quarta-feira, abril 29, 2026

"Paris", Annemarie Schwarzenbach

 

Payot Suisse. Janeiro de 2026.
Não deixa de constituir uma boa surpresa encontrar um pequeno livro de bolso na livraria Payot, de Lausanne, com inéditos de Annemarie Schwarzenbach. Tenho lido quase tudo o que me apareceu sobre esta escritora que fui descobrindo pelos estudos de Gonçalo Vilas-Boas e do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da Universidade do Porto, com quem a Deriva editou uma análise literária e biográfica desta autora suíça. Mas a verdade é que, como escreve a tradutora Nicole Le Bris na Introdução deste livro, ela não é uma escritora que se procure, mas que se «encontra». Desde que a encontrei, é-me impossível ignorá-la.

Annemarie Schwarsenbach morreu cedo, aos 34 anos, num acidente de bicicleta na Suíça, em 1942. Em Portugal, a Tinta-da-China e, principalmente, a Relógio D'Água, têm-na editado regularmente. As suas impressões são essencialmente as de viagens que ela fez, algumas juntamente com Ella Maillart, sua grande amiga que a acompanhou quase sempre em deslocações ao Próximo Oriente, à Turquia, ao Afeganistão, à Índia, ao Iraque e ao Irão. Também esteve no Congo, em trabalho de fotógrafa e jornalista, deixando descrições inesquecíveis sobre a situação dos seus habitantes sob o colonialismo belga. Para se deslocar até lá, teve de pedir um salvo-conduto português através de António Ferro (que lhe demonstrou grande interesse, não só político) que a levou a passar por Luanda em plena II guerra mundial. Está tudo publicado em «Escritos Africanos». Esteve em Nova Iorque onde se revoltou com o racismo e a condição segregada dos negros americanos. A sua sede de conhecimento de outras paragens, que não só os cantos europeus, levaram-na a constantes viagens que a desgastaram, tal como as drogas pesadas e o álcool, as suas relações lésbicas tão arrebatadoras quanto tempestuosas, que a família com evidentes simpatias nazis, nunca aceitou, e com algumas tentativas de suicídio. Foi antifascista, criando uma revista que colaborou juntamente com Erika e Klaus Mann, filhos de Thomas Mann, com surrealistas como Cocteau e Gide, e igualmente com autores como Hemingway e Brecht. Infelizmente, não chegou a ver o fim do totalitarismo fascista na Europa.

Estes inéditos foram editados agora, em Janeiro de 2026, e foram escritos em Paris tinha Annemarie 20 anos, entre 1928 e 1930. Não se trata de um diário, como se poderia pensar, mas um conjunto de quatro textos intimistas em que ela já expõe uma escrita que é reconhecida nas suas obras posteriores. Mas não é só o seu estilo literário que importa aqui; o que vale a pena destacar são os temas que aborda ainda muito nova e que se vão revelar mais tarde: a sua sexualidade e a forma como a expõe nos seus escritos variando de género na voz do narrador. Primeiro, como jovem estudante na Sorbonne, onde ela de facto estudou Sociologia e História, depois como rapaz e ainda como um ser quase andrógino. A quase ansiedade de entender o outro e prescrutar o comportamento dos seus próximos, seja na amizade ou no amor e a dependência (aqui a cocaína tem lugar numa descrição da noite de Montparnasse). A necessidade imperiosa de viajar constantemente, de não criar raízes num só lugar. A compreensão pelos marginais, pelos que têm dificuldade de integração na sociedade, como os imigrantes russos que saíram ou fugiram da Rússia de 1917 e que viviam em Paris, embora pudessem ser quaisquer outros. E, igualmente, o choque com a família burguesa e a recusa em ser mais uma peça nas massas anestesiadas e tristes das grandes cidades. Como escreve a dado passo Úrsula a Jacqueline, em «Paris II»: «Donnez-moi un être humain!» Talvez fosse pedir demais numa época terrível, mas a necessidade de Annemarie Schwarzenbach era quase impossível de satisfazer. 

