quarta-feira, setembro 16, 2026

"Estrilho", Luhuna Carvalho

Língua Morta, 2026.
O subtítulo «Movimento, Destituição, Autonomia» acompanha «Estrilho», de Luhuna Carvalho, o seu último livro, e é composto por escritos datados entre 2010 e 2025. Tendo uma amplitude de 15 anos conseguimos verificar não só uma grande variedade de temas e situações, algumas das quais poderemos esquecer tão efémeras que foram, mas também algumas repetições de ideias que se observam de artigo para artigo e que constituem o cerne do pensamento do autor. As ideias explanadas por Luhuna Carvalho são, essencialmente, a construção de possibilidades em torno de outras vidas para além do capitalismo. Penso que o plural será mais correcto exercer-se na palavra «vida», visto que perante a leitura de «Estrilho», ficamos com a impressão clara da diversidade ética de uma construção humana em torno da autonomia ou do comunismo. O leque de opções é variável conforme a acção que estará na sua génese e que é multiforme. Essa acção (não uma só, mas várias) prende-se com o conceito de «movimento» que não se firmará somente no protesto, demasiado recuado como opção comunista ou anarquista, ambas as opções derrotadas ou paralisadas pelas derrotas que os anos 80 do último século e os primeiros anos do século XXI, mostraram. Contam-se pois quase 50 anos de recuo em recuo; a ideia comunista perdeu fulgor e já não é o «espectro» que aterrorizava as classes possidentes do mundo inteiro. Mas nem por isso, segundo Luhuna Carvalho, a ideia comunista, baseada no jovem Marx ou nos escritos «perdidos» do último Marx que vão sendo analisados nestes últimos anos, ou anarquista segundo o apoio mútuo de Kropotkine, deixou de ser experimentada em fluxos de solidariedade em fortes movimentos de base nos protestos de Seattle e Génova, de Tiennamen, de uma Primavera Árabe, dos subúrbios de Paris, dos liceais de Londres, do movimento quase insurreccional de George Floyd nos EUA, da Grécia ou dos fortes protestos anti-troika em Portugal nos anos de 2011 e 2012. O comunismo estaria aí bem vivo nas redes de solidariedade e apoio que juntaram centenas de milhares de pessoas (talvez milhões) provindas de classes e lugares diversas. O comunismo deixa então de ser uma utopia a atingir, passe o pleonasmo, mas uma experiência já realizada em momentos únicos de revolta e afirmação.

Não interessa para este levantar de ideias que Luhuna Carvalho nos propõe, saber se a esquerda está ou não viva ou se terá ou não de se «renovar». Para esta discussão é melhor procurar outro livro. O que é interessante em «Estrilho» é que todas as possibilidades estão em aberto, sendo que a única saída será a superação do capitalismo que se tornou ontológico, que se radiculou em todas as formas da vida, tornando-a um sistema de produção contínua e total. O recurso crítico às ideias de Agamben, Adorno, Debord, Benjamim, Tronti ou Negri são, exactamente por isso, uma constante. Do Biopoder à Autonomia italiana do final dos anos 70, ou ao Maio de 68 francês, há um viajar, uma recuperação destas ideias e experiências que, queiramos ou não, fazem parte de um adn dos inconformistas, dos que ainda veem no «estrilho» uma forma última de dizer que não:

«A festa, o motim, o bloqueio, a greve selvagem, a cultura subproletária, etc., seriam fenómenos politicamente mais ricos do que qualquer aparelho partidário, do que qualquer grupelho activista, do que qualquer produção académica ou artística. As formas sociais exteriores à razão de estado reproduzem-se carecendo de estruturas formais, sendo, em si, a alteridade ao capital. Não há nada de «espontaneísta» nessa análise. A «espontaneidade» é uma colagem acrítica ao que nos está mais próximo do que a infinita burocratização da vida.» (pág.11) 

O que aí vem fará dos horrores do século XX um piquenique, diremos nós. Também o afirma o autor, mas avisa que a queda no desespero é a pior das receitas para os que necessariamente se oporão ao estado de coisas que ainda estarão para vir. A beleza das palavras de ordem dos situacionistas e «enragés» do Maio francês, juntar-se-ão ao «Volliamo Tutto» da autonomia italiana e ao fumo negro dos pneus de Génova, não duvidem. E é nessas situações limite que veremos as ondas comunitaristas e anarco-mutualistas a marcarem uma opção de vida que valerá mais em assumirem-se como «poder destituinte», como nos propõe Luhuna Carvalho, do que todos os palácios de inverno das nossa desilusões colectivas. 

Luhuna Carvalho é autor de «Depois da Lei», 2022 e «Uma Nova Violência», 2024, publicados pela Língua Morta.

alc

terça-feira, setembro 15, 2026

"Rousseau", Georges May


Seuil, 1964.
Mais Rousseau, agora e segundo Georges May, «por ele mesmo» o que significa voltarmos às sua «Confissões» já aqui analisadas. De qualquer modo, estamos perante uma biografia bem desenhada com vastos recursos para um livrinho sintetizado e com interessantes gravuras que acompanharam as primeiras edições das obras do filósofo. Filósofo? Segundo Rousseau, não; ele não se considerava um deles, embora a sua hostilidade para com Voltaire fosse conhecida e sempre por causa das ideias, tal como Diderot de quem se afastou paulatinamente, ou de D'Alembert com quem teve discussões bastante acesas por causa de artigos para a Enciclopédia (Rousseau colaborou na entrada de música), não falando de Hume com quem se travou de razões deixando de falar com o escocês que até o tinha ajudado quando houve uma ordem de prisão francesa contra ele. Incompatibilizou-se também com Montesquieu. Rousseau não se via sequer como escritor, já que execrava os romances e os literatos da sociedade que frequentava durante uma certa época da sua vida, tal como não se considerava preceptor, músico, autor de libretos de ópera, botânico e autor de herbários, agricultor, professor, copista de música, o que lhe dava um razoável pecúlio ao final do ano. Todas estes ofícios experimentou e a todos eles recusou ser artífice.

De resto, e nesta viagem por livros sobre Rousseau, ficamos com uma impressão um pouco negativa da sua pessoa. Não pelas suas evidentes e reconhecidas contradições, pois todos nós as temos, mas por muito do que disse nas suas Cartas, Discursos, Passeios, Projectos, Contratos. Algumas destas cartas endereçadas a este ou àquele são verdadeiros tratados filosóficos, mas a teimosia, o isolamento e, talvez, o rancor de Rousseau levaram-no a ser classificadas assim. Nunca como tratados. Mais: Émile, Heloïse, Sophie, Saint-Preux, ou são seus alter ego, amantes ou os filhos que rejeitou. É uma realidade que não escapa ao leitor de Rousseau: autor de uma modernidade política inigualável com o seu «Contrato Social», é um autor para quem a democracia tal como a vemos hoje, lhe traria algum desconforto, senão mesmo hostilidade. Admirador de Sólon não nos causaria demasiado espanto que a eleição dos representantes  de um povo só se efectuasse por um escol, numa espécie de colégio eleitoral cidadão. Tido como revolucionário, posicionou-se contra os motins e revoltas de Genebra a que assistiu, porque detestava a desordem. Inovador na questão da educação e pedagogia de crianças e jovens, foi um preceptor austero não pondo de lado alguns castigos físicos; tal como a sua veia violentamente antifeminista e que entendia que as mulheres não deveriam ter acesso à educação, por falta de génio, de inteligência, de concentração e seriedades intelectuais. Ele, que viveu sempre sob o manto protector das mulheres. O mais inquietante, contudo, em Rousseau é que todas as suas «Confissões» têm como objectivo, bastante visível até, de conceber uma unidade coerente ao seu pensamento, plasmado em vários escritos e, em última análise, justificar-se perante a sociedade do seu tempo que não lhe perdoou algumas diatribes, nomeadamente a questão dos seus cinco filhos dados para adopção ou a sua constante mudança do calvinismo em que foi criado para o catolicismo e, depois, para o deísmo. Mesmo a questão mais consensual na sua filosofia como teria sido a Razão, mesmo esta, permaneceu num estranho limbo, em que Rousseau manteve uma posição dúbia, mostrando até alguma distância daqueles que a reivindicavam como a salvação da Humanidade por entender que preferiria a contemplação natural e interiorizada, uma espécie de «rêverie» imaginativa que levasse à bondade da pessoa, que resgataria assim a fórmula do já conhecido «bom selvagem» e se afastaria da corrupção que a sociedade lhe provocaria. Não sendo a conquista da razão o alfa e o ómega dessa mudança, seria então uma espécie de transformação interior da pessoa a levar a sociedade por melhores caminhos. Isto, até ele afirmar o seu contrário. Mas não desdenhemos assim de Rousseau: foi um tipo que poderia ter tudo, mas que recusou as prebendas dos mais fortes pelo que defendeu e eles sabiam o perigo que representava, não duvidemos disso. O que aconteceu na vida do filósofo foi um desgaste contínuo na sua resistência, para além de uma doença renal incapacitante; foi detido, teve um mandado de prisão de que poderia não se salvar, foi exilado, teve violentas contendas que o deixavam fortemente deprimido, teve de recorrer variadas vezes à fuga, foi expulso de cidades e países, das suas casas, foi inclusive lapidado por populares em Môtiers. Se compararmos esta vida com a de outros filósofos iluministas e racionalistas, perceberemos melhor de que foi feito Rousseau e o seu apego à natureza e ao isolamento, muito diferentes dos salões parisienses. Devemos-lhe isso.

alc

domingo, agosto 30, 2026

"As Confissões. Segunda parte", Jean-Jacques Rousseau

 

E-Primatur, 2025. Tradução de Manuel de Freitas. 

