sexta-feira, setembro 29, 2023

«No Sentido da Noite», Jean Genet

 

Sistema Solar, Julho de 2016, Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

Por mais que se leia, que se pesquise, que se pretenda conhecer melhor um autor como Genet, há sempre uma imensa lacuna, consequência do jogo tão legítimo, quanto narcísico, dos criadores em esconder os seus motivos, os seus sentimentos ou em utilizarem várias máscaras que são autênticas peças de um enorme puzzle, quase impossível de construir para um leitor, mesmo que atento ou interessado. 

Escrevi, quando do «Diário do Ladrão» traduzido por Miguel Serras Pereira, que Cocteau e Sartre sacanearam a obra e a pessoa de Jean Genet. Através da apresentação de Aníbal Fernandes em «No Sentido da Noite», conclui-se que haverá muitos mais. Não interessa nomeá-los, mas muita das «incompreensões» da obra de Genet surgem exactamente destas relações tóxicas mantidas durante anos por personagens da Rive Gauche que o ajudaram a editar e a ser conhecido no meio literário francês. 

Genet foi censurado pela rádio quando se opôs ao abrandamento da disciplina dos reformatórios para jovens delinquentes, sem que se percebesse totalmente o que afirmava, ele que por catorze vezes os habitou até aos dezasseis anos! Defendia que os jovens criminosos como ele esperavam do Estado, que os metia dentro das masmorras, o pior de todas as experiências de modo a atingirem um grau de expiação quase mítico. Genet que foi ladrão, pouco hábil, segundo as suas palavras aliás, foi preso pela primeira vez não por estes crimes, mas por viajar sem bilhete num comboio e por isso foi condenado a seis meses de reclusão! A contradição e crueldade mais obtusa do conhecido sistema prisional francês foi-se revelando sempre à medida que a sua idade progredia. Conheceu prisões e prisioneiros a que chamava de «colonos» lembrando a Guiana que entretanto foi abolida em 1961 como destino abominável de culpados ou não. Mas o sistema de reclusão era o mesmo, talvez pior pela falta de espaço, pelo confinamento absoluto e atrofia dos sentidos a que a personalidade do prisioneiro era submetida.

Genet amou e foi amado, foi traído e traiu, viu suicídios de amantes (ele que também se suicidou), viu, igualmente, demasiados mortos a tiro ou violentamente; foi nómada, politicamente empenhado no apoio ao imigrantes magrebinos em plena guerra da Argélia, esteve ao lado dos Black Panthers americanos e dos palestinianos, viu-se afastado pelos pensadores existencialistas dos cafés da moda que eles frequentavam. 

Genet escreveu sobre assassínios e viu a sua peça «As Criadas» ser representada como uma vulgar comédia e totalmente abastardada, mesmo após os seus apontamentos à representação serem pormenorizados ao milímetro de cada palco. Não acreditava em actores ou actrizes profissionais porque demasiados presos aos conservatórios oficiais e nada disso foi seguido. Depois de ter abandonado a literatura e a poesia, foi agora a vez de acabar com o teatro. Diz-se que rasgou ou queimou muita coisa que escreveu.

Volto ao princípio: como disse Sartre não sei se Genet (apodou-o de Saint Genet) era comediante ou mártir, o título do livro do filósofo que nunca lerei. Faltar-me-á sempre uma ou mais peças do puzzle para o considerar um escritor «maldito». Mas é inevitável ter de o ler. Só assim um pedaço proscrito da humanidade se pode juntar ao imenso «público de mortos», afinal os espectadores do teatro de Genet.

