quinta-feira, outubro 14, 2021

A desgraça de uma série na RTP2: Trotsky!

 

A série que neste momento passa na RTP2 sobre Trotsky tem o condão de desgraçar tudo em que toca. Por mim, estou mais ou menos de consciência tranquila: a seu devido tempo alertei para a carga ideológica que estava por detrás destas séries ditas de «qualidade» que endeusavam as famílias de capitais assegurados por heranças, como os Faber-Castell, os Burda, os Piaggio, os Ferrari, os...etc, etc., mas eis que surge Trotsky pela mão russa. Além da indigência da representação, desgraça logicamente a figura de Trotsky e chefe do Exército Vermelho como é o objectivo da série. Honra lhe seja feita, não o esconde. O homem é um assassino nato, um obcecado pela violência, um ambicioso sem escrúpulos, um disciplinador, mas igualmente um oportunista. A série desgraça Lenine, que sem bigode e pêra tem parecenças com Putin, homem de voz fria e sibilina, que suspende Trotsky num telhado pronto a esbarrondar-se cá em baixo se este não lhe obedecer! A série desgraça os social-democratas, a série desgraça Estaline que pobre diabo assalta carrinhas cheias de dinheiro não se sabe para quem, mas que se sabe não gostar de Trotsky porque este não o cumprimentou! Balha-me deus! A série desgraça a Revolução. A série desgraça o povo russo que é maltratado pelos revolucionários que dizem que o amam, mas que afinal o desprezam, e aceitam esse conluio como cordeiros que vão para o sacrifício final. A série desgraça a burguesia russa cocaínómana e só. A série desgraça os bolcheviques. A série desgraça as Internacionais. A série desgraça o cinema. A série é uma verdadeira bosta à medida de Putin! A série desgraça Freud com um suposto diálogo entre o psicanalista e o bolchevique completamente pueril, ridículo, inverosímil...«a revolução é desejo sexual», coisa em que concorda Trotsky, mas o psicanalista nota a contracção das suas pupilas quando este foi contrariado: ou seja, um assassino em série!! Por outro lado, Natalia Sverdovla, a mulher de Trotsky acha que, na primeira vez, ele foi rude com ela (estavam num comboio em andamento). Ele responde afoito: «a rudeza é necessária, quando queremos os outros felizes!». Vão à merda! Basta!

segunda-feira, outubro 11, 2021

Penúltimo Outono (3)

Estava cada vez pior. A vida, eu e a carestia. Marcelo apresentava um ricto estranho de desdém na televisão e eu também. Não tinha a boca ao lado, como ele, mas empenhava-me num sobrolho carregado e um esgar fatídico, daqueles que dão tudo para um único objectivo: ao contrário dele, a queda do fascismo. Este facilitava-nos a vida porque não dialogava com ninguém e a guerra continuava nas três frentes da porra africana em que o D. Henrique nos meteu 500 anos antes. Agora morríamos como tordos e perfilava-se a coragem derradeira pela pátria: a fuga para a frente, ou seja, literalmente e depressa para os Pirinéus! Claro que havia histórias horripilantes de gajos enregelados nos Picos da Europa e coisa e tal, alguns presos pela Guardia Civil, entregues à pide e lavados para Penamacor como desertores acompanhados de castigos terríveis em que os obrigavam a subir colinas com pipas de água às costas. Aliás, meio-cheios porque o balanço da carga forçava-os até ao limite da resistência humana. A porrada da pide naqueles tempos já não metia medo a ninguém. Agora era fugir porque já tinha 17 anos e em Novembro daria o meu nome na Junta de Freguesia da Sé Nova e o DRM chamava-me como ginjas. Vais para a tropa, que aqui é que se faz um homem, caraças. Ou queres ser maricas? Não me lembro o que respondia a estas invectivas filosóficas de alto coturno, mas não, não queria ser maricas, mas ser homem ao ponto de levar um tiro na testa, ou ficar ceguinho, ou sem uma perna, talvez o maricas fosse uma opção a considerar, já que os não queriam no exército, a bem dizer. Já na marinha e segundo um poema que eu tinha lido de Cesariny este axioma não era tão provável de ser demonstrado! Conheci um tipo que declarou ser homossexual sem o ser, o capitão do DRM ficou-lhe com o Bilhete de Identidade e, uns dias mais tarde, entregou-lho com «Homossexual» chapado nas «Indicações eventuais». A verdade é que o tipo se gabava às miúdas e elas achavam graça, pois.

