segunda-feira, novembro 02, 2026

"Elise e os Novos Partisans", Dominique Grange e Tardi

 

Ala dos Livros, 2023. Tradução de Catherine Labey e Maria José Magalhães Pereira. 

O argumento desta Banda Desenhada é de Dominique Grange e os desenhos de Tardi, ambos já bastante conhecidos no círculo. Não se trata sómente, como numa primeira impressão se poderia pensar, do Maio 68 francês. Também o é, mas esse acontecimento que mudou o mundo, é só uma parte da história. Tudo começa com a guerra da Argélia e com os crimes perpetrados pelo estado francês e pela OAS. Depois sim, a história decorre em 68 com as ocupações das faculdades e das fábricas num movimento que levou à luta milhões de operários e de estudantes radicalizados. É será agora que o centro da história de Dominique Grange e de Tardi se desenvolve com a fundação de um dos mais importantes movimentos maoístas que a França conheceu: a Gauche Prolétarienne e o seu jornal La Cause du Peuple que chegou a ser dirigido por Jean-Paul Sartre, após as prisões sucessivas dos seus directores e apreensão das tiragens do jornal. Tinham o objectivo de acção directa e eram radicais nas suas acções junto aos mais fracos: operários explorados e imigrantes, principalmente. Chegaram a entrar na clandestinidade até à sua direcção decretar o fim do partido em 1978,com receio de iniciar-se uma lógica "brigadista", como na Itália. Isso levou ao desânimo e desmobilização de grande parte da organização da Gauche Prolétarienne. Casos idênticos se verificaram em Portugal, que é referido nesta excelente BD, com alguns pequenos grupos que se autodissolveram após o 25 de Novembro de 1975. 

Dominique Grange deixa-nos um pósfacio em que explica a sua adesão de juventude ao maoísmo e atrevo-me a dizer que não perceberem os nada se não compreendermos o que as citações do Presidente Mao tiveram na formação política de milhões de jovens ocidentais que apelavam a uma revolução política, social e cultural, mesmo após do desconforto assinalado nestes mesmos jovens sobre crimes que foram cometidos na China durante o período da Revolução Cultural e até à morte de Mao em 1976. Ter-se-á de entender o grau excepcional da violência de Estado que na Europa se praticou para que o direito à resistência não fosse sómente uma palavra de ordem vazia de sentido. Foi o que uma geração inteira fez, sublevando-se durante mais do que uma década. 

Está BD está repleta de canções revolucionárias que podemos ter acesso através de dois QR codes logo de início, mas dentro da própria história há uma referência a José Mário Branco e às suas canções de apoio aos desertores e refractários ao exército colonial português que ele organizava em França e particularmente em Paris. Aliás, uma canção que dá nome ao título "Les Noveaux Partisans" foi, numa nota inicial de Dominique Grange, adaptada e gravada em português, pelo GAC-Vozes na Luta" com o título de "Até à Vitória Final". 

alc


domingo, novembro 01, 2026

"As Noites Azuis", Ana Teresa Pereira

 


Relógio D'Água, 2026.

Ana Teresa Pereira tem um modo muito particular de contar histórias. Sigo-a há muito, lembro-me que trabalhava em Lisboa e o primeiro contacto com os seus livros foram muito impressivos. Ainda hoje me pergunto porquê, mas vivendo dentro de uma grande cidade, talvez o apelo de um mundo onírico fosse a razão. As personagens têm pouco de carga psicológica, movem-se devagar quase que suspensas, mal tocando no chão. Como um filme de Lynch, ou recuando aos anos 30 e 40 do século passado. Por outro lado, o que tem de menos na caracterização psicológica é compensado com o aspecto exterior dos homens e principalmente das mulheres que povoam as histórias. É um mundo de flores e de odores, de veludos e tweeds, de luzes e sombras. De batons carregados e maquilhagens. 

 

quinta-feira, outubro 29, 2026

"Hoje, 3 de Maio", Patrícia Portela

 

Caminho, 2026. 
Este romance é como um políptico que possui, consigo, várias linhas narrativas que se interligam e cruzam com uma elegância não muito habitual no romance português contemporâneo. Por isso o lemos com um entusiasmo crescente até à última página. E se é verdade que o leitor atento intui que a autora é honesta, que nos escreve com a sua essência, com o que sente e o que pensa sem subterfúgios, também é verdade que percepcionamos muito trabalho. Um romance com estas características não se fará de um dia para o outro, nem está ao sabor de modas. 

A partir dos quadro de Goya, «Os Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808», Patrícia Portela leva-nos a vários enredos entre os quais sobressai a vida e a obra do pintor espanhol, mas igualmente a sua vivência no Museu do Prado, na sala 64, em que se prostrava longamente face ao quadro. É aí um dos pontos mais interessantes do romance: a partilha connosco da sua forma muito singular de observar o quadro a partir de diferentes visões e de análise da vida de cada personagem que o habita. Dos que foram fuzilados e dos que fuzilaram. Do momento em suspenso antes de se ouvir o estampido dos tiros. E assim permaneceu em suspenso no tempo e no espaço até hoje e para todo o futuro. 

E depois há a morte, o processo de tanatognose que a escritora nos evidencia através de páginas onde se confunde a sua própria experiência desconfortável de pruridos na pele enquanto vive em Madrid e observa longamente o «Os Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808» no Museu do Prado com a morte sempre presente dos fuzilados e dos que morreram na luta contra a invasão francesa. É, talvez, o mais inquietante de todo o romance, embora existam outros temas paralelos desse políptico de que falava. A História, a Ciência e a Filosofia desenrolam-se inteligentemente  em «Hoje, 3 de Maio» interferindo com o decurso da vida quer de Goya, quer das personagens que ele criou no quadro ou, tão-só, pela existência do espaço e do tempo. Torna-se então uma certeza de que o diálogo entre o pintor e a autora despontará num dos mais impressivos trechos desta obra inesquecível.

alc

terça-feira, outubro 27, 2026

"Matamos Stella", Marlen Haushofer

 

Antígona, 2026. Selecção, tradução e posfácio de Gilda Lopes Encarnação. 

Já aqui referimos Marlen Haushofer quando se escreveu sobre «A Parede». Austríaca, a escritora pertencerá a um grupo de mulheres desse país que se impõem na literatura através do inconformismo e da crítica social. Os contos de «Matamos Stella» foram escritos entre 1956 e 1968 e mostram um forte apelo à liberdade e a recusa absoluta de aceitar as normas sociais incongruentes e impostas que levam ao desespero, à depressão, à ruptura perante uma sociedade como a austríaca que foi denunciada a seu tempo por Ingeborg Bachmann ou Elfriede Jelinek para só falar das mulheres, já que o feminino está muito presente nos contos de Haushofer. A inadaptação ou desajustamento das personagens é uma das metáforas mais poderosas do que é transmitido nos seus contos a partir de situações por vezes comuns, mas que podem resvalar para um limite facilmente atingível aos nossos olhos e às nossas experiências de vida social e familiar. É dessa familiaridade que a leitura de Haushofer se torna, igualmente, um prazer único.

sábado, outubro 24, 2026

"Antologia Poética", Seamus Heaney

 

Campo das Letras, 1998. Selecção e tradução de Vasco Graça Moura. 