António Luís Catarino

segunda-feira, setembro 25, 2023

«Diário do Ladrão», Jean Genet

 

Diário do Ladrão, Minotauro, Setembro de 2022. Tradução de Miguel Serras Pereira
Jean Genet escreveu «Diário do Ladrão» em 1949, embora publicado clandestinamente um ano antes. Foi necessário Jean Cocteau inventar uma editora para que se desse a conhecer esta obra tão estranha, quanto ímpar na literatura. Sartre deu-lhe asas, isto é, sacaneou de tal maneira o seu «amigo» Genet, «santificando-o» e «interpretando-o», que este não lhe perdoou. Durante sete anos após um livro vergonhoso de Partre (para parafrasear Vian) sobre ele, chamando-lhe de Saint Genet e apodando-o inclusive de comediante, não escreveu mais nada, mas isso são contas de outro rosário e não será por acaso que o registo católico, em Genet, vem ao caso. Citaremos «O Sentido da Noite» para mais tarde analisarmos um pouco mais esta relação venenosa entre o papa do existencialismo e Jean Genet. Nessa ocasião prestaremos contas, agora vamos a este livro dificilmente ostracizado. Diríamos, mesmo, impossível de o esquecer se nos embrenharmos na sua leitura, despojando-nos de preconceitos sobre a maldição que ainda transporta seu nome.

Genet, foi abandonado pela sua família, conhecendo não só famílias de acolhimento, como também reformatórios cuja disciplina e crueldade foram do pior que se pode imaginar. Não encontro neste «Diário do Ladrão» nenhuma desculpa como é comum lermos em outras biografias idênticas, de indivíduos ou mulheres que optaram pelo crime. Nem sequer encontramos uma secreta alegria pela «reforma mais humana» dos reformatórios para crianças e do sistema prisional em geral, pelos anos 60 em França. Pelo que leio e sei, as prisões de França ainda são, hoje, das mais duras do mundo. Jean Genet tem uma trípode neste livro que apresenta: o roubo, a homossexualidade e a traição «(...) são os temas essenciais deste livro. Uma relação, senão sempre aparente, existe entre eles, pelo menos parece-me reconhecer uma espécie de comunicação vascular entre o meu gosto pela traição, o roubo e os meus amores.» (pág.174). O assassínio e a violência surgem como a ordem natural das coisas, uma evolução para um patamar superior, com cicatrizes deixadas no corpo como medalhas, por quem escolhe o tipo de vida que ele escolheu: «Sem me crer nascido magnificamente, a indecisão da minha origem permitia-me interpretá-la. Acrescentava-lhe a singularidade das minhas misérias. Abandonado pela minha família parecia-me já natural agravar esse facto através do amor dos rapazes e esse amor através do roubo, e o roubo através do crime ou da complacência perante o crime. Assim recusava decididamente um mundo que me recusara. (...) A prisão rodeia-me de uma garantia perfeita. Estou certo de que foi construída para mim - com o palácio de justiça, a sua dependência, o seu monumental vestíbulo. Segundo a maior seriedade tudo aí me foi destinado. O rigor dos regulamentos, a sua estreiteza, a sua precisão, são da mesma essência que a etiqueta de uma corte real, que a cortesia requintada e tirânica da qual nessa corte o convidado é objecto.» (páginas 89,90)

Genet assume uma vida perigosa em regiões e cidades perigosas em países perigosos, num mundo a explodir em violência para ele inaceitável. Roubou na Alemanha de Hitler e sentiu um verdadeiro asco em ver a aceitação da população perante verdadeiros criminosos que impuseram a ordem dos lager. Não é um paradoxo ou contradição de Jean Genet. É outra coisa: trata-se de uma coerência excepcional de alguém para quem o roubo é a vida, o florescimento da vida, tal como a prostituição aceite como natural desde a sua infância miserável. Mas colocar o crime no âmago do Estado era para ele insuportável. Conheceu igualmente Barcelona pouco antes da Guerra Civil e voltou lá após a guerra e soube estar ao lado dos que perderam, o que para ele era a lógica dominante na sua vivência. Errou por Antuérpia, Amesterdão, Bordéus, Marselha, a sua Paris e declarou que não haveria cidade da Europa em que não conhecesse um ladrão ou grupo constituído de ladrões. Fez o perfil destes grupos de criminosos, pequenos ou grandes, cujas leis internas variavam ao sabor das vontades, dos ódios ou do amor entre os seus elementos, fossem eles femininos ou masculinos. Para além de ladrão foi prostituto, assaltante armado, jogador, traidor dos seus, sentiu a miséria extrema de um sem-abrigo, a fome e a sujidade mais abjecta. E nisso, conseguiu ver a liberdade, a luminosidade santificada dos que abraçam o Mal e que por qualquer escuro caminho praticariam igualmente o Bem por desespero. «Desejo por um instante pôr uma atenção aguda sobre a realidade da suprema felicidade no desespero: quando se está só, de súbito, frente à sua perda súbita, quando se assiste à irremediável destruição da sua obra e de si mesmo.» (pág.214) «(...) mas sobretudo quero ser um santo porque a palavra indica a mais alta atitude humana, e farei tudo para aí chegar. Aí empregarei o meu orgulho e aí o sacrificarei.» (pág.215)

