quarta-feira, agosto 28, 2024

«O Passo da Floresta», de Ernst Jünger

 

BCF Editores, 2021. Tradução de Maria Filomena Molder. Capa de Ana Jotta. Não segue o AO90
Uma edição de 1995 da Cotovia, traduzida por Maria Filomena Molder, já tinha sido colocada nas livrarias. Pelo que entendi, esta é uma excelente nova versão. 
Não conheço suficientemente a obra de Ernst Jünger ao ponto de me alongar muito em qualquer tentativa de interpretar a sua filosofia como um todo. Fico-me por este livro, lembrando-me vagamente que desde há uns anos ter lido apressadamente «Eumeswil», editado pela Ulisseia em 1977 e «Chasses Subtiles», da Christian Bourgois, editado igualmente nesse mesmo ano. Não li ainda «Tempestades de Aço» sobre a sua experiência nas guerras. Ainda os mantenho, apesar das vicissitudes várias da vida dos livros que teimam em acompanhar-me. Sinceramente, nem sei explicar bem por que razão este autor vive comigo há tanto tempo, sendo ele um conservador assumido. Mas não é só por isso que o tenho e o leio de quando em vez, visto que é necessário conhecer o que pensam os conservadores de várias matizes e qual a acção concreta que os faz mover. Vamos a factos: o que me afasta dele é o militarismo e o nacionalismo latente nos seus escritos, mesmo que se esforce em recusar qualquer laivo racista. Sendo difícil esta posição assumida, não é de todo impossível de a concretizar. O que me leva a lê-lo é a sua iconoclastia: amante da natureza, de Nietzsche (do verdadeiro, do que entende que o Super-Homem é o escravizado e que a sua luta constante é o dia em que se libertará), do seu ateísmo e niilismo e, igualmente o facto de duvidar tanto da Humanidade, como da democracia burguesa que, a ser concretizada totalmente, levará inevitavelmente à ditadura baseada, contudo, em eleições. Sendo este livro escrito em 1951, não nos será muito difícil, hoje em dia, concordar com ele; infelizmente, temos conhecimento real do crescimento contínuo do aparecimento de democracias «iliberais» (eufemismo para o fascismo) pelo mundo fora. Afirma neste «O Passo da Floresta» que a um ditador não lhe convém um resultado eleitoral de 100% porque lhe retiraria toda e qualquer hipótese numa existência de oposição; assim, será avisado que se mantenha 2% de votos ou vontades que se oporão à sua governança, nem que sejam teleguiadas pelos estados. 98% seria o ideal, portanto! Essa percentagem residual manteria a possibilidade infinita de um exercício totalitário de sucesso. O que não impediria, simultaneamente, de um «desterrado», uma das «figuras» tratadas posteriormente por Jünger tal como a de «trabalhador», um opositor consciente, em accionar todo um tipo de momentos políticos que levassem ao desgaste do poder totalitário, votasse ou não, participasse ou não nas eleições «democráticas». Não é por acaso que hoje vemos a banalização do acto democrático por Estados que ou não seguem as suas próprias constituições e abastardam os resultados eleitorais ou cometem fraudes cada vez mais frequentes legitimadas por uma nova necessidade de um estado de excepção. Um Carl Schmitt assinaria por baixo, tal como este novo Leviatã protagonizado por Jünger. Exemplos não faltam nos dias que nos passam pelos nossos olhos: Trump, com o assalto ao Capitólio, Macron que não reconhece os ganhos da esquerda nas urnas, Putin, Maduro... De qualquer maneira, Ernst Jünger avisa-nos que o passo da floresta pode ser tanto a liberdade-refúgio para nós próprios como para o outro reconhecível e essencial para uma sociedade livre. Mas, para além desse ethos social, pode ser igualmente o nosso retiro antes da morte, um sentimento de alguma coisa já feita, realizada. Uma necessidade de partir, sem medo de tomar a liberdade em mãos. É um livro vagamente orientalista, mas com uma grande ânsia de liberdade que a Alemanha pouco lhe deu e que a Europa e o Ocidente não cumpriram de todo, restando somente a rebelião como última arma. A única racional, já que o Iluminismo falhou em todo o século XX que ele conheceu bem. Infelizmente, bem demais.

Ernst Jünger morre aos 102 anos, em 1998. Lutou na I Guerra Mundial (antes dela já lutava em África pela Legião Estrangeira, com apenas 15 anos, tendo sido resgatado pelo pai!) e foi ferido sete vezes, tendo recebido os acostumados louvores chauvinistas alemães. Pertenceu a unidades de choque que, pela calada da noite, atacavam as trincheiras inimigas e degolavam as sentinelas com as baionetas. O que não o impediu de amar os insectos, os animais e as plantas ao ser um entomologista, zoólogo e botânico de renome. Perante isto, só me resta desejar que nenhum filósofo tenha responsabilidades governamentais ou desenhe o destino de um país e de um povo! Era, igualmente, um pesquisador sensorial e um opiómano, embriagando-se e experimentando todas as drogas que lhe vinham às mãos, escrevendo num estado de êxtase, o que lhe vinha à cabeça. Muitos dos seus melhores livros estão aí para o provar. Militar exemplar para os cânones habituais das casernas, claro que nos anos 20 e 30, Hitler e os seus meninos de coro andaram-lhe a arrastar a asa, mas Jünger renegou sempre o nazismo, talvez pela sua origem aristocrata, e a partir de 1943 chega a ser vigiado pela Gestapo. O exército, que ele tanto amou, mata-lhe um filho em Itália, obrigando-o a uma missão suicida num batalhão disciplinar e, claramente, por motivos políticos. Deixo-vos com um trecho deste «O Passo da Floresta» sobre a liberdade:

«O verdadeiro problema reside, antes, no facto de uma grande maioria 'não' querer a liberdade, no facto de até ter medo dela. É preciso 'ser' livre, para chegar a ser livre, porque liberdade é existência - é, sobretudo, o sentimento harmónico da existência e o prazer, sentido como destino, em a realizar. É, então, que o ser humano é livre, e o mundo cheio de coacção e de meios de coacção tem de servir, daqui em diante, para tornar visível a liberdade em todo o seu esplendor, do mesmo modo que as massas da pedra primitiva, pela pressão que exercem, fazem germinar cristais.
A nova liberdade é velha, é liberdade absoluta na roupagem da época; pois, conduzir uma vez mais, apesar de todas as astúcias do espírito do tempo, ao triunfo da liberdade: eis o sentido do mundo histórico.» (pág.119)

«O Passo da Floresta» deve ler-se com os olhos de hoje; não perderão nada porque a sua actualidade é impossível de esconder. Pelo medo que as grandes massas mostram ter por essa liberdade posta em causa cada vez mais por pequenos führers que se vão apresentando aqui e ali nas ruínas de uma sociedade verdadeiramente doente em que a guerra permanente, a anomia, a violência destrutiva e a ignorância surgem como um vórtice que nos arrasta para um fim anunciado. Ler Jünger talvez nos aplaque a vontade de mergulhar nesse vórtice. 

alc

domingo, agosto 25, 2024

«Ruínas, ruínas e ruínas. Como vos amamos tanto!»

 

Ruínas do Hotel Universal nas termas das Pedras Salgadas
Ruínas do Sanatório do Caramulo
Tenho por mim a dar-me melhor com o campo. Substituí as praias já há tempos e a última vez que estive numa, ou seja, este mês durante quatro dias, apanhei um escaldão nos pés, palmas incluídas o que para além de incapacitante é de uma grande estupidez que assumo publicamente. A humanidade trata mal o planeta, recebe a resposta certeira nas plantas dos pés. Há quem se esqueça de pôr protector solar nas orelhas, mas quem o espalharia na sola dos pés? 