Estranhei a tradução e isto perante um dos mais reconhecidos tradutores de poesia que a língua portuguesa terá, Vasco Graça Moura. Por vezes, sentia-me mais confortável a ler no inglês original do que na versão portuguesa já que a edição, um pouco atabalhoada, é bilingue. Quando não identificava a palavra em inglês socorria-me rapidamente do português que Vasco da Graça Moura nos oferecia. Quando existia um soneto, o tradutor imprimia uma rima o que é, em si, extraordinário, mas não deixava de ser desviante do sentido que lhe dava Seamus Heaney. Dou um exemplo: para a expressão «white field», a tradução foi «campo alvadio», o que permite concluir que terá sido muito forçado. Por que não «campo branco» ou até «alvo»? Exemplos destes não faltam. Por outro lado, não deixamos de sentir que o poeta Vasco Graça Moura se sentiu tentado, ele próprio, a fazer poesia na tradução. Pode ser legítimo, mas pode perturbar se queremos conhecer melhor a linguagem de Seamus Heaney. E quanto a ela, podemos concluir que estamos perante mais um poeta irlandês que nos remete para o sentido da vida quando esta pulsa dentro de nós. Trata-se de uma poesia viva, atravessada por elementos comuns mas impressivos na linguagem muito depurada do poeta.

alc

sexta-feira, outubro 23, 2026

"L'étranger", Albert Camus

 

Folio Gallimard, 2026.

Não me recordo da primeira vez que li «O Estrangeiro», mas sei que era um jovem estudante liceal e a edição era a da colecção Unibolso que comprava frequentemente. Zangado com a sociedade portuguesa de então, este livro caiu-me de um modo muito impressivo e quase libertador, mesmo que o tema seja em si considerado pesado. Não o larguei durante tempos e continuei a falar dele nos cafés e com amigos que também o liam. Mais tarde afastei-me de Camus de quem não compreendi de todo o seu «O Homem Revoltado», aqui já por motivos políticos. Hoje, tenho-o comigo. Camus é assim: difícil ao início, mas o seu pensamento impõe-se suavemente, como que a pedir licença de ter razão.

Nunca mais esqueci o seu «Aujourd'hui, maman est morte.» com que inicia «L'étranger» agora relido na colecção Folio, de 2026. Meursault é uma figura singular por quem nos aproximamos, compreendemos, através da escrita envolvente de Camus. Dividido em duas partes o romance parte da vida de um homem para quem a vida é a sucessão indiferente dos dias. A sua rotina é o trabalho, o almoço no restaurante perto do emprego, os vizinhos do prédio e Marie, a sua companheira. Pouco lhe interessa saber se Marie quer casar, se a ida ao cinema é uma hipótese louvável, se Raymond bate na namorada, se o cão do vizinho desapareceu, nada o faz intervir no curso dos acontecimentos, assim como no enterro da própria mãe não ter os mesmos gestos acostumados de um filho em luto. No dia seguinte vai a um cinema cómico, à praia com Marie e está com ela à noite. Tudo isso vai ser colocado em cima da mesa de um juíz, num verdadeiro espectáculo judicial em que tudo o que é dito terá um peso determinado e que jogará contra Meursault que assassinou a tiro um homem, porque, segundo ele, o sol o ofuscou quando se pretendia defender. 

O absurdo da existência em toda a sua crueza tem aqui lugar neste romance icónico. Camus faz desta história um forte libelo contra a pena de morte e o sistema prisional pondo em causa o cristianismo e a sociedade que se torna tão ou mais indiferente e cruel que o acto fortuito de Meursault. 

alc

quinta-feira, outubro 22, 2026

"Uma Antologia", W. B. Yeats

 

Assírio & Alvim, 1996. Selecção e tradução de José Agostinho Baptista.
 
A poesia pode ser lida e apreendida através de um ecrã? Por mim, evito-o. Prefiro, de longe, ler poesia no papel e se o fizer num amarelado e já envelhecido por muitos anos, melhor ainda. A cada obcecado a sua mania. Yeats é um caso pouco comum: difícil, metafórico ou alegórico, pleno de hipérboles e elipses, conseguimos, contudo, identificar alguns temas como a proximidade da morte, as torres e lagos que povoam a paisagem irlandesa, o classicismo grego e o amor em estado puro, tão belo quanto doloroso que possa ser. 

Dança aí junto ao mar;
Que te importa
O rugido da água, o rugido do vento?
Sacode a tua cabeleira
Molhada de gotas de sal;
Tu que és tão jovem ignoras
O triunfo do néscio, não sabes
Que o amor mal se ganha e logo se perde,
Nem viste morrer o melhor operário 
E todos os feixes por atar.
Por que hás-de temer
O terrível clamor dos ventos?

Em «A uma criança que dança no vento», «Responsabilities», 1914.

Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;
Ao longo dos enganadores dias da mocidade,
Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores;
Agora posso murchar no coração da verdade.

Em «Com tempo a sabedoria», «The Green Helmet and Other Poems», 1910.

(...)
Fomos os últimos românticos - por tema elegemos
A tradição da santidade e da beleza;
Tudo aquilo que escrito foi no que os poetas chamam
O livro das gentes; o que melhor consagre
O pensamento do homem ou eleve qualquer rima;
Mas tudo mudou, sem cavaleiro vai esse alto cavalo, Ainda que em tal sela cavalgasse Homero
Por onde navegam os cisnes e anoitecem as águas.

Em «Coole Park e Ballylee», 1931.

(...)
Nós Irlandeses, nascidos dessa seita antiga
Mas atirados à imunda maré moderna
Náufragos da sua fúria informe e da sua rebentação,
Escalamos a nossa própria treva, para assim definir
As linhas de um rosto medido a prumo.

Em «As Estátuas», «Last Poems»,1936-39.

Restam quadros e livros,
Um acre verde de erva
Para ar e exercício,
Agora que o corpo se esgota;
Meia-noite, uma velha casa
Onde apenas se move um rato.

Calou-se a minha tentação.
Aqui, no fim da vida,
Nem a liberta imaginação, 
Nem o moinho do pensamento
Seus desperdícios consumindo,
Podem revelar a verdade.
(...)

Em, «Um Acre de Verde», «Last Poems», 1936-39.


segunda-feira, outubro 19, 2026

"Mundo Belo, onde Estás", Sally Rooney

 

Relógio D'Água, 2021. Tradução de Marta Mendonça.

Sally Rooney. É este o nome de uma jovem escritora irlandesa que foi cancelada pela sua editora inglesa, a Faber. Estou a ler, neste momento, o seu "Mundo Belo, onde Estás" editado em Portugal pela Relógio D'Água, onde tem outros títulos. Qual o seu crime para ser assim censurada? Apoiou abertamente o Palestine Action que, segundo o governo inglês, é uma organização terrorista e sem que por um momento se interrogue sobre o genocídio diário de palestinos perpetrado por Israel. Sally Rooney opôs-se, tomou partido. Foi o que bastou para recolherem os seus livros em Inglaterra. Tem 35 anos e vê assim a carreira diminuída, ou talvez não, se ainda houver pessoas que não se dobrem desta maneira. Não venho falar dos seus livros, que são extremamente interessantes pela dimensão humana, pela preocupação climática e civilizacional, pelo seu anticapitalismo. Subiu entretanto alguns degraus na minha consideração. Só espero que a sua editora portuguesa, a Relógio D'Água, repete-se, tenha em consideração estes factos e que a consiga proteger da censura e do cancelamento.