Encontrei a Guida, pelas dezasseis horas no Tamoeiro, como sempre. Na Clepsidra não havia grandes coisas para fazer, a agitprop estava à espera de melhores dias e tinha algum tempo para abordar devagarinho o problema que eu e metade da minha turma tinha na cabeça e que fazia parte das nossas conversas, juntamente com as últimas edições de Lenine ou de Marx que vinham da Centelha e que eram vendidas na Clep. Gramsci e Rosa Luxemburgo ainda não era para nós e ouvíamos nomes nos universitários completamente estranhos como Kautsky, Trotsky, Plekhanov, ou Lefebvre...

Abordei a Guida com o que para mim era o chamado bom-senso que para um revolucionário era uma coisa burguesa. Ser directo e colocar os objectivos do movimento à frente do amor era o apelo da chama proletária. Eu próprio tinha aprendido isso com Gorki. Não era ensinamento de algum controleiro.

- Guida, tenho de dizer-te que tenho projectos para o próximo ano. - Balbuciei enquanto punha lautos gramas de açúcar no café ao ponto da colher ficar de pé.

- Vais de férias, quando? Não passamos na Figueira da Foz, como sempre?

De facto, lembrava-me bem das últimas férias com a Guida. O parque de campismo da Figueira permitia, quando os nossos pais se ausentavam à noite, longas conversas na bancada mal iluminada do campo de jogos, na piscina escurecida e em que o guarda estava no bar a beber copos ou, glória das glórias, nas tendas de cada um. Mas a coisa ficava por aqui. O mais longe possível que poderíamos ir era um longo beijo inexperiente que retinha alguma saliva incómoda no canto dos lábios e que tínhamos de limpar, sem que o outro visse, embora víssemos, com as costas das nossas mãos. 

- Guida, quero falar contigo sobre um problema grave; provavelmente, para o ano, não estarei cá em Portugal. Tenho dezassete anos, dou o meu nome à Junta, depois DRM e vou de vela para a Guiné, ou norte de Moçambique. Venho de lá, com sorte, sem uma perna ou um braço, ceguinho ou desfigurado. Não me vai querer assim, não é? - Acendi o meu Ritz, olhando o fumo azul do tabaco ir em direção dos seus olhos negros.

- Parece-me que tu é que não me queres. Deixas-me aqui, não é? E dizes tu que gostas de mim, é? Merda para isto tudo. Porra, Tó, tive uma nota nada agradável a Filosofia. Tirei 16! E agora isto! - «Tira um dezasseis e queixa-se, esta! Tomara eu, que tinha a professora Leonor que passava a vida a invectivar-nos a ignorância e a indiferença perante Platão ou Konrad Lorenz, o gajo dos gansos!»

- Guida, Guidinha, vivemos sob uma ditadura e a perspectiva é a guerra. Vou atravessar os Pirinéus e arranjo lá trabalho, um visto de asilo político ou de desertor, trabalho numa pensão a lavar pratos, terei quarto quentinho e depois vais lá ter comigo, mas em último caso, claro! - Frase esta que sublinhei com demasiada ênfase para o seu gosto.

- Vais! E deixo aqui a minha mãe com a parva da minha irmã. Sabes que o meu pai ainda está no Congo a ver se consegue trazer alguma coisa de lá. Não posso deixar a minha mãe. Depois arranjas uma francesa...

