terça-feira, abril 09, 2024

Tradução por IA?

 

Tentei ler, num ebook, um livro de Mons Kallentoft editado pela D. Quixote. «Sangue Vermelho em Campo de Neve». Não sei se por sua culpa ou não, o que é certo é que fiquei com a sensação de estar a ser enganado. Na ficha técnica não constava o nome de qualquer tradutor/a, a revisão (se é que se pode chamar assim) era de um tal «Soares dos Reis» (??? O escultor que deu nome ao museu do Porto???), a foto de capa é de um misterioso A. Mateur (amador?), embora a capa seja atribuída a Rui Garrido. A edição tinha um nome: Maria da Piedade Ferreira.

A leitura era impossível. havia períodos que nada se compreendia e os parágrafos tinham uma linha de espaçamento, o que comprometia a fluidez da leitura. Acabei por desistir à página 20.
Perante a desconfiança generalizada que as traduções em algumas editoras estão a utilizar a Inteligência Artificial eis uma boa oportunidade de virem aqui desmentir esta enorme dúvida que tenho. A ser verdade é um insulto à nossa bolsa e aos livros.

«O Mistério da Estrada de Sintra», Eça de Queirós e Ramalho Ortigão

 

BNP, segundo o Acordo Ortográfico de 1945, edição de 1844. Capa de Ana Ferreira
Atentem bem, seguidores indefectíveis de policiais contemporâneos, crentes no ADN helicoidal e no CSI de cadáveres falantes, consumidores de péssimas leituras nórdicas tão infantilizadas quanto brutais, satisfeitos com a descoberta de assassinos impiedosos pelas imagens de videovigilância, de consultas aos movimentos dos cartões electrónicos, e presos por corpos policiais de choque, sem que haja necessidade da mínima dedução lógica dos investigadores: «O Mistério da Estrada de Sintra» pode dar-vos lições (a mim deu!) de como se interpretava a existência de um cabelo louro (de mulher) na cama de um cadáver que se presumia ser inglês. Isto, mesmo que Eça e Ramalho tenham apodado o seu romance de «execrável» e que «nele, há um pouco de tudo quanto um romancista lhe não deveria pôr e quase tudo quanto um crítico lhe deveria tirar.» Cá para nós, temos uma certeza quase absoluta: divertiram-se «a valer». Embora não seja o melhor deles, o romance é inesquecível. Atentem dizia eu, nesta prosa do tal cabelo louro:

«(...) Prolongou-se a minha dolorosa surpresa. Aquele cabelo luminoso, languidamente enrolado, quase casto, era o indício de um assassinato, de uma cumplicidade pelo menos! Esqueci-me em longas conjecturas, olhando, imóvel, aquele cabelo perdido.
A pessoa a que ele pertencia era loura, clara, decerto, pequena, «mignonne», porque o fio de cabelo era delgadíssimo, extraordinariamente puro, e a raiz branca parecia prender-se aos tegumentos cranianos por uma ligação ténue, delicadamente organizada.
O carácter dessa pessoa devia ser doce, humilde, dedicado e amante, porque o cabelo não tinha ao contacto aquela aspereza cortante que oferecem os cabelos pertencentes a pessoas de temperamento violento, altivo e egoísta.
Devia ter gostos simples, elegantemente modestos e dona de tal cabelo, já pelo imperceptível perfume dele, já porque não tinha vestígios de ter sido frisado, ou caprichosamente enrolado, domado em penteados fantasiosos.
Teria sido talvez educada em Inglaterra ou na Alemanha, porque o cabelo denotava na sua extremidade ter sido espontado, hábito das mulheres do Norte, completamente estranho às meridionais, que abandonam os seus cabelos à abundante espessura natural.» (págs. 41/42)

Sim, isto é dedução. Cerebral, inteligente, perspicaz. Forçada? talvez um pouco, mas põe a um canto o que hoje para aí de vê de muito mau. Teremos sido fadados somente para Eça e Camilo? E o português de 45? Não vos cria inveja? Ora digam lá de vossa justiça... 

BNP, segundo o Acordo Ortográfico de 1945, edição de 1844. Capa de Ana Ferreira


terça-feira, abril 02, 2024

«Caçadores de Cabeças», Jo Nesbo

Mais do Jo Nesbo. É evidente que ele sabe o que a maioria dos leitores quer ler, o que, em princípio, não é sinal de qualidade. No caso do norueguês Jo Nesbo, junta uma certa expectativa na narração que nos prende e, ao mesmo tempo, sabe que o policial mudou muito desde o século passado. Hoje, a brutalidade é maior, o adn e o csi vieram modificar a pesquisa cerebral, portanto dedutiva, dos detectives para encontrar um assassino e nem sempre o crime não compensa. Neste caso, compensou, sim. 

Editado em «Mostra o que estás a ler» Facebook

quarta-feira, março 27, 2024

«Há mundo por vir?», de Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro

 

Antígona,2023, grafia brasileira, ilustração da capa de Gonçalo Duarte
Livro mais que necessário para ficarmos a conhecer as diversas correntes de pensamento e acção dos que esperam o apocalipse climático anunciado, os que pensam ainda poder evitá-lo, os «aceleracionistas» de esquerda que, culpando o capitalismo, querem o seu fim desejando simultaneamente uma nova ordem climática, ecológica e social, os «singularistas» defensores do capitalismo verde e das grandes multinacionais como a Google, Amazon, o troglodita do Musk e quejandos, mais (não poderia deixar de ser) os negacionistas que tentam negar tudo acertando na única coisa de que são realmente bons: provarem que são negacionistas até para eles próprios, erradicando todo e qualquer laivo de pensamento estruturado nos seus cérebros. De qualquer maneira estamos todos lixados. O relógio do apocalipse aí está a meros dois segundos do fim. Os «sobrevivalistas» de todos os matizes da extrema-direita americana aos anarquistas, outro dos ramos, já não estão nesta discussão. Abrem o canivete suíço, o isqueiro enquanto tiver gás, constroem uma cabana de ramos de eucalipto e aí estão eles na caça e pesca pelas montanhas. Acho muito bem, sabendo que os ursos, lobos e águias lhes podem fazer a folha em menos de um minuto. É a natureza, estúpido!