Há três anos escrevi que gosto da decadência dos hotéis que já foram ricos e cheios de charme. Hoje o capital que, em Portugal, não chega a nada acumular, não tem tempo, paciência ou dinheiro para os reconstruir. Deixa-os fenecer e, ao lado, sem pudor ou respeito algum, trata de construir novos hotéis que de charme só têm o nome. Como não há licença para destruir as suas ruínas, às dezenas, na chamada Rota das Termas (falo do que vi: Pedras Salgadas, Vidago, Carvalhelhos e Chaves), constroem edifícios horríveis, modernaços e baratos, à Siza ou à Souto Moura, junto a rotundas onde se erigiu uma enorme torneira em mármore jorrando água - uma homenagem às termas, pois claro! Mas o Caramulo, a que vou todos os anos, não fica atrás em miséria e desleixo. Procuro-o por motivos óbvios a que já aludi desde que me divorciei das praias: a procura incessante e obscura da minha alma na decadência dos povos peninsulares retratados nos seus antigos hotéis ainda de pé e, concomitantemente, tratar do meu aparelho digestivo. São razões de peso. Por outro lado, ainda posso ler qualquer coisa ou ouvir a minha música nos phones, sem ser ensurdecido por música aos berros pelas colunas de praia. A comida nos restaurantes das vilas termais tem qualquer coisa de contraditório: após a ida a banhos refastelados em águas límpidas com jactos retemperadores, aos copos de água mineral emborcados com ou sem gás, a ida à sauna onde, cautelosamente, não se pode permanecer mais dos que 20 minutos (eu adormeci numa e sem relógio!), temos de almoçar perante um menu invariavelmente pantagruélico: posta mirandesa de 300 gramas, bacalhau com broa acompanhado com batatas em azeite quente, vitela assada cuja dose dá para uma família inteira, polvo à lagareiro e isto só para falar nos pratos mais levezinhos, não é? E escuso de falar do vinho servido. Quando dizemos, humildes e cautos, que só queremos um copinho, o empregado (geralmente um miúdo da escola profissional de turismo da região) olha para nós com um desdém que até mete impressão. Obriga-nos, quase (quase!) sem querer, ao estribilho comum neste sítios de perdição: «Pronto, deixa a garrafa!». 

Voltemos às ruínas: se disse atrás que hotéis abandonados eram às dezenas em termas, alguns com traças arquitectónicas que um país a sério nunca deixaria de as recuperar vemos, agora às centenas, pensões e residenciais igualmente abandonadas e sem nenhuma intervenção pública ou privada. É impressionante. Algumas situam-se nos centros das vilas e, para além da hilariante arte rotundal dos municípios, encontramos «soluções» que são pior que o deus me livre: tentando imitar o Vhils pintam nas fachadas dos edifícios em ruínas, e sob fundo pintado de branco, a cara do Saramago, da Amália, do Camilo ou do Eça que, ainda por cima, o vão colocar no Panteão, por viva força de um sobrinho-bisneto-autor e que é uma verdadeira bosta como escritor. Um optimista diria que estas ruínas assim «intervencionadas» sempre são solução melhor com aquelas personagens do que, imaginemos, um Valter Hugo Mãe ou um Pedro Chagas Freitas. Um pessimista, conhecedor do país que temos, contraporá: «Deem-lhes tempo!».

E o tempo trata melhor as suas ruínas que os homens e mulheres deste país. Há sempre uma grande altivez num hotel abandonado ou em decadência de ano para ano. Pessoalmente, dou-me bem com esta.

alc 

sábado, agosto 24, 2024

«A Malnascida», Beatrice Salvioni

 

Alfaguara, Outubro de 2023. Tradução de Ana Cláudia Santos
Malnascido por malnascida, haja quem, e o resultado é o mesmo: leitura obrigatória de uma nova escritora italiana e, para mal de alguns críticos lusos, a onda Elena Ferrante (e talvez a de Roberto Saviano) terá muito a ver com o sucesso momentâneo deste «A Malnascida». Os factos aí estão: Beatrice Salvioni, de 28 anos, edita o seu primeiro livro e repentinamente é um best-seller traduzido em 32 línguas. Atenção que não estou a afirmar que estamos perante um mau livro, nada disso. Embora alguns diálogos pudessem ter sido trabalhados mais um pouco (alguns encontram-se nos mesmos patamares de uma Enid Blyton ou de um Mário Cláudio, e isto não é um elogio. Este último estará bem perto do rés do chão!).

A ideia do romance não sendo uma coisa nova, lê-se bem e a época está bem retratada ao pormenor o que lhe dá verosimilhança e seriedade básica para uma leitura que se quer honesta. Se assim é, reconhece-se, igualmente, trabalho e honestidade à jovem autora. As personagens são descritas psicologicamente de um modo eficaz e não se deixam contradizer à medida que a narrativa se desenvolve para situações-limite. 

O fascismo italiano está presente e sente-se o medo inerente a um estado de coisas que vive essencialmente dele. Mas esse medo não é só político. E aqui reside um certo interesse pelo livro e pela sua personagem principal, Francesca. O medo é real, nascido pelas regras duras de uma família da média burguesia que vê com maus olhos a relação cada vez mais estreita com Maddalena, uma jovem pobre e rebelde, incontrolável, livre, numa sociedade que já não o é há muito e assente no totalitarismo edificado pelo Duce. O antifascismo confunde-se com a necessidade de liberdade, da rejeição da guerra (no caso, da Etiópia) e o medo é mais pessoal que social. Principalmente, a ultrapassagem individual do medo. o medo adolescente de que todos nos lembramos em todas e quaisquer frentes, e é aqui que reside o mote principal deste livro. Beatrice Salvioni guarda aqui uma vitória singular porque nos faz recordar o crescimento da juventude que cada um de nós partilha ou que guarda dentro de si. A transgressão por uma educação violenta, seja no desígnio e construção artificial do género, seja pelas imposições religiosas ou sociais alicerçadas em dogmas falsos.

A tradução de Ana Cláudia Santos é impecável e atenta. Parece-me, até, que evitou males maiores nos tais diálogos que referi antes.

alc

quarta-feira, agosto 14, 2024

«Breves Notas sobre Literatura-Bloom», Gonçalo M. Tavares

Relógio D'Água, Maio de 2018, Posfácio de Borja Bagunyà
Gonçalo M. Tavares invectiva-nos sempre. Sejamos nós leitores-Bloom, ou não. Espero sê-lo, porque segundo a síntese elaborada em forma de «dicionário literário», o que é, em si, uma eventual ou aparente contradição segundo a definição do próprio: «Toda a literatura-Bloom é feita contra os dicionários. É um combate entre a fixação e o empurrão (a des-fixação). Tudo o que é fixo é inútil; tudo o que é só é assim, é inútil. Tudo o que interessa à literatura-Bloom é tudo o que é assim,  mas poderá ainda ser de outra maneira. (...)» (pág.27). E atenção aos leitores-Bloom: o conceito de contradição não é o mesmo a que vulgarmente chamamos «contradição»: «Contradições - Não! Ou seja: claro que sim.» (pág.23). É isto que forma um jogo de interminável inteligência com o escritor-Bloom, neste caso, de Gonçalo M. Tavares.

Na letra A, escolho «Abstracto» - «Toda a literatura é abstracta, concretas são as pedras. Não aceitar isto é aceitar a literatura como copiadora do concreto, como uma segunda mesa, ou uma segunda casa. (...) A literatura não é uma cópia dos objectos do mundo: a casa não é casa, e a mesa não é mesa. A literatura tem objectos próprios, completamente distintos dos que existem na vida dos vivos.
Não confundas um escritor com um arrumador de mobílias.» (pág.13)

Continuo na letra A e páro em «Adiposidade» - Há frases adiposas, frases com barriga.
Todo o adjectivo é uma ameaça adiposa sobre a frase. (...)» (pág.15)

Em B, fixo «Bloom» - Nome universal, aplicável a qualquer coisa ou acontecimento. Cadeira-Bloom, livro-Bloom, morte-Bloom, namoro-Bloom. E etc.-Bloom.» (pág.20)

Na entrada D, escolho um trecho de «Diluição» - (...) O método-Bloom tem por base a alteração constante de processos; mas a diluição ser uma alínea dessa mudança não é o mesmo que a mudança ser uma alínea da diluição. (...) O óbvio: se despejares água sobre um texto, estragarás o texto.» (pág.28)

Também em «Direito» podemos ler: «(...) Se os dois lados de uma frase são fixos, isso significa que a frase é sempre recebida a partir do mesmo ponto de vista. Neste caso: ou o leitor é imbecil ou a frase é imbecil.» (pág.29)

Em «Geografia» lê-se: «A localização geográfica é um erro literário. Cada personagem age ou fica quieta, e basta. Nomes de cidades, nomes de países, de bairros, de casas, de pessoas, todos os nomes localizados são desnecessários. O texto literário não está perdido, mas também não está localizado. (...) A única geografia da literatura é a frase.» (pág.39)

Em «Menu», encontramos algumas fórmulas-Bloom (invenção minha): «Um texto-Bloom pode começar a ser lido a partir da página 60, 342 ou 18. Um texto-Bloom pode até começar a ser lido na página 1. (...) As frases cujo valor individual é dependente das 65 743 frases anteriores são frases que não têm valor individual.                                 
Uma frase é como um organismo: existe no mundo ao lado das outras; Mas existe só e morrerá só. (...)
Cada frase deve agir no texto como se o leitor fosse morrer no instante seguinte. Diz rapidamente o que tens a dizer: é isto que o escritor-Bloom pede a cada frase.» (pág.56)

«Patologia» - «(...) Texto estável é texto doente.
Na literatura, a patologia é o tédio e a saúde é a alteração constante dos sintomas da frase. (...) Só uma saúde instável é capaz de exigir a vigorosa caminhada do texto.» (pág.63)

