Relógio D'Água, 2021. Tradução de Marta Mendonça.
Sally Rooney. É este o nome de uma jovem escritora irlandesa que foi cancelada pela sua editora inglesa, a Faber. Estou a ler, neste momento, o seu "Mundo Belo, onde Estás" editado em Portugal pela Relógio D'Água, onde tem outros títulos. Qual o seu crime para ser assim censurada? Apoiou abertamente o Palestine Action que, segundo o governo inglês, é uma organização terrorista e sem que por um momento se interrogue sobre o genocídio diário de palestinos perpetrado por Israel. Sally Rooney opôs-se, tomou partido. Foi o que bastou para recolherem os seus livros em Inglaterra. Tem 35 anos e vê assim a carreira diminuída, ou talvez não, se ainda houver pessoas que não se dobrem desta maneira. Não venho falar dos seus livros, que são extremamente interessantes pela dimensão humana, pela preocupação climática e civilizacional, pelo seu anticapitalismo. Subiu entretanto alguns degraus na minha consideração. Só espero que a sua editora portuguesa, a Relógio D'Água, repete-se, tenha em consideração estes factos e que a consiga proteger da censura e do cancelamento.
É notória a frontalidade que Sally Rooney nos oferece neste «Mundo Belo, onde Estás». As suas jovens personagens são acometidas por uma incomodidade, uma insatisfação que se pressente a cada diálogo ou em qualquer descrição narrativa. Essa postura marca todo o livro. Não que sejam pessoas egoístas, autocentradas ou egocêntricas, mas não se permitem serem infelizes quando tudo aponta para que sejam pessoas sós, isoladas socialmente. A comunicação é ela própria omnipresente através de computadores portáteis e telemóveis, mas quando existe uma presença física, parece que tudo desaba numa má onda, ou se eleva a um ambiente de euforia. Não há meio termo, tudo é envolvido numa espécie de vórtice que atrai as personagens para um abismo sentimental em jogos que podem magoar a sério. è a família que já não tem sentido, é o capitalismo que eleva o preço das casas de Dublin à estratosfera, são empregos de merda (para parafrasear David Graeber) mal pagos, ou empregos com ordenados de luxo e inúteis, são relações fictícias e tristes, expectativas de amor sentido e partilhado e a possibilidade do apocalipse que já se vai sentido num planeta doente e um capitalismo predatório. Acusam, e Sally Rooney di-lo sem complexos, que o seu estilo roça a obscenidade. Não creio que seja assim: o seu «Mundo Belo...» é cru, frontal, sem rodriguinhos e é isso que nos atrai. Por outro lado, não se vê que a profusão de diálogos em mensagens sms ou em email's diminua um estilo literário já de si muito interessante.
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