sexta-feira, novembro 30, 2018

Wenceslau de Moraes, o ke-tôjin 14


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Ke-tôjin, na língua japonesa, quer dizer «o selvagem barbudo». Wenceslau de Moraes foi escritor, poeta, militar da marinha portuguesa, cônsul em Kobe e professor do Liceu de Macau. Nasceu em 1854 e faleceu em Tokushima, em 1929. Creio que o epíteto de selvagem barbudo, embora por vezes andasse andrajoso pelas ruas, não era só um carinho japonês a Wenceslau de Moraes. Era assim que os orientais viam os portugueses. Diziam os japoneses, em testemunhos da época, que comíamos com as mãos, não nos lavávamos e só falávamos em ouro. «Mas não eram má gente!», diziam. Este desprezo não cabe em Wenceslau de Moraes quando se exilou, voluntariamente, primeiro na China, onde casa com Vong-Io-Chan de quem tem dois filhos e depois em Tokushima, no Japão. Não volta a Portugal. Poeta simbolista e decadentista, olha para o ocidente despido já de espiritualidade e de valores éticos, com o desdém de um poeta que procura, no exótico, a sua fuga. Ama e vê morrer duas mulheres que o marcaram no Japão: Ó-Yoné e Ko-Haru a quem dedica um livro belíssimo. Quanto ao seu exotismo assumido devemos ter cuidado com o seu significado nas palavras de Moraes: defende que se devem amar todos os bichos (e ele tinha-os no seu «casebre», como ele chama à sua casa) e as coisas, todas as coisas, mas não é budista. Escreve: «O amoroso do exotismo, geralmente um intelectual, (…), é também geralmente um esteta, conseguintemente um místico, um apaixonado da cor, do perfume, do som, de tudo o que é beleza e arte.» Todavia, entendendo que as religiões caducam, ele define-se como um religioso para além das religiões. Entre os exóticos realça Lafcadio Hearn e Pierre Loti com uma real admiração pelo primeiro. Quanto a Loti pensa que este nunca compreendeu o Oriente porque hiperativo, ao contrário de Goncourt que o percebeu melhor, mesmo sem ter saído do seu quarto, ironiza. Sendo a sua religião a de esteta, encontra na saudade (como é que a nossa saudade poderia desaparecer?) o que chama uma estética retrospetiva da paixão do belo. Um homem que se vestia de kimono japonês, que detestou a abordagem ocidental e particularmente a portuguesa do século XVII ao Oriente, criticando e desculpando a rudeza e atrevimento do aventureiro Fernão Mendes Pinto, resgata-nos, a nós ocidentais, e nos seus escritos, desse mundo feito de violência e perfídia. Deixa-nos um provérbio japonês para que as nações o pensem: «Jigoku no sato mo kané shidai» (até as sentenças do inferno não passam de negócio de dinheiro!). Como ele diz em «O Exotismo Japonez»: «… E fugi, e voei, e fui deixando farrapos de alma (…) por todo esse mundo exótico fora, - pelo oceano imenso – águas é céu. (…) Cheguei ao Japão. Amei-o em transportes de delírio, bebi-o como se bebe um néctar.»

