terça-feira, setembro 28, 2021

O objecto de «Abjectos Surreais». Dia 1 a 18 de Outubro de 2021, no Liquidâmbar.

O objecto dos «Abjectos Surreais» (passe a cocofonia) é esse mesmo: uma revisitação aos surrealistas portugueses que mudaram profundamente a modorra do país que tínhamos e o autor não ficou incólume ao tirocínio. Depois deles, nada foi como dantes. Todos os surrealistas vivem agora em permanente errância num qualquer panteão dourado, continuando sempre presentes nas derivas muito pessoais à poesia, ao texto escrito, à acção. Coisas do outro mundo tão irreais quanto as estranhezas que nos assaltam todos os dias. Vou mostrar-vos, em catorze desenhos, como eu os vivo e convivo com eles. São eles: Pedro Oom, Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Mário-Henrique Leiria, António José Forte, Henrique Risques Pereira, António Dacosta, Carlos Eurico da Costa, Virgílio Martinho, Cruzeiro Seixas, Manuel de Castro, Manuel de Lima, Herberto Helder e Álvaro Lapa. Estes dois últimos porque sim. Seja como for, devo-lhes a vida. Devo-lhes a palavra, a textura, a cor e o som. Apontaram-me as armas mais perigosas: as da subversão pelo amor e pela destruição do inútil. Não levantei os braços em rendição. Dispararam. Hoje, acertámos contas. Estamos pagos.


A exposição será no Liquidâmbar, entre 1 a 18 de Outubro de 2021. A conversa com os amigos será no próprio dia 1, sexta-feira, às 18:00.


                                                                                                                                                                                                                                                         António Luís Catarino



quarta-feira, setembro 22, 2021

«Abjectos Surreais», exposição de 1 a 18 de outubro do Liquidâmbar, em Coimbra


Já não será muito cedo para informar-vos que vai acontecer mais uma exposição minha no Liquidâmbar, entre 1 a 18 de Outubro de 2021. A conversa com os amigos, e se tudo correr bem, será no próprio dia 1, sexta-feira, às 18:00.

O objecto dos «Abjectos Surreais» é esse mesmo: uma viagem aos surrealistas portugueses que mudaram profundamente a modorra do país que tínhamos. Depois deles, nada foi como dantes. Todos já em permanente errância num qualquer panteão dourado, continuam sempre presentes nas minhas visitas muito pessoais à poesia, ao texto escrito. Coisas do outro mundo tão irreais quanto as estranhezas que nos assaltam todos os dias. Vou mostrar-vos, em catorze desenhos, como eu os vivo e convivo com eles. São eles: Pedro Oom, Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Mário-Henrique Leiria, António José Forte, Henrique Risques Pereira, António Dacosta, Carlos Eurico da Costa, Virgílio Martinho, Cruzeiro Seixas, Manuel de Castro, Manuel de Lima, Herberto Helder e Álvaro Lapa. Estes dois últimos porque sim.


quarta-feira, setembro 15, 2021

"Abjectos Surreais" Início

 


Começou e acabou, temporariamente é certo, a consulta e a pesquisa que realizei nestes últimos dois anos, sobre os surrealistas incluindo a vertente abjeccionista, talvez a maioritária na corrente portuguesa. Este estudo levou-me à concepção de 14 desenhos que  serão expostos no Liquidâmbar nos dias 1 a 18 de Outubro, em Coimbra. 

segunda-feira, setembro 13, 2021

Os zapatistas chegaram à Europa. Pela vida! Sobre a educação (1)

Hoje, no início de mais um ano letivo, deparamo-nos com a aridez, a estupidez, as leis circulares, o faz-de-conta de uma impossível coerência concetual das mesmas propostas todos os anos repetidas, até ao cansaço total dos professores que sabem melhor do que ninguém do que a casa gasta. A falta de propostas ministeriais do edifício educativo esconde-se atrás da opacidade de palavras como «reformulação», da «reconfiguração», da «revisão» ou da «reavaliação» de coisa alguma. Tudo fica na mesma. E aqueles que apontam isto mesmo, são apelidados de «conservadores» de «atreitos à mudança» como se a resistência a uma ridícula inovação estivesse connosco no circo em que se tornou a educação. Diz Debord, na sua «Sociedade do Espectáculo» que num mundo ao contrário, o verdadeiro é um momento do falso. Nós vivemos num mundo invertido. Mas porque começo eu a falar de educação quando quero falar da viagem dos zapatistas?