É notória a frontalidade que Sally Rooney nos oferece neste «Mundo Belo, onde Estás». As suas jovens personagens são acometidas por uma incomodidade, uma insatisfação que se pressente a cada diálogo ou em qualquer descrição narrativa. Essa postura marca todo o livro. Não que sejam pessoas egoístas, autocentradas ou egocêntricas, mas não se permitem serem infelizes quando tudo aponta para que sejam pessoas sós, isoladas socialmente. A comunicação é ela própria omnipresente através de computadores portáteis e telemóveis, mas quando existe uma presença física, parece que tudo desaba numa má onda, ou se eleva a um ambiente de euforia. Não há meio termo, tudo é envolvido numa espécie de vórtice que atrai as personagens para um abismo sentimental em jogos que podem magoar a sério. è a família que já não tem sentido, é o capitalismo que eleva o preço das casas de Dublin à estratosfera, são empregos de merda (para parafrasear David Graeber) mal pagos, ou empregos com ordenados de luxo e inúteis, são relações fictícias e tristes, expectativas de amor sentido e partilhado e a possibilidade do apocalipse que já se vai sentido num planeta doente e um capitalismo predatório. Acusam, e Sally Rooney di-lo sem complexos, que o seu estilo roça a obscenidade. Não creio que seja assim: o seu «Mundo Belo...» é cru, frontal, sem rodriguinhos e é isso que nos atrai. Por outro lado, não se vê que a profusão de diálogos em mensagens sms ou em email's diminua um estilo literário já de si muito interessante.

alc


quarta-feira, outubro 14, 2026

"Terra", Maggie O'Farrell

Relógio D'Água, 2026. Tradução de Tânia Ganho

Como dizia Joyce, também ele irlandês como Maggie O'Farrell, «a vida é demasiado curta para ler maus livros», e assim é. «Terra» é um livro maravilhoso, mas pleno de grande realismo, em que se entrecruzam histórias de uma família apegada a um bairro de Dublin e que parte para uma Irlanda rural como forma de fugir a uma pobreza endémica no país. Este romance literariamente interessante é o facto de surgirem personagens solidamente construídas que evoluem para situações limite, contudo inteiramente verosímeis. E essa verosimilhança, na Irlanda do século XIX, passará pelos quatro anos da Grande Fome, pela emigração massiva para novos continentes e pelo ódio aos terratenentes dos senhorios rurais que se obstinavam pela continuação dos seus privilégios o que significava a permanência da exploração miserável do povo irlandês. Também a luta contra o colonialismo inglês está bem presente em Maggie O'Farrell num inteligente jogo de uma personagem importante de «Terra», o pai da família, que é contratado para registar num mapa uma península a quem é dada nomes ingleses substituindo o gaélico antigo. Com esses nomes roubados e outros inventados estabelece-se uma deriva através das lendas e de animais mitológicos que povoam a cultura irlandesa que, naquele século, foi subvertida com uma violência incomparável, mesmo nas experiências coloniais mundiais que foram férteis então. O romance «Terra» transmite-nos a luta, a resistência, mas igualmente o amor e o ódio, a incongruência e a sobrevivência perante a adversidade. Seguirei com atenção merecida Maggie O'Farrell.

alc

quinta-feira, outubro 08, 2026

«Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?», Philip K. Dick

 

Relógio D'Água, [1ªed.1968] 2016. Tradução de Raquel Martins.

Um filme inesquecível de um Ridley Scott muito irregular no que toca à realização de bons filmes. De qualquer modo, «Blade Runner» impôs-se por si, pelo ambiente criado e pelas fortes personagens que lhe deram corpo. As últimas imagens do replicant Roy Baty perante o caçador de prémios Rick Deckart é de antologia do cinema, assim como a música de Vangelis que as acompanhavam. O livro «Será que os Andróides Sonham com Ovelhas Eléctricas?» (agora em português pré-AO90), produz aquele ambiente soturno, pesado, que o filme transforma em chuva contínua. O lixo acumulado, as cidades quase abandonadas perante uma população reduzida a um punhado de residentes em urbanizações vazias, a polícia toda poderosa assim como as grandes corporações de fabricantes de robots e andróides ou de animais eléctricos, falsos, são uma constante da ficção de Philip K. Dick. A guerra mundial terá destruído vastas regiões do planeta que era assolado por nuvens de pó radioactivo e que obrigou grande parte da população a emigrar para as colónias planetárias.

O que é interessante observar em «Será que os Andróides Sonham com Ovelhas Eléctricas?» é a dualidade de sentimentos que temos perante os replicants (traduzidos por Raquel Martins por ''andróides''); a tradução é muito boa, mas não traduziria o termo inglês de «replicant», porque tem duplo sentido de «réplica», como andróide, e replicante, que nos transporta para um indivíduo ou humanóide insubmisso ou insubordinado. Nesse sentido, seria muito capaz de deixar o termo replicant, sem tradução. Essa dualidade surge, sobretudo, porque o autor deixa-nos quase sempre na dúvida sobre a autodeterminação de um robot, sobre a vontade inata de um humanóide fabricado por humanos, assim como as leis de apartheid que são regidas numa sociedade em que há um  controlo excessivo sobre as acções daqueles. São «retirados» pela polícia, através de uma caça impiedosa quando se rebelam. Numa sociedade artificial, em que tudo é clonado (até os animais e os homens e mulheres), não será difícil imaginarmos um totalitarismo em que os princípios de uma possível rebelião ou motim, ou uma simples dissidência, seria seriamente reprimida e castigada tratassem-se ou não de andróides ou de humanos. 

alc

domingo, outubro 04, 2026

"A Origem", Graça Pina de Morais

 

Antígona, [1ªed.1958], 2022.
    As histórias de casas interessam-me. Graça Pina de Morais, que conheço desde «Jerónimo e Eulália», tem o dom de escrever para além das pedras, das portas e das janelas que as compõem. Aqui, a trama da história são mais as personagens que desfilam entre as salas de uma casa de família com todas as suas contradições e idiossincrasias, mas igualmente com os seus múltiplos afectos e sentidos. Nos anos cinquenta do século anterior, a vida era claustrofóbica, dividida entre espaços confinados por uma repetição contínua dos mesmos gestos e atitudes, muitos deles já automatizados por um tédio insuportável. No entanto, não nos enganemos, porque, mesmo nessas condições, haveria lugar para o surgimento de euforias e arrebatamentos inesperados, observados na profunda análise psicológica da adolescência que Graça Pina de Morais sabe descrever tão bem. Poucos escritores portugueses se atreveram a entrar nos labirintos intrincados da adolescência, vá-se lá saber porquê. Não exigiríamos um Proust, mas sendo uma idade de fervores inauditos, contradições insanáveis e traumas tão arrasadores como rapidamente superáveis, seria uma matéria de exploração literária inesgotável. Provavelmente, não foi coisa que entusiasmasse muito a academia das letras lusas. A vida de um jovem adulto é, quase invariavelmente, tratada como um rol de enganos vários, erros e má fortuna, sofrimentos atrozes, ou quando não, uma espécie de estoira vergas abertos a todos os excessos. Graça Pina de Morais oferece-nos uma adolescência tal como ela é: um tempo de profunda agitação, uma explosão interiorizada de sentidos, um leve temor irónico sobre a vida que lhe é aflorada a todo o momento. A escritora trata a adolescência com uma elegância que não é habitual.

    Não será por acaso, certamente, que as personagens adultas padecem de doenças. Graça Pina de Morais era médica e talvez seja este um motivo para a observação desse facto, mas quem a conhece medianamente e aos seus livros, sabe que poderá não ser essa a razão principal, porque não teria sentido. Algumas personagens padecem de doenças físicas, bem reais, outras nem tanto; essas doenças teriam causas na solidão imposta por normas sociais e tradições familiares que se eternizavam num sociedade quase esquizofrénica em que o papel atribuído a cada um não permitia qualquer fuga dentro desse círculo infligido. Nesse aspecto, «A Origem», as causas de tudo, está na deformidade das relações sociais dentro de uma família fechada, o que torna a leitura do romance tão pesada, como necessária para o tornarmos imprescindível. 

