quarta-feira, setembro 15, 2021

"Abjectos Surreais" Início

 


Começou e acabou, temporariamente é certo, a consulta e a pesquisa que realizei nestes últimos dois anos, sobre os surrealistas incluindo a vertente abjeccionista, talvez a maioritária na corrente portuguesa. Este estudo levou-me à concepção de 14 desenhos que  serão expostos no Liquidâmbar nos dias 1 a 18 de Outubro, em Coimbra. 

segunda-feira, setembro 13, 2021

Os zapatistas chegaram à Europa. Pela vida! Sobre a educação (1)

Hoje, no início de mais um ano letivo, deparamo-nos com a aridez, a estupidez, as leis circulares, o faz-de-conta de uma impossível coerência concetual das mesmas propostas todos os anos repetidas, até ao cansaço total dos professores que sabem melhor do que ninguém do que a casa gasta. A falta de propostas ministeriais do edifício educativo esconde-se atrás da opacidade de palavras como «reformulação», da «reconfiguração», da «revisão» ou da «reavaliação» de coisa alguma. Tudo fica na mesma. E aqueles que apontam isto mesmo, são apelidados de «conservadores» de «atreitos à mudança» como se a resistência a uma ridícula inovação estivesse connosco no circo em que se tornou a educação. Diz Debord, na sua «Sociedade do Espectáculo» que num mundo ao contrário, o verdadeiro é um momento do falso. Nós vivemos num mundo invertido. Mas porque começo eu a falar de educação quando quero falar da viagem dos zapatistas?

Os zapatistas chegaram à Europa e são poucas as publicações e os grupos anticapitalistas que tentam divulgar este acontecimento que eu apelidaria de histórico não fosse a proximidade da data em que os factos tiveram, têm e terão lugar: 2021. Cedo para qualquer análise séria. Esta data escolhida quer assinalar a chegada dos europeus à América com as consequências que conhecemos. Honra seja feita ao «Jornal Mapa» e à revista «Flauta de Luz» que nos dão e darão a conhecer pormenorizadamente o fim político a que se destina esta viagem marítima dos zapatistas e do EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional) à Europa.

Falemos então de educação zapatista pela descrição de quem lá esteve e publicada pela já citada «Flauta de Luz»: Jérôme Baschet cujo «La Rébellion zapatiste» de 2019 foi traduzido em trecho importante por Júlio Henriques: a rebelião armada de milhares de homens e mulheres que teve lugar em Chiapas a 1 de janeiro de 1994 exigia mais liberdade, democracia e justiça. Hoje, são 31 os estados mexicanos nas mãos dos zapatistas ou sobre a sua influência direta, não obstante as perseguições e repressão a que estão sujeitos.

A mobilização pela educação foi das áreas mais abraçadas e desenvolvidas pelos zapatistas e pelo EZLN, logo atrás da Reforma Agrária. Aliás, isto não é novo nos movimentos rebeldes da América do Sul e em África. A educação é fundamental para a consolidação e resistência contra o capitalismo. A organização que deu lugar à escola zapatista é que nos deve chamar à atenção:

1. Logo em 1994 foram construídas centenas de escolas por Chiapas e estados mexicanos limítrofes. Primeiro as escolas primárias, mas em 2003 encontrava-se a funcionar uma secundária. Em Oventic chegou-se a iniciar a construção de uma escola secundária e só depois a primária, o que determina bem a autonomia dos «conselhos do bom governo» de cada região zapatista.

2. Em 2008, nas cinco principais zonas do EZLN, funcionavam cerca de 500 escolas, existindo 1300 promotores (não existem «professores», como tais ou como nós os entendemos na Europa) e 16 000 alunos. Em 2013 só na zona citada de Los Altos em Oventic, havia 157 escolas primárias, 496 promotores e 4886 alunos. Isto demonstra bem o nível de esforço coletivo de todo o movimento em torno da educação.

3. O papel do promotor é encarado como um papel prestado à comunidade e implica que esta se compromete a ajudar os promotores ou promotoras das suas necessidades, fornecendo-lhes produtos ou ajudando a cultivar a sua «finca» ou construindo-lhe a casa. Não há salários em dinheiro para os promotores, o que não quer dizer que ele tenha desaparecido totalmente. Nem poderia, como explica o artigo mais adiante.

4. É a assembleia comunitária que juntamente com o promotor, membros do conselho e os pais debatem as disciplinas, o teor do projeto educativo ou que estabelecem um calendário/horário para substituir os auxiliares, visto que estes não existem. Os alunos e os promotores tratam de grande parte da sua escola. Portanto, é na assembleia comunitária que os promotores e a comunidade definem os seus compromissos coletivos e que são discutidas as orientações educativas. A educação torna-se assim uma questão de todos.

5. A educação zapatista não está, contudo, isenta da influência da educação tradicional, como é evidente. O que se tem verificado é uma pressão dos pais para que o modelo da escola preexistente continue a funcionar, mas agora com um carácter verdadeiramente prático e utilitário. Paradoxalmente, este processo implicou uma «dupla dimensão de reprodução e de reformulação» e levou a prática zapatista «a uma profunda subversão do modelo escolar dominante» (J.B. op.cit.)

6. Pelo que ficamos a perceber (e é tão óbvio entendê-lo) é que o ensino escolar zapatista está em grande parte pensado a partir da realidade concreta da vida comunitária como o conhecimento do meio ambiente que o rodeia, natural, local e do planeta, da saúde preventiva e ambulatória, valores comunitários, problemas concretos que obrigam ao uso da matemática, à história dos povos e da luta zapatista, rompendo com o monopólio do saber instituído e dado como absoluto e inquestionável.

7. Nem sempre as coisas correm bem. Os promotores e as promotoras são quase sempre muito jovens e o seu entusiasmo é muito, mas depressa se deparam com dificuldades várias como o suprimento de algumas necessidades básicas que as comunidades tentam debelar a todo o custo, mas muitas vezes sem sucesso, o que os obriga a abandonar esses cargos sendo substituídos por outros mais jovens. Porém, isto nem sempre é mau. Em primeiro lugar, o primeiro promotor/a nunca consegue abandonar totalmente a sua «escuelita», enquanto que os segundos ou terceiros se vinculam com interesse aos alunos aproveitando o trabalho já realizado, renovando métodos e matérias. Ou seja, a rotatividade a que obriga a diversidade de tarefas na comunidade pode ter sido um fator positivo na própria inovação dos métodos de ensino e de educação anticapitalista e solidária.

Que a experiência zapatista embrionária obrigue a uma reflexão séria de como a educação pode e deve ser uma alternativa cada vez mais desejada, quer pelo cansaço institucionalizado por incompetentes muito pouco, ou quase nada, democráticos. Esses enchem a boca sempre que se fala em democracia, em educação, ou cidadania «exigindo» um capitalismo verde que nos levará à derrocada total sem retorno se não construirmos urgentemente alternativas ambientais e de uma outra ideia de produção que é urgente debater na Europa. Uma outra educação deve ser abraçada e os indígenas de Chiapas podem dar-nos lições dessa ligação ancestral entre o Homem e o Planeta- Ouçamo-los.

António Luís Catarino

segunda-feira, setembro 06, 2021

Os anos que passei naquela casa em Coimbra 1

Fotografia de Coimbra, Arregaça, 1922

Não sei o que me levou a guardar a fotografia, mesmo sabendo que a nostalgia não é propriamente o meu forte. Encontrei-a numa página do Facebook sobre Coimbra Antiga 2. A foto refere-se à construção, em 1922, da Fábrica de Porcelana da Arregaça. Estava quase acabada e servia de propaganda à evolução fabril de Coimbra. A minha casa de família (branca) encontra-se no lado direito logo acima do telhado do que viria a ser os escritórios, refeitório e o jardim infantil dos filhos das operárias e operários que lá trabalhavam e que chegaram a ser mil.

Passei vários anos naquela casa que o meu bisavô Francisco herdou juntamente com a Quinta de D. João (hoje uma chusma de prédios multicolores); mais tarde passou para o meu avô Manuel Francisco Catarino e para a minha avó Alice Amélia filha do meu bisavô que não cheguei a conhecer. Conheci a quinta de D. João com todo o tipo de animais, muitos espécies de cereais, oliveiras, hortas, pomar e muita água. 

Lembro-me vagamente de alguns natais que passei muito miúdo, mas marcou-me de uma maneira indelével a minha estadia mais permanente a partir do ano de 1972. A vida naquela casa era marcada por três momentos: o apito estridente da Cerâmica que marcava as interrupções do almoço, da entrada de manhãzinha dos operários e da saída da tarde em que se enchiam as tascas da ladeira que dava para a rua do Brasil; o apito do comboio da Beira que passava mesmo atrás da casa e o relógio da sala do meu avô encimado com a águia alemã. Aliás, esse relógio a quem o meu avô dava corda tão religiosamente como religiosamente se davam graças antes das refeições, tinha uma suavidade em cada batida que contrastava com a agressividade da águia cujo bico aberto procurava em vão uma vítima incauta. Esse relógio tinha uma história obscura de que ninguém falava: seria um presente de um piloto (nazi?) alemão que esteve lá em casa, lá para 45 ou 46, recomendado por Bissaya Barreto e que depois o mandou como prova de gratidão ao meu avô da América do Sul? Por mais que perguntasse a resposta era sempre «come, rapaz, come!»

