domingo, agosto 30, 2026

"As Confissões. Segunda parte", Jean-Jacques Rousseau

 

E-Primatur, 2025. Tradução de Manuel de Freitas. 

O mês de Agosto, para um tipo livre de obrigações, dá nisto: ler Jean-Jacques Rousseau pela sua própria mão. Tem tudo para dar certo. Agosto é um mês em que deixou de fazer qualquer sentido para ser chamado «de férias». Tal conceito não existe num reformado enquanto as seguradoras e o governo de Montenegro nos deixarem livre-trânsito para graus de ansiedade colectiva só equiparada à troika de Passos Coelho.

Este segundo volume das memórias de Rousseau é, talvez, o centro bem visível e sentido de toda a trama à sua volta, já que de filosofia pouco se fala. Com alguma razão, Rousseau deixa-a de lado, visto que as obras dele aí estão bem vivas, até em livros de bolso ainda hoje. Creio não estar a exagerar se disser que o conhecemos bem, por múltiplos factores que são conhecidos. A defesa do seu igualitarismo social e legislativo (ainda longe do igualitarismo económico, bem-entendido), a nova perspectiva sobre a educação das crianças e dos jovens (ainda e só os masculinos, mesmo com a edição de «A Nova Heloïse» em contraponto com «Émile»), a necessidade de um «Contrato Social» entre governantes e governados, «Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens» e o incontornável «Devaneios de um Caminhante Solitário». 

Nas «Confissões», e principalmente neste segundo volume, ele aborda a sua vida e as suas relações com muita gente que conhecemos bem, como Voltaire (a quem não perdoa o desprezo a que foi votado por este com a edição de «Cândido» subtilmente, ou nem tanto, dirigido às suas posições sobre o ''bom selvagem'' e sobre a posição de Rousseau sobre o terramoto de Lisboa de 1755, nem diferente da de Voltaire), como Diderot e D'Alembert que o afastam dos seus círculos e até com Montesquieu que é, estranhamente, pouco referido neste segundo volume. O grande mistério em torno deste volume é, em parte, a ingenuidade que dá mostras Rousseau. Os círculos em que se move são os dos possidentes, a mais poderosa aristocracia que enxameiam os salões, os cafés e as academias. Por muito que admirassem o brilhantismo de Rousseau, ele esquece, ou parece esquecer talvez para não morrer na pior das misérias que chegou a conhecer bem, que esta gente não perdoa o facto de ele defender a igualdade do género humano, quando o que está na génese da monarquia absoluta é exactamente o seu contrário: a defesa da perpetuação das desigualdades. É aí que Rousseau se move, porque é nesses círculos que se publicam as obras, onde perdura a censura e os possíveis favores que ela pode oferecer, onde está as enormes somas de dinheiro provenientes dos impostos e do feudalismo ainda mantido a ferros, onde pode esperar algumas prebendas em forma de parcos ordenados para subsistência de si e de Thérèse Levasseur, sua companheira com quem teve cinco filhos nunca criados por eles e sem que neste volume mostrasse profundos remorsos de os ter abandonado. Não sei se alguma vez ele se questionou sobre o seu papel neste meio aristocrático e se poderia ou não ter construído uma teoria da luta de classes, mas a verdade é que a burguesia (da República suíça, genebrina, principalmente) não foi muito melhor para ele e o povo apedrejava-o literalmente nos seus longos passeios pelos bosques e montanhas, aqui por razões de religiosidade fanática, quer em França, quer na Suíça. Chegou a temer pela sua vida várias vezes. Tentou a ilha de Saint-Pierre, mas em vão: foi expulso pela cidade-estado de Bienne. Antes foi corrido em Neuchâtel, Yverdun e Motiers, onde houve um levantamento popular contra a presença dele. Portanto é possível que não visse algum germe libertador em qualquer classe, mesmo nas subservientes.

Vai tentar, já doente, a possibilidade de Berlim, embora Londres e Hume o esperam por influência de alguns «beneméritos» franceses.

alc

sábado, agosto 15, 2026

"As Confissões. Primeira parte", Jean-Jacques Rousseau

 

E-Primatur, 2025. Tradução de Manuel de Freitas. 

Numa época em que dificilmente se encontra qualquer identificação pessoal, em que o miserabilismo cultural é uma realidade, em que qualquer asno se não coíbe de se considerar como um pensador, quando o caminho que a sociedade escolheu, com o beneplácito de imbecis encartados, é o da sua própria sobrevivência, não deixa de ser reconfortante iniciar a leitura de «As Confissões», de Jean-Jacques Rousseau. 

