quinta-feira, julho 30, 2026

"O Passeio", Robert Walser

 

Antígona, 2026. Tradução de Bruno C. Duarte. Ilustrações de Pierre Pratt.

«O Passeio» é um livro maravilhoso de alguém, como Robert Walser de quem não desisto de ler e conhecer mais profundamente que outros autores; não só passeia como parte fundamental do ofício de escrever, como diz de si próprio que mandria, que ao nada fazer tudo observa como um gosto imenso pelo mundo, não abandonando, contudo, um sarcasmo elegante. Um passeio, para ele que morreu exactamente numa caminhada na neve, em 1956, e nas redondezas do hospício onde estava internado, em Herisau, na Suíça. Andar e ver era, para ele, a verdadeira vida, onde tudo acontecia como o perturbador olhar de uma mulher bela a quem se dirigiu e disse-lho com o cuidado do desconhecido, do bater rápido do coração antes de saber qual a reacção dela e de quem não mais esqueceu o seu olhar. A ida aos correios para uma carta veemente para um indivíduo e que o obrigou, contudo, a pedir perdão aos leitores dessa mesma afronta visto que ele também mereceria alguns reparos pelos erros e malfeitorias do seu passado, de ofensas que teria feito a outros, uma rocambolesca viagem às Finanças ou observar a alegria incontida das crianças que brincam, livres, e o arrojo dos automóveis que as impedem de atingir essa mesma liberdade que, mais tarde, a vida as impedirá de conhecer. Que lição de vida este livro que em boa hora a Antígona publicou com excelente tradução. «O Passeio» é para se ler de uma vez só para, posteriormente, termos a possibilidade de nos cingirmos a algumas frases e situações tão belas quanto inspiradoras. As pequenas coisas tornam-se sublimes em Walser, não há maneira de negar o óbvio quando nos dispomos a conhecê-lo em toda a sua obra inesquecível. Li-o de uma assentada, ou seja, num único dia e sublinhei mais tarde algumas passagens que me pareceram importantes; isso não me impediu que, numa nova releitura, me tivesse disposto a sublinhar outras, até que o livro todo fosse um enorme sublinhado, o que deixava de atingir o objectivo que me levava a fazê-lo. Não o façam. Eximam-se de o sublinhar. Todo o livro é de uma enorme empatia para connosco. Que livro e que escrita!
Robert Walser. António Luís Catarino, 2025. Desenho a tinta-da-china.

«(...) ''Porque estou aqui a colher flores?'', perguntei a mim mesmo e olhei melancolicamente para o chão, e a delicada chuva amplificou a minha melancolia, elevando-a à tristeza. Vieram-me à mente velhos erros do passado, traição, ódio, despeito, falsidade, perfídia, maldade e toda a espécie de atitudes ofensivas e desagradáveis. Paixão desenfreada, desejos delirantes, e a forma como tinha magoado tantas pessoas, como tinha agido injustamente. Como um palco repleto de cenas dramáticas, a vida passada abriu-se diante de mim e, sem querer, não pude deixar de me assombrar com as minhas inúmeras fraquezas, com todas as indelicadezas e crueldades que havia demonstrado. (...) Ao olhar a terra, o ar e o céu, ocorreu-me o sinistro e inevitável pensamento de que eu era um pobre prisioneiro entre o céu e a terra, de que todos os seres humanos eram lamentavelmente prisioneiros dessa mesma maneira, que para todos havia um único caminho sombrio, que era descer pelo buraco, pela terra adentro, que não havia outro caminho para o outro mundo senão aquele que passa pelo túmulo. (...) Fiquei ali deitado longamente, perdido em vagos pensamentos, até que voltei a lembrar-me daquela jovem, que era tão bela e plena de vigor, que tinha uns olhos tão doces, bons e puros.» (pág.107-109) 


Robert Walser num passeio. António Luís Catarino, 2024. Pen e colagem de um trecho de escrita miudinha, a lápis, de R.W. muito difícil de ser decifrada.

alc

quarta-feira, julho 29, 2026

"Sinais de Fogo", Jorge de Sena

 

Col. Mil Folhas, Público. [1ªedição póstuma, 1979], 2003.