Ao lado da capela da casa havia o Vitória Futebol Clube onde fui a alguns bailes. À frente do portão da casa na Rua do Brasil havia uma mercearia do Sr. Sotero, um republicano ateu que se tornou meu amigo, dono de alguns segredos com quem desabafava por causa da austeridade familiar. Até que a política vinha ao de cima e eram aulas inteiras de antifascismo e antisalazarismo, já que Caetano, para o Sr. Sotero nada dizia e era um cobardolas dos grandes. Era para cair de podre. E caiu, mas já com a minha ajuda e de camaradas do Liceu D. João III em que se destacava o meu amigo, até hoje e sempre, João Pinto Ângelo. Uma vez houve que o Sr. Sotero teve de esconder uns comunicados contra a carestia de vida, em 1973, após a crise do petróleo e em que cirandava um Ford Escort LH de matrícula e cor conhecida. «Tenha cuidado menino, tenha cuidado!» Nunca percebi se aquele cuidado era para eu ter da Pide se do meu avô! Um dia perguntei-lhe. A resposta foi: «Se o menino soubesse!». Isso já me tinha sido dito pelo barbeiro, o Sr. Tiago ali ao fundo das Alpenduradas. «Se o menino soubesse!».

Comecei a ficar irritado, primeiro, o tratamento de «menino». Já não era nenhum menino! Tinha 15 anos e uma namorada, caramba! A Guida, que lia Sttau Monteiro. Eu, já andava com as «As Três Fontes», edição da Centelha, de V. I. Lenine bem encapado, com estilo de rebeldia absoluta e irreversível. O «Manifesto» também fazia parte dos meus planos de leitura. Mas dava-me para ler «A Mãe» de Gorky, «O Don Tranquilo» de Simonov, «A Resistência Francesa», Roger Vailland, Urbano e Daniel Filipe que partilhava com a Guida, não tivesse ela também necessidade de um amor urgente. Não, não tinha. Paciência... ainda estávamos nos inícios dos anos 70.

Afinal soube depois, pelo Sr. Sotero, que a minha família não era impoluta ao nível da ética e da moral que todos os dias a austeridade obrigava. O «...se soubesse!» era a maneira como a minha avó, monárquica absoluta (daí o nome Amélia, coitada!) tratava os ranchos vindos da Beira para trabalharem na quinta (coisa a que já não assisti e ainda bem). Consta que batia nos camponeses e os castigava sem comer. Aquilo foi um choque muito grande para mim e até hoje. Os operários da Cerâmica com quem eu me dava nos bailes do Vitória, também se calavam quando a minha família vinha à baila. Só mais tarde o Rocha, companheiro de tasca e operário é que me contou que ali não havia gente que os gramasse. Já tinha contactos com o PC onde arranjava o Avante! e foi com ele que ouvi pela primeira vez o nome estranho de comunismo, mais complicado ainda o de «Partido Comunista». Embora não fosse militante a sua companhia ao meu lado fazia com que não houvesse o silêncio do costume quando entrava numa roda de amigos. Agora, falava-se abertamente contra o governo de Caetano o que me fazia tirar da minha bolsa «à soldado do vietname» com um símbolo hippie da paz, uns comunicados da Cdec e da Cpael, que para os operários nada diziam, mas sempre me encontrava ufano perante eles.

O Aviz era outro dos cafés que frequentava, embora tivéssemos cuidado com o dono. Vindo de Moçambique nunca se sabia do que ele era capaz em relação à política dos clientes, nem que informações poderia dar. Era lá que me encontrava com a Guida, isto por volta de 1972/73. Mas era a Clepsidra a nossa casa política. Quando entrámos na Cdec (Comissão Democrática de Estudantes de Coimbra) e na Cpael (Comissão Pró-Associação de Estudantes Liceais) o nosso «controleiro» era o Lizardo, hoje Juíz na Madeira e universitário já batido desde a crise de 69. Era ele que nos redigia e policopiava  os comunicados (já havia confiança para sermos nós a fazermos isso) e nós distribuíamos nos liceus e nas ruas. Havia também uns autocolantes contra a guerra colonial (mais perigoso o tema) a carimbo. Só que não eram bem autocolantes; eram mais selos grandes da largura da língua o que no-la deixava seca que nem cortiça. Colávamos nos postes de iluminação e nem a Pide era capaz de os arrancar. Mas era preciso muitos litros de saliva. Imaginem os sustos que apanhávamos porque eu, o Pinto Ângelo, o  Sarmento e o Brito Moura faziamos aquilo de dia à saída das aulas. Mas os litros de cuspo que gastávamos à fartazana na luta antifascista, faltavam para os beijos com a Guida. Nem as palavras saíam bem. Parecia que estávamos com uma enorme bebedeira e ler Daniel Filipe naquelas condições era um desastre, muito menos beijos na Guida, mesmo a emborcar copos de água, sobre copos de água o que me levava constantemente à casa de banho. Isto tinha futuro? Tanto como Caetano!

Muitos desses comunicados eram escondidos no celeiro da minha casa sem que ninguém o soubesse. Aliás, nunca perguntei por que razão transformaram uma antiga capela privada com altar e tudo, num celeiro. A uma família tão católica não caía bem o rol de favas, lentilhas, batatas e ervilhas com que era brindada a eventual ex-casa do Senhor. Mas junto às leguminosas e tubérculos lá estavam os comunicados.

O primeiro confronto que tivemos com a polícia de choque foi na Baixa e em outubro de 1973. Os bilhetes dos STCP tinham aumentado 50% devido à inflação provocada pela crise da guerra israelo-árabe e não foi muito difícil mobilizar estudantes dos liceus e das escolas técnicas de Coimbra. A ordem era de ocupar os elétricos (os tróleis não, porque tinham portas automáticas) e gritar «Aqui ninguém paga bilhete!» o que não dava muito jeito como estribilho, mas o que valia era a intenção. A coisa correu como devia e com a cumplicidade da população até que, chegando à portagem, quer o pica-bilhetes, quer o condutor, talvez combinados, agarraram-se com os dois braços à porta para não nos deixarem sair, a nós que ouvíamos já os «níveas» a virem a alta velocidade e em sentido contrário na portagem. Foi preciso um dos irmãos Póvoas dar um golpe de karaté improvisado no peito do condutor para sairmos todos a correr com um polícia anafado de pengalim atrás de nós. Subimos para o arco de Almedina e só parámos na universidade.

Ainda mais confrontos houve entre 1973/74. Eram quase diários, mas lembro-me um em que meteu cães e isso sim, assustámo-nos mesmo. Foi nas «eleições» de 1973 em que a oposição ligada ao MDP/CDE convidou o Teuc a apresentar uma peça «O Asno» (era Américo Tomaz, claro). Eu e a malta dos liceus fomos para o 1º Balcão para, quando começasse a peça, atirarmos cá para baixo comunicados contra a palhaçada das eleições. Fizémo-lo, mas perdemo-nos uns dos outros na confusão que se gerou com o chefe da polícia a vociferar as proibições que tínhamos de seguir para assegurar a «legalidade»: não podíamos falar da guerra colonial, nem falar do PR, nem do PM, nem, nem, nem...claro que a reação imediata foi «Abaixo a Guerra Colonial» e uma cena de porradaria em larga escala. Perdi a Guida, perdi um trólei que não abriu as portas para fugirmos, ia perdendo um sapato, e perdi a alma e a dignidade quando um polícia me agarra pelos colarinhos traseiros com o cassetete já bem levantado se recusa a dar-me uma bordoada. «Vai-te embora puto do c...que dou cabo de ti, vai para a tua mãe!». É, embora de cara imberbe, estou convencido que lhe lembrei o filho, sabe-se lá!

A casa aguentou ainda as mudanças brutais e necessárias de uma sociedade decadente pela Revolução de 1974. O 25 de Abril foi para mim inesquecível e estive três dias falho de sobriedade tal era a alegria e a possibilidade de construções várias o que se prolongou por dois anos do gloriosos Prec. Não voltei a ser o mesmo, nem o meu avô. Criou-se uma barreira fria entre mim e ele. A primeira expressão que me atirou foi um «Estás satisfeito»?». A minha resposta foi um enorme sorriso. Que ainda hoje perdura quando estou com amigos desse tempo ou quando me recordo desse dia «inteiro e limpo» como soe dizer-se por via da maior poeta, Sophia.

Esta casa a que me foi atribuído ser o último cabeça de casal, guarda ainda os cheiros a primavera do jardim que entravam na minha pequena janela do quarto, como o cheiro da terra das chuvas de verão e dos invernos frios onde passava noites a ler. Ao ver esta casa e a aproximar-me, hoje, dela vem-me à ideia ter sido o último cabeça de casal, repito. Há toda uma história para trás que me deixa inquieto por já estarem todos mortos e que nunca consegui decifrar, principalmente os silêncios. Do meu tio avô Luís que fugiu de um campo de retenção de estrangeiros na Áustria nazi, de um suicídio de um irmão do meu bisavô no mar da Figueira, diz-se que por ser da Maçonaria, do meu próprio bisavô e da sua estadia longa (mas não tão longa assim) no Brasil e que se meteu em trabalhos, do pensamento do meu avô que criou a Mocidade Portuguesa em Coimbra e que tinha assinado por Mussolini o seu «Testamento Político», mais a sua admiração por Salazar de que tinha sido aluno no Curso de Direito que abandonou, substituindo-o por Clássicas. Pergunto-me porque falava ele de Proudhon com admiração. Mais tarde soube de uma corrente fascista que enaltecia o filósofo, mas o meu avô remetia-se sempre ao silência da austeridade e da frugalidade. Eu não era como ele, decididamente. Tirando o amor que tinha pela minha tia, a minha melhor companheira daquela casa já vazia e sem alma nos seus últimos anos, não guardo afetividade. Embora olhe para ela da Rua do Brasil e sinta que eu poderia estar ainda lá. Talvez mais gordo, provavelmente sozinho, frio como gelo, rodeado de recordações e dando corda a um relógio cujas badaladas suaves me lembravam uma águia nazi.