Os zapatistas chegaram à Europa e são poucas as publicações e os grupos anticapitalistas que tentam divulgar este acontecimento que eu apelidaria de histórico não fosse a proximidade da data em que os factos tiveram, têm e terão lugar: 2021. Cedo para qualquer análise séria. Esta data escolhida quer assinalar a chegada dos europeus à América com as consequências que conhecemos. Honra seja feita ao «Jornal Mapa» e à revista «Flauta de Luz» que nos dão e darão a conhecer pormenorizadamente o fim político a que se destina esta viagem marítima dos zapatistas e do EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional) à Europa.

Falemos então de educação zapatista pela descrição de quem lá esteve e publicada pela já citada «Flauta de Luz»: Jérôme Baschet cujo «La Rébellion zapatiste» de 2019 foi traduzido em trecho importante por Júlio Henriques: a rebelião armada de milhares de homens e mulheres que teve lugar em Chiapas a 1 de janeiro de 1994 exigia mais liberdade, democracia e justiça. Hoje, são 31 os estados mexicanos nas mãos dos zapatistas ou sobre a sua influência direta, não obstante as perseguições e repressão a que estão sujeitos.

A mobilização pela educação foi das áreas mais abraçadas e desenvolvidas pelos zapatistas e pelo EZLN, logo atrás da Reforma Agrária. Aliás, isto não é novo nos movimentos rebeldes da América do Sul e em África. A educação é fundamental para a consolidação e resistência contra o capitalismo. A organização que deu lugar à escola zapatista é que nos deve chamar à atenção:

1. Logo em 1994 foram construídas centenas de escolas por Chiapas e estados mexicanos limítrofes. Primeiro as escolas primárias, mas em 2003 encontrava-se a funcionar uma secundária. Em Oventic chegou-se a iniciar a construção de uma escola secundária e só depois a primária, o que determina bem a autonomia dos «conselhos do bom governo» de cada região zapatista.

2. Em 2008, nas cinco principais zonas do EZLN, funcionavam cerca de 500 escolas, existindo 1300 promotores (não existem «professores», como tais ou como nós os entendemos na Europa) e 16 000 alunos. Em 2013 só na zona citada de Los Altos em Oventic, havia 157 escolas primárias, 496 promotores e 4886 alunos. Isto demonstra bem o nível de esforço coletivo de todo o movimento em torno da educação.

3. O papel do promotor é encarado como um papel prestado à comunidade e implica que esta se compromete a ajudar os promotores ou promotoras das suas necessidades, fornecendo-lhes produtos ou ajudando a cultivar a sua «finca» ou construindo-lhe a casa. Não há salários em dinheiro para os promotores, o que não quer dizer que ele tenha desaparecido totalmente. Nem poderia, como explica o artigo mais adiante.

4. É a assembleia comunitária que juntamente com o promotor, membros do conselho e os pais debatem as disciplinas, o teor do projeto educativo ou que estabelecem um calendário/horário para substituir os auxiliares, visto que estes não existem. Os alunos e os promotores tratam de grande parte da sua escola. Portanto, é na assembleia comunitária que os promotores e a comunidade definem os seus compromissos coletivos e que são discutidas as orientações educativas. A educação torna-se assim uma questão de todos.

5. A educação zapatista não está, contudo, isenta da influência da educação tradicional, como é evidente. O que se tem verificado é uma pressão dos pais para que o modelo da escola preexistente continue a funcionar, mas agora com um carácter verdadeiramente prático e utilitário. Paradoxalmente, este processo implicou uma «dupla dimensão de reprodução e de reformulação» e levou a prática zapatista «a uma profunda subversão do modelo escolar dominante» (J.B. op.cit.)

6. Pelo que ficamos a perceber (e é tão óbvio entendê-lo) é que o ensino escolar zapatista está em grande parte pensado a partir da realidade concreta da vida comunitária como o conhecimento do meio ambiente que o rodeia, natural, local e do planeta, da saúde preventiva e ambulatória, valores comunitários, problemas concretos que obrigam ao uso da matemática, à história dos povos e da luta zapatista, rompendo com o monopólio do saber instituído e dado como absoluto e inquestionável.

