quarta-feira, maio 25, 2022

«A Força da Não-Violência», de Judith Butler


Livro para ler e reler, sublinhar, anotar, guardar, argumentar num mundo feito em cacos, em levantamento mundial antes do covid e da(s) guerra(s), da desinformação, da crise ambiental já irreversível, da morte programada, da declaração capitalista de inutilidade do ser humano e do capitalismo de vigilância que nos entra pela casa dentro onde quer que estejamos.

Num momento em que falar de paz e não-violência é quase compararem-nos a seres extra-terrestres e amigos da violência justificando o ataque de um estado sobre outro estado, com consequências imprevisíveis sobre milhões de seres humanos, compreendemos melhor a subversão linguística e ideológica daqueles que nos acusam de «compreender» essa violência. São esses que vociferam totalitarismos inexistentes, ódios escondidos, cabeças não pensantes, quando são eles próprios os melhores exemplos disso mesmo, ao disporem o vocabulário do poder e da violência sobre aqueles que se lhes opõem.

Diz Butler: «(...) O facto  de os esforços políticos de dissensão e crítica serem com frequência rotulados de «violentos» pelas mesmas autoridades estatais que são ameaçadas por esses esforços não é razão para desesperar com o uso da linguagem. Significa apenas que temos de alargar e refinar o vocabulário político para pensar a violência e a resistência à violência, levando em conta o modo como esse vocabulário é distorcido e usado para escudar autoridades violentas contra a crítica e a oposição. Quando a crítica da contínua violência colonial é considerada violenta (Palestina), quando uma petição para a paz é reformulada como um acto de guerra (Turquia), quando lutas pela igualdade e liberdade são idealizadas como ameaças violentas à segurança do Estado (Black Lives Matter) ou quando o «género» é retratado como um arsenal nuclear apontado à família (ideologia antigénero), estamos, nesses casos, a operar no meio de formas politicamente de correntes de fantasmagoria. A fim de expor o ardil e a estratégia destas posições, temos de estar em condições de rastrear os modos como a violência é reproduzida ao nível de uma lógica defensiva impregnada de ódio e paranóia. (pág.30)»

E a não- violência só pode ser igualitária no plano social, arredando de si todo o tipo de individualismo inerente à ideologia desgraçada do neo-liberalismo:

«Quando os movimentos não-violentos trabalham a partir de ideais de igualitarismo radical, é a reivindicação igualitária a uma vida enlutável e vivível (livable) que serve de ideal social orientador, um ideal que se revela fundamental para uma ética e política de não-violência que ultrapasse o legado do individualismo.»

Jornal Mapa, nº 34


Neste número do Jornal Mapa encontram-se 3 ilustrações que fiz para o artigo de Júlio Gomes. Em breve darei conta aqui mesmo, dessas ilustrações.

Cá está mais um Jornal MAPA – edição 34 (Maio-Julho 2022)!

No meio da tempestade perfeita, potenciada pela espiral de destruição da guerra na Ucrânia, a edição #34 (Maio-Julho) do Jornal MAPA, reflecte inevitavelmente sobre a barbárie da guerra e a militarização das nossas vidas, essa normalidade do «medo permanente» que recusamos. Nestes tempos é cada vez mais importante que falemos do mundo rural e do sistema agro-alimentar que nos toca a todos/as – aqui numa conversa com a revista espanhola Soberanía Alimentaria, Biodiversidad y Culturas; como que mantenhamos sempre em destaque as lutas contra a mineração, desta feita num artigo sobre os truques de ilusionismo levada a cabo pelas companhias mineiras na região do Barroso; ou que anunciemos outras não menos importantes Lutas pelo Território como a do recente movimento Idanha Viva contra o projecto do IC31. Porque importa que sejamos espaço para outras memórias e narrativas, a história da Livraria Utopia, no Porto, inaugura a primeira de várias peças onde tentaremos trazer à superfície as histórias e estórias de Abril ligadas à espontaneidade e auto-organização. E continuamos a ser veículo de cartas vindas directamente das prisões, para que se possa ler aqueles/as que nunca tem direito à voz. Outros apontamentos e crónicas levam-nos aos despejos de dezenas de casas ocupadas por todo o país, à ciganofobia, assim como a falar do desporto popular lisboeta d’ O Relâmpago; ou do festival Periferias, cinema combativo entre Marvão e Valência de Alcântara. E outros temas mais há para descobrirem.

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«A História do Novo Nome», de Elena Ferrante, vol.II


Segundo volume da saga de Elena Ferrante iniciada com «A Amiga Genial». Este «A História do Novo Nome» cuja acção se desenrola em volta da vida de duas personagens femininas, Lila e Lenù, não é mais do mesmo. Trata-se do amadurecimento natural das duas amigas numa Nápoles atrasada, dialectal, sofredora com domínios vários, entre os quais sobressai o domínio masculino, violento, machista, aceite por quase toda a sociedade do sul de Itália. Um país que mal saído da guerra e das suas misérias e destruições, encalha agora nas tradições seculares, familiares em que as principais vítimas são as mulheres. Os anos 60, neste sul muito particular, não se adivinha minimamente a chamada libertação feminista. Parece, por vezes e pela escrita de Elena Ferrante, que há uma reacção brutal a que isso aconteça, mesmo protagonizada por muitas mulheres. 

Tanto Lenù, como Lila crescem, neste volume do livro. Com ele, assiste-se não só à descoberta do corpo e do sexo, do desejo também, mas igualmente à diferença social entre as várias personagens. A luta de classes do pós-guerra não é aqui esquecida, antes pelo contrário, todas as contradições são expostas claramente pela autora, entre a democracia cristã ganhadora e o forte partido comunista italiano, dividido em facções estalinistas, social-democratizantes ou trotsquistas. 

Pouca mobilidade social existe aqui. O seu elevador funciona mal. A existir ou é pelo casamento (Lila) que se transforma numa cilada cruel, com espancamentos logo no seu dia inaugural, ou pela universidade (Lenù) e mesmo aqui, depara-se com um nepotismo e uma campânula social que bloqueia uma ascensão merecida. Mesmo quando inicia a publicação de um romance por uma conceituada editora milanesa é por interposta influência de uma professora universitária, mãe do seu namorado que também ele rapidamente sobe na carreira universitária como assistente, tal como a sua irmã e pai catedrático todos da Universidade de Pisa. Elena Ferrante, lembra-nos sempre que Lenù é oriunda de um bairro pobre de Nápoles, que esconde a sua origem no incómodo que sente quando a mãe a vai visitar à universidade onde se encontra doente ou quando esconde o seu dialecto napolitano. Essa contradição é vivida intensamente quando se aproxima das suas origens através de uma Lila caída em desgraça e tornada operária por sobrevivência.

Há, contudo, nos dois volumes que li até agora, uma questão incontornável e por vezes inquietante: a do comportamento da mulher. Elena Ferrante consegue entrar no âmago da psicologia feminina como eu não consegui ver até hoje em literatura contemporânea e muito menos quando são homens a tentar decifrá-la e escrevê-la. Lembro-me de algumas passagens de livros que agora me dão vontade de sorrir e pensar quão longe, alguns homens, estão de compreender atitudes de mulheres adolescentes ou mais maduras. Aviso-vos amigos: nem sempre o que parece é e o que se descreve, de um modo magistral, em simples encontros entre sexos já foi passado, vivido por nós todos. E dá-me ideia que pensámos tudo ao contrário... é esta a importância de Ferrante, uma observadora implacável de todo o comportamento humano em que nos vemos e revemos. É isto que faz a boa literatura.

quarta-feira, maio 11, 2022

«Pedro Páramo», de Juan Rulfo

 

Em 1955 foi publicado este livro difícil de descrever e mesmo de classificar. As personagens são intemporais, os mortos falam com os vivos, a realidade por vezes sobrepõe-se ao sonho, outras vezes é este que se afirma perante uma realidade que ultrapassa a simples sociedade mexicana em ebulição política e social. A paz é quase desconhecida e as guerras e revoltas uma constante da uma vida pautada pela injustiça e pela religião que coincide, por vezes mal, com o paganismo indígena. Neste romance magnífico não se vive muito, vive-se para a morte e para o além seja ele qual for. Os mortos afinal vivem com tanta comoção e vingança como os vivos. O bem convive com o mal e há perdão ou arde-se no inferno que é a terra ou a posse dela. O combate pela dignidade e pelo poder, pelo domínio. 
Juan Rulfo nasceu em 1917 e faleceu em 1986. Afirmar. como disse atrás, que ele pertence a uma escola literária que denominamos de «realismo mágico» é muito pouco, embora García Márquez o tenha colocado nos nomes mais importantes da literatura mundial, tal como Carlos Fuentes, Álvaro Mutis, Max Aub ou Carlos Velo. 
Quero ler bem depressa, na mesma coleção da Cavalo de Ferro, «A Planície em Chamas». Este, «Pedro Páramo» foi publicado em 2004 e a 3ª edição em 2017. Os tradutores foram Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues.