Depois, vem a ainda presente polémica sobre o Antropoceno. Que sim, pois se ele existe, continuará depois de nós. Foi o nosso legado. Mas sendo assim, não haverá ninguém para o dizer ou proclamá-lo porque estaremos todos mortos sem sepultura. Ficará o betão armado por mais uns largos anos, e o urânio das centrais a aniquilarem os animais e aves que se aproximarem das grandes chaminés de arrefecimento. O resto, talvez alcatrão, a ferrugem do que foram automóveis, as baterias a escorrerem líquidos corrosivos, minas das guerras passadas a explodirem quando ratos (os sobreviventes) lhes passarem por cima e a Torre de Belém no canto de um país esquisito que durante uns míseros 900 anos (uns nanossegundos do Holoceno e do Antropoceno) se armou aos cucos e não deixou rigorosamente nada a não ser um montão de ruínas com que se deu sempre bem.

Nada mau para uma leitura de páscoa. Imprescindível para as outras partes do ano.

segunda-feira, março 18, 2024

«O Princípio de Tudo - Uma nova História da Humanidade», David Graeber e David Wengrow

 

Bertrand, 2022. Trad. Paulo Tavares e Sara M. Felício
É mesmo uma perspectiva original. Aqui não há embustes com o adjectivo «novo» que muitos autores utilizam para vender o seu produto, muitas vezes com hipóteses mal construídas ou sem verificação científica. David Graeber (1961-2020), juntamente com David Wengrow, apresentam-nos um livro tão consistente quanto interessante de se ler. As questões formuladas variam quer no grau de provocação académica no campo da Antropologia e na História, quer na inteligência viva como são apresentadas. Muitas delas são óbvias e, por isso mesmo, desconcertantes. Por exemplo: a História tendo teimado durante tanto tempo na cronologia evolucionista, isto é, do Paleolítico ao Neolítico e das «civilizações» urbanas e teocráticas à Idade Clássica, desta aos Impérios, seguindo-se depois as conhecidas «idades», não se limitou a criar compartimentos estanques que «esqueceram» períodos intermédios de séculos, se não mesmo de milénios, em que, faltando registos escritos ou arqueológicos, foram arrumados numa espécie de «idades das trevas», mas provavelmente tão ricas sociológica e politicamente como as que foram estudadas mais profundamente? Isto dar-se-ia essencialmente naquilo a que chamamos de Pré-História. A velha sequência de caçadores recolectores, logo nomadismo, agricultores, logo sedentarismo, criação de cidades, logo hierarquias políticas e aparecimento de estados teocráticos, não será demasiado simplista? E se nada disto se tivesse passado e as estruturas socias do nomadismo conviveram amiúde com o sedentarismo que nunca o terá sido verdadeiramente? E se os nómadas recolectores a que vulgarmente associamos a sociedades «igualitárias» não o fossem tanto assim, nem os primeiros agricultores permanecessem em sociedades «desiguais»? E se se complementassem em sociedades onde o predomínio da recolecção fosse de algum modo complementado com uma agricultura «a brincar»? Isto durante milénios, não vendo a humanidade qualquer vantagem numa agricultura intensiva. E se, nas grandes cidades como Uruk ou Çatal Hüyük, no chamado Crescente Fértil, houvesse menos desigualdade quanto imaginamos hoje ou que o poder sacerdotal e político convivesse com grandes assembleias populares e organizações de bairro, tornando os primeiros uma espécie de poder teatral? E se a agricultura não teve origem só no Crescente Fértil, mas ao mesmo tempo, ou até muito antes, em cidades maiores na Ucrânia e na América Central?  E se as sociedades primitivas fossem de facto igualitárias, com chefes que não eram obedecidos ou só o fossem em caso de guerra? E se os filósofos iluministas tivessem tido conhecimento destas sociedades igualitárias nomeadamente as das Cinco Nações índias que iam do Québec e Ontário ao que é hoje St. Louis e Florida e que as críticas indígenas à sociedade europeia branca tivessem sido estudadas por Rousseau ou Montesquieu, tendo-as passado para os seus ensaios em «As Origens da Desigualdade...» ou o «Espírito das Leis», respectivamente? Os autores apresentam dados convincentes para que estes factos tenham sido bem reais do que à primeira vista podem parecer. O mesmo quando se aplica o conceito de «guerra» e escravatura em sociedades ditas primitivas.

Mas fiquemos com um trecho dos autores na conclusão de «O Princípio de Tudo»: «Os teóricos sociais têm uma tendência para escrever sobre o passado como se tudo o que aconteceu pudesse ter sido previsto antecipadamente. Esta postura é um pouco desonesta, pois todos sabemos que, quando tentamos realmente prever o futuro, quase sempre nos enganamos - e isto aplica-se tanto aos teóricos sociais como a todas as outras pessoas. Não obstante, é difícil resistir à tentação de escrever e pensar como se o estado actual do mundo, no início do século XXI, fosse o desfecho inevitável dos últimos dez mil anos de História, apesar de, evidentemente, não termos uma verdadeira ideia de como será sequer o mundo em 2075, quanto mais em 2150.
Quem sabe? Se a nossa espécie perdurar e um dia olharmos para trás, a partir desse futuro ainda desconhecido, talvez os aspectos do passado remoto que agora parecem anomalias - como, por exemplo, as burocracias que funcionavam a uma escala comunitária; as cidades governadas por conselhos de bairro; os sistemas de governo em que as mulheres tinham uma preponderância nas posições formais; ou os modos de gestão da terra baseados no cuidado e não na posse e na extracção - venham a ser considerados os verdadeiros avanços significativos e as grandes pirâmides ou estátuas de pedra se pareçam mais com curiosidades históricas. E se partíssemos agora dessa abordagem e olhássemos, digamos, para a Creta minóica ou a cultura hopewell [indígenas do leste americano] não como pequeos desvios aleatórios num caminho que leva inexoravelmente a Estados e Impérios, mas como alternativas: estradas não tomadas?» (págs. 589/590)

