Os Imigrantes decidiram ir embora daqui. Pouco a pouco começam a juntar os haveres e ala que se faz tarde para lugares mais acolhedores. Não sei se, entretanto, aproveitarão para regular algumas questões pendentes sobre o modo como foram maltratados pelos portugueses e pelo Estado, durante os escassos anos que previram estar por cá. Vem isto a propósito do abjeccionismo, esse movimento que, segundo alguns, substituiu o surrealismo, porque isto anda tudo ligado. Há quem afirme que nunca houve um movimento surrealista em Portugal, mas sim atitudes abjeccionistas que estiveram na base de um estado de espírito aceitável por muitos escassos portugueses, que era o da revolta permanente. Revolta e abjecção face aos portugueses de raiz: os que gostam de Fátima e do fado, os que nunca dispensam o aumento da sã mortalidade baseada no clubismo, os que bebem minis quentes com a camisola da selecção e imitam a saudação romana não fossemos nós latinórios de gema, os que gostam de ver porrada nos reels do telemóvel, sempre em modo on, nas esquadras e no trânsito, os que adoram concertos em estádios com pulseiras luminosas, que não admitem filhos que partilhem ideologia uôque, os que dizem que «a mim não me enganam eles» quando se lhes passa imagens dos astronautas na Lua em 1969, que não se importam nada com as crises climáticas que foram inventadas «para os seguros se encherem de dinheiro», que a terra é plana, como o foi sempre e que os políticos querem é mamar e tachos. Para além de tudo, têm saudades excruciantes do Império construído pelos portugueses, que levaram para lá a civilização e que, sendo assim, formulam a questão óbvia de nunca poderem ter sido, ou que venham algum dia a ser, racistas.
Portanto, a conclusão óbvia é que o abjeccionismo tem
espaço para crescer à medida que os imigrantes nos abandonarem e deixarem-nos a
sós com os portugueses. Vivermos isolados, junto a portugueses de bem, num
território afogueado e tempestuoso, evangélico, traumático e deprimido, solar e
eolicamente ocupado, hidraulicamente compartimentado, sujo, vazio, é um caso
sério para emigrarmos novamente em massa ou ficar e juntarmo-nos a um movimento
qualquer que promova atitudes abjectas, para-niilistas, anti-multitudinárias e
ecológicas tendo por objectivo único o apartar dos portugueses os próprios
portugueses. É, de facto, assustador.
alc