«Kitsch», de Fritz Karpfen

 

Sinceramente, não entendo as toneladas de páginas que foram publicadas acerca do fenómeno «Kitsch» quando Fritz Karpfen, logo em 1925 fez esta síntese notável e que a Antígona,em 2017, publicou com tradução e introdução de João Tiago Proença.

Assim, não é kitsch quem quer, nem quem pode. O kitsch aparece quando menos se espera, literalmente, podemos dizê-lo, logo ao virar da esquina. Ele aparece na arquitectura, na literatura, na poesia, na imagem, na publicidade na pintura. O kitsch surpreende-nos elaborado por nomes importantes da nossa praça artística e até por clássicos medievalistas, renascentistas, góticos, rococós...contemporâneos! 

Surge o kitsch, inclusive, na sala de estar ou na guerra: «Não revelará a absoluta falta de lógica, a falta de espírito guerreiro, o facto de esta época ''grande'', ponto de viragem da História, não ter produzido uma única obra de arte? Somente a negação, a indignação, a contra-acção da Humanidade difamada criou a arte da guerra. Os únicos monumentos de guerra de importância artística intemporal são os testemunhos contra a guerra mundial.(...) O que na guerra nasceu de ''a arte e a guerra'' já caiu hoje no esquecimento - como a lírica e o romance de guerra. O mesmo se passou na literatura: a maldição lançada sobre a loucura, a revolta contra a guerra criaram as grandes obras literárias - obras que atingiram uma validade imortal. (págs. 59,60)»

Mas a mais notável definição do Kitsch aparece-nos no capítulo referente ao Kitsch Moderno: «Se, por acaso, numa exposição moderna, todas as obras forem más e deploráveis, nem por isso deixa de faltar muito para serem kitsch. A diferença é a seguinte: as coisas são formadas, à maneira dos epígonos, em conformidade com modelos antigos, essas são kitsch, pois falsificam o estilo e a vontade da época. . Os objectos, porém, que são formados sem nenhum modelo existente, que tão ousados são, que têm uma acção provocatória e são desprovidos de todo e qualquer valor artístico, podem ser maus, disparatados, inartísticos e vulgares - mas kitsch é que não são! Porque não falsificam nada do passado nem falsificam nada do presente, porque não mentem. Talvez seja uma atoarda e, por isso, uma completa fraude. Pois bem, suponhamos que se trata mesmo de uma fraude. Mas fraude e kitsch não são uma e a mesma coisa. (págs.77 e 78)».

quarta-feira, abril 27, 2022

A Honra Perdida de Katharina Blum - Heinrich Boll

 

«As personagens e a acção desta narrativa são fictícias. Se da descrição de certas práticas jornalísticas tiverem resultado semelhanças com as práticas do jornal Bild, tais semelhanças não foram intencionais nem tão-pouco casuais, são antes uma inevitabilidade.» Esta é a epígrafe que Heinrich Boll nos coloca logo no início de «A Honra Perdida de Katharina Blum» cujo subtítulo, negligenciado por muitas editoras, é este «Ou como a violência pode surgir e onde pode conduzir». 

Comprei a velhinha edição de bolso da Europa-América (baratinha, baratinha), li-o e não mais me esqueci dele. Os anos 70, na Alemanha, foram marcados pelos anos de chumbo e a polícia prendia suspeitos de terrorismo a torto e a direito, não sem o apoio e cumplicidade explícitos entre a polícia, o Estado e o jornalismo tipo Bild que tem os seus gémeos em quase todos os países europeus. Aqui em Portugal não será preciso sequer mencioná-los porque são evidentes nos escaparates das tabacarias. Baseiam-se na manipulação, em notícias falsas, para assim aumentarem as audiências e o lucro, mas também para fazer favores políticos e policiais a fim de justificarem o injustificável. Se acabarem com a reputação de uma pessoa, grupo ou partido político, azar deles. Defendam-se sabendo que em princípio um desmentido ou uma indemnização negociada a priori não tem o efeito de enorme mentira.

A narrativa em si não chega a ser um clássico, até porque Boll afirmou que se tratava de um panfleto, tão caro à política ocidental, tal como os di-bao chineses o foram na Revolução Cultural. Mas os nossos panfletos já vêm do século XVIII. Katharina Blum é uma rapariga da classe pobre alemã que no fim da II Guerra colhe os frutos do Plano Marshall e da prosperidade alemã ocidental que tenta rivalizar a todo o custo com a RDA. Solteira, consegue uma casa com um empréstimo, um volkswagen em segunda mão e é exemplar nos empregos que tem. O que não a impede de um dia para o outro ser acusada de terrorismo. Não como suspeita de terrorismo, mas como verdadeira militante de uma organização de esquerda, cúmplice de outro «terrorista» que afinal só era um desertor que roubou o cofre do regimento onde estava. A narrativa acaba com ela a dar um tiro fatal ao jornalista que manipulou toda a informação que lhe foi confiada, subvertendo afirmações, inventando outras, ameaçando testemunhas, etc.

O mais interessante desta edição da Cavalo de Ferro é o posfácio de Heinrich Boll, além da inquestionável qualidade da narrativa. 10 anos depois da edição de «A Honra Perdida...» escreve o autor: «A respeito da violência de cabeçalhos ainda é pouco o conhecimento de que se dispõe [hoje talvez se saiba mais um pouco]; e pouco se sabe também sobre até onde a violência desses cabeçalhos pode conduzir. Investigá-lo seria uma tarefa de que um dia a criminologia deveria ocupar-se: aquilo que, em toda a sua bestial ''ausência de culpabilidade'', os jornais podem vir a causar. (pág.123)»

É evidente, sabemos todos, que este jornalismo cresceu a um ritmo alucinante desde o período dos anos de chumbo europeu e que se alcandorou exatamente no chamado terrorismo de esquerda dos Baader, das Brigadas Vermelhas, e dos independentistas de esquerda como a ETA e o IRA, servindo o Estado em toda a dimensão da denúncia e da falta de respeito pelo Direito e pelas liberdades individuais e pelo direito de expressão. A emergência da prática de tortura para esses considerados «monstros» começou a ser legitimada pelo povo exatamente com a ajuda desse tipo de jornalismo. O que Boll não teria dito hoje após o 11 de Setembro! Por isso mesmo o autor nobelizado em 1972, teve problemas com a polícia alemã, acusando-o de pactuar com o terrorismo, assaltada a sua casa, imposta a censura a artigos seus nas principais revistas e por aí adiante. Não foi o único, mas provavelmente um dos primeiros perseguidos dos media (ele nunca usou este termo).

Tradução de Paulo Rêgo.
Cavalo de Ferro, Abril de 2022.

António Luís Catarino

domingo, abril 24, 2022

A Entrada na Guerra - Italo Calvino

 

É um livro inédito em Portugal, saído agora mesmo, em Abril de 2022, não vá a D.Quixote perder a «mensagem» que lhe está subjacente nos tempos que correm - a guerra. O original é de 1954. Como tudo o que é pertença de Italo Calvino, lê-se num instante, tendo este homem o condão de dizer muito mais do que aparenta a técnica literária que usa, ou seja, o depuramento da sua escrita que nos faz estar agarrados à leitura e estarmos livres das hipérboles, metáforas que nos enfadam em certo tipo de literatura. 

Italo Calvino, nasceu em 1923, convém dizê-lo para explicar uma questão: conheceu a ascensão do fascismo de Mussolini na Itália, sendo muito novo para ir para a primeira mobilização em 1938 e demasiado «velho» para não se safar a vestir o uniforme das Juventudes Fascistas do PNF. Aconteceu a muito boa gente. Mas em 1943 adere ao PCI e luta de armas na mão contra o fascismo de Mussolini e Hitler. Torna-se um resistente. E para todos os efeitos é assim que eu vejo um resistente. Um tipo que combate de armas na mão contra as ditaduras, mas com um devir revolucionário presente. A resistência pela resistência deu mostras que não vai longe a menos que tenha por detrás apoios desmesurados.

Neste livro, «A Entrada na Guerra» Italo Calvino descreve-nos como se apercebeu da guerra demasiado cedo. Primeiro os desfiles marciais, os uniformes, a masculinidade e a virilidade que muitas vezes levavam jovens como ele a não saber o seu lugar nesta estirpe guerreira: ou são sensíveis e vergonhosamente afastados ou são viris e têm de o demonstrar a todo o momento, mesmo que os factos exigidos pela hierarquia o obriguem. O sexo, atinge o rubro e o inimigo está em todo o lado, as mulheres tornam-se objectos quer na prostituição, quer violadas, o que está implícito em descrição de cenas que o jovem Calvino nos conta.