    «Era bom aluno, mas não levava muito a sério as aulas e os professores. Sempre lhe parecera que esses homens circunspectos e geralmente severos, que entravam nas aulas, vestidos de escuro, para expor, por forma mais ou menos fastidiosa, assuntos que não lhe interessavam, estavam simplesmente a brincar aos professores. No entanto, não havia ninguém mais convencido do seu papel do que o professorado daquele liceu de província; formavam, juntos, na sala de reuniões de conselho, uma pequena ditadura rígida e destituída de imaginação, que se fora convencendo do seu poderio e importância com a continuação de governar e de ser temida por uma população de crianças.
    Eram na maioria homens anónimos, indistinguíveis por coisa alguma, arrastando na cidade uma vida insípida e rotineira. 
    João nunca lhes deu individualidade própria, e, depois de abandonar o liceu, esqueceu-os. Apenas guardou por eles um vago reconhecimento pela maneira imponderável como tinham entrado na sua vida, desempenhado um papel e desaparecido sem nunca ocupar qualquer lugar.» (pág.130)

    «João e Catarina viviam numa quase completa liberdade, apenas defendidos pela virgindade mútua: o rapaz, porque era um ser tímido, retraído, um pequeno Narciso cheio de desconfiança sobre si mesmo, que no fundo sentia um certo terror perante as revelações novas que a existência lhe trazia; Catarina, porque instruída no colégio, graças à leitura de livros e folhetins mais ou menos rocambolescos, em que filhas perdidas eram postas fora de casa por pais implacáveis e cobertos de vergonha, acabara de considerar a virgindade como um atributo imprescindível. De resto, muito sensual e instintiva, possuía, como a maioria das mulheres desse género, uma notável intuição. (...) Catinha pressentia que o desejo insatisfeito a tornava mais preciosa aos olhos de João. Estas eram, aliás, as suas únicas vitórias.» (pág.145)

«A verdade é que o misticismo do rapaz não conhecia o freio de nenhuma religião.» (pág.203)

alc

domingo, setembro 27, 2026

"Felicidade Clandestina", Clarice Lispector

 

Companhia das Letras, 2026.
Deixo sempre passar alguns dias antes de escrever sobre o que leio. Não sei se com Clarice Lispector isto dê certo. Os seus contos quase se tornaram irreais, difíceis, complexos. É ela própria a escrever, sem qualquer barreira colocada entre o leitor. Crudelíssima. Luísa Costa Gomes socorre-se de uma metáfora em tentar caracterizá-la: o escritor «que se abre e o que se fecha». São ambos. Estranha-se e entranha-se. Surpreende e deixa-nos expectáveis por coisa já vivida. Por vezes cede, ou finge ceder para, repentinamente, nos confundir. 

Por vezes, a maior parte das vezes até, parte-se por pouco, por coisa fugidia em que nunca repararíamos no nosso quotidiano, para uma história impressiva. Aí, descreve-se um modo de sentir, um pensamento que entra pelo leitor sem pedir licença. 

quarta-feira, setembro 23, 2026

"A Casa Grande de Romarigães", Aquilino Ribeiro

 

Círculo de Leitores, 1988. Introdução de Óscar Lopes.
 
Aquilino Ribeiro surpreende sempre que voltamos a ele, mesmo tratando-se de um livro que já lemos. «A Casa Grande de Romarigães» é mais do que uma história de uma casa de família, mais do que a região do Minho. É um Portugal que vamos conhecendo só pelos livros que ajustam a memória colectiva, como este, mas que nos identificamos com ele pelas características das personagens que desfilam pela mão de Aquilino. A história decorre entre a ocupação dos Filipes até D. Carlos. Mais do que um exame psicológico excepcional das gentes que povoam o romance é, sobretudo, a forma como Aquilino nos apresenta a ascensão e queda de uma casa rural que se vai adaptando às tempestades políticas e sociais que percorrem a História. 

Aquilino é demolidor. Junta a uma escrita única, riquíssima de expressões vivas e vocabulário próprio de um mestre da língua portuguesa, uma ironia e mordacidade que nos assalta constantemente no processo de leitura atenta. Temos ali o popular a que se recusa o apodo do «bom pobre» e que nos é apresentado como sagaz e pronto para qualquer negócio lucrativo com o seu patrão. A honradez quer do pobre ou do rico, do subserviente ou do dominador, é coisa muito relativa, quase sempre ao sabor dos interesses individuais. Assim é Portugal, assim são os portugueses. O espelho que nos é posto à nossa frente por Aquilino não é de molde a ficarmos muito orgulhosos com o que é reflectido, mas ainda assim é justo, porque reconhecemos ali uma verdade inquestionável sobre quem somos e o que nos faz mover. Aquilino apresenta-nos a ruína de uma sociedade rural que passa por Lisboa na ânsia de riqueza fácil a que a política ajudará nas sua prebendas, uma Braga dos arcebispos em odores de velas das igrejas e capelas a santos e santinhas, a uma Coimbra e a uma universidade balofa que é zurzida nalgumas páginas inesquecíveis, a guerras civis e sociais que são feitas a custo de bandidagem e sem a frontalidade a que uma guerra declarada obrigaria. Aqui resumiu-se tudo a razias pela calada da noite, a vinganças espúrias, cujos objectivos eram pouco claros. Portugal é assim e Aquilino é, sem dúvida, um dos seus melhores analistas.

alc

sexta-feira, setembro 18, 2026

Jornal Mapa, 50

 

Jornal Mapa, número 50.
Aí está o número redondo do Mapa: cinquenta publicações, ano XIV, trimestral a 3000 exemplares. Um site, presente igualmente nas redes sociais e com um leque de colaboradores permanentes e eventuais que dão o seu testemunho a um jornal alternativo, inconformista e verdadeiramente livre de pressões sejam elas do político ou do dinheiro. 

Este número está repleto de motivos de interesse: a chamada de capa vai para o estudo, de oito anos, para os abusos policiais em bairros guetizados onde o padrão de violência se repete sempre. O estudo foi realizado pelas associações Fumaça e Divergente. Cristina Roldão, em entrevista, «desafia-nos a imaginar um mundo onde a polícia não exista», nas páginas 8 a 13.

«Há vida para além da praxe» é um artigo sobre a vivência de três repúblicas de Coimbra que ainda resistem à calamidade intelectual e efectiva da praxe, através de um modo de vida comunitário e de apoio mútuo. Também os 11 jornalistas da Visão e a luta que empreenderam têm lugar de primeira página assim como três canais de informação alternativa que foram entrevistados para o Mapa. (páginas 18 a 21)

A solidariedade com a Palestina e o sacrifício infame a que é sujeita a população de Gaza e da Cisjordânia não poderia deixar de ter lugar, neste e já em muitos outros números anteriores. O Mapa informa-nos do 3º Encontro no Litoral Alentejano promovido pelo TAMLA, Tirem as Mãos do Litoral Alentejano, entre 3 a 5 de Outubro. Na contracapa, aliás, e não deixando o ambiente por mãos alheias, a luta das populações de Setúbal para o livre acesso à Arrábida e às suas praias como o seu «Deslarrrguem a Arrábida!». Para além disso, destaca-se igualmente, entre muitas outras informações, uma acção da Casa da Achada, no dia 4 de Julho, que foi a 1ª Jornada de Cinema Anarquista, em Lisboa. Desde sempre, a luta de Covas de Barroso para impedir a mineração de lítio tem tido uma saliência notável no Mapa, não só com o processo de luta, mas com entrevistas à população e com pareceres técnicos que sustentam há muito esta luta que deverá ser de todos.

«Ocupação não é Paz: é a forma mais brutal de guerra», uma entrevista de três páginas de Nuno Pereira e Pedro Morais a Mira, um anarquista ucraniano sobre a guerra e ocupação russa com uma visão muito particular e pouco conhecida sobre os acontecimentos que levaram à mudança de regime na Ucrânia e à posterior invasão russa. 

As «Vozes de Dentro» expõem a condição miserável a que são sujeitos os presos e presas deste país, sem quaisquer condições de higiene, recurso a maus-tratos, discricionaridade dos guardas ou deficiente tratamento médico. 

Também sobre o conceito de «vandalismo» e «violência» se debruça sobre a forma de despolitizar os protestos e manifestações impossibilitando todo e qualquer passo para a existência de um diálogo mínimo entre as partes. Se estiverem bem atentos nota-se uma crescimento da violência desproporcionada principalmente para com estudantes preocupados com o clima e com a carbonização e com protestos mais veementes que não estejam «protegidos» por organizações institucionalizadas. Prepara-se, desde há muito, uma repressão cada vez ,mais acentuada e violenta por parte da polícia para com os antifa, onde já se pediu a sua ilegalização no parlamento.