É evidente que esta lógica não me era desconhecida no meu ego. Sabíamos de gajos enregelados nas montanhas, roubados e entregues à Pide por passadores, prisões pela Guardia Civil, gajos a pedirem esmola nas ruas e a roubarem para comerem ou para serem presos que ao menos tinham cama, comida e roupa lavada. Mas também conhecia descrições de belas francesas de torneadas ancas, assim mesmo com a adjectivação de Homero, e com o seu quê de linguagem musical, quais encantadoras de Ulisses e pernas tão bem feitas como pés de camas rocócó; inglesas aparentemente indiferentes aos machos latinos, mas que se derretiam ao primeiro «How do you do?»; para mim, que era um tipo de contrastes e basto informado sabia que o melhor era ir para a Holanda, Suécia, Noruega, Finlândia onde se percebia melhor a heróica luta de libertação dos povos africanos e dos desgraçados desertores tugas que eram apanhados como tordos nas malhas da insatisfação feminina nórdica que já vinha dos viquingues. Tão insatisfeitas que eram capazes de pôr na rua um dos nossos que rapidamente se enganava sobre o papel das mulheres escandinavas na cozinha: aquilo não era só sofá, tv e mesa posta. Tchau que se faz tarde, vais encontrar uma tansa que te ature! Era preciso saber e ter cuidado na vivência que aquilo não era o bairro da Arregaça.

- Pensa bem, António Luís. Pensa bem! Estragas a tua vida e não podes voltar mais a Portugal porque vais para a prisão, não por política, mas por fugires à guerra...o que não é bem a mesma coisa. Faço-me compreender?

A Guida ia buscar agora o tema da cobardia o que, com algumas variações mais suaves, era o argumento do meu avô que, fascista como era, dizia que a cobardia era o pior dos males num homem que se queria homem. «Uma coisa que se cola à pele para sempre!» dizia ele, feroz, dando um valentíssimo murro na mesa capaz de abrir uma noz madura! Mas já estava habituado. Se eu desse outro murro de resposta na mesa abriria somente um dióspiro...maduro. A coisa estava a favor dele e quando um tigre ataca, não devemos fazer-lhe frente, dizia o Mao Tsé Tung o que me dava sempre argumentos para estar comodamente calado.

- Guidinha, cobardes são os que não são capazes de dizer não à guerra. Irmos combater patriotas que só defendem o que é deles! - Tentei semicerrar os olhos visando o infinito como se a verdade estivesse lá longe mas que, entendido, a chamava para nós.

Levantou-se calmamente da cadeira do Tamoeiro e disse que falaríamos melhor no dia seguinte. Pagou o café e quando se ia embora, sai-lhe pela frente uma vizinha da sua mãe que lhe diz em voz alta para que todos ouvissem:

- Ouvi a vossa conversa. O meu filho morreu em 1964 na Guiné. Ainda tenho orgulho nele, sabes? Afasta-te daquele rapaz. Um tipo que foge da guerra, fugirá também de ti quando puder. Falarei com a tua mãe, logo que possa, acredita. Linda escumalha com quem andas!

À noite, ao jantar, recebi o telefonema da Guida a contar-me a conversa com a megera da vizinha. A mãe dela já sabia dos meus planos de fuga e como tinha sido colega da minha mãe no Rainha Santa, a coisa era capaz de complicar-se. O que não vinha nada a jeito, agora.