António Luís Catarino

 

A necessária autodefesa antifascista

Qualquer «autodefesa», qualquer «antifascismo» são conceitos recuados porque nos fazem desviar-nos de objectivos essenciais, daqueles que verdadeiramente transformam o mundo. No entanto, hoje, e também no espaço europeu, seja lá o que isso for, o fascismo mostra os dentes e alarga-se a todas as esferas. Não que seja uma novidade: o fascismo que é um estádio de um capitalismo em crise estrutural (os conjunturais até lhe dão jeito) serve-se deste sistema para ocupar o lugar dos regimes úteis como a social-democracia, o socialismo «democrático», a democracia-cristã, o liberalismo e por aí fora... ou seja, quando o capitalismo entra em sérias convulsões não só de representação, mas como de legitimidade e eficácia o fascismo torna-se uma arma do capitalismo: ameaça, ataca, morde, tortura e mata.

Daí, a autodefesa antifascista ser uma hipótese séria também de ataque aos fascistas. Não lhes dar tréguas, criando redes de solidariedade e afinidade entre antifascistas que os combatem. A autodefesa servirá para que haja avisos sérios para os fascistas terem conhecimento e sentirem na pele, que todo o ataque a um  revolucionário, a um comunista, a um antifascista, ou por «critérios» racistas e de género serão castigados e terão a resposta adequada.

É importante a constituição de redes de afinidade e de autodefesa que tenham por objetivo a construção de linhas de atuação com base na atividade física, festas, caminhadas, reuniões, edições de boletins de informação, aulas de contacto e autodefesa, etc... a não ser assim, o conceito de autodefesa pode ser uma proposta vã. Saudável, mas vã.

«Barranco de Cegos», de Alves Redol

Barranco de Cegos, de Alves Redol, é uma edição da Caminho, 13ª ed. Editorial Caminho/Leya

«Chicote e açúcar!», lema de Diogo Relvas, personagem principal de «Barranco de Cegos», latifundiário do Ribatejo cujas terras se alargam até muito ao sul do Tejo, neto de um lavrador que enriqueceu com a Guerra Civil de 1832-34 tomando o partido dos liberais e aproveitando-se do fim dos morgadios e terras da igreja e dos conventos. O pai de Diogo Relvas também ele de ténues sinais liberais comprou ao desbarato terras da Companhia das Lezírias levadas a cabo pela Regeneração aumentando o pecúlio já enorme da família e de Diogo. Homem bruto, como convém, a qualquer latifundiário que se preze, preocupa-o o liberalismo e abraça de mansinho o absolutismo bem descrito nas cabeças embalsamadas dos dois cavalos que mantém na sua sala: um cavalgou-o D. Pedro, o outro, o mano Miguel.

Mas a luta é outra em todo a obra de Alves Redol neste excepcional «Barranco de Cegos». O embate duro é entre a lavoura e a indústria nascente como seu rol de corrupção, de acções ganhas por especulação, por entendimentos políticos em Lisboa (uma babilónia de pecados que ele próprio pratica quando lá se desloca amiúde), por escândalos bancários em convivência real, por negociatas em torno dos caminhos de ferro que esventram o país de lés a lés e, para mais, o apetite da Inglaterra e Alemanha pelas colónias. «Ainda nos calha outros brasis!» explode Diogo Relvas nas suas arengas na Sociedade da Lavoura perante os que o aplaudem à frente, mas que vão negociando, em segredo, acções na indústria florescente e apoiada por fundos bancários. A agricultura já não pertence a este país. O que vier se verá!

Entre crises políticas e financeiras sucessivas como o ultimato inglês de 1890, a revolta republicana do 31 de Janeiro de 1891, a bancarrota de 1891/92, Diogo Relvas pensa que a monarquia enfraquece a cada dia que passa. E tem razão até 1908 quando D. Carlos e Luís Filipe são assassinados no Rossio. Não que o choque muito, porque já virado para o futuro, culpando antes o ditador João Franco por brandura e cedendo aos republicanos. Para ele a permanência da monarquia é uma quimera perdida. Lúcido (e como Diogo Relvas convoca a lucidez sempre para si) vê a solução na ditadura.

Não creio que Alves Redol tenha grande amor pelos republicanos. Muito menos por monárquicos em decadência exposta. Pelo menos não o demonstra neste livro. Já com a Associação dos Valadores pressente-se a sua simpatia por um povo que fez crescer os frutos de uma terra árida e pedregosa que Diogo Relvas os presenteou por três gerações (a enfiteuse ibérica que substituiu o feudalismo europeu?). Aí, a sua raiva e violência vem ao de cima com a capacidade do povo em organizar-se e fazer valer os seus direitos. Ameaça, manda prender, manda espancar matar. O mando dos latifundiários retratado brutalmente por Redol.

Ao mesmo tempo que o chicote se sobrepõe ao açúcar de Diogo Relvas e clama por uma ditadura que há-de vir, graças aos céus e aos lúcidos como ele, a vida afasta todos os seus - os da família e os apaniguados - e a loucura do neto que lhe sucede acompanha a comédia da sua morte escondida como aos cavalos dos reais irmãos desavindos em guerra civil de outrora: empalharam-no num embalsamamento a que a natureza lhe deu o fim com luz e vento: reduziu-o a pó.

O povo português foi durante muito tempo tratado a «chicote e açúcar» tal como no Brasil escravista ganhava a «porrada e feijoada». Não sei se haverá alguma percepção geral desse facto que durou séculos de infâmias, violências, humilhações e dominações sexuais, em que o estupro e a violação de mulheres era uma constante pelos mais poderosos. Também não sei se haverá vontade política para que, através da escola e dos responsáveis da cultura deste país, o relembrem ou sequer lhe dêem a visibilidade que, na obra de Redol (e conheço-a pouco) é mais que merecida. E não me venham com o rótulo estafado e redutor do neo-realismo, embora este tenha existido com invulgar fulgor numa terra de iletrados e abraçado pelos subjugados. Sabe-se porquê: era a resistência. Mas isto é pura literatura que deve ser lida e relida.

António Luís Catarino


«Vozes ao Alto! 100 Histórias na História do Partido Comunista Português» AAVV



E chegou-me hoje! «Vozes ao Alto! 100 Histórias na História do Partido Comunista Português». Culpadas/os: Adriano Miranda, Cristina Nogueira, Egídio santos, Isabel Nogueira, Maria Alice Samara, Paulo Pimenta e a querida amiga Vanessa Almeida.
O livro, graficamente muito bem trabalhado, divide-se em três secções qual delas a mais empolgante: a da legalidade (1921-1926), a da clandestinidade (1926-1974) e a da liberdade (1974-2021).
Uma obra excelente que obriga à consulta constante, até porque nos revemos em muitos dos objectos lá descritos e fotografados. Uma antropologia do PCP e da História deste país.

Nota Breve: A 4ª secção, digo-o eu, e ainda não publicada, podem pedir a Isaac Azimov, Stanislav Lem, Ursula Le Guin ou ao Marques Mendes (futurologista conhecido), mas creio que é o melhor perguntar aos primeiros mesmo que estes não respondam de imediato.


domingo, agosto 29, 2021

O Chega faz o abraço de urso aos professores

Capa do Expresso após as legislativas. A recusa em ver
resolvidos os problemas dos professores dá votos à extrema-direita.
E esta já o compreendeu para as autárquicas.

Isto já não é pesca à linha que o Chega faz aos professores: é uma verdadeira pesca de arrasto que, como sabemos devassa não só os peixes, como o fundo do oceano base de toda a alimentação. Metáfora, é certo, mas que serve para compreendermos a estratégia da extrema-direita.

No argumentário utilizado pelo Chega para levar a bom termo as campanhas autárquicas aconselha os seus candidatos a não hostilizarem os professores, visto que num dos sete pilares da campanha o candidato chegano é levado a:

Considerar os educadores e os professores a chave do bom desempenho eleitoral (…). Aproximando-se dos educadores e dos professores do seu concelho, estratégia política e eleitoral fundamental para a inserção e afirmação do Chega no mundo autárquico e a nível nacional, no imediato e a prazo”. 

E entre todos os considerandos do partido de extrema-direita que são claramente entendidos por todos nós como óbvios devido à degradação do ensino levada a cabo pelos sucessivos governos acrescenta-se ainda:

Nenhum autarca da actualidade (…) é inocente na grave degradação do ensino e, por isso, deve ser clara e objectivamente criticado. Por todo o país, nenhum autarca tem desculpas para não ter visto, por exemplo, crescer a indisciplina nas salas de aula, as depressões e frustrações entre educadores e professores ou a consequente má preparação escolar que se tem agravado, prejudicando o futuro das crianças e jovens das famílias que não podem pagar o ensino privado, ou nem sequer têm acesso ao mesmo''.

Por hoje, os autarcas serão os culpados, amanhã... Ora isto é escrito e assinado por Gabriel Mithá Ribeiro, um chegano que antes de o ser já o era, mesmo quando militante do PSD publicando um triste livro sobre as «mentiras» históricas que os manuais do ensino público andavam a propagandear, principalmente no que respeita à «gloriosa» expansão e posterior colonialismo português. Hoje, diz que o racismo acabou com o apartheid sul-africano. Não existe, ponto! Também se destacou pela invectivas contra a indisciplina nas escolas e a coisa colhe pela demagogia: nada melhor que a prática escolar do regime salazarista para pôr as coisas em ordem.

Mas a autêntica volta de 180 graus vem com o programa do Chega: defendendo acerrimamente o fim do SNS e da Escola Pública, no que a esta última diz respeito inflecte o discurso: afinal a escola pública é para existir. O que se deve é dar aos professores mais autonomia para acabar com a bandalheira da indisciplina e apontar os culpados visto que e mais uma vez não há um só autarca que não seja culpado ao que isto chegou nas escolas'.

