quinta-feira, junho 18, 2026

«Morrer de Pensar», Pascal Quignard

 

Cutelo, 2026. Tradução de Diogo Paiva. Posfácio de Pedro Meneses e Cristina Álvares.
Pascal Quignard habituou-nos a isto: a um exercício profundo de leitura, desta vez sobre o pensamento e a individualização radical deste acto, certamente um acto de liberdade, assim como de conhecimento de si próprio. É sem dúvida um pensador em que a História se torna fundamental, tentando através da Crítica e da Filosofia urdir uma teia de questões que exigirão respostas o que, a existirem, serão quase sempre desconcertantes. É, talvez, e digo-o porque estou longe de conhecer os 90 livros que publicou até agora, dos mais densos que li dele e que por vezes exaspera, embora a curiosidade (um dos atributos do pensador quase sempre um leitor, segundo o autor) nos leve à persistente leitura de «Morrer de Pensar». Um dos pontos mais interessantes de Quignard, neste ensaio crítico, é a apresentação muito diversa dos étimos das palavras o que nos leva à decomposição da ideia que elas encerram. A Paidéia, a educação pela pólis, a Nóesis, como percepção cognitiva ou apreensão intelectual ou ainda a Alétheia, o que está mais perto da verdade, da verificação absoluta, são conceitos que nos levam directamente ao questionamento, à «guerra civil» dentro de nós que nos convida ao isolamento, pela impossibilidade de partilha comum. Daí todo o pensamento ser uma acção radicalmente só, um teste definitivo a nós mesmos reconduzindo-nos ao divórcio social, penoso mas simultaneamente necessário. Por outro lado, o pensamento é sempre uma projecção, um «sair para fora» que nos separa pela respiração; quando nascemos somos obrigados à inspiração e expiração, após libertarmo-nos do líquido amniótico. Todo o pensamento será então uma projecção, tal como a linguagem, para fora de si mesmo, o que levará ao conflito. Será isto que leva Pascal Quignard a  a firmar: «O cérebro copia o feto. (...) Cérebro e feto são criaturas aquáticas absorvidas num corpo, reviradas sobre si mesmas, inclinadas para o interior, escondidas da luz do dia, protegidas do ar.» E o acto de pensar, a nóesis, tem o seu êxtase quase de sentido xamânico, sem que isso não deixe de significar uma desconforto interior: «O pensamento deve ser apaixonante para aquele que o descobre na surpresa de descobrir. Nunca deve deixar de ser perturbador, ansiogénico, ansioso, conflituoso, traumático, ou então não pensa.» (pág.53).

Pascal Quignard liga, encadeia ideias e conceitos improváveis, aparentemente sem qualquer semelhança ou afinidade. Talvez seja esse um dos seus principais êxitos como autor muito traduzido: o sensação do espanto. Não sei se assim é. A forma como os autores do posfácio o classificaram, utilizando a designação dada por Dominique Viart, é a mais certeira: tratam-se de uma «ficções críticas», o que não deixa de ser verdade. Embora «Morrer de Pensar» não tenha provocado um grande entusiasmo perante um livro de Pascal Quignard, esse vai direitinho para «As Tábuas de Buxo de Apronenia Avitia» e «A Fronteira», não deixa de ser importante a sua leitura atenta.

alc

segunda-feira, junho 15, 2026

"Triunfo do Triunfo", Luísa Costa Gomes

 