Em «Sacrilégio» pode ler-se, sem cortes (fragmentos-Bloom?, digo eu): «A evidência de frases sucessivas. A beleza onde não existe a mancha. A mancha onde não existe a breve beleza. A frase que pareça terminar.» (pág.68)

É evidente que não poderia faltar neste livro a entrada relativa à «Técnica», tema caro a Gonçalo M. Tavares e que reproduzo aqui uma parte: «(...) A técnica é ter consciência do espontâneo. (...) Toda a frase que resulta de uma batalha, mesmo que breve, é mais forte do que a frase que resulta de um contrato. 
Deverás usar as técnicas que te tornam imperfeito, isto é: que te fazem procurar outras perfeições.
Todo o imperfeito é um início.» (pág.76)

alc

«Stupeur et Tremblements», Amélie Nothomb

 

Amélie Nothomb. (1966). Foto da editora Anagrama
Completamente desconcertante e de uma ironia ímpar, esta escritora belga a viver em Kobe, no Japão onde nasceu, é igualmente prolixa. Quase um livro por ano, desde 1990. Li agora este «Stupeur e Tremblements» guardado há muito na estante, porque entretanto me debrucei sobre outros dela. Tenho-a seguido regularmente e a sua escrita prova que a sua qualidade literária não é incompatível com o riso. Devo dizer-vos, contudo, que o li em francês. Desconhecia que tivesse tradução portuguesa mas, sim, tinha: foi a Asa que lhe deu o título «Temor e Tremor» com a informação adicional que está esgotado; também no Brasil foi publicado, pela Record como «Medo e Submissão». Já o filme de Alain Corneau, em 2016, apresentou o título de «Medo e Tremor»! Visto isto, espero que quem me leia me perdoe eu ter optado pela edição francesa, duvidando mesmo que alguma vez conseguisse a sua edição esgotada na língua nossa. Acresce que Amélie Nothomb, no próprio livro, expõe a razão do título: é que o «stupeur e tremblements» faria parte do protocolo aos visitantes físicos do imperador japonês. Era deste modo, humilhante e vexatório, que se obrigavam os nipónicos a curvarem-se sob a presença imperial. Por isso, não entendo por que razão não se escolheu o título tão português de «Estupor e Tremor». Bastava o dicionário e a própria ironia das palavras e os subentendidos que provocavam.

A narrativa é delirante. Amélie Nothomb, como já se disse, conhece bem o Japão, tendo nascido em Tóquio e vivendo neste momento em Kobe. Sendo belga não deixa por isso de olhar para o Japão com os olhos tão críticos, como legítimos, para a vida no país do Sol Nascente. Seja ela a vida «pessoal», individual de cada japonês ou japonesa, e aqui a condição feminina não é ignorada, como a empresarial - chega a dizer que a existência dos japoneses é vivida para a ideia de empresa - que é descrita de modo magistral por Amélie Nothomb quando trabalhou sete meses na multinacional Yunimoto. Amélie-san é uma subordinada que não tem ninguém para mandar. Acima dela há toda uma hierarquia de autoridade cuja acção é tão completamente kafkiana, como verosímil. “O Sr. Haneda era o superior do Sr. Omochi, que era o superior do Sr. Saito, que era o superior da Srta. Mori, que era minha superiora. E eu não era superior de ninguém.” Conhecendo nós como trabalham as multinacionais, sejam elas japonesas ou não, temos a certeza que tudo aquilo que lemos, com um sorriso nos lábios ou mesmo com riso desbragado, é replicado por todas as pequeninas empresas, imitando os grandes Ceo's e ajustando o que aprenderam nas praxes universitárias para com os colaboradores subordinados, porque isso de trabalhadores já nada tem a ver com as novas e perecíveis startups

Se puderem não percam este livro, ou filme, ou ainda na versão esgotada do português de cá (cuidado com o olx e com o marketplace, optem sempre pelos alfarrabistas) ou do outro lado do Atlântico (tendo atenção ao valor dos reais e às taxas de encomendas).

Albin Michel, Livre de Poche, 1999
alc

sábado, agosto 10, 2024

«Le Murmure», Christian Bobin

 

Éditions Gallimard, 2024
Trata-se do último livro de Christian Bobin antes de falecer, em Novembro de 2022, no Hospital de Chalon-sur-Saône, após doença prolongada. A sua obra é muito extensa mas, do que li dele acho-a muito interessante. Volto a ele, muitas vezes. Quando comprei «Le Murmure», na Payot de Lausanne, nem sequer sabia que ele tinha morrido. Foi o livro que mo revelou, porque o autor avisou ao que ia. Penso que esta edição foi póstuma. De qualquer modo não transparece nela laivos de angústia, medo ou inquietude. Provavelmente, a paz que precede a morte num católico como Christian Bobin. Afirma o seu apego à natureza, às árvores, às nuvens e aos pássaros; aos seus cantos, e principalmente ao silêncio absoluto como forma de atingir um estado-outro, num mundo que já se identifica muito pouco com o pensamento ou com a introspecção. Por coincidência, o mesmo mote que Pascal Quignard deu no seu «L'Homme aux trois Lettres». Durante a sua leitura vi-me obrigado a procurar, na net, o piano de Sokolov interpretando Mozart, Chopin e Bach, várias vezes referido por Bobin, aqui não escondendo já alguma saudade, pela impossibilidade de ir vê-lo num concerto. Ouvi-o enquanto caminhava. Nas suas páginas iniciais, confessa-nos um pedido: «Se este livro deverá ser o último, então é necessário que ele seja o mais jovem de todos os que escrevi.» Talvez o tenha conseguido.

«Espero diante de uma mesa vazia. Sonhar é estar em silêncio. Este sulco de silêncio nos meus lábios é a minha grande viagem. É necessário que em cada momento use e esgote tudo o que possuo para voltar a ser novo. A cada momento. Escrevo para me juntar a vós, meus irmãos e irmãs do mundo analfabeto do sonho, de um sonho que deve tudo ao Monte Branco do coração, pico mais alto das nossas vidas.» (pág.18). Tradução livre.

Deixa-nos igualmente um aviso de amigo:
«Os falsários da poesia são os tolos da escrita. São os nossos piores inimigos. E não falo dos maus poetas. Não: falo daqueles que se apropriam do poeta para melhor servir o mundo. Esta época multiplica-os.» (pág.26)

«O silêncio da noite era tão puro que acordei para o compreender.» (pág.79)

«A poesia não suporta a menor injustiça. Não publiquem mais, interditem e sancionem todo o pensamento pessoal, não impedirão nunca novas catacumbas, refúgios de almas simples e puras, de serem mais iluminadas que o mais rico dos palácios.» (pág.105)

«Encontrem-me algo de mais belo que a escrita, cambada de cães!» (pág.105)

alc

«L´Homme aux trois Lettres», Pascal Quignard

 

Éditios Grasset, col. Folio,Gallimard, 2020.
É um verdadeiro hino à leitura e à escrita. Talvez superior, pela emoção e verdade colocadas em cada palavra, aos variados artigos que Pascal Quignard tem editado sobre literatura. Alguém que se dedique à leitura, fazendo dela uma espécie de remissão do mundo, tentando encontrar algo de novo por dentro das ruínas que nos envolvem, entre elas as línguas, as próprias palavras e as letras, fazendo do silêncio uma premissa para todo o acto de leitura, encontrará neste livro um acompanhante sincero, quase absoluto, um cúmplice atento à vida que levamos. E a vida que levamos é cada vez mais absorvida pelo ruído, pelas poucas palavras sempre repetidas em cada acção, sempre iguais. Pior do que tudo isso é a anulação do étimo das palavras. A eliminação pensada pelo poder das suas raízes. A convocação da ignorância.

Voltemos ao livro e deparamo-nos agora com o espanto e a maravilha das palavras e das letras: comecemos pela palavra «literatura». Não traduzo este trecho de Pascal Quignard para garantir-vos o seu sentido exacto: «Le mot littérature est sans origine. J'aurais consacré ma vie à une proie insaisissable. Dont le nom n'avait aucun sens. Ni usage, ni fonction, ni dessein, ni origine, ni but». Admira-me sobretudo o dessein, o «desígnio» que, segundo Jean-Luc Nancy já aqui falado no seu «O Prazer do Desenho», descreve-o como sendo a origem da palavra «desenho». A literatura, voltando a Quignard, não tem objectivo, não tem obrigações, não constitui um desígnio. Óptimo. Estará então livre de qualquer compromisso que lhe queiram impor. 