7. Nem sempre as coisas correm bem. Os promotores e as promotoras são quase sempre muito jovens e o seu entusiasmo é muito, mas depressa se deparam com dificuldades várias como o suprimento de algumas necessidades básicas que as comunidades tentam debelar a todo o custo, mas muitas vezes sem sucesso, o que os obriga a abandonar esses cargos sendo substituídos por outros mais jovens. Porém, isto nem sempre é mau. Em primeiro lugar, o primeiro promotor/a nunca consegue abandonar totalmente a sua «escuelita», enquanto que os segundos ou terceiros se vinculam com interesse aos alunos aproveitando o trabalho já realizado, renovando métodos e matérias. Ou seja, a rotatividade a que obriga a diversidade de tarefas na comunidade pode ter sido um fator positivo na própria inovação dos métodos de ensino e de educação anticapitalista e solidária.

Que a experiência zapatista embrionária obrigue a uma reflexão séria de como a educação pode e deve ser uma alternativa cada vez mais desejada, quer pelo cansaço institucionalizado por incompetentes muito pouco, ou quase nada, democráticos. Esses enchem a boca sempre que se fala em democracia, em educação, ou cidadania «exigindo» um capitalismo verde que nos levará à derrocada total sem retorno se não construirmos urgentemente alternativas ambientais e de uma outra ideia de produção que é urgente debater na Europa. Uma outra educação deve ser abraçada e os indígenas de Chiapas podem dar-nos lições dessa ligação ancestral entre o Homem e o Planeta- Ouçamo-los.

António Luís Catarino

segunda-feira, setembro 06, 2021

Penúltimo Outono (1)

Fotografia de Coimbra, Arregaça, 1922

Não sei o que me levou a guardar a fotografia, mesmo sabendo que a nostalgia não é propriamente o meu forte. Encontrei-a numa página do Facebook sobre Coimbra Antiga 2. A foto refere-se à construção, em 1922, da Fábrica de Porcelana da Arregaça. Estava quase acabada e servia de propaganda à evolução fabril de Coimbra. A minha casa de família (branca) encontra-se no lado direito logo acima do telhado do que viria a ser os escritórios, refeitório e o jardim infantil dos filhos das operárias e operários que lá trabalhavam e que chegaram a ser mil.

Passei vários anos naquela casa que o meu bisavô Francisco herdou juntamente com a Quinta de D. João (hoje uma chusma de prédios multicolores); mais tarde passou para o meu avô Manuel Francisco Catarino e para a minha avó Alice Amélia filha do meu bisavô que não cheguei a conhecer. Conheci a quinta de D. João com todo o tipo de animais, muitos espécies de cereais, oliveiras, hortas, pomar e muita água. 

Lembro-me vagamente de alguns natais que passei muito miúdo, mas marcou-me de uma maneira indelével a minha estadia mais permanente a partir do ano de 1972. A vida naquela casa era marcada por três momentos: o apito estridente da Cerâmica que marcava as interrupções do almoço, da entrada de manhãzinha dos operários e da saída da tarde em que se enchiam as tascas da ladeira que dava para a rua do Brasil; o apito do comboio da Beira que passava mesmo atrás da casa e o relógio da sala do meu avô encimado com a águia alemã. Aliás, esse relógio a quem o meu avô dava corda tão religiosamente como religiosamente se davam graças antes das refeições, tinha uma suavidade em cada batida que contrastava com a agressividade da águia cujo bico aberto procurava em vão uma vítima incauta. Esse relógio tinha uma história obscura de que ninguém falava: seria um presente de um piloto (nazi?) alemão que esteve lá em casa, lá para 45 ou 46, recomendado por Bissaya Barreto e que depois o mandou como prova de gratidão ao meu avô da América do Sul? Por mais que perguntasse a resposta era sempre «come, rapaz, come!»

Ao lado da capela da casa havia o Vitória Futebol Clube onde fui a alguns bailes. À frente do portão da casa na Rua do Brasil havia uma mercearia do Sr. Sotero, um republicano ateu que se tornou meu amigo, dono de alguns segredos com quem desabafava por causa da austeridade familiar. Até que a política vinha ao de cima e eram aulas inteiras de antifascismo e antisalazarismo, já que Caetano, para o Sr. Sotero nada dizia e era um cobardolas dos grandes. Era para cair de podre. E caiu, mas já com a minha ajuda e de camaradas do Liceu D. João III em que se destacava o meu amigo, até hoje e sempre, João Pinto Ângelo. Uma vez houve que o Sr. Sotero teve de esconder uns comunicados contra a carestia de vida, em 1973, após a crise do petróleo e em que cirandava um Ford Escort LH de matrícula e cor conhecida. «Tenha cuidado menino, tenha cuidado!» Nunca percebi se aquele cuidado era para eu ter da Pide se do meu avô! Um dia perguntei-lhe. A resposta foi: «Se o menino soubesse!». Isso já me tinha sido dito pelo barbeiro, o Sr. Tiago ali ao fundo das Alpenduradas. «Se o menino soubesse!».