Sandra Faustino coloca em questão a contínua afirmação de políticos que relacionam, algo ridiculamente e em palcos como a Web Summit ou em textos da Câmara de Comércio e Indústria a relação abstrusa entre o infante D. Henrique e o Empreendedor modernaço, ligando os «descobrimentos» (sic) às novas startups. 

Consta igualmente uma entrevista ao Eduardo da Letra Livre, uma livraria e alfarrabista de Lisboa, na Calçada do Combro, que está aí para as voltas e não só disponibilizando livros, como também editando-os e que já vai elaborando um catálogo incontornável. Ricardo Sousa apresenta um longo artigo sobre o papel das FP-25 no pós-revolução contribuindo para uma notável clarificação deste período e processo histórico.

alc

quarta-feira, setembro 16, 2026

"Estrilho", Luhuna Carvalho

Língua Morta, 2026.
O subtítulo «Movimento, Destituição, Autonomia» acompanha «Estrilho», de Luhuna Carvalho, o seu último livro, e é composto por escritos datados entre 2010 e 2025. Tendo uma amplitude de 15 anos conseguimos verificar não só uma grande variedade de temas e situações, algumas das quais poderemos esquecer tão efémeras que foram, mas também algumas repetições de ideias que se observam de artigo para artigo e que constituem o cerne do pensamento do autor. As ideias explanadas por Luhuna Carvalho são, essencialmente, a construção de possibilidades em torno de outras vidas para além do capitalismo. Penso que o plural será mais correcto exercer-se na palavra «vida», visto que perante a leitura de «Estrilho», ficamos com a impressão clara da diversidade ética de uma construção humana em torno da autonomia ou do comunismo. O leque de opções é variável conforme a acção que estará na sua génese e que é multiforme. Essa acção (não uma só, mas várias) prende-se com o conceito de «movimento» que não se firmará somente no protesto, demasiado recuado como opção comunista ou anarquista, ambas as opções derrotadas ou paralisadas pelas derrotas que os anos 80 do último século e os primeiros anos do século XXI, mostraram. Contam-se pois quase 50 anos de recuo em recuo; a ideia comunista perdeu fulgor e já não é o «espectro» que aterrorizava as classes possidentes do mundo inteiro. Mas nem por isso, segundo Luhuna Carvalho, a ideia comunista, baseada no jovem Marx ou nos escritos «perdidos» do último Marx que vão sendo analisados nestes últimos anos, ou anarquista segundo o apoio mútuo de Kropotkine, deixou de ser experimentada em fluxos de solidariedade em fortes movimentos de base nos protestos de Seattle e Génova, de Tiennamen, de uma Primavera Árabe, dos subúrbios de Paris, dos liceais de Londres, do movimento quase insurreccional de George Floyd nos EUA, da Grécia ou dos fortes protestos anti-troika em Portugal nos anos de 2011 e 2012. O comunismo estaria aí bem vivo nas redes de solidariedade e apoio que juntaram centenas de milhares de pessoas (talvez milhões) provindas de classes e lugares diversas. O comunismo deixa então de ser uma utopia a atingir, passe o pleonasmo, mas uma experiência já realizada em momentos únicos de revolta e afirmação.

Não interessa para este levantar de ideias que Luhuna Carvalho nos propõe, saber se a esquerda está ou não viva ou se terá ou não de se «renovar». Para esta discussão é melhor procurar outro livro. O que é interessante em «Estrilho» é que todas as possibilidades estão em aberto, sendo que a única saída será a superação do capitalismo que se tornou ontológico, que se radiculou em todas as formas da vida, tornando-a um sistema de produção contínua e total. O recurso crítico às ideias de Agamben, Adorno, Debord, Benjamim, Tronti ou Negri são, exactamente por isso, uma constante. Do Biopoder à Autonomia italiana do final dos anos 70, ou ao Maio de 68 francês, há um viajar, uma recuperação destas ideias e experiências que, queiramos ou não, fazem parte de um adn dos inconformistas, dos que ainda veem no «estrilho» uma forma última de dizer que não:

«A festa, o motim, o bloqueio, a greve selvagem, a cultura subproletária, etc., seriam fenómenos politicamente mais ricos do que qualquer aparelho partidário, do que qualquer grupelho activista, do que qualquer produção académica ou artística. As formas sociais exteriores à razão de estado reproduzem-se carecendo de estruturas formais, sendo, em si, a alteridade ao capital. Não há nada de «espontaneísta» nessa análise. A «espontaneidade» é uma colagem acrítica ao que nos está mais próximo do que a infinita burocratização da vida.» (pág.11) 

O que aí vem fará dos horrores do século XX um piquenique, diremos nós. Também o afirma o autor, mas avisa que a queda no desespero é a pior das receitas para os que necessariamente se oporão ao estado de coisas que ainda estarão para vir. A beleza das palavras de ordem dos situacionistas e «enragés» do Maio francês, juntar-se-ão ao «Volliamo Tutto» da autonomia italiana e ao fumo negro dos pneus de Génova, não duvidem. E é nessas situações limite que veremos as ondas comunitaristas e anarco-mutualistas a marcarem uma opção de vida que valerá mais em assumirem-se como «poder destituinte», como nos propõe Luhuna Carvalho, do que todos os palácios de inverno das nossa desilusões colectivas. Aliás, um dos pontos centrais e provavelmente o mais desenvolvido de «Estrilho» é exactamente a construção conceptual de «poder destituinte» e de «poder constituído» quando se analisa o processo de conquista do poder.

Uma outra crítica que será impossível de contornar é a análise do processo revolucionário de Portugal em 74/75. Aqui, embora não sejam ideias totalmente novas, reconhece-se a ineficácia do tão propalado «poder popular» que foi corroído pelas inúmeras organizações de tipo leninista que se infiltraram no campo autónomo que esse poder de índole conselhista poderia alcançar. Na esteira de um Phil Mailer, de um Charles Reeve, ou mesmo de João Bernardo, editor do jornal Combate e autor de várias obras de carácter anarco-comunista e conselhista nos anos «quentes» do Prec.

Luhuna Carvalho é autor de «Depois da Lei», 2022 e «Uma Nova Violência», 2024, publicados pela Língua Morta.

alc

terça-feira, setembro 15, 2026

"Rousseau", Georges May


Seuil, 1964.
Mais Rousseau, agora e segundo Georges May, «por ele mesmo» o que significa voltarmos às sua «Confissões» já aqui analisadas. De qualquer modo, estamos perante uma biografia bem desenhada com vastos recursos para um livrinho sintetizado e com interessantes gravuras que acompanharam as primeiras edições das obras do filósofo. Filósofo? Segundo Rousseau, não; ele não se considerava um deles, embora a sua hostilidade para com Voltaire fosse conhecida e sempre por causa das ideias, tal como Diderot de quem se afastou paulatinamente, ou de D'Alembert com quem teve discussões bastante acesas por causa de artigos para a Enciclopédia (Rousseau colaborou na entrada de música), não falando de Hume com quem se travou de razões deixando de falar com o escocês que até o tinha ajudado quando houve uma ordem de prisão francesa contra ele. Incompatibilizou-se também com Montesquieu. Rousseau não se via sequer como escritor, já que execrava os romances e os literatos da sociedade que frequentava durante uma certa época da sua vida, tal como não se considerava preceptor, músico, autor de libretos de ópera, botânico e autor de herbários, agricultor, professor, copista de música, o que lhe dava um razoável pecúlio ao final do ano. Todas estes ofícios experimentou e a todos eles recusou ser artífice.