D. Quixote, Março de 2026
Ler um novo livro de Luísa Costa Gomes é um exercício de controlo de comportamentos considerados quase anti-sociais. Se não vejamos: ler um livro em público, hoje em dia, num jardim ou café, é já considerado coisa estranha. Pior do que ler um jornal em papel. Se nos ativermos na leitura de «Triunfo do Triunfo» é bom não mostrarmos as emoções se considerarmos que rir, perante este conto homónimo, e em local público, poderá ser considerado sinal claro de menoridade mental acentuada. Digamos que rir, chorar, pensar enquanto se lê, não é pelos ajustes das sociedades hodiernas, a menos que seja frente a um telemóvel onde se podem revelar todas e quaisquer atitudes como falar alto e rirmo-nos à gargalhada, insultar ou ameaçar o marido ou a mulher, ver reels de porrada até avermelharem-se os olhos, suspirar por um encontro mal sucedido, tudo, desde que em telemóvel, será perdoado. Num livro proibir-se-á toda e qualquer interacção emocional porque não é bem de ver. Ora, ler este livro leva-nos direitinhos a esses arroubos literários de imediata conjunção às personagens desfiladas em cada conto. Todas elas diferentes, todas com segredos infindos, todas com desejos congruentes, explicáveis, genuínos. Saber que o herói improvável do conto «Triunfo do Triunfo», pessoa normal, portuguesa e tudo, deseja ser como «a média europeia» é todo um manifesto do paroxismo intelectual pátrio, uma louvável ascensão à mais fina filosofia eduardo-lourenciana, a um miguel-realismo de primeira água. Ser a «média europeia» tornou-se a mais alta aspiração de um português de gema, de um honrado e servil aspirante a político da praça, de um Inácio Carlos e de uma Cláudia Filipa, aspirantes a gestores de cemitérios modernos transformados em espaços para louvor da vida, um novo lifestyle que os portugueses demorarão a perceber não fossem as suas ideias eleitas em votação autárquica, sendo que «o facto de ter havido votantes já era uma grande vitória da democracia.» Luísa Costa Gomes é assim: livre, anárquica, justamente descendente do melhor do abjeccionismo luso, com olho de lince para o irrisório, o ridículo de que somos todos feitos. 

alc

quinta-feira, junho 11, 2026

"Nevoeiro", Pedro Eiras

 

Assírio & Alvim, Maio de 2026. 
«Que tempos são estes, em que é preciso defender o óbvio?» esta epígrafe, atribuída a Bertolt Brecht, remete-nos para o início desta investigação ficcionada que Pedro Eiras nos convida a seguir. Não é uma contradição nos termos. É o rigor a que tudo imprime Pedro Eiras, quer como professor de Literatura, quer como autor ou, ainda, como leitor inserido na polis, não disposto a uma neutralidade irritante que, ao contrário dos que muito defendem e praticam, afasta toda a gente. Nos tempos que correm, avisa-nos na sua Nota Final, que a memória é fundamental para compreender uma fatia importante dos factos que correm à frente dos nossos olhos. Trata-se de um conjunto de peças que são colocadas numa engrenagem a três dimensões. A engrenagem da crítica política, outra da Literatura e outra ainda da História de que é feita a memória enevoada ou, se quisermos, ficcionada através das evidências factuais. Essa memória foi construída, em «Nevoeiro», como se fosse uma bruma densa que inicia logo o primeiro capítulo. Fernando Pessoa, o Chiado, o palácio de S. Bento onde, em 1935, Salazar tratava de consolidar o Estado Novo numa Europa em convulsão e hipnotizada pelo autoritarismo. O levantamento paulatino desse nevoeiro é clarificado com o decorrer da leitura.

Pedro Eiras não cede. É este o seu estilo literário que assim escolheu para este livro, conhecendo-se o que antes foi editado e mesmo escrevendo em «Nevoeiro» que tem a liberdade de tergiversar nos campos infinitos da escrita, que não se pode remeter a um só formato. Chega a ser terrivelmente honesto connosco, leitores: «Por que motivo, então, adio os livros que desejo, e avanço nesta investigação sobre a escrita e o poder? Desisti mil vezes de escrever este livro, tão distante de todos os outros. Vez após vez este projecto de investigação assaltava-me, seduzia-me, assustava-me. E desistia, ainda antes de começar.» (pág.53) Adivinhamos alguma luta interior que atravessa um largo tempo, facto que seduz igualmente quem lê, pela intimidade que se abre. Com efeitos mais do que interessantes. Estamos perante um livro que se deve guardar e relê-lo de tempos a tempos.