Notei, da parte dela, algum alívio escondido no telefonema. Uma espécie de teatro mal parido que me ia lixar a sério. Eu estava feito! Puta de vida, esta. Peguei no Roger Vaillant e comecei a ler «Um Homem Só», da colecção de bolso da Minerva, que a mesada estava a ir-se em cafés e tabaco.

segunda-feira, outubro 04, 2021

Penúltimo Outono (2)

Estava determinado. Não sei bem em quê, mas estava determinado. Na Clepsidra encontrava-me com os meus companheiros de luta, os imprescindíveis de que falava Brecht. Tínhamos tarefas no andar de cima que subíamos seriíssimos para ir para o policopiador e abrir o stencil azul, mais a tinta preta necessária e as resmas de papel branco, por vezes azul. Assinávamos como Cpael, acrónimo difícil de verbalizar, mas éramos já conhecidos pela malta do liceu. E provavelmente de outros liceus, porque alguns companheiros menos auspiciosos dos futuros radiosos pediam-nos para irmos lá nós que já estávamos mais «queimados» do que eles, virgens sedutoras da mole liceal por esclarecer gajo por gajo. Para isso estavam lá eles. Cheirou-nos a cobardia, mas as coisas são o que são e a mente humana já nos estava dissecada pelas leituras de Tolstoi, Dostoievsky, Roger Vailland, Aragon, Cholokov e o grande Gorki! Nada de novo, portanto. Tínhamos era de ter cuidado com as unhas. O negro da tinta do stencil entranhado nas unhas podia deitar tudo a perder e a pide sabia abrir-nos as mãos. Havia uma escala: unhas pretas significavam elaboração de stencil e comunicados, coisa não tão grave; já as pontas dos dedos, unhas e palma das mãos pretas era mais grave e significava sem dúvida pichagens nas paredes. Foi o nitrato de prata que levou a Eugénia à pide e muito teve ela de suar para dizer porque estava assim, suja. Como aliás era a alma dos comunistas e socialistas de todos os matizes embora não se mostrasse embebida em nitrato. Era perigoso comprar sprays, isto se os houvesse à venda, claro. Mesmo as frases pichadas podiam ter uma escala: «abaixo o governo» já não vendia nada, já «morte ao governo», «morte ao fascismo» ou «abaixo a guerra colonial!» ou «Vivam os povos das colónias!» podia dar uns anitos em Caxias. Tudo o que levasse «morte» na frase era pecado mortal (literalmente, claro), isto por um governo que matava tanto cá, como em África. Mas a veia pacífica da hierarquia da igreja gémea do governo, era desmentida pelo faduncho raivoso do macho encornado. A vida continuava serena, a energúmena.

As reuniões eram faladas em voz baixa. E essencialmente desenhávamos estratégias para a «agitprop». Era preciso convocar uma RGA para o pátio dos fumadores no intervalo grande da manhã. Lá se ia o meu pastel de carne na cantina, mas ao menos fumava e distribuíamos os comunicados. Estava tudo de acordo e havia uma ainda rivalidade calma entre os maoístas e nós. Sabíamos da União dos Estudantes Comunistas e o Lizardo era seu militante e controleiro para os liceus. Isso sabíamos, mas se nos perguntassem o que defendiam, tanto a UEC como o PC, éramos capazes de dizer somente que o objectivo era o derrube do governo e quanto ao resto, assobiávamos para o lado, que se fazia tarde. Mas a coisa estava a dar para o torto. A pide rondava já a Rua do Brasil e pensávamos que era por causa dos universitários e universitárias que tinham por lá quartos. Mas não. No Bairro Marechal Carmona onde vivia o Pinto Ângelo e o Sarmento também pontificavam os pides no seu Ford Escort. Tínhamos a mania de deixar rasto: colantes contra a guerra e carestia de vida nos postes de iluminação, comunicados no chão perto das paragens e, santa ousadia, uma vez lançámos um pano com o Che gravado a tinta preta atado a duas pedras que se enrolaram sem mais delongas nos fios eléctricos da Rua do Brasil, mesmo em frente à minha casa, o que foi de uma inteligência a toda a prova. 