O saque a Menton, em que ele esteve presente como jovem fascista (que não era), teve raias de loucura. Menton era uma cidade francesa, derrotada pelos nazis alemães e aproveitada pelos italianos para a configuração fascista das novas fronteiras, para vingar a «vitória desonrosa» de 1918. Menton estava deserta porque a população francesa fugiu a tempo em vagas de refugiados. O saque às casas é das descrições mais pungentes do livro. Tudo serve para ser pilhado, partido, incendiado. O vazio, o cheiro, a mutilação, a fuga, sente-se em cada palavra escrita de Calvino. «A viagem a Menton era um caso muito diferente: estava curioso de ver agora aquela cidadezinha, vizinha e parecida com a minha, tornada território conquistado, devastado e deserto; aliás: a única simbólica conquista da nossa guerra de Junho. Tínhamos visto recentemente no cinema um documentário que mostrava a luta das nossas tropas nas ruas de Menton; mas nós sabíamos que era falso, que Menton não tinha sido conquistada por ninguém, mas apenas abandonada pelo exército francês na altura do ataque e depois ocupada e pilhada pelos nossos. (pág.39)»

Uma foto, um jornal, cartas de amor, são destroçadas, enquanto se procura coisas mais valiosas com o incitamento dos chefes nas casas abandonadas. O nosso Italo Calvino, envergonhado por nada saquear, rouba as chaves do Clube francês que agora era a sede do Fascio. Nem se apercebe o que fez: roubou a casa do fascismo local e entretanto, como um rasto de loucura, rouba todas as chaves que encontra enchendo os bolsos que chocalhavam ao som do bater das botas. Entretanto os refugiados aumentavam de dia para dia sem saber o seu fim, o seu destino, homens do campo e da cidade velha que morrem de fadiga ou porque nada mais lhes resta para viver.

A mais inquietante frase do livro está aqui para todos lerem: «Ao ouvir este relatos, a minha mãe dizia já não reconhecer o rosto familiar do nosso povo; e não sabíamos chegar a outra conclusão senão esta: que para o soldado cada terra conquistada era inimiga, até a sua. (pág.42)»

A tradução é de Leonor Reis Sousa.

segunda-feira, abril 18, 2022

« A Retirada dos Dez Mil », de Xenofonte. Tradução do latim e versão de Aquilino Ribeiro, prefácio de Mário de Carvalho

 

Não gostaria que encontrassem nesta ficha de leitura algum tipo de insolência intelectual, mas é minha convicção, cada vez mais séria, que a consulta dos clássicos nos ensina muita coisa, principalmente as causas das boas e más excentricidades humanas e mesmo dos povos. Esta edição da «Anábase» de Xenofonte (para os cépticos será um pseudo, mas é deixá-los dizer, até para dar um ar de sabedoria de copo de branco fresco na mão) é enriquecida com um prefácio de Mário de Carvalho e uma introdução do próprio Aquilino que também o traduziu a partir do latim e versou-o para a língua portuguesa. Já lá vamos. A própria tradução do título faz com que Aquilino nos tenha prevenido da sua infidelidade, mas a verdade é que fica assim muito melhor. Um dos grandes autores do século XX português, segundo as palavras certas de Mário de Carvalho que nos descreve tão bem o sentir grego, do soldado que vota, plebiscita, mata, fere, escraviza, rouba, pilha, até ao comandante e capitães que só decidem depois do plano seja votado pela turba livre de vontades, mas que, ao tomá-la (a decisão) todos lhe seguem sem pestanejar. O grego ama a liberdade, os seus deuses, a quem oferecem inúmeros holocaustos e hecatombes, as suas superstições escondidas nas entranhas dos animais sacrificados, as suas polis. A escrita de Mário de Carvalho leva-nos a perceber este ardor pela vida e também o seu desprezo pela morte justa.

Aquilino Ribeiro, está em Paris em 1938, na Rive-Gauche, supõe-se na gandaia (para usar um termo dele) e a escrever muito, a debater ideias. Conhece M.Tournier, orleanista, católico fervoroso, vive pobremente, de uma cultura enorme. É ele que, após um refrega em que Tournier se encontrava e por ter dado uma paulada a um tipo que o importunava, levou Aquilino a dar um enxurro de porrada ao desgraçado que teve a ousadia de responder com um murro a Tournier. Este, dias mais tarde, oferece-lhe «Anábase» que, segundo as palavras do mestre português é uma «deliciosa, de linfa pura e estreme, colhida com discutível escrúpulo pelas mãos de mil e um tradutores.» A edição que Tournier lhe deu foi uma tradução latina de Joannes Leunclavius, tendo sido comprada por «cinquante sous».

«A Retirada dos Dez Mil», de Xenofonte, tem lugar após a guerra de 29 anos do Peloponeso entre Atenas e Esparta, com a vitória desta última e a decadência gradual da imperialista Atenas, que erradamente se embrenhou na Liga de Delos que exerceu um abusivo domínio sobre outras polis. Milhares de soldados encontravam-se desempregados e sabendo somente guerrear deu-lhes para aceitar um projecto manhoso do sátrapa persa da Lídia, o famoso até hoje Ciro. Manhoso, porque não disse de início ao que ia. O seu projecto megalómano era retirar o rítulo de imperador ao seu irmão Artaxerxes II, no centro da Pérsia, e levando milhares de mercenários e soldados gregos ao engano. É evidente que a sua glória caiu por terra. Venceu a batalha contra o irmão, mas pereceu.

O que ficou para a História, não foi Ciro, foi a retirada de 10 mil soldados gregos de volta à Grécia, às suas pólis, em grande parte sob o comando de Xenofonte, amigo de Sócrates. Esta retirada, maravilhosamente contada por Aquilino, está nos anais das principais escolas militares como sendo uma das mais bem sucedidas do mundo. Outras há, como a retirada de Massena, na 3ª invasão francesa (nos 200 anos desta efeméride não foi utilizado, por Portugal, o termo «invasões», mas sim de «guerras peninsulares» o que hoje não deixa de ser irónico para bom entendedor), ou como as retiradas, bem mais atabalhoadas e cobardes, de Napoleão e Hitler na Rússia. E já que estamos a falar de retiradas marciais, penso que West Point não estudou bem as lições de Xenofonte aos seus pupilos, já que nos lembramos bem das fugas americanas no Vietname, na Somália ou, agora, no Afeganistão. Mas qual o verdadeiro interesse de ler uma retirada clássica como esta? Porque em época de guerra, como a de hoje, uma pessoa honesta compreende o que está na base de um enorme conflito: a guerra deverá sempre ser evitada. Xenofonte prefere, com os seus soldados, a negociação, a alimentação e a manter a vida deles ao ímpeto destruidor de um avanço sangrento. Só opta pela guerra, pela pilhagem ou pelo castigo pela escravidão, quando a hostilidade dos vários povos por onde passam até ao Ponto Euxino e depois ao Bósforo não consegue ser ultrapassada. E mesmo no mar, muitas vezes recorreu à pirataria. Os limites humanos estão sempre postos à prova e nessas condições as prédicas (os gregos amam a palavra), em busca da liberdade e de justiça, por parte de Xenofonte aos seus capitães, aos soldados e aos pensamentos para si próprio fazem parte de uma verdadeira tragédia ou epopeia comparada à Ilíada e, desconfio eu, superior à Odisseia. E foi assim em quinze meses, em avanço e retirada, percorridas mil cento e cinquenta e cinco parasangas (cada, 5,520m). Contei 25 povos em cujos territórios os gregos atravessaram, não sem que houvesse igualmente mudanças políticas ao nível do poder. O povo esse, continuava a pagar tributos a quem quer que fosse.

quinta-feira, abril 07, 2022

« A Rapariga já não gosta de brincar », Filipa Leal

 

Uma interessante experiência em que não está ausente o confinamento obrigatório que se iniciou em 2020. Creio que a Filipa Leal se divertiu neste exercício tão paciente como solitário. A colagem, matéria cara aos surrealistas e ao acaso, às matérias esquisitas e intrigantes em jogos de mesas de pé de galo como diria o nomeado Cesariny neste livro. Igualmente uma referência bonita a Perfecto E. Cuadrado e ao seu «A Única Real Tradição Viva» que guardo em casa e que me serviu para a minha segunda exposição «Abjectos Surreais». Mas a Filipa explica tudo no início, na introdução. 

A língua portuguesa é traiçoeira, como todos sabemos. Um estrangeiro (essa figura sempre mais contemporânea que nós, o que nos elogia) não compreende na nossa língua a dupla negativa que passa a ser afirmativa e a dupla afirmativa que quer ser negativa. «Não! Não! Queres lá ver!...». Assim é o título deste livro. É de uma grande duplicidade que nos instiga a perceber se primeiro vem o poema, se as palavras encontradas em colagens aqui e ali, à boa maneira surrealista; ou as duas. Mas saiu tão bem, que dá gosto tê-lo sempre consigo e perscrutar de onde surgiu aquele encadeamento tão lógico, como aparentemente absurdo. 