Pedro Eiras não é neutral: contradiz os falsos baluartes do autoritarismo fascista de Salazar, admirador de Mussolini e paternalista perante o seu «enfant terrible» António Ferro, dado às vanguardas futuristas e modernistas e que conheceu Fernando Pessoa na Orpheu, tentando levá-lo para o Secretariado da Propaganda Nacional através da «Mensagem» a quem, ironicamente, foi outorgado o 2º prémio do seu primeiro concurso. Deixo-vos a liberdade de lerem com a atenção e entusiasmo que merece a segunda parte de «Nevoeiro» e entrarem na trama cuidadosamente elaborada por Pedro Eiras sobre Fernando Pessoa ortónimo e os seus heterónimos, mais as dúvidas, contradições e certezas deste. Também não é neutral sobre Os Lusíadas e Camões, como o não é para Vieira e Bernardes e sobre as violências coloniais de um Império que o salazarismo tentou mitificar, com algum sucesso para os tolos ou imbecis, diga-se. Tal como não é neutro, agora pela positiva, para Fernando de Oliveira, Diogo de Couto ou João de Castro que denunciaram, em pleno século XVI, as violências da escravatura e do Império. Sendo assim, este livro torna-se um importante libelo em torno da liberdade e da veracidade, tal como uma questão central da literatura pós-colonial, como seja o do anacronismo das críticas actuais sobre a violência do esclavagismo (já em 2009, Pedro Eiras tinha escrito «Um Punhado de Terra», uma peça de teatro que foi a palco no Porto sobre este mesmo tema). Em «Nevoeiro» podemos ler «(...) Mas qualquer leitura é sempre feita no presente; qualquer leitura é anacrónica - ou supercrónica. Nunca leremos Homero como na Antiguidade, nem Dante como na Idade Média, nem Shakespeare como no Renascimento; ler implica assumirmos o nosso anacronismo. Falácia seria, isso sim, fingir que podemos esquecer o conhecimento que temos do passado, pôr a nossa consciência entre parênteses.»(pág.80)

«Nevoeiro» transporta Pedro Eiras para uma dimensão inigualável na literatura contemporânea. 

alc

segunda-feira, junho 08, 2026

"Terra Fria", Ferreira de Castro


Cavalo de Ferro, 2026 [1ªed.1934].
Editado pela primeira vez em 1934, pela editora «O Século», «Terra Fria» não será um dos melhores romances de Ferreira de Castro, afirmação minha que vale o que vale, mas que no seu posfácio o autor, comemorando 50 anos de vida literária, em 1966, admite isso mesmo quando atribuiu à idade de adolescente de 14 anos este «ingénuo» e «desvalioso romance». No entanto, estes adjectivos para classificar um romance de Ferreira de Castro, mesmo que autoavaliado, estarão bem longe de uma má crítica ou de uma tentativa de apartar esta obra da obra completa do autor. É sempre avisado relativizar o menos bom quando se trata deste autor.

Um dos maiores interesses de «Terra Fria» é que este se passa nas Terras de Barroso, num território de fronteira, um ano após o plebiscito à Constituição de 1933 e antes da Guerra Civil de Espanha que militarizou as terras raianas. Aliás, deve dizer-se que no romance não existe a linha de fronteira; ela é uma continuação do Couto Misto, entre Chaves e Montalegre e terras galegas, em que a população flui livremente sem quaisquer motivos de separação política ou administrativa exigidas pelo controlo do Estado e pelas classes dominantes. Também não seria por limitações linguísticas ou sociais a impedirem essa permuta. Em «Terra Fria» encontra-se material de estudo antropológico, assim como sociológico, económico e político. O espírito comunitário ou comunalista, com leis rígidas autogeridas, fortemente rural, é-nos apresentado, para nós, leitores contemporâneos e urbanizados, como se fosse uma realidade tão longínqua como inverosímil; não obstante, esse comunalismo existiu durante milénios até o Estado o tentar destruir e o turismo acabar definitivamente com ele. Paradoxalmente, se hoje ouvimos falar ainda do Barroso e das suas gentes é pela luta teimosa que empreenderam contra a extracção do lítio que quer esventrar uma terra que ainda vive em sossego com o seu gado e os seus cultivos, obrigando-nos a uma solidariedade genuína. Exploração protagonizada pelos «americanos», agora bem identificados pela empresa multinacional Savanah, tal como no romance o «americano», dono e senhor de Padornelos, era o representante maior do Estado Novo, saído recentemente da Ditadura Militar, e que a Censura nunca poderia permitir tal referência no romance. 