É com alguma apreensão que vejo este namoro descarado aos professores com um discurso populista e demagogo em toda a linha. Mais apreensão tenho quando noto que está tudo silencioso. Temo que este discurso cole em muito dos docentes. Não é necessário estar numa sala de professores diariamente para ouvir que ''levei umas chapadas no meu tempo e não me fizeram mal nenhum'', ''sabia-se mais na 4ª classe do que em mestrados actuais'', ''venham os exames! Reprove-se quem não sabe. Há uns anos só tínhamos de justificar se houvesse mais de 50% de chumbos e nunca fui impedido(a)!'', ''isto do rendimento mínimo dá para tudo. Retirassem-no quando chumbavam e isto acabava logo'', já para não falar de atoardas contra ciganos, chineses, russos e contra os alunos LGBTI. Cada vez mais cresce a agressividade dos professores, à falta de verem resolvidos os seus verdadeiros problemas e de o Poder os tratar como trata (então este último ministro é autêntica gasolina nesta fogueira). É verdade que o cansaço dos professores é bem visível e nota-se isso quando são os reprodutores do discurso das notícias das redes sociais, ou dos noticiários oficiais. É possível que a crítica, o gosto pelo debate e a investigação docente tenha decrescido na proporção inversa ao descrédito dos ministérios da educação. Mas que os professores são terreno fértil para os votos da extrema-direita é uma realidade que o futuro vai mostrar mais cedo do que esperamos.

António Luís Catarino

sexta-feira, agosto 27, 2021

«The Martian Chronicles», de Ray Bradbury

 


Capa bonita, livro de ficção científica editado em 1951, reeditado em vagas sucessivas, em pleno início da Guerra Fria, por Ray Bradbury. Não sou um indefectível deste género, mas reconheço em muitos autores de FC uma excelência que ultrapassa outros que advogam géneros mais «literários», o que é ridículo. Houve uma época que li muito da colecção Argonauta e da Caminho. Encontrei lá livros inesquecíveis de Robert Heilein, Ursula Le Guin, Ray Bradbury, Isaac Asimov e tantos outros...

Este livro foi comprado na Payot de Lausanne a um preço de bolso (formato e valor). Aliás, não poderia pensar em levar livros grandes porque a bagagem de avião paga-se a preços proibitivos. Sinceramente, não sei se o li. O desencadear da história leva-me a dizer que sim, porque estranhamente reconheço a trama. Ou vi um filme baseado nos contos marcianos do autor e com outro nome? Ainda por cima tem tudo a ver com os enredos fantásticos da Twiligth Zone. Enfim, espero desfazer as minhas dúvidas e impressões.

Ir a Marte nos anos cinquenta tinha o que se lhe diga: de planeta vermelho, as tripulações dos ''rockets'' que lá chegavam são levadas ao engano através de hipnose, telepatia, sensações psíquicas induzidas por quem ainda não dispõe de defesas atómicas contra os habitantes da Terra que se digladiam entre si e que esperam a qualquer momento nova deflagração nuclear. Que lhes resta, aos marcianos, senão aniquilá-los através da percepção sensorial? 

Esperemos então o enredo final, agora que já lá temos robots e em 2035 lá chegaremos. Mas levem um arqueólogo porque poderá dar-se o caso de os seus habitantes terem sido extintos, coisa que logicamente nunca acontecerá aos terráqueos. Impossível, não é?

António Luís Catarino

quinta-feira, agosto 19, 2021

Cosmos, chaos et le monde qui vient, Norman Cohn

 

Este livro estava há muito à minha espera. Respeito muito Norman Cohn, autor inglês e historiador empenhado no estudo do milenarismo através dos tempos. Pelo que percebo não é benquisto na universidade conimbricense, porque quando propus, nos anos 80, o conhecimento e debate da sua obra maior (de que falarei mais tarde) sobre o milenarismo na Idade Média, o professor meu interlocutor, olhou para o tecto e assobiou para o lado, despachando-me em três tempos, coisa que nas Letras é mato fazer-se. Talvez seja por o autor ser libertário e marxista, nunca o saberemos:

Este livro, cujo título "Cosmos, Caos e o Mundo que há-de vir", traduzo livremente, é de 1993 e não foi traduzido em Portugal. Li-o na versão francesa das Éditions Allia e trata de temas tão interessantes como polémicos o que lhe confere um gosto absoluto em lê-lo.

O Cosmos contra o Caos. O bem contra o mal. Deuses contra diabos maléficos. Concretamente, é mais objectivamente: deuses maléficos contra diabos maléficos porque, estranhamente, a humanidade teve sempre um pendor para adorar quem lhe batia, torturava ou matava em sofrimentos atrozes. No fundo, como os pais castigadores que diziam "levaste um enxurro de porrada mas para teu bem!"

A cosmologia de há 7 ou 8 mil anos atrás era simples (isto é relativo porque as oferendas aos sacerdotes obrigavam à matemática pura!). Os deuses egípcios, mesopotâmios, sírio palestinianos, védicos indianos ou os iranianos tratavam de ordenar o mundo dando aos homens boas colheitas, água abundante e enormes proles ao mesmo tempo que derrotam copiosamente os anjos do mal. Por vezes, estes últimos conseguiam a vitória por algum tempo. Estavam pois explicados os cataclismos, como as secas, terramotos, inundações, etc. A vida para além da morte, má ou boa, não estava dependente da acção do homem. Eram os deuses na sua omnipotência que resolviam os destinos.

A partir do zoroatrismo e das profecias de Zaratustra há uma inflexão total. Haveria um Deus mais poderoso do panteão que lutava contra os demónios do Caos. E mais importante ainda, lá para o ano de 1200 a.C.: começou-se a acreditar que praticar o bem poderia ser recompensador. A alma e o corpo de um justo poderia viver eternamente num paraíso, ao contrário dos desonestos e iníquos que viveriam nas profundezas da terra e no fogo eterno alimentado por dragões manipulados pelas forças do mal.

Segundo Cohn, o zoroatrismo teve uma influência determinante no judaísmo sírio palestiniano, apontando, como é óbvio no Antigo Testamento, um único Deus castigador e implacável que arrolava os pecados do homem como sendo as causas da vitória perene do mal. O judaísmo e o Levítico, com a Tora, aí estavam controlando ao mínimo passo a vida humana.

A seita judaica do cristianismo vem ainda trazer um dado novo: o do filho de Deus tornado o Messias, ou o ungido. A análise de Norman Cohn traduz uma certa inquietação com as paráfrases de Jesus e de Paulo traçando um paralelo entre o Antigo e Novo Testamento. Lendo este último com atenção e alguma distanciação teológica reparamos que quer num, quer noutro, a violência é igual se não maior neste último. O Reino dos Céus não está ao alcance de todos: é só para aqueles que não viraram costas a Cristo. Um balde de água fria para quem, mesmo depois das adaptações e reformulações oportunísticas da teologia das igrejas cristãs, ainda acredita na bondade do Novo Testamento através da mensagem de Cristo. 

A coincidência da representação dos deuses é deusas entre as diversas religiões desde que elas apareceram nas sociedades agrícolas e extremamente hierarquizada, até aos dias de hoje são apresentadas por Cohn com grande clareza. Recapitulando, é provável que já o soubéssemos a linearidade e convergência das religiões (até por autores anteriores como Mircea Eliade), mas constituiu um verdadeiro prazer quando tomamos dele conhecimento tão pormenorizado. 


sexta-feira, agosto 06, 2021

A «Ilíada» e a «Odisseia»

 

Em férias deu-me para isto. Podia ser bem pior: reli, com o entusiasmo e bonomia dos meus sessenta, as obras de Homero que eram obrigatórias nas aulas de Grécia Clássica de Maria Helena da Rocha Pereira. Dois anos consecutivos com ela, não me sossegaram o interesse que sempre tive com estes dois livros e com os gregos quer na sua vivênia quotidiana, quer na sua relação com os deuses e com a pólis. Que diferença, lê-los hoje: no meus primeiros dois anos da Faculdade de Letras eram esmiuçadas muitas das páginas da «Ilíada», tal como aquela professora nos queria guiar. Alguns dos episódios mais marcantes da obra eram debatidos e discutidos principalmente nas aulas práticas leccionadas por Ribeiro Ferreira, também ele um helenista, como a vingança de Aquiles (que praticamente só aparece no canto XVIII) sobre Heitor que pressentiu das suas poucas possibilidades em combate contra aquele, como a despedida de Heitor a Andrómaca e ao filho pequeno, o pedido de Príamo para que o seu assassino, Aquiles, restituísse o cadáver do filho, como as personalidades discutíveis pela sua arrogância de Menelau e de Agamémnon e a densidade psicológica de Helena, sempre a odiada e cujo rapto por Páris inicia a guerra de 10 anos de Tróia. 

Já a «Odisseia» é, contudo, diferente, embora eu acredite nos que defendem ter sido escrita pelo mesmo autor da «Ilíada», Homero, e com uma técnica de escrita cuja métrica os seus versos não escondem. Isso não impediria que houvesse igualmente uma tradição oral que tenha perpassado os anos. A «Odisseia» é de enredo menos imaginativo e talvez menos belo, mas ainda assim com recurso ao maravilhoso e ao mágico chamando os deuses que sofrem, que amam, que mentem e que tomam partido por este contra aquele. As personagens são menos densas psicologicamente, embora se realce a brutalidade da vingança de Ulisses, o crescimento rápido de Telémaco e a dúvida permanente de Penélope sobre a sua condição de mulher e de mãe. E, já agora, de raínha. As entrelinhas das duas obras não desmerecem no interesse do leitor, antes pelo contrário, incitam-no às releituras.