Bertrand, 2022. Trad. Paulo Tavares e Sara M. Felício


terça-feira, fevereiro 27, 2024

«O Homem do Castelo Alto», de Philip K. Dick

 

Saída de Emergência, 2015, tradução de David Soares
Obra de Philip K. Dick que coloca o mundo nas mãos dos nazis e das forças do Eixo vencedores da II Guerra Mundial que findou em 1947. A acção passa-se na década de 60 do século XX nos Estados Pacíficos da América (EPA), antigos EUA, divididos a leste pelos alemães e a oeste pelos japoneses. A Europa está sob o domínio nazi comandados por Martin Bormann que sucedeu à morte (calma) de Hitler. Quando aquele, por sua vez, falece, acontece uma verdadeira orgia palaciana de sangue e fogo entre Goebbels e Heydrich. O melhor e mais forte vencerá, seguindo a comédia nazi. Não saberemos quem ganhou, mas esta narrativa não é para aqui chamada. É somente um pormenor num livro interessante que levou Philip K. Dick a elaborar uma ucronia que nos leva, necessariamente, a pensar o que o mundo seria sob a égide totalitária do fascismo. Não estamos perante uma obra literária de excelência. Creio que não era isso que movia o autor que escreveu quase um romance por ano durante a sua vida que terminou em 1982. Estaria mais interessado na mensagem e no conteúdo das suas obras que realizar qualquer arremedo novelístico inigualável. E conseguiu transmitir uma mensagem política clara na base da ucronia no exercício da hipótese do «se...» em História. E se o Eixo ganhasse a II Guerra? Não é uma distopia, embora se o escrevesse no futuro, «O Homem do Castelo Alto» tornar-se-ia numa, certamente. Ao colocar a história no passado, a trama ganha novos contornos, claramente ucrónica. E sabe, como poucos em ficção científica, apresentar «nuances» políticas entre os dominadores. O Japão vencedor que se assenhoreia do oeste dos EPA odeia a Alemanha e a sua política de extinção de judeus e a brutalidade policial que continua após a guerra, mantendo campos de extermínio quer na Europa, quer no antigo território americano. Os europeus não germânicos são considerados inferiores e fazem os trabalhos considerados menores que os alemães não querem e África é um continente cuja população está a ser extinta, ninguém sabe como e não há informação sobre isso. Apenas se sabe que está a ser extinta por Heydrich e isso basta para um mundo dominado e economicamente em crescimento contínuo. Viver todos os dias é quase uma vitória para uma população que caminha para a alienação total através da televisão. O homem do castelo alto é, no fundo, um líder de uma oposição intelectual, que embora se oponha ao totalitarismo não vê, ou não quer ver, que mais tarde ou mais cedo será igualmente eliminada. 

Uma palavra para esta edição que é complementada por um «ensaio» de Nuno Rogeiro de longas páginas que quase nos obriga a dizer que este é um livro dele, com um romance de Philip K. Dick! À viva força o autor do ensaio quer ver no escritor americano um membro místico de extrema-direita, quando nada no romance nos guia para essa conclusão e claramente negado pela sua vida que sempre alinhou pela esquerda americana, quer nos anos 50 com perseguição do FBI, quer nos anos 60 contra a guerra do Vietname alinhando com os estudantes de Berkeley e com a intelectualidade da esquerda dos EUA. Como comprova a sua amizade com a anarquista Ursula K. Le Guin. Se chegou a ser membro do PC dos EUA nos anos 50 não há certeza, mas o «democrata» FBI nunca o incomodaria se não houvesse indícios disso mesmo. No entanto, a partir de 1974, com um abuso de drogas alucinogénias mais intensificado, envereda por um misticismo cristão primitivo que o leva a atitudes paranóicas acabando por se tornar um anticomunista militante, o que não faz desta obra, «O Homem do Castelo Alto», um livro de extrema-direita! Daí, não se entender por que razão Nuno Rogeiro foi chamado pela editora para escrever o tal «ensaio» verdadeiramente lamentável sobre Philip K. Dick.

segunda-feira, fevereiro 26, 2024

«Vidas Passadas» e «Anatomia de uma Queda»

 


Nora nasceu na Coreia do Sul, onde viveu até aos 12 anos, quando os pais resolveram emigrar para o Canadá. Nessa altura, o que mais lhe custou foi deixar Hae Sung, o seu amigo mais próximo. 

Os anos passaram e ela mudou-se para Nova Iorque, onde é agora uma dramaturga de sucesso e vive feliz com Arthur, o seu marido americano. O amigo, por seu lado, manteve-se na Coreia, formou-se em engenharia mecânica e serviu algum tempo como militar. 

Um dia, através da internet, Nora e Hae Sung retomam o contacto. E quando, alguns anos depois, ele decide visitar Nova Iorque, os dois marcam um encontro. A resolução de se estarem juntos novamente será uma viagem ao passado que se vai revelar bastante dolorosa.

Estreado no Festival de Cinema de Sundance e nomeado para os Óscares de melhor filme e argumento original, esta reflexão semi-autobiográfica sobre o amor e o destino é escrita e realizada pela canadiana de origem sul-coreana Celine Song, que aqui se estreia em cinema. Greta Lee, Teo Yoo e John Magaro dão vida às personagens. PÚBLICO


Samuel é encontrado morto após cair da varanda da sua casa, situada nos Alpes franceses, onde vivia com a mulher, Sandra, uma famosa escritora alemã, e Daniel, o filho de onze anos de ambos.

