Dick: os americanos não são completamente derrotados, virão a ganhar em 1949 através da resistência interna, pela fraqueza das potências do Eixo que dominavam a Europa e que entretanto se viram envoltas em lutas internas pelo poder e corrupção. Hitler terá morrido em 1946, doente. No final tudo fica na mesma. As potências aliadas reencontram-se numa democracia musculada e controlada no seu seio e quem provocou a guerra, como a Alemanha, o Japão, ou a Itália, vivem as suas vidas como se não fosse nada e em prosperidade. Ironia da ucronia, não é? Rima e é verdade... no fundo estaríamos como hoje e os 60 milhões de mortos seriam apenas danos colaterais.

Os grandes «ses» da História apresentam-se agora em «Uchronie». Emmanuel Carrère provoca-nos com as seguintes hipóteses, não todas originais nele, mas existentes desde, pelo menos, o século XVIII embora de escritores anónimos (um deles seria Descartes?, coloca Carrère em questão): e se fosse Barrabás a ser escolhido por Pilatos para a crucificação e não Cristo, haveria hoje cristianismo? Ou seja, morrendo de velho Jesus Cristo e pregando até provavelmente ninguém o ouvir e Judas estar quietinho no seu papel de apóstolo em luta com os demais, o cristianismo teria ultrapassado a seita? Este, aliás, é um tema querido a Emmanuel Carrère, desde a publicação de «O Reino» (Tinta-da-China) e que já escrevi aqui sobre ele. Não como ucronia, mas como a ideia inicial de Cristo se tornou igreja. Continua: e se Napoleão tivesse ganho Waterloo? A Europa hoje seria a mesma? E se a Reforma Protestante tivesse ganho à Inquisição latina? E se Gavrilo Princip tivesse matado o amante da mulher completamente transtornado e não tivesse atirado ao Arquiduque Francisco Fernando para reconhecimento posterior, teria existido a matança que foi a I Guerra? Agora nós, que não o Carrère: e se Emídio Santana e os anarquistas tivesses tido êxito no atentado a Salazar em 1937? Teria havido a mais longa ditadura da Europa? E nem num exercício de ucronia isto se deve colocar, mas se a pistola do tal coronel aliado do salazarismo não tivesse encravado e Salgueiro Maia tivesse soçobrado logo ali no Terreiro do Paço, entraríamos para o Guiness como a mais longa ditadura, agora, do mundo? E se Cavaco Silva se tivesse engasgado violentamente com a fatia de bolo-rei, engolindo o brinde, não permitindo discursar durante todo os seus dias de governo?

Deixo-vos com um trecho de «Uchronie» de Emmanuel Carrère que não resisto aqui a colocar, mesmo com tradução minha, o que desde já me leva a pedir as minhas maiores desculpas. É sobre a possibilidade de Hitler ter vingado na sua veia de pintor e existente em «Lord of the Swastika», de Norman Spinrad:

«Nascido na Áustria a 20 de Abril de 1889, Adolf Hitler emigrou jovem para a Alemanha. Serviu o exército alemão durante a Grande Guerra, depois foi integrado em movimentos de agitação política, em Munique. Este período durou até que imigrou de novo, em 1919. Fixou-se em Nova Iorque onde, aprendendo o inglês, levou uma vida precária, exercendo diversos biscates e ocupações nos meios boémios de Greenwich Village. Seguidamente, começou a trabalhar como desenhador de bandas desenhadas. Vendeu a sua primeira prancha em 1930, na revista de ficção científica ''Amazing''. A partir de 1932, colabora regularmente na maior parte das publicações de FC e, em 1935, o seu inglês pareceu-lhe suficientemente desenvolvido para se iniciar como autor de ficção científica. Romancista, ilustrador, editor de um fanzine, consagrou o resto da sua vida a este género literário. Obtém a título póstumo o Prémio Hugo na convenção mundial de 1955, para ''O Senhor da Suástica'', a sua obra-prima, que terminou em 1953, pouco antes da sua morte. Durante anos, foi uma figura familiar do meio da ficção científica, um contista volúvel e malicioso, bem conhecido pelos seus fãs. Hitler deixou-nos, mas as obras que nos deixou permanecem como um tesouro maravilhoso para todos os apaixonados de ficção científica.» (pág.177,178) 

Hitler como autor galardoado de ficção científica, não é enternecedor? Mas a ideologia, embora irónica, está por detrás desta ucronia aparentemente suave e até desejável para as consciências. Mas não embandeiremos em arco: a História não é feita de «ses». Se não houvesse um Hitler, haveria outro e outro e outro, conforme os diversos interesses no jogo político, económico e social. Isso assusta-nos um pouco, mas não é determinismo histórico. Os acontecimentos surgem como um conjunto de causas que confluem num sentido comum. Os professores sabem-no bem quando descrevem, nas aulas, um acontecimento que marcam negativamente o curso da História. O sobressalto perante o horror, interiorizado pelos alunos, como imagens de guerra, invariavelmente, termina com um «...e se?» Provavelmente, seria melhor dar atenção a estas tentativas de reescrever o passado. A ucronia embora inócua liberta-nos, nem que seja por minutos. Um livro a ler se algum editor português propusesse a sua tradução.

