Recordo-me particularmente dos anos lectivos de 1972/73 e de 73/74. Tínhamos entre 15 e 16 anos e a formação política veio depressa e a ferros. Sabíamos principalmente o que não queríamos, mais do que construir utopias, para nós ainda demasiado complexas. Queríamos que a ditadura se fosse, a guerra terminasse de uma vez por todas e as coisas terríveis que nos eram contadas por quem lá esteve. A turma, lembro-me, dividia-se entre aqueles que ficavam e os que queriam partir para uma Europa arejada e democrática, ao contrário de um país de gente pobre, enfadonho, manietado e repressivo que era o Portugal de então.
João Pinto Ângelo contribuiu como estudante liceal, sem tergiversar, para o derrube da ditadura fascista. No ano de 1973, esteve presente em várias acções contra a ditadura principalmente após as «eleições» em que apoiou a CDE. As acções baseavam-se, principalmente, em colagens de cartazes do MDP/CDE, «A Força do Povo» e de autocolantes com carimbos artesanais contra a guerra colonial e contra a carestia de vida despoletada pela crise petrolífera de 1973 (por vezes de dia, quando saíamos das aulas, no D. João III!) e distribuição de comunicados do movimento. A sua coragem física via-se claramente quando confrontava a polícia, quer no último 1º de Maio em ditadura, quer na importante acção nos transportes públicos em Coimbra contra o pagamento de bilhetes quando o governo os veio a aumentar, quer ainda na carga policial que se assistiu no início da peça de teatro do TEUC, «O Asno», em plena avenida Sá da Bandeira. Foi também em 1973 que aderiu à CDEC (Comissão Democrática de Estudantes de Coimbra), saída das «eleições» já referidas e CPAEL (Comissão Pró-Associação de Estudantes Liceais) em rede com as suas congéneres de Lisboa e Porto. Foi nesse âmbito que, até Abril de 1974, desenvolveu uma política organizada de agitação e propaganda contra a ditadura, com colagens, intervenções e distribuição de comunicados em RGA's-relâmpago, presença em reuniões políticas e de âmbito cultural com projecção de filmes nas repúblicas, leitura de livros, etc. entre estudantes do ensino universitário e liceal. Muitas vezes o contacto entre os estudantes universitários mais experientes na Clepsidra, e nas repúblicas contíguas a este espaço, como o Ay-ó-Linda e Fantasmas, foi determinante para uma crescente politização dos liceus contra a ditadura em que se destacam, entre muitos, os nomes de Lizardo e de Pena dos Reis, que pertenciam à UEC desde 1972, data da sua formação. O núcleo dirigente da CDEC e da CPAEL no D. João III contava com a sua acção determinante. A luta contra a ditadura nesta escola foi constante e nunca esmoreceu, contando igualmente com outras organizações como os Núcleos Sindicais, ligados à FEML em que se destacava o Sérgio Soares. A nossa relação era afastada, mas não abertamente hostil como o foi após o 25 de Abril.
No dia 25 de Abril de 1974, em que nos preparávamos para distribuir comunicados da CDEC de mobilização estudantil liceal para o 1º de Maio, foi com muita apreensão que vimos os soldados armados que subiam a Lourenço de Azevedo pensando que seriam comandados por Kaúlza de Arriaga o que nos fez escondê-los sob arbustos do Jardim da Sereia (o 11 de Setembro de 73, no Chile, estava muito fresco). Foi nessa tarde, do 25 de Abril, já participando na revolução, que o João Pinto Ângelo, o Sarmento, o Brito Moura e eu, entrámos pelo gabinete do reitor Vieira e lhe comunicámos que iria ter lugar uma Assembleia Magna da Escola no dia seguinte e que, por nós, pela CPAEL, ele não ficaria como reitor, o que lhe provocou um acesso de raiva e procedeu a uma ameaça de consequências graves. Foi a sua última ameaça. Tínhamos então 16 anos. A 26 de Abril de 1974, nos jardins da AAC e antes da grande Assembleia Magna desse dia de apoio à revolução, adere à UEC pela mão de Lizardo. Torna-se evidente que a experiência de João Pinto Ângelo no movimento associativo estudantil abriu-lhe portas, mais tarde, para o seu trabalho unitário e abrangente na UNEP, na actividade sindical na Função Pública e, mais tarde, no trabalho exemplarmente reconhecido e exigente na Assembleia Municipal de Coimbra como deputado eleito.
alc


