De resto, e nesta viagem por livros sobre Rousseau, ficamos com uma impressão um pouco negativa da sua pessoa. Não pelas suas evidentes e reconhecidas contradições, pois todos nós as temos, mas por muito do que disse nas suas Cartas, Discursos, Passeios, Projectos, Contratos. Algumas destas cartas endereçadas a este ou àquele são verdadeiros tratados filosóficos, mas a teimosia, o isolamento e, talvez, o rancor de Rousseau levaram-no a ser classificadas assim. Nunca como tratados. Mais: Émile, Heloïse, Sophie, Saint-Preux, ou são seus alter ego, amantes ou os filhos que rejeitou. É uma realidade que não escapa ao leitor de Rousseau: autor de uma modernidade política inigualável com o seu «Contrato Social», é um autor para quem a democracia tal como a vemos hoje, lhe traria algum desconforto, senão mesmo hostilidade. Admirador de Sólon não nos causaria demasiado espanto que a eleição dos representantes  de um povo só se efectuasse por um escol, numa espécie de colégio eleitoral cidadão. Tido como revolucionário, posicionou-se contra os motins e revoltas de Genebra a que assistiu, porque detestava a desordem. Inovador na questão da educação e pedagogia de crianças e jovens, foi um preceptor austero não pondo de lado alguns castigos físicos; tal como a sua veia violentamente antifeminista e que entendia que as mulheres não deveriam ter acesso à educação, por falta de génio, de inteligência, de concentração e seriedades intelectuais. Ele, que viveu sempre sob o manto protector das mulheres. O mais inquietante, contudo, em Rousseau é que todas as suas «Confissões» têm como objectivo, bastante visível até, de conceber uma unidade coerente ao seu pensamento, plasmado em vários escritos e, em última análise, justificar-se perante a sociedade do seu tempo que não lhe perdoou algumas diatribes, nomeadamente a questão dos seus cinco filhos dados para adopção ou a sua constante mudança do calvinismo em que foi criado para o catolicismo e, depois, para o deísmo. Mesmo a questão mais consensual na sua filosofia como teria sido a Razão, mesmo esta, permaneceu num estranho limbo, em que Rousseau manteve uma posição dúbia, mostrando até alguma distância daqueles que a reivindicavam como a salvação da Humanidade por entender que preferiria a contemplação natural e interiorizada, uma espécie de «rêverie» imaginativa que levasse à bondade da pessoa, que resgataria assim a fórmula do já conhecido «bom selvagem» e se afastaria da corrupção que a sociedade lhe provocaria. Não sendo a conquista da razão o alfa e o ómega dessa mudança, seria então uma espécie de transformação interior da pessoa a levar a sociedade por melhores caminhos. Isto, até ele afirmar o seu contrário. Mas não desdenhemos assim de Rousseau: foi um tipo que poderia ter tudo, mas que recusou as prebendas dos mais fortes pelo que defendeu e eles sabiam o perigo que representava, não duvidemos disso. O que aconteceu na vida do filósofo foi um desgaste contínuo na sua resistência, para além de uma doença renal incapacitante; foi detido, teve um mandado de prisão de que poderia não se salvar, foi exilado, teve violentas contendas que o deixavam fortemente deprimido, teve de recorrer variadas vezes à fuga, foi expulso de cidades e países, das suas casas, foi inclusive lapidado por populares em Môtiers. Se compararmos esta vida com a de outros filósofos iluministas e racionalistas, perceberemos melhor de que foi feito Rousseau e o seu apego à natureza e ao isolamento, muito diferentes dos salões parisienses. Devemos-lhe isso.

alc

domingo, agosto 30, 2026

"As Confissões. Segunda parte", Jean-Jacques Rousseau

 

E-Primatur, 2025. Tradução de Manuel de Freitas. 

O mês de Agosto, para um tipo livre de obrigações, dá nisto: ler Jean-Jacques Rousseau pela sua própria mão. Tem tudo para dar certo. Agosto é um mês em que deixou de fazer qualquer sentido para ser chamado «de férias». Tal conceito não existe num reformado enquanto as seguradoras e o governo de Montenegro nos deixarem livre-trânsito para graus de ansiedade colectiva só equiparada à troika de Passos Coelho.

Este segundo volume das memórias de Rousseau é, talvez, o centro bem visível e sentido de toda a trama à sua volta, já que de filosofia pouco se fala. Com alguma razão, Rousseau deixa-a de lado, visto que as obras dele aí estão bem vivas, até em livros de bolso ainda hoje. Creio não estar a exagerar se disser que o conhecemos bem, por múltiplos factores que são conhecidos. A defesa do seu igualitarismo social e legislativo (ainda longe do igualitarismo económico, bem-entendido), a nova perspectiva sobre a educação das crianças e dos jovens (ainda e só os masculinos, mesmo com a edição de «A Nova Heloïse» em contraponto com «Émile»), a necessidade de um «Contrato Social» entre governantes e governados, «Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens» e o incontornável «Devaneios de um Caminhante Solitário». 

Nas «Confissões», e principalmente neste segundo volume, ele aborda a sua vida e as suas relações com muita gente que conhecemos bem, como Voltaire (a quem não perdoa o desprezo a que foi votado por este com a edição de «Cândido» subtilmente, ou nem tanto, dirigido às suas posições sobre o ''bom selvagem'' e sobre a posição de Rousseau sobre o terramoto de Lisboa de 1755, nem diferente da de Voltaire), como Diderot e D'Alembert que o afastam dos seus círculos e até com Montesquieu que é, estranhamente, pouco referido neste segundo volume. O grande mistério em torno deste volume é, em parte, a ingenuidade que dá mostras Rousseau. Os círculos em que se move são os dos possidentes, a mais poderosa aristocracia que enxameiam os salões, os cafés e as academias. Por muito que admirassem o brilhantismo de Rousseau, ele esquece, ou parece esquecer talvez para não morrer na pior das misérias que chegou a conhecer bem, que esta gente não perdoa o facto de ele defender a igualdade do género humano, quando o que está na génese da monarquia absoluta é exactamente o seu contrário: a defesa da perpetuação das desigualdades. É aí que Rousseau se move, porque é nesses círculos que se publicam as obras, onde perdura a censura e os possíveis favores que ela pode oferecer, onde está as enormes somas de dinheiro provenientes dos impostos e do feudalismo ainda mantido a ferros, onde pode esperar algumas prebendas em forma de parcos ordenados para subsistência de si e de Thérèse Levasseur, sua companheira com quem teve cinco filhos nunca criados por eles e sem que neste volume mostrasse profundos remorsos de os ter abandonado. Não sei se alguma vez ele se questionou sobre o seu papel neste meio aristocrático e se poderia ou não ter construído uma teoria da luta de classes, mas a verdade é que a burguesia (da República suíça, genebrina, principalmente) não foi muito melhor para ele e o povo apedrejava-o literalmente nos seus longos passeios pelos bosques e montanhas, aqui por razões de religiosidade fanática, quer em França, quer na Suíça. Chegou a temer pela sua vida várias vezes. Tentou a ilha de Saint-Pierre, mas em vão: foi expulso pela cidade-estado de Bienne. Antes foi corrido em Neuchâtel, Yverdun e Motiers, onde houve um levantamento popular contra a presença dele. Portanto é possível que não visse algum germe libertador em qualquer classe, mesmo nas subservientes.

Vai tentar, já doente, a possibilidade de Berlim, embora Londres e Hume o esperam por influência de alguns «beneméritos» franceses.

alc

sábado, agosto 15, 2026

"As Confissões. Primeira parte", Jean-Jacques Rousseau

 

E-Primatur, 2025. Tradução de Manuel de Freitas. 

Numa época em que dificilmente se encontra qualquer identificação pessoal, em que o miserabilismo cultural é uma realidade, em que qualquer asno se não coíbe de se considerar como um pensador, quando o caminho que a sociedade escolheu, com o beneplácito de imbecis encartados, é o da sua própria sobrevivência, não deixa de ser reconfortante iniciar a leitura de «As Confissões», de Jean-Jacques Rousseau. 