António Luís Catarino 6/11/2017

Recordação precipitada de Alexandre O’Neill 13


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«Ó Portugal, se fosses só três sílabas/linda vista para o mar…». Alexandre O’Neill. Este homem, este poeta, desnudado das palavras a quem atribuía o epíteto de «animais doentes» pela constante tentativa de as tornarem «bonitinhas», tinha o condão da cumplicidade com o leitor. Mesmo quem nunca o leu repete-lhe os estribilhos ou versos com que denunciou este país feito de pessoas importantes, lídimas corredoras de carreiras assentes no «respeitinho» e em «deuses e deusecos» omnipresentes e servis: «País engravatado todo o ano/e a assoar-se na gravata por engano». Estou a falar da expressão «vidinha» com que nos abanou as consciências monótonas de um país alienado e anestesiado «A poesia é vida? Pois claro!/Conforme a vida que se tem o verbo vem/ - e se a vida é vidinha, já não há poesia/ que resista». Alexandre O’Neill tinha ascendência irlandesa de um foragido do século XVIII, sabe-se lá de quê, e que veio desgraçadamente aportar a Lisboa. Portanto, O’Neill lisboeta, crítico do provincianismo capital, de «ombro na ombreira» como quem espera, um dia qualquer, sair da sombra da porta, dar o ombro aos outros e criar a vida poética verdadeiramente livre «Quando tudo escombro/ ainda todos seremos/ombro na ombreira» e que o levou a excessos em que, disse, «fez do corpo uma alavanca para o mundo, sem pensar no futuro». Inventou a vida, ultrapassou o quotidiano repressivo, amou intempestivo, morreu novo. Cá o temos, a alavanca da escrita que o levou a fundar o Grupo Surrealista de Lisboa em 1947. Saiu de lá logo no ano seguinte porque António Pedro, ministro salazarista sabidão, expôs os surrealistas num salão não sem antes aceitar o lápis azul da Censura. O’Neill, parte para outra, e, nos Cadernos Surrealistas, edita Ampola Miraculosa. Tem a sua Nadja, o seu amor louco com Nora Mitrani, surrealista francesa. A polícia política e a família impendem-no de se lhe juntar em Paris. Não mais a vê. Acede, cuidadoso, aos neorrealistas, cansado do convívio com «fantasmas», sem que se lhe conheça militância ativa. Traduz Ubu de Jarry, Brecht. Escreve nos jornais. Colabora em teatro e cinema. Encontra em Tolentino, Cesário Verde, Pascoaes (que chegou a conhecer escrevendo-lhe uma «Recordação Precipitada»), Álvaro de Campos, uma influência a que não foge, como aceita a fórmula para si próprio de um «grande poeta menor». À questão que lhe é colocada em 1962 de qual seria o seu defeito ele responde: «sentir o desencanto». Para um poeta perder o encanto do mundo é perder igualmente o dom das palavras e da vida. Não o perdeu. Portugal para ele continuou a sua Feira Cabisbaixa de 1965: «…Feira cabisbaixa, meu remorso,/ meu remorso de todos nós».

António Luís Catarino 30/09/2017

Portugal e Catalunha: coincidências? 12


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Os destinos de Portugal e Catalunha estiveram quase sempre cruzados. Os reis fundadores da 1ª dinastia portuguesa eram de origem borgonhesa e eram conhecidas as preferências por casamentos fora do âmbito de Castela. Desde Afonso Henriques, primeiro de Portugal, que se casou com Mafalda, da casa de Saboia, até D. Dinis que se enlaçou com uma princesa de Aragão, Isabel, como forma de não colocar em perigo a sucessão para mãos imperiais. Não será igualmente necessário, creio, lembrar os contributos catalães para a expansão afro-indo-americana dos portugueses, nomeadamente os dos célebres mapas (muito completos para a altura) dos geógrafos judeus dos condados de Barcelona. Mas foi em 1640 que a História juntou os dois povos. Lembremos em que consistiu o 1º de dezembro desse ano, ainda hoje feriado nacional por cá: em 1637 houve uma séria revolta popular contra o governo espanhol da União Ibérica de Filipe IV (o «nosso» Filipe III) devido a um brutal aumento de impostos e a repressão violenta que se seguiu. A grande burguesia mercantil, a alta nobreza e o alto clero, que tinham apoiado avidamente a União com Espanha, sentem-se ameaçadas pelas revoltas e antecipam um golpe de estado no dia 1 de dezembro de 1640 declarando a restauração da independência portuguesa. Ora, é exatamente na mesma ocasião que a Catalunha se revolta contra a presença espanhola originando a Guerra dos Segadores que vai de 1640 a 1652, sem que, historicamente, se prove qualquer ligação entre os revoltosos de ambos os campos. A História também é feita de coincidências! A hesitação filipina faz com que Portugal, exangue e sem exército ou marinha dignos desse nome, se refaça com tempo e espaço e a sempre eterna «ajuda» britânica. Mais tarde, levámos com oito invasões que tentaram repor a União Ibérica dos Habsburgos, todas elas sem um vencedor declarado. Isto até 1666, quando se deu a paz. Perante a proximidade do referendo catalão de 1 de outubro de 2017 (igualmente a data das nossas eleições autárquicas!), não se entende a posição de grande parte dos «opinadores» portugueses face à eventual independência catalã: a maior parte cala-se e não toma partido e, quando o faz, insulta os catalães com artigos penosos como «A Vergonha da Catalunha» de  Henrique Monteiro, (Expresso, 8/09/17) ou, pior, resume-se a questionar se é bom para a economia caseira, devido ao peso de Barcelona no PIB espanhol. Outros desdenham o processo, lembrando a Escócia, Sérvia, Croácia, Eslováquia, Eslovénia ou o Kosovo, como se houvesse comparação de realidades tão diferentes. Maior cinismo não há quando, a existir uma comparação óbvia, essa seria a da Catalunha com outro país: Portugal.