Comecei a ficar irritado, primeiro, o tratamento de «menino». Já não era nenhum menino! Tinha 15 anos e uma namorada, caramba! A Guida, que lia Sttau Monteiro. Eu, já andava com as «As Três Fontes», edição da Centelha, de V. I. Lenine bem encapado, com estilo de rebeldia absoluta e irreversível. O «Manifesto» também fazia parte dos meus planos de leitura. Mas dava-me para ler «A Mãe» de Gorky, «O Don Tranquilo» de Simonov, «A Resistência Francesa», Roger Vailland, Urbano e Daniel Filipe que partilhava com a Guida, não tivesse ela também necessidade de um amor urgente. Não, não tinha. Paciência... ainda estávamos nos inícios dos anos 70.

Afinal soube depois, pelo Sr. Sotero, que a minha família não era impoluta ao nível da ética e da moral que todos os dias a austeridade obrigava. O «...se soubesse!» era a maneira como a minha avó, monárquica absoluta (daí o nome Amélia, coitada!) tratava os ranchos vindos da Beira para trabalharem na quinta (coisa a que já não assisti e ainda bem). Consta que batia nos camponeses e os castigava sem comer. Aquilo foi um choque muito grande para mim e até hoje. Os operários da Cerâmica com quem eu me dava nos bailes do Vitória, também se calavam quando a minha família vinha à baila. Só mais tarde o Rocha, companheiro de tasca e operário é que me contou que ali não havia gente que os gramasse. Já tinha contactos com o PC onde arranjava o Avante! e foi com ele que ouvi pela primeira vez o nome estranho de comunismo, mais complicado ainda o de «Partido Comunista». Embora não fosse militante a sua companhia ao meu lado fazia com que não houvesse o silêncio do costume quando entrava numa roda de amigos. Agora, falava-se abertamente contra o governo de Caetano o que me fazia tirar da minha bolsa «à soldado do vietname» com um símbolo hippie da paz, uns comunicados da Cdec e da Cpael, que para os operários nada diziam, mas sempre me encontrava ufano perante eles.

O Aviz era outro dos cafés que frequentava, embora tivéssemos cuidado com o dono. Vindo de Moçambique nunca se sabia do que ele era capaz em relação à política dos clientes, nem que informações poderia dar. Era lá que me encontrava com a Guida, isto por volta de 1972/73. Mas era a Clepsidra a nossa casa política. Quando entrámos na Cdec (Comissão Democrática de Estudantes de Coimbra) e na Cpael (Comissão Pró-Associação de Estudantes Liceais) o nosso «controleiro» era o Lizardo, hoje Juíz na Madeira e universitário já batido desde a crise de 69. Era ele que nos redigia e policopiava  os comunicados (já havia confiança para sermos nós a fazermos isso) e nós distribuíamos nos liceus e nas ruas. Havia também uns autocolantes contra a guerra colonial (mais perigoso o tema) a carimbo. Só que não eram bem autocolantes; eram mais selos grandes da largura da língua o que no-la deixava seca que nem cortiça. Colávamos nos postes de iluminação e nem a Pide era capaz de os arrancar. Mas era preciso muitos litros de saliva. Imaginem os sustos que apanhávamos porque eu, o Pinto Ângelo, o  Sarmento e o Brito Moura faziamos aquilo de dia à saída das aulas. Mas os litros de cuspo que gastávamos à fartazana na luta antifascista, faltavam para os beijos com a Guida. Nem as palavras saíam bem. Parecia que estávamos com uma enorme bebedeira e ler Daniel Filipe naquelas condições era um desastre, muito menos beijos na Guida, mesmo a emborcar copos de água, sobre copos de água o que me levava constantemente à casa de banho. Isto tinha futuro? Tanto como Caetano!

