quarta-feira, setembro 23, 2026

"A Casa Grande de Romarigães", Aquilino Ribeiro

 

Círculo de Leitores, 1988. Introdução de Óscar Lopes.
 
Aquilino Ribeiro surpreende sempre que voltamos a ele, mesmo tratando-se de um livro que já lemos. «A Casa Grande de Romarigães» é mais do que uma história de uma casa de família, mais do que a região do Minho. É um Portugal que vamos conhecendo só pelos livros que ajustam a memória colectiva, como este, mas que nos identificamos com ele pelas características das personagens que desfilam pela mão de Aquilino. A história decorre entre a ocupação dos Filipes até D. Carlos. Mais do que um exame psicológico excepcional das gentes que povoam o romance é, sobretudo, a forma como Aquilino nos apresenta a ascensão e queda de uma casa rural que se vai adaptando às tempestades políticas e sociais que percorrem a História. 

Aquilino é demolidor. Junta a uma escrita única, riquíssima de expressões vivas e vocabulário próprio de um mestre da língua portuguesa, uma ironia e mordacidade que nos assalta constantemente no processo de leitura atenta. Temos ali o popular a que se recusa o apodo do «bom pobre» e que nos é apresentado como sagaz e pronto para qualquer negócio lucrativo com o seu patrão. A honradez quer do pobre ou do rico, do subserviente ou do dominador, é coisa muito relativa, quase sempre ao sabor dos interesses individuais. Assim é Portugal, assim são os portugueses. O espelho que nos é posto à nossa frente por Aquilino não é de molde a ficarmos muito orgulhosos com o que é reflectido, mas ainda assim é justo, porque reconhecemos ali uma verdade inquestionável sobre quem somos e o que nos faz mover. Aquilino apresenta-nos a ruína de uma sociedade rural que passa por Lisboa na ânsia de riqueza fácil a que a política ajudará nas sua prebendas, uma Braga dos arcebispos em odores de velas das igrejas e capelas a santos e santinhas, a uma Coimbra e a uma universidade balofa que é zurzida nalgumas páginas inesquecíveis, a guerras civis e sociais que são feitas a custo de bandidagem e sem a frontalidade a que uma guerra declarada obrigaria. Aqui resumiu-se tudo a razias pela calada da noite, a vinganças espúrias, cujos objectivos eram pouco claros. Portugal é assim e Aquilino é, sem dúvida, um dos seus melhores analistas.

alc