Antígona, 2026. Tradução de Bruno C. Duarte. Ilustrações de Pierre Pratt.
«O Passeio» é um livro maravilhoso de alguém, como Robert Walser de quem não desisto de ler e conhecer mais profundamente que outros autores; não só passeia como parte fundamental do ofício de escrever, como diz de si próprio que mandria, que ao nada fazer tudo observa como um gosto imenso pelo mundo, não abandonando, contudo, um sarcasmo elegante. Um passeio, para ele que morreu exactamente numa caminhada na neve, em 1956, e nas redondezas do hospício onde estava internado, em Herisau, na Suíça. Andar e ver era, para ele, a verdadeira vida, onde tudo acontecia como o perturbador olhar de uma mulher bela a quem se dirigiu e disse-lho com o cuidado do desconhecido, do bater rápido do coração antes de saber qual a reacção dela e de quem não mais esqueceu o seu olhar. A ida aos correios para uma carta veemente para um indivíduo e que o obrigou, contudo, a pedir perdão aos leitores dessa mesma afronta visto que ele também mereceria alguns reparos pelos erros e malfeitorias do seu passado, de ofensas que teria feito a outros, uma rocambolesca viagem às Finanças ou observar a alegria incontida das crianças que brincam, livres, e o arrojo dos automóveis que as impedem de atingir essa mesma liberdade que, mais tarde, a vida as impedirá de conhecer. Que lição de vida este livro que em boa hora a Antígona publicou com excelente tradução. «O Passeio» é para se ler de uma vez só para, posteriormente, termos a possibilidade de nos cingirmos a algumas frases e situações tão belas quanto inspiradoras. As pequenas coisas tornam-se sublimes em Walser, não há maneira de negar o óbvio quando nos dispomos a conhecê-lo em toda a sua obra inesquecível. Li-o de uma assentada, ou seja, num único dia e sublinhei mais tarde algumas passagens que me pareceram importantes; isso não me impediu que, numa nova releitura, me tivesse disposto a sublinhar outras, até que o livro todo fosse um enorme sublinhado, o que deixava de atingir o objectivo que me levava a fazê-lo. Não o façam. Eximam-se de o sublinhar. Todo o livro é de uma enorme empatia para connosco. Que livro e que escrita!
Robert Walser. António Luís Catarino, 2025. Desenho a tinta-da-china.
«(...) ''Porque estou aqui a colher flores?'', perguntei a mim mesmo e olhei melancolicamente para o chão, e a delicada chuva amplificou a minha melancolia, elevando-a à tristeza. Vieram-me à mente velhos erros do passado, traição, ódio, despeito, falsidade, perfídia, maldade e toda a espécie de atitudes ofensivas e desagradáveis. Paixão desenfreada, desejos delirantes, e a forma como tinha magoado tantas pessoas, como tinha agido injustamente. Como um palco repleto de cenas dramáticas, a vida passada abriu-se diante de mim e, sem querer, não pude deixar de me assombrar com as minhas inúmeras fraquezas, com todas as indelicadezas e crueldades que havia demonstrado. (...) Ao olhar a terra, o ar e o céu, ocorreu-me o sinistro e inevitável pensamento de que eu era um pobre prisioneiro entre o céu e a terra, de que todos os seres humanos eram lamentavelmente prisioneiros dessa mesma maneira, que para todos havia um único caminho sombrio, que era descer pelo buraco, pela terra adentro, que não havia outro caminho para o outro mundo senão aquele que passa pelo túmulo. (...) Fiquei ali deitado longamente, perdido em vagos pensamentos, até que voltei a lembrar-me daquela jovem, que era tão bela e plena de vigor, que tinha uns olhos tão doces, bons e puros.» (pág.107-109)
Robert Walser num passeio. António Luís Catarino, 2024. Pen e colagem de um trecho de escrita miudinha, a lápis, de R.W. muito difícil de ser decifrada.
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