Como disse, a coisa adensava-se e as nuvens negras lobrigavam-se no horizonte. Acagaçado de todo, pedi ao Lizardo que me desse umas luzes sobre o que fazer se fosse interrogado na pide, isto se fosse apanhado em flagrante delito o que, devido à tal inteligência viva e afoiteza musculada que me era devida, era mais que certo acontecer. O Lizardo, rapaz de 69, aconselhou-me a falar com o Pena, outro rapaz da luta, mais experiente e que já tinha passado pelas malhas apertadas da polícia política:

- Pena, posso falar contigo? - Isto de um liceal falar com um superior, tinha o seu quê.
- Diz, pá. Queres um café? - O bigode farfalhudo saltava num SG filtro cujo maço, de ricas azuis claras e amarelas, tamborilava nas suas mãos.
- Foi o Lizardo que me disse para falar contigo. Já estiveste preso, não foi? 
- Sim, é verdade passei lá uns meses. Primeiro a pide, depois a penitenciária e depois Caxias. Coisa de sete meses ao todo. Mas porque perguntas, puto?
- É que as coisas nos liceus estão a queimar, estás a ver? Reparam em nós. Toda a gente sabe e a malta da Cpael anda preocupada. Se eu me lixar, como é?
- Mas como é o quê? Vais dentro.
- Obrigado. Era a isso que me referia, Pena. O que faço, como me porto, o que digo, o que não digo, trato-os como? Isso põe-me à rasca, estás a ver? Começam logo à porrada?
- Naaa...não começam logo à porrada, pá! Primeiro perguntam-te que actividades fazes tu, porque é que te meteste na política, quem te meteu na organização, o que fizeste até agora com os teus camaradas.
- Hãããã...está bem. E o que digo?
- Népias, ouviste? Não dizes nada. Dizes só que o que te levou a distribuir comunicados, foi a amizade.
- A amizade? Como assim?
- Amizade. És amigo de gajos que gostam de cultura, poesia, cinema, uma coisa leva à outra e...olha nem sabes o que estavas a fazer.
- Ó Pena! Então eu gosto do Vergílio Ferreira, de Bertolucci, do Soeiro e da Pearl Buck e apanham-me com comunicados a dizer «abaixo a guerra colonial». Eles vão mesmo acreditar, não é? Mas isso deu contigo? Passaste o crivo?
- Não. A porrada começou no fim das minhas respostas. Mas não te borres de medo. Principalmente, não te borres. E pára da ler a puta da Pearl Buck!

Não me borrei. Não fui preso. Fugi sempre e colei e distribui tudo o que me vinha às mãos, sem acreditar muito que o governo alguma vez caísse. A sorte acompanhou-me, não foi a coragem. Mas nunca mais peguei no único livro da Pearl Buck que tinha comprado da colecção Unibolso. Lixo com ele...
 


domingo, outubro 03, 2021

Sobre o autor (eu mesmo) de «Abjectos Surreais»

 


Sobre o autor: vive agora em Coimbra, retornado há somente quatro anos. Tendo nascido na Sé Nova, na Arregaça, onze anos depois do fim dos campos de concentração e cuja proximidade cronológica com o extermínio em massa nazi o deixa, ainda, perplexo. Nessa altura, os carros eram quase todos pretos, os caixotes de lixo eram de alumínio e tinham o nome familiar de «Jacós». Aprendeu a ler, a escrever e não tanto a contar. Nunca esteve muito tempo no mesmo lugar, acreditando ser um nómada algo frustrado. Foi sedentário no Porto durante quase vinte anos, não abandonando igualmente a frustração inerente a essa condição. Fundou e desligou a luz da Deriva Editores após quinze anos e muitos livros editados. Expôs, em 2018, também no Liquidâmbar, «Anjos do Desespero» desenhos onde pontificavam os mensageiros da destruição e do amor entre poetas luminosos, filósofos obscuros e terroristas dos anos de chumbo.  Consegue alguma paz de espírito desenhando e escrevendo; contudo, uma inquietação fininha acalenta-lhe esperanças, provavelmente vãs, de que venha a ser um pessimista cínico, coisa que não consegue por mais que tente. Hoje, com «Abjectos Surreais» tenta levantar a poeira nas estradas da subversão, do desejo e da plenitude reparando, tarde demais, que as estradas e as ruas foram, entretanto, cobertas com alcatrão.