Annemarie Schwarzenbach

alc

segunda-feira, abril 27, 2026

"Les Orphelins", Éric Vuillard

 

Actes Sud, Janeiro de 2026. 
Eis o último livro de Éric Vuillard que conhecemos, em Portugal, através da publicação de «A Guerra dos Pobres» e de «A Ordem do Dia». «Les Orphelins» que, penso, a ser traduzido em português, terá o título óbvio de «Os Órfãos» consta um subtítulo que esclarece tratar-se de «Uma história de Billy the Kid» e assim seria se o romance fosse só aplicado à sua biografia. Mas não; a história desenvolve-se exemplarmente a partir de Billy the Kid, através das suas inúmeras biografias, sendo que uma delas é do seu assassino, a do xerife Pat Garrett, um ex-assaltante que escolheu o lado da lei. Isto, quando o Oeste deixou de ser uma espécie de terra de ninguém e entrou na boa ordem do capitalismo (este sim, selvagem) em que os monopólios dos grandes negócios eram feitos à custa do derramamento de sangue e à custa dos territórios e das vidas dos índios que eram espoliados e massacrados por tipos que mais tarde se tornaram senadores, membros do congresso, governadores e xerifes dos condados. As vidas que dão cor ao romance assim nos dão conta. A escravatura e a guerra da Secessão que se lhe seguiu foi igualmente a pedra de toque do nascimento dessa tal ordem, uma reorganização do capitalismo industrial que acabou com as terras da Fronteira. Portanto, miúdos geralmente oriundos da miséria profunda das cidades americanas, órfãos ou abandonados pelos pais, cresciam exigindo liberdade e um destino igual aos senhores que atingiram o cume social através de enorme violência e que se institucionalizaram politica e socialmente. No fundo, foi o culminar do nascimento da América, dos EUA que hoje conhecemos como um dos países mais violentos do mundo. Nada acontece por acaso e Éric Vuillard tem o condão de utilizar, numa linguagem elegante, uma metatextualidade com que nos identificamos totalmente. Podemos ler, com tradução livre, o que Vuillard sente sobre os EUA a partir da observação das biografias de Billy the Kid, provavelmente o menos culpado de todos aqueles que o perseguiram até à sua morte: 

«O ''desperado'' é a figura depravada do self‑made man; é a sua imagem, mas inacabada. Não chega a nada. Parte de demasiado baixo. Veio ao mundo demasiado tarde. É o homem resolutamente moderno, e é por isso que se entrega por inteiro, desvairado. E, visto que a sociedade nunca é outra coisa senão a contrafação dos seus princípios, a concorrência degenera de imediato em matanças, a liberdade adultera‑se em crimes, e a História da América será um argumento de Frank Capra interpretado por ladrões.» (pág.42)

A foto da capa é de Jesse Evans um dos do grupo de Kid que tal como dezenas de companheiros morreu cedo, a tiro e sem um centavo. Provavelmente, o único sobrevivente que morreu de velho, com outro nome e supõe-se bem longe do Colorado, Novo México ou Arizona por onde o célebre grupo de «desperados» se moveu, assaltando o que podia, desde gado, cavalos, ranchos, até diligências, foi Georges Coe. Mas sabe-se pouco sobre ele e nem a data da sua morte, ou aonde, se pode verificar com toda a certeza. A prosperidade só é dada de bandeja a quem mata muitas vidas, quem coloniza a ferros. Segundo Vuillard, a América foi colonizada, num seu primeiro momento, por pessoas com este padrão, incentivada ao assassínio e genocídio em massa, à escravatura que rapidamente levava a constantes derramamentos de sangue, até que, depois de assentar a poeira levantada pelos cavaleiros enlouquecidos e do massacre geral, se iniciou um arremedo de democratização necessária ao livre cambismo, porque os monopólios já estavam erguidos e sólidos. Mas até aqui foi o que se viu.

alc

sábado, abril 25, 2026

"Autobiografia e Poemas", Maiakovski

 