O mês de Agosto, para um tipo livre de obrigações, dá nisto: ler Jean-Jacques Rousseau pela sua própria mão. Tem tudo para dar certo. Agosto é um mês em que deixou de fazer qualquer sentido para ser chamado «de férias». Tal conceito não existe num reformado enquanto as seguradoras e o governo de Montenegro nos deixarem livre-trânsito para graus de ansiedade colectiva só equiparada à troika de Passos Coelho.

Este segundo volume das memórias de Rousseau é, talvez, o centro bem visível e sentido de toda a trama à sua volta, já que de filosofia pouco se fala. Com alguma razão, Rousseau deixa-a de lado, visto que as obras dele aí estão bem vivas, até em livros de bolso ainda hoje. Creio não estar a exagerar se disser que o conhecemos bem, por múltiplos factores que são conhecidos. A defesa do seu igualitarismo social e legislativo (ainda longe do igualitarismo económico, bem-entendido), a nova perspectiva sobre a educação das crianças e dos jovens (ainda e só os masculinos, mesmo com a edição de «A Nova Heloïse» em contraponto com «Émile»), a necessidade de um «Contrato Social» entre governantes e governados, «Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens» e o incontornável «Devaneios de um Caminhante Solitário». 

Nas «Confissões», e principalmente neste segundo volume, ele aborda a sua vida e as suas relações com muita gente que conhecemos bem, como Voltaire (a quem não perdoa o desprezo a que foi votado por este com a edição de «Cândido» subtilmente, ou nem tanto, dirigido às suas posições sobre o ''bom selvagem'' e sobre a posição de Rousseau sobre o terramoto de Lisboa de 1755, nem diferente da de Voltaire), como Diderot e D'Alembert que o afastam dos seus círculos e até com Montesquieu que é, estranhamente, pouco referido neste segundo volume. O grande mistério em torno deste volume é, em parte, a ingenuidade que dá mostras Rousseau. Os círculos em que se move são os dos possidentes, a mais poderosa aristocracia que enxameiam os salões, os cafés e as academias. Por muito que admirassem o brilhantismo de Rousseau, ele esquece, ou parece esquecer talvez para não morrer na pior das misérias que chegou a conhecer bem, que esta gente não perdoa o facto de ele defender a igualdade do género humano, quando o que está na génese da monarquia absoluta é exactamente o seu contrário: a defesa da perpetuação das desigualdades. É aí que Rousseau se move, porque é nesses círculos que se publicam as obras, onde perdura a censura e os possíveis favores que ela pode oferecer, onde está as enormes somas de dinheiro provenientes dos impostos e do feudalismo ainda mantido a ferros, onde pode esperar algumas prebendas em forma de parcos ordenados para subsistência de si e de Thérèse Levasseur, sua companheira com quem teve cinco filhos nunca criados por eles e sem que neste volume mostrasse profundos remorsos de os ter abandonado. Não sei se alguma vez ele se questionou sobre o seu papel neste meio aristocrático e se poderia ou não ter construído uma teoria da luta de classes, mas a verdade é que a burguesia (da República suíça, genebrina, principalmente) não foi muito melhor para ele e o povo apedrejava-o literalmente nos seus longos passeios pelos bosques e montanhas, aqui por razões de religiosidade fanática, quer em França, quer na Suíça. Chegou a temer pela sua vida várias vezes. Tentou a ilha de Saint-Pierre, mas em vão: foi expulso pela cidade-estado de Bienne. Antes foi corrido em Neuchâtel, Yverdun e Motiers, onde houve um levantamento popular contra a presença dele. Portanto é possível que não visse algum germe libertador em qualquer classe, mesmo nas subservientes.

Vai tentar, já doente, a possibilidade de Berlim, embora Londres e Hume o esperam por influência de alguns «beneméritos» franceses.

alc

sábado, agosto 15, 2026

"As Confissões. Primeira parte", Jean-Jacques Rousseau

 

E-Primatur, 2025. Tradução de Manuel de Freitas. 

Numa época em que dificilmente se encontra qualquer identificação pessoal, em que o miserabilismo cultural é uma realidade, em que qualquer asno se não coíbe de se considerar como um pensador, quando o caminho que a sociedade escolheu, com o beneplácito de imbecis encartados, é o da sua própria sobrevivência, não deixa de ser reconfortante iniciar a leitura de «As Confissões», de Jean-Jacques Rousseau. 

Talvez esta primeira leitura nos obrigue a conhecê-lo melhor e compreender algumas das suas escolhas e explanações filosóficas que mudou substancialmente o rumo da sociedade feudal e aristocrática, dando início a uma das maiores revoluções que a História conheceu: a Revolução Francesa de 1789, mesmo que ele se mostrasse avesso a qualquer acto de violência e tivesse falecido muito antes do seu eclodir. Mas não deixa de ser sintomático o que disse quando assistiu aos «confrontos» de Genebra em 1737: «Esse espectáculo horrível causou-me uma impressão tão intensa que jurei nunca participar em qualquer guerra civil e nunca procurar defender a liberdade pelas armas (...)» (pág.260). Assim era Rousseau, um tipo inquieto, procurando através dos livros, que lia em catadupa desde criança e sem método, uma síntese que o pudesse levar a um pensamento lógico e estruturado. Não se vê ainda aqui neste volume, visto que Rousseau é ainda um jovem entre os onze e vinte e cinco anos, mas já se nota o seu interesse por imitar a escrita de Voltaire, que admira, e citar antes do seu tempo, Diderot, a quem propôs uma volta a Itália a pé, desde os Alpes suíços. Diderot, embora aceitando, foi colocando educadamente a hipótese, meia louca, em banho-maria. Na sua juventude, como conta neste primeiro livro, para além dos já citados livros de todo o tipo que devorava impulsivamente, dedicou-se igualmente à composição musical que levou até bastante longe na sua idade e ao desenho e geometria. Vendeu, para sobreviver, os seus livros de geometria e queimou várias composições e óperas da sua autoria. 

De resto, vemos Rousseau na sua juventude envolto em liberdades amorosas, principalmente com a senhora de Warrens, a quem chama de «mamã» (a sua morreu o seu nascimento) e que por vezes acontece tornar-se parte de um dos vértices de triângulos de desejos incontidos. Preceptor de jovens de famílias ricas, consegue reconhecer os seus erros e atitudes menos correctas apontando já para a tema de «Émile» e de «Heloïse», assim como as suas constantes viagens a pé ou de liteira, o apontam para o «Pensamentos de um Caminhante Solitário». O que nos faz ler este volume num ápice é o facto de Rousseau se mostrar completamente despido diante de nós, de ser honesto em extremo, coisa que não é habitual em autobiografias. A sua relação com a religião não é esquecida e o facto de ser católico e mais tarde ter-se convertido ao deísmo, se assim se pode utilizar o verbo «converter» quando se fala em deísmo, mas nota-se já o seu profundo desprezo para com a igreja e claramente adepto da convivência entre todas as religiões do mundo. 

Não se revê na França do século XVIII e muito menos em Paris. Embora suíço de nascimento, genebrino, e cidadão do cantão de Vaud, Paris foi para ele uma grande desilusão motivada pelas enormes desigualdades sociais a que assiste em jovem. Mostra o desdém do dinheiro e do que ele pode dar, recusa a servidão a que este obriga as pessoas que o perseguem com obsessão. Usa-o, gasta-o, não sem dificuldades várias, guarda-o na medida certa: «O dinheiro que se possui é o instrumento da liberdade, aquele que se persegue é o instrumento da servidão. É por isso que o junto com cuidado e que não cobiço nada.» (pág.50). Parece-me que o deve e o haver com a filosofia e com os seus contemporâneos vai ter vasta descrição no segunda parte da autobiografia.

Rousseau ainda é hoje execrado por vastos sectores da direita e da extrema-direita. Em pleno século XXI, tal como Marx e outros igualitários, é objecto de torções ideológicos que deixam um rastro de ódio, mentiras e meias-verdades, mesmo até por alguns sectores de esquerda. Convém lê-lo em «As Confissões» e talvez entendamos melhor ao que veio e o que publicou. Afirmá-lo como um «inimigo da liberdade» tal como o fez Isaiah Berlin e muitos que o seguem nas universidades actuais é. no mínimo, qualquer coisa de infame e intelectualmente desonesto. 

Nota pouco importante, mas intrigante: lembram-se, certamente, da rábula do pão e dos brioches a que atribuímos a Maria Antonieta. Há quem diga que nunca o disse, visto que o boato era uma forma de desinformação constante nos dias anteriores à Revolução Francesa, mas serviu como metáfora maldita para a jovem rainha. Ora, neste livro, na página 323, ele dá esse exemplo como fosse dito por uma «princesa», mas não a identifica. Rousseau morre em 1772, muito antes da data de 1789. Maria Antonieta é morta em 1793, tendo-se casado. com Luís XVI, em 1770, com catorze anos. Penso que nunca poderia ser ela a autora da frase que lhe é atribuída, ou, se o fez, era extremamente nova. Então a quem?

alc

quinta-feira, julho 30, 2026

"O Passeio", Robert Walser

 

Antígona, 2026. Tradução de Bruno C. Duarte. Ilustrações de Pierre Pratt.