Talvez esta primeira leitura nos obrigue a conhecê-lo melhor e compreender algumas das suas escolhas e explanações filosóficas que mudou substancialmente o rumo da sociedade feudal e aristocrática, dando início a uma das maiores revoluções que a História conheceu: a Revolução Francesa de 1789, mesmo que ele se mostrasse avesso a qualquer acto de violência e tivesse falecido muito antes do seu eclodir. Mas não deixa de ser sintomático o que disse quando assistiu aos «confrontos» de Genebra em 1737: «Esse espectáculo horrível causou-me uma impressão tão intensa que jurei nunca participar em qualquer guerra civil e nunca procurar defender a liberdade pelas armas (...)» (pág.260). Assim era Rousseau, um tipo inquieto, procurando através dos livros, que lia em catadupa desde criança e sem método, uma síntese que o pudesse levar a um pensamento lógico e estruturado. Não se vê ainda aqui neste volume, visto que Rousseau é ainda um jovem entre os onze e vinte e cinco anos, mas já se nota o seu interesse por imitar a escrita de Voltaire, que admira, e citar antes do seu tempo, Diderot, a quem propôs uma volta a Itália a pé, desde os Alpes suíços. Diderot, embora aceitando, foi colocando educadamente a hipótese, meia louca, em banho-maria. Na sua juventude, como conta neste primeiro livro, para além dos já citados livros de todo o tipo que devorava impulsivamente, dedicou-se igualmente à composição musical que levou até bastante longe na sua idade e ao desenho e geometria. Vendeu, para sobreviver, os seus livros de geometria e queimou várias composições e óperas da sua autoria. 

De resto, vemos Rousseau na sua juventude envolto em liberdades amorosas, principalmente com a senhora de Warrens, a quem chama de «mamã» (a sua morreu o seu nascimento) e que por vezes acontece tornar-se parte de um dos vértices de triângulos de desejos incontidos. Preceptor de jovens de famílias ricas, consegue reconhecer os seus erros e atitudes menos correctas apontando já para a tema de «Émile» e de «Heloïse», assim como as suas constantes viagens a pé ou de liteira, o apontam para o «Pensamentos de um Caminhante Solitário». O que nos faz ler este volume num ápice é o facto de Rousseau se mostrar completamente despido diante de nós, de ser honesto em extremo, coisa que não é habitual em autobiografias. A sua relação com a religião não é esquecida e o facto de ser católico e mais tarde ter-se convertido ao deísmo, se assim se pode utilizar o verbo «converter» quando se fala em deísmo, mas nota-se já o seu profundo desprezo para com a igreja e claramente adepto da convivência entre todas as religiões do mundo. 

Não se revê na França do século XVIII e muito menos em Paris. Embora suíço de nascimento, genebrino, e cidadão do cantão de Vaud, Paris foi para ele uma grande desilusão motivada pelas enormes desigualdades sociais a que assiste em jovem. Mostra o desdém do dinheiro e do que ele pode dar, recusa a servidão a que este obriga as pessoas que o perseguem com obsessão. Usa-o, gasta-o, não sem dificuldades várias, guarda-o na medida certa: «O dinheiro que se possui é o instrumento da liberdade, aquele que se persegue é o instrumento da servidão. É por isso que o junto com cuidado e que não cobiço nada.» (pág.50). Parece-me que o deve e o haver com a filosofia e com os seus contemporâneos vai ter vasta descrição no segunda parte da autobiografia.

Rousseau ainda é hoje execrado por vastos sectores da direita e da extrema-direita. Em pleno século XXI, tal como Marx e outros igualitários, é objecto de torções ideológicos que deixam um rastro de ódio, mentiras e meias-verdades, mesmo até por alguns sectores de esquerda. Convém lê-lo em «As Confissões» e talvez entendamos melhor ao que veio e o que publicou. Afirmá-lo como um «inimigo da liberdade» tal como o fez Isaiah Berlin e muitos que o seguem nas universidades actuais é. no mínimo, qualquer coisa de infame e intelectualmente desonesto. 

Nota pouco importante, mas intrigante: lembram-se, certamente, da rábula do pão e dos brioches a que atribuímos a Maria Antonieta. Há quem diga que nunca o disse, visto que o boato era uma forma de desinformação constante nos dias anteriores à Revolução Francesa, mas serviu como metáfora maldita para a jovem rainha. Ora, neste livro, na página 323, ele dá esse exemplo como fosse dito por uma «princesa», mas não a identifica. Rousseau morre em 1772, muito antes da data de 1789. Maria Antonieta é morta em 1793, tendo-se casado. com Luís XVI, em 1770, com catorze anos. Penso que nunca poderia ser ela a autora da frase que lhe é atribuída, ou, se o fez, era extremamente nova. Então a quem?

alc

quinta-feira, julho 30, 2026

"O Passeio", Robert Walser

 

Antígona, 2026. Tradução de Bruno C. Duarte. Ilustrações de Pierre Pratt.

«O Passeio» é um livro maravilhoso de alguém, como Robert Walser de quem não desisto de ler e conhecer mais profundamente que outros autores; não só passeia como parte fundamental do ofício de escrever, como diz de si próprio que mandria, que ao nada fazer tudo observa como um gosto imenso pelo mundo, não abandonando, contudo, um sarcasmo elegante. Um passeio, para ele que morreu exactamente numa caminhada na neve, em 1956, e nas redondezas do hospício onde estava internado, em Herisau, na Suíça. Andar e ver era, para ele, a verdadeira vida, onde tudo acontecia como o perturbador olhar de uma mulher bela a quem se dirigiu e disse-lho com o cuidado do desconhecido, do bater rápido do coração antes de saber qual a reacção dela e de quem não mais esqueceu o seu olhar. A ida aos correios para uma carta veemente para um indivíduo e que o obrigou, contudo, a pedir perdão aos leitores dessa mesma afronta visto que ele também mereceria alguns reparos pelos erros e malfeitorias do seu passado, de ofensas que teria feito a outros, uma rocambolesca viagem às Finanças ou observar a alegria incontida das crianças que brincam, livres, e o arrojo dos automóveis que as impedem de atingir essa mesma liberdade que, mais tarde, a vida as impedirá de conhecer. Que lição de vida este livro que em boa hora a Antígona publicou com excelente tradução. «O Passeio» é para se ler de uma vez só para, posteriormente, termos a possibilidade de nos cingirmos a algumas frases e situações tão belas quanto inspiradoras. As pequenas coisas tornam-se sublimes em Walser, não há maneira de negar o óbvio quando nos dispomos a conhecê-lo em toda a sua obra inesquecível. Li-o de uma assentada, ou seja, num único dia e sublinhei mais tarde algumas passagens que me pareceram importantes; isso não me impediu que, numa nova releitura, me tivesse disposto a sublinhar outras, até que o livro todo fosse um enorme sublinhado, o que deixava de atingir o objectivo que me levava a fazê-lo. Não o façam. Eximam-se de o sublinhar. Todo o livro é de uma enorme empatia para connosco. Que livro e que escrita!
Robert Walser. António Luís Catarino, 2025. Desenho a tinta-da-china.

«(...) ''Porque estou aqui a colher flores?'', perguntei a mim mesmo e olhei melancolicamente para o chão, e a delicada chuva amplificou a minha melancolia, elevando-a à tristeza. Vieram-me à mente velhos erros do passado, traição, ódio, despeito, falsidade, perfídia, maldade e toda a espécie de atitudes ofensivas e desagradáveis. Paixão desenfreada, desejos delirantes, e a forma como tinha magoado tantas pessoas, como tinha agido injustamente. Como um palco repleto de cenas dramáticas, a vida passada abriu-se diante de mim e, sem querer, não pude deixar de me assombrar com as minhas inúmeras fraquezas, com todas as indelicadezas e crueldades que havia demonstrado. (...) Ao olhar a terra, o ar e o céu, ocorreu-me o sinistro e inevitável pensamento de que eu era um pobre prisioneiro entre o céu e a terra, de que todos os seres humanos eram lamentavelmente prisioneiros dessa mesma maneira, que para todos havia um único caminho sombrio, que era descer pelo buraco, pela terra adentro, que não havia outro caminho para o outro mundo senão aquele que passa pelo túmulo. (...) Fiquei ali deitado longamente, perdido em vagos pensamentos, até que voltei a lembrar-me daquela jovem, que era tão bela e plena de vigor, que tinha uns olhos tão doces, bons e puros.» (pág.107-109) 


Robert Walser num passeio. António Luís Catarino, 2024. Pen e colagem de um trecho de escrita miudinha, a lápis, de R.W. muito difícil de ser decifrada.

alc

quarta-feira, julho 29, 2026

"Sinais de Fogo", Jorge de Sena

 

Col. Mil Folhas, Público. [1ªedição póstuma, 1979], 2003.