Muitos desses comunicados eram escondidos no celeiro da minha casa sem que ninguém o soubesse. Aliás, nunca perguntei por que razão transformaram uma antiga capela privada com altar e tudo, num celeiro. A uma família tão católica não caía bem o rol de favas, lentilhas, batatas e ervilhas com que era brindada a eventual ex-casa do Senhor. Mas junto às leguminosas e tubérculos lá estavam os comunicados.

O primeiro confronto que tivemos com a polícia de choque foi na Baixa e em outubro de 1973. Os bilhetes dos STCP tinham aumentado 50% devido à inflação provocada pela crise da guerra israelo-árabe e não foi muito difícil mobilizar estudantes dos liceus e das escolas técnicas de Coimbra. A ordem era de ocupar os elétricos (os tróleis não, porque tinham portas automáticas) e gritar «Aqui ninguém paga bilhete!» o que não dava muito jeito como estribilho, mas o que valia era a intenção. A coisa correu como devia e com a cumplicidade da população até que, chegando à portagem, quer o pica-bilhetes, quer o condutor, talvez combinados, agarraram-se com os dois braços à porta para não nos deixarem sair, a nós que ouvíamos já os «níveas» a virem a alta velocidade e em sentido contrário na portagem. Foi preciso um dos irmãos Póvoas dar um golpe de karaté improvisado no peito do condutor para sairmos todos a correr com um polícia anafado de pengalim atrás de nós. Subimos para o arco de Almedina e só parámos na universidade.

Ainda mais confrontos houve entre 1973/74. Eram quase diários, mas lembro-me um em que meteu cães e isso sim, assustámo-nos mesmo. Foi nas «eleições» de 1973 em que a oposição ligada ao MDP/CDE convidou o Teuc a apresentar uma peça «O Asno» (era Américo Tomaz, claro). Eu e a malta dos liceus fomos para o 1º Balcão para, quando começasse a peça, atirarmos cá para baixo comunicados contra a palhaçada das eleições. Fizémo-lo, mas perdemo-nos uns dos outros na confusão que se gerou com o chefe da polícia a vociferar as proibições que tínhamos de seguir para assegurar a «legalidade»: não podíamos falar da guerra colonial, nem falar do PR, nem do PM, nem, nem, nem...claro que a reação imediata foi «Abaixo a Guerra Colonial» e uma cena de porradaria em larga escala. Perdi a Guida, perdi um trólei que não abriu as portas para fugirmos, ia perdendo um sapato, e perdi a alma e a dignidade quando um polícia me agarra pelos colarinhos traseiros com o cassetete já bem levantado se recusa a dar-me uma bordoada. «Vai-te embora puto do c...que dou cabo de ti, vai para a tua mãe!». E, embora de cara imberbe, estou convencido que lhe lembrei alguém da prole! Perante o insulto de não me ter dado uma arrochada que ostentasse mais tarde as feridas da contenda aos meus companheiros, saí pela porta pequena, acabrunhado e a pensar na mãe salvadora e no polícia bom demais para ser verdade. Aliás, a meu favor, pensava que um chui que se recusasse a bater num estudante era, ele próprio, a metáfora do caetanismo. Em Lisboa, matavam estudantes. Ribeiro dos Santos foi morto a tiro e o Lamego alvejado numa perna. Aqui, batia-se à bruta, prendia-se, torturava-se, revistava-se, humilhava-se.

A casa aguentou ainda as mudanças brutais e necessárias de uma sociedade decadente pela Revolução de 1974. O 25 de Abril foi para mim inesquecível e estive três dias falho de sobriedade tal era a alegria e a possibilidade de construções várias o que se prolongou por dois anos do gloriosos Prec. Não voltei a ser o mesmo, nem o meu avô. Criou-se uma barreira fria entre mim e ele. A primeira expressão que me atirou foi um «Estás satisfeito»?». A minha resposta foi um enorme sorriso. Que ainda hoje perdura quando estou com amigos desse tempo ou quando me recordo desse dia «inteiro e limpo» como soe dizer-se por via da maior poeta, Sophia.