«O Passeio» é um livro maravilhoso de alguém, como Robert Walser de quem não desisto de ler e conhecer mais profundamente que outros autores; não só passeia como parte fundamental do ofício de escrever, como diz de si próprio que mandria, que ao nada fazer tudo observa como um gosto imenso pelo mundo, não abandonando, contudo, um sarcasmo elegante. Um passeio, para ele que morreu exactamente numa caminhada na neve, em 1956, e nas redondezas do hospício onde estava internado, em Herisau, na Suíça. Andar e ver era, para ele, a verdadeira vida, onde tudo acontecia como o perturbador olhar de uma mulher bela a quem se dirigiu e disse-lho com o cuidado do desconhecido, do bater rápido do coração antes de saber qual a reacção dela e de quem não mais esqueceu o seu olhar. A ida aos correios para uma carta veemente para um indivíduo e que o obrigou, contudo, a pedir perdão aos leitores dessa mesma afronta visto que ele também mereceria alguns reparos pelos erros e malfeitorias do seu passado, de ofensas que teria feito a outros, uma rocambolesca viagem às Finanças ou observar a alegria incontida das crianças que brincam, livres, e o arrojo dos automóveis que as impedem de atingir essa mesma liberdade que, mais tarde, a vida as impedirá de conhecer. Que lição de vida este livro que em boa hora a Antígona publicou com excelente tradução. «O Passeio» é para se ler de uma vez só para, posteriormente, termos a possibilidade de nos cingirmos a algumas frases e situações tão belas quanto inspiradoras. As pequenas coisas tornam-se sublimes em Walser, não há maneira de negar o óbvio quando nos dispomos a conhecê-lo em toda a sua obra inesquecível. Li-o de uma assentada, ou seja, num único dia e sublinhei mais tarde algumas passagens que me pareceram importantes; isso não me impediu que, numa nova releitura, me tivesse disposto a sublinhar outras, até que o livro todo fosse um enorme sublinhado, o que deixava de atingir o objectivo que me levava a fazê-lo. Não o façam. Eximam-se de o sublinhar. Todo o livro é de uma enorme empatia para connosco. Que livro e que escrita!
Robert Walser. António Luís Catarino, 2025. Desenho a tinta-da-china.

«(...) ''Porque estou aqui a colher flores?'', perguntei a mim mesmo e olhei melancolicamente para o chão, e a delicada chuva amplificou a minha melancolia, elevando-a à tristeza. Vieram-me à mente velhos erros do passado, traição, ódio, despeito, falsidade, perfídia, maldade e toda a espécie de atitudes ofensivas e desagradáveis. Paixão desenfreada, desejos delirantes, e a forma como tinha magoado tantas pessoas, como tinha agido injustamente. Como um palco repleto de cenas dramáticas, a vida passada abriu-se diante de mim e, sem querer, não pude deixar de me assombrar com as minhas inúmeras fraquezas, com todas as indelicadezas e crueldades que havia demonstrado. (...) Ao olhar a terra, o ar e o céu, ocorreu-me o sinistro e inevitável pensamento de que eu era um pobre prisioneiro entre o céu e a terra, de que todos os seres humanos eram lamentavelmente prisioneiros dessa mesma maneira, que para todos havia um único caminho sombrio, que era descer pelo buraco, pela terra adentro, que não havia outro caminho para o outro mundo senão aquele que passa pelo túmulo. (...) Fiquei ali deitado longamente, perdido em vagos pensamentos, até que voltei a lembrar-me daquela jovem, que era tão bela e plena de vigor, que tinha uns olhos tão doces, bons e puros.» (pág.107-109) 


Robert Walser num passeio. António Luís Catarino, 2024. Pen e colagem de um trecho de escrita miudinha, a lápis, de R.W. muito difícil de ser decifrada.

alc

quarta-feira, julho 29, 2026

"Sinais de Fogo", Jorge de Sena

 

Col. Mil Folhas, Público. [1ªedição póstuma, 1979], 2003.

Li-o nos anos 80 e não me lembro já das impressões com que fiquei, mas não foi coisa extraordinária. Hoje, numa época em que me interesso pelas releituras que fiz, tenho a certeza de que «Sinais de Fogo» me perturbou o suficiente para afirmar que o romance cumpriu o seu dever. Portanto, estamos perante uma obra ímpar. O que para mim é novo foi ler a longa introdução de Mécia de Sena que nos informa que um livro que foi póstumo (Jorge de Sena morre em 1978) iniciou-se em 1964 pelas mãos do poeta e escritor, sem que se ponha de lado a hipótese de ter sido escrito em cadernos logo nos finais dos anos 30. Mécia de Sena considera-o inacabado e não revisto completamente por Jorge de Sena, o que nos leva a observar algumas incongruências em nomes de personagens que se trocaram e repetições, para além de longos pensamentos paradoxais e íntimos que nos lembram muito o «jogo» psicológico pessoano. 

Seja como for, seria impublicável durante o Estado Novo e mesmo na sua continuidade como foi o do marcelismo, desconhecendo eu se essa quase certa censura seria por motivos políticos, por pudor ou ambos. Penso que por ambos os motivos. Todos os que conhecem Sena sabe que «Sinais de Fogo» se passa na Figueira da Foz, abrange o ano de 1936 e o início de 1937, a Guerra Civil de Espanha atravessa-o e obriga as jovens personagens de uma burguesia politicamente dividida e em crise moral, a optarem por um dos lados. Ninguém é neutro ou consegue sê-lo. Mas Jorge, a principal personagem, não é um libertino, um livre pensador. É, antes, o retrato fiel de um filho de «boas famílias», femeeiro, por vezes até cruel, perfeitamente ambientado aos costumes burgueses de uma moral hipócrita, subterrânea, que permitia aos mais ricos violar criadas, apoucar e ameaçar homossexuais, falar de política enquanto se participa numa orgia, «possuir» mulheres... Aliás, o verbo «possuir» é repetido à exaustão, mesmo quando Sena descreve uma relação amorosa «quando dois corpos se tornam um», o que não deixa de nos surpreender. Quem possui quem? Diz-nos Mécia de Sena, que foi a guardiã abnegada do espólio de Jorge de Sena, que não se trata de um romance autobiográfico, mesmo que algumas personagens tenham existido de facto, como o inesquecível Justino. Como também afirma que ela não é a Mercedes do romance, única personagem plenamente livre, pela escolha individual que faz, não pelo jugo familiar que se abate sobre ela. Em todas as páginas a violenta ditadura dos anos 30 imposta por Salazar, logo após a Constituição plebiscitada de 1933, estava claramente em ascensão e, historicamente, ela surge-nos como uma «ditadura de massas» coisa que o ditador demoraria pouco a pôr-lhe fim, apoiando-se nas polícias, mocidades e legiões, bem enquadradas para perseguir, prender, torturar, fazer desaparecer, matar.

Mas sobre o romance em si, e o seu carácter sórdido impossível de esconder porque espelho de uma sociedade assim, prendamo-nos antes nas palavras do próprio autor:

«Quando eu correspondera à imagem de mim que ela [Mercedes] aceitara noutros, e lhe impusera, em troca, mais ou menos que a minha pessoa,, o meu corpo, eu abdicara de tê-la como pessoa, porque ela não podia ser uma pessoa dentro de uma imagem, do mesmo modo que eu não podia possuir a minha própria imagem. Mas quem não seria, no amor dos outros, todas as imagens de pessoas com que elas tinham sonhado? Quem era si mesmo nas imagens dos outros? Não era, afinal, a mulher ideal ou o homem ideal o que procurávamos nos outros; mas nós mesmos nos idealizávamos, éramos idealizados com a imaginada realidade dos que, se sonhados, não haviam sido possuídos, ou que, se possuídos, não tinham sido sonhados. Esta idealização não tinha nada que ver com pureza, com inocência, com gratuitidade. Era, pelo contrário, uma soma, uma acumulação, uma confusa mistura de toda a sordidez que não nos atrevíamos a sonhar nos outros ou pelos outros (...)» (pág.259)

alc

sábado, julho 18, 2026

Flauta de Luz, nº12

 

Flauta de Luz, nº12. Julho de 2026

Mais uma número imperdível de «Flauta de Luz», agora a número 12, publicada com o trabalho de Júlio Henriques e de Joëlle Ghazarian. São 360 páginas de qualidade ímpar para quem o inconformismo anda a par com uma vida de recusa ao Estado e à ordem capitalista tenha ela a forma em que se apresente. Seja a ordem do mercado ou a burocrática. Os temas são tão díspares, quanto são os ataques desta ordem à humanidade. O diagnóstico está feito e parece-me que esta revista não faltarão as fórmulas libertadoras de quem assume essa recusa.

Júlio Henriques assina uma importante análise social da conjuntura na região portuguesa, mas tenham igualmente presente as contribuições de Jorge Leandro Rosa «Pensar a Guerra Enriquece e Ilumina», de Chris Hedges «Declínio e Queda do Império Americano», de Franco Berardi «Introdução ao século XXI», um artigo de Robert Kurz «Imperialismo de Crise», de Joëlle Ghazarian «Esboço (de uma mulher) sobre a Guerra» e «Uma Espécie de Movimento de Fundo», de Pedro Levi Bismark «Primo Levi, Memória e Destino», de Charles Reeve «Educar para Submeter, Socialismo Autoritário e Fascismos», um esclarecedor artigo de Erik Corrêa «Uivos para Sanguinetti» que esclarece muito do que se passou entre este e Debord, um importantíssimo artigo de Phil Mailer (tem editado o novíssimo «Portugal, a Revolução Impossível», pela Antígona) «Obsceno Fascínio da Internet», de Júlio do Carmo Gomes «Kopenawa em Berlim, Quem não Beija não Manduca», de Ivan Illich «Declaração sobre o Solo», e mais artigos entre os quais se contam Anselm Jappe, John Berger, Wendell Berry. 

