quarta-feira, novembro 15, 2006

Este sábado, dia 18/11, pelas 18:30h, na FNAC do Chiado, Nuno Júdice apresenta o último livro de Filipa Leal - A Cidade Líquida e Outras Texturas


A 28 de Outubro, no Clube Literário do Porto, A Cidade Líquida e Outras Texturas da Filipa Leal, teve o encontro esperado com os seus primeiros leitores. Nessa ocasião e numa tão arrebatada como sincera alocução de apresentação da autora, João Gesta, nome já incontornável da cultura que teima em subsistir, apesar de tudo, naquela cidade, disse dela:

«… a Filipa ousou e venceu. Exigiu tudo à Poesia. Encostou uma estrofe à garganta da Poesia e a Poesia rendida, já lhe deu praticamente tudo: em quatro anos ao leme do Suplemento “Das Artes, das Letras” de O Primeiro de Janeiro, caneta à altura dos rins, tornou-se numa das mais conceituadas jornalistas culturais da cidade. Recordo e recomendo-lhes as notáveis entrevistas que fez a António Ramos Rosa, Agustina, Adélia Prado, Nuno Júdice, José Luís Peixoto, só para mencionar algumas (…). Pela voz da Filipa passam, todos os anos, alguns dos momentos mais belos da Poesia portuguesa. Com efeito, em dezenas de recitais já efectuados, a Filipa dá voz a alma e corpo aos nossos poetas, à nossa língua.»

João Gesta falava, evidentemente, das Quintas da Leitura que, no Teatro do Campo Alegre, se vão tornando numa referência importantíssima na poesia. Este A Cidade Líquida é o seu terceiro livro e que é acompanhado muito bem pela Mafalda Capela que lhe empresta a fotografia e pela capa de Gémeo Luís. Depois de “Lua Polaroid”, seguiu-se “Talvez os Lírios Compreendam” (destaque-se o excelente prefácio de António Mega Ferreira que aí então assinou) e agora este livro que, de um modo completamente parcial, afirmo, irradia luz e uma beleza muito próprias. Não me canso de o dizer.

Quando a Filipa me disse que gostaria de ter Nuno Júdice ao seu lado, aqui em Lisboa, sobressaltei-me. Este poeta pertence-nos, já. E a mim, em particular, foi crucial numa fase muito particular da minha vida. E não foi sem alguma perplexidade que voltei aos meus livros de Nuno Júdice (reparem na possessão quando falo dos meus livros de Nuno Júdice!) para estabelecer conexões e acasos de que a Poesia é fértil em surpreender-nos. Assim, reli, com evidente prazer, a «Crítica Doméstica dos Paralelepípedos», «As Inumeráveis Águas», «Nos Braços da Exígua Luz», «Antero – Vila do Conde», «A Partilha dos Mitos» e o mais recente «A Fonte da Vida». O sobressalto veio, contudo, com um livro editado em 1972, comprado antes de uma viagem de comboio de Coimbra para Tomar (lembro-me como se fosse hoje) que é a «Noção de Poema» e se não me engano o seu primeiro livro de poesia, editado pela saudosa pequena colecção da D. Quixote. Cito Nuno Júdice:

«Eu invento uma poesia que as máquinas poderiam fazer. Baseio-me no princípio de que o sentimento é uma forma gasta de composição. Cada uma das minhas palavras é um processo formal. Nada é gratuito e descurado e eu próprio, ao incluir-me por vontade expressa no poema, me desumanizo e reencarno no rito purificador da emergência lógica. Não encontrarão em mim meditações lúcidas ou juízos coerentes – apenas figuras contraditórias que o raciocínio sintetizou de ambientes irreais e desesperados (…).»

Nuno Júdice escreveu isto, tinha 23 anos. Com 24, a Filipa, em «Talvez os Lírios Compreendam» escreveu num “Prefácio a qualquer um dos meus livros”:

«Sou hoje algo mais do que pânico. Desmascarei o cobarde medo de estar viva. Hoje diverte-me a imortalidade ingénua dos destemidos. Às vezes, escorre o desânimo dentro e fora do meu corpo – nas insónias lentas. Mas o que há de vulgar na imortalidade secreta das palavras é a íntima nudez, que não persiste para além das páginas. Resta-nos o cobarde medo de nos despirmos, devagar. E o milagre da escrita.»

Ora, parece-me que este aparente desespero que provoca a poesia da Filipa numa espécie de inumanidade luminosa e errática já detectada em A Cidade Líquida e Outras Texturas e gravada na contracapa do livro será igualmente a «desumanização» de que falava Nuno Júdice em «Noção de Poema» que levará, paradoxalmente, e na minha perspectiva, aos “ritos purificadores da emergência lógica”, ou seja, ao estado poético, à idade do Homem.
ALC

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