Cavalo de Ferro, 2019. Tradução do polaco de Teresa Fernandes Swiatkiewicz
As impressões de viagens de um poeta pela sua escrita. A História mesclada com errâncias, pensamentos, descrições naturais, construídas pelo polaco Zbigniew Herbert, cuja poesia estou ainda a conhecer. Tenho comigo a sua «Poesia Quase Toda» e faltará pouco para eu iniciar a sua leitura. «Um Bárbaro no Jardim» é um livro que poderemos comparar aos de Claudio Magris ou aos do seu conterrâneo Ryszard Kapuscinsky tal a quantidade de temas díspares num mundo unido por manifestações de beleza e de profundidade que ainda perduram teimosamente, ou ao que dele resta. A ironia, o espanto e até o amor moram nestas páginas.
Imaginem as grutas paleolíticas de Lascaux e as suas pinturas parietais que se movem num espaço sagrado, animista. Herbert lembra-nos uma evidência que por vezes esquecemos quando falamos destas pinturas fantásticas: esses desenhos produzidos por mãos artísticas, para além de belas, não eram estáticas e observadas com luz artificial como a de hoje, mas antes por tochas e fogueiras votivas. As escuras grutas que as envolvem eram palco de rituais que se perderam no tempo e «moviam-se» entre a luz e sombra envolvidas pelo fogo. Enquanto estamos concentrados nessa leitura e necessariamente embrenhados nesse ambiente, surge-nos André Breton, o papa do surrealismo, a mostrar o dedo indicador sujo de ocre de um touro e a bradar «é falso!», não evitando pesada multa e ignorando que as pinturas foram salvas exactamente pela existência de uma humidade salina e calcária que as mantiveram incólumes durante milhares de anos. Breton provocou um claro anti-clímax, o contrário do objectivo último do Surrealismo, que não teve culpa nenhuma da sua autoproclamada chefia. Não saberemos se a opção de edificar uma gruta artificial ao lado da de Lascaux não terá que ver com estes arroubos emocionais, mas hoje encontram-se a salvo.
As impressões do viajante continuam: a arquitectura dórica, que Herbert dá mostras de conhecer bem, é desfiada ao pormenor, desde as suas colunas e capitéis despidas de ornamentos supérfluos, à anulação das ilusões de óptica que os gregos sabiam que o olho humano estava sujeito. A arquitectura grega dá lugar, então, ao gótico das grandes, enormes, catedrais francesas como em Arles, Saint-Denis ou Nôtre-Dame, mas Herbert não se fica somente pelo pormenor da técnica dos mestres canteiros e dos arquitectos geralmente anónimos ou apócrifos, como se o trabalho destes não fosse importante, se desvanecessem perante o objectivo principal da construção que era, sem dúvida, a obediência a Deus e à cidade que a criou, como se a grandeza do dinheiro e da riqueza burguesa estivesse bem ciente do seu poder debaixo, ou ao lado, de uma omnipotência bem maior. Mas o poeta lembra-nos igualmente do povo que construiu as catedrais que foram feitas literalmente «com as mãos» e que ultrapassavam em muito a consciência espiritual da Igreja: «As catedrais eram motivo de orgulho e um sinal de poder que se avistava ao longe. Mas eram também um lugar de encontros e actividades laicas. O homem medieval sentia-se na igreja como em casa. Às vezes aí comia, dormia e conversava, sem baixar o tom de voz. (...) aí se resguardava do mau tempo. As proibições eclesiásticas que proíbem a realização a realização de reuniões seculares nas igrejas indicam que provavelmente tal deve ter sido uma prática generalizada. Os vitrais não versavam somente sobre a vida dos santos, mas também, caso se possa comparar as coisas grandes com as pequenas, desempenhavam a função de publicidade de néon de hoje, ao anunciarem vendedores de têxteis, carpinteiros ou sapateiros.» (pág.122) Tal como nos avisam vários historiadores da Idade Média, também Zbigniew Herbert lembra-nos que o trabalho (recordo-me de Henri Pirenne sobre este tema) não era uma escravidão absoluta como por vezes somos levados a crer: em 365 dias de um ano, contando com os domingos e com 50 dias santos, trabalhava-se 250 dias efectivos, com várias pausas diárias no verão bem maiores que no inverno. Isto sem contar com os falecimentos, baptizados e casamentos que as corporações convocavam. Coisas tão terrenas, faziam com que as greves fossem igualmente uma oportunidade dos estratos sociais mais carecidos para melhorarem as suas parcas condições salariais. A primeira greve vencedora que o poeta nos dá conta, em pleno século XII, é a da construção do Mosteiro de Obazine.