Uma palavra para Frederico Lourenço: excepcional tradutor e helenista (não temos assim tantos!) dá-nos pistas nas suas introduções e prefácios à «Ilíada» e à «Odisseia», mas se quiserem um conselho de amigo aos que as vão ler, iniciem as leituras das introduções e dos prefácios quando terminarem as leituras dos poemas. É que terão a oportunidade, após o fazerem, de concordarem ou não com o que é escrito e poderem comparar as vossas opiniões com as dos estudiosos dos clássicos. Podem fazer o mesmo com a «Hélade» de Maria Helena da Rocha Pereira.

Poderia agora ficar aqui a falar do enredo que já quase todos conhecem, mas lê-lo agora sem constrangimentos educativos é outra coisa. 

domingo, julho 25, 2021

Otelo

 

Otelo. Desenho a tinta da china e aguarela

terça-feira, julho 20, 2021

Mário-Henrique Leiria e as «Obras completas». Um bocado triste, isto

 

Estudo: Mário-Henrique Leiria

Tenho comigo dois volumes da chamada «Obra Completa» de Mário-Henrique Leiria (M-HL) coordenado, se assim se pode dizer para quem se apresenta com uma «introdução, organização e notas», por Tania Martuscelli. O volume I é a ficção de M-HL e o volume III é composto por «manifestos, textos críticos e afins». O volume II apresenta a sua poesia publicada. Debrucei-me mais sobre o último volume já que a ficção e poesia conheci-as e devorei-as a partir de 1973. Aliás, deve dizer-se ''devorámos'', assim na primeira pessoa do plural, visto que houve uma geração inteira que leu, comentou, riu e lutou com os «Contos do Gin Tonic» e o sucedâneo «Novos Contos do Gin» debaixo do braço.

O volume III é uma tristeza que quero partilhar convosco. Se ousamos vibrar com os manifestos de 1949, data da Exposição Surrealista de Lisboa, e ir por aí fora com os textos de irreverência absoluta, pelo menos até 1952, destacando-se precisamente Mário-Henrique Leiria por ser particularmente violento e verrinoso para com o SNI fascista e companhia, em que dispara para todos os lados inclusive para os neo-realistas, não se compreende que neste volume se coloque, no mesmo pé, as suas cartas de amor. Não dá, assim como não compreendemos a falta de datação das várias missivas que podem ser consultadas logo no índice: a grande maioria apresenta o frio «s/d» quando uma investigação mais aprofundada poderia ser relativamente fácil a inclusão de uma data aproximada e a conjuntura necessária para certos factos relatados pelo autor e que são do conhecimento de todos. Pelo menos no plano da política e da História. Faltam as notas necessárias.

Sou, em princípio, contra a publicação de cartas privadas de autores conhecidos. Por muitos motivos, mas principalmente porque é um pouco velhaca, esta prática. Ainda há pouco estive a consultar numa livraria as cartas de Paul Celan e Ingeborg Bachmann, mulher de Max Frisch. Completa falta de interesse ou de emoção. O mesmo para tantas outras epistolografias célebres, sendo a de Fernando Pessoa a Ofélia a mais conhecida. Quanto a Mário-Henrique Leiria as suas cartas são de uma tortura imensa que bem podia não ser revelada. Para quê saber o que a escrevia à Isabelinha, a Maruska, a «menina do sorriso bonito»? Ou ainda, as cartas que revelavam uma completa depressão perante o seu divórcio com Dietlind? Absolutamente nada. Ficamos com um sabor amargo na boca e ainda mais quando reparamos que os herdeiros e família de M-HL não foram sequer consultados como vem registado em nota introdutória. Por mim dispensava o conhecimento das cartas. Tenho a certeza que o autor também não aprovaria, mas isso é outra história mais etérea e nada terra a terra.

Por outro lado, já ficamos com a pulga atrás da orelha com alguns factos que podiam ser motivo para uma exaustiva biografia de M-HL, nomeadamente a sua relação com o PCP e com Manuel Sertório, a relação com Álvaro Guerra, por exemplo, e com os comunistas brasileiros que o levou à prisão e tortura no Brasil., tal como a sua relação com Cuba dos «guerrilheiros barbudos», sabendo nós que ele esteve na ilha a convite da Associação de Amizade Brasil - Cuba, isto em 1962. Há igualmente um vislumbre de dissensões e lutas internas dentro do surrealismo/abjeccionismo português que podemos sentir nas cartas, principalmente a sua relação com António Maria Lisboa e com Mário Cesariny, mas principalmente com o primeiro deles. E Londres, Paris, Bruxelas, Checoslováquia, na Marinha Mercante e mais as minas de carvão, somando-se o Brasil e São Paulo, a fome, a falta de dinheiro, as relações fátuas. Depois, há certas passagens em cartas que, à falta de uma biografia séria, nós só podemos supor; assim é com a referência à guerrilha da Guerra Civil de Espanha (acho-o demasiado novo para ter participado nela) ou no «maquis» da Resistência francesa em que diz ter participado. De qualquer maneira, sentimos que esteve envolto em armas e que chegou a estar preso em Caxias, também. A sua raiva à PIDE e a Salazar é bem notória em certas passagens, mas tudo entremeado com juras de amor à Isabelinha a «Maruska de olhos tristes» e a depressões brutais. É uma grande salganhada é o que é. Precisa-se, pois, de um biógrafo à altura.

Seria muito bom para todos que, ao menos, estes volumes sirvam para um conhecimento mais aprofundado pela vida extraordinária deste homem e deste escritor surrealista (que o deixou de ser em 1953) e tudo!

quarta-feira, julho 14, 2021

Cuba: não é uma ''teoria''. É uma conspiração

Foto: Público

Não é uma ''teoria'' da conspiração. É uma conspiração. Cuba tem resistido a invasões, a tentativas de assassinatos, a propaganda mentirosa, a serviços secretos poderosíssimos, a um embargo económico de largas dezenas de anos. Dizer que o governo cubano sobrevive devido ao embargo americano é tão falso como falsa é a afirmação de que vai tudo bem em Cuba. Sabemos que não vai. Falta muita coisa diariamente, a pandemia agravou a situação económica, o desemprego aumentou e não é qualquer país, ou qualquer povo, que aguenta o que Cuba tem suportado nestes anos todos. Ouvir e ver Biden a defender a liberdade em Cuba é um enorme contrasenso que só a sociedade do espectáculo pode criar. Como igualmente mete dó ver Santos Silva a defender o direito de manifestação quando não o fez com a repressão brutal em França e na Catalunha onde a polícia disparava balas de borracha para os olhos dos manifestantes, para não falar desde logo no regime racista de Israel e no comportamento dos seus militares para com os palestinianos. E isto não acabava... mas Cuba é uma linha vermelha, sim. Aos meus amigos que levantam dúvidas legítimas sobre o que se está a passar na ilha que resiste ao imperialismo americano que invade, violenta, mata por inanição povos inteiros deslocando-os em filas intermináveis de refugiados, só peço que pensem um pouco antes de tecerem críticas a Cuba. Primeiro, seria necessário que colocassem nos pratos da balança da honestidade intelectual e que olhassem para a sociedade da maioria dos América do Sul, com séculos de exploração desenfreada colonial e pós-colonial, com intervenções do «amigo» americano em golpes sangrentos descritos por Galeano e Kapuschinsky, no liberalismo mais selvagem que o mundo conheceu na saúde, na educação, na pobreza extrema em que se sobrevive com menos um dólar por dia, na taxa de mortalidade infantil altíssima, na decrescente média de esperança de vida de populações, no ataque à cultura indígena e na violência política e social quotidianas. Mas para legitimar uma crítica a Cuba era também necessário que se houvesse expresso o mesmo peso e medida para com as centenas de mortos e desaparecidos na Colômbia em levantamento popular, na ameaça de golpe no Perú não dando posse ao presidente que ganhou as eleições, às manobras desestabilizadoras americanas na Venezuela e na Bolívia. Tem sentido o apoio a Cuba? Para mim, sim. Faz todo o sentido que os povos da América do Sul decidam livremente os seus destinos sem interferências externas. E faz parte do direito internacional, mesmo que os americanos o tenham transformado em lixo e muita gente se ria quando este é lembrado.

domingo, julho 11, 2021

Morreu o Vasco! (1935-2021)

Foto LusoJornal
Um dos melhores cartoonistas europeus, só porque não conheço os do mundo todo. Acompanhou-me desde que me lembro de gostar de BD e de cartoons. Ele era o maior de todos. Um dia vi-o no «Bolero», em Lisboa, numa noite de copos memorável e com Virgílio Martinho. Quis a coincidência de eu estar a ler a obra deste último e dar com a notícia do falecimento de Vasco. Que perda. Mas se há algum modo de travar a tristeza é perceber que cá ficaram os seus desenhos. Vou hoje folhear o álbum que tenho dele.

Acerca de «O Grande Cidadão» de Virgílio Martinho


A literatura portuguesa tem pouco de distopias. Os nossos autores ou não deram grande atenção a esta corrente literária ou o país, ele próprio distópico, tirou qualquer veleidade de construir uma ultrapassagem da riquíssima realidade que nos envolve desde há séculos. Considerando Portugal uma distopia, isso pode limitar imenso a imaginação de um escritor que se queira aventurar numa ficção deste tipo. Vem isto a propósito porque acabo de ler «O Grande Cidadão» de Virgílio Martinho, vindo a público no ano de 1963 e com 2ª edição no ano de 1975. Não brinco quando digo que é um romance digno de figurar em lugar de destaque na nossa literatura e claramente conseguido. 