A publicação é da responsabilidade da «Não Edições» e a tiragem é de somente 160 exemplares. Eu já tenho o meu que encomendei pela Snob. Façam o mesmo e não se arrependem.

terça-feira, abril 05, 2022

« O Novo Niilismo », Peter Lamborn Wilson

 

Barco Bêbado, 2022
Com tradução e notas de Joana Jacinto, ensaio visual de Vasco Barata e edição sob a responsabilidade de Emanuel Cameira, mais um interessante livro da Barco Bêbado. Desta vez, «O Novo Niilismo» de Peter Lamborn Wilson, ou Hakim Bey, nome que também utiliza nas suas publicações. Não sendo completamente desconhecido, visto que já se tinha publicado as suas «Utopias Piratas» na Deriva e com publicações avulsas em jornais e revistas anarquistas e libertárias. Tenho para mim, que sou um leitor pró-compulsivo, que quando adquiro um livro é com variados objectivos que não vou agora enumerá-los; este, obriga-me a pensar e perguntar-vos se a catástrofe anunciada já se iniciou há anos e estamos ainda na fase da pré-história do desastre. Portanto, não deixa de ter sentido uma forma de neo-niilismo que nos leve a uma forma radical de actuação social apontando os seus culpados e construindo alternativas nómadas e temporárias.

Este livrinho parece, contudo, um desabafo em forma de manifesto que Peter Lamborn Wilson não esconde no seu início; logo depois, coloca toda a esquerda (e mesmo os próprios libertários) e as suas práticas políticas e sociais em causa. O desânimo e o desinteresse sobre todas as todas as coisas levou muita gente boa a afastar-se do activismo que se consubstanciou, por exemplo, no movimento Occupy. Num mundo cuja catástrofe já se iniciou e que se vai agravar cada dia que passa propõe-nos três caminhos alternativos, enfatizando a criação de TAZ (acrónimo de Temporary Autonomous Zones) que são, com algumas pequenas diferenças, as ZAD europeias que têm tido algum êxito no combate à prepotência do Estado, mais concretamente o do francês.

Também o neo-primitivismo de Paul Goodman, entre outros, é colocado em destaque, desencadeando interesse no debate em torno da questão do survivalismo que Wilson realça. O neo-niilismo reside precisamente nas possibilidades reais de sobreviver ao caos que se instala e que o capitalismo espoletou. Um livro importante que pode ser uma alavanca de debates em espaços alternativos. Seria bom que o discutíssemos colectivamente.

« O Logro da Arte Contemporânea », Gianfranco Sanguinetti

 

Barco Bêbado, 2022
Gianfranco Sanguinetti, activista e pensador situacionista foi já publicado em Portugal, pela Antígona que publicou o oportuno (estávamos a sair dos anos de chumbo na Europa) «Do terrorismo e do estado» e pelos seus textos na revista da IS dispersos e co-assinados com Debord, entre outros. 

Aliás, o que faz um livro útil é exactamente a sua oportunidade e este livrinho da Barco Bêbado cumpre esse papel. «O Logro da Arte Contemporânea» foi publicado originalmente em Abril de 2021, na Itália e o título que lhe deu forma diz ao que vem. Com base nas teorias sobre arte e de um panfleto de Pablo Echaurren que denuncia a arte contemporânea como mero produto mercantil (D-M-D) em que D é o dinheiro e M, mercadoria, Sanguinetti define esse mesmo logro como um «fazer crer aos contemporâneos que a arte é aquilo que hoje se vem apresentando enquanto tal.» e continua: «E, como a contemporaneidade dá, e tem dado, repetidas vezes, prova de ser essencialmente uma tola crédula, além de ignorante, pode pôr-se-lhe à mesa, todos os dias, mil alimentos falsificados, rotulados como ''arte'', de que ela se alimentará sem nunca protestar, assim como não protesta contra a neo-comida que se vende em todos os supermercados.»

Para os urbanistas entusiastas das cidades modernas, Sanguinetti dedica-lhes um pequeno capítulo «A Cidade infeliz» onde vê magnetizada essa enorme infelicidade quer nos transportes públicos, quer na taxa de suicídios que sobe cada vez mais e avisadamente escondida; nessas cidades infelizes cresce a violência, a corrupção, a proibição contínua sobre o indivíduo e as liberdades. O autor questiona o que faz a arte sobre isto: «Sobretudo, dá a impressão de [a arte] não querer correr riscos; torna-se assim numa presença que se quer tranquilizadora: tem medo de meter medo. (...) Contenta-se em ser uma arte triste e vil, como de facto é: é, pois, normal que seja infundida daquilo a que Espinosa chamava as paixões tristes, como a do dinheiro.»

Em «Felizes Excepções» e depois de nos apresentar algumas experiências alternativas e de rejeição ao estado e à arte «conceptual» (Sanguinetti, atrás explica como aparece esta noção de conceito ligada à arte, o que é mais um logro), levanta o véu de uma verdadeira arte de revolta de insubmissão ao mesmo tempo que nos apresenta alternativas a seguir: «(...)Estes artistas de facto criam situações conflituantes, provocatórias e verdadeiramente escandalosas, que põem à prova as contradições do espectáculo, a frigidez e a imunidade do público, a solidez das instituições, com a crueldade do détournement pós-situacionista, a impostura subs«versiva, a usurpação da identidade e das prerrogativas do poder, e de uma centena de outros modos.»

Não deixem escapar este livro até por que a sua tiragem é de somente 300 exemplares. Pode adquirir-se pela Livraria Snob, como eu fiz.
A tradução é de Ana Isabel Soares.


sábado, abril 02, 2022

«Pirilampos», Ricardo Gil Soeiro

 


Tive a sorte de ter editado, na Deriva, Bartlebys Reunidos e Palimpsesto com Ricardo Gil Soeiro. Para além da amizade e a rápida empatia que senti como pessoa, percebemos, todos os que o leram, que se tratava de um poeta sólido, coerente e de uma enorme imaginação poética. Um cultor rigoroso da palavra e da emoção. O futuro vai dar razão aos que o vêem como um dos maiores poetas desta geração. Hoje, dia 2, em Lisboa, na Tantos Livros, pelas 17:00, vai ser a apresentação de «Pirilampos», o seu último livro com a chancela da Assírio. Grande contentamento, embora e infelizmente não possa estar presente. Mas convido-os a conhecerem-no.

O livro, esse já o tenho. Corri a comprá-lo e maravilhei-me com ele, como quando era um puto que, junto com o avô, no Verão e em Coimbra, ia para a Arregaça à noite procurar pirilampos. Trazia um ou dois para casa num copo e deixava-os na mesa de cabeceira da minha cama. No dia seguinte o meu avô libertava-os logo de manhã. Havia uma qualquer magia nesses insectos luminosos e que são percebidos nesta obra do Ricardo Gil, continuando com a sua prática palimpséstica de reescrita inovadora e estranha. Mas inteiramente maravilhosa. Hoje já não se encontram facilmente pirilampos e a sua leve alegoria à morte e à vida breve e inútil que temos assumem uma importância grande na leitura que fazemos dos seus poemas. 

«De mim só me lembro
de um segredo tuvo, 
sem culpa e sem enredos,
no poço sombrio da infância.
Suponho que existir é isto:
sucumbir, impiedosamente,
ao musgo podre da memória.
O lago deixando adivinhar o zumbido
de insectos que disputam, sem saberem,
o mudo brilho das estrelas.
(...)»
Pág.28

quarta-feira, março 30, 2022

« A Amiga Genial », Elena Ferrante

 

Relógio D'Água, 1ª ed. 2014, 10ª ed. 2022

Escrevo estas notas sem ter lido nada sobre Elena Ferrante. Sei que é um pseudónimo de alguém que não se quis identificar e que escreve torrencialmente e bem. Para mim isso basta. Não acredito que ter escondido o seu nome e recusado a dar qualquer entrevista (creio que até hoje) tenha sido uma montagem publicitária. Da sua editora não digo nada, mas dela não acredito, visto que descobrir quem era num mundo de vigilância capitalista era uma questão de tempo, o que tornava o exercício de Elena Ferrante completamente pueril. O que me leva a dizer isto? Basta ler o que escreve e como escreve. O modo desprendido, autobiográfico, frontal, quase brutal, com que nos conta as suas memórias não se enquadra numa pessoa sôfrega de popularidade e de dinheiro. E foi o dinheiro dos direitos de autor que estavam publicados no relatório de contas da editora que se descobriu, paradoxalmente, quem ela era.