Sublinhei o livro quase todo o que significa, dizem os entendidos do sublinhado, que não marquei nada, por exagero. Discordo. No meu caso identifiquei-me de tal modo com «L´Homme aux trois lettres» que o roubei na sua totalidade e dividi-o em fragmentos, tal como prevê a narrativa vária de Quignard. Podia aqui colocar alguns deles. Fico-me, contudo, pelo seu início tentando traduzi-lo para vós. Talvez o seu trecho mais forte, o que é subjectivo, bem o sabemos:

«Amo os livros. Amo o seu mundo. Amo estar na nuvem que cada um forma, que se eleva, que se alonga. Amo continuar a leitura. Entusiasma-me reencontrar a sua leveza e volume na palma da mão. Gosto de envelhecer no seu silêncio, na longa frase que passa sob os olhos. É uma margem avassaladora, afastada do mundo, que ignora o mundo, mas que não intervém nele de modo algum. É um canto solitário que só aquele que lê, compreende. A ausência de qualquer som externo, a ausência total de alvoroço, de gemidos, de apupos, o máximo afastamento da vocalização e da massa humana que só os livros permitem, trazem de volta uma música profunda que começou antes de o mundo aparecer. A verdadeira música pode ser a retransmitida quando é escrita. Amo litteras. Amo as letras. Música silenciosa de estilos dos escritores que preferimos: são, como tantas, nuas, avassaladoras, particulares, íntimas, tocantes, incomparáveis.» (pág.9/10)

«O livro abre-se.
Ler amplia a passagem para a vida, a passagem por onde a vida passa, a luz brusca que nasce com o parto.
Ler descobre a natureza, explora, faz surgir a experiência na palidez do ar, como se se nascesse.» (pág.11)

terça-feira, julho 30, 2024

«A Guerra dos Pobres», Éric Vuillard

 

D. Quixote, 2020. Tradução de João Carlos Alvim. De acordo com o AO90.
Em 72 páginas, o escritor francês Éric Vuillard, também autor de «Ordem do Dia», levou a cabo um exercício de síntese extremamente difícil em literatura. Em pouquíssimas palavras, todas elas tão contidas quanto certas, num jeito confessional para com o leitor, dá-nos uma perspectiva entusiástica da vida de Thomas Müntzer que levou a cabo nos anos vinte do século XVI uma revolta milenarista, de carácter religioso e social contra a igreja e a nobreza alemã.

A acção, muito complexa de analisar ainda hoje e alvo de vários estudos históricos, de Thomas Müntzer e da revolta camponesa e operária, acantonada nos núcleos urbanos juntamente com os artesãos, tem, contudo, antecedentes na Europa Central. Estamos a falar do checo Jan Huss (no livro a grafia que aparece é Hus), do inglês John Wyclif e dos seus lollardos que puseram a Inglaterra a ferro e fogo, de John Ball e de Wat Tyler seus continuadores nas revoltas onde decapitaram nobres e funcionários do rei, incendiaram castelos, propagandearam as suas teorias de uma era de ouro, mel e igualdade, usando a palavra de Cristo através dos evangelhos entretanto traduzidos para a língua comum. Não obedeciam às regras do clero, não pagavam os dízimos, assassinavam padres e nobres, saqueavam castelos como já se disse e não pagavam os arrendamentos das terras. Almejava-se uma igualdade social, baseado nas metáforas e palavras mais ou menos claras de Cristo contra a riqueza e o luxo. Acresce-se, em jeito de final de história (ironia minha, porque a vontade de igualdade social esteve e estará sempre presente nas lutas sociais) que todos foram mortos com extrema violência seja através do enforcamento, esquartejamento, decapitação, queima, tortura, etc, tudo o que a imaginação tétrica dos possidentes pode atingir. Embora a violência das massas populares  entregues a si próprias não fosse propriamente de anjinhos, fossem eles católicos ou protestantes. Aliás, Lutero, opôs-se violentamente contra a ordem revolucionária camponesa nos territórios ocupados pelos sediciosos. Não fosse a «sua» igreja ficar sem benesses...

Müntzer, diz-nos Éric Vuillard, assistiu à execução do pai, seu homónimo. O escritor define-o como colérico, iroso. Tem a palavra de deus e isso basta-lhe como programa que sintetiza no seu «Manifesto de Praga», embora recusando qualquer discussão estéril com o clero. O termo utilizado para esta recusa é «repugnância». A partir daqui é com um grande entusiasmo que continuamos a leitura querendo sempre chegar ao clímax da história, sabendo de antemão que o final de Thomas Müntzer estará traçado desde início. Pouco importa. Quando se escreve bem, vale sempre a pena continuar até porque somos brindados com alguns pormenores impossíveis de saber em livros académicos. É curiosos que a proximidade do Verão, abre quase sempre as portas às revoltas e revoluções. Claro que há excepções (Novembro de 1917, por exemplo), mas não sei se foi por esse facto que Vuillard nos apresenta o capítulo «O Verão Bate às Nossas Portas»:

«''Mund é a boca de Zerstörung, a destruição''. De forma que é possível detectar, em Thomas Müntzer, uma afinidade prodigiosa entre a palavra e a negação. Decerto, pode ver-se em Müntzer um desses idealistas apaixonados de que a medicina troça, podem colocar-se no divã Rousseau, Tolstoi, Lenine, e forçá-los a dizer o que quer que seja. Pode ver-se em todas as revoltas e em todos os fervores uma dor pessoal transfigurada; e então? (...)
Sim, Müntzer é violento, sim, Müntzer delira. Convoca o Reino de Deus aqui e agora, há nele um excesso de impaciência. Os exasperados são assim, irrompem um belo dia da cabeça dos povos, como fantasmas saem das paredes.» (pags. 45, 46)

A história de Thomas Müntzer termina na Batalha de Frankenhausen, se «batalha» se pode chamar a um massacre de dezenas de milhares de desvalidos miseráveis e cuja repressão brutal posterior do exército do rei e dos nobres levou dois meses a acabar. É assim que Éric Vuillard inicia o capítulo correspondente:
«E assim, dos quatros cantos do Império, surgiram hordas de miseráveis. Müntzer cantava, a multidão acorria. O landgrave de Hesse nem queria acreditar nos seus olhos. Em seguida, foram os operários das cidades, os loucos, toda a massa camponesa que bruscamente se sublevou. Houve um grande pavor entre os nobres e os burgueses. As mulheres deixavam as suas casas, as crianças caminhavam através dos campos, na esteira do Espírito Santo. As raparigas, os vagabundos, a atroz populaça, até os animais! Viu-se assim todo o género de gente, em grupos de dois ou de três, sozinha também, sem bagagem, sem nada. Não se sabia o que pretendia. Os senhores e os seus bandos armados já não ousavam fazer o que quer que fosse; viam-na passar aterrados. Um vago temor começava a nascer. Que deveria decidir-se? Nunca se tinha visto uma coisa assim. Todos largavam casas e casebres e se juntavam à errante multidão. E para onde ia toda essa gente? Ignorava-se. Temia-se até dispersá-la. Dormia nos bosques, na palha, entre sonhos.» (pág. 66)

E assim entre sonhos, a mole humana miserável que seguia Thomas Müntzer viu esfumar-se a igualdade que ansiava. Derrotada? É possível, mas ainda hoje está aí para a sua história ser contada. O milenarismo, o assalto à utopia da idade de ouro vindoura, aí está para ser lida e pensada nos dias de hoje pela mão de Éric Vuillard e de outros que não desistiram de nos lembrar, como Norman Cohn o fez no seu trabalho excepcional, de 1957, «Na Senda do Milénio - Milenaristas revolucionários e anarquistas místicos da Idade Média» que tomo a liberdade de vos apresentar como dos poucos livros de grande fôlego, talvez não ultrapassado até hoje, sobre o tema. Foi neste livro que Éric Vuillard encontrou pormenores da vida e pensamento de Thomas Müntzer que veio a ser essencial para a construção da sua pequena obra.

alc

segunda-feira, julho 29, 2024

«Temporada de Furacões», Fernanda Melchior

 

Elsinore, Penguin Random House, 2023. Trad. Cristina Rodríguez e Artur Guerra
Diz o «The Guardian» que Fernanda Melchior é uma das mais importantes vozes contemporâneas da literatura mexicana. Não o negarei. Que é «deslumbrante» já me obriga a travar nos adjectivos. Já o Wall Street Journal (ah pois!), define-o como «um compósito de raiva e de angústia inteiramente singulares». Aqui estaremos inteiramente de acordo porque a leitura desta torrente de ira, de perfídia e de ambientes soturnos nos desconchava a alma completamente. Não há volta a dar. Saímos daqui bastante mal o que, em princípio, cumpre o objectivo de qualquer história ainda por cima baseada num facto real. 