Quando as autoridades chegam para tomar conta da ocorrência, a dúvida instala-se: terá sido acidente, suicídio ou homicídio? Depois de algumas inconsistências no seu testemunho, Sandra torna-se suspeita de assassinato, algo que é agravado quando Daniel refere as recentes discussões entre o casal.

Durante a investigação e, mais tarde, no longo processo em tribunal, o casamento deles é escrutinado, com Daniel a ser pressionado a descrever a relação dos pais. Isso vai criar uma inevitável tensão na relação entre mãe e filho.

Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2023 e considerado o melhor filme pela Academia do Cinema Europeu, "Anatomia de Uma Queda" está nomeado para 11 Césares e para cinco Óscares da Academia de Hollywood, entre eles os de melhor filme, realizador e actriz principal.

Este drama familiar tem realização de Justine Triet (Na Cama Com VictoriaSibyl), que escreve o argumento com Arthur Harari – seu companheiro e também argumentista e realizador de Onoda - 10.000 Noites na Selva (2021) – e conta com as actuações de Sandra Hüller, Swann Arlaud, Milo Machado Graner e Samuel Theis. PÚBLICO

terça-feira, fevereiro 20, 2024

«Certas Raízes», Hélia Correia

 

Relógio D'Água, Novembro de 2023
Tenho a sorte de acompanhar os livros de Hélia Correia. Estes contos têm a particularidade de serem inquietantes como, aliás, é o cunho muito pessoal da escrita da autora pelo menos desde «Adoecer», um dos melhores livros que se escreveram em Portugal nos últimos cinquenta anos. Assim é, quando, num dos contos de «Certas Raízes», ela chama de novo os pré-rafaelitas. A doença, a instabilidade, a dúvida, a inadaptabilidade, o medo ou a demência viva ou anunciada acompanham quase sempre as personagens. A vingança silenciosa e a morte também. Mas não encontro na escrita de Hélia Correia algo de sorumbático, ou melancólico. Antes pelo contrário, encontramos um traço irónico sobre a doença, uma livre aceitação da situação anómala ou a revolta dessa inadaptação à realidade tão comum na vida de todos nós. Talvez esteja aí a atracção da escrita da autora e nos leve a lê-la com gosto. Até porque reconhecemo-nos, mesmo contra a nossa vontade, em muitas das situações descritas.
Em «Certas Raízes» a mulher tem um papel central. Não é novidade alguma para quem conhece a escrita de Hélia Correia. Nota-se isso em todos os contos do livro e no que dá o título ao livro ainda mais, se estivermos cientes que encontramos uma mulher em processo de loucura, de queda num abismo provocada pela família. Unidade que não é de todo benquista, sendo vista como portadora de taras escondidas ou num processo psicológico de guerra aberta pelo poder e pelo domínio sobre o outro. Sobre esta questão, devo conceder uma menção muito especial aos contos «A Posse» e a «Intervencionados» que já tinham, entretanto, sido publicados na Granta. Escolha da autora, mas não deixa de ser algo decepcionante comprar um livro e dar conta de que alguns contos já tinham sido publicados, embora não leia a revista.

terça-feira, fevereiro 13, 2024

«A Porta dos Traidores», Jeffrey Archer

 

Bertrand, 2023
Nada a dizer de extraordinário. Mais um livro de um antigo deputado conservador de que já falámos aqui e que também conheceu a prisão. Conhecedor dos meandros da política e da polícia de Sua Majestade Isabel II que entretanto se foi deste mundo cor-de-rosa ou nem tanto assim quando se trata de um império feito a ferros e a sangue, como sabemos. Mas a narrativa policial tem essa garantia - a de saber-se do que fala e, nos tempos que correm, é uma mais-valia literária nada negligenciável. Por sinal, trata-se de gizar um roubo das jóias da coroa britânica coisa que só o Capitão Blood conseguiu na data de 1667! Consegue-se, mas nem tudo o que parece é e nos policiais isso é matéria importante e decisiva. Dá verdadeiro gozo ver como seria o tal roubo pensado ao milímetro e que foi posto em prática com sucesso. De tal maneira que o final do livro é verdadeiramente frenético, contado ao minuto. 

Mas compreendemos o marketing literário de Jeffrey Archer já multimilionário com as vendas mundiais dos seus livros. Está lá tudo para a continuação da saga e para possível adaptação cinematográfica. É antes que tudo um guião fabuloso que não necessitaria sequer de adaptação e, muito melhor do que isso na perspectiva monetária do lucro, prepara-se para, deste livro, surgirem não um, não dois, não três, mas muitos mais livros que continuarão a narrativa baseada na vingança dos maus contra os bons. É o cânone policial. Mas melhor do que para aí se faz neste campo.

terça-feira, fevereiro 06, 2024

A Ideia 100 a 103. Desenho para o Suplemento de homenagem aos 100 anos de Mário Cesariny

 

A Ideia, número quádruplo 100 a 103, editou-me, num suplemento sobre os 100 anos do nascimento de Mário Cesariny, uma ilustração do poeta. Devo a António Cândido Franco essa escolha o que me faz sentir um certo orgulho que não escondo. O número já está à vossa disposição nos locais habituais e o índice coloquei-o em post anterior.

Desenho para o Jornal Mapa 40

 


Ilustrações do Jornal Mapa, número 40, para o artigo de Luís Fazendeiro "Contra o Imperialismo da Razão Instrumental". Os temas desta edição estão noutro post. Um obrigado ao Mapa.


