Seuil, 1964.
Mais Rousseau, agora e segundo Georges May, «por ele mesmo» o que significa voltarmos às sua «Confissões» já aqui analisadas. De qualquer modo, estamos perante uma biografia bem desenhada com vastos recursos para um livrinho sintetizado e com interessantes gravuras que acompanharam as primeiras edições das obras do filósofo. Filósofo? Segundo Rousseau, não; ele não se considerava um deles, embora a sua hostilidade para com Voltaire fosse conhecida e sempre por causa das ideias, tal como Diderot de quem se afastou paulatinamente, ou de D'Alembert com quem teve discussões bastante acesas por causa de artigos para a Enciclopédia (Rousseau colaborou na entrada de música), não falando de Hume com quem se travou de razões deixando de falar com o escocês que até o tinha ajudado quando houve uma ordem de prisão francesa contra ele. Incompatibilizou-se também com Montesquieu. Rousseau não se via sequer como escritor, já que execrava os romances e os literatos da sociedade que frequentava durante uma certa época da sua vida, tal como não se considerava preceptor, músico, autor de libretos de ópera, botânico e autor de herbários, agricultor, professor, copista de música, o que lhe dava um razoável pecúlio ao final do ano. Todas estes ofícios experimentou e a todos eles recusou ser artífice.
De resto, e nesta viagem por livros sobre Rousseau, ficamos com uma impressão um pouco negativa da sua pessoa. Não pelas suas evidentes e reconhecidas contradições, pois todos nós as temos, mas por muito do que disse nas suas Cartas, Discursos, Passeios, Projectos, Contratos. Algumas destas cartas endereçadas a este ou àquele são verdadeiros tratados filosóficos, mas a teimosia, o isolamento e, talvez, o rancor de Rousseau levaram-no a ser classificadas assim. Nunca como tratados. Mais: Émile, Heloïse, Sophie, Saint-Preux, ou são seus alter ego, amantes ou os filhos que rejeitou. É uma realidade que não escapa ao leitor de Rousseau: autor de uma modernidade política inigualável com o seu «Contrato Social», é um autor para quem a democracia tal como a vemos hoje, lhe traria algum desconforto, senão mesmo hostilidade. Admirador de Sólon não nos causaria demasiado espanto que a eleição dos representantes de um povo só se efectuasse por um escol, numa espécie de colégio eleitoral cidadão. Tido como revolucionário, posicionou-se contra os motins e revoltas de Genebra a que assistiu, porque detestava a desordem. Inovador na questão da educação e pedagogia de crianças e jovens, foi um preceptor austero não pondo de lado alguns castigos físicos; tal como a sua veia violentamente antifeminista e que entendia que as mulheres não deveriam ter acesso à educação, por falta de génio, de inteligência, de concentração e seriedades intelectuais. Ele, que viveu sempre sob o manto protector das mulheres. O mais inquietante, contudo, em Rousseau é que todas as suas «Confissões» têm como objectivo, bastante visível até, de conceber uma unidade coerente ao seu pensamento, plasmado em vários escritos e, em última análise, justificar-se perante a sociedade do seu tempo que não lhe perdoou algumas diatribes, nomeadamente a questão dos seus cinco filhos dados para adopção ou a sua constante mudança do calvinismo em que foi criado para o catolicismo e, depois, para o deísmo. Mesmo a questão mais consensual na sua filosofia como teria sido a Razão, mesmo esta, permaneceu num estranho limbo, em que Rousseau manteve uma posição dúbia, mostrando até alguma distância daqueles que a reivindicavam como a salvação da Humanidade por entender que preferiria a contemplação natural e interiorizada, uma espécie de «rêverie» imaginativa que levasse à bondade da pessoa, que resgataria assim a fórmula do já conhecido «bom selvagem» e se afastaria da corrupção que a sociedade lhe provocaria. Não sendo a conquista da razão o alfa e o ómega dessa mudança, seria então uma espécie de transformação interior da pessoa a levar a sociedade por melhores caminhos. Isto, até ele afirmar o seu contrário. Mas não desdenhemos assim de Rousseau: foi um tipo que poderia ter tudo, mas que recusou as prebendas dos mais fortes pelo que defendeu e eles sabiam o perigo que representava, não duvidemos disso. O que aconteceu na vida do filósofo foi um desgaste contínuo na sua resistência, para além de uma doença renal incapacitante; foi detido, teve um mandado de prisão de que poderia não se salvar, foi exilado, teve violentas contendas que o deixavam fortemente deprimido, teve de recorrer variadas vezes à fuga, foi expulso de cidades e países, das suas casas, foi inclusive lapidado por populares em Môtiers. Se compararmos esta vida com a de outros filósofos iluministas e racionalistas, perceberemos melhor de que foi feito Rousseau e o seu apego à natureza e ao isolamento, muito diferentes dos salões parisienses. Devemos-lhe isso.
alc