Acresce um facto que muitos de nós sentimos ao ler «Temporada de Furacões»: durante os finais dos anos 70 e inícios dos 80, uma grande fatia de leitores mais ou menos compulsivos entre os quais eu me encontrava - era no tempo em que íamos com livros para o café -, foi inundada do que se chamava então de «realismo mágico» transportado via marítima para a Europa com origem nas pampas, nos sertões e nas altas montanhas na América do Sul. Levámos shots intermináveis desse realismo mágico através de García Márquez, Juan Rulfo, Alejo Carpentier, Cortázar, Borges, o palerma do Vargas Llosa, o vaidoso do Carlos Fuentes e a lista não acabará certamente por aqui. Não que não gostássemos de os ler. Mas a verdade é que tanto realismo mágico chocava com as tristes vivências portuguesas em forma de recuperação acelerada. Que se lixe. Foi-se o realismo mágico tal como veio. Teria ficado algum resto da tal constelação mágica que sobrevoou as Américas meridionais? É possível e aí teremos Fernanda Melchior como uma feliz debutante tendo conseguido desde a sua publicação em língua inglesa vários prémios e, na nossa língua, o dos grande jogos florais das Correntes D'Escritas 2024. Fernanda Melchior tem futuro garantido. Tal como Isabel Allende que reivindica para si tal estatuto, também ela medrada com vários prémios. O filão ainda mexe, portanto.

alc

terça-feira, julho 23, 2024

«Tudo Passa», Vassili Grossman

 

D. Quixote, 2013. Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra
«Vassili Grossman é o Tolstói da URSS.» Quem o afirma é Martins Amis e logo a editora coloca na capa a frase bombástica, junto com a informação sempre oportuna que este é o autor de «Vida e Destino», uma obra inesquecível sobre a guerra de 1941 a 45 na então União Soviética e focada essencialmente no cerco a Estalinegrado pelas tropas alemãs. Li ambos os livros e fiquei-me por aqui quanto à obra deste autor. Talvez um dia volte a Grossman porque é uma referência importante e foi um repórter como possivelmente hoje não há, um jornalista que deve ser ainda um exemplo para milhares de repórteres de guerra que, infelizmente, estão em teatros de uma violência atroz sobre seres humanos. Pior é quando essa violência sem nome recai sobre civis sejam eles homens, velhos, mulheres e crianças. Vimos todos os dias pelas nossas casas dentro imagens dessas, repetidas sem fim. É evidente que Grossman não é o Tolstói da URSS, coisa nenhuma. Martin Amis e a editora quiseram assim nomeá-lo, mas estou em crer que das duas, três: ou Amis quis ironizar a obra de Grossman o que é mau, não o merecia, ou quis apoucar politicamente o estado soviético, o que é lá com ele, ou não sendo nenhuma destas hipóteses, não estava bem em si quando a proferiu e nunca leu Guerra e Paz.

Durante a leitura de «Tudo Passa» nota-se uma tentativa de romancear, através da personagem de Ivan Grigórievitch, uma situação que o escritor nunca experimentou: a de prisioneiro político do estado soviético, através das purgas de Estaline, principalmente a partir de 1953, data da morte deste e da tentativa de reabilitação de milhares de presos encarcerados durante dezenas de anos injustamente, alguns sem culpa formada e sob regimes duríssimos a nível correccional. O tema é esse. No entanto, convém dizer que Vassili Grossman nunca esteve preso, tendo sido o repórter oficial durante a II Guerra do jornal Estrela Vermelha órgão oficial do Exército Vermelho e segundo se pode constatar em «Vida e Destino» (proibido pelo KGB, em 1956) de uma coragem excepcional. Viu coisas, descritas nesse livro, que nenhum homem deveria ter visto. Ora, o exercício de Grossman em «Tudo Passa» sai infelizmente gorado, segundo a minha opinião: não está em causa a denúncia dos crimes de Estaline. Estão lá todos e inclusive a descrição minuciosa de como se faziam as denúncias, as causas de muitas dessas mesmas confissões, as gerações de comunistas, de operários  eliminados igualmente na guerra civil de 1918-20 (talvez os mais esclarecidos e que muita falta farão ao futuro governo soviético e sovietes), de social-democratas, socialistas-revolucionários, mencheviques, anarquistas e populistas de esquerda que perderam a vida. Segundo o autor, a partir de 1924, ano da morte de Lenine, e principalmente a partir de finais dos anos 20, as purgas iniciaram-se e logo em 1931 com o caso dos «médicos assassinos» atribuídos a judeus acusados de ligações aos EUA e aos imperialistas europeus, segundo as acusações. Também a morte de Kirov foi um argumento que levou à existência de um clima de perseguição aos «conspiradores» por todo o lado. Estaline vê assim, e a partir daqui, o caminho a abrir-se para a sua estratégia pessoal. Bastava para ele «arrumar» convenientemente todos os que estiveram na guerra civil entre o Exército Vermelho, liderado por Trotsky e os que, com algumas nuances, ainda eram fiéis à ideia do comunismo internacionalista, e os Brancos de Deníkin, Koltchak ou Wrangel. Quase todo o comité central bolchevique pereceu, então, às mãos de juízes alinhados com Estaline nos processos de Moscovo a partir de 1935: Bukarine, Zinoviev, Khamenev, Radek, etc...,etc..., até ao assassinato, pela GPU, de Lev Trotsky, em 1940, no México.

Onde falha então Vassili Grossman? Não é com a denúncia dos crimes de Estaline. Isso foi feito, e até descrito, num relatório «secreto» ao XX Congresso do Pcus em 1956 e até por Trotsky na sua «Revolução Traída». O que se nota em Vassili Grossman é um amargor que se sente a cada palavra escrita, em que usa e abusa do termo «liberdade» sem que lhe dê um conceito claro. Para ele, Lenine é tão culpado como Estaline e aqui comete um erro que é visível ainda nos dias de hoje e perpetrado por historiadores de extrema-direita, direita conservadora e liberais: o de confundir deliberadamente factores subjectivos com dados objectivos da História. Escrever que, pessoalmente, Lenine era uma pessoa interessante (que se mostrava bondosa e aberta a todas as opiniões) e politicamente um verdugo do pior, estendendo a estrutura do Estado para as diatribes de Estaline é um risco que retira alguma seriedade quer às causas objectivas da revolução russa, quer a qualquer análise séria sobre a edificação do estado soviético e a resistência contra a burocracia nascente que levou ao afastamento posterior quer dos camponeses, quer de largos estratos dos operários urbanos. Nota-se igualmente o horror da descrição das fomes dos camponeses na altura da colectivização dos campos por Estaline e pela nomenklatura nascente a que Vassili Grossman assistiu e há paginas que ultrapassam em muito a nossa imaginação mais escura sobre a humanidade e a possibilidade de a regenerar de todo, tarefa que, hoje, nos parece cada vez mais difícil. Mas, nem uma palavra para os êxitos relativos da NEP que Lenine apoiou e que Bukarine e Kamenev tentaram, sem êxito, seguir. Por outro lado, Grossman tem outro ponto fraco entrando por caminhos que pertencerão à psicologia e que pouco lugar terão na política, muito menos a filigrana em que assentou as variadas correntes comunistas enquanto puderam existir: Estaline era um asiático rude, brutal, dissimulado, enquanto Lenine, um estudante urbano, com laivos e conhecimento do pensamento europeu, bem-educado, mas seguindo a regra terrível de Hegel, «o objectivo não é nada, o movimento real é tudo!»

O livro apresenta estas fragilidades, é certo, mas não deixa de nos inquietar sobre a edificação de um estado totalitário que Arendt, mais tarde, veio a analisar com mais recursos.

Uma palavra para a tradução de Nina e Filipe Guerra: tudo muito bem, mas 86 notas de rodapé em 240 páginas? Algumas dessas notas dão-nos demasiados adjectivos e opiniões pessoais que os leitores dispensarão num tradutor: por exemplo, que a «Proletkult», um movimento claramente futurista dos anos 20, em que pontificaram dos melhores poetas e pintores russos (entre eles Maiakovsky), prejudicou a cultura na URSS, é para esquecer, não é?

alc

sexta-feira, julho 19, 2024

«Limpa», de Alia Trabucco Zerán

Alia Trabucco Zerán
Elsinore, 2023. Tradução de Isabel Pettermann
Já aqui falámos da jovem chilena Alia Trabucco Zerán quando lemos «A Subtração» e a força da sua narrativa. Arriscou-se bastante com este seu «Limpa». Começa por invectivar o/a leitor/a directamente, iniciando um diálogo aparentemente próximo com ele/a. Digo «aparentemente» porque esse diálogo em literatura é uma impossibilidade natural, como sabemos. Quem lê, não tem hipótese de dialogar o que quer que seja e muito menos com a autora. A literatura não é, nem poderá ser nunca, um diálogo. Era o que faltava tornar-se igualmente uma rede social. Mas não é só por causa dessa impossibilidade que se converte num monólogo por vezes arrepiante de Alia Trabucco Zerán para com quem lê «Limpa» e dirigido a nós. Há um desprezo calculado quando nos invectiva, como que a convidar-nos para que nos coloquemos no lugar dela, uma empregada subalterna numa casa da classe média de Santiago do Chile para onde Estela, a personagem principal, migra para abandonar a sua aldeia no sul pobre. Mas há outra inquietação neste livro e que constitui o segundo risco da autora: começa a narrativa com uma morte de uma criança que está sob sua protecção. Ou seja, sabemos desde início o que se vai passar através de uma narrativa curta, semeada de tensão e disrupções várias numa casa onde Estela serve durante sete longos anos. O sabermos de antemão a morte da criança não impede o crescendo de violência dentro dos limites da casa e o nosso interesse cada vez maior pela história que nos traz Alia T. Zerán. A escritora ganhou estes dois desafios e não é por acaso que a narrativa termina numa espécie de caos por que passou todo o Chile em 2021, como que a libertar-se da tensão havida durante anos e anos de liberalismo selvagem e de submissão dos mais fracos. Estela apaga-se numa dessas múltiplas revoltas de rua quando pretende voltar ao seu sul. 