Contacto para aquisição de quadros: abjectossurreais@gmail.com



A base da apresentação que antes de tudo seria um anúncio, mas nem tanto assim foi


Antes que tudo, um anúncio (lido no Liquidâmbar a 1 de Outubro de 2021)

Não se deve misturar surrealismo com academismo. Se o fizerem, o efeito imediato da cicuta é o menos mau se comparado com a lástima que será a infusão de arsénico num qualquer chá. O surrealismo foi um meu companheiro de longos anos passados em cafés, em bares, em sítios improváveis, tomados com estricnina, fumado a eito e partilhado verso a verso, imagem a imagem em janelas e vitrines chuvosas ou em verões escaldantes debaixo de figueiras e carvalhos ou, se não atreitos ao bucolismo (nada tinha de), em esplanadas ventosas com os pés ao alto para não nos enterrarmos em alcatrão quente. Esse enterro veio mais tarde, já não em pez, mas em lama algo lodosa.

Aí, nesses lugares probabilíssimos onde vivi com desespero feliz aninhava-me nas margens de rios dourados das fontes de Bagdade, alimentados por chuvas ácidas azuis de Berlim, por espremidas laranjas Vietname, onde peixes-voadores vinham sorver o oxigénio líquido dos hospitais, os salmões subiam pelas nossas coxas e nas paredes das galerias de arte, os cavalos loucos e ciosos galgavam as margens das estepes entre cães desamparados e gatos de olhos rutilantes de ódio cismático. Assim era o surrealismo sentido por mim. Em busca de derivas cadentes e incandescentes de desejo, esquadrinhava as lentes das cidades nocturnas fugindo ao dia que me dilacerava, adorando o sol e a morte que emanava. Os dias passavam-se na cadência de uma camioneta lenta, de um comboio de apeadeiros vazios e de boleias inúteis. As folhas contavam-se pelos livros que guardava e em algumas sentia com prazer estupendo os caracteres de tipos rugosos. 

Lido Helder e Cesariny, Pacheco e Oom, encontrava-os e encontrava-me em sigilo e cumplicidade. Surrealistas? Alguns nem tanto. Atravessavam-lhes o abjeccionismo. Surrealistas que não desejavam sê-lo. Abjeccionistas que não pretendiam a abjecção pela abjecção. Neo-realistas arrependidos, outros arreigados às comunidades. Os rótulos literários passaram-se para a reforma agrária e para os apartamentos citadinos. As armas eram reclamadas pelo Mário-Henrique Leiria. Nunca as usou, porque preocupado com o cão, presumo. Pouco me importaram estas tentativas de branqueamento capital ou de personagem. Continuava a lê-los como último recurso para uma vida que se queria vivida rápida e ferozmente, sem compromissos. Abandonei Deus? É possível, enquanto descobria outros enviados pelo surrealismo da casa, ainda assim próximo do cânone bretoniano, o tal papa laico. Sagir ou a deusa-mãe, Ísis e Osíris e a Metaciência de António Maria Lisboa, Milarepa de Lapa, Varuna de Manuel de Castro, Eros de Dacosta ou os deuses animistas de Seixas. Ter-lhes-iam sido fiéis estes deuses, estranhamente subsumidos nos seus pensamentos, nas palavras que diziam não serem sequer necessárias para ser Poeta? Seria mesmo verosímil a sua busca pelas forças do Caos em luta milenar contra os céus de mel e prazeres infinitos? A chamada dos deuses fez-se em vida destas personagens terrenas com Baal em luta contra Enkil, Varuna observando e incitando a desordem para convocar os deuses da ordem e do bem. Ter-se-ão dado conta da luta interior convocada por eles? O perigo iminente que os rondava?

