Payot Suisse. Janeiro de 2026.
Não deixa de constituir uma boa surpresa encontrar um pequeno livro de bolso na livraria Payot, de Lausanne, com inéditos de Annemarie Schwarzenbach. Tenho lido quase tudo o que me apareceu sobre esta escritora que fui descobrindo pelos estudos de Gonçalo Vilas-Boas e do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da Universidade do Porto, com quem a Deriva editou uma análise literária e biográfica desta autora suíça. Mas a verdade é que, como escreve a tradutora Nicole Le Bris na Introdução deste livro, ela não é uma escritora que se procure, mas que se «encontra». Desde que a encontrei, é-me impossível ignorá-la.
Annemarie Schwarsenbach morreu cedo, aos 34 anos, num acidente de bicicleta na Suíça, em 1942. Em Portugal, a Tinta-da-China e, principalmente, a Relógio D'Água, têm-na editado regularmente. As suas impressões são essencialmente as de viagens que ela fez, algumas juntamente com Ella Maillart, sua grande amiga que a acompanhou quase sempre em deslocações ao Próximo Oriente, à Turquia, ao Afeganistão, à Índia, ao Iraque e ao Irão. Também esteve no Congo, em trabalho de fotógrafa e jornalista, deixando descrições inesquecíveis sobre a situação dos seus habitantes sob o colonialismo belga. Para se deslocar até lá, teve de pedir um salvo-conduto português através de António Ferro (que lhe demonstrou grande interesse, não só político) que a levou a passar por Luanda em plena II guerra mundial. Está tudo publicado em «Escritos Africanos». Esteve em Nova Iorque onde se revoltou com o racismo e a condição segregada dos negros americanos. A sua sede de conhecimento de outras paragens, que não só os cantos europeus, levaram-na a constantes viagens que a desgastaram, tal como as drogas pesadas e o álcool, as suas relações lésbicas tão arrebatadoras quanto tempestuosas, que a família com evidentes simpatias nazis, nunca aceitou, e com algumas tentativas de suicídio. Foi antifascista, criando uma revista que colaborou juntamente com Erika e Klaus Mann, filhos de Thomas Mann, com surrealistas como Cocteau e Gide, e igualmente com autores como Hemingway e Brecht. Infelizmente, não chegou a ver o fim do totalitarismo fascista na Europa.
Estes inéditos foram editados agora, em Janeiro de 2026, e foram escritos em Paris tinha Annemarie 20 anos, entre 1928 e 1930. Não se trata de um diário, como se poderia pensar, mas um conjunto de quatro textos intimistas em que ela já expõe uma escrita que é reconhecida nas suas obras posteriores. Mas não é só o seu estilo literário que importa aqui; o que vale a pena destacar são os temas que aborda ainda muito nova e que se vão revelar mais tarde: a sua sexualidade e a forma como a expõe nos seus escritos variando de género na voz do narrador. Primeiro, como jovem estudante na Sorbonne, onde ela de facto estudou Sociologia e História, depois como rapaz e ainda como um ser quase andrógino. A quase ansiedade de entender o outro e prescrutar o comportamento dos seus próximos, seja na amizade ou no amor e a dependência (aqui a cocaína tem lugar numa descrição da noite de Montparnasse). A necessidade imperiosa de viajar constantemente, de não criar raízes num só lugar. A compreensão pelos marginais, pelos que têm dificuldade de integração na sociedade, como os imigrantes russos que saíram ou fugiram da Rússia de 1917 e que viviam em Paris, embora pudessem ser quaisquer outros. E, igualmente, o choque com a família burguesa e a recusa em ser mais uma peça nas massas anestesiadas e tristes das grandes cidades. Como escreve a dado passo Úrsula a Jacqueline, em «Paris II»: «Donnez-moi un être humain!» Talvez fosse pedir demais numa época terrível, mas a necessidade de Annemarie Schwarzenbach era quase impossível de satisfazer.
Annemarie Schwarzenbach
alc







