Relógio D'Água, 2024. Tradução de José Mário Silva
Da Irlanda chega-nos este romance em que o estranho se mistura com o sórdido. A meio caminho entre o literário e o policial, as personagens movem-se num clima negro dos abusos sexuais de crianças e de crimes de pedofilia perpetrados pela igreja católica irlandesa de que sabemos alguns dos seus contornos macabros e o luto pesado de um polícia reformado que vive numa solidão dura.
Ficamos algo atónitos com os epítetos dos principais críticos literários ingleses e irlandeses com que os editores, apressadamente, vieram publicar na generosa contracapa: desde a «obra-prima» e o «extraordinário» romance à «experiência milagrosa» da sua leitura, não se poupam a elogios a uma obra que apresenta alguns escolhos. A leitura é, de algum modo, difícil de gerir por algumas incongruências narrativas que se observam ao longo das situações descritas, onde não se compreende bem o que o autor nos quer fazer crer: um violoncelista que é ao mesmo tempo um sniper de corvos marinhos, crianças que são vistas para logo desaparecerem ser qualquer explicação, um assassinato de um padre pela mulher abusada, entrevistas com polícias sem que se perceba o móbil, um tiro longínquo a um pai que rapta o seu filho, seguido do suicídio da personagem principal. Tudo demasiado forçado, assim como forçadas são as referências à política irlandesa, que surgem desfasadas e extemporâneas.
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