E fico perplexo quando leio numa crítica de Miguel Real na revista «A Ideia», número 81 a 83, de 2017 (portanto actual), a este mesmo romance a afirmação muito doutoral e anacrónica de que era uma inflexão do autor para o neo-realismo coisa, no mínimo, de se esconjurar de imediato, não tivesse Virgílio Martinho, e para sustentar tal pecado, convivido com Alves Redol, Aquilino, Joaquim Benite, Manuel da Fonseca e outros culpados. Ou seja, tendo amigos neo-realistas e tendo o desplante de serem subalternas, marginais e proletárias as suas personagens nos variados livros publicados, o autor não se livra do epíteto «neo-realista», quando não ligado umbilicalmente ao Partido Comunista Português, como afirma Miguel Real no artigo, autor este também conhecido pela publicação de romances históricos, estes muito menos distópicos, evidentemente. E para mais, com personagens históricas impolutas, neutrais, fruto dos seus tempos, ou seja, dos passados evos. A jogar pelo seguro. Sinceramente julgava isto ultrapassado...mas não, a coisa continua.

Miguel Real fala desta inclinação pecadora devido a uma carta de Pedro Oom a Mário Cesariny, datada desse mesmo ano de 1963, em que dá conta de um «desvio» de Virgílio Martinho para o neo-realismo. Sabendo nós que Virgílio Martinho foi surrealista com António José Forte, António Maria Lisboa, Mário Cesariny e Pedro Oom, entre muitos outros, frequentador do Café Gelo e Royal, não nos admiramos do teor desta carta se a circunscrevermos a uma provocação, entre muitas outras, que eram mais que familiares entre os surrealistas. Esta afirmação de Miguel Real vale o que vale, mas não gosto de ser tomado por parvo e por mim este tema morreria logo, porque, por si só, não tem qualquer importância. Mas vejamos: é que data igualmente de 1963 a edição, pela Minotauro, da antologia «Surrealismo/Abjeccionismo» de Mário Cesariny. E o que vai ele antologiar de Virgílio Martinho? Um trecho do mesmo «O Grande Cidadão» que era mote para tal desvio. E até Miguel Real nota nesse mesmo artigo que após 1963 Virgílio Martinho participa em várias surrealidades em exposições e antologias várias e isto até 1974 e depois. Por exemplo, a sua presença em «Coisas» da & etc. antologia de Vítor Silva Tavares, juntamente com o mesmo Pedro Oom e outros também dificilmente catalogáveis (como Adelino Tavares da Silva, Baptista-Bastos, etc.).  E depois há incongruências e incorrecções no mesmo artigo: não são 10 anos de penitenciária da personagem principal, o Alquimista de «O Grande Cidadão», mas sim 20 anos por um homicídio que «valeu a pena». E «A Caça» não sai em 1973, mas sim a 1 de Abril de 1974, pela Regra do Jogo.

Dito isto, a distopia de «O Grande Cidadão» é toda ela um convite à resistência e à procura furiosa da liberdade. É um romance muito visual, dramático (foi levado ao palco por Joaquim Benite e o Teatro de Almada, logo em 1975), com personagens psicologicamente marcadas, numa realidade imaginada mas onde é possível ver um Portugal asfixiado até ao tutano; todavia, seria muito redutor encarar esta história projectada numa (sur)realidade paralela, como fosse somente uma crítica ao fascismo ou ao nazismo (existem também câmaras de gás). É mais do que isso e as personagens que desfilam à nossa frente têm consigo um gérmen de liberdade que ultrapassa em muito a resistência política a um governo. Elas são livres sexualmente, não suportam o racismo, são indesejáveis para a ordem pública, são marginais e violentas, dispostas a morrer e a matar em nome do seu livre arbítrio e donos de uma ética bem delineada. É todo um sistema económico, político e social que é posto em causa. E, por isso, é um romance intemporal. Daí, ser risível esta preocupação em encontrar um cromo de Virgílio Martinho para a colecção de uma suposta caderneta literária. Não dá: falta o quadradinho.

O Grande Cidadão, de Virgílio Martinho, Arcádia, 2ª edição, Fevereiro de 1975

sexta-feira, julho 09, 2021

«A Caça», de Virgílio Martinho

 

Editado pel'A Regra do Jogo, em 1 de Abril de 1974. Com capa e desenhos de João Bernardo

Não conheço «Festa Pública», o primeiro livro do autor e talvez o mais marcado pelo surrealismo se, por simples preguiça literária, o quisermos aqui enquadrar. No entanto, este «A Caça» é de uma enorme alegria: irónico, cruel, maldito, com cenas claramente surrealistas como quando nascem flores das mãos de Valentim, ou quando o coração lhe salta literalmente da garganta, ou mesmo quando perde um périplo que o levaria à liberdade de uma secretaria militar para ficar a ver um pássaro vermelho esvoaçante como que a dizer que aquela, a liberdade, não demorará a vir. A escrita de Virgílio Martinho é pois um conjunto de metáforas e alegorias que não se impõem, antes nos forçam ao riso ou ao sorriso cúmplice de um autor que nos brinda com possíveis fugas a uma ditadura que duraria somente mais 21 dias após a publicação de «A Caça». Portanto, tudo correrá mal à personagem de Valentim. A vida não lhe é querida e adapta-se às misérias de uma mãe falecida precocemente, de um pai morto à pancada na prisão por ser «caçador furtivo» (afinal um resistente, descobre o leitor atento), uma casa incendiada, tempestades terríveis, espancamentos, roubos, lutas a tiro, enforcamentos, suicídios. Uma espécie de Cândido, ou um país a valer tudo, porque há quem diga que antigamente é qu'era bom! 

«A Caça» deveria ser objecto de muito mais atenção do que foi até hoje. Já perdoei a quem um dia mo levou de casa, até porque arranjei outro em livreiros alfarrabistas, esses nossos amigos que nos colocam na difícil situação de velhos, todos os dias em que os consultamos, tal a quantidade de livros da nossa juventude em escaparate internético ou físico!

Uma palavra para João Bernardo, esse mesmo, o cineasta, que além de ser um óptimo realizador nos presenteou com capas incríveis durante os anos 70 e 80 do século passado e em várias editoras, com destaque para A Regra do Jogo, Afrontamento e Centelha. As ilustrações de «A Caça» lá estão para provar o que digo.

Predisponho-me a ler desde já «O Grande Cidadão», este de 1963, com 2ª edição de 1975.

«Relógio de Cuco», de Virgílio Martinho

 

Editorial Estampa, 1973. Capa de Soares Rocha

A Setúbal e o Barreiro de Virgílio Martinho entre lutas das dolorosas crises do crescimento juvenil, mais um país pobre, acabrunhado pelo regime salazarista que mandava tropas e gnr's para as ruas da cidade operária da CUF de Alfredo da Silva, hoje endeusado como empresário dos-que-já-não-há, miúdo à solta com pai ferroviário, fome, fugas e algum descanso lúdico a banhos na Praia dos Moinhos. 
O livro inicia-se com uma epígrafe de André Breton: «O espírito que mergulha no surrealismo revive com exaltação a melhor parte da sua infância.» e após verificação leitora parte-se desta premissa verdadeira para as rotas de um caminhar de tempo lento e espaço reduzido dos anos 40, anos de guerra(s), mundiais e internas.
São quatro os contos com fio condutor de uma única personagem: «Quatro Caminhos», «A Árvore», «A Praia» e «A Estátua».
Li-o em 76 ou 77 e não mais me separei dele, juntamente com «A Caça» de que falarei adiante. 

 

terça-feira, julho 06, 2021

«O Infinito num Junco» de Irene Vallejo

 

«O Infinito num Junco», livro de Irene Vallejo, Bertrand, 2021
Estou longe de ser um entusiasta desta tentativa de ensaio, até porque na cinta que o editor apôs na obra consta o nome de Valter Hugo Mãe que nos avisa da excelência da «arte de contar» de Irene Vallejo. Se Mãe o diz, a gente aceita. Se Mãe o diz numa cinta de um livro, já não é só aceitação que estará em causa: é obediência! 
Nada do que é dito é novo na pretensa história do Livro. Lá vem as preocupações de Vallejo sobre a possibilidade de um biblioclasmo provocado por sismos políticos de vários matizes e terrores ideológicos sem fim, numa comparação talvez um pouco forçada entre o clássico e o contemporâneo, porque isso dá sempre bronca. Mas, mesmo dentro do clássico, a autora não esconde a preferência pela Grécia em detrimento de Roma, esta última criada por uma chusma de javardos comandados por um Rómulo cheio de sede de vingança, poder, bebidas, mulheres e ainda por cima fratricida. Gente bruta que até se deu ao luxo de ignorar a cultura etrusca, vizinha dos latinos. Mas já se sabe como os romanos eram para com os vizinhos! Nada de livros ou rolos de papiro: só espadas, suor e sangue! Não fosse Marcial, Catulo, Vergílio ou Juvenal e o capítulo de Roma não existiria. Claro que os gregos eram outra fruta: amigos do papiro e das bibliotecas, da música e da escultura merecem todos os encómios e loas, mesmo que as mulheres fossem claramente postas dentro de um gineceu para não incomodarem muito. Mesmo assim, Safo, sempre a Safo, safou-os do postulado da misoginia cultural a que ainda hoje são referenciados. Mas Alexandre, ah Alexandre Incompreendido!, esse tem direito a longas páginas no ensaio de Irene Vallejo. Foi ele que levou os livros aos confins do mundo, foi ele que fundou Alexandria e mesmo que não tivesse nada a ver com a famosa biblioteca (e não teve!) só o nome produz luz mais forte que o farol, mesmo que este nunca tivesse existido ou a biblioteca fosse um conjunto de casas soltas no meio da cidade, com corredores estreitos e algumas salas de leitura. Provavelmente a «biblioteca» considerado edifício único nunca terá existido, mas mesmo assim é central no pensamento de Irene. Quanto ao Egipto, ele que dá vida ao junco e mata o escravo, sabe a pouco as descrições da autora ficando-se quase só pelas atividades dos escribas e sacerdotes, vindo a lume a famosa carta do Papiro Anastasi de um escriba a xingar o seu filho que se andava a baldar às aulas. O problema é que 99,9% das pessoas já a conhecem dos manuais escolares do 7º ano! E mais o Homero, se existiu ou não, a existir seria cego ou não, mais o Heródoto, o Hesíodo, o Estrabão, os Ptolomeus do I ao XIII, a Cleópatra mai-lo Marco e Júlio, e o alfabeto de Tiro e Sídon. Uma receita para o enorme cansaço ao ler «O Infinito num Junco». 

