Antígona, [1ªed.1958], 2022.
As histórias de casas interessam-me. Graça Pina de Morais, que conheço desde «Jerónimo e Eulália», tem o dom de escrever para além das pedras, das portas e das janelas que as compõem. Aqui, a trama da história são mais as personagens que desfilam entre as salas de uma casa de família com todas as suas contradições e idiossincrasias, mas igualmente com os seus múltiplos afectos e sentidos. Nos anos cinquenta do século anterior, a vida era claustrofóbica, dividida entre espaços confinados por uma repetição contínua dos mesmos gestos e atitudes, muitos deles já automatizados por um tédio insuportável. No entanto, não nos enganemos, porque, mesmo nessas condições, haveria lugar para o surgimento de euforias e arrebatamentos inesperados, observados na profunda análise psicológica da adolescência que Graça Pina de Morais sabe descrever tão bem. Poucos escritores portugueses se atreveram a entrar nos labirintos intrincados da adolescência, vá-se lá saber porquê. Não exigiríamos um Proust, mas sendo uma idade de fervores inauditos, contradições insanáveis e traumas tão arrasadores como rapidamente superáveis, seria uma matéria de exploração literária inesgotável. Provavelmente, não foi coisa que entusiasmasse muito a academia das letras lusas. A vida de um jovem adulto é, quase invariavelmente, tratada como um rol de enganos vários, erros e má fortuna, sofrimentos atrozes, ou quando não, uma espécie de estoira vergas abertos a todos os excessos. Graça Pina de Morais oferece-nos uma adolescência tal como ela é: um tempo de profunda agitação, uma explosão interiorizada de sentidos, um leve temor irónico sobre a vida que lhe é aflorada a todo o momento. A escritora trata a adolescência com uma elegância que não é habitual.
Não será por acaso, certamente, que as personagens adultas padecem de doenças. Graça Pina de Morais era médica e talvez seja este um motivo para a observação desse facto, mas quem a conhece medianamente e aos seus livros, sabe que poderá não ser essa a razão principal, porque não teria sentido. Algumas personagens padecem de doenças físicas, bem reais, outras nem tanto; essas doenças teriam causas na solidão imposta por normas sociais e tradições familiares que se eternizavam num sociedade quase esquizofrénica em que o papel atribuído a cada um não permitia qualquer fuga dentro desse círculo infligido. Nesse aspecto, «A Origem», as causas de tudo, está na deformidade das relações sociais dentro de uma família fechada, o que torna a leitura do romance tão pesada, como necessária para o tornarmos imprescindível.
«Era bom aluno, mas não levava muito a sério as aulas e os professores. Sempre lhe parecera que esses homens circunspectos e geralmente severos, que entravam nas aulas, vestidos de escuro, para expor, por forma mais ou menos fastidiosa, assuntos que não lhe interessavam, estavam simplesmente a brincar aos professores. No entanto, não havia ninguém mais convencido do seu papel do que o professorado daquele liceu de província; formavam, juntos, na sala de reuniões de conselho, uma pequena ditadura rígida e destituída de imaginação, que se fora convencendo do seu poderio e importância com a continuação de governar e de ser temida por uma população de crianças.
Eram na maioria homens anónimos, indistinguíveis por coisa alguma, arrastando na cidade uma vida insípida e rotineira.
João nunca lhes deu individualidade própria, e, depois de abandonar o liceu, esqueceu-os. Apenas guardou por eles um vago reconhecimento pela maneira imponderável como tinham entrado na sua vida, desempenhado um papel e desaparecido sem nunca ocupar qualquer lugar.» (pág.130)
«João e Catarina viviam numa quase completa liberdade, apenas defendidos pela virgindade mútua: o rapaz, porque era um ser tímido, retraído, um pequeno Narciso cheio de desconfiança sobre si mesmo, que no fundo sentia um certo terror perante as revelações novas que a existência lhe trazia; Catarina, porque instruída no colégio, graças à leitura de livros e folhetins mais ou menos rocambolescos, em que filhas perdidas eram postas fora de casa por pais implacáveis e cobertos de vergonha, acabara de considerar a virgindade como um atributo imprescindível. De resto, muito sensual e instintiva, possuía, como a maioria das mulheres desse género, uma notável intuição. (...) Catinha pressentia que o desejo insatisfeito a tornava mais preciosa aos olhos de João. Estas eram, aliás, as suas únicas vitórias.» (pág.145)
«A verdade é que o misticismo do rapaz não conhecia o freio de nenhuma religião.» (pág.203)
alc










(1).jpg)