Li-o nos anos 80 e não me lembro já das impressões com que fiquei, mas não foi coisa extraordinária. Hoje, numa época em que me interesso pelas releituras que fiz, tenho a certeza de que «Sinais de Fogo» me perturbou o suficiente para afirmar que o romance cumpriu o seu dever. Portanto, estamos perante uma obra ímpar. O que para mim é novo foi ler a longa introdução de Mécia de Sena que nos informa que um livro que foi póstumo (Jorge de Sena morre em 1978) iniciou-se em 1964 pelas mãos do poeta e escritor, sem que se ponha de lado a hipótese de ter sido escrito em cadernos logo nos finais dos anos 30. Mécia de Sena considera-o inacabado e não revisto completamente por Jorge de Sena, o que nos leva a observar algumas incongruências em nomes de personagens que se trocaram e repetições, para além de longos pensamentos paradoxais e íntimos que nos lembram muito o «jogo» psicológico pessoano. 

Seja como for, seria impublicável durante o Estado Novo e mesmo na sua continuidade como foi o do marcelismo, desconhecendo eu se essa quase certa censura seria por motivos políticos, por pudor ou ambos. Penso que por ambos os motivos. Todos os que conhecem Sena sabe que «Sinais de Fogo» se passa na Figueira da Foz, abrange o ano de 1936 e o início de 1937, a Guerra Civil de Espanha atravessa-o e obriga as jovens personagens de uma burguesia politicamente dividida e em crise moral, a optarem por um dos lados. Ninguém é neutro ou consegue sê-lo. Mas Jorge, a principal personagem, não é um libertino, um livre pensador. É, antes, o retrato fiel de um filho de «boas famílias», femeeiro, por vezes até cruel, perfeitamente ambientado aos costumes burgueses de uma moral hipócrita, subterrânea, que permitia aos mais ricos violar criadas, apoucar e ameaçar homossexuais, falar de política enquanto se participa numa orgia, «possuir» mulheres... Aliás, o verbo «possuir» é repetido à exaustão, mesmo quando Sena descreve uma relação amorosa «quando dois corpos se tornam um», o que não deixa de nos surpreender. Quem possui quem? Diz-nos Mécia de Sena, que foi a guardiã abnegada do espólio de Jorge de Sena, que não se trata de um romance autobiográfico, mesmo que algumas personagens tenham existido de facto, como o inesquecível Justino. Como também afirma que ela não é a Mercedes do romance, única personagem plenamente livre, pela escolha individual que faz, não pelo jugo familiar que se abate sobre ela. Em todas as páginas a violenta ditadura dos anos 30 imposta por Salazar, logo após a Constituição plebiscitada de 1933, estava claramente em ascensão e, historicamente, ela surge-nos como uma «ditadura de massas» coisa que o ditador demoraria pouco a pôr-lhe fim, apoiando-se nas polícias, mocidades e legiões, bem enquadradas para perseguir, prender, torturar, fazer desaparecer, matar.

Mas sobre o romance em si, e o seu carácter sórdido impossível de esconder porque espelho de uma sociedade assim, prendamo-nos antes nas palavras do próprio autor:

«Quando eu correspondera à imagem de mim que ela [Mercedes] aceitara noutros, e lhe impusera, em troca, mais ou menos que a minha pessoa,, o meu corpo, eu abdicara de tê-la como pessoa, porque ela não podia ser uma pessoa dentro de uma imagem, do mesmo modo que eu não podia possuir a minha própria imagem. Mas quem não seria, no amor dos outros, todas as imagens de pessoas com que elas tinham sonhado? Quem era si mesmo nas imagens dos outros? Não era, afinal, a mulher ideal ou o homem ideal o que procurávamos nos outros; mas nós mesmos nos idealizávamos, éramos idealizados com a imaginada realidade dos que, se sonhados, não haviam sido possuídos, ou que, se possuídos, não tinham sido sonhados. Esta idealização não tinha nada que ver com pureza, com inocência, com gratuitidade. Era, pelo contrário, uma soma, uma acumulação, uma confusa mistura de toda a sordidez que não nos atrevíamos a sonhar nos outros ou pelos outros (...)» (pág.259)

alc

sábado, julho 18, 2026

Flauta de Luz, nº12

 

Flauta de Luz, nº12. Julho de 2026

Mais uma número imperdível de «Flauta de Luz», agora a número 12, publicada com o trabalho de Júlio Henriques e de Joëlle Ghazarian. São 360 páginas de qualidade ímpar para quem o inconformismo anda a par com uma vida de recusa ao Estado e à ordem capitalista tenha ela a forma em que se apresente. Seja a ordem do mercado ou a burocrática. Os temas são tão díspares, quanto são os ataques desta ordem à humanidade. O diagnóstico está feito e parece-me que esta revista não faltarão as fórmulas libertadoras de quem assume essa recusa.

Júlio Henriques assina uma importante análise social da conjuntura na região portuguesa, mas tenham igualmente presente as contribuições de Jorge Leandro Rosa «Pensar a Guerra Enriquece e Ilumina», de Chris Hedges «Declínio e Queda do Império Americano», de Franco Berardi «Introdução ao século XXI», um artigo de Robert Kurz «Imperialismo de Crise», de Joëlle Ghazarian «Esboço (de uma mulher) sobre a Guerra» e «Uma Espécie de Movimento de Fundo», de Pedro Levi Bismark «Primo Levi, Memória e Destino», de Charles Reeve «Educar para Submeter, Socialismo Autoritário e Fascismos», um esclarecedor artigo de Erik Corrêa «Uivos para Sanguinetti» que esclarece muito do que se passou entre este e Debord, um importantíssimo artigo de Phil Mailer (tem editado o novíssimo «Portugal, a Revolução Impossível», pela Antígona) «Obsceno Fascínio da Internet», de Júlio do Carmo Gomes «Kopenawa em Berlim, Quem não Beija não Manduca», de Ivan Illich «Declaração sobre o Solo», e mais artigos entre os quais se contam Anselm Jappe, John Berger, Wendell Berry. 

E três pequenas, mas significativas, notas sobre o âmbito cultural e interventivo da Centelha de Coimbra, mais tarde Fora do Texto, e cujo papel agregador na pessoa de Soveral Martins foi destacado pelo Eduardo, por António Martins e por mim próprio.

Atenção especial ao grafismo e ilustrações que povoam este número de Flauta de Luz.

alc

"O Belo Verão", Cesare Pavese

 

Livros do Brasil, 2021. Tradução de José Lima. 

Li um livro belo, consequência lógica da procura pela obra de Pavese. Lá estão as mulheres e as colinas, forma de fugir às cidades, os cafés sombrios e as ruas dispostas pelas ambições e frustrações humanas. O Sol vigoroso e o calor que faz explodir os sentidos, mas igualmente o frio de Inverno com que acaba o romance. A neve que tapa a nudez da modelo. Duas mulheres radicalmente diferentes, dois homens estranhamente iguais, com comportamentos padronizados. Nesse aspecto compreendemos bem Pavese e o que ele nos oferece dizer sobre as mulheres. Os diálogos são breves, como que amalgamados nos sentidos das personagens. Pouco se diz, muito fica por dizer, mais intuímos na continuação  das situações criadas. As descrições precisas obrigam-nos ao recurso da imagem, enquanto as palavras fluem como os diálogos. Sem quase adjectivos, somente a palavra exacta.

Não me canso de ler Pavese. 

alc