E três pequenas, mas significativas, notas sobre o âmbito cultural e interventivo da Centelha de Coimbra, mais tarde Fora do Texto, e cujo papel agregador na pessoa de Soveral Martins foi destacado pelo Eduardo, por António Martins e por mim próprio.

Atenção especial ao grafismo e ilustrações que povoam este número de Flauta de Luz.

alc

"O Belo Verão", Cesare Pavese

 

Livros do Brasil, 2021. Tradução de José Lima. 

Li um livro belo, consequência lógica da procura pela obra de Pavese. Lá estão as mulheres e as colinas, forma de fugir às cidades, os cafés sombrios e as ruas dispostas pelas ambições e frustrações humanas. O Sol vigoroso e o calor que faz explodir os sentidos, mas igualmente o frio de Inverno com que acaba o romance. A neve que tapa a nudez da modelo. Duas mulheres radicalmente diferentes, dois homens estranhamente iguais, com comportamentos padronizados. Nesse aspecto compreendemos bem Pavese e o que ele nos oferece dizer sobre as mulheres. Os diálogos são breves, como que amalgamados nos sentidos das personagens. Pouco se diz, muito fica por dizer, mais intuímos na continuação  das situações criadas. As descrições precisas obrigam-nos ao recurso da imagem, enquanto as palavras fluem como os diálogos. Sem quase adjectivos, somente a palavra exacta.

Não me canso de ler Pavese. 

alc

segunda-feira, julho 13, 2026

«Ora Esguardae», Olga Gonçalves

 

Olga Gonçalves (1929-2004)
Leio «Ora Esguardae», livro que gostei bastante de ler quando foi publicado em 1982. Hoje, releio-o não já com o entusiasmo da altura, quando ainda se acreditava vagamente que a democracia parlamentar se teria consolidado numa revolução social então em regressão e a que se chamou, mal, de «prec». Nunca aderi a este acrónimo meio tacanho, aceitando-o contudo por facilitação: aqueles dois anos e meio foram, antes de tudo, uma reposição violenta das condições sociais baseadas na justiça e na liberdade, contra aqueles que durante décadas foram os plenipotenciários disto tudo. Foi uma revolta dos de baixo. Foi a reposição possível do comum da vida. Da dignidade, também. 

O que isto, assim dito, terá a ver com «Ora Esguardae» que quer dizer no antigo galaico-português «olhai e vede»? Tudo. Porque ler esta obra insere-se numa forma de escrita pouco estudada ainda: a de uma literatura social pós-revolução. Hoje achamo-la extremamente ingénua, perguntando-nos como foi possível esta torrente de palavras, grande parte delas quase de improviso, plena de tentativas de inovação literária, rechaçando a página e partindo-a em colunas, propondo-nos poesia a meio da prosa, diálogos infindáveis. A forma e conteúdo em sério confronto. No final, admiramo-nos com as preocupações pedagógicas de Olga Gonçalves (e de muitos outros e outras autores e autoras dos anos 70 e 80) sobre a construção de um país novo, mesmo que corra a risco óbvio de se tornar uma literatura assente em casos conjunturais, muito delimitados. Quem sabe hoje quem foi Mota Pinto ou Nobre da Costa? Mas não é isso o principal dos temas apresentados: a guerra colonial, a repressão da Pide e do Estado Novo, a censura, cujo texto sobre ela foi das coisas mais bem conseguidas de «Ora Esguardae», a reforma agrária e os partidos políticos, as proclamações da liberdade e por aí fora. Este livro foi escrito em 1981, por ironia com uma bolsa literária dada pela Tinker Foundation de Nova Iorque e escolhida por Urbano Tavares Rodrigues, o Tio Urbano, para uma colecção intitulada de «Grandes Escritores Portugueses Actuais» da... Planeta Agostini! No início da década de 80, as coisas já estavam assim, como que a formar um limbo político-comercial em que tudo seria possível. A ingenuidade aparece, consolida-se, quando se não estabelece um padrão de liberdade em que o dinheiro possa ter uma papel neutral. Não tem, nunca teve.

alc

sábado, julho 11, 2026

"Hotel Roma", Pierre Adrian

 

Gallimard. 2024. Col. Folio, 2026.

Um escritor francês ainda pouco conhecido, nascido em 1991, escreve sobre Cesare Pavese. E de que modo o faz! Muito bom seguir os passos de Pavese por onde ele nasceu, trabalhou, passou férias com Calvino, Einaudi, Elsa Morante, Natalia Ginzburg ou Antonioni, lendo cartas breves aos que amou e às mulheres que o descartaram, deslaçando o seu feitio difícil, introvertido e insone. Ele, que compreendia bem as mulheres, com aquelas que privou tomavam-no por um tipo aborrecido, pouco dado a divertimentos. Ler uma obra como esta dá-nos uma confiança que, por paradoxal que possa ser esta afirmação, uma biografia «oficial» não nos daria. Porque estamos perante uma romance admirável sustentado por fontes próximas de Pavese, pelo visionamento de filmes de Antonioni e de outros dos anos 40 e 50, em que teve uma profunda influência, pela leitura atenta de cartas e de trechos dos seus romances que podem dar-nos pistas sobre a sua vida e morte em 1950. Cesare Pavese não deixa de ser um mistério adensado por cada obra que dele se lê. É mais que um enigma, é uma vida constante e o que ela contém de misterioso, perseverante, por um mundo que já não era o seu, como acontece com todos nós chegados a uma certa idade. Com ele foi-o desde sempre. Aquele mundo não era o seu, nunca o foi. A Itália de Resistência, finda a guerra, não lhe levou a mal o seu aparente afastamento. Nunca seria um verdadeiro ''partigiani d'Italia'' já que evitava qualquer conflito, era um pacifista nato, embora próximo do PCI e do seu L'Unità, cuja redacção visitava com frequência, quando não se encontrava na Editora Einaudi. Aliás, chegou a inscrever-se numa secção política de Turim. Era aquilo que se podia chamar de um militante anti-militante, um homem que escreveu o melhor que se poderia ler contra a guerra, pela justiça social e por uma profunda desconfiança no chamado progresso. Preferia subir as colinas com o seu cão e fumar o seu cachimbo, enquanto observava tudo e sentia o sol do Piemonte.

Todos os romances movidos por uma personagem central deveriam ser escritos assim: em viagem, como o fez Pierre Adrian, sem fôlego, mas que nos deixa um rasto de dúvidas e questões impossíveis de resolver a não ser no nosso íntimo. Aí, tudo é resolúvel, as coisas esclarecem-se sem que sejamos suficientemente desbocados para o dizer. É o que acontece com «Hotel Roma», um hotel em Turim transformado em ícone, entre uma estação de comboios, local de partidas constantes, e a casa da sua família há anos. Num domingo, a 27 de Agosto, no quarto 46, Pavese foi encontrado sem vida por um jovem trabalhador do hotel. O seu funeral, conta um amigo ainda vivo, Ferrarotti, contou com imensa gente, embora a Turim que o enlevou se tenha esquecido dele: na livraria ''La Bussola'' na Piazza Vittorio Veneto, que Pavese frequentava bastante, Adrian e uma companheira de viagem, perguntam por obras de Pavese. Depois de uma procura acompanhada pelo sibilar de «Pavese...Pavese...» o livreiro disse que não tinha nada dele. Não é caso único, as livrarias estão como estão e em toda a parte assim é.  

Há uma carta de Italo Calvino a Isa Bezzera, sobre o suicídio de Cesare Pavese, que valerá a pena traduzi-la aqui, mas, obviamente, não toda. Talvez aquela parte que demonstra a perda absoluta que significou o desaparecimento do escritor para Calvino:
«- Perguntar-me-ás, como toda a gente: ''Mas por que é que ele se matou?'' Aqueles que o conheceram ficaram petrificados com a notícia, mas não surpreendidos: Pavese era tentado pelo suicídio, desde a sua adolescência, como pela solidão, as suas crises de desespero, a insatisfação que lhe inspirava a vida, o conjunto dissimulado pela sua natureza fugidia e regressiva. Mas completamente revoltado, eu julgava-o, quanto a mim, que ele era verdadeiramente um duro, um coriáceo, uma trincheira: o género de pessoa em quem se pensa a cada momento de desespero, para se ganhar coragem: no entanto, Pavese manteve-se firme.» (pág.196)

Assim é. Talvez agora se esteja preparado para o «Ofício de Viver», obra póstuma de 1952.

alc

quinta-feira, julho 02, 2026

"A Lua e as Fogueiras", Cesare Pavese

 

Público, col. Mil Folhas, 2002. Tradução de Manuel de Seabra

De Cesare Pavese li, em tempos já remotos, «O Cárcere» e «O Camarada», este último quando era um indefectível jovem militante. O que não esqueci foi a onda de dúvidas que me assolou, quando pretendia exactamente o reforço dos meus ideais que julgava incólumes, indestrutíveis. Não esqueci Pavese, tal como Roger Vailland com o seu «Um Homem Só». Foram livros, e não só esses, que me inocularam a inquietação de pertencer a um partido quer de resistência política, quer de cariz revolucionário. Não aceitava de bom grado, sem mais, algumas das decisões «de cima». Não abandonei, contudo, quer a resistência, quer a revolução. Acredito nelas como construção, como saída, como acção para a liberdade e igualdade. 