Li-o nos anos 80 e não me lembro já das impressões com que fiquei, mas não foi coisa extraordinária. Hoje, numa época em que me interesso pelas releituras que fiz, tenho a certeza de que «Sinais de Fogo» me perturbou o suficiente para afirmar que o romance cumpriu o seu dever. Portanto, estamos perante uma obra ímpar. O que para mim é novo foi ler a longa introdução de Mécia de Sena que nos informa que um livro que foi póstumo (Jorge de Sena morre em 1978) iniciou-se em 1964 pelas mãos do poeta e escritor, sem que se ponha de lado a hipótese de ter sido escrito em cadernos logo nos finais dos anos 30. Mécia de Sena considera-o inacabado e não revisto completamente por Jorge de Sena, o que nos leva a observar algumas incongruências em nomes de personagens que se trocaram e repetições, para além de longos pensamentos paradoxais e íntimos que nos lembram muito o «jogo» psicológico pessoano. 

Seja como for, seria impublicável durante o Estado Novo e mesmo na sua continuidade como foi o do marcelismo, desconhecendo eu se essa quase certa censura seria por motivos políticos, por pudor ou ambos. Penso que por ambos os motivos. Todos os que conhecem Sena sabe que «Sinais de Fogo» se passa na Figueira da Foz, abrange o ano de 1936 e o início de 1937, a Guerra Civil de Espanha atravessa-o e obriga as jovens personagens de uma burguesia politicamente dividida e em crise moral, a optarem por um dos lados. Ninguém é neutro ou consegue sê-lo. Mas Jorge, a principal personagem, não é um libertino, um livre pensador. É, antes, o retrato fiel de um filho de «boas famílias», femeeiro, por vezes até cruel, perfeitamente ambientado aos costumes burgueses de uma moral hipócrita, subterrânea, que permitia aos mais ricos violar criadas, apoucar e ameaçar homossexuais, falar de política enquanto se participa numa orgia, «possuir» mulheres... Aliás, o verbo «possuir» é repetido à exaustão, mesmo quando Sena descreve uma relação amorosa «quando dois corpos se tornam um», o que não deixa de nos surpreender. Quem possui quem? Diz-nos Mécia de Sena, que foi a guardiã abnegada do espólio de Jorge de Sena, que não se trata de um romance autobiográfico, mesmo que algumas personagens tenham existido de facto, como o inesquecível Justino. Como também afirma que ela não é a Mercedes do romance, única personagem plenamente livre, pela escolha individual que faz, não pelo jugo familiar que se abate sobre ela. Em todas as páginas a violenta ditadura dos anos 30 imposta por Salazar, logo após a Constituição plebiscitada de 1933, estava claramente em ascensão e, historicamente, ela surge-nos como uma «ditadura de massas» coisa que o ditador demoraria pouco a pôr-lhe fim, apoiando-se nas polícias, mocidades e legiões, bem enquadradas para perseguir, prender, torturar, fazer desaparecer, matar.

Mas sobre o romance em si, e o seu carácter sórdido impossível de esconder porque espelho de uma sociedade assim, prendamo-nos antes nas palavras do próprio autor:

«Quando eu correspondera à imagem de mim que ela [Mercedes] aceitara noutros, e lhe impusera, em troca, mais ou menos que a minha pessoa,, o meu corpo, eu abdicara de tê-la como pessoa, porque ela não podia ser uma pessoa dentro de uma imagem, do mesmo modo que eu não podia possuir a minha própria imagem. Mas quem não seria, no amor dos outros, todas as imagens de pessoas com que elas tinham sonhado? Quem era si mesmo nas imagens dos outros? Não era, afinal, a mulher ideal ou o homem ideal o que procurávamos nos outros; mas nós mesmos nos idealizávamos, éramos idealizados com a imaginada realidade dos que, se sonhados, não haviam sido possuídos, ou que, se possuídos, não tinham sido sonhados. Esta idealização não tinha nada que ver com pureza, com inocência, com gratuitidade. Era, pelo contrário, uma soma, uma acumulação, uma confusa mistura de toda a sordidez que não nos atrevíamos a sonhar nos outros ou pelos outros (...)» (pág.259)

alc

sábado, julho 18, 2026

Flauta de Luz, nº12

 

Flauta de Luz, nº12. Julho de 2026

Mais uma número imperdível de «Flauta de Luz», agora a número 12, publicada com o trabalho de Júlio Henriques e de Joëlle Ghazarian. São 360 páginas de qualidade ímpar para quem o inconformismo anda a par com uma vida de recusa ao Estado e à ordem capitalista tenha ela a forma em que se apresente. Seja a ordem do mercado ou a burocrática. Os temas são tão díspares, quanto são os ataques desta ordem à humanidade. O diagnóstico está feito e parece-me que esta revista não faltarão as fórmulas libertadoras de quem assume essa recusa.

Júlio Henriques assina uma importante análise social da conjuntura na região portuguesa, mas tenham igualmente presente as contribuições de Jorge Leandro Rosa «Pensar a Guerra Enriquece e Ilumina», de Chris Hedges «Declínio e Queda do Império Americano», de Franco Berardi «Introdução ao século XXI», um artigo de Robert Kurz «Imperialismo de Crise», de Joëlle Ghazarian «Esboço (de uma mulher) sobre a Guerra» e «Uma Espécie de Movimento de Fundo», de Pedro Levi Bismark «Primo Levi, Memória e Destino», de Charles Reeve «Educar para Submeter, Socialismo Autoritário e Fascismos», um esclarecedor artigo de Erik Corrêa «Uivos para Sanguinetti» que esclarece muito do que se passou entre este e Debord, um importantíssimo artigo de Phil Mailer (tem editado o novíssimo «Portugal, a Revolução Impossível», pela Antígona) «Obsceno Fascínio da Internet», de Júlio do Carmo Gomes «Kopenawa em Berlim, Quem não Beija não Manduca», de Ivan Illich «Declaração sobre o Solo», e mais artigos entre os quais se contam Anselm Jappe, John Berger, Wendell Berry. 

E três pequenas, mas significativas, notas sobre o âmbito cultural e interventivo da Centelha de Coimbra, mais tarde Fora do Texto, e cujo papel agregador na pessoa de Soveral Martins foi destacado pelo Eduardo, por António Martins e por mim próprio.

Atenção especial ao grafismo e ilustrações que povoam este número de Flauta de Luz.

alc

"O Belo Verão", Cesare Pavese

 

Livros do Brasil, 2021. Tradução de José Lima. 

Li um livro belo, consequência lógica da procura pela obra de Pavese. Lá estão as mulheres e as colinas, forma de fugir às cidades, os cafés sombrios e as ruas dispostas pelas ambições e frustrações humanas. O Sol vigoroso e o calor que faz explodir os sentidos, mas igualmente o frio de Inverno com que acaba o romance. A neve que tapa a nudez da modelo. Duas mulheres radicalmente diferentes, dois homens estranhamente iguais, com comportamentos padronizados. Nesse aspecto compreendemos bem Pavese e o que ele nos oferece dizer sobre as mulheres. Os diálogos são breves, como que amalgamados nos sentidos das personagens. Pouco se diz, muito fica por dizer, mais intuímos na continuação  das situações criadas. As descrições precisas obrigam-nos ao recurso da imagem, enquanto as palavras fluem como os diálogos. Sem quase adjectivos, somente a palavra exacta.