Levanto um pouco o véu dando a palavra à personagem principal:
«As coisas, naquela altura, começaram a falar por mim. Não havia em cima nem em baixo. Antes nem depois. Sem palavras, o tempo fica sem começo, percebem? E é quase impossível contar o que não tem um começo. A água a ferver foi o meu relógio, o fogo foi fogo sem ter um nome e o pó continuou a delinear o contorno das coisas.
Não, não. Assim não me vão perceber. Tenho de tentar de outra forma.
Quantos mais dias passavam, mais o silêncio se afundava na minha garganta e mais palavras endureciam. Enchi-me de pensamentos e de perguntas novas. Se, por exemplo, as coisas se transformariam ao perderem os seus nomes, tal como se transformam quando os ganham. Dizer patroa, dona, dizer chefe, proprietária. Dizer empregada, babá, serviçal, criada. Ou não dizer, sabem? Isso, sem dúvida transforma as coisas.(...)» (pág.252)

alc

quinta-feira, julho 18, 2024

«Révolution», Enzo Traverso

 

La Découverte, 2022. Edição francesa. Traduzida do inglês por Damien Tissot.
Capa de Ferdinand Cazalis
Numa época de triste recuo histórico das esquerdas mundiais, nunca é demais um exercício de memória sobre as revoluções passadas. Não se pense, contudo, que este livro se baseia numa melancolia revolucionária de quem pensa que a revolução é letra morta, que numa sociedade de capitalismo de vigilância e nas tecnologias avançadas, as experiências insurreccionais (sejam elas revoltas ou motins e revoluções) estarão necessariamente votadas ao fracasso. É exactamente o contrário. Ler este livro é uma lufada de esperança para quem acredita que a vida, a verdadeira vida, residirá numa saída única da catástrofe anunciada a que o sistema de exploração sistemática dos recursos do planeta e do trabalho alienado humano nos votou. Ler este livro de Enzo Traverso é tão-só analisar, pelas suas 450 páginas que se lêem num ápice de entusiasmo, as grandes derrotas históricas, as vitórias «dos assaltos aos céus», o «tempo das cerejas» ou dos «enragés» e sans-culottes que só exigiam governar-se a si próprios. É revisitar a vitória libertária de 1917, também sob o prisma tanto dos derrotados de Cronstadt como, ironicamente, a de Trostsky. É conhecer melhor Marx e Engels, Blanqui e Fourier, Bakunine e Proudhon, Walter Benjamim, Fanon e Constant, Lenine, Estaline e Mao e tantos outros; foi com muita atenção que o historiador referiu a grande massa de revolucionários anónimos e que pereceram numa aura de heroísmo e de «santidade» nas barricadas de 1830 e 1848, já em desuso e criticadas em 1871, mas nem por isso menos simbólicas no Maio de 68 francês, na Alemanha e Hungria de 19 ou na Espanha em 1936. Ou revisitarmos igualmente os vitoriosos de Sierra Maestra, o Vietname, o Laos e o Camboja, a China da grande marcha ou Tiananmen de 90. O século XX foi farto em dar-nos essas experiências, muitas delas afundadas em sangue e em experiências que melhor fora não terem tido lugar. O que não retira uma vírgula, à vontade de mudança radical que é aposta numa revolução e à sua carga utópica. 
Por isso há uma impossibilidade clara de haver um compromisso entre revolução e contra-revolução seja ela legitimista, conservadora ou fascista. Esses perigosos compromissos dar-se-ão, como demonstra Enzo Traverso, na social-democracia e no socialismo democrático. Mesmo que, entre as duas guerras, se tentasse fazer essa síntese, foram todas votadas ou ao esquecimento, muitas delas junto com esses autores, ou ao fracasso. Essa força, a força revolucionária, nada tinha a ver com a autoridade legitimada das classes subalternas no poder, e a vontade ilegítima (porque pessoal) de um qualquer duce ou führer. A revolução, as revoluções, são sempre a consequência de causas de injustiças e de exploração insuportáveis para os seres humanos. Que elas sejam mais ou menos violentas ou que as instituições mudem de mãos sem um único tiro (lá vem o caso português de 74 e a Checoslováquia de 89!) as revoluções mostram sempre as suas particularidades e igualmente as suas idiossincrasias. Criticadas e temidas por muitos, até por aqueles que delas beneficiariam, retiram-lhes quase sempre as suas causalidades e as conjunturas históricas em que explodem. 

Vejamos ao que vem Enzo Traverso logo no início do livro na página 25: 

«O objecto deste livro é a revolução, para o melhor e para o pior. Ele não opera nenhuma selecção entre as boas e as más revoluções, distinção tão difícil quanto estéril visto que as revoluções não pedem para serem idealizadas ou diabolizadas: elas são experiências vivas que se transformam em permanência e cuja dinâmica é imprevisível. Mais do que um julgamento moral, uma idealização ingénua ou uma condenação intransigente, merecem uma compreensão crítica. É ainda a melhor maneira de compreender o seu significado histórico e transmitir a sua herança. Numa passagem célebre, Marx escreveu que as revoluções modernas ''não retiram a sua poesia do passado'', enquanto que Benjamin vê o seu motor escondido num desejo de redenção dos vencidos que não é mais do que ''o compromisso tácito entre as gerações passadas e a nossa''. É muito provável que as revoluções oscilem entre estas duas temporalidades: elas salvam o passado inventando o futuro, mas podem incluir os dois.»

Mais à frente:

«Contrariamente à maior parte dos trabalhos sobre as revoluções, este ensaio não consagra um capítulo específico à questão controversa da violência. Há várias razões para esta ausência, que não resulta de maneira nenhuma de uma estratégia de fuga. A mais importante prende-se com o facto de a violência revolucionária atravessar esta obra, de maneira explícita ou subterrânea, duma ponta à outra. Com algumas excepções as revoluções são erupções, pontos de viragem traumáticos. A violência pertence à sua estrutura ontológica. As revoluções pacíficas são excepções, não a regra e, em muitos casos, elas não não mais do que arautos de explosões do futuro. Em 1974, a «revolução dos cravos» em Portugal foi pacífica porque foi desencadeada por uma parte do próprio exército e se, quinze anos mais tarde, as «revoluções de veludo» na Europa central se desenvolveram sem efusão de sangue, é porque as forças repressivas foram provavelmente neutralizadas na URSS. (...) 
A segunda razão pela qual esta obra não conta com um capítulo sobre a violência é mais especificamente historiográfica. Os historiadores conservadores escrevem à maneira de promotores, que estigmatizam as revoluções não como uma, mas mais especificamente, a fonte do totalitarismo moderno. Eles repartem-se em geral em duas categorias: de um lado os apologistas astutos do fascismo, do outro, os pregadores de uma sabedoria política solidamente amarrada aos postulados do liberalismo clássico. (...)» 

«Assim, esta obra junta fragmentos intelectuais e materiais dum passado revolucionário impulsivo e bastante esquecido, com o fim de re-articular uma composição com sentido, elaborada por imagens dialécticas: locomotivas, corpos, estátuas, colunas, barricadas, bandeiras, sítios, pinturas, pósteres, datas, ruas singulares, etc. De uma certa maneira, os conceitos, eles próprios, são tratados como imagens dialécticas, na medida em que emergem nos seus contextos próprios, como as cristalizações intelectuais de necessidades políticas e do consciente (ou do inconsciente) colectivo. (pág.31).