Estamos na Itália de 1950, no pós-guerra e já pressentimos a desesperança de Enguia, retornado da América para onde emigrou para fugir à miséria e ao fascismo de Mussolini, e que interrogava Nuto, seu amigo de infância e resistente, por que ficaram a meio de uma mudança política e social que se queria mais profunda nessa Itália a contas com a vingança popular contras os «camisas negras», principalmente a partir de 1943. A ocupação alemã até ao 25 d'Aprile de 1945 fez correr quase tanto sangue como nos quatro anos anteriores. A luta de classes aí está descrita, as opções políticas que obrigavam a um fim quase sempre trágico, de ambos os lados, mais a mais quando se tem um país ocupado pelos alemães, o fascismo não completamente morto, ele nunca está de facto, e a miséria ainda a grassar teimosamente entre os camponeses sem terra, ou com rendas e deveres exorbitantes pagas aos terratenentes ricos. Os operários, esses, levantavam-se em lutas sindicais enquanto se empenhavam simultaneamente na reconstrução e na possibilidade dos comunistas chegarem ao poder por via eleitoral.

Há uma leve nostalgia neste livro de Pavese, até porque foi o seu último. Provavelmente já sentido a morte que se aproximava pelo suicídio no exacto ano de 1950, data da publicação de «A Lua e as Fogueiras». Estas fogueiras não são somente as de S. João, mas todo o fogo tomado pela violência que a miséria suscita. Tal como as hordas fascistas que se reciclaram em democratas, apesar dos fuzilamentos, apesar dos tribunais populares, apesar da resistência e acção de desfascistização levada a cabo pelos partigiani

E nós, em Portugal, fizemo-la? Pergunta que é impossível não a circunscrever perante a leitura atenta de «A Lua e as Fogueiras». O tão necessário julgamento dos torcionários do fascismo luso, dos crimes do colonialismo e da guerra colonial, das torturas como sistema, da morte programada de resistentes, da censura, da acção da PIDE e da Legião? Fizemo-la? Não creio que alguma vez houvesse coragem de praticar séria e coordenadamente a dessalazarização do país, nas escolas, nas instituições, na saúde, na assistência, na justiça, na cultura. Alguém a travou e não foram só os cravos a entupirem as G3, como nos lembrava, a tempo, Mário-Henrique Leiria. Houve na Alemanha, na Itália e no Japão. Os que não tiveram esse percurso deu-se mais facilmente o recrudescimento do fascismo, como na Áustria (aqui não houve desnazificação) e na Europa de Leste, malgrado terem tido quase 50 anos para o fazer, embora o nacionalismo condicionasse por vezes o combate ao fascismo como deveria ter sido feito. Na URSS e na RDA os nacionalistas de direita não eram tão incomodados como a oposição de esquerda. Portugal e Espanha não o fizeram, optou-se pela brandura e esquecimento e pela reconciliação hipócrita. Nunca houve uma reconciliação sequer, mas sim um prolongamento do rancor. Pagaremos por isso? Claro que sim e os nossos jovens escritores e artistas terão outros temas mais prementes a serem discutidos do que este. Se na Itália não é verosímil, mesmo com um governo de extrema-direita um qualquer topónimo que lembre Mussolini, se na Alemanha os familiares de Hitler e sequazes tiveram de mudar de nome, digam-me se neste momento, em Portugal, uma modesta proposta de erguer um museu-memória de Salazar era possível? Não só era possível, como já existe. Pavese, neste «A Lua e as Fogueiras» sem levantar estas questões (estávamos somente a 5 anos do fim do fascismo italiano) coloca-nos esta dilema verificando que mantinha, afinal, tudo na mesma. Tal como o seu suicídio, o dilema final mais violento que pode existir.

alc

sábado, junho 27, 2026

"A Vida de Lazarillo de Tormes e suas fortunas e adversidades", Anónimo do séc. XVI

 

Quetzal, 2026. Tradução de Margarida Amado Acosta.

Já não basta a edição ser grafada com o malfadado e inútil desacordo ortográfico de 1990, mas prefaciar o maravilhoso «Lazarillo de Tormes» por alguém que o critica, ainda por cima pelas piores razões, já é um bocadinho demais. O culpado é o grande mamífero Francisco José Viegas e o prefaciador, autor espanhol falecido em 1960, Gregorio Marañón y Posadillo! Valha o grafismo da edição e a tradução de Margarida Amado Acosta que me parece perfeita e conforme o picaresco da linguagem do «Lazarillo». Ler este livro leva-nos, por inteiro, ao século XVI ibérico. Digo ibérico e não somente espanhol, visto que a sua leitura remete-nos, por afinidade social óbvia, para Gil Vicente, principalmente para o «Auto da Barca do Inferno», peça onde ninguém sai incólume da crítica social, como sabemos. A novidade em «Lazarillo» é que, diz-se, é a primeira obra em forma de romance. Seja. O que é admirado pelo leitor é a escrita escorreita, a crítica explícita, a linguagem bem calibrada e a ironia que tem como alvo principal as classes, ou ordens, possidentes. O pequeno Lázaro passa por tudo e por todos e safa-se sempre com astúcia, não sem alguns engulhos, aflições e tristezas, estados de espírito que se colam sistematicamente aos subordinados. É esta a condição de quem nasce pobre: ser explorado até ao tutano, passar fome, não ter o que vestir ou calçar, mas manter-se alerta e ser esperto o suficiente para conseguir sobreviver. É o que o prefaciador chama de «romance picaresco» que, como se disse atrás, não é de bom tom para a «alma espanhola», porque transmite uma ideia diferente do que é realmente o espírito ibérico ou, ainda pior, provocar «a influência indubitável que esta literatura teve na depressão dos valores fundamentais de Espanha», seja lá o que isso for. Não fosse Gregorio Marañón um amigo e contemporâneo de Unamuno que «descobriu» a constante suicida na alma portuguesa! Pior vem a seguir, páginas adiante do infeliz prefácio, quando é afirmado que a censura não era particularmente violenta a não ser para assuntos teológicos (pág.24). E continua sem qualquer rebuço, o senhor Marañón y Posadillo: «E quanto à censura religiosa, o espanhol acomoda-se a ela docilmente. Mais ainda, ter-se-ia acomodado voluntariamente a ela, sem necessidades de repressões, porque, quase sem exceção, era sinceramente católico.» Claro que este autor tem para si que «Lazarillo de Tormes» era uma crítica social e política e que não seria objecto de censura. Mas foi-o, logo cinco anos após a sua publicação, pela sempre presente Santa Inquisição, sendo que a versão completa só foi conhecida em pleno século XX. Em Portugal só foi conhecido, e em parte, a partir de 1712! Ainda há uma outra questão tão óbvia que até impressiona: não se é anónimo porque sim! E assim permaneceu até hoje, anónimo, tal como com o «nosso» «Arte de Furtar». Mas evitemos Gregorio que já lhe dei linhas a mais. Mas esta teimosa opção por prefácios mal amanhados é uma tendência editorial que não se compreende. 

«Lazarillo de Tormes» ombreia com os melhores romances e autores deste estilo literário que nos aparecem a partir de um Renascimento, mesmo quando a sua força literária seja muito díspar na Europa. Ao ler esta maravilha, não podemos de deixar de lembrarmo-nos de Rabelais, de Swift, de Bocaccio ou de um Chaucer, para não falar igualmente do já citado Gil Vicente. Que não se perca uma linha desta leitura amiga e cúmplice. 

alc

quarta-feira, junho 24, 2026

"Diários de Viagem e Alguns Poemas em Prosa", Matsuo Bashô

 

Assírio & Alvim, 2026. Versões e introdução de Jorge Sousa Braga.

É um livro belíssimo de Matsuo Baschô e que nos é apresentado e guiado com cuidado extremo por Jorge Sousa Braga. As notas são fundamentais para o acompanhamento interessado da leitura dos poemas. Logo na Introdução, deparamos com uma sumária descrição da vida de Bashô (o nome dele era, de facto, Kinsaku); tendo nascido em 1644, em Ueno, teve uma educação que o levaria a ser samurai, tal como o seu pai. Mas foi a poesia que se atravessou no seu caminho através da escola de haikai Teimon. Não parou de viajar, fixando-se muito novo ainda em Edo, que é a Tóquio actual. Podemos acompanhar os poemas pelos mapas disponibilizados para esta edição, o que é uma boa opção para quem gosta de «acompanhar» nómadas. Viajar, conversar, observar, caligrafar e escrever. Meditar, igualmente. Amar o silêncio e observar os pequenos gestos e fenómenos da vida. Conhecer a singularidade das poesias japonesa e chinesa e tentar contornar os lugares-comuns ocidentais ligados a esta arte milenar. Como, por exemplo, a ideia errada que a poesia japonesa é radicalmente diferente da chinesa. Bashô foi beber às escolas chinesas muito do que escreveu, ou, então, inscrever a sua poesia no muito ocidental desejo recente do homem se integrar na Natureza (esta culpabilização!), mesmo que Bashô tenha referido existir, ou procurar, essa fusão total com o poeta. Essa ligação surge a partir do zen, profundamente inscrita nas sociedades japonesas e chinesas e, paralelamente, nas suas expressões artísticas e poéticas. Cometeremos um erro se tentarmo-nos afastar das comoções que uma leitura de poemas escritos por Bashô nos permitem ter, porque se embrenham numa teia pré-concebida, naturalista e académica que nos são apresentadas pelas universidades ocidentais. Os haikai de Matsuo Bashô são vivos porque têm esse condão de nos convidar a saborear, a ver, a ouvir, a tactear, isto é, a sentir totalmente o fio do poema, exemplarmente demonstrado em «O Caminho Estreito para o Longínquo Norte» (pág.73):

depressa se vai a primavera
choram os pássaros e há lágrimas
nos olhos dos peixes

ou ainda este:

que glória
folhas verdes de vários tons
brilhando ao sol

É verdade, contudo, que não se pode «conhecer» Bashô somente com este livro, mas ajuda-nos muito, principalmente pelas muitas notas de leitura de Sousa Braga que não devemos deixar de consultar, mesmo que tenhamos de voltar a ler o poema de novo. Creio ser esse o segredo mais bem guardado dos haikai: voltarmos sempre a eles. Nunca os deixarmos sós, tentarmos senti-lo de novo e de modo diferente da leitura anterior. 