Presença, col. Forma. Janeiro de 1974. Tradução de Carlos Grifo
Surrado, páginas amareladas, capa desgastada pelo folheio de anos a fio. Igualmente, algumas gralhas arreliadoras. Comprei-o, por 20 escudos, na data de edição, ainda em ditadura. Faltavam três meses para o seu fim. Era o número dois da colecção Forma, da Presença, iniciada com «A Invenção do Amor», de Daniel Filipe e lio-o todo nessa mesma tarde e noite. Fiz hoje, de 24 para 25 de Abril o mesmo, recordando a rebeldia anti-burocrática e revolucionária de Maiakovski que hoje me parece mais distante, desenquadrada e, no entanto, necessária. Permanece comigo por teimosia evidente, por uma construção de uma outra realidade urgente, antes que nos levem para um abismo de que não saiamos livres e ilesos.

alc

quinta-feira, abril 23, 2026

"Les Vies Secrétes ds Vladimir Maiakovski", Yoann Iacono

 

Edições "J'ai Lu", 2025.
Dizia Boris Pasternak, que conviveu com Maiakovski nos seus tempos de grande boémia moscovita logo após a revolução de 1917, que havia tantas versões da vida do poeta quanto havia de russos. Provavelmente até poderá ter um fundo de verdade, salve o evidente exagero e ironia, mas talvez instigada pelo próprio Maiakovski muito pouco atreito a divulgar traços da sua vida privada, mesmo depois de se tornar uma lenda viva até à sua morte e que esta se tenha igualmente transformado numa questão política por gerações.

Não deixa de ser interessante verificar que um livro comprado à pressa numa livraria de aeroporto, de um «jovem» autor desconhecido e que continuará a sê-lo porque não me seduziu, se tenha focado na vida de Maiakovski, um futurista revolucionário de quem nunca me separei nos anos setenta e de que guardo os seus livros de poemas até hoje. A vida deste poeta daria sempre pano para mangas e assim se meteu à obra o autor do livro, não sem algumas contrariedades evidentes: não me parece que o manifesto futurista italiano de Marinetti, afirmando que um automóvel «era mais belo que a Vitória de Samotrácia», tenha ver com o futurismo russo, claramente construtivista e socialista, ou sequer que tenha havido contactos entre eles, mas enfim... igualmente para a vertente antimilitarista e antiguerra do futurismo russo bem diferente do do italiano que via no combate fascista um renascer do culto guerreiro. Nos antípodas políticos dos russos, bem-entendido. Mas a honestidade do autor está a salvo: ele avisa-nos, em nota inicial, que tudo é fruto da sua imaginação, embora no final seja publicada uma bibliografia utilizada na «pesquisa». Ficamos confusos, mas como é coisa para duas horas de leitura, siga viagem!

A receita é simples e é seguida por múltiplos «novos» autores: juntam-se dados biográficos a rodos, aumentam-se dados picarescos, inventam-se outros, deduz-se sem entraves, desde que seja referido o carácter ditatorial e sangrento de uma revolução que levou à potencial loucura de Maiakovski, já possuído por uma aura depressiva e até anti-social desde a infância; e que se reflectiu, logicamente, na posterior purga silenciosa exercida por Estaline e pelos bolcheviques que só o esconjuraram porque Lenine já teria apontado esse caminho aos futuristas russos - prisão, suicídio, assassínio, esquecimento e, se tivessem sorte, exílio. O resto é o costume para vender: sangue revolucionário aos borbotões, prisões arbitrárias em catadupa, sexo livre imposto pelos comunistas como forma de destruir a família burguesa, amores incompreendidos e um título (não esquecer o título chamativo) que aponta para vícios «secretos» nunca antes divulgados. 