Há, contudo, um aspecto que não consigo compreender totalmente em Genet: o seu silêncio perante o processo literário. Quando e onde escrevia? Quando e onde lia? O que lia? Adivinho uma vida errante, de quarto em quarto, de pardieiro em pardieiro, de noites e dias fugidios e frenéticos, de prisões muitas. O seu vocabulário é abundante e certeiro. Sabe escrever bem, tem uma grande cultura (mais bíblica, é certo), sabe defender-se e explica porque escreve, mas na sua obra inicial não há momentos de contemplação, de busca e produção literárias. Após o reconhecimento que se lhe seguiu, sim, podemos perceber o tempo despendido nos livros, nas respostas e nas cartas a defender-se dos escândalos que sobre ele caía (óbvio!), os ataques e a censura oficial sobre ele, o abandono da literatura e o seu silêncio antes de enveredar pelo teatro, para ele mais verdadeiro e, talvez, mais livre de «segundas leituras»: «A menos que sobrevenha, de uma tal gravidade, um acontecimento tal que perante ele a minha arte literária seja imbecil e eu precise para dominar essa nova desgraça de uma nova linguagem, este livro é o último. Espero que o céu me surpreenda sem avisar. A santidade é fazer servir a dor. É forçar o Diabo a ser Deus. É obter o reconhecimento do mal. Há cinco anos que escrevo livros: posso dizer que o fiz com prazer mas acabei. Através da escrita obtive o que buscava. O que, sendo para mim um ensinamento, me guiará, não é o que vivi mas o tom em que o relato. Não as anedotas mas a obra de arte. Não a minha vida mas a sua interpretação. É o que me oferece a linguagem para a evocar, para falar dela, para a traduzir. Conseguir a minha lenda. Sei o que quero. Sei para onde vou. Os capítulos que se seguirão (já disse que um grande número se perdeu) deixo-vos avulsos.» (pág.210) A sua obra não foi somente «perdida»; sabemos que foi igualmente destruída por si. Genet suicidou-se em 1986.

António Luís Catarino

sexta-feira, setembro 22, 2023

Arthur Cravan, poeta e boxeur

 

Mélanges éd., 2005
Um livrinho editado em 2005, baseado num poema impresso pela primeira vez em 1915 no número 5 da revista Maintenant dirigida pelo próprio Arthur Cravan, poeta, boxeur e dadaísta. Mas não só. A sua vida é extraordinária e, pelo que sabemos, confunde-se literalmente com os pressupostos Dada. Foi-me oferecido pelo Pierre, responsável da livraria/alfarrabista La Manufacture, de Montolieu. Não me atrevendo a traduzir o que quer que seja de Cravan aqui vai uma declaração de amor inscrita no poema de 8 páginas com que nos atinge de frente:
(...)
Et tandis qu'allophage
A l'amour de ton chauffage,
Nos gilets
Se câblent leurs violets,
Que, chéri et choufleur,
Je suis tes gammes
Et tes couleurs,
Et, qu'en un amalgame
De Johnson, de phoque et d'armoire
Nos merdes rallument leurs moires,
Fff! les pistons
Du veston.
Dans la finale
Abdominale!
(...)
Cravan está, contudo, publicado em português numa edição já esgotada de 1980 pela Antígona e acompanhado por Jacques Rigaut e Jacques Vaché. Suponho ser importante referir que Abel Prazer/ Silva de Viseu, seus tradutores (ou, talvez, tradutor somente), escreveram nesta antologia:
«De Cravan vai publicada, na presente colectânea, toda a sua obra, excepto os poemas e aquilo a que ele chamava ''prosopoemas''. As dificuldades de tradução destes últimos textos eram tantas (rimas, aliterações, etc.) que o prazer de divulgar um autor a nossos olhos simpatiquíssimo - e para isso basta ele ter preferido o boxe à literatura - se dissolveria completamente num tão ciclópico trabalho. Fez-se o que se pôde.» (pág.5 e 6)