Siena foi uma cidade italiana que Herbert visitou e que nos descreve o poder das famílias condottieri que se guerreavam entre si por gerações, muitas delas, esquecendo porque alimentavam tal ódio, diremos nós. Tipos cruéis, sem pingo de compaixão perante os inimigos, sedentos de poder e de riqueza que não olhavam a meios para atingir os seus fins. As comunas e a Igreja só em parte aplacavam esta ira familiar e durante o Renascimento estas famílias tiveram o seu auge político, não sem que o termo «maquiavélico» tivesse ganho o seu significado actual.
A pintura é outro dos motivos que leva Herbert a escrever as mais belas páginas de «Um Bárbaro no Jardim» e fico-me somente pelas palavras que dedica a Piero della Francesca, recuperado em toda a sua importância, tardiamente, no século XIX. É por causa dele, mas igualmente de Giotto ou Cimabué, que visitamos as Galerias Uffizi, em Florença, e a de Brera, em Milão, onde os pintores estão bem representados. Se conseguirem ultrapassar comodamente a enormes filas de turistas ou tirarmo-los da frente dos quadros a fotografarem-se, diríamos nós.
Páginas impressionantes são dedicadas à heresia cátara pela recém-criada Inquisição dominicana e à dissolução e posterior criminalização dos Templários. Embora completamente díspares nos seus propósitos, Herbert deixa-nos um fio de horror pelo que se passou na repressão aos cátaros do sul francês. A heresia - Herbert coloca bem a possibilidade de não estarmos perante uma heresia, mas sim de uma nova religião, tal a diferença de pressupostos face ao cristianismo - foi, durante dezenas de anos alvo da repressão mais sangrenta por parte do papado e dos dominicanos (os autodenominados «cães de Deus»!) em que se confundia o espiritual com o terreno político mais sórdido. Quem conhece relativamente bem a região d'Oc, a Ocitânia, sabe que o rancor surdo ao Norte francês ainda perdura nos dias de hoje sob múltiplas formas de coesão social e de resistência cultural. A repressão brutal e maquiavélica sobre os Templários é outra questão que o autor não deixa de sublinhar explicando que «Na História, nada se encerra definitivamente. Os métodos aplicados para combater os Templários entraram no repertório das autoridades. Por isso, não podemos deixar este caso distante aos dedos pálidos dos arquivistas.» (pág.202) Num tempo em que as perseguições ao pensamento livre começam a ganhar forma nunca será demais lembrar como se pode urdir uma teia imaginária de factos que podem levar à prisão, à tortura e à morte, mesmo em sociedades aparentemente «abertas» e civilizadas. O improvável está sempre à espreita.
Por fim, Herbert passeia connosco, solitariamente, na companhia de Rousseau, em Ermenonville. Não só desenvolvendo a chamada teoria dos jardins, mas enveredando pelos meandros do Classicismo e do pré-Romantismo. Nada melhor que esta despedida de um livro notável, na companhia de Rousseau. Passeamos com Jean-Jacques por uma «poética, um catálogo de figuras e de tropos, só que explicáveis por meio de cascatas, pontes, tufos de árvores, ruínas artificiais. Aí havia tudo o que era necessário a um coração afectuoso: ''a gruta dos encontros secretos''; ''o banco da mãe fatigada''; ''a sepultura do amante infeliz''. A história revelou-se cruel para estas plântulas de sentimentalismo.» (pág.244)
Sim, é possível que a história entre em conflito com o sentimentalismo, mas os românticos nunca o pretenderam saber.
alc