Não me canso de ler Pavese. 

alc

segunda-feira, julho 13, 2026

«Ora Esguardae», Olga Gonçalves

 

Olga Gonçalves (1929-2004)
Leio «Ora Esguardae», livro que gostei bastante de ler quando foi publicado em 1982. Hoje, releio-o não já com o entusiasmo da altura, quando ainda se acreditava vagamente que a democracia parlamentar se teria consolidado numa revolução social então em regressão e a que se chamou, mal, de «prec». Nunca aderi a este acrónimo meio tacanho, aceitando-o contudo por facilitação: aqueles dois anos e meio foram, antes de tudo, uma reposição violenta das condições sociais baseadas na justiça e na liberdade, contra aqueles que durante décadas foram os plenipotenciários disto tudo. Foi uma revolta dos de baixo. Foi a reposição possível do comum da vida. Da dignidade, também. 

O que isto, assim dito, terá a ver com «Ora Esguardae» que quer dizer no antigo galaico-português «olhai e vede»? Tudo. Porque ler esta obra insere-se numa forma de escrita pouco estudada ainda: a de uma literatura social pós-revolução. Hoje achamo-la extremamente ingénua, perguntando-nos como foi possível esta torrente de palavras, grande parte delas quase de improviso, plena de tentativas de inovação literária, rechaçando a página e partindo-a em colunas, propondo-nos poesia a meio da prosa, diálogos infindáveis. A forma e conteúdo em sério confronto. No final, admiramo-nos com as preocupações pedagógicas de Olga Gonçalves (e de muitos outros e outras autores e autoras dos anos 70 e 80) sobre a construção de um país novo, mesmo que corra a risco óbvio de se tornar uma literatura assente em casos conjunturais, muito delimitados. Quem sabe hoje quem foi Mota Pinto ou Nobre da Costa? Mas não é isso o principal dos temas apresentados: a guerra colonial, a repressão da Pide e do Estado Novo, a censura, cujo texto sobre ela foi das coisas mais bem conseguidas de «Ora Esguardae», a reforma agrária e os partidos políticos, as proclamações da liberdade e por aí fora. Este livro foi escrito em 1981, por ironia com uma bolsa literária dada pela Tinker Foundation de Nova Iorque e escolhida por Urbano Tavares Rodrigues, o Tio Urbano, para uma colecção intitulada de «Grandes Escritores Portugueses Actuais» da... Planeta Agostini! No início da década de 80, as coisas já estavam assim, como que a formar um limbo político-comercial em que tudo seria possível. A ingenuidade aparece, consolida-se, quando se não estabelece um padrão de liberdade em que o dinheiro possa ter uma papel neutral. Não tem, nunca teve.

alc

sábado, julho 11, 2026

"Hotel Roma", Pierre Adrian

 

Gallimard. 2024. Col. Folio, 2026.

Um escritor francês ainda pouco conhecido, nascido em 1991, escreve sobre Cesare Pavese. E de que modo o faz! Muito bom seguir os passos de Pavese por onde ele nasceu, trabalhou, passou férias com Calvino, Einaudi, Elsa Morante, Natalia Ginzburg ou Antonioni, lendo cartas breves aos que amou e às mulheres que o descartaram, deslaçando o seu feitio difícil, introvertido e insone. Ele, que compreendia bem as mulheres, com aquelas que privou tomavam-no por um tipo aborrecido, pouco dado a divertimentos. Ler uma obra como esta dá-nos uma confiança que, por paradoxal que possa ser esta afirmação, uma biografia «oficial» não nos daria. Porque estamos perante uma romance admirável sustentado por fontes próximas de Pavese, pelo visionamento de filmes de Antonioni e de outros dos anos 40 e 50, em que teve uma profunda influência, pela leitura atenta de cartas e de trechos dos seus romances que podem dar-nos pistas sobre a sua vida e morte em 1950. Cesare Pavese não deixa de ser um mistério adensado por cada obra que dele se lê. É mais que um enigma, é uma vida constante e o que ela contém de misterioso, perseverante, por um mundo que já não era o seu, como acontece com todos nós chegados a uma certa idade. Com ele foi-o desde sempre. Aquele mundo não era o seu, nunca o foi. A Itália de Resistência, finda a guerra, não lhe levou a mal o seu aparente afastamento. Nunca seria um verdadeiro ''partigiani d'Italia'' já que evitava qualquer conflito, era um pacifista nato, embora próximo do PCI e do seu L'Unità, cuja redacção visitava com frequência, quando não se encontrava na Editora Einaudi. Aliás, chegou a inscrever-se numa secção política de Turim. Era aquilo que se podia chamar de um militante anti-militante, um homem que escreveu o melhor que se poderia ler contra a guerra, pela justiça social e por uma profunda desconfiança no chamado progresso. Preferia subir as colinas com o seu cão e fumar o seu cachimbo, enquanto observava tudo e sentia o sol do Piemonte.