Estamos nos finais dos anos 50 em Nápoles, numa cidade com feridas abertas da guerra e do fascismo, e onde duas miúdas crescem num bairro pobre, onde se cruzam proletários, pequenos comerciantes em busca de algum lugar ao sol numa Itália a sair da miséria e camorristas. Pode-se contar pelos dedos das mãos as vezes que Elena Ferrante, em todo o seu livro, recorre ao nome de Camorra, mas ela está lá, exerce o seu poder real, nas relações que estabelece com todo o bairro napolitano. De um modo ou de outro, as duas jovens Elena e Lina (Lila) desenham uma amizade que perdura em todo o livro. O que é estranho é que não existe na narrativa uma vontade férrea de sair do bairro onde se confrontam todos os tipos de violências. A ténue possibilidade de mobilidade social vem com a escola, ler, escrever, contar, conhecer línguas que permitam não propriamente fugir dali para fora, mas controlar o que há de mais podre nas relações sociais sempre tensas e prontas a explodir. Um dos trechos mais significativos do que acabei de escrever vem pela voz de Lila, em dialecto napolitano a uma invectiva de Elena (Lenù) para voltar ao estudo:

«(...) Tu ainda perdes tempo com essas coisas Lenù? Nós andamos a voar sobre uma bola de fogo. A parte que arrefeceu flutua sobre a lava. Nessa parte construímos edifícios, as pontes e as estradas. De tempos a tempos a lava sai do Vesúvio, ou então provoca um terremoto que destrói tudo. Há micróbios por todo o lado, que nos fazem adoecer e morrer. Há guerras. Há por aí uma miséria que nos torna a todos cruéis. A cada segundo pode acontecer qualquer coisa que nos faz sofrer de tal modo, que não há lágrimas que cheguem. E tu o que fazes?  Um curso de Teologia em que te esforças por compreender o que é o Espírito Santo?» Mais tarde Elena vai escrever uma dura discussão com o professor de Teologia que a expulsa da aula e cujo resumo escrito do acontecimento irá ser publicado por uma revista comunista de Nino Sarratore.

Mas o livro é muito mais do que isso, como é evidente. O próprio crescimento de duas jovens que querem ser livres e encontram caminhos barrados pela tradição napolitana e por múltiplas barreiras de índole social, intelectual e sexista é descrito de uma forma pouco experimentada em literatura. Isto porque o leitor intui a verdade, a realidade, que está por detrás dessas experiências muitas delas traumáticas. No fundo, acabando o livro, fechando-o e pensando quando se atreve a continuar a saga aberta por este «A Amiga Genial» poderá rever a sua própria experiência; a Nápoles de 1959, liberta da guerra e do fascismo não é assim tão diferente do Portugal desses anos que se preparava para uma longa guerra de 13 anos e que continuava com o fascismo caseirinho e mesquinho. Mas quotidianamente violento, sem dúvida. Sem camorra, mas com bufos, a Pide, a Legião e um machismo quase sempre brutal que emergia a todas as horas, em todos os lugares. Basta que a memória não nos traia e nos conduza aos anos 60, éramos nós ainda miúdos. E há coisas que não se esquecem nunca. Acabo com uma exclamação significativa de Lenù em diálogo com a sua antiga professora Oliviero:

«''Sabes o que é a plebe?'' ''Sim, professora.'' Naquele momento eu soube o que era a plebe, com muito mais precisão do que quando, anos antes, ela mo perguntava. A plebe éramos nós. A plebe era aquela que luta por comida e vinho, aquela altercação sobre quem é que devia ser servido primeiro e melhor, aquele chão sujo que os criados de mesa pisavam para a frente e para trás, aqueles brindes cada vez mais ordinários. A plebe era a minha mãe, que tinha bebido e agora estava encostada ao ombro do meu pai, que estava sério, e ria-se, de boca escancarada, das alusões sexuais do comerciante de metais.» 

sábado, março 26, 2022

Princípios básicos da «literatura» chegana





É um princípio meu desde que escrevo aqui e faço as minhas fichas de leitura que divulgo posteriormente no facebook não referir os livros de que não gosto. Adoptei esse critério e sinceramente tenho-me dado bem com ele. Mas há limites. E um deles foi um determinado livro que me veio parar às mãos. Não digo o nome da autora, nem o título da «obra». A editora é a BookBuilders que qualquer um pode editar, deduzindo que o «autor» paga antecipadamente a edição (o que não deve ser pouco). Imitando claramente as capas de outras editoras, o livro tem o mesmo estatuto, pelo menos nas estantes, de outras editoras ditas sérias ou, pelo menos, que procuram critérios mínimos de qualidade.

Não consegui ler o livro até ao fim. Deixo-vos alguns trechos. Isto pode levar-vos à acusação de descontextualização, mas acreditem que a contextualização é uma experiência muito pior, visto a qualidade é mais que sofrível. Partilhem comigo estes nacos:

A c*** da Aninhas:
«O Machado do primeiro direito sonhava muitas vezes com a c*** da Aninhas. De todas as c**** que conhecera na vida, a da Aninhas, talvez pela cor, um vermelho alanrajado a fazer lembrar as coralinas que cresciam no quintal dos seus avós galegos, e também pela extraordinária capacidade de se expandir, era a que recordava com mais saudades (...)». Não conto mais. Havia um colega meu no liceu, completamente tarado sexual, que descreveria melhor a genitália feminina do que a sua comparação com uma couve!

Os ciganos:
«Os ciganos são pontuais e exibem uma sofisticação vaidosa, camisas de cores florais, calças justas, mocassins de pele falsa, cabelos penteados com gel. Compram cigarros, batatas fritas, as tabletes de chocolate mais caras. Nunca respeitam a fila que se forma para pagamento dos produtos da loja. Olham com superioridade os restantes clientes da bomba de gasolina, ninguém se atreve a chamá-los à atenção.» Não se compreende o facto de comprarem as tabletes de chocolate mais caras. Isso é que não!

Os deficientes:
«Há também o casal que tem o filho deficiente. Não é maluquinho como o maluquinho das rotundas, é apenas um pouco atrasado. Habitualmente sentam-se na mesa junto do escaparate com os livrinhos da fundação. (...) [o rapaz] bate palmas [diante de um pastel de nata], saboreia com gosto, fica à espera de mais. Como um cão que aguarda os restos da refeição do dono.»

O racismo:
«O primeiro [amante da Aninhas] chamava-se Augusto. Pintava paisagens marítimas e plantava chalotas, favas e ervilhas numa horta comunitária na colina de Chelas. Era um preto grande, descendente de Gungunhana, mas tinha uma pila muito pequena. Aninhas mal dava por ela.»

A Zona J:
«Quando estava em baixo, quando, no trabalho, não aguentava as lágrimas, quando só queria morrer e vocês já eram nascidos [os 3 filhos da «autora»], metia-me no carro e vinha até aqui, fazia o caminho num choro que me libertava. Depois observava as crianças do bairro, os velhos desdentados, as mulheres feias, e, sentindo a minha própria maldade, sossegava.» Eu diria como um cão que recebe a comida do dono!

O ódio aos subordinados:
«Ao princípio Aninhas [todas as personagens se chamam Aninhas o que é uma inovação literária de truz!] sentiu-se embaraçada por ter quem trabalhasse sob a sua supervisão. Nunca mandara em quem quer que fosse. Descendia de uma linha de antepassados assalariados, a pobreza vinha de longe, uma genealogia de trabalho mal pago. como podia quebrar essa linhagem de servilismo? Que autoridade tinha para se fazer obedecer? A estranheza foi passageira. Quando a empregada tocou à campainha pela manhã, Aninhas sentiu uma alegria semelhante à de uma criança que se prepara para brincar ao faz de conta. (...) Preparava-se pela primeira vez na vida de mandar!» Ah! Lá se foi a genealogia do servilismo!

O passeio pela Almirante Reis contra a ralé do piorio:
«Depois, confesso, há outta coisa que me conforta. O João Pedro é completamente normal. Eu também. Quando passamos pela avenida toda a gente nos olha. Somos um par insólito. Roubamos o protagonismo das putas, dos bêbados, dos chulos, dos travestis e dos heroinómanos. E isso enche-me de orgulho.» Continua normal, Aninhas, tu e o João Pedro. Fazem um belo par de anormais completamente normais!

O amor pelas crianças loiras:
«Quando nasceu o primeiro filho houve logo quem duvidasse da sua fidelidade ao marido. É que o marido era ainda mais feio do que ela. Como podia aquela mulher dar à luz uma criança de cachos loiros, com a pele pálida, acetinada, macia, os olhos claros, a fazer lembrar a abóbada celeste nas tardes de Verão? O filho não podia ser seu marido.» 

Não consegui ler mais que as primeiras 55 páginas de 200 que são o que são por este breve passeio do que se faz de melhor na «literatura» chegana. A «autora» diz-se jurista. 


sexta-feira, março 25, 2022

«Villa Juliana», de Rui Ângelo Araújo

 

Língua Morta, 2021
Uma surpresa de um autor que desconhecia por completo. Embora este seja o seu quarto livro, não sendo portanto uma estreia, apresenta uma escrita muito sólida e uma narrativa bem estruturada, que nos prende à leitura. Os seus livros anteriores foram «Os Idiotas» de 2013, editado pela Lado Esquerdo e «A Origem do Ódio - Crónica de um Retiro Sentimental» de 2015, também publicado pela Língua Morta. Em 2017, a Companhia das Ilhas editou «Hotel do Norte».