alc

terça-feira, maio 18, 2021

«O Reino», ou o evangelho segundo Emmanuel Carrère


Que pode um livro como «O Reino», de Emmanuel Carrère, significar nos dias de hoje? Por miúdos: um convertido católico que o deixou de ser e escreve as suas memórias e as suas impressões sobre o processo? Demasiado pouco para a dimensão hercúlea da investigação que o autor lhe dedicou. É muito mais que isso. O autor alia às suas emoções como ex-católico uma profunda investigação sobre os evangelhos, Jesus Cristo, Paulo ou Lucas. 
Extremamente cru para Jesus Cristo, chega a usar a ucronia que lhe é particularmente agradável, para colocar a hipótese (para nós bastante plausível) do que seria o cristianismo se Pôncio Pilatos concluísse da não culpabilidade do agitador Cristo? Provavelmente este morreria de velho numa qualquer aldeia da Galileia a falar sozinho e a lembrar-se dos agitados dois a três anos que pregou pela Palestina, hoje a ferro e fogo. Mas os judeus não o quiseram e hoje o mártir é símbolo de uma igreja com dois mil anos, velha, gasta de tanto uso que lhe deram, cansada, mas estruturalmente forte que foi assim que lhe deu Paulo a vida que necessitava para se impor com Constantino com o seu cortejo de cardeais, arcebispos, bispos, párocos. E fiéis, claro.
Sobre as contradições dos evangelhos, Emmanuel Carrère não cai, com o seu «O Reino», na esparrela que Renan caiu no século XIX e que o levou quase à excomunhão e a uma perseguição feroz da Igreja católica e protestante. Também porque a sagrada instituição soube muito bem preservar-se dos hereges contemporâneos e saber defender-se ignorando as alegadas provocações que lhe fazem. Aprendeu com o espectáculo das ideias e das mercadorias, evidentemente.

Emmanuel Carrère é, de facto, um herege no sentido que lhe dará a igreja? Não sei e «não sei» são as palavras com que ele finaliza o seu livro. Diz-se de si próprio um agnóstico, o que lhe dá margem para dizer que não acreditando em deus, também o não pode negar, visto que não sabe. Certo. O cristianismo é, para ele, sem Cristo, não uma religio o que seria normal, mas uma prática de vida como o budismo, com o seu mantra particular substituindo o «Oomm» por um «Maraná-tha». Até pode dar resultado, mas surpreende-me que uma investigação tão aturada sobre as diversas interpretações do cristianismo tenha terminado com um clamoroso «não sei». 

O livro é excelente e tem, por detrás, o ter sido considerado o melhor livro francês de 2019. E eu considero de facto o livro assim, mas faz-me pensar o trabalho que dá ser um agnóstico coerente, bem mais problemático do que um «ateu católico» como Zizek, ou um «católico-protestante» saído de um ecumenismo cada vez mais sólido no terreno espiritual cristão. Convenhamos que estes últimos são bem mais difíceis de defesa ou de coerência do que um «simples-mas-não-tão-simples-assim» de um agnóstico.

Outra figura que não sai incólume é Paulo, o fundador universalista do cristianismo e da igreja tal como a vemos hoje e talvez o mais interessante é verificar as diversas nuances do movimento inicial do cristianismo, isto é, de Lucas com Paulo, de Tiago com Pedro, de João com Filipe, todos eles de facções bem diferentes e marcadas. Paulo, então, é zurzido, embora seja relativamente fácil zurzir numa figura no mínimo polémica e bastante antipática. Chega a fazer este exercício, outra vez ucrónico, sobre a conversão de Paulo que Emmanuel Carrère chega a negar; o autor convida-nos a imaginarmo-nos em 1925 na URSS e apresentar-se a Estaline um antigo general branco, acusado de diversos crimes na guerra civil e dizer-lhe: «Olha, eu sou um general branco, cometi crimes hediondos, mas agora sou bolchevique e abracei a teoria marxista-leninista, portanto quero entrar no PCUS, mas entro sem que vocês não me deem ordens, ok?». Percebem a comparação? Plausível?

Portanto as guerras de facções foram sempre uma constante ainda em vida de Cristo, com João e Tiago a quererem sobrepor-se a Pedro, ex-Simeão, com o qual Jesus tem diversas altercações bem abruptas, até lhe chamar de «Satanás», segundo o evangelho de Marcos. Aliás, diga-se que este epíteto já Pasolini teria dado a Lucas, por ser um mestre do disfarce da bonomia, apresentada perante estas diversas tendências. Não fosse Lucas, grego e culto!

Bom, isto tudo para dizer que não perdem nenhum tempo em ler Carrère, neste seu «O Reino». Muito bom.

António Luís Catarino