Um livro que devemos ter sempre em conta e nunca desfazê-lo num alfarrabista, até pelas imprevisibilidades várias que podem vir a existir no futuro. Sabe-se lá.

alc

sexta-feira, julho 12, 2024

«A Subtração», de Alia Trabucco Zerán

Elsinore, 2024. Tradução de Isabel Pettermann
O Chile está cheio de fantasmas. Desde o 11 de Setembro de 1973, este país acompanha-me num exemplo demasiado tangível sobre o horror do fascismo e do que é capaz como regime em grau de eliminação em massa de homens e mulheres que, de alguma maneira, pretendiam uma sociedade mais justa. Foi o que aconteceu com o golpe de Pinochet e da Junta Militar que o conservou no poder durante perto de 15 anos. Vi, antes e depois do 25 de Abril de 1974, muitos refugiados a chegarem cá, desenraizados, alguns com uma tristeza irrecuperável que lhes levou literalmente a vida. No próprio dia da nossa libertação do fascismo salazarista e marcelista a experiência do golpe chileno sobressaltou-nos logo de manhã, porque não queríamos acreditar que era um golpe para repor a democracia e acabar com a guerra colonial. Ainda por cima, os capacetes dos soldados portugueses nos camiões que subiam a Lourenço de Azevedo, ao lado da Sereia, eram incrivelmente parecidos com os dos soldados chilenos. Ainda me lembro como, cautos e algo apreensivos, escondemos os comunicados de mobilização estudantil para o 1º de Maio, no jardim, sob uns arbustos. O nome de Kaúlza surgia-nos até percebermos o alcance libertador naquela mesma manhã. O Chile teve a ver com isso, digo-o sem grandes problemas em errar.

Ora, este livro traz-nos duas grandes novidades do Chile contemporâneo: Alia Trabucco Zerán, nascida em 1983, uma escritora de uma nova geração, essa que nasceu de pais perseguidos, torturados, presos sem culpa, desaparecidos e mortos em valas comuns e que não esquece 1973. Para que os assassinos não se sintam totalmente incólumes dos seus crimes, as gerações seguintes farão, como prova este livro, as resenhas necessárias para que o mundo não os esqueça. E aos seus cúmplices também, visto que a libertação de 1988, referida no livro, não os levou definitivamente a tribunal e Pinochet morreu na cama; a outra novidade é a qualidade literária de «A Subtração» (infelizmente temos o AO90 a chatear um bocadinho) que é uma verdadeira surpresa na escrita de Alia Trabucco Zerán. 

O título do livro é mesmo um processo de subtracção. De mortos, principalmente. De inumações e exumações, como se refere à de Neruda. Nem os mortos ainda têm descanso no Chile de hoje. Sucedem-se as valas comuns, as descrições dos verdugos que torturaram desaparecidos, a procura dos pais que ainda restam e têm forças para identificar as valas comuns onde poderão estar os seus filhos e filhas; também os hangares do aeroporto de Santiago cheio de caixões ainda não reivindicados (haverá alguém, ainda?) de exilados que preferiram deixar, nos seus países de acolhimento, uma última vontade de serem enterrados ou cremados no Chile. E sobre a cremação, ou a falta dela, em toda a narrativa cai uma chuva fininha de cinza, oriunda de um vulcão da cordilheira que nos faz aproximar ainda mais de uma realidade obscura e pesada, sufocante que hoje se vive naquele país com memória viva: 

«... é melhor ter mortos obedientes, preparados para atravessar em fila indiana a cordilheira e para que eu [Iquela, a personagem principal] os subtraia às mãos cheias; menos três, menos seis, menos nove mortos que tenho de subtrair e depois contar separadamente cada um dos seus ossos, sim, embora para mim tantos ossos sejam uma confusão. Incomoda-me a quantidade de mortos de Lisboa e da Catalunha, de Leninegrado ou Estalinegrado, porque no pretérito imperfeito viajaram para o Chile  e não chegaram, não chegaram, por isso tenho de me acalmar e respirar fundo, inspirar e reter o cheiro e a calma, embalsamar a calma com formol e só depois atravessar a cordilheira, atravessá-la e trazer comigo a própria morte...» (pág.306 em ebook de 345)

Não termino esta ficha sem dar-vos a conhecer um dos melhores momentos que este livro nos deu na percepção do que são os efeitos do LSD com uma particularidade: é Paloma, uma alemã filha de uma exilada chilena que morreu com um cancro, e de pai alemão, que «subtraiu» essa droga na clínica onde aquela faleceu. A metáfora é essa: para esquecer a morte, recorre-se à parafernália de alívio da dor através de substâncias alucinogénias (que também eram usadas pelos torturadores sobre as vítimas antes de as lançarem ao mar de helicóptero). Nem Burroughs ou a literatura beat (daquela que conheço) nos dá essa sensação de verosimilhança que esse capítulo nos empresta. Sobre as características psicológicas das personagens não acrescentarei muito. Só direi que elas são completamente livres. É a vingança máxima deste livro.

alc

sexta-feira, julho 05, 2024

Jornal Mapa 42 nas ruas!

A solidariedade que se possa impor ao racismo interessa-nos mais do que o dó ou a caridade. E disso damos conta numa grande reportagem feita com migrantes que estão há mais de um mês acampados nos Anjos, em Lisboa, pessoas que conseguiram passar pelos poros das cada vez mais violentas fronteiras externas da UE. As lutas pelo território continuam também a interessar-nos mais do que as eleitorais e, mesmo saídos dum desses exercícios, decidimos lançar um olhar à «voragem energética» que a nova vaga industrial trouxe para Sines e também para as ocupações, despejos, resistências que se dão em tecido mais urbano.

Tudo como cama para um composto que possa ajudar a criar uma vida de outro modo, como nos lembra Carmen Staats. Uma vida que, para ser atingida, necessita de lutas ecológicas pensadas também a partir dos Soulèvements de la Terre, um movimento nascido em 2021 numa assembleia da ZAD de Notre-Dame-des-Landes (França) na qual participaram duzentas pessoas de diferentes coletivos de agricultores, ambientalistas, sindicais e autónomos. Interessa-nos ainda relembrar o Unabomber mais do que o Manuel Fernandes, ou Varela Gomes mais do que o Camões, e apoiar o esforço financeiro da Disgraça mais do que o do crescimento orçamental para a defesa.

Jorge Valadas, continua a iluminar-nos com o seu luar que, desta vez, nos deixa ver uma América onde «o sonho» se desfez e onde a pobreza branca também se generaliza. A série «25 de Abril – outros 50 anos» continua neste número, permitindo um olhar para essa espécie de turismo revolucionário que foi a vinda de muita gente de fora do país para participar na revolução, nas palavras de Joëlle Ghazarian.

Tudo isto e ainda outras notícias, crónicas, entrevistas, poesia, literatura, ilustração e BD, no número 42 do Jornal MAPA, que podes adquirir em qualquer dos pontos habituais de venda ou, melhor ainda, assinar, ajudando assim à continuação sustentada deste projeto voluntário de informação crítica.

quarta-feira, julho 03, 2024

«Novo Iluminismo Radical», Marina Garcés

 

Orfeu Negro, Out. 2023, Tradução de Helena Pitta
Conheci brevemente a filósofa catalã Marina Garcés em 2010 quando acompanhou Santiago López-Petit nas II Derivas de Maio que a editora organizou sob o tema «Com uma Faca nos Dentes: Educação, Revolução, Realidade». Aí, Santiago López-Petit apresentou o seu livro «A Mobilização Global, seguido de O Estado-Guerra», com tradução e prefácio de Rui Pereira, que a Deriva publicou. Ambos pertenciam ao grupo de pensamento «Espai en Blanc» sediado em Barcelona. O Ípsilon, do Público, entrevistou-a há umas semanas devido à publicação deste livrinho pela Orfeu Negro. Não cheguei a ler. De qualquer modo, as intervenções que Marina Garcés protagonizou no espaço do então Esmae do Porto, onde decorreram as II Derivas de Maio já apontavam para claras alternativas ao capitalismo e à (sobre)vida.

Seja como for, «Novo Iluminismo Radical» é composto por intervenções em conferências que, penso, foram obviamente reescritas pela autora na edição deste livro, de modo a ajustá-las à expressão escrita. Num mundo como o que observamos e sentimos na pele, hoje, Marina Garcés arrisca-se a ter razão na descrição e nas metástases que o corroem. Como diz Marx, que ela cita também, descrever o mundo todos os filósofos o fazem, transformá-lo é do que necessitamos. E quando falo em «razão» o termo foi usado propositadamente, como que a dizer ao que vem. Voltar a Kant? Nem tanto assim, mas voltar talvez ao Kant crítico de Kant, ao Hegel crítico de Hegel, ao Voltaire e a Rousseau, críticos igualmente deles próprios. A receita, não sendo nova e não constituindo qualquer novidade em si, contém um conceito entretanto perdido nas sociedades pós-pós-modernas, a que Garcés chama de «condição póstuma», em que o passado (defendido pelos saudosistas e retrotopistas que Baumann já tinha identificado) e o futuro são uma e a mesma coisa. Interessante é referir-se a Chernobyl como marca deste presente através da nobelizada Alexandra Alieksevitch quando afirma que as imagens daquela catástrofe não indicam claramente se é o passado ou o futuro. 