Censura essa que Ferreira de Castro teve que lutar, quando recusou que o Fundo do Cinema, estrutura fascista da propaganda do regime, levasse a cabo um filme realizado por António Lopes Ribeiro que o corromperia totalmente. Assim como, igualmente, recusou uma adaptação francesa num filme que ele apontou «falta de autenticidade». Está tudo explicado no posfácio do livro, escrito em 1966. Tal como as ilustrações propostas por Pavia e por Bernardo Marques que não foi possível usar nas primeiras edições de «Terra Fria», como nos conta. Só em 1992, finda, há tempos, a ditadura, é que António Campos realizou o filme homónimo que hoje podemos ver.

«Maio aberto, enquanto, nas cidades, gente de fábricas comemorava o trabalho, em Barroso a tradição ordenava que se esconjurasse, finalmente, o Inverno, mandando para a serra as primeiras ''vezeiras'' de cabras, vacas e ovelhas. Era formado cada rebanho com bichos da mesma espécie, mas pertencentes a vários donos, que procediam, desde épocas patriarcais, em bom colectivismo, revezando-se na pastoreação. Costume mui antigo, quem, por isto ou por aquilo, não podia pôr pé em terras pascigosas, exercendo a vez que lhe competia, dava homem em seu lugar, pagando-lhe, para que os sacrifícios entre todos se dividissem. E ninguém podia esquivar-se ao esforço mútuo em prol da riqueza colectiva. Desculpas que não fossem por morte ou doença não serviam; eram consideradas lesivas dos interesses comuns e havia até posturas camarárias que estabeleciam multas para os que não tivessem vergonha de assim proceder.» (pág.63)

O que é impossível de esquecer na leitura de «Terra Fria» é que este sentido colectivo, comunal, quase se sobrepõe à tragédia em prosa que Ferreira de Castro nos oferece, mesmo que essa história terrível esteja intimamente ligada às dificuldades geradas pela miséria e pela luta para lhe pôr fim, por parte das gentes do Barroso; em toda a narrativa existe uma luta surda com as autoridades locais dominantes, seja na pele do sacerdote, do regedor, do homem abastado, seja contra a guarda fiscal e republicana que vigiam e marcam as fronteiras contra o contrabando, sempre presente como alternativa possível para a sobrevivência.

«Na tarde morna, declinando entre as bravias montanhas, ali, na terra ignorada do mundo, na terra sem história, que principiava na Galiza e vinha terminar, alheia a fronteiras e idiomas, dentro de Portugal, a vida do povo obscuro tinha as mesmas expressões fundamentais, o mesmo instinto de perpetuidade, a mesma ânsia de alegria e o mesmo céu comum a toda a espécie, como se os lugarejos que os lobos, de noite, espreitavam, se encontrassem situados no centro do planeta.» (pág.201)

quinta-feira, junho 04, 2026

"14 Juillet", Éric Vuillard

 