Após, a longa resenha da história do Livro, tal qual aconteceu, Irene Vallejo, neutral até ao tutano, senta-se connosco e confidencia que também os ditadores e totalitários (desculpem o pleonasmo, mas não fui eu que o fiz!) gostavam de livros; então não é que o Adolfo era encontrado pelos seus amigos de juventude a ler, envolto em pilhas de livros, quase todos eles de heróis medievais teutónicos e alemães? E eu a pensar que ele lia a biografia do Chaka Zulu! Já com Mao a coisa pia mais fino: o grande totalitário abriu uma livraria em Yuhnan que chegou a ter seis empregados que começou a dar lucro e seria um êxito tipo Amazon de 1949, não fosse essa data marcada por ele para fazer uma Revolução! Coisa chata esta, das revoluções, e então as culturais são as piores! Portanto nunca se fiem em quem lê muito e se dê à política, ouviram? Coisa tão mais chata quanto aos lugares-comuns repetidos páginas a fio por Irene Vallejo. Ainda se fosse num rolo, nem daríamos pela contagem das páginas, mas assim em formato livro...
O que vale é que estamos a falar de um livro que há um mês já estava na vigésima edição em Espanha e cá já só encontrei a quarta. Mas isso deve ser por constar o nome de Valter Hugo Mãe na cinta!

Dou este livro a quem provar pertencer-lhe.

António Luís Catarino

segunda-feira, junho 28, 2021

«Afastar-se - Treze contos sobre Água», de Luísa Costa Gomes

 

«Afastar-se - Treze contos sobre Água», de Luísa Costa Gomes
D. Quixote, Maio de 2021
Estes contos de Luísa Costa Gomes são para se ler devagar. Como os miúdos que guardam a sobremesa para o fim e fazem inveja aos outros esperando que eles a esgotem e, depois, saboreando e sorrindo com a vitória ganha a ferros, não fosse a tortura de não abocanharem logo tudo.

Desconfio sempre de quem me diz que um livro era tão bom, tão bom, que se leu logo de uma assentada. Se é bom é para o deixar estar connosco o mais tempo possível. Assim fiz eu com Luísa Costa Gomes e este «Afastar-se» cujo tema central é a água ou a falta dela. Ou então transformada em humidade e suor como nos narra o conto «Gandembel» sobre um aquartelamento na Guiné em 1968 em plena guerra com o Paigc. Já li muitos contos e narrativas sobre a guerra colonial, mas este é muito real. Ali, sente-se como se perdeu a guerra na Guiné de Spínola e Shultz. A impotência dos soldados e o perigo sempre à espreita com bombardeamentos diários durante meses a um aquartelamento longe de tudo, com os soldados a viverem em tocas.

O primeiro conto trata de Giulia, feitio muito dela e senhora do seu nariz, que teima em atravessar a nado o Helesponto, ligar à força de braços a Europa à Ásia, tal como fez Lord Byron. Já «As cinzas de Pirandello», o velho dramaturgo fascista, que deu instruções precisas de como deveria ser o seu funeral é inesquecível: ao querer ser incinerado provocou tropelias tão pitorescas numa Itália pós-guerra que multiplicou os funerais até aos anos 60; não podemos deixar de rir abertamente ao ler as palavras, expressões e enredo de Luísa Costa Gomes apostas neste conto.

É evidente que não vou aqui contar tudo, não é para isso que faço esta ficha de leitura. Faço-o, para os amigos que, como eu, gostam de literatura e reconhecem em certos autores a recusa do fácil e do mainstream, por assim dizer. Que sabem, usam e respeitam o português, não deixando de inventar criteriosamente palavras excepcionais de um grande gosto pessoal. É por isto que escolho certos autores portugueses, entre os quais se encontra Luísa Costa Gomes. 

Queria, contudo, finalizar esta chamada de atenção para este livro com um formidável pedaço do melhor que há em literatura contemporânea em «Sorriso» sobre a vulgaridade de um tipo que nada tem na cabeça (a não ser ele próprio). Vejam esta «peroração pós-prandial» de conversa fiada, envolta numa vulgaridade de subúrbio rico:
 «- Um fantasma não tem de ser necessariamente irreal. Pode ser tão real como tu ou eu. Eles têm é diversos graus de realidade, de densidade cara Anna, e eu diria que, em média, o seu grau de realidade depende sobretudo da densidade que cada um de nós consegue atribuir-lhe. Há quem consiga criar fantasmas do nada, mas o melhor, penso eu, é ter uma base, uma espécie de primário, como na pintura. Se houver um primário, uma cor unida, que nos empape a tela, a partir daí é mais fácil criar uma imagem. Ela é segura, é duradoura. Há quem considere que ver fantasmas é sinal de loucura. Mas na verdade todos somos fantasmas uns dos outros. (...)»

Perceberam a quantidade incrível de lugares-comuns? Quem já não teve um, ou uma, colega assim pois que atire a primeira pedra. É que se consegue transmitir o enfadonho de um discurso assim. É evidente que Nino (assim é o seu nome) não se interessa por Anna, porque por ele estas palavras chegam-lhe para afagar o seu próprio ego. Ela pôs-se a andar, como é evidente...que se faz tarde!

António Luís Catarino

quinta-feira, junho 24, 2021

Da Piaggio à Faber-Castell, passando pela Adidas

 

Sede da empresa alemã Adidas

Até me custa iniciar isto, visto que se trata de uma crítica à RTP2, canal que ainda vejo regularmente. Cansado, é-me custoso cada vez mais procurar em outros canais alguma coisa que valha a pena ver. Por vezes ainda encontro neste canal filmes e séries interessantes, mas não deixa de ser singular a existência de múltiplas séries alemãs e italianas que nos vendem a história sempre fabulosa, empreendora e sacrificada de empresários com nome na Bolsa de hoje. Veja-se o caso dos esfalfados donos dos lápis Faber-Castell, da linda «vespa» Piaggio, do senhor Adidas que se zangou com o irmão (meu deus!) senhor Puma, o senhor Blaupunkt (hoje devorada pela Siemens, outros capitalistas de sucesso), o excelentíssimo Krupp, o rapidíssimo (a fazer dinheiro) Enzo Ferrari e mais virá por aí, ficamos com a impressão que se não fossem eles o mundo pararia. Não parou, claro, e os pequenos problemas com nazis e fascistas cuja cumplicidadezinha foi talvez menor que a de Hugo Boss, que fardou as SS, é sempre uma nota de rodapé na pretensa história adaptada pelas ditas séries. É evidente que o papel dos trabalhadores que combateram nas duas guerras, que se opuseram ao fascismo e que ainda por cima ajudaram empresas a erguerem-se nunca são referidos. Antes pelo contrário: são eles que, indecentemente, fazem greves e juntam reivindicações para terem uma vida minimamente digna. Mas esqueceram-se de um pequeno grande pormenor: todos estes empresários içaram os seus impérios por enormes heranças! Mas isso constitui uma pequenina (mais uma) nota de rodapé na pretensa história que nos entra pela TV dentro. Pela mão da RTP2, infelizmente.

quarta-feira, junho 23, 2021

Eu desempenho, tu desempenhas, eles avaliam

Hoje, o Público esmera-se apresentando um dito estudo sobre o desempenho dos professores com base na Edulog, Fundação Belmiro de Azevedo. Como se sabe, da família proprietária do mesmo jornal e com direito a editorial e tudo. O estudo, cheio de imprecisões e inexactidões (chega a referir que a avaliação no 3º ciclo é de 0 a 20!), relaciona directamente o desempenho dos docentes às avaliações que atribuem, dividindo-os em percentis de 10 a 90. Autora do estudo: Carmo Seabra, ministra da Educação do inefável Santana Lopes e que em plena greve de professores declarou que estava mais preocupada com a sua ida ao cabeleireiro do que com os problemas que estavam na base da greve. Daria vontade de rir, senão fosse coisa séria.

segunda-feira, junho 21, 2021

As aberrações do luso-tropicalismo

Gilberto Freyre na Diamang em 1951, observando, a convite do governo colonialista português, uma sessão de aprendizagem de dança ocidental a africanos. Separado convenientemente por uma rede onde só estão brancos, analisa os efeitos da «miscigenação» do luso-tropicalismo! (Foto da U. do Minho)

Ao ler um artigo sobre a Diamang, no Público, deparo-me com fotos que fazem parte de uma exposição do Departamento de História Contemporânea da Universidade do Minho, que constituem um acervo de 30 mil fotos da empresa de exploração diamantífera de Angola. Esta empresa, nos anos 50 e 60, recorreu ao trabalho ''forçado'' de africanos, eufemismo que esconde uma verdadeira escravatura praticada com capitais estrangeiros e coloniais portugueses. As fotos eram não só alvo de censura como de auto-censura dos fotógrafos da Diamang mas, mesmo assim, algumas delas são a face visível da indignidade com que era praticada a segregação e repressão coloniais.