A biografia de Cravan, como disse atrás, fala por si e resumo um pouco a que foi descrita na mesma antologia e com base na revista Maintenant:
1881 - Nasce o Misterioso Sir Arthur Cravan, de seu verdadeiro nome Fabian Lloyd, o poeta com os cabelos mais curtos do mundo, neto do Chanceler da Rainha, naturalmente, sobrinho de Oscar Wilde, renaturalmente, e neto de Lord Alfred Tennyson, re-renaturalmente.
Abril de 1912 a Abril de 1915 - Aparecem os cinco números da pequena revista Maintenant, dirigida por Arthur Cravan. Segundo Breton, ''por ódio às livrarias abafadiças onde tudo se confunde e tudo cai aos bocados ainda em estado de novo, Cravan transporta, ele próprio, um sortido de Maintenant numa carroça de vendedor ambulante.
Junho de 1914 - Na sola de Sociétés Savants junta-se um numeroso público que Cravan insulta e perante o qual dança e faz uma demonstração de boxe.
23 de Abril de 1916 - Em Espanha, o pugilista negro Jack Johnson, campeão do mundo de pesados, bate Cravan por KO ao primeiro assalto. Cravan foge e pede perdão ao antagonista.
25 de Dezembro de 1916 - Vai para os EUA no navio «Montserrat» onde se cruza por acaso com Trotsky.
Março de 1917 - Cravan é convidado para dar uma palestra sobre o humor moderno nos «Independesntes» de Nova Iorque. Surge embriagado, despe-se e a polícia intervém.
Abril de 1917 - Os EUA entram na guerra e Cravan vai para o Canadá onde se casa com a poetisa inglesa Mina Loy de quem terá uma filha. Depois parte para o México.
1919 - É professor de Educação Física na Academia Atlética Mexicana. Desaparece, de canoa, no Golfo do México. 

Edição portuguesa da Antígona, 1980. Cravan, Rigaut, Vaché. Tradução de Abel Prazer/Silva de Viseu

Nesta antologia vale a pena ler, se a conseguirem adquirir, uma carta endereçada a André Gide e a Apollinaire, entre outros nomes insultados... por vezes, ao ler estes poetas cuja vida se confunde com a sua poesia, penso como seria profícua a vinda de um poeta boxeur a este recanto. 

António Luís Catarino

terça-feira, setembro 12, 2023

Sketchbook de férias, 2023, Pays d'Oc, Ocitânia

Montolieu, a chamada Village du Livre et des Arts. A história destes sortudos 760 habitantes é simples: nos anos 80, um bibliófilo de Paris farto de estar por lá, criou, com a ajuda da Mairie e de uns quantos entusiastas locais, condições para virem, com armas e muitas bagagens, alfarrabistas de toda a França (e alguns ingleses também) para Montolieu. A pequena vila ainda hoje está em recuperação deste sonho, depois de ter falecido o seu mentor. Mas aquilo não pára. Só dele, de Michel Braibant, uma grande e antiga fábrica foi adaptada para um lugar onde se podia vender e comprar livros de todos os géneros. Hoje, esta antiga fábrica separou-se e deu origem a uma livraria independente e naquele espaço ficaram somente ateliers e oficinas de pintura e de arte. Não sem que nos lembrassem que aquela antiga fábrica foi lugar de exílio forçado de 400 republicanos espanhóis que fugiam de Franco e que aquela vila se recusou a entregar. A bandeira da Espanha republicana está lá a recordar-nos.