Actes Sud (Col. Babel), 2016.
O que haverá de comum entre Lissagaray, Orwell, John Reed e Éric Vuillard? Se Lissagaray descreveu aqueles gloriosos 72 dias da Comuna de 1871, se Orwell dissertou sobre a Guerra Civil de Espanha e John Reed contou-nos aqueles 10 dias da Revolução Russa, Éric Vuillard realizou uma experiência literária que nos conduz a um só dia da Revolução Francesa: o 14 de Julho de 1789. Não exagero se me atrevo a dizer que este livro nos conduz de um modo extremamente vívido ao povo que, pacientemente, Vuillard retira do anonimato quando decidiu assaltar violentamente a Bastilha e tomar em mãos os destinos da França e, provavelmente, sem tomar total consciência disso, os destinos do mundo. Só existe uma diferença entre os nomes que referi e o nosso autor já aqui citado várias vezes: Vuillard não «assistiu» ao início da Revolução; de resto, ele é um nosso contemporâneo e soube descrevê-la ao ponto de sentirmos o bater do coração do povo em fúria, do desespero que o levou a entregar-se à morte face aos canhões e às espadas, da necessidade de transmutar-se em peças inseparáveis de uma enorme roda que esmagava o Antigo Regime e os seus representantes de uma velha ordem que entendiam como «natural». Não era e o povo de Paris apresentou os seus argumentos na violência regeneradora por uma sociedade igualitária, livre e fraterna. Nesse mesmo dia, o 14 de Julho, Éric Vuillard soube transmitir-nos o pulsar de uma revolução na rua, o início de uma realidade que pode resgatar uma utopia, mostrar, com uma inteligência literária viva, as contradições de classe já existentes na explosão revolucionária. É um livro que viaja por um só dia e cujo ritmo nos leva quase ao minuto, à hora, em que sentimos o calor abafado de Julho e o que ele provoca nos corpos comprimidos como uma massa única; ouvimos os gritos dos feridos e a sensação de abandono que sentem os que lentamente morrem frente aos portões da Bastilha, adivinhamos o sentimento de revolta profunda dos que sentiram fome ou que nunca puderam dar de comer aos seus, a doença e o desemprego, enquanto Versalhes se afundava no luxo e na infâmia dos enormes gastos e na repressão mais hedionda. A burguesia soube ser revolucionária, como a caracterizou Marx quase um século depois, mas não deixou de ser astuta e oportunista, usando a força popular para os seus próprios interesses. Interessante verificar que Vuillard já nos dá esta visão política com as descrições das delegações dos «representantes do povo» nas negociações pela rendição da Bastilha, tentando ultrapassar e moderar as decisões populares saídas directamente da rua em ebulição e isto tudo na cronologia de um só dia. 

Um livro que não foi traduzido e editado em Portugal. Vá lá saber-se porquê.

alc

segunda-feira, junho 01, 2026

O Abjeccionismo e os Imigrantes que se vão daqui.

 Os Imigrantes decidiram ir embora daqui. Pouco a pouco começam a juntar os haveres e ala que se faz tarde para lugares mais acolhedores. Não sei se, entretanto, aproveitarão para regular algumas questões pendentes sobre o modo como foram maltratados pelos portugueses e pelo Estado, durante os escassos anos que previram estar por cá. Vem isto a propósito do abjeccionismo, esse movimento que, segundo alguns, substituiu o surrealismo, porque isto anda tudo ligado. Há quem afirme que nunca houve um movimento surrealista em Portugal, mas sim atitudes abjeccionistas que estiveram na base de um estado de espírito aceitável por muitos escassos portugueses, que era o da revolta permanente. Revolta e abjecção face aos portugueses de raiz: os que gostam de Fátima e do fado, os que nunca dispensam o aumento da sã mortalidade baseada no clubismo, os que bebem minis quentes com a camisola da selecção e imitam a saudação romana não fossemos nós latinórios de gema, os que gostam de ver porrada nos reels do telemóvel, sempre em modo on, nas esquadras e no trânsito, os que adoram concertos em estádios com pulseiras luminosas, que não admitem filhos que partilhem ideologia uôque, os que dizem que «a mim não me enganam eles» quando se lhes passa imagens dos astronautas na Lua em 1969, que não se importam nada com as crises climáticas que foram inventadas «para os seguros se encherem de dinheiro», que a terra é plana, como o foi sempre e que os políticos querem é mamar e tachos. Para além de tudo, têm saudades excruciantes do Império construído pelos portugueses, que levaram para lá a civilização e que, sendo assim, formulam a questão óbvia de nunca poderem ter sido, ou que venham algum dia a ser, racistas.

Portanto, a conclusão óbvia é que o abjeccionismo tem espaço para crescer à medida que os imigrantes nos abandonarem e deixarem-nos a sós com os portugueses. Vivermos isolados, junto a portugueses de bem, num território afogueado e tempestuoso, evangélico, traumático e deprimido, solar e eolicamente ocupado, hidraulicamente compartimentado, sujo, vazio, é um caso sério para emigrarmos novamente em massa ou ficar e juntarmo-nos a um movimento qualquer que promova atitudes abjectas, para-niilistas, anti-multitudinárias e ecológicas tendo por objectivo único o apartar dos portugueses os próprios portugueses. É, de facto, assustador.

alc