Mais do que construírem as palavras e as imagens sob a batuta ortodoxa da metodologia automatista criaram a possibilidade de edificarem a República de Crianças, aquela que constitui o verdadeiro palco da crueldade, do amor, da verdade e dos jogos de guerra permanentes. Uma entidade indígena que não foi preservada pelos arqueólogos literários do costume, envoltos em cartografias manhosas, criadores de pequenas correntes de ar de que falava Helder, mas sim pela escolha límpida e cúmplice da auto-dissolução, pela vontade plenamente livre dos seus protagonistas.

Todos tiveram vidas trágicas, no sentido mais profundo da tragédia grega. Uma fusão de Diónisos com Afrodite e Eros, os deuses imoladores que menos mentiam e mais sentiam. E a maior parte deles pagaram com a existência em limite constante o desejo violento de uma outra vida. Esta terra não era para eles; demasiado mesquinha, feita de pides e informadores, magalas e marialvas, mulheres escravas e que gostavam de o ser, povo medroso, supersticioso e ritualista que fugia do comunismo e da democracia. Que idolatrava a pobreza e a castidade. Que poderia o poeta ser muito mais do que morrer abjectando tudo e todos? António Maria Lisboa, Manuel de Castro, Manuel de Lima, Pedro Oom, Mário-Henrique Leiria, António José Forte não morreram demasiado cedo. Pura e simplesmente não desapareceram porque não lhes deu para se prostrarem de deferência perante os vivos. Tentaram Paris e Londres, exigiam liberdade que cá não tinham e alguns acabaram a pedir sandes em Montparnasse para não morrer de fome, outros em minas de carvão na Checoslováquia, em navios de cruzeiro ou mercantes, outros adoeceram, enlouqueceram, empregaram-se e remeteram-se ao silêncio ou, pior, saíram de si próprios e não voltaram mais.

Acabado o Prec, a fase mais poética e insurrecional de que o povo português foi capaz (em muito esforço) nos meados do século XX, lá para 77, o surrealismo tornou-se-me mais distante. A provocação e a destruição de uma ordem fascista e abjecta deixou de existir e o sangue parou de correr na saudosa África. Disse o que queria dizer: abjecta. E, já muito antes, dei conta da dicotomia surrealismo/abjeccionismo tão caro aos debates áridos das academias que dizem desprezar trocadilhos nas palavras. Hoje o academismo «estuda», pomposo, o surrealismo rebaixando-o a «movimento» a «grupo» que os próprios rejeitaram.

Portanto, desde 1949, e para quem conhece a história surrealista, deparamos já com dissoluções e combates intestinos. A coisa assim foi até declararem, pela honestidade e frontalidade brutais que lhes são reconhecidas, que não haveria nenhum grupo surrealista, mas sim um conjunto de surrealistas que embora de iniciativas individuais os ligavam um fio de revolta e subversão, iniciado por manifestos comuns na década de 40 e 50.

Seja como for, devo-lhes a vida. Devo-lhes a palavra, a textura, a cor e o som. Apontaram-me as armas mais perigosas: as da subversão pelo amor e pela destruição. Não levantei os braços em rendição. Dispararam. Hoje, acertámos contas. Estamos pagos.

 António Luís Catarino

Coimbra, 19 de Setembro de 2021


A Fotoreportagem da apresentação de «Abjectos Surreais». Fotos de Paulo Góis

 













As fotos são da autoria de Paulo Góis e o cartaz que se vê acima é de Ana Catarino

paulocostagois@gmail.com

Eu sei que não precisam nada disto, mas agradeço a presença de Ananda, Cristina Bertrand, Maria João, Isaura, Alzira, Abraão, António Alves Martins, Anabela, Anabela Santos, Margarida, Cristina, Paulo Góis, Arlete e todos aqueles que nos dias seguintes foram dar um salto à exposição de 14 desenhos e tiveram a paciência de me ouvir. Que foi divertido, lá isso foi. O catálogo, cuja capa foi votada democraticamente seguirá dentro de momentos para a tipografia!