Este «Villa Juliana» é um livro de viagem mapeado por périplos ao passado, que se entronca com várias personagens e que se cruzam, por vezes, em decadências e idiossincrasias várias. O que mais me chamou a atenção na leitura de «Villa Juliana» é a verossimilhança das pessoas que povoam o livro, dividido em quatro realidades diferentes, mas onde é possível verificar uma ligação quase íntima connosco ou com alguém que conhecemos em situações idênticas. O surrealismo e o non-sense de certos actos e vivências que lemos só pode ser real, bem conhecidos e vividos por Rui Ângelo Araújo, partindo do princípio que a realidade ultrapassa em muito a ficção. Passar isso para literatura de qualidade não é fácil. 

A ambivalência entre a cidade e o campo, a desestruturação familiar de uma mulher que envelhece, a pista de um poster já antigo de lingerie numa loja decrépita num casco histórico de uma qualquer cidade, o (re)encontro com amigos passados os anos de juventude new age de drogas e álcool que povoou o final dos anos 80 e o início dos 90 (o autor nasceu em 1968), os suicídios, as impossibilidades sociais, o isolamento, quase tudo é descrito neste livro. 

Não sei se a Villa Juliana é uma metáfora de Portugal; uma casa isolada, integrada num ambiente bucólico face a um lago, perto de uma cidade onde a separação de classes era (é) uma realidade bem conhecida, passados largos anos passa a ser um resort, uma espécie de hotel onde uma mulher, Juliana, que viveu ali a sua infância e adolescência é assombrada como se fosse mais uma cliente pagante de um quarto que foi seu. E também pelo seu passado. Se não é isto o Portugal de hoje onde tudo se paga, inclusive a velha aristocracia (que tem vergonha de o ser) representada por Rodrigo, onde um solar decrépito tem a sua porta aberta (para quem, para quê?) e que hesita na sua queda e degenerescência, até como filho ilegítimo embora único herdeiro, então Portugal o que é? Talvez a mesma decrepitude.

Um livro que me leva a procurar os outros do mesmo autor.


António Luís Catarino

GRAZIA TANTA: A NATO na senda de Hitler – Drang nach Osten

GRAZIA TANTA: A NATO na senda de Hitler – Drang nach Osten: A actual fascização dos poderes, brota, sob formas descuidadas e enganosas, de uma “informação” que se propaga, com superficialidades ou men...

terça-feira, março 22, 2022

«Comboios rigorosamente vigiados», de Bohumil Hrabal, ou de como se hipnotiza um tanque em movimento

 

Antígona, 2022
«(...) O meu avô não degenerou, saiu ao bisavô Lukás, era hipnotizador e trabalhava em pequenos circos, e toda a cidade via no seu hipnotismo a prova de que ele queria era passar a vida a mandriar. Mas em Março, quando os alemães atravessaram a nossa fronteira para ocupar todo o país e avançavam em direcção a Praga, o meu avô foi o único a ir ao encontro deles, o único a enfrentar os alemães como hipnotizador, para impedir, com a força do pensamento, que os tanques prosseguissem. O meu avô foi andando estrada fora com os olhos fixos no primeiro tanque, que encabeçava a guarda avançada daquelas tropas motorizadas. (págs. 10/11)». É evidente que o avô foi de imediato morto pelo soldado SS que comandava a coluna e as lagartas do tanque estraçalharam-lhe tão completamente que o desgraçado do neto Milós lá teve de ir pedir a cabeça do avô separada do corpo e enterrá-lo como um bom cristão.

Este livro de Bohumil Hrabal é um libelo contra a brutalidade da guerra, do seu não sentido, do horror que se lhe cola à pele, ao mesmo tempo que nos mostra a humanidade dos que a rodeiam e que vão aparecendo num cais de uma estação ferroviária checoslovaca ocupada pelos alemães; estes lutam na frente russa e os seus comboios, «rigorosamente vigiados», levam munições para a frente que se aproxima de Berlim, recuando pelo avanço dos russos. A personagem principal, Milós, morre sabotando com êxito um destes comboios, em luta com um soldado alemão que também encontra a morte. Aí está todo o horror da guerra: dois indivíduos que «num qualquer bar, em qualquer sítio» poderiam simpatizar um com o outro e beber uns copos, ferem-se aos tiros para acelerar a vinda da morte e acabar com o sofrimento lento que se vai apoderando deles. Pode parecer uma história demasiado linear, mas o autor é um dos que, poupando nos adjectivos e sendo parco nas palavras, consegue dar-nos uma visão pormenorizada, também apelando subtilmente à nossa intuição, das personagens que se movem naquela estação. E isso faz toda a diferença. Bohumil Hrabal é um escritor excepcional.

As sátiras de Bohumil Hrabal (1914-1997) já não são novas para nós. Já aqui foi referido no seu livro «Uma Solidão demasiado ruidosa» e na peça de teatro a que assisti no Porto pela Seiva Trupe «Eu, que servi o Rei de Inglaterra». Delas fui registando as minhas impressões. Positivas.

sexta-feira, março 18, 2022

«Memórias da Plantação - Episódios de Racismo Quotidiano», de Grada Kilomba

 

Memórias da Plantação é uma edição da Orfeu Negro, 3ª edição de 2022

A 1ª edição deste livro é de 2019 e já vai na 3ª. Não me quero referir ao episódio já tristemente célebre da votação de um membro de um júri que a impediu que um seu trabalho pudesse estar presente num festival de cinema europeu, ou da entrevista ao Expresso que não li e cuja fotografia de capa onde figurava a foto exposta aqui de Grada Kilomba tenha sido truncada. Quer o caso da votação de um júri, quer essa foto truncada do Expresso só vieram dar razão a Grada Kilomba e à sua tese de doutoramento da Universidade de Berlim, cidade onde vive, sobre o racismo quotidiano.

Todo o pensamento radical é um pensamento útil. A inutilidade do pensamento mainstream, do «nem sim, nem não», do metafórico ou do pensamento moderado tende a morrer por si, a desaparecer rapidamente na voragem das sociedades dinâmicas. Esta é uma razão das crises das sociedades actuais no Ocidente e também no arrastar da (in)consciência racista que predomina na branquitude europeia.

Grada Kilomba tem já uma carreira sólida: trabalhos expostos nas Bienais de S.Paulo e de Berlim, na Documenta 14, no MAAT e na Gulbenkian, é igualmente professora na Universidade de Berlim onde se doutorou cum laude e no Departamento de Género da Humboldt Universität. Este livro creio que é uma adaptação da sua tese de doutoramento e baseia-se muito nos trabalhos de Frantz Fanon, bell hooks, Freud ou May Ayim, entre outros/as, mas que não lhe retira minimamente a sua original radicalidade e rigor conceptual.

Depois de apresentar-nos exemplos da linguagem como instrumento de poder, quer no caso do racismo, quer do género que, aliás, não separa, recorda-nos que o racismo do século XXI é bem diferente do racismo brutal e mais visível do século XIX e XX. Hoje, o racismo liquefez-se, torna-se escondido em palavras e atitudes aparentemente neutras. A desmontagem do racismo quotidiano é feito não só por Grada Kilomba, mas igualmente por entrevistas a Katlheen e a Alicia (nomes fictícios) de mulheres racializadas na Alemanha, sendo que a primeira é natural dos EUA e a segunda filha adoptiva de uma família branca.

Na pág. 39, Grada Kilomba abre o difícil jogo oculto do racismo através da psicanálise e citando Frantz Fanon: «(...) Os psicanalistas dizem que não há nada mais traumatizante para a criança do que o contacto com o racional. Pessoalmente, direi que, para um homem que só tem como arma a razão, não há nada mais neurótico do que o contacto com o irracional.» A autora, mais à frente, recorre ao étimo grego da palavra trauma como sendo uma ferida, um corte profundo na pele, que chega a ser dor física que aliás uma das entrevistadas disse sentir num episódio de racismo «leve» que experimentou na família branca e que a adoptou. Daí, na pág.44, Grada Kilomba propor ao indivíduo branco/a o seguinte: «Em vez de formular a habitual pergunta moral ''sou racista?'' e ficar à espera de uma resposta confortável, o sujeito branco deve antes perguntar ''como posso desmontar os meus próprios racismos?'', pois é a interrogação em si mesma que dá início ao processo.»