Todos os romances movidos por uma personagem central deveriam ser escritos assim: em viagem, como o fez Pierre Adrian, sem fôlego, mas que nos deixa um rasto de dúvidas e questões impossíveis de resolver a não ser no nosso íntimo. Aí, tudo é resolúvel, as coisas esclarecem-se sem que sejamos suficientemente desbocados para o dizer. É o que acontece com «Hotel Roma», um hotel em Turim transformado em ícone, entre uma estação de comboios, local de partidas constantes, e a casa da sua família há anos. Num domingo, a 27 de Agosto, no quarto 46, Pavese foi encontrado sem vida por um jovem trabalhador do hotel. O seu funeral, conta um amigo ainda vivo, Ferrarotti, contou com imensa gente, embora a Turim que o enlevou se tenha esquecido dele: na livraria ''La Bussola'' na Piazza Vittorio Veneto, que Pavese frequentava bastante, Adrian e uma companheira de viagem, perguntam por obras de Pavese. Depois de uma procura acompanhada pelo sibilar de «Pavese...Pavese...» o livreiro disse que não tinha nada dele. Não é caso único, as livrarias estão como estão e em toda a parte assim é.  

Há uma carta de Italo Calvino a Isa Bezzera, sobre o suicídio de Cesare Pavese, que valerá a pena traduzi-la aqui, mas, obviamente, não toda. Talvez aquela parte que demonstra a perda absoluta que significou o desaparecimento do escritor para Calvino:
«- Perguntar-me-ás, como toda a gente: ''Mas por que é que ele se matou?'' Aqueles que o conheceram ficaram petrificados com a notícia, mas não surpreendidos: Pavese era tentado pelo suicídio, desde a sua adolescência, como pela solidão, as suas crises de desespero, a insatisfação que lhe inspirava a vida, o conjunto dissimulado pela sua natureza fugidia e regressiva. Mas completamente revoltado, eu julgava-o, quanto a mim, que ele era verdadeiramente um duro, um coriáceo, uma trincheira: o género de pessoa em quem se pensa a cada momento de desespero, para se ganhar coragem: no entanto, Pavese manteve-se firme.» (pág.196)

Assim é. Talvez agora se esteja preparado para o «Ofício de Viver», obra póstuma de 1952.

alc

quinta-feira, julho 02, 2026

"A Lua e as Fogueiras", Cesare Pavese

 

Público, col. Mil Folhas, 2002. Tradução de Manuel de Seabra

De Cesare Pavese li, em tempos já remotos, «O Cárcere» e «O Camarada», este último quando era um indefectível jovem militante. O que não esqueci foi a onda de dúvidas que me assolou, quando pretendia exactamente o reforço dos meus ideais que julgava incólumes, indestrutíveis. Não esqueci Pavese, tal como Roger Vailland com o seu «Um Homem Só». Foram livros, e não só esses, que me inocularam a inquietação de pertencer a um partido quer de resistência política, quer de cariz revolucionário. Não aceitava de bom grado, sem mais, algumas das decisões «de cima». Não abandonei, contudo, quer a resistência, quer a revolução. Acredito nelas como construção, como saída, como acção para a liberdade e igualdade. 