António Luís Catarino, 8/8/2017

Bienbenidos an Pertual 11

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Nos finais de julho, desloquei-me a um concelho irredutível que teima em falar a sua «lhéngua» apesar do domínio cultural de Portugal e de Espanha: Miranda do Douro. O título desta pequena crónica vai, pois, para o «probo» (orgulhoso) mirandês de raiz proto-latina, latina e asturo-leonesa, resistentes à força centrípeta de Castela. A razão pela qual viajei até lá, foi para assistir ao Festival Itinerante da Cultura Tradicional «l burro i l gueiteiro» e ouvir as vozes femininas das «Segue-me à Capela» e dos mirandeses dos «Galandum Galundaina». Se o primeiro grupo se baseia na recolha das vozes populares minhotas, beirãs, sefarditas e transmontanas, o segundo grupo canta somente em mirandês. Foi formidável. Só se dá valor à maravilha que é ouvir cantos, alguns já perdidos nos tempos, quem os ouve ao vivo. Mas a estória foi esta: enquanto esperávamos pelo espetáculo noturno e ao calor abrasador do planalto eu tinha várias hipóteses de sobrevivência: beber cerveja numa taberna de Palaçoulo, aldeia que recebeu o festival este ano e ver o Benfica, ou escolher entre dois «workshops» promovidos simultaneamente: um, sobre o burro mirandês em perigo de extinção, outro sobre a «lhéngua mirandesa». Sem pôr de lado a opção cerveja, optei por este último. Bingo! Três horas e meia de aprendizagem da língua liderado por Alfredo Cameirão. Entre palavras verdadeiramente poéticas como cinta de la raposa (arco-íris), caramonos (bonecos) paixarina, (borboleta), etc. ou mais algumas regras ortográficas que os leitores podem consultar na Biquipédia (a Wikipédia mirandesa), veio o desânimo sobre as linhas políticas adotadas para esta língua: como será possível que num universo de 7500 a 10000 falantes de mirandês em todo o país e imigração e após o reconhecimento oficial da língua mirandesa pelo governo (Dec. Lei 7/99) não se aumente o número de três professores (!!) de todo o concelho (7500 almas) para 475 alunos por ano. Pior: desde 1998 que a Unesco criou a Carta Europeia das Línguas Regionais ou Minoritárias onde se inscreve o mirandês, sem que Portugal a tenha sequer assinado (a Espanha obviamente assinou-a). O que leva a este boicote de um «Pertual ye hoije un paíç zambolbido, eiquenomicamente próspero, social i politicamente stable i cun Índice de Zambolbimiento Houmano eilebado. Ancontra-se antre ls 20 países de l mundo cun melhor culidade de bida, anque l sou PIB per capita ser l mais pequeinho antre ls países de la Ouropa Oucidental. Ye nembro de las Naciones Ounidas i de la Ounion Ouropeia (na altura de la sue adeson an 1986, CEE), i nembro-fundador de la NATO, de la OCDE, de la Zona Ouro (€) i de la CPLP»(1) ? Sim, digo eu, somos «pequeinhos», embora, paradoxalmente, na «zona ouro», claro!
(1)      – in Biquipédia, Páigina Percipal

António Luís Catarino 21/08/2017

Culpado? O Sapiens, claro! 10


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Numa praia, ao sol ibérico escaldante, deverão ler livros sóbrios, dos que fazem pensar, sem rir. Nada de policiais, de humor ou de autoajuda. Precisamos pensar nos interstícios dos dias livres. Assim, proponho-vos pensar o Homo Sapiens, esse grande culpado de tudo o que de mal existe na Terra. Exagero? Pois bem, sentem-se numa cadeira ao sol com um boné da Repsol, afastem as crianças e os vizinhos que em vez de colocarem os phones ouvem música aos berros, cuspam em cima dos que apagam as beatas dos cigarros na areia. Estão em condições de lerem «How to Think Like a Neandertal», de Winn e Coolidge. A simpatia destes autores por esta espécie que o Sapiens dizimou, propositadamente ou não, é ótimo para ler vendo os neandertais modernos que povoam as nossas praias e esplanadas. Contudo, colocam a vida mental deles no centro das suas investigações na Universidade de Colorado. Os neandertais ririam? Produziriam arte? Eram capazes de rituais funerários? Teriam deuses? Bom, eles acham que sim. Através da arqueologia, esta espécie canhestra, recoletora, incapaz de elaborar grandes tecnologias de caça, bronca, teria alguma sensibilidade (estranhamente comparam-no a um skinhead), embora rechaçada pelo bom do Homo Sapiens, incapaz de o seduzir para dentro dos seus clãs e sofisticadas tribos. Mesmo que um Casanova sapiens declarasse o seu amor por uma neandertal, o filho que eventualmente nasceria seria infértil, tal a diferença de genes. Quem nos diz isto? É Yuval Noah Harari em «Sapiens, História Breve da Humanidade», outro livro que aconselho. A simpatia deste investigador da U. de Jerusalém por neandertais está aqui bem expressa em contraponto com a antipatia pelo Homo Sapiens culpado de tudo o que de mal aconteceu na Terra. Era feliz como recoletor. A agricultura escravizou-o, o Estado castigou-o sem piedade, as religiões espremeram-no, os impérios utilizaram a cultura única como modo de dominação, a técnica e a ciência foram o maior logro da Humanidade porque estamos a desejar sempre mais do que alguma vez poderemos vir a alcançar. As utopias desfizeram-se em areia depois de milhões de mortos tal e qual como o capitalismo, o zénite da morte programada por esta espécie. Acabamos de ler o livro e sentimo-nos incomodados por sermos Sapiens. Mas como começou tudo, segundo este autor? Pela criação dos mitos e do boato, do dizer bem ou mal do tipo dentro da tribo. Pela maledicência. Só assim, o Sapiens «prosperou» e desenvolveu a linguagem, essa forma torpe de poder. Haverá outros que nascerão dele? O autor hesita entre o Homo Theologicus e o Homo Aeconomicus. Entre um e outro, oremos aos deuses para que não se cruzem!

António Luís Catarino, 21 julho 2017

Feira do livro de Madrid, pois sim. 9


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Uma pequena notícia e opinião divulgadas por um dos grandes defensores da língua portuguesa, Fernando Venâncio, chamou-me a atenção para o que se terá passado na Feira do Livro de Madrid onde Portugal era, este ano, o país convidado. Li, pois, o artigo do suplemento digital El Cultural, de 19 de junho, da responsabilidade de Martín López-Vega. Devo dizer que estou de acordo com a sua crítica quando revela a oportunidade perdida em divulgar a literatura e a poesia portuguesas em Madrid. Já lá vamos. Não concordo muito, mesmo nada, é com a sua afirmação sobre Valter Hugo Mãe quando escreve que é um autor português contemporâneo de «una calidad literaria incuestionable». Não questiono que ele seja um autor, um português ou mesmo um contemporâneo, mas caramba!, de «calida incuestionable»? Ou, ainda, do momento «dulce» por que passa a nossa literatura. Bom, afirmações polémicas, mas adiante. Se assim foi, como Martín López-Vega diz, a presença portuguesa traduziu-se numa lástima. Reparem: a polémica inicia-se com o falar em português em mesas-redondas para um público maioritariamente castelhano, apontando o caso de Eduardo Lourenço. Porque se trata de um pensador, por vezes denso, mas com um grande conhecimento do «ser português» (seja lá o que isso for!) era necessário que ele atendesse às sonoridades próprias da língua, às pequenas nuances, irónicas ou não, que um estrangeiro não tem de perceber. Fui, entretanto, ao site da Feira do Livro de Madrid e, de facto, a imagem de Portugal sai de lá como Martín López-Vega a descreveu. Parecia um postal turístico de...Lisboa! Se havia pastéis de nata, ou água mineral e cerejas do Fundão, nada de mal, mas éramos, ou não, um país convidado para uma Feira do Livro da capital espanhola? Falar de Saramago ou de Lobo Antunes é importante, mas constituí um tema batido, tal como o sabor ressequido de um pastel de nata ao calor tórrido de Madrid. Poderíamos ter feito mais por dar a conhecer autores, esses sim de qualidade literária inquestionável e sabedores da querida alma sofrida portuguesa, como Mário de Carvalho, Mário Cláudio, Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta, Ana Margarida de Carvalho, José Cardoso Pires, Frederico Lourenço, Vasco Graça Moura, José Tolentino Mendonça, O´Neill, Sophia de Mello Breyner Andresen, Manuel António Pina, Ruy Belo, Herberto Helder, Mário Cesariny ou Natália Correia. E tantos, tantos outros que espero dar vida neste espaço. Quanto aos «contemporâneos» bem suportados por editoras/promotoras de grandes egos, haverá tempo de os ver voar. Não sei bem para onde, mas terão destino garantido, certamente.

António Luís Catarino 28/06/2017

1961 – O annus horribilis de Salazar 8


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56 anos não constitui nenhum número redondo, daqueles que são lembrados porfiadamente pelos anais da História. Por isso mesmo, vou lembrá-lo. 1961, foi o início do fim do Império português. Ainda hoje, perguntamo-nos como aguentou Salazar na cadeira do poder, num ano que tinha tudo contra ele. E não é nenhuma metáfora maldosa, visto que foi a queda numa cadeira que, literalmente, o levou à morte. Neste ano, em fevereiro, deu-se início à guerra colonial em Angola que se transmitiu rapidamente a Moçambique e à Guiné-Bissau e Cabo Verde. Foram três frentes de guerra que obrigaram à morte, durante 13 longos anos, de dezenas de milhar de vítimas. Em janeiro, Henrique Galvão e um comando luso-espanhol, desviou o paquete Santa Maria para o Brasil, tendo o governo brasileiro acolhido os «piratas» pró-liberdade como exilados políticos. Em abril, o General Botelho Moniz tenta um golpe de Estado palaciano para retirar o poder a Salazar. A extrema da extrema-direita impediu-o de levar a cabo esta tentativa. Mas a coisa deu frutos. Meses depois, dá-se o ataque do coronel Varela Gomes ao Quartel de Beja, para que se iniciasse um levantamento militar geral. Mal preparado e mal planificado, o golpe morreu ali. Em novembro, um avião da TAP é desviado por Palma Inácio que mais tarde funda um movimento armado – a LUAR. Portugal é, sem dúvida, um pioneiro nos desvios de paquetes e aviões. Em dezembro, dá-se a fuga da prisão política de Caxias, de Álvaro Cunhal e de mais nove camaradas seus do PCP, num carro blindado de…Salazar! Aliás, este partido aumenta os protestos de rua. É ainda em 1961, que Nerhu, da União Indiana, anexa Goa, Damão e Diu, enclaves, até aí, portugueses. É evidente que Salazar tinha tudo para ficar no poder. Ele era um ditador. Portanto, ditava. Reprimia. Tinha tudo para continuar. Que democrata conseguiria, hoje, suster-se assim? Ora, é aqui que me interrogo. Na época da pós-verdade inaugurada por Trump, bastava twittar alegremente, semana sim, semana não, uma espécie de «bad news» desculpabilizantes. «Portugal is attacked by bad guys», «I will build a wall in the Atlantic!» etc. Mas o velho ditador, astuto, sabia o que o esperava: em 1962, em plena contestação académica, perguntou ao então reitor da universidade de Lisboa, Marcello Caetano, se tinha dialogado com os estudantes. Este, mentindo, disse-lhe que não. Responde-lhe Salazar: «Ah, ainda bem, por que se o fizesse, daqui a 10 anos, eram eles que aqui estavam!». Errou por dois anos!

António Luís Catarino, 12/06/2017