É o que está a dar na literatura aeroportuária.

alc

segunda-feira, abril 20, 2026

"Poesia Quase Toda", Zbigniew Herbert

 

Cavalo de Ferro, 2024. Tradução de Teresa Fernandes Swiatkiewicz 
Pode ser tudo o que entenderem, mas Zbigniew Herbert não poderá ser encarado como um poeta obscuro. A sua poesia aqui exposta é aberta, límpida, sem objecções do autor em dar-se a conhecer. De 1956, ano do seu primeiro livro, a 1998, data da sua morte, acompanhamo-lo nas suas palavras e descodificamos os seus poemas através da História não só da Polónia de que nunca se separou, mesmo sendo rechaçado pela burocrática União de Escritores, mas igualmente de um mundo em reconstrução dolorosa após uma guerra, mais uma, humanamente fratricida; dizem que foi a segunda, por uma questão de método, mas somam-se milhares delas e o poeta sabe-o. E é exactamente como exigência da reconstrução do humano que o vemos a discordar de Adorno quando este diz, a respeito da evidente desumanidade e crimes de Auschwitz, a impossibilidade da existência de poesia após 1945. Para Herbert, que num poema chama a Adorno de trágico, a poesia terá de existir sempre porque é expressa pelo Homem em quaisquer condições. Em «Aos Portões do Vale» (1957) poderemos ler:

«Depois da chuva de estrelas
no prado das cinzas
reuniram-se todos sob a guarda dos anjos
(...)
depois do assobio da explosão
depois do assobio do silêncio
uma voz ressoa como fonte de água viva

é conforme nos explicam
o grito das mães a quem tiram os filhos
pelos vistos
seremos salvos individualmente

os anjos da guarda são implacáveis
e reconheça-se têm uma árdua tarefa
(...)» 
(pág.67/68)

A sua poesia é plena de anjos que tomam as variadas formas, numa permanente metamorfose, sejam eles homens, mulheres, guardiães de uma qualquer ordem ou vítimas dessa mesma ordem, adejam para nos avisar do efémero, do indizível, da possível beleza do mundo ou da sua face mais horrível, como a guerra ou a tortura. Se não são anjos, estes pessoalizam-se em heróis gregos, em filósofos latinos ou etruscos porque todos os clássicos nos têm coisas para dizer, mesmo que o poeta não se lembre do nome de um que lhe diziam que a sua leitura lhe mudaria a vida; afinal não mudou nada, expressão máxima da inutilidade da literatura e da poesia, contudo sempre necessária. E subsiste candidamente numa memória vã que depressa esquecemos, como nos avisa Herbert quando se aproxima do fim e lhe invadem o corpo em humilhação de que já nem sente vergonha íntima como expõe dolorosamente nos seus inesquecíveis «breviários», em «Epílogos da Tempestade», de 1998.

O alter ego de Zbigniew Herbert é o Senhor Cogito que encarna várias personagens em diferentes situações. Em «O Jogo do Senhor Cogito» o poeta esclarece-nos com uma notável clarividência a sua posição face a qualquer poder:

«1
A brincadeira preferida
do Senhor Cogito
é o jogo Kropotkin

o jogo Kropotkin
tem muitas vantagens

dá asas à imaginação histórica
ao sentimento de solidariedade
joga-se ao ar livre
abunda em episódios dramáticos
suas regras são nobres
o despotismo perde sempre

no grande tabuleiro da imaginação
o Senhor Cogito dispõe as peças

(...)»
(pág.213)

O despotismo perde sempre num jogo em que as peças são dispostas por um ser livre, um «príncipe dos anarquistas» como é nomeado por Herbert e onde se pode compreender mais claramente a sua ânsia de liberdade que não se compadece com qualquer ordem, seja despótica ou nem tanto. De qualquer modo, não acredita na História, nos monstros que ela criou, posição bem expressa no poema «Elegia para a partida da caneta da tinta lamparina», e 1990: 

«(...)
3
Nunca acreditei no espírito da história
monstro inventado com olhar de assassino
besta dialéctica na trela dos carrascos

nem em vós - quatro cavaleiros do Apocalipse
Hunos do progresso a galope pelas estepes do céu e da terra
destruindo pelo caminho tudo o que era respeitável antigo e indefeso

passei anos a conhecer os motores simplistas da história
procissão monótona luta desigual
de bandidos à cabeça de turbas estupidificadas
contra um punhado de gente recta e sensata
pouco me resta
aliás muito pouco

(...)»
(pág.308)

Mesmo no final do século XX, um dos piores séculos que a história conheceu (a da tal dialéctica científica ou de outra qualquer), Herbert demonstra a sua esperança, um fio ténue que pode sempre partir, perante a brutalidade do Apocalipse, os tais «hunos do progresso» que se movem dentro de «turbas estupidificadas» que têm sempre apoio nos «motores simplistas da história». Com Herbert não sentimos a necessidade de (sobre)viver em tirania para saber o valor da liberdade, ou da vacuidade social de uma opinião burocrática. Intuímos certamente do que os poderosos são capazes para nos reduzir a escombros humanos. Desconfiemos pois dos arautos do progresso e retiremos lições sobre a necessidade imperiosa de ser poder. 