Mas, antes de desvendar seja o que for dos «Diários de Viagem» de Matsuo Bashô, não quero deixar de referir a penúltima carta de viagem inscrita em «Poemas em Prosa». Trata-se do sublime «A Moradia Irreal», escrita no «Sétimo Mês de 1690». Nunca li coisa assim escrita. Só levanto este pequeno véu, nunca deixando de me inquietar (tal como a poesia e pintura provocaram em Bashô, confidenciou-nos este numa outra carta de viagem) se por acaso, aparecer-vos desligado do contexto belíssimo desta prosa poética:

«(...) E quando o sol começa a pôr-se por detrás das colinas, sento-me calmamente à espera da lua, para que possa ter uma sombra como companhia ou acendo um candeeiro para discutir o certo e o errado com a minha silhueta.(...)»

alc

quinta-feira, junho 18, 2026

«Morrer de Pensar», Pascal Quignard

 

Cutelo, 2026. Tradução de Diogo Paiva. Posfácio de Pedro Meneses e Cristina Álvares.
Pascal Quignard habituou-nos a isto: a um exercício profundo de leitura, desta vez sobre o pensamento e a individualização radical deste acto, certamente um acto de liberdade, assim como de conhecimento de si próprio. É sem dúvida um pensador em que a História se torna fundamental, tentando através da Crítica e da Filosofia urdir uma teia de questões que exigirão respostas o que, a existirem, serão quase sempre desconcertantes. É, talvez, e digo-o porque estou longe de conhecer os 90 livros que publicou até agora, dos mais densos que li dele e que por vezes exaspera, embora a curiosidade (um dos atributos do pensador quase sempre um leitor, segundo o autor) nos leve à persistente leitura de «Morrer de Pensar». Um dos pontos mais interessantes de Quignard, neste ensaio crítico, é a apresentação muito diversa dos étimos das palavras o que nos leva à decomposição da ideia que elas encerram. A Paidéia, a educação pela pólis, a Nóesis, como percepção cognitiva ou apreensão intelectual ou ainda a Alétheia, o que está mais perto da verdade, da verificação absoluta, são conceitos que nos levam directamente ao questionamento, à «guerra civil» dentro de nós que nos convida ao isolamento, pela impossibilidade de partilha comum. Daí todo o pensamento ser uma acção radicalmente só, um teste definitivo a nós mesmos reconduzindo-nos ao divórcio social, penoso mas simultaneamente necessário. Por outro lado, o pensamento é sempre uma projecção, um «sair para fora» que nos separa pela respiração; quando nascemos somos obrigados à inspiração e expiração, após libertarmo-nos do líquido amniótico. Todo o pensamento será então uma projecção, tal como a linguagem, para fora de si mesmo, o que levará ao conflito. Será isto que leva Pascal Quignard a  a firmar: «O cérebro copia o feto. (...) Cérebro e feto são criaturas aquáticas absorvidas num corpo, reviradas sobre si mesmas, inclinadas para o interior, escondidas da luz do dia, protegidas do ar.» E o acto de pensar, a nóesis, tem o seu êxtase quase de sentido xamânico, sem que isso não deixe de significar uma desconforto interior: «O pensamento deve ser apaixonante para aquele que o descobre na surpresa de descobrir. Nunca deve deixar de ser perturbador, ansiogénico, ansioso, conflituoso, traumático, ou então não pensa.» (pág.53).

Pascal Quignard liga, encadeia ideias e conceitos improváveis, aparentemente sem qualquer semelhança ou afinidade. Talvez seja esse um dos seus principais êxitos como autor muito traduzido: o sensação do espanto. Não sei se assim é. A forma como os autores do posfácio o classificaram, utilizando a designação dada por Dominique Viart, é a mais certeira: tratam-se de uma «ficções críticas», o que não deixa de ser verdade. Embora «Morrer de Pensar» não tenha provocado um grande entusiasmo perante um livro de Pascal Quignard, esse vai direitinho para «As Tábuas de Buxo de Apronenia Avitia» e «A Fronteira», não deixa de ser importante a sua leitura atenta.

alc

segunda-feira, junho 15, 2026

"Triunfo do Triunfo", Luísa Costa Gomes

 

D. Quixote, Março de 2026
Ler um novo livro de Luísa Costa Gomes é um exercício de controlo de comportamentos considerados quase anti-sociais. Se não vejamos: ler um livro em público, hoje em dia, num jardim ou café, é já considerado coisa estranha. Pior do que ler um jornal em papel. Se nos ativermos na leitura de «Triunfo do Triunfo» é bom não mostrarmos as emoções se considerarmos que rir, perante este conto homónimo, e em local público, poderá ser considerado sinal claro de menoridade mental acentuada. Digamos que rir, chorar, pensar enquanto se lê, não é pelos ajustes das sociedades hodiernas, a menos que seja frente a um telemóvel onde se podem revelar todas e quaisquer atitudes como falar alto e rirmo-nos à gargalhada, insultar ou ameaçar o marido ou a mulher, ver reels de porrada até avermelharem-se os olhos, suspirar por um encontro mal sucedido, tudo, desde que em telemóvel, será perdoado. Num livro proibir-se-á toda e qualquer interacção emocional porque não é bem de ver. Ora, ler este livro leva-nos direitinhos a esses arroubos literários de imediata conjunção às personagens desfiladas em cada conto. Todas elas diferentes, todas com segredos infindos, todas com desejos congruentes, explicáveis, genuínos. Saber que o herói improvável do conto «Triunfo do Triunfo», pessoa normal, portuguesa e tudo, deseja ser como «a média europeia» é todo um manifesto do paroxismo intelectual pátrio, uma louvável ascensão à mais fina filosofia eduardo-lourenciana, a um miguel-realismo de primeira água. Ser a «média europeia» tornou-se a mais alta aspiração de um português de gema, de um honrado e servil aspirante a político da praça, de um Inácio Carlos e de uma Cláudia Filipa, aspirantes a gestores de cemitérios modernos transformados em espaços para louvor da vida, um novo lifestyle que os portugueses demorarão a perceber não fossem as suas ideias eleitas em votação autárquica, sendo que «o facto de ter havido votantes já era uma grande vitória da democracia.» Luísa Costa Gomes é assim: livre, anárquica, justamente descendente do melhor do abjeccionismo luso, com olho de lince para o irrisório, o ridículo de que somos todos feitos. 

alc

quinta-feira, junho 11, 2026

"Nevoeiro", Pedro Eiras

 

Assírio & Alvim, Maio de 2026. 
«Que tempos são estes, em que é preciso defender o óbvio?» esta epígrafe, atribuída a Bertolt Brecht, remete-nos para o início desta investigação ficcionada que Pedro Eiras nos convida a seguir. Não é uma contradição nos termos. É o rigor a que tudo imprime Pedro Eiras, quer como professor de Literatura, quer como autor ou, ainda, como leitor inserido na polis, não disposto a uma neutralidade irritante que, ao contrário dos que muito defendem e praticam, afasta toda a gente. Nos tempos que correm, avisa-nos na sua Nota Final, que a memória é fundamental para compreender uma fatia importante dos factos que correm à frente dos nossos olhos. Trata-se de um conjunto de peças que são colocadas numa engrenagem a três dimensões. A engrenagem da crítica política, outra da Literatura e outra ainda da História de que é feita a memória enevoada ou, se quisermos, ficcionada através das evidências factuais. Essa memória foi construída, em «Nevoeiro», como se fosse uma bruma densa que inicia logo o primeiro capítulo. Fernando Pessoa, o Chiado, o palácio de S. Bento onde, em 1935, Salazar tratava de consolidar o Estado Novo numa Europa em convulsão e hipnotizada pelo autoritarismo. O levantamento paulatino desse nevoeiro é clarificado com o decorrer da leitura.

Pedro Eiras não cede. É este o seu estilo literário que assim escolheu para este livro, conhecendo-se o que antes foi editado e mesmo escrevendo em «Nevoeiro» que tem a liberdade de tergiversar nos campos infinitos da escrita, que não se pode remeter a um só formato. Chega a ser terrivelmente honesto connosco, leitores: «Por que motivo, então, adio os livros que desejo, e avanço nesta investigação sobre a escrita e o poder? Desisti mil vezes de escrever este livro, tão distante de todos os outros. Vez após vez este projecto de investigação assaltava-me, seduzia-me, assustava-me. E desistia, ainda antes de começar.» (pág.53) Adivinhamos alguma luta interior que atravessa um largo tempo, facto que seduz igualmente quem lê, pela intimidade que se abre. Com efeitos mais do que interessantes. Estamos perante um livro que se deve guardar e relê-lo de tempos a tempos.