Maison Rives. Casa de hóspedes onde ficámos 4 noites, 5 dias. O Sr. Bernard era o dono. O nosso quarto era o da varanda. A sala comum era bonita e o mobiliário antigo a fazer lembrar as casas dos nossos avós. Tomávamos o pequeno-almoço na cozinha servido por ele que tinha igualmente uma livraria a «Palmade»
Torre principal da Igreja de Santo André na praça principal da vila
Outra imagem da Igreja de Santo André vista da Place de La Liberté, antigo convento beneditino
Livraria alfarrabista «La Manufacture» cujo dono, Pierre, para além de um grande conversador sabia muito sobre autores e livros. Nasceu e viveu em Paris (sabia falar o argot de Céline) durante muitos anos até se fixar na Ocitânia em busca de paz e de uma vida diferente. A livraria era uma maravilha de 3 andares, fora o sótão, e os preços eram incrivelmente baratos. 
Rua principal de Montolieu. Ligava a Maison Rives, onde estávamos hospedados, à Place de La Liberté em poucos minutos. A pé, claro. As casas de habitação mantinham a traça antiga. Do lado esquerdo, vê-se as grossas paredes da Igreja de Santo André.
Place de La Liberté. Ao fundo um restaurante a que íamos jantar muito bem uns pratos do País d'Oc com vinho d'Oc, pois claro: o «Casquette et Chapeau». A fonte e o jogo da petanca não podiam faltar. Os plátanos, que não se podavam, faziam com que a temperatura baixasse a do muito calor que se fazia sentir.
A antiga «Manufacture Royale», fábrica têxtil fundada no século XVIII, era agora uma casa de habitação permanente de artistas e fotógrafos, para além de restaurante, bar e jardim. As exposições nas galerias variavam entre o naif e o profissional. Falámos com todos os artistas presentes. Também jantámos, esperando que nos servissem nuns «rápidos» 45 minutos antes de começarmos a comer! Eram quase todos budistas, o que desculpa tudo! A Ananda sentada a beber um aperitivo.
Restaurante de eleição: o «La Rencontre». Gente simpática, jantava-se debaixo de uma latada com comida francesa, principalmente o pato confitado, peixe e também a da região da Ocitânia. O vinho era muito bom, diga-se, principalmente o branco fresquinho. Era usual falar-se com os convivas do lado.
Mazamet, a norte de Montolieu. Aqui se encontra o Museu do Catarismo, a heresia que levou a Igreja Católica a um massacre de milhares de pessoas e à criação da Inquisição, já no século XIII. A luta aberta levou quase 20 anos e a luta «surda» permanece ainda. A repressão e as torturas, os autos-de-fé foram de tal violência que ainda hoje perdura um rancor das populações não totalmente ultrapassado contra Paris e contra uma personagem quase inominável: Simon de Monfort, o que destruiu cobardemente Constantinopla e a sua valiosíssima biblioteca em cruzadas anteriores no Médio Oriente. 
Quanto ao catarismo e ao que significava dava muito para falar e embora não caiba aqui referir os seus princípios (neste blogue damos conta deles) podemos dizer que lutavam por um cristianismo primitivo e uma igreja mais ligada aos pobres e às mulheres. A igreja oficial não poderia permiti-lo. As rotas de fuga dos cátaros incluem Portugal, nesses séculos a braços com problemas de povoamento.

