domingo, janeiro 18, 2026

"Além da Memória", Sebastian Barry

 

Relógio D'Água, 2024. Tradução de José Mário Silva 
Da Irlanda chega-nos este romance em que o estranho se mistura com o sórdido. A meio caminho entre o literário e o policial, as personagens movem-se num clima negro dos abusos sexuais de crianças e de crimes de pedofilia perpetrados pela igreja católica irlandesa de que sabemos alguns dos seus contornos macabros e o luto pesado de um polícia reformado que vive numa solidão dura. 

Ficamos algo atónitos com os epítetos dos principais críticos literários ingleses e irlandeses com que os editores, apressadamente, vieram publicar na generosa contracapa: desde a «obra-prima» e o «extraordinário» romance à «experiência milagrosa» da sua leitura, não se poupam a elogios a uma obra que apresenta alguns escolhos. A leitura é, de algum modo, difícil de gerir por algumas incongruências narrativas que se observam ao longo das situações descritas, onde não se compreende bem o que o autor nos quer fazer crer: um violoncelista que é ao mesmo tempo um sniper de corvos marinhos, crianças que são vistas para logo desaparecerem ser qualquer explicação, um assassinato de um padre pela mulher abusada, entrevistas com polícias sem que se perceba o móbil, um tiro longínquo a um pai que rapta o seu filho, seguido do suicídio da personagem principal. Tudo demasiado forçado, assim como forçadas são as referências à política irlandesa, que surgem desfasadas e extemporâneas. 

alc

terça-feira, janeiro 13, 2026

"A Curva da Estrada", Ferreira de Castro

 

Cavalo de Ferro, (1ªed. 1950) 2024. 
«A Curva da Estrada» era para ser uma peça de teatro como Ferreira de Castro nos diz no prólogo da obra. A narrativa passa-se na Espanha republicana antes da guerra civil e é, talvez, das mais densas que o autor produziu, não só pelo tema que se desenrola dentro da política parlamentar protagonizada por um socialista descrente, como pela descrição psicológica que empresta às várias personagens que se vão desfilando no romance. Soriano sente que a ideia socialista se esvai paulatinamente dentro de si e, com isso, vê-se confrontado quer com os seus companheiros, quer com a família e consigo próprio. Essa luta é-nos contada de uma forma magistral por Ferreira de Castro que nos faz acompanhar pelas dúvidas e acções que são geradas pelo pensamento inquieto da personagem principal, Álvaro Soriano. Os diálogos são autênticas peças filosóficas e políticas extremamente reais e sem que a situação portuguesa e espanhola, presente nas respectivas ditaduras, não é alheia. Um libelo à verticalidade e à liberdade humanas, condição essencial na luta por um mundo melhor e por uma sociedade igualitária. Para além de tudo isto, admiramo-nos com a actualidade de «A Curva da Estrada» o que faz deste livro um autêntico clássico.

alc

sexta-feira, janeiro 09, 2026

"Fronteira", Can Xue

 

Relógio D'Água, 2025. Tradução do chinês de Tiago Nabais
Um livro de um grande fulgor imaginativo em que a realidade se confunde inúmeras vezes com o inefável, com um sonho nunca terminado. As personagens são voláteis, etéreas, cuja consistência psicológica é tragada pela torrente de situações irreais numa geografia urbana, a Cidade dos Seixos, ou num ambiente natural, A Montanha de Neve. Entre esses dois lugares imaginários, jardins sobrepõem-se às casas que permanecem abertas, sem intimidade, tais como as personagens despidas de qualquer interrelação verdadeira, cruzando-se e dialogando como autómatos. 

Podemos, contudo, lobrigar algum arremedo à realidade chinesa: trabalhos irrazoáveis em departamentos inúteis, brigadas de reeducação, tarefas do Partido, institutos vazios de projectos e de pessoas; mas toda a narrativa é travada pelo desligamento, pelo desfasamento. As relações são deslaçadas e opacas, a autora recusa a profundidade apostando antes na ilusão onírica.

Segundo a sua biografia, Can Xue conhece e estuda Borges, Kafka e Dante. Essas influências literárias ajudam a compreender o seu estilo embora, salve melhor opinião, ainda bem longe de atingir a maturidade que leve o leitor a reconhecer, nas suas linhas, uma força narrativa exemplar.

sexta-feira, janeiro 02, 2026

"Artigo 353", Tanguy Viel

 

Antígona, 2024. Tradução de Luís Leitão
Os anos 80 significaram, em quase todo o mundo ocidental, o início de uma época em que o capitalismo se chamou a si próprio de «popular». Coincidiu essencialmente com os governos de Reagan e Thatcher em que se observou o desmantelamento das instituições públicas e da indústria, entre outras. O liberalismo em roda livre e sem freio pelas oposições tradicionais fizeram com que desaparecesse uma classe operária envelhecida, mas com um espírito vivo de antagonismo social contra a burguesia. Tudo estava à venda, quer na bolsa, quer na vida quotidiana e nos espaços públicos. Assim foi em França no tempo de Miterrand, um socialista também ele influenciado pelas virtudes liberais, particularmente na Bretanha, onde as antigas relações sociais de anos a fio, foram substituídas por vínculos onde ganhava a avidez e o lucro. Esta história passa-se numa pequena localidade piscatória onde existiu um antigo arsenal desactivado e onde os desempregados, recentemente indemnizados, serviram de bóias de salvação para «empresários» sem escrúpulos que os exploraram e seduziram com investimentos turísticos. Investimentos esses que lhes dariam lucros fabulosos e que foram respaldados por instituições políticas locais. A narrativa passa-se num tribunal e o modo de apresentá-la surgiu pela pena extremamente lúcida e verosímil na personagem principal a que Tanguy Viel deu forma. Nada que o nosso país não conheça ou que ainda conhece. A especulação imobiliária não tem fronteiras e as consequências na vida das pessoas que se deixam levar pelo canto das sereias do lucro fácil são, na sua maior parte, destruidoras de uma coesão social que ainda possa existir nas pequenas comunidades. É este estado de coisas, descrito na vida de um ex-operário bretão, que este livro tão bem nos conta.

alc