Pedro Eiras não é neutral: contradiz os falsos baluartes do autoritarismo fascista de Salazar, admirador de Mussolini e paternalista perante o seu «enfant terrible» António Ferro, dado às vanguardas futuristas e modernistas e que conheceu Fernando Pessoa na Orpheu, tentando levá-lo para o Secretariado da Propaganda Nacional através da «Mensagem» a quem, ironicamente, foi outorgado o 2º prémio do seu primeiro concurso. Deixo-vos a liberdade de lerem com a atenção e entusiasmo que merece a segunda parte de «Nevoeiro» e entrarem na trama cuidadosamente elaborada por Pedro Eiras sobre Fernando Pessoa ortónimo e os seus heterónimos, mais as dúvidas, contradições e certezas deste. Também não é neutral sobre Os Lusíadas e Camões, como o não é para Vieira e Bernardes e sobre as violências coloniais de um Império que o salazarismo tentou mitificar, com algum sucesso para os tolos ou imbecis, diga-se. Tal como não é neutro, agora pela positiva, para Fernando de Oliveira, Diogo de Couto ou João de Castro que denunciaram, em pleno século XVI, as violências da escravatura e do Império. Sendo assim, este livro torna-se um importante libelo em torno da liberdade e da veracidade, tal como uma questão central da literatura pós-colonial, como seja o do anacronismo das críticas actuais sobre a violência do esclavagismo (já em 2009, Pedro Eiras tinha escrito «Um Punhado de Terra», uma peça de teatro que foi a palco no Porto sobre este mesmo tema). Em «Nevoeiro» podemos ler «(...) Mas qualquer leitura é sempre feita no presente; qualquer leitura é anacrónica - ou supercrónica. Nunca leremos Homero como na Antiguidade, nem Dante como na Idade Média, nem Shakespeare como no Renascimento; ler implica assumirmos o nosso anacronismo. Falácia seria, isso sim, fingir que podemos esquecer o conhecimento que temos do passado, pôr a nossa consciência entre parênteses.»(pág.80)

«Nevoeiro» transporta Pedro Eiras para uma dimensão inigualável na literatura contemporânea. 

alc

segunda-feira, junho 08, 2026

"Terra Fria", Ferreira de Castro


Cavalo de Ferro, 2026 [1ªed.1934].
Editado pela primeira vez em 1934, pela editora «O Século», «Terra Fria» não será um dos melhores romances de Ferreira de Castro, afirmação minha que vale o que vale, mas que no seu posfácio o autor, comemorando 50 anos de vida literária, em 1966, admite isso mesmo quando atribuiu à idade de adolescente de 14 anos este «ingénuo» e «desvalioso romance». No entanto, estes adjectivos para classificar um romance de Ferreira de Castro, mesmo que autoavaliado, estarão bem longe de uma má crítica ou de uma tentativa de apartar esta obra da obra completa do autor. É sempre avisado relativizar o menos bom quando se trata deste autor.

Um dos maiores interesses de «Terra Fria» é que este se passa nas Terras de Barroso, num território de fronteira, um ano após o plebiscito à Constituição de 1933 e antes da Guerra Civil de Espanha que militarizou as terras raianas. Aliás, deve dizer-se que no romance não existe a linha de fronteira; ela é uma continuação do Couto Misto, entre Chaves e Montalegre e terras galegas, em que a população flui livremente sem quaisquer motivos de separação política ou administrativa exigidas pelo controlo do Estado e pelas classes dominantes. Também não seria por limitações linguísticas ou sociais a impedirem essa permuta. Em «Terra Fria» encontra-se material de estudo antropológico, assim como sociológico, económico e político. O espírito comunitário ou comunalista, com leis rígidas autogeridas, fortemente rural, é-nos apresentado, para nós, leitores contemporâneos e urbanizados, como se fosse uma realidade tão longínqua como inverosímil; não obstante, esse comunalismo existiu durante milénios até o Estado o tentar destruir e o turismo acabar definitivamente com ele. Paradoxalmente, se hoje ouvimos falar ainda do Barroso e das suas gentes é pela luta teimosa que empreenderam contra a extracção do lítio que quer esventrar uma terra que ainda vive em sossego com o seu gado e os seus cultivos, obrigando-nos a uma solidariedade genuína. Exploração protagonizada pelos «americanos», agora bem identificados pela empresa multinacional Savanah, tal como no romance o «americano», dono e senhor de Padornelos, era o representante maior do Estado Novo, saído recentemente da Ditadura Militar, e que a Censura nunca poderia permitir tal referência no romance. 

Censura essa que Ferreira de Castro teve que lutar, quando recusou que o Fundo do Cinema, estrutura fascista da propaganda do regime, levasse a cabo um filme realizado por António Lopes Ribeiro que o corromperia totalmente. Assim como, igualmente, recusou uma adaptação francesa num filme que ele apontou «falta de autenticidade». Está tudo explicado no posfácio do livro, escrito em 1966. Tal como as ilustrações propostas por Pavia e por Bernardo Marques que não foi possível usar nas primeiras edições de «Terra Fria», como nos conta. Só em 1992, finda, há tempos, a ditadura, é que António Campos realizou o filme homónimo que hoje podemos ver.

«Maio aberto, enquanto, nas cidades, gente de fábricas comemorava o trabalho, em Barroso a tradição ordenava que se esconjurasse, finalmente, o Inverno, mandando para a serra as primeiras ''vezeiras'' de cabras, vacas e ovelhas. Era formado cada rebanho com bichos da mesma espécie, mas pertencentes a vários donos, que procediam, desde épocas patriarcais, em bom colectivismo, revezando-se na pastoreação. Costume mui antigo, quem, por isto ou por aquilo, não podia pôr pé em terras pascigosas, exercendo a vez que lhe competia, dava homem em seu lugar, pagando-lhe, para que os sacrifícios entre todos se dividissem. E ninguém podia esquivar-se ao esforço mútuo em prol da riqueza colectiva. Desculpas que não fossem por morte ou doença não serviam; eram consideradas lesivas dos interesses comuns e havia até posturas camarárias que estabeleciam multas para os que não tivessem vergonha de assim proceder.» (pág.63)

O que é impossível de esquecer na leitura de «Terra Fria» é que este sentido colectivo, comunal, quase se sobrepõe à tragédia em prosa que Ferreira de Castro nos oferece, mesmo que essa história terrível esteja intimamente ligada às dificuldades geradas pela miséria e pela luta para lhe pôr fim, por parte das gentes do Barroso; em toda a narrativa existe uma luta surda com as autoridades locais dominantes, seja na pele do sacerdote, do regedor, do homem abastado, seja contra a guarda fiscal e republicana que vigiam e marcam as fronteiras contra o contrabando, sempre presente como alternativa possível para a sobrevivência.

«Na tarde morna, declinando entre as bravias montanhas, ali, na terra ignorada do mundo, na terra sem história, que principiava na Galiza e vinha terminar, alheia a fronteiras e idiomas, dentro de Portugal, a vida do povo obscuro tinha as mesmas expressões fundamentais, o mesmo instinto de perpetuidade, a mesma ânsia de alegria e o mesmo céu comum a toda a espécie, como se os lugarejos que os lobos, de noite, espreitavam, se encontrassem situados no centro do planeta.» (pág.201)

quinta-feira, junho 04, 2026

"14 Juillet", Éric Vuillard

 

Actes Sud (Col. Babel), 2016.
O que haverá de comum entre Lissagaray, Orwell, John Reed e Éric Vuillard? Se Lissagaray descreveu aqueles gloriosos 72 dias da Comuna de 1871, se Orwell dissertou sobre a Guerra Civil de Espanha e John Reed contou-nos aqueles 10 dias da Revolução Russa, Éric Vuillard realizou uma experiência literária que nos conduz a um só dia da Revolução Francesa: o 14 de Julho de 1789. Não exagero se me atrevo a dizer que este livro nos conduz de um modo extremamente vívido ao povo que, pacientemente, Vuillard retira do anonimato quando decidiu assaltar violentamente a Bastilha e tomar em mãos os destinos da França e, provavelmente, sem tomar total consciência disso, os destinos do mundo. Só existe uma diferença entre os nomes que referi e o nosso autor já aqui citado várias vezes: Vuillard não «assistiu» ao início da Revolução; de resto, ele é um nosso contemporâneo e soube descrevê-la ao ponto de sentirmos o bater do coração do povo em fúria, do desespero que o levou a entregar-se à morte face aos canhões e às espadas, da necessidade de transmutar-se em peças inseparáveis de uma enorme roda que esmagava o Antigo Regime e os seus representantes de uma velha ordem que entendiam como «natural». Não era e o povo de Paris apresentou os seus argumentos na violência regeneradora por uma sociedade igualitária, livre e fraterna. Nesse mesmo dia, o 14 de Julho, Éric Vuillard soube transmitir-nos o pulsar de uma revolução na rua, o início de uma realidade que pode resgatar uma utopia, mostrar, com uma inteligência literária viva, as contradições de classe já existentes na explosão revolucionária. É um livro que viaja por um só dia e cujo ritmo nos leva quase ao minuto, à hora, em que sentimos o calor abafado de Julho e o que ele provoca nos corpos comprimidos como uma massa única; ouvimos os gritos dos feridos e a sensação de abandono que sentem os que lentamente morrem frente aos portões da Bastilha, adivinhamos o sentimento de revolta profunda dos que sentiram fome ou que nunca puderam dar de comer aos seus, a doença e o desemprego, enquanto Versalhes se afundava no luxo e na infâmia dos enormes gastos e na repressão mais hedionda. A burguesia soube ser revolucionária, como a caracterizou Marx quase um século depois, mas não deixou de ser astuta e oportunista, usando a força popular para os seus próprios interesses. Interessante verificar que Vuillard já nos dá esta visão política com as descrições das delegações dos «representantes do povo» nas negociações pela rendição da Bastilha, tentando ultrapassar e moderar as decisões populares saídas directamente da rua em ebulição e isto tudo na cronologia de um só dia. 

Um livro que não foi traduzido e editado em Portugal. Vá lá saber-se porquê.

alc

segunda-feira, junho 01, 2026

O Abjeccionismo e os Imigrantes que se vão daqui.