Desenhos e legendas de António Luís Catarino
Agosto de 2023

segunda-feira, setembro 11, 2023

«Auto-de-Fé», Elias Canetti

 

Cavalo de Ferro, 3ªed.2023, Tradução de Luís de Almeida Campos
Livro editado em 1935, escrito desde 1929 em Viena e terminado em Berlim, e que estava para ter outros títulos entre os quais «Cegueira», «Kant incendeia-se» ou «Brand». Elias Canetti escolheu «Auto-de-Fé» que, contudo, teria a ver sempre com o fogo. Fogo e livros. Livros estes que eram a obsessão louca de Peter Kien, a personagem «homem-livro» que acaba devorado pelo incêndio que provocou à sua enorme biblioteca, perecendo com ela no final do romance. Aliás, como nota avulsa, deve dizer-se que a palavra «kien» é também a «madeira resinosa» que se usava para atear fogueiras. Ironia pérfida é o facto deste livro ter feito parte dos incêndios de publicações que iluminavam as noites macabras das marchas nazis de archotes a partir de 1933 e que o consideraram «degenerado». Canetti exilou-se então nos Estados Unidos para não morrer às mãos dos nazis como judeu sefardita que era. Voltando à personagem que enforma «Auto-de-Fé», Peter Kien era o protótipo de o «Homem-livro», aquele que vivia para eles e neles só encontrava a «verdade», ignorando tudo o resto incluindo os vícios e, talvez, as virtudes da humanidade. Alto e magro, misógino, egocentrado, professor universitário que desprezava os alunos deambulava por Viena com uma pasta, passeando os livros que escolhia nesse dia para o fazer. Dormia num divã com eles. Contudo, casa-se com a governanta que sentia tratar bem dos livros...
Não me ocorre uma «descrição» do único romance de Canetti e que, junto com outros, o levou ao prémio nobel de 1981, e que seria forçosamente redutora tal a profundidade filosófica com que o ilustrou. Diz o autor, talvez referindo-se ao processo de escrita de «Auto-deFé» que «A crueldade daquele que se obriga a admitir uma verdade atormenta-o sobretudo a si mesmo: o escritor violenta-se a si próprio cem vezes mais que o leitor.(pág.553)» Não pretendendo, sequer, ousar desmenti-lo posso todavia afirmar que o leitor não sai incólume da leitura desta obra clássica. Estão lá plasmadas a alienação, das massas sim, mas também do indivíduo que mergulha no mundo dos livros e que os considera mais humanos que os humanos que desconhece, a loucura, a religião (todas elas sem agravo), a psiquiatria ou a mesquinhez quer dos poderosos, quer dos subordinados. Todo este exercício literário sobre a alienação remete-nos já para os livros de ouro de Canetti como «Massa e Poder» e «Língua Resgatada» cuja leitura se tornou agora obrigatória para mim, se bem que já tenha lido, há demasiado tempo e julgo que sem o instrumento poderoso da idade, o primeiro deles. 

«A ciência tinha-lhes inculcado uma fé cega na causalidade. Personagens convencionais, cingiam-se fielmente aos costumes e opiniões da maioria. Procuravam o prazer e interpretavam tudo e toda a gente em função dessa procura: uma mania da época que dominava todos os espíritos sem dar grandes resultados. E por prazer entendiam, naturalmente, todos os vícios tradicionais que o indivíduo,. desde que existem animais, pratica com um afinco que não desfalece.
A verdade é que nada sabiam daquela força motriz da história, muito mais profunda e autêntica: o impulso humano para se fundir numa espécie animal superior, a massa, e perder-se tão irremediavelmente nela como se nunca tivesse existido um homem isolado. Porque, além disso, eram educados, e a educação é uma arma defensiva do indivíduo contra a massa que transporta dentro de si.
Não menos que a luta pela fome e pelo amor, praticamos a chamada luta pela vida com o fim de aniquilarmos a nossa massa interior. Mas esta fortalece-se tanto, sob certas condições, que obriga o indivíduo a a gir de forma desinteressada e até contra os seus próprios interesses. A humanidade existia como massa já muito antes de ter sido formulada e diluída em conceitos. Como um animal monstruoso, selvagem, ardente e exuberante, a massa ferve e agita-se no mais profundo do nosso ser, a maior profundidade que as nossas próprias Mães. É, apesar da sua idade, o mais jovem de todos os animais, a criatura essencial da Terra, a sua meta e o seu futuro. Mas nada sabemos dela e vivemos, supostamente, como indivíduos. Não obstante, a massa abate-se às vezes sobre nós como uma maré espumante, como um oceano furioso em que cada gota permanece viva e aspira ao mesmo. Passado pouco tempo dispersa-se, devolvendo-nos ao nosso estado habitual de pobres diabos solitários. E então torna-se-nos inconcebível recordar que alguma vez chegámos a ser tanto, tão grandes e tão «Uno». «Doença», dirá um comentarista inteligente; «a fera do homem», atenuará um humilde cordeiro, sem suspeitar quão perto da verdade se encontra o seu erro. Entretanto, a massa prepara um novo ataque de dentro. Até que um dia não volte a dispersar-se, talvez num único país, no princípio, e dali comece a propagar-se para todos os lados até que ninguém ponha em dúvida a sua existência, porque já não haverá mais Eu, nem Tu, nem Ele, mas apenas ela: a Massa.» (pags. 476,477)