Sabemos igualmente que a crítica ao Iluminismo já foi elaborada pela esquerda nomeadamente desde 1949, com Adorno e Horkheimer, ou Braudillard, Agamben e outros, mas Marina Garcés propõe-nos ir mais longe, partindo do princípio que é possível um outro mundo que falhou todas as utopias a que se propôs levar a cabo, como, e cito, o anarquismo, o socialismo e o comunismo. O que ela vê de interessante e revolucionário é a luta pela vida digna, por um decolonialismo horizontal e universal, a crítica do homem branco, imperialista e colonialista, racista e eurocêntrico, ocidentalizado, patriarcal. Afirma mesmo que os verdadeiros revolucionários, nestes tempos sombrios e violentos, são os que salvam vidas no Mediterrâneo ou em Gaza, ou onde há guerras, valorizando a Vida que entretanto se volatilizou na educação e na formação dos homens actuais. Diz ela no seu Preâmbulo:

«O mundo contemporâneo é radicalmente anti-iluminista. Se, em 1784, Kant anunciava que as sociedades europeias de então eram tempos iluministas, hoje podemos dizer que estamos, em todo o planeta, em tempos de anti-iluminismo. Ele usava o termo com um sentido dinâmico: o iluminismo não era um estado, era uma tarefa. Nós também: o anti-iluminismo não é um estado, é uma guerra.
As faces desta guerra anti-iluminista são muitos e multiplicam-se todos os dias. No domínio político, cresce uma apetência autoritária que faz do despotismo e da violência uma nova força mobilizadora. Podemos chamar-lhe populismo, mas esse é um termo confuso. Do que se trata é de um novo autoritarismo que permeia toda a sociedade. No plano cultural triunfam as identidades defensivas e ofensivas. A cristandade branca e ocidental refugia-se nos seus valores, ao mesmo tempo que se desencadeia uma revolta antiocidental em muitas partes do mundo, mesmo por parte do pensamento crítico ocidental, que rejeita a sua própria genealogia.(...)»

Partindo da premissa que hoje é o tempo onde tudo se acaba, tudo morreu ou está em vias de morrer literalmente, a nossa espécie e um planeta feito à nossa medida, Marina Garcés descreve onde se encontram esses perigos e aponta como o alfa e o ómega da morte programada o capitalismo, o pós-humanismo que lhe está associado e a inteligência «delegada», num mundo cada vez mais ignorante e estupidamente indiferente, o que é distinto do conceito socrático do «não-saber» como forma inicial de atingir a «emancipação pelo saber». Baseada em Agamben e Antonio Negri afirma:

«Actualmente, a biopolítica está a mostrar o seu rosto necropolítico: na gestão da vida, a produção de morte já não é vista como um défice ou excepção, mas como normalidade. Terrorismo, populações deslocadas, refugiados, feminicídios, execuções massivas, suicídios, fomes ambientais... a morte não natural não é residual ou excepcional, não interrompe a ordem política; colocou-se no centro da normalidade e capitalista e das suas guerras não declaradas.(...)» 

A descrição de Marina Garcés, até agora, não constitui novidade por aí além na crise do planeta e do capitalismo global que lhe é inerente. O mais interessante do livro são as suas Cinco Hipóteses no ponto 3, «Humanidades em Transição». Fiquemos pela Hipótese 1 de ultrapassagem do capitalismo por essa humanidade em transição e isto no campo da educação e do projecto educativo actualmente em curso por todo o mundo:

«O projecto educativo que o capitalismo actual desenvolve situa-se nesta moldura epistemológica. A escola do futuro já começou a construir-se e não está a ser pensada pelos estados ou pelas comunidades, mas pelas grandes empresas de comunicação e pelos bancos. Não tem paredes nem muros mas plataformas online e professores durante vinte e quatro horas. Não será necessário ser-lhe excludente, porque será individualizadora de talentos e de percursos de vida e de aprendizagem. Praticará a universalidade sem igualdade: uma ideia na qual temos de começar a pensar, porque há-de ser, se não o é já, a condição educativa do nosso tempo.(...)» 

E assim por diante passando os olhos pelas outras quatro hipóteses finais de suposta transformação da humanidade «em transição». Não tenho o direito de discordar inteiramente de Marina Garcés, mas tenho-o em ser menos optimista que ela. Custa-me acreditar numa exaustão universal contra o(s) Estado(s) e na criação de bolsas autónomas e libertas da escravatura do trabalho cada vez menos pago e trabalhadores em depressão que, para fugir dela, criam contra-alienações. A História prova-nos que é numa situação de escravidão com um bem-estar pouco digno, é certo, mas ainda assim bem-estar, que não há oportunidade de revolta e muito menos de hipóteses revolucionárias que Marina não aborda, assim como só muito superficialmente toca na questão da produção alienada e do lucro e valor. É que isso tem tudo a ver com as hipóteses futuras de uma insurreição mundial, mesmo que a vejamos muito longínqua e os gérmenes tenham aparecido e desaparecido muito depressa. Mas que existem, existem. Por agora, resistiremos ao neofascismo mundial vindouro, esse sim, igualmente e violentamente anti-iluminista como o foi contra a modernidade do século XX, o que retira, por recuada, qualquer hipótese de luta insurrecional, mesmo que seja para nos salvarmos como espécie. 

Mas a Orfeu Negro tem razão quando apresenta esta colecção onde se insere este livrinho: «Microleituras - Efeito prolongado».

alc

segunda-feira, julho 01, 2024

«O Caderno Proibido», Alba de Céspedes

 

Alfaguara, Maio de 2024, Tradução de Ana Cláudia Santos

Livro datado de 1952 e um dos mais importantes de Alba de Céspedes, pelo que li sobre ela. Antifascista, conheceu as prisões de Mussolini e foi fundadora da revista Mercurio. A autora opta por uma epistolografia imaginada em torno de um diário escrito em sobressalto e cuja personagem, Valeria, esconde da família. Um género que se vai perdendo com o tempo, mas que acolhe sempre uma grande intimidade, cumplicidade com o leitor e lança a denúncia de um quotidiano do que julgamos ser uma simples dona de casa romana, na Itália do pós-guerra. Não é só um quotidiano marcado pelo tratamento dos outros, da casa, isso seria muito pouco; a verdadeira perturbação deste livro vem da emergência do desejo de alguém que é sistematicamente secundarizado c obrigado a marcar o ponto das obrigações de uma família pequeno-burguesa em que Valeria é tratada de «mãe» pelo marido, como para sublinhar a sua condição reprodutora, e ostracizada pelos filhos adolescentes que a observam como uma «velha» de 43 anos, salva de qualquer arrobo amoroso ou de fuga daquela vida de cansaço que é, paradoxalmente, a sua libertação:
 «Devo reconhecer que, se calhar, a determinação com a qual me defendo de qualquer possibilidade de descansar não é senão o medo de perder esta única fonte de felicidade que é o cansaço.» 
A perturbação deste livro extraordinário reside aí. Mas não só. Somos obrigados, na sua leitura, a pôr tudo em dúvida em relação a nós próprios e à nossa própria família e eis onde Alba de Céspedes triunfa neste «Caderno Proibido». A crueldade e a afectividade de que se alimenta um grupo familiar de personalidades obviamente distintas e que se magoam, mais do que provam o seu amor senão através de glosas e metáforas maldosas, daquelas que deixam um rasto de mágoa e de ódio tantas vezes camuflado:
«Tenho de destruir o caderno, destruir o diabo que nele se esconde entre cada página, como entre as horas da vida. À noite, quando nos sentamos todos juntos à mesa, parecemos claros e leais, sem insídias; mas sei agora que nenhum de nós se mostra como verdadeiramente é, escondemo-nos, camuflamo-nos todos, por pudor ou por despeito.»
A questão que antes se colocava, após o conhecimento atento de todo o diário de Valeria, a tal «velha de 43 anos» é exactamente aquela que perturba quem o lê. Valeria tem um caso fora da família que não chega a ser consumado, mas intenso. E damo-nos a pensar que atrás da cozinha em que cada mãe nossa, porque o pai nos anos 50 e 60 tinha todo o direito a ter «casos» ou amantes, se deslocava para fazer a comida, ir para o trabalho, vir à pressa, passar a ferro, aconselhar os filhos e vigiá-los, teria ela, perguntar-se-á, o direito de amar alguém nos intervalos da sua vida de cansaço? Teria ela, a «mãe», a veleidade de sonhar com uma fuga de casa com um amor dissimulado e que se desenhava um desejo sexual óbvio por outra pessoa fora da família? E teria ela o direito de nos odiar, por vezes? De nos olhar como empecilhos para uma liberdade coartada? Por mim, tenho uma resposta clara. Mas que este livro nos perturba, sem dúvida que sim. 
alc