Uma poesia livre. Um poeta livre.

alc

terça-feira, abril 14, 2026

"O Tango de Satanás", László Krasznahorkai

 

Cavalo de Ferro, 2026 (1ªed.1985, Antígona). Tradução de Ernesto Rodrigues
Este tango poderia ser transformado numa peça do absurdo, do grotesco. «O Tango de Satanás» é, sem dúvida, um grande obra do húngaro László Krasznahorkai, embora difícil de ler principalmente quando iniciamos o primeiro contacto. Finalmente, quando entramos na cadência da sua leitura, as imagens, diálogos e situações sucedem-se a um ritmo vertiginoso, quase sempre com consequências inesperadas ou até pela ausência de qualquer resultado após uma acção descrita. As situações surgem desgarradas, sem ligações óbvias entre si. É inegável a existência de uma sociedade estagnada, desesperançada, onde se arrasta um quotidiano miserável, em que as personagens se agridem, se convocam e aproximam como um exercício de quem quer provar que estão efectivamente vivas. Não conseguimos ver um objectivo claro, a não ser a da pura sobrevivência numa existência tornada ferozmente individualista, mesmo se a ordem social seja imposta por uma espécie de «cooperativa» em que nada funciona, ou melhor, o que ainda se move com todo o seu cortejo de absurdos e despautérios é a sempre presente burocracia. Se há um vislumbre de revolta, ela é inconsequente, contraditória, sem qualquer lampejo de substituição porque as personagens que a iniciam são desprovidas de vigor humano, estão exaustas. Essa revolta é protagonizada por uma personagem estranha, Irimiás, cujo nome lembra a sonoridade de um profeta do Antigo Testamento, mas é igualmente um misto de aldrabão, de burlão, de um violento trapaceiro que vende simultaneamente liberdade, armas e empregos. Ele é um «homem das situações desesperadas e pastor de homens sem esperança» (pág.154) que aparece e desaparece, que está prestes a resolver todos os problemas ou se afasta deles impetuosamente, castigando ou favorecendo sem que se perceba a sua lógica. Essa ausência de esperança nas personagens que povoam a história é singularmente exposta no capítulo VI, «O Trabalho da Aranha II - Seios diabólicos, Tango de Satanás» na pág. 136. Dou-vos em extracto:

«Futaki estava convencido de que os fracassos, semana após semana, mês após mês, os projectos cada vez mais confusos, logo abortados, essa dolorosa sede de liberdade, não representavam uma ameaça real; eram, sim, o que os mantinha unidos, porque, entre má sorte e a aniquilação, a estrada era longa, mas aqui, no fim do caminho, já se não podia sucumbir. A verdadeira ameaça parecia ser subterrânea, mas a sua fonte era incerta: irrompia, de súbito, um silêncio assustador, e não nos mexemos mais, enrolamo-nos num canto, à espera de protecção, mastigar é uma tortura, salivar, um sofrimento, e ninguém se apercebe já que o tempo desacelera, que o espaço se estreita ao redor de si mesmo, e neste dobrar-se é que ocorre a coisa mais terrível: a inércia.» (pág.138) 
Segue-se, neste mesmo capítulo, uma das mais poderosas descrições de uma orgia burlesca, numa taberna soturna e miserável, desses desesperançados. Só por si, justifica a leitura atenta deste livro.

alc

domingo, abril 05, 2026

"Confissões de um Opiómano Inglês", Thomas de Quincey

 