Este trecho de «Auto-de-Fé» foi escrito em 1935, lembrando-nos que estava na forja, pelo menos, desde 1929, ano de todas as acções de massas principalmente as do fascismo e do nazismo contra os quais Elias Canetti lutou, até de armas na mão, como eles nos conta no Posfácio de 1973 a uma edição vienense deste livro. O caso deve ser descrito aqui: numa manifestação de esquerda assassinaram nove operários em Viena. Os jornais, os jornalistas e escritores da altura ou, na sua maioria, defenderam os assassinatos ou, mantiveram-se cobardemente calados, menos Karl Kraus, evidentemente; o veredicto do julgamento absolveu os perpetradores e julgou até necessário esse crime. A resposta foi espontânea dos operários que, sem os seus chefes conciliadores social-democratas, atacaram e incendiaram o Palácio da Justiça de Viena. A polícia fez então 90 mortes entre os operários onde se encontrava Elias Canetti, também ele em protesto. Ao seu lado estava alguém que, exuberante, gritava «Foram-se os processos! Todos queimados!». O jovem Elias Canetti não se conteve e violentamente retorquiu-lhe: «Há dezenas de pessoas mortas e você só pensa nos processos?» (no Posfácio). Significativo.

De qualquer modo, e pelo que escrevi, não pensem os liberais e os «neos» que os acompanham que Canetti é um deles. Decididamente, não. Antes pelo contrário: de matriz claramente marxista, não fosse da geração nobre de entre guerras de Viena e Berlim, conheceu Karl Kraus a quem não regateou influências, o desenhador George Groz de quem foi grande amigo e Isaak Babel, para além de Brecht que o «adoptou» como seu discípulo e, mais tarde, depois de ter ultrapassado alguma desconfiança acerca dos escritores vienenses não tão frontais e hiperactivos como os de Berlim, tornou-se íntimo de Musil e de Broch. Há um facto curioso e que tem a ver com Brecht: na minha leitura de «Auto-de-Fé» deu-me para pensar na possibilidade de uma adaptação grandiosa para o teatro desta obra à maneira de Kraus ou de Brecht; aquela obra, dividida em três grandes capítulos, não era de todo impossível e não sei se alguém o tentou ou, sequer, se era um desejo de Canetti realizá-la. Já com Thomas Mann (mais uma achega para eu detestar o homem) as coisas não correram tão bem. Durante muito tempo «Auto-de-Fé» esteve parado na gaveta por recusa de o publicar por editores medrosos, como Suhrkamp por exemplo, e quando Canetti o enviou para apreciação a Mann este recusa lê-lo, visto que não teria muito tempo para o fazer. Quando foi editado em Viena e o êxito começou a mostrar-se como devia, este tem o desplante de o considerar «tão bom como o ''Henri Quatre'' de Einrich Mann, seu irmão» (!?). Pergunto: alguém conhece este última obra ou o autor? Pobre Thomas Mann! Elias Canetti morre em Zurique, em 1994. Deixou-nos um clássico impossível de não ler.