Desenho para o Jornal Mapa nº40

 

Ilustrações do Jornal Mapa, número 40, para o artigo de Luís Fazendeiro "Contra o Imperialismo da Razão Instrumental". Os temas desta edição estão noutro post. Um obrigado ao Mapa.


terça-feira, janeiro 30, 2024

«Alucinar o Estrume», Júlio Henriques

 

Antígona, 2017. Desenhos de José Miguel Gervásio
Quem conhece a revista «Flauta de Luz», de que Júlio Henriques é um dos responsáveis mais conhecidos, saberá registar a forma literária que dá corpo ao que escreve em pequenos contos fantásticos e de uma crítica social arrasadora: «forma literária» é expressão minha sem presunção ou academismos que ele rejeita com veemência. No entanto, não será muito difícil a cada um de nós lembrar-nos da tradição cáustica e satírica de um Mário-Henrique Leiria, de um Virgílio Martinho, de um Luiz Pacheco ou de Alberto Pimenta, isto só para ficar nas fronteiras da região, porque se pusermos um pé de fora da lusa raia nada me escusa de citar Rabelais, Lawrence Sterne, Swift, Vian, Hrabal, Saunders ou o Voltaire de «Cândido», e pára aí (em Voltaire) porque de Iluminismos estamos cheios. As personagens de Júlio Henriques em «Alucinar o Estrume» são de uma ironia violenta (dirigida aos outros e a si próprios) e, paradoxalmente, absortos nos seus sonhos utópicos e cheios de espanto perante o que os outros lhes podem dar. E, com sábia e pura conveniência, vir a receber. Porque é uma espécie de potlach o que observamos nessas histórias, tanto com Estêvão Vao em «Alucinar o Estrume» ou em Elias Eupróprio em «Deus tem Caspa» de que já falámos por aqui. 

Este dar e receber recusa as trocas em dinheiro ou em mais-valias onde impera o lucro; assume-se, antes, nas solidariedades e cumplicidades dos «neo-rurais», muitos a chegar das cidades e heterogéneos nos objectivos e que, como Adriano, outra personagem que regressa ao campo «...andava a trabalhar em prol de uma autonomia que começava pela alimentar; não se espraiava em devaneantes optimismos segundo os quais podia desde já viver-se ''fora do capitalismo'' bastando para tal a vontade de um ''espírito superior''; e também não idealizava beatamente o mundo camponês, ou o que por aqui restava dele, sabendo todavia - questão prévia - que se trata de uma cultura milenar e que uma cultura destas, como diz John Berger, não se pode deitar fora como quem risca contas saldadas.» (pág.96) No entanto, Estêvão Vao continua a clarificar este regresso ao campo: «A sociedade vigente estava a rebentar pelas costuras e não eram bem-vindas as gentis propostas conducentes a remendar com panos quentes tais costuras. Era diversa e mais funda a perspectiva por ele perfilhada: sair desta civilização, contribuir para a parição de uma outra - sem que isso, contudo, significasse uma inteira tábua rasa: anteriores culturas perseguidas continuavam, agora mesmo, a sua luta pela existência de um mundo plural. Fosse como fosse, em muitos lugares da Terra essa perspectiva estava a caminhar em busca de um novo sol.» (pág.97)

O título ao livro explica-se pelo conto «Aldeias sem estrume S.A.» em que EstêvãoVao se vê solidário com os aldeãos que foram proibidos, por medidas eco-higienizantes e para não incomodar os turistas do Rural, de retirar o estrume usado nos currais e ovis e a colocá-lo na rua da aldeia, coisa que estavam habituados há séculos afora. Esta rede de aldeias sem estrume passou logo pela cabeça de Estêvão Vao que comunicou aos dois aldeãos furiosos que só viam naquelas leis municipais o objectivo de passar «aldeias sem estrume para sem aldeãos» para numa fase seguinte se passasse «a aldeamentos de empreiteiros e agências turísticas nacionais e internacionais.» Assim, conta-nos o autor em dois post scriptum o que se passou em seguida para contrariar as posturas autárquicas: 

«ps1:(...) adiantamos desde já que Estêvão Vao decidiu entabular conversa com os dois comensais, mudando-se para a mesa deles com a travessa de arroz de míscaros ainda fumegante. Lembrou-lhes um lema: para grandes males, grandes remédios. Porque uma afronta daquelas (a proibição de estrume nas ruas da aldeia) estava mesmo a pedi-las. Então agora quem manda nas aldeias são os turistas? É Sua Excelência o Turismo? Vade retro, Satanás! E no lusco-fusco se encetaram os primeiros conciliábulos com vista a resistir à malfadada invasão.
ps2: À noite, na pensão onde estava hospedado, Estêvão Vao pegou num volume, que andava a reler, dos Diários de Miguel Torga, nele deparando, entre outras, com as seguintes linhas: ''A intimidade desta vida de aldeia é um espectáculo ao mesmo tempo repugnante e maravilhoso. Estrume da cabeça aos pés. Entre o porco e o dono não há destrinça. Mas, ao cabo, esta animalidade toda, de tão natural, acaba por ser pura e limpa como a bosta de boi.''» (pág. 38,39)

Repugnante e maravilhoso! Grande Miguel Torga! O estrume, esse, ele encontrá-lo-ia facilmente nos vómitos assestados com mimo nas queimas das fitas coimbrãs, o Doutor! Mas esse académico estrume, não é chamado para o textinho que Júlio Henriques nos trouxe a lembrar, atempadamente, não vá a memória um dia falhar-nos. Porque irá falhar.

No quase-final do livro temos um conjunto de que chamarei, não sem algumas dúvidas, de aforismos, apostos em «Massa (crítica) com Feijão-Manteiga - Notas encontradas num caderninho escolar e Estêvão Vao» (pág.147) em que se pode ler esta pérola tão certeira como actual:

«Chamar cidadão aos eleitores é uma força de expressão certamente desculpável numa democracia avançada. Veja-se este dístico, cuja nobreza palpita na nossa atmosfera: LOUVEMOS E EXALTEMOS O GOVERNADOR DO BANCO DE PORTUGAL! AVÉ! Com efeito, é isto que aqui se lê. E não é por acaso: esta oração deve rezar-se revezadamente em voz alta antes e depois das refeições, se as houver.»