Esta casa a que me foi atribuído ser o último cabeça de casal, guarda ainda os cheiros a primavera do jardim que entravam na minha pequena janela do quarto, como o cheiro da terra das chuvas de verão e dos invernos frios onde passava noites a ler. Ao ver esta casa e a aproximar-me, hoje, dela vem-me à ideia ter sido o último cabeça de casal, repito. Há toda uma história para trás que me deixa inquieto por já estarem todos mortos e que nunca consegui decifrar, principalmente os silêncios. Do meu tio avô Luís que fugiu de um campo de retenção de estrangeiros na Áustria nazi, de um suicídio de um irmão do meu bisavô no mar da Figueira, diz-se que por ser da Maçonaria, do meu próprio bisavô e da sua estadia longa (mas não tão longa assim) no Brasil e que se meteu em trabalhos, do pensamento do meu avô que criou a Mocidade Portuguesa em Coimbra e que tinha assinado por Mussolini o seu «Testamento Político», mais a sua admiração por Salazar de que tinha sido aluno no Curso de Direito que abandonou, substituindo-o por Clássicas. Pergunto-me porque falava ele de Proudhon com admiração. Mais tarde soube de uma corrente fascista que enaltecia o filósofo, mas o meu avô remetia-se sempre ao silência da austeridade e da frugalidade. Eu não era como ele, decididamente. Tirando o amor que tinha pela minha tia, a minha melhor companheira daquela casa já vazia e sem alma nos seus últimos anos, não guardo afetividade. Embora olhe para ela da Rua do Brasil e sinta que eu poderia estar ainda lá. Talvez mais gordo, provavelmente sozinho, frio como gelo, rodeado de recordações e dando corda a um relógio cujas badaladas suaves me lembravam uma águia nazi.

António Luís Catarino

 

A necessária autodefesa antifascista

Qualquer «autodefesa», qualquer «antifascismo» são conceitos recuados porque nos fazem desviar-nos de objectivos essenciais, daqueles que verdadeiramente transformam o mundo. No entanto, hoje, e também no espaço europeu, seja lá o que isso for, o fascismo mostra os dentes e alarga-se a todas as esferas. Não que seja uma novidade: o fascismo que é um estádio de um capitalismo em crise estrutural (os conjunturais até lhe dão jeito) serve-se deste sistema para ocupar o lugar dos regimes úteis como a social-democracia, o socialismo «democrático», a democracia-cristã, o liberalismo e por aí fora... ou seja, quando o capitalismo entra em sérias convulsões não só de representação, mas como de legitimidade e eficácia o fascismo torna-se uma arma do capitalismo: ameaça, ataca, morde, tortura e mata.

Daí, a autodefesa antifascista ser uma hipótese séria também de ataque aos fascistas. Não lhes dar tréguas, criando redes de solidariedade e afinidade entre antifascistas que os combatem. A autodefesa servirá para que haja avisos sérios para os fascistas terem conhecimento e sentirem na pele, que todo o ataque a um  revolucionário, a um comunista, a um antifascista, ou por «critérios» racistas e de género serão castigados e terão a resposta adequada.

É importante a constituição de redes de afinidade e de autodefesa que tenham por objetivo a construção de linhas de atuação com base na atividade física, festas, caminhadas, reuniões, edições de boletins de informação, aulas de contacto e autodefesa, etc... a não ser assim, o conceito de autodefesa pode ser uma proposta vã. Saudável, mas vã.

«Barranco de Cegos», de Alves Redol

Barranco de Cegos, de Alves Redol, é uma edição da Caminho, 13ª ed. Editorial Caminho/Leya

«Chicote e açúcar!», lema de Diogo Relvas, personagem principal de «Barranco de Cegos», latifundiário do Ribatejo cujas terras se alargam até muito ao sul do Tejo, neto de um lavrador que enriqueceu com a Guerra Civil de 1832-34 tomando o partido dos liberais e aproveitando-se do fim dos morgadios e terras da igreja e dos conventos. O pai de Diogo Relvas também ele de ténues sinais liberais comprou ao desbarato terras da Companhia das Lezírias levadas a cabo pela Regeneração aumentando o pecúlio já enorme da família e de Diogo. Homem bruto, como convém, a qualquer latifundiário que se preze, preocupa-o o liberalismo e abraça de mansinho o absolutismo bem descrito nas cabeças embalsamadas dos dois cavalos que mantém na sua sala: um cavalgou-o D. Pedro, o outro, o mano Miguel.