Esse processo terá de ser interiorizado pelo homem branco como factor, por vezes inconsciente, outras mais que consciente, das atitudes racistas para com pessoas racializadas principalmente as africanas (e mais à frente Grada Kilomba explica o porquê este ódio pelo africano, em vez do indiano ou do ameríndio do norte, por exemplo). Em «Pode a subalterna falar?» baseada na questão colocada por Gayatri C. Spivak (num livro também editado pela Orfeu Negro), a autora responde, tal como Spivak, com um rotundo «Não!». E mais adiante conclui retirando do exemplo académico: «Não é que não tenhamos falado, mas antes que as nossas vozes - por intermédio de um sistema de racismo - têm sido sistematicamente desqualificadas como conhecimento inválido; ou então têm sido representadas por pessoas brancas que, ironicamente, se tornam ''peritas'' em nós mesmas. Seja como for, fomos aprisionadas a uma ordem colonial violenta. Nesse sentido, a academia não é um espaço neutro nem mero espaço de conhecimento e sabedoria, de ciência e saber, é também espaço de v-i-o-l-ê-n-c-i-a.» 

Onde está a radicalidade do livro de Grada Kilomba? Começa pela própria definição do racismo de hoje. Resumindo, a autora caracteriza o racismo em três vertentes: 1) vê-o na construção da diferença. O/a negro/a é diferente, estabelecendo essa norma o branco. 2) Essas diferenças são constituídas em valores hierárquicos sendo construída e articulada «pelo estigma, pelo opóbrio e pela inferioridade.» Assim, o/a racializado/a é visto como «problemático, difícil, perigoso, preguiçoso, exótico, colorido ou incomum.» Esta construção da diferença produz o preconceito que se afirma de várias maneiras na sociedade ocidental, na chamada «Europa Fortaleza»; e essa fortaleza não se construiu por acaso; trata-se de recompor um espaço colonial perdido, substituindo-o pela expulsão do sujeito negro. 3) Todos estes processos são acompanhados pelo poder histórico, político, social e económico que consolidam a supremacia branca sobre o negro. E também pelo poder linguístico.

Surge então o que Grada Kilomba chama de «racismo quotidiano» que se revela pelo vocabulário, discursos, imagens, gestos, acções e olhares que posicionam o sujeito negro e as «pessoas racializadas não apenas como ''outras/os'' - a diferença contra a qual se mede o sujeito branco -, mas também como alteridade, ou seja, a personificação dos aspectos reprimidos pela sociedade branca.» Neste aspecto, o sujeito negro está reflectido em itens claramente racistas como a infantilização, a primitivização, a descivilização, a animalização e, inclusive, a erotização.

Grada Kilomba estabelece um debate sobre o género algo polémico, mas a quem não me custa dar-lhe a razão, principalmente pela coerência com que aponta o feminismo negro diferente do feminismo branco, adiantando que uma mulher negra tem não só de lutar contra o racismo, como igualmente pela condição de mulher livre e contra os estigmas com que são atingidas diariamente.

Não deixa de ser sintomático que um país cujo império colonial com todas as suas arbitrariedades, violências e atrocidades e que foi o último a cair, em 1974, ainda se rogue no direito de dizer que não é racista. E não é só a extrema-direita portuguesa que o diz, o que não deixa de ser um contrassenso vindo de quem vem. É comum dizer-se o mesmo sabendo, conscientemente, que é mentira. A questão das estátuas colonizadoras que povoam as nossas ruas e que foram alvo de tentativas de destruição originando uma onda de repúdio caseirinho são disso exemplo, mas igualmente pelo racismo cultural que se apodera das escolas e universidades impondo um qualquer direito à diferença que não é mais do que a imposição de uma lógica colonial branca de que não conseguimos sair. Provavelmente, faremos a catarse do nosso colonialismo interior e quotidiano tarde demais. 

Um livro obrigatório.

António Luís Catarino



domingo, março 13, 2022

«Poemas em Prosa», de Stéphane Mallarmé

 

Assírio & Alvim, fev. 2022, Tradução de Diogo Paiva
Estes poemas pertencem à primeira parte de Divagações, datado de 1897. Mallarmé tem o condão de se divorciar por inteiro do objecto dos pequenos poemas em prosa e dá-nos indicações imprecisas sobre a situação concreta em que se desenrola um acontecimento; cabe por isso ao leitor deixar-se levar pelas palavras encadeadas e flutuantes, como Mallarmé o faz de modo tão desconcertante como hipnótico. Livrinho imprescindível que tem um segredo: se o lermos repetidamente, sem grandes barreiras temporais, o poema que lemos antes já é um outro, as sensações são diferentes de poema para poema. Poesia viva, portanto. Reparem, como se inicia o poema «Fenómeno Futuro»:

«Um céu pálido, sobre o mundo que acaba em decrepitude, vai talvez partir com as nuvens: os farrapos da púrpura gasta dos poentes  destingem-se num rio dormente no horizonte submerso em raios e água. As árvores entediam-se, e, sob a sua folhagem embranquecida (mais da poeira do tempo do que daquela dos caminhos), ergue-se a casa de lona do Mostrador de Coisas Passadas: numerosos candeeiros aguardam o crepúsculo e reavivam os rostos de uma desgraçada multidão, vencida pela doença imortal e pelo pecado dos séculos, de homens acompanhados pelas suas definhadas cúmplices, grávidas de frutos miseráveis com os quais perecerá a terra. (...)» (pág.7) 

E em «Lamento de Outono»:
«(...) Assim, durante o ano, a minha estação preferida é a dos derradeiros dias enlanguescidos do Verão, que precedem imediatamente o Outono, e, durante o dia, a hora em que passeio é quando o Sol se torna a pôr, antes de se sumir, com raios de cobre amarelo nas paredes cinzentas e de cobre vermelho nas vidraças. Do mesmo modo, a literatura à qual o meu espírito pede uma volúpia será a poesia agonizante dos derradeiros momentos de Roma, contanto não respire de modo algum a chegada rejuvenescente dos Bárbaros e não balbucie o latim infantil das primeiras prosas cristãs.» (pág.9)

António Luís Catarino


quinta-feira, março 10, 2022

«Pan», de Knut Hamsun

 

Knut Hamsun
Knut Hamsun (1859-1952) foi um nazi norueguês que apoiou a invasão alemã ao seu país. Isto é importante? É. Não me custa nada dizer que é um bom escritor, mas não consigo deixar de pensar que é um traste humano. Também é um prémio Nobel atribuído logo em 1920. Em 1945 retiraram-lhe tudo e expropriaram os seus bens tendo morrido louco e na miséria num lar de idosos. Bem feito? É-me indiferente, só não o sendo completamente, porque gostaria de saber se esse pecúlio foi para as mãos dos resistentes noruegueses ao domínio nazi. Espero que sim. No entanto, não posso deixar de pensar em Ezra Pound, Céline, Carl Schmit (sim, escreveu um livro para a sua querida netinha), D'Annunzio, Mishima e tantos outros que se deixaram levar pela vergonha totalitária. Mas eram bons escritores.

Dito isto, a obra não pode ser separada do homem que a escreveu. Knut Hamsun é um panteísta que chama por vezes por Deus e a sua personagem em «Pan», Tenente Thomas Glahn,  vive na natureza, numa cabana do Norte da Noruega, longe de tudo e de todos, mas perto de uma pequena cidade - Sirilund. Não vou descrever as personagens que lhe caem no caminho, mas é evidente o carácter brutal que Hamsun imprime a Glahn. Se iniciamos a leitura de «Pan» lembrando-nos de «Walden», depressa reparamos que nada terá a ver com Thoreau ou William Morris. Glahn mata e caça por prazer. Para alimentar-se, mas mata igualmente para recordar-nos a supremacia sobre a natureza e os animais. E essa supremacia aumenta quando está com mulheres que ou são submissas perante ele, meros objectos de prazer, ou se lhe resistem, fere-se a si próprio com um tiro num pé, mata o seu próprio cão, Esopo, enviando o cadáver à que o rejeitou, vinga-se constantemente de outros que considera rivais e mostra sempre a sua força bruta perante eles (por acaso ? um médico, um grande comerciante, um barão e um cientista), mata uma mulher a quem mostrou um amor fugaz sem querer, através de uma derrocada de pedras sobre um barco que afunda. Foge para a Índia tamil e aí terá a oportunidade de mostrar mais uma vez a força perante uma natureza ainda mais selvagem: mata leopardos, panteras, aves de toda a espécie, quase perdoa um tigre que tinha «despedaçado e engolido uma criança», vive com uma tamil «mais linda que uma verdadeira branca» e, por fim, provoca a sua própria morte, atirando e falhando propositadamente um compatriota para que este respondesse. 

A editora, numa badana, escreveu que tinha sido inspiração de Gide, Hemingway, Thomas Mann, Fitzgerald, Kafka e, vejam bem, de Gorky! Tenho o direito de não acreditar. Mesmo que o considere um bom escritor.

Foi esta a vida de Glahn, envolta em violência constante, numa tensão permanente, numa revoada de morte e domínio brutal que nos é transmitida por Hamsun. Que a terra lhe seja leve.

