Relógio D'Água, [1ªed.1968] 2016. Tradução de Raquel Martins.
Um filme inesquecível de um Ridley Scott muito irregular no que toca à realização de bons filmes. De qualquer modo, «Blade Runner» impôs-se por si, pelo ambiente criado e pelas fortes personagens que lhe deram corpo. As últimas imagens do replicant Roy Baty perante o caçador de prémios Rick Deckart é de antologia do cinema, assim como a música de Vangelis que as acompanhavam. O livro «Será que os Andróides Sonham com Ovelhas Eléctricas?» (agora em português pré-AO90), produz aquele ambiente soturno, pesado, que o filme transforma em chuva contínua. O lixo acumulado, as cidades quase abandonadas perante uma população reduzida a um punhado de residentes em urbanizações vazias, a polícia toda poderosa assim como as grandes corporações de fabricantes de robots e andróides ou de animais eléctricos, falsos, são uma constante da ficção de Philip K. Dick. A guerra mundial terá destruído vastas regiões do planeta que era assolado por nuvens de pó radioactivo e que obrigou grande parte da população a emigrar para as colónias planetárias.
O que é interessante observar em «Será que os Andróides Sonham com Ovelhas Eléctricas?» é a dualidade de sentimentos que temos perante os replicants (traduzidos por Raquel Martins por ''andróides''); a tradução é muito boa, mas não traduziria o termo inglês de «replicant», porque tem duplo sentido de «réplica», como andróide, e replicante, que nos transporta para um indivíduo ou humanóide insubmisso ou insubordinado. Nesse sentido, seria muito capaz de deixar o termo replicant, sem tradução. Essa dualidade surge, sobretudo, porque o autor deixa-nos quase sempre na dúvida sobre a autodeterminação de um robot, sobre a vontade inata de um humanóide fabricado por humanos, assim como as leis de apartheid que são regidas numa sociedade em que há um controlo excessivo sobre as acções daqueles. São «retirados» pela polícia, através de uma caça impiedosa quando se rebelam. Numa sociedade artificial, em que tudo é clonado (até os animais e os homens e mulheres), não será difícil imaginarmos um totalitarismo em que os princípios de uma possível rebelião ou motim, ou uma simples dissidência, seria seriamente reprimida e castigada tratassem-se ou não de andróides ou de humanos.
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