Antígona, 2017. Desenhos de José Miguel Gervásio

domingo, janeiro 28, 2024

«A Dominação e a Arte da Resistência-Discursos Ocultos», James C. Scott

 

Letra Livre, 2013, Tradução de Pedro Serras Pereira. Apresentação de Fátima Sá
Se bem que o estudo de James C. Scott se centre no discurso oculto e acções dissimuladas dos subordinados contra as elites aristocráticas e proprietários terratenentes e industriais entre os séculos XVII a XIX, não será difícil ao leitor atento uma transposição para as lutas dos subordinados de hoje em pleno capitalismo tardio e de vigilância. Provavelmente mais letal e repressivo do que o era nesses séculos. O sistema repressivo, assente na acção do Estado contemporâneo tem-se desenvolvido como nunca o vimos até se tornar verdadeiramente letal e os exemplos não faltam. A questão final que este livro nos coloca é se ainda há possibilidade real de conflito aberto que leve à construção de uma alternativa ao Estado ou ao capitalismo baseado numa construção de uma sociedade de produtores sempre reprimidos por aqueles. Porque discursos ocultos existem através de formas escondidas, eficazes para o espoletar de rebeliões e de revoltas. Mas até que ponto a recuperação pelas elites desses mesmos momentos de rebelião dos subordinados terão o êxito a que se propõem é a questão teórica e prática que James C. Scott apresenta neste «A Dominação e a Arte da Resistência», publicado em 1992 pela Yale University, onde o autor é professor.

«(...) parece-nos bastante claro que um subordinado prudente tende a conformar o seu discurso e os seus gestos àquilo que sabe que dele se espera - mesmo que essa submissão mascare uma opinião muito diferente daquela que é revelada fora de cena. O que nem sempre é tão claro é que, em qualquer sistema de dominação estabelecido, o problema não se resume à dissimulação dos sentimentos e à produção dos adequados actos discursivos e gestuais no lugar deles. Trata-se, antes de mais, de controlar o que seria o impulso natural para a revolta, a agressividade, a raiva e a violência que esses sentimentos normalmente desencadeiam. Não existe nenhum sistema de dominação que não engendre a sua própria safra diária de atropelos e atentados à dignidade humana: apropriação do trabalho, humilhações públicas, fustigações, violações, bofetadas, assédio, desprezo, rituais de denegrimento, etc.» (pág.71)

Num mundo contemporâneo com cada vez maior número de subordinados, uns verdadeiramente revoltados, mas cujas alternativas tardam em aparecer, ou outros que são da «servidão voluntária» bem descritos por Boetie, e que louvam e «compreendem» as «agruras» e «dificuldades» das elites, nada como ler este livro e usá-lo como alimento para a criação de situações irrecuperáveis.

Letra Livre, 2013, Tradução de Pedro Serras Pereira. Apresentação de Fátima Sá

«Deus tem Caspa», Júlio Henriques

 

Antígona, 1993, 2ª edição revista e aumentada. Apresentação de Alice Corinde
Um dos grandes libelos escritos contra o estado em que estão as coisas desde 1988 (mais ou menos), esta 1ª edição do «Deus Tem Caspa» de Júlio Henriques. A Antígona, a quem lhe deve muito pela colaboração que manteve com esta editora (e não foi a única, diga-se), já vai na 3ª edição e esgota sempre.

Verrinoso, intratável, irrecuperável, irónico até doer, Júlio Henriques percebe que povo temos, as suas idiossincrasias, as contradições e a miséria intelectual em que  caiu após um surto de febre facilmente debelável logo na jura à Constituição de 1976 e abandonando todas as múltiplas possibilidades de ser livre. Um país em que mandassem os produtores era bonito de se ver, mas o futebol, a pátria e a zona franca de Fátima levaram a melhor por obra, graça e firme vontade do povo português, nunca dado a grandes bodas com as revoluções. Para isso, usou o parlamento e a democracia liberal que vai de crise em crise até à vitória final, que, entretanto, se vai pondo a milhas do desiderato da população democrática e bem comportadinha., tadinha. Entregou-se igualmente a Deus que, como se vê, tem posto o planeta, e dentro dele o país, em condições de prosperar e encontrar finalmente a paz.

Através de Elias Eupróprio, feito guia-intérprete de Portugal também ele próprio, vai conhecendo a cidade de Coimbra metáfora e alegoria bastante para nos encontrarmos o verdadeiro ethos da nobreza e jactância bendita do povo português. Após, um prefácio de Alice Corinde a abrir as hostilidades e realçando a costumada obediência lusa, entremos em alguns trechos de «Deus tem Caspa» esperando que compreendam que o livro é muito maior do que vos mostro aqui. O critério é meu, portanto:

«(...) Graças ao tecido empresarial, a juventude escolar existe, e os executivos daquele, a quem não hesitaremos chamar Executivos de Deus, muito têm feito para promover tudo quanto é necessário promover. É graças a eles que existem as academias, sendo a de Coimbra tão-só a mais vetusta. Cada qual com os seus trajes particulares, cada qual com as suas praxes próprias [...], mas tudo isso sempre adequado às exultantes e adubáveis realidades do Ensino Sôprior. Daí a cor negra dos trajes e sua modelar inspiração nos seculares hábitos das igrejas: vão-se umas batinas, é certo, mas outras as renovam.(...)» (pág.69)

Mas, após umas aventuras no sul em autocaravana, Elias Eupróprio e mais umas companhias, e porque a chuva começava a cair teimando em terminar o estio, rumam a Coimbra:

«Como os três conduziam, a viagem apresentava-se fácil. Foram dilando um pouco, por aqui e por ali, chegando deste feliz modo a Coimbra, Portugal, com massa bastante para passarem uns tempinhos calmos. Nenhum deles conhecia a cidade; Elias ouvira falar dela, vagamente, como de um sítio sem grande interesse, e foi por essa razão, justamente, que lá decidiram ficar, pensando ser interessante conhecerem uma coisa assim.
Confirmaram-no, de resto, rapidamente. Aquele burgo era de facto uma das coisas mais ininteressantes que já tinham podido topar. Deambularam por cafés, por bares e por buátes, deslocaram-se a algumas residências estudantis e a vários departamentos académico-desportivos, e em todo o lado, harmoniosamente, se confirmava, com dados bastante mais precisos, a vaga informação inicial de Elias. (...) Que admirável era aquela pasmaceira, e a célebre ''mediocritate'' dos estudantes, tão cantada...» (págs.74/75)

«Segundo uma já ilustre e ruidosa multidão de enciclopédias de Cultura em Geral e uma insigne cópia de Obras Turísticas em particular, o português é triste. Inesgotável tema, por certo, cuja trágica trama pôde ao longo dos séculos tecer o oculto tecido do fantasma nacional, que Deus e a Democracia guardam em sua santa e fremente glória. Inquebrantável, rijíssimo tema, por si só lembrando a têmpera feral do ferrete luso! Que o não tema pois quem a ele se abalance, e lhe não falte ar e vinho, eis os votos sinceros e apaniguados deste que assassina quem o contrário sustente a bife da vazia (...)» (pág.105)

Se algum dia (feliz) conseguirem ter este livro entremãos não percam o conto «Lentes», cujo protagonista continua a ser Elias Eupróprio que em longo passeio por Coimbra e no Jardim Botânico encontra uma batata que lhe repetia: ''Fala-te um lente, meu rapaz. Escuta-me e terás uma carreira brilhante e assegurada, deslocações ao estrangeiro com tudo pago e uma bolsa para investigação da Fundação Gulbenkian''. Escusado dizer que o encontro com um tubérculo não impedia que a voz viesse lá do alto. Depois de muito deambular por Coimbra, pela Baixa, pelo referido Jardim Botânico, tendo-se cansado no Jardim da Sereia, passeado pela Praça da República, pisando o solo de Celas, eis que Elias nota que a voz do lente se transformou em 10 volumes da Enciclopédia Larousse-Selecções cuja definição de lente o exaltou. Dizia:

«''Os lentes, contrariamente às lentes, não têm uma vida sexual digna de nota, se bem que, pela razão extraordinária de serem lentes, isso constitua, ipso facto, uma particularidade digna de estudo. Os seus cuidados são absorvidos na busca de alimentos espirituais apodrecidos, que diligentemente absorvem com o fim abnegado de os servirem, depois de mastigados, aos seus sectários, a horas certas. São abundantes na região, mas a sua caça é expressamente proibida; as multas podem ir até 1500 escudos.'' Elias sentiu então uma sede atroz e uma fome atroz. Volveu os olhos para baixo, para a cidade cheia de automóveis e de moscas, e transformou-se em merda.» (pág.144)

O país, Coimbra, é também isto, talvez mais que isto, talvez ainda menos que isto. Na ocasião, nos anos 80, no dealbar de uma época fugaz de alguma rebeldia criadora em Coimbra, que Júlio Henriques também conheceu, já se previa a aceleração da decadência da cidade e a proximidade do cavaquismo que a moldou, tal como ao país inteiro, de muito dinheiro, pez, alcatrão e betão armado, materiais imprescindíveis ao capital(ismo). Sendo assim, fiquem assim com ela e com ele tal como está. Ou pior.

 Antígona, 1993, 2ª edição revista e aumentada. Apresentação de Alice Corinde

«A Ideia», 100 a 103. Outono de 2023

O número de outono d' A Ideia já saíu e está à vossa disposição nas livrarias independentes habituais. Para além da excelente revista de cultura libertária, cuja qualidade e intervenção alternativa já nos habituou, junta igualmente um suplemento dedicado aos 100 anos de Cesariny.

O Índice do número 100 a 103



 

sexta-feira, janeiro 26, 2024

Manifestação de apoio à Palestina em Coimbra. 28/1/2024

 


Jornal Mapa nº40. Janeiro a Março.

 


«E eis-nos chegados ao MAPA #40, no ano em que o 25 de Abril faz 50. Um número que é um grito por um cessar-fogo na Palestina, onde a guerra, como sempre, se assemelha a um investimento. Mas que não esquece que, com a normalização das investidas policiais nas universidades, também por cá os tempos não são os melhores para as liberdades. Visitamos Chiapas – cuja experiência zapatista está, ao fim de 30 anos, em processo de alterar a sua estrutura de autogoverno – e Rojava, esta através dum olhar trans não binário. Em terrenos mais próximos, passamos pela Andaluzia na sua luta pela terra, por Covas do Barroso na sua oposição à mineração, por Contumil (Porto) no seu processo de gentrificação, e por Curral das Freiras (Madeira) no seu combate pelo território. Não faltam ainda entrevistas, incluindo a Solveig Nordlund, cineasta fundamental da filmografia de Abril, ao ressurgido Indymedia e a dois pontos onde podes encontrar o MAPA à venda. Notícias também da Europa-Fortaleza, num tempo de cada vez maior utilização da Inteligência Artificial para fins repressivos que Joseph Weizenbaum parece ter previsto em 1976. Destaque central para o Vale dos Vencidos, livro de José Smith Vargas acabadinho de editar. Tudo isto com paragens para humor, literatura, cinema, poesia, ilustração, BD, ….»

Da apresentação da redacção do Mapa.

quarta-feira, janeiro 24, 2024

«Tasmânia», Paolo Giordano

 

D. Quixote, Novembro de 2023. 300pp. Tradução de Vasco Gato
Não esperem grandes rasgos literários e, muito menos após lerem «Tasmânia», concordarão que Paolo Giordano é «um dos mais importantes escritores italianos da actualidade» ou que o seu livro é «feroz e ao mesmo tempo comovente» como alertam as badanas do livro editado pela D. Quixote.