Pan é uma edição da Cavalo de Ferro de 2010, sendo a 2ª edição de 2015.

terça-feira, março 08, 2022

«Nó», de Daniel Jonas

 

Não consigo imaginar alguém que goste de poesia e não tenha lido ainda Daniel Jonas. Este livro de sonetos rigorosos feito e de um sarcasmo muito particular, também nos atinge pela surpresa e desconcerto que produz. Não sei que «nó» é este com que Daniel Jonas nos prende, nem ouso sequer aventar hipóteses. Nunca o faço em poesia, porque não quero arriscar-me. Só a leitura me interessa e as emoções que produzem em mim. Logo, prevejo um nó de marinheiro de várias pontas onde sobressaem ventos poderosos que se ouvem em flautas de juncos, com a morte e os jogos de espelhos da vida e do amor, com o clássico pagão e o bíblico onde o erotismo está sempre presente. Deus está presente de um modo raro, em que Jonas joga com Jonas e com a baleia, tal como adiante com Job e Jacob, ou o coxo Hefesto que martela o ferro na ausência de Afrodite ou com Maria e Cristo:

DO VENTRE DA BALEIA ERGUI MEU GRITO:
Senhor! (Dizer teu nome só é bom),
Em fé, em fé o digo, mesmo com
Um coração pesado e contrito
Que és de tudo verdade e não mito,
O coração do amor, de todo o dom,
Conquanto seja raro o bem e o bom
E toda a luz aqui me falhe, és grito
Que chama toda a chama de esperança
E acorda a luz que resta à réstia eterna,
Conquanto viva o mártir na espelunca
Da vida (quem espera amiúde alcança)...:
Possa o nazireu preso na cisterna
Sofrer de ser só tarde mas não nunca.
(pág.9)

E com a toada lírica camoniana, Daniel Jonas apresenta-nos este interessantíssimo poema, de uma ironia tão fina como tão efémero é o amor:

SE NÃO TE AMAREM FINGE QUE NÃO AMAS
E se te amassem outro amariam:
E só a si, se bem que fingiriam
Amar-te e dar-te a ti o que reclamas.
Pois mesmo que te amassem mentiriam.
E se amam outro a si outrossim amam
E noutrem só a si mesmo reclamam,
Que amante e coisa amada se diriam...
(...)
(pág.14)

E se todas as orações fossem assim, como a que Daniel Jonas o faz, não sem algum sentido de pessoa perdida, sem ânimo, ou assaltado por uma euforia louca, que a faz tentar voltar ao colo, a um útero materno:

DEIXA-ME ESTAR AO PÉ DE TI, MEU DEUS,
Sem que te diga nada, sem que fale,
Apenas acoitar-me, e nisso cale
Intercessões, louvores, os meus eus.
Ensina-me a encostar-me, estou cansado;
Raiz que arrancaram e sublevam,
Qual planta em que vivo enxertado.
Deixei o ferro em brasa de rapaz
E um horizonte extenso de poentes
Ardendo, avivando o sangue aos rentes
Cadáveres do que fui sem sê-lo, atrás.
Da queda de onde vim as mãos me doem;
A queda de menino é erguer-se em homem.
(pág.34)

Um livro inesquecível em sonetos feito.

António Luís Catarino


terça-feira, março 01, 2022

Pietà, Miguel Ângelo e Rilke

 

A leitura existente no desenho foi o impulso para o fazer tal como se apresenta aqui. Existe nas páginas 67 e 68 da edição de Bolso da Minotauro de «História do Bom Deus e Outros Contos» de Rainer Maria Rilke. Já não é a primeira vez que o abordo. Aconteceu-me na exposição «Anjos do Desespero» onde pontificava um desenho meu que lhe era destinado e um poema com colagens. Hoje, encontra-se com a minha filha e está no catálogo com o mesmo nome da exposição que aconteceu em Maio de 2018.

Já o livro é do início da sua carreira, se assim se pode dizer, e destinam-se sobretudo a crianças ou era isso que Rilke julgava. A simplicidade, as histórias, as personagens são de uma grande leveza, mas pleno de metáforas que nos permitem variadas interpretações, embora o caminho da paz, do conhecimento, do saber e da amizade entre humanos e a sua relação com Deus, seja uma realidade. 

Rilke é inseparável.

quinta-feira, fevereiro 24, 2022

A guerra começou

Entre falcões do complexo militar-industrial americano e a clique autoritária de Putin, vemos a guerra estalar, hoje mesmo, face a uma Ucrânia que agora veste uma pele de cordeiro, fingindo-se de vítima, quando esta provocou a Rússia e os russos que vivem em Donetsk e Lubansk. Ninguém sai daqui incólume e a Nato é a provocadora principal. Convém lembrar que Moscovo está a 10 minutos de um ataque com mísseis que estão ao longo de toda a sua fronteira desde o Norte até à Ucrânia que entretanto entrou em negociações com a Nato para aderir a esta organização «defensiva» do Atlântico Norte!

Dias a fio li aqui no FB piadas sobre a guerra que quase toda a esquerda não acreditava acontecer. Só num comentário de um amigo é que avisei que a guerra era uma possibilidade tanto mais possível, quanto Putin nunca definiu claramente os seus objectivos. Nunca me pareceu que o fim de Putin fosse só as regiões russófonas da Ucrânia; quer, de um modo radical, acabar com as veleidades agressivas da Letónia, Estónia, Lituânia, Roménia, Polónia, Eslováquia e Hungria, entre outros países liberal-autoritários ou claramente fascistas. A esquerda parlamentar preferiu o gozo, a piada fácil, o oportunismo de descalçar as imbecilidades de um jornalismo mal-feito, mal documentado, anedótico. 

Hoje, com a guerra bem presente no leste europeu, quero ver que análises aí vêm agora. Descontando os desgraçados que morrem nos bombardeamentos, como se fossem danos colaterais, continuarão a tergiversar como até aqui, comparando situações de 1914 e 1938. A direita exulta exigindo da Nato uma resposta à altura, ou seja, a guerra que está no seu adn político e a esquerda parlamentar, quer queira ou não, está metida num colete de forças votando ao lado da direita contra Putin ou desculpando-o, o que será um verdadeiro suicídio.

segunda-feira, fevereiro 21, 2022

«Vulcânico PaLavrador - Uma elegia a António Aragão», de António Barros




Recebi este livro há pouco e tive o enorme prazer de o ler, mas igualmente de o «ver». Em pequenos pormenores perscruta-se a intervenção da imagem no texto tornando-o, segundo António Barros, um livro «obgesto» que inaugura uma invenção em que já não existe arte, mas «artitude», recusando o estafado projecto em «progesto» e negando coerentemente o epíteto de artista, para se ser um «artor». Dos quatro itens aqui expostos, condição essencial para a existência provocante do artor, seguem-se mais três mandamentos, ou seja, a negação do retratar pelo «transfigurar», não querer ser, mas transcender e finalmente (?) transformar o dizer em «di_ser» com toda uma conjugação verbal aleatória, mas onde, parece-me, o indivíduo é a peça central. A partir da vida vulcânica de Aragão que foi acompanhada de (muito) perto por Barros, este amigo apresenta-nos um fio de existência que reputo de comovente e quase impossível de relatar pela escrita, propondo-nos que só o cinema poderia apresentar-nos o depoimento possível. Quem já se atreveu a escrever sobre um íntimo sabe que essa dificuldade é real: «Aragão é, no meu lugar de memória, um cenário de vida que só o cinema conseguirá soletrar de forma capaz.
Em texto, aqui, em mera Nota clandestina, o testemunho é refém da escrita. Por isso, fico-me, na narrativa, por escassas farpas e encantos que convidam a uma tese. Tese tão longa como o desfalecer da ave baleada que não quer morrer na insularidade. Um ápice.» 

Vale a pena voltar às memórias de António Barros e sublinhar fortemente a tinta escura a sua artitude com Aragão: «Um dia recebi um telefonema. Era Aragão a pedir-me autorização para usar (numa entrevista para a TV Globo na Bienal de S.Paulo) o meu objeto-texto ''Ver_dade - IgnOrar''. Um par de óculos, achados no jardim da Quinta, intervencionados (B.7).
Percebi então que Aragão estava cúmplice com a minha escrita (de «situacionistas» palavras agarradas à coisa, como quem manda calhaus sobre a multidão). Eu tinha sido aceite na guerrilha. Tinha bandeira no templo. Poderia contraDizer-me. Restar humano. Como um poeta. E que estava só, portanto. Percebi.»

Sobre a lucidez, o sarcasmo e a provocação de um artor como António Aragão, António Barros retém o seu conselho:
«Não queira ser artista! Em Portugal não! Não queira! Repetiu-me Aragão tantas vezes. Tantas.
Um Amigo. Sabedor.»

Não sei se portugal, a cidade ou território que o valha, merecerá um «livro-obgesto» assim, ou mesmo poetas como Aragão e Barros. Mas a coerência e a provocação moram aqui. É que se a dita arte está doente, parada, bolorenta, especulativa e tudo, no entanto há quem se mova. Noutros caminhos, mas movem-se.

Penso que a aquisição do livro far-se-á com pedidos expressos ao autor. Por aqui.