Estamos na Itália de 1950, no pós-guerra e já pressentimos a desesperança de Enguia, retornado da América para onde emigrou para fugir à miséria e ao fascismo de Mussolini, e que interrogava Nuto, seu amigo de infância e resistente, por que ficaram a meio de uma mudança política e social que se queria mais profunda nessa Itália a contas com a vingança popular contras os «camisas negras», principalmente a partir de 1943. A ocupação alemã até ao 25 d'Aprile de 1945 fez correr quase tanto sangue como nos quatro anos anteriores. A luta de classes aí está descrita, as opções políticas que obrigavam a um fim quase sempre trágico, de ambos os lados, mais a mais quando se tem um país ocupado pelos alemães, o fascismo não completamente morto, ele nunca está de facto, e a miséria ainda a grassar teimosamente entre os camponeses sem terra, ou com rendas e deveres exorbitantes pagas aos terratenentes ricos. Os operários, esses, levantavam-se em lutas sindicais enquanto se empenhavam simultaneamente na reconstrução e na possibilidade dos comunistas chegarem ao poder por via eleitoral.

Há uma leve nostalgia neste livro de Pavese, até porque foi o seu último. Provavelmente já sentido a morte que se aproximava pelo suicídio no exacto ano de 1950, data da publicação de «A Lua e as Fogueiras». Estas fogueiras não são somente as de S. João, mas todo o fogo tomado pela violência que a miséria suscita. Tal como as hordas fascistas que se reciclaram em democratas, apesar dos fuzilamentos, apesar dos tribunais populares, apesar da resistência e acção de desfascistização levada a cabo pelos partigiani

E nós, em Portugal, fizemo-la? Pergunta que é impossível não a circunscrever perante a leitura atenta de «A Lua e as Fogueiras». O tão necessário julgamento dos torcionários do fascismo luso, dos crimes do colonialismo e da guerra colonial, das torturas como sistema, da morte programada de resistentes, da censura, da acção da PIDE e da Legião? Fizemo-la? Não creio que alguma vez houvesse coragem de praticar séria e coordenadamente a dessalazarização do país, nas escolas, nas instituições, na saúde, na assistência, na justiça, na cultura. Alguém a travou e não foram só os cravos a entupirem as G3, como nos lembrava, a tempo, Mário-Henrique Leiria. Houve na Alemanha, na Itália e no Japão. Os que não tiveram esse percurso deu-se mais facilmente o recrudescimento do fascismo, como na Áustria (aqui não houve desnazificação) e na Europa de Leste, malgrado terem tido quase 50 anos para o fazer, embora o nacionalismo condicionasse por vezes o combate ao fascismo como deveria ter sido feito. Na URSS e na RDA os nacionalistas de direita não eram tão incomodados como a oposição de esquerda. Portugal e Espanha não o fizeram, optou-se pela brandura e esquecimento e pela reconciliação hipócrita. Nunca houve uma reconciliação sequer, mas sim um prolongamento do rancor. Pagaremos por isso? Claro que sim e os nossos jovens escritores e artistas terão outros temas mais prementes a serem discutidos do que este. Se na Itália não é verosímil, mesmo com um governo de extrema-direita um qualquer topónimo que lembre Mussolini, se na Alemanha os familiares de Hitler e sequazes tiveram de mudar de nome, digam-me se neste momento, em Portugal, uma modesta proposta de erguer um museu-memória de Salazar era possível? Não só era possível, como já existe. Pavese, neste «A Lua e as Fogueiras» sem levantar estas questões (estávamos somente a 5 anos do fim do fascismo italiano) coloca-nos esta dilema verificando que mantinha, afinal, tudo na mesma. Tal como o seu suicídio, o dilema final mais violento que pode existir.

alc