Mas a luta é outra em todo a obra de Alves Redol neste excepcional «Barranco de Cegos». O embate duro é entre a lavoura e a indústria nascente como seu rol de corrupção, de acções ganhas por especulação, por entendimentos políticos em Lisboa (uma babilónia de pecados que ele próprio pratica quando lá se desloca amiúde), por escândalos bancários em convivência real, por negociatas em torno dos caminhos de ferro que esventram o país de lés a lés e, para mais, o apetite da Inglaterra e Alemanha pelas colónias. «Ainda nos calha outros brasis!» explode Diogo Relvas nas suas arengas na Sociedade da Lavoura perante os que o aplaudem à frente, mas que vão negociando, em segredo, acções na indústria florescente e apoiada por fundos bancários. A agricultura já não pertence a este país. O que vier se verá!

Entre crises políticas e financeiras sucessivas como o ultimato inglês de 1890, a revolta republicana do 31 de Janeiro de 1891, a bancarrota de 1891/92, Diogo Relvas pensa que a monarquia enfraquece a cada dia que passa. E tem razão até 1908 quando D. Carlos e Luís Filipe são assassinados no Rossio. Não que o choque muito, porque já virado para o futuro, culpando antes o ditador João Franco por brandura e cedendo aos republicanos. Para ele a permanência da monarquia é uma quimera perdida. Lúcido (e como Diogo Relvas convoca a lucidez sempre para si) vê a solução na ditadura.

Não creio que Alves Redol tenha grande amor pelos republicanos. Muito menos por monárquicos em decadência exposta. Pelo menos não o demonstra neste livro. Já com a Associação dos Valadores pressente-se a sua simpatia por um povo que fez crescer os frutos de uma terra árida e pedregosa que Diogo Relvas os presenteou por três gerações (a enfiteuse ibérica que substituiu o feudalismo europeu?). Aí, a sua raiva e violência vem ao de cima com a capacidade do povo em organizar-se e fazer valer os seus direitos. Ameaça, manda prender, manda espancar matar. O mando dos latifundiários retratado brutalmente por Redol.

Ao mesmo tempo que o chicote se sobrepõe ao açúcar de Diogo Relvas e clama por uma ditadura que há-de vir, graças aos céus e aos lúcidos como ele, a vida afasta todos os seus - os da família e os apaniguados - e a loucura do neto que lhe sucede acompanha a comédia da sua morte escondida como aos cavalos dos reais irmãos desavindos em guerra civil de outrora: empalharam-no num embalsamamento a que a natureza lhe deu o fim com luz e vento: reduziu-o a pó.

O povo português foi durante muito tempo tratado a «chicote e açúcar» tal como no Brasil escravista ganhava a «porrada e feijoada». Não sei se haverá alguma percepção geral desse facto que durou séculos de infâmias, violências, humilhações e dominações sexuais, em que o estupro e a violação de mulheres era uma constante pelos mais poderosos. Também não sei se haverá vontade política para que, através da escola e dos responsáveis da cultura deste país, o relembrem ou sequer lhe dêem a visibilidade que, na obra de Redol (e conheço-a pouco) é mais que merecida. E não me venham com o rótulo estafado e redutor do neo-realismo, embora este tenha existido com invulgar fulgor numa terra de iletrados e abraçado pelos subjugados. Sabe-se porquê: era a resistência. Mas isto é pura literatura que deve ser lida e relida.

António Luís Catarino


«Vozes ao Alto! 100 Histórias na História do Partido Comunista Português» AAVV



E chegou-me hoje! «Vozes ao Alto! 100 Histórias na História do Partido Comunista Português». Culpadas/os: Adriano Miranda, Cristina Nogueira, Egídio santos, Isabel Nogueira, Maria Alice Samara, Paulo Pimenta e a querida amiga Vanessa Almeida.
O livro, graficamente muito bem trabalhado, divide-se em três secções qual delas a mais empolgante: a da legalidade (1921-1926), a da clandestinidade (1926-1974) e a da liberdade (1974-2021).
Uma obra excelente que obriga à consulta constante, até porque nos revemos em muitos dos objectos lá descritos e fotografados. Uma antropologia do PCP e da História deste país.

Nota Breve: A 4ª secção, digo-o eu, e ainda não publicada, podem pedir a Isaac Azimov, Stanislav Lem, Ursula Le Guin ou ao Marques Mendes (futurologista conhecido), mas creio que é o melhor perguntar aos primeiros mesmo que estes não respondam de imediato.