 Os Imigrantes decidiram ir embora daqui. Pouco a pouco começam a juntar os haveres e ala que se faz tarde para lugares mais acolhedores. Não sei se, entretanto, aproveitarão para regular algumas questões pendentes sobre o modo como foram maltratados pelos portugueses e pelo Estado, durante os escassos anos que previram estar por cá. Vem isto a propósito do abjeccionismo, esse movimento que, segundo alguns, substituiu o surrealismo, porque isto anda tudo ligado. Há quem afirme que nunca houve um movimento surrealista em Portugal, mas sim atitudes abjeccionistas que estiveram na base de um estado de espírito aceitável por muitos escassos portugueses, que era o da revolta permanente. Revolta e abjecção face aos portugueses de raiz: os que gostam de Fátima e do fado, os que nunca dispensam o aumento da sã mortalidade baseada no clubismo, os que bebem minis quentes com a camisola da selecção e imitam a saudação romana não fossemos nós latinórios de gema, os que gostam de ver porrada nos reels do telemóvel, sempre em modo on, nas esquadras e no trânsito, os que adoram concertos em estádios com pulseiras luminosas, que não admitem filhos que partilhem ideologia uôque, os que dizem que «a mim não me enganam eles» quando se lhes passa imagens dos astronautas na Lua em 1969, que não se importam nada com as crises climáticas que foram inventadas «para os seguros se encherem de dinheiro», que a terra é plana, como o foi sempre e que os políticos querem é mamar e tachos. Para além de tudo, têm saudades excruciantes do Império construído pelos portugueses, que levaram para lá a civilização e que, sendo assim, formulam a questão óbvia de nunca poderem ter sido, ou que venham algum dia a ser, racistas.

Portanto, a conclusão óbvia é que o abjeccionismo tem espaço para crescer à medida que os imigrantes nos abandonarem e deixarem-nos a sós com os portugueses. Vivermos isolados, junto a portugueses de bem, num território afogueado e tempestuoso, evangélico, traumático e deprimido, solar e eolicamente ocupado, hidraulicamente compartimentado, sujo, vazio, é um caso sério para emigrarmos novamente em massa ou ficar e juntarmo-nos a um movimento qualquer que promova atitudes abjectas, para-niilistas, anti-multitudinárias e ecológicas tendo por objectivo único o apartar dos portugueses os próprios portugueses. É, de facto, assustador.

alc

terça-feira, maio 26, 2026

"ABC da Leitura", Ezra Pound

 


Maldoror, 2025. Traduções de António Cabrita e de Zetho da Cunha Gonçalves (poemas). 
Ainda me vejo a pensar por que razão este tipo foi fascista, quebra-cabeças insolúvel a que volto sempre. A verdade é que pagou caro essa aventura permanecendo 12 anos, após a II Guerra Mundial, num hospício americano. Até morrer sozinho e esquecido, como Céline. Robert Brasillach, Paul Chack ou Drieu La Rochelle (suicídio antes do julgamento) tiveram menos sorte, como sabemos. Se existissem escritores e intelectuais fascistas portugueses (embora paulatinamente venham a pastorear as universidades e os media) seria muito bom que tomassem conhecimento destes tão tristes, como exultantes, acontecimentos. Terríveis, mas fruto das circunstâncias da História. O que separa os fascistas de ontem dos de hoje? Penosamente, me atrevo a dizer: faltam-lhes, hoje, aos neofascistas, os livros, o pensamento (por mais abjecto que seja) e as massas. 

Já não é a primeira vez que escrevo sobre Ezra Pound, sendo que me interessei muito sobre o seu ensaio «Camões», editado pela Fenda e pelos seus «Os Cantos». Ali, pode entender-se que não se sente muito entusiasmo pelo poeta épico, exceptuando o Canto III de «Os Lusíadas», aquele que narra as vicissitudes da formosa Inês, que, segundo Pound, aproxima Camões de um lirismo poeticamente mais aceitável. De resto, Camões ainda merece algum respeito afirmando que ele tem um «estilo resplandecente e bombástico - que por vezes é poesia» (!!), embora Virgílio, Milton ou Spencer sejam completamente desancados por Ezra Pound. Neste «ABC da Leitura», que é um seguimento de «Como Ler», pensa-se que serviriam como auxiliares para as suas aulas tal é o modo como são estruturados e podemos ler, a título de exemplo, o seguinte diálogo imaginado:

«Um simples marinheiro decidiu estudar latim. O professor tentou que lesse Virgílio; depois de um número considerável de lições, perguntou-lhe algo sobre o herói.
    - Que herói - perguntou o marinheiro.
    - Que herói? Eneias, claro, Eneias é o herói - respondeu o professor.
    - Ah, um herói, ele é o herói? Julgava que era um padre - replicou o marinheiro.» (pág.42)

Em poucas palavras e com uma simples anedota, Virgílio é ridicularizado desta maneira por uma marinheiro (de Coleridge?). Mas Ezra Pound põe-nos de sobreaviso acerca deste «ABC da Leitura» quando reconhece que «estamos muito longe de um ABC. Na verdade, alarga o panorama para estudos de pós-graduação.» (pág.89), Se atentarmos para a segunda parte do livro e para alguns trechos da primeira parte somos obrigados a reconhecer como um acertado aviso. Mas o que é interessante em Pound é que se afasta, com determinação, da postura académica com que os estudos sobre literatura são formatados ainda hoje. 

Quando se fala da sua infeliz escolha política durante a II Guerra Mundial, esta torna-se relevante quanto Ezra Pound pertenceu e fundou movimentos que trouxeram com eles o melhor que a modernidade (conceito que não me é muito caro) deu: são eles o movimento Imagista e o Vorticismo ainda durante o período da I Guerra e logo depois («A imagem não é uma ideia. É um nó ou um enxame radiante; é o que posso, e necessariamente devo, chamar um Vortex, do qual, e através do qual, as ideias constantemente se precipitam»). Mas compreendemo-lo melhor se repararmos nas questões que levanta sobre o uso das palavras, os «elementos puros da literatura»: «Os bons escritores são aqueles que mantêm a eficiência da linguagem, i.e., aqueles que conservam a precisão e a clareza. Importa pouco que um bom escritor queira ser útil, ou que o mau escritor atente apenas em fazer mal. (...) A linguagem nebulosa das classes fraudulentas só está ao serviço de objectivos temporários.» (pág.29) Este despojamento de adjectivos inúteis ou de gongorismos que Pound detesta levou-o ao estudo da língua e escrita chinesas e japonesas (ele era um verdadeiro poliglota e também deu aulas de grego e latim na Pensilvânia e em Londres) debruçando-se sobre a relação entre o símbolo e o desenho, tal como a imagem (fanopeia), a melodia e o ritmo na poesia (melopeia) e a junção destes dois conceitos na logopeia. O estudo profundo que Pound realizou com a escrita chinesa e a língua grega (principlamente com Homero da Ilíada) levou-o a afirmar:

«Não obstante, o máximo de fanopeia (projecção de uma imagem visual na mente do leitor) foi sem dúvida alcançado pelos chineses, em parte devido ao seu sistema de escrita particular.
Nas línguas que conheço (o que exclui a persa e a árabe) o máximo de melopeia foi atingido pelos gregos; sublinhem-se também certos desenvolvimentos no provençal que não se encontram no grego, e que configuram um tipo distinto da do grego.» (pág.40) Digno de nota é o seu interesse pela poesia provençal, pela melopeia, facto que não quer afastar da poesia. 

Este livro é claramente um amigo do leitor, mesmo que por vezes o seu papel seja convenientemente posto em causa por outros motivos que não seja o do acto solitário de ler: 

«O conceito de genialidade como parente da loucura foi cuidadosamente alimentado pelo complexo de inferioridade do público.» (pág.80)

O que não significa que a genialidade, se quisermos utilizar o termo para um bom poeta, não tenha que seguir algumas normas bem explanadas neste «ABC da Leitura». É uma das razões que me levam a afastar-me irremediavelmente de alguns poetas de hoje que da técnica fizeram letra morta. Esta dita verdade, fez com que um Ezra Pound que contactou com o movimento dadaísta, que fundou o Imagismo e o Vorticismo, este com Whyndham Lewis (há um livro da Deriva sobre eles), não tenha descurado a importância da métrica, da composição do soneto e do verso jâmbico, da poesia provençal e dos poemas chineses e japoneses, dos poemas medievais da imagem e do som, do ritmo e da harmonia, fosse ela melódica ou decomposta. É este o tema da segunda parte de «ABC da Leitura» e, subitamente, vemo-nos a dividir a métrica de um Chaucer na sua língua original, de um soneto de Shakespeare, de um Pope, de um Browning, de um Crabbe ou de um Rimbaud, entre muitos outros que Pound aqui nos traz. Tudo na versão original ou na tradução dos poemas para português por António Cabrita e Zetho da Cunha Gonçalves de quem não gostaria de estar na pele, acreditem, tal o trabalho a que foram sujeitos!

«A má poesia é idêntica em todas as línguas. O que os chineses chamam a ''poesia pó-de-arroz'' pouco difere do que na Europa se chamava a ''arte de Petrarquisar''.» (pág.194) ou ainda:
«São mais os escritores que fracassam por falta de carácter do que por falta de inteligência. A solidez técnica não se alcança sem pelo menos alguma persistência.» (pág.222)

São estas as duas últimas frases em forma de aforismos que vos ofereço deste livro que consideraria imprescindível se houvesse ainda alguma hipótese de exercer influência para uma bibliografia honesta de um curso de crítica textual ou simplesmente de literatura.

Ezra Pound morre em Veneza, em 1972.

alc