Houve uma fotografia, todavia, que me fez parar a leitura e olhar longamente para ela, em busca de um sentido qualquer que fosse, porque não se encontrava na lógica formal do colonialismo violento. Não se tratava de homens negros que eram obrigados a despir-se e que caminhavam nus nos corredores da Diamang após um dia de trabalho forçado. Os homens brancos não passavam por este crivo securitário! Nem das mulheres e homens obrigados a permanecerem em campos de concentração da empresa durante três meses, prolongando-se a sua prisão por quanto tempo fosse necessário. Ou nas hortas e campos agrícolas de produtos europeus para bem-estar da população branca da administração da empresa.

Esta fotografia exposta acima é toda uma imagem do colonialismo português na base da pior da sua faceta: o chamado «luso-tropicalismo». Pior do que a repressão pura e dura é exercê-la com modos de falsa afabilidade e com uma suposta integração e miscigenação entre brancos e negros dando origem à mestiçagem, alegadamente tão querida por uns e por outros. A mentira que durante décadas, e com a anuência de muitos professores, foi vendida a gerações de alunos. A propaganda do regime teve algum efeito até depois de instaurada pela força a democracia parlamentar. Defendia-se (defende-se ainda hoje!), pela mão de Gilberto Freyre, que os portugueses não aplicaram no terreno a violência institucionalizada pelo colonialismo europeu, antes provocando uma verdadeira mistura de «raças», pelo que o tipo de presença portuguesa em África deveria ser tratada diferentemente da europeia, essa sim violenta, principalmente dos belgas, franceses, holandeses, espanhóis, alemães e ingleses. Nós, portugueses, éramos um caso à parte de todos os outros. Por muito que custe a acreditar isto tentou vender-se na ONU em plena guerra colonial e em três frentes (quatro se contarmos com a Índia), para vergonha de um país inteiro. 

Esta fotografia (volto a repetir, porque volto sempre a ela como um íman) é sugestiva: trata-se do autor do luso-tropicalismo, Gilberto Freyre, que atrás de uma rede, presumo que divertido, observa os efeitos da tal miscigenação, «teoria» defendida por ele. Vestido de impecável branco, como aliás a sua pele testemunha, olha, embevecido, embora por detrás da rede, não vá haver misturas!, os efeitos da sua rebuscada idiotia. No pavilhão da Diamang, presume-se que numa escola, os africanos (só homens, não vá igualmente haver misturas de género) aprendem a dançar uns com os outros. Pena igualmente que as fotos não tenham música. Talvez uma valsa de Strauss, pois nunca se sabe do que é capaz um colonialista empreendedor, um missionário voluntarista! Poderia esta exposição ter esta única foto aumentada mil vezes com a legenda «luso-tropicalismo». Para vergonha dos «bons» colonialistas.

Aliás, esta fotografia (mais uma vez sempre ela!) que nos testemunha a presença deste propagandista brasileiro em terras do então império português, foi feita a convite do governo fascista que o levou à Guiné, a Moçambique, a Cabo Verde e à Índia, em 1951. E, claro, a Angola da Diamang, um verdadeiro estado dentro do estado, o que leva a crer que não terá levado somente fruta exótica na sua bagagem. A «teoria» afirmava-se pelo estudo burlesco desta espécie de filósofo de vão de escada: o luso-tropicalismo nesta fotografia mostra a verdadeira face da mentira muitas vezes repetida. Até aos dias de hoje!

António Luís Catarino

sábado, junho 19, 2021

«A Missão», de Ferreira de Castro


Não é bem de «A Missão» que trata esta ficha de leitura. A novela, muito cinematográfica, de Ferreira de Castro já foi por muitos analisada e reconheço a sua excelência, como tudo o que este autor escreveu. Mas anoto aqui o espantoso (atenção a este falso amigo da Galiza!) «O Senhor dos Navegantes», pequeno conto em que o autor entabula uma conversa com um louco que se faz passar por deus. Nem louco, nem deus, antes um criador de tudo o que se move no mundo, mas que por fastio e provável incompetência deixou quase tudo por fazer. Na capela que dá o nome ao conto, ou novela, olhando de alto o mar e fumando um cigarro, ao mesmo tempo que se teima em abandonar o diálogo e ler um livro, produz-se então, entre o autor e um estranho, um diálogo limpo, astuto, honesto em que as dúvidas e as incertezas mais profundas da humanidade vem ao cimo, por um período breve e fugidio, é certo, mas cuja destreza literária está bem presente. É disto que se faz a grande literatura. 

«A Lã e a Neve», de Ferreira de Castro.

 

Quis o acaso saber que existe uma escola secundária com o título deste livro de Ferreira de Castro. Situa-se na Covilhã e chama-se mesmo assim: «A Lã e a Neve». É um livro extraordinário e, ao contrário do que muita gente faz, não o consigo catalogar numa corrente literária, nomeadamente ao neo-realismo que é onde colocam mais o autor. É tão ridículo esse exercício como dizer que Tolstoi ou Steinbeck são realistas, neo-realistas, ou realistas socialistas. Não tem sentido. Estamos perante um escritor que, lido com atenção, é um hino à língua portuguesa. Trata as palavras com um carinho sublinhado em verbos, vocativos e expressões que não são extemporâneos, antes reflectem uma vasta cultura adquirida em inúmeros pontos do mundo da língua portuguesa e no estrangeiro. 

E não venham com a «sintaxe rural», agora trazida a terreiro por um linguista, pondo esta expressão na boca inquieta de José Cardoso Pires. Antes pelo contrário, em «A Lã e a Neve»: aqui trata-se do mundo proletário na Covilhã de uma transformação gradual dos camponeses expulsos da terra que nada lhes dá, para um futuro operário cheio de promessas vãs de uma vida melhor. O que encontram na cidade é uma deslocação social, uma exploração desenfreada num país pequenino, repressor para com os mais fracos e pelos que passam fome. A consciência de classe a nascer como um remédio às humilhações constantes dos poderosos, ao roubo da força de trabalho operária premeditado e planificado até ao milímetro nas fábricas têxteis.

O final do livro é arrepiante: um velho operário esperantista, vegetariano, vagamente anarquista, com um grande ardor grevista e com reivindicações de classe, remetido para um lar onde se ganhava 20 escudos por semana (por semana!) e despedido por lhe faltar as forças, morre. O cortejo fúnebre dos operários é enorme e entope o trânsito até ao cemitério. O diálogo que se estabelece entre o patrão e motorista que vê o seu jantar de negócios atrasado é, ou deveria ser, um exemplo da melhor literatura do século XX. Infelizmente não é, nem chegará a ser porque os tempos não lhe fazem justiça, a Ferreira de Castro. Bem pode a escola secundária da Covilhã ter o título do livro. Mas de que vale isso, se a biblioteca dessa escola terá, eventualmente, «A Selva» como único exemplar e os alunos desconhecerem totalmente o autor? E esse trecho é só o exemplo que agora me ocorre; «A Lã e a Neve» tem momentos de enorme emoção e de uma grande densidade psicológica das personagens seja em acções individuais, íntimas ou em abordagens sociais de confronto e solidariedade. Isto leva-me a pensar, com alguma tristeza, que a literatura portuguesa está ser tratada de uma maneira completamente indigente pelas instituições educativas como o ME e o Plano Nacional de Leitura. A boa literatura é apartada em favor do fácil, muito fácil ou do «divertido», contemporâneo da balbúrdia e ignorância pós-moderna.

«Lenine 2017», de Slavoj Zizek


«Se queremos renovar o projecto comunista como verdadeira alternativa ao capitalismo global, temos de fazer uma cisão clara da experiência comunista do século XX. Devemos ter sempre em mente que 1989 representou não só a derrota do socialismo estatal comunista, mas também da democracia social ocidental. A miséria da esquerda dos nossos dias é demais evidente na sua defesa, «por princípio», da ideia social-democrata do Estado social. Na ausência de um projecto radical de esquerda viável, a esquerda não consegue mais do que bombardear o Estado com exigências de expansão do Estado social, sabendo perfeitamente que o Estado não as poderá satisfazer. Esta desilusão necessária vai então servir de recordatório da impotência básica da esquerda social-democrata e assim incentivar as pessoas para uma nova esquerda radical revolucionária. Desnecessário será dizer que uma tal política de «pedagogia» cínica estará destinada a falhar, pois está a travar que não pode ser ganha: na constelação político-ideológica contemporânea, a reacção à incapacidade do Estado social cumprir com as suas obrigações vai ser o populismo de direita. Para evitar esta reacção, a esquerda terá de propor o seu próprio projecto positivo para lá dos limites do conceito social-democrata de Estado social. É também por isso que é completamente falacioso ancorar as nossas esperanças em nações-Estado soberanas fortes capazes de defender o Estado social contra organismos internacionais como a União Europeia, que, segundo se diz, servem de instrumentos do capital global para destruir o que resta de Estado Social. A partir daqui, estamos a um passo de uma «aliança estratégica» com a direita nacionalista devido às suas preocupações com a identidade nacional numa Europa transnacional. (...)»


Da «Introdução», páginas 41 e 42 de «Lenine 2017», de Slavoj Zizek, Elsinore, 2017

Seria bom que aqueles que acreditam ainda na transformação radical da sociedade tal como ela é sob o comando do capitalismo concentracionário tenham a ideia de colocar entre parêntesis o Estado social. A esquerda não ganha nada em defendê-lo como solução única para os males da economia deficitária, porque o Estado, tal como o capitalismo já caminha nesse sentido. É isso que me faz reflectir, cada vez que ouço e leio artigos em defesa inconsequente do Estado «ao serviço dos trabalhadores». Chega-se a pensar que estamos perante uma nova filosofia da miséria!

António Luís Catarino