Contexto, 1989. Tradução de Manuel João Gomes 
Nos tempos que correm voltar a este título é uma benção laica. Nas «Confissões preliminares» Thomas de Quincey avisa-nos, logo de início, que «se um homem ''que só sabe falar de bois'' se tornar opiómano - e não for tão bronco que seja incapaz de sonhar - o mais provável é que passe a sonhar com bois; no presente caso, o leitor há-de ver que o opiómano se ufana de ser filósofo e que, por consequência, a fantasmagoria dos seus sonhos (desperto ou dormindo, de dia ou de noite) é a de alguém que ''humani nihil a se alienum putat'' [não considera estranho nada do que seja humano]» (pág.16). Apoiado nesta frase do latino Terêncio desenvolve a partir desta ideia, repescada por Marx mais tarde, aspectos da sua vida que foi preenchida quase totalmente pela dependência do ópio. Droga essa que era de venda livre nas boticas londrinas quer em forma de pequenos grãos ou em frascos de láudano, sendo o único entrave o seu alto preço, quase proibitivo para a magra bolsa do poeta e gentleman. Essa foi igualmente a razão de ele ter escrito estas «Confissões» editadas em pequenos episódios num jornal inglês. Mesmo que Thomas de Quincey esteja muito longe de pensar somente em bois é plausível que por vezes, até mesmo esses, pudessem aparecer-lhe nos sonhos que lhe afloravam em estado de alucinação e de profunda plenitude que lhe durava entre oito a dez horas. Acredito que os que pensam essencialmente em bois têm crescido exponencialmente na nossa triste época em que as drogas são alvo de perseguição contínua, sem que as mais perigosas como a televisão, os meios de comunicação social, os discursos evangélicos ou os identitários, sejam alvo de qualquer repressão. Essas drogas são de venda livre e recomendados por verdadeiros traficantes na pele de comentadores televisivos. Desses, ainda não constam em Thomas de Quincey, mas para nosso contentamento e esperança de que as coisas foram sempre assim e alimentando a nossa boa consciência, ele apontou outros, nomeadamente médicos e professores universitários, demasiado rápidos a culparem o ópio do mal da sociedade inglesa do século XIX. 

Há, no entanto, neste livro um trecho a que volto quase sempre. Trata-se de uma sequência da vida de Thomas de Quincey que ele nos conta: procurando obcecadamente uma rapariga de quem gostava muito, Ann de seu nome, e envolto nos eflúvios do ópio durante dias seguidos, ele encontra uma Londres desconhecida. Essa autêntica deriva experimentada pelo poeta veio a ser referida e replicada por Guy Debord e pelos situacionistas, logo no primeiro número da revista da IS em 1959, quase 100 anos após a publicação das «Confissões», publicada em 1856. Nascia a «Teoria da Deriva». Esteve igualmente na base do nome escolhido para a Deriva Editores em 2003. Vale a pena colocar aqui esse trecho que se encontra nesta edição da Contexto, na página 83:
«Algumas daquelas minhas andanças levaram-me muito longe, até porque todo o opiómano rejubila quando vê o tempo a fugir. E, muitas vezes, ao tentar regressar a casa, de olhos postos na estrela polar, como ensinam as leis náuticas, procurando ambiciosamente a passagem do Noroeste, evitando dobrar de novo todos os cabos e promontórios já por mim descobertos numa primeira vez, via-me de repente perdido em vielas labirínticas, becos enigmáticos, esfíngicas ruas sem saída, feitas (parecia-me) para pôr à prova a audácia dos carregadores e confundir a inteligência dos cocheiros. Mais de uma vez me convenci de que era eu o descobridor de algumas daquelas terrae incognitae e duvidava que elas estivessem assinaladas nas modernas plantas de Londres.»

No final do livro, as últimas impressões de Quincey tornam-se extremamente humanas. Em «Os Tormentos do Ópio» escreve que um leitor atento deve centrar os pensamentos explanados não no opiómano, mas sim no ópio que se transforma no verdadeiro herói da história. Sabe por que razão pára de se drogar: «...vi então que morreria se continuasse a tomar ópio; decidi por isso que, se necessário, morreria, mas só depois de me livrar dele.» (pág.133)

alc