Apocalipse, vise-se hoje em Gaza e na Ucrânia. Preparam-se tantos mais, quanto mais depressa entrarmos num inverno nuclear que nos levará eventualmente à extinção. Nada que não saibamos sobre a programação oculta inscrita nos vários países do mundo apostados em acreditar nas alternativas autoritárias a autocráticas, para não dizer ditaduras que, segundo a ONU, nos últimos anos tiveram um aumento exponencial. Não escolho palavras ao acaso, basta fazer uma investigação no Sr. Google e os gráficos da organização mundial dizem tudo.

Paolo Giordano é um jornalista físico, dedicado a temas científicos sobre as alterações climáticas e a cada vez mais certa catástrofe. Foi este assunto que me levou a adquirir o livro. Depois, aparecia por todo os jornais, em operações de marketing bem visíveis elaboradas pelos críticos da praça, como se fosse uma experiência brutal de um novo tipo de literatura. Não vi lá nada. Diziam que para além do apocalipse físico do planeta, também ele vivia um, pessoalmente. Sinceramente nada vi. Se o apocalipse era a relação com a sua mulher, temo dizer que 90 em cada 100 portugueses que pediram o divórcio após o casamento, também já o viveram, com a agravante lusa de terem de continuar a morar um com o outro devido ao preço da habitação. Isso talvez configure uma verdadeira calamidade. Mas adiante.

Quanto ao apocalipse em si, o da Terra, ele mistura tudo, as alterações climáticas verdadeiras, o terrorismo islâmico, as megatoneladas de satélites que envolvem a atmosfera da terra e que a todo o momento podem cair sobre nós numa reacção em cadeia, os problemas de género, o negacionismo que provoca a síndrome de Cassandra que se explica pela impotência dos cientistas do ambiente em fazerem-se acreditar por políticos e pela população alimentando um estado pré-traumático e depressivo sobre eles, a proximidade real de um inverno nuclear por uma guerra mundial, a seca e a falta ou envenenamento dos recursos hídricos, as pandemias, o desaparecimento das nuvens ou a transformação destas em nuvens de metano com luz própria para além da libertação do permafrost, também de metano que liberta o CO2, só para citar alguns dos problemas que fala sem grande aprofundamento. Enquanto isso, ele viaja pelas COP's, não gosta do que vê, vai tendo aqui e ali relações com mulheres fugazes e apocalípticas, claro, não consegue ter filhos sabe-se se lá se pela qualidade da água cheia de feromonas, vai comendo hambúrgueres e embebeda-se de vez em quando para aliviar o stress. 

Sobre a guerra mundial que será nuclear, (daí Paolo Giordano se encontrar, por várias vezes, em Hiroxima e Nagasáqui para estudar ainda hoje os efeitos das bombas A), vejo-me na quase obrigação de lembrar uma afirmação de Einstein, não sei se apócrifa, mas que ainda assim vou citá-la: «Não sei as consequências se houver uma Terceira Guerra Mundial, mas sei que a Quarta será à pedrada!». Tasmânia? Por que não a Patagónia, igualmente? De qualquer modo, os abrigos atómicos das elites já estão a ser construídos sub-repticiamente. Onde irão eles, após o colapso, comer os hambúrgueres e as coca-colas, pergunto-me? Mandam vir pela Uber? Através da net? Qual net? Qual Uber?

A referência à Tasmânia, em somente duas páginas do livro e que lhe dá o título, explica-se porque, segundo o jornalista científico Paolo Giordano e alguns outros cientistas, terão a certeza que será o único lugar que reúne as condições necessárias para a sobrevivência após o apocalipse, tenha ele as características que tiver. Marte? A proposta hilariante de Elon Musk de explodir bombas nucleares em cadeia nesse planeta, de modo a produzir uma atmosfera viável para o ser humano, é de um ridículo que ultrapassa Trump quando este afirmou que não havia aquecimento global porque nevava e rodos em Nova Iorque! Depois, há afirmações, no mínimo grotescas, como a que Marie Curie foi a primeira cientista negacionista da História, por ter rejeitado que a doença que a levou à morte, mesmo com as mãos verdes fosforescentes devido à manipulação de urânio, nada tinha a ver com radiações. Forçado, isto. 

Tudo muito leve, demasiado leve. Se a táctica era misturar um problema real do clima e do planeta como metáfora da sua vida real, falhou totalmente. Quanto a mim, há livros bem mais preocupantes e sérios, com dados científicos verificáveis sobre o colapso. Basta procurá-los. Talvez o fim deste livro na minha estante, signifique que a plataforma olx seja uma alternativa interessante.

D. Quixote, Novembro de 2023. 300pp. Tradução de Vasco Gato

domingo, janeiro 21, 2024

«O Anticrítico», Diogo Vaz Pinto

 

Maldoror, Dezembro de 2023. 659pp
Já cá mora, enviado rapidamente pela Letra Livre, uma editora e livraria independente que, ainda por cima, soma a estas qualidades a do envio das encomendas para todo o país. Não é só a única, diga-se (a Utopia e a Snob também contam para o recado), mas convém lembrar-vos. Trata-se de «O Anticrítico» de Diogo Vaz Pinto, editado em Dezembro de 2023. Escuso de lembrar que é poeta, escreve no «Sol» e que é editor da Língua Morta.

Atenção: não li o livro todo. Vou lendo aqui e ali, porque o livro está bem estruturado e leva-nos facilmente onde queremos, isto é, a tipos que conhecemos, a poetas lidos e conhecidos e a referências impossíveis de contornar. Ainda é cedo para conseguir ler todas as 650 páginas, mas do que li, e já não foi pouco, infiro algumas das verdades apostas: Diogo Vaz Pinto sabe do que fala e do que falta na literatura e na poesia