Talvez esta primeira leitura nos obrigue a conhecê-lo melhor e compreender algumas das suas escolhas e explanações filosóficas que mudou substancialmente o rumo da sociedade feudal e aristocrática, dando início a uma das maiores revoluções que a História conheceu: a Revolução Francesa de 1789, mesmo que ele se mostrasse avesso a qualquer acto de violência e tivesse falecido muito antes do seu eclodir. Mas não deixa de ser sintomático o que disse quando assistiu aos «confrontos» de Genebra em 1737: «Esse espectáculo horrível causou-me uma impressão tão intensa que jurei nunca participar em qualquer guerra civil e nunca procurar defender a liberdade pelas armas (...)» (pág.260). Assim era Rousseau, um tipo inquieto, procurando através dos livros, que lia em catadupa desde criança e sem método, uma síntese que o pudesse levar a um pensamento lógico e estruturado. Não se vê ainda aqui neste volume, visto que Rousseau é ainda um jovem entre os onze e vinte e cinco anos, mas já se nota o seu interesse por imitar a escrita de Voltaire, que admira, e citar antes do seu tempo, Diderot, a quem propôs uma volta a Itália a pé, desde os Alpes suíços. Diderot, embora aceitando, foi colocando educadamente a hipótese, meia louca, em banho-maria. Na sua juventude, como conta neste primeiro livro, para além dos já citados livros de todo o tipo que devorava impulsivamente, dedicou-se igualmente à composição musical que levou até bastante longe na sua idade e ao desenho e geometria. Vendeu, para sobreviver, os seus livros de geometria e queimou várias composições e óperas da sua autoria. 

De resto, vemos Rousseau na sua juventude envolto em liberdades amorosas, principalmente com a senhora de Warrens, a quem chama de «mamã» (a sua morreu o seu nascimento) e que por vezes acontece tornar-se parte de um dos vértices de triângulos de desejos incontidos. Preceptor de jovens de famílias ricas, consegue reconhecer os seus erros e atitudes menos correctas apontando já para a tema de «Émile» e de «Heloïse», assim como as suas constantes viagens a pé ou de liteira, o apontam para o «Pensamentos de um Caminhante Solitário». O que nos faz ler este volume num ápice é o facto de Rousseau se mostrar completamente despido diante de nós, de ser honesto em extremo, coisa que não é habitual em autobiografias. A sua relação com a religião não é esquecida e o facto de ser católico e mais tarde ter-se convertido ao deísmo, se assim se pode utilizar o verbo «converter» quando se fala em deísmo, mas nota-se já o seu profundo desprezo para com a igreja e claramente adepto da convivência entre todas as religiões do mundo. 

Não se revê na França do século XVIII e muito menos em Paris. Embora suíço de nascimento, genebrino, e cidadão do cantão de Vaud, Paris foi para ele uma grande desilusão motivada pelas enormes desigualdades sociais a que assiste em jovem. Mostra o desdém do dinheiro e do que ele pode dar, recusa a servidão a que este obriga as pessoas que o perseguem com obsessão. Usa-o, gasta-o, não sem dificuldades várias, guarda-o na medida certa: «O dinheiro que se possui é o instrumento da liberdade, aquele que se persegue é o instrumento da servidão. É por isso que o junto com cuidado e que não cobiço nada.» (pág.50). Parece-me que o deve e o haver com a filosofia e com os seus contemporâneos vai ter vasta descrição no segunda parte da autobiografia.

Rousseau ainda é hoje execrado por vastos sectores da direita e da extrema-direita. Em pleno século XXI, tal como Marx e outros igualitários, é objecto de torções ideológicos que deixam um rastro de ódio, mentiras e meias-verdades, mesmo até por alguns sectores de esquerda. Convém lê-lo em «As Confissões» e talvez entendamos melhor ao que veio e o que publicou. Afirmá-lo como um «inimigo da liberdade» tal como o fez Isaiah Berlin e muitos que o seguem nas universidades actuais é. no mínimo, qualquer coisa de infame e intelectualmente desonesto. 

Nota pouco importante, mas intrigante: lembram-se, certamente, da rábula do pão e dos brioches a que atribuímos a Maria Antonieta. Há quem diga que nunca o disse, visto que o boato era uma forma de desinformação constante nos dias anteriores à Revolução Francesa, mas serviu como metáfora maldita para a jovem rainha. Ora, neste livro, na página 323, ele dá esse exemplo como fosse dito por uma «princesa», mas não a identifica. Rousseau morre em 1772, muito antes da data de 1789. Maria Antonieta é morta em 1793, tendo-se casado. com Luís XVI, em 1770, com catorze anos. Penso que nunca poderia ser ela a autora da frase que lhe é atribuída, ou, se o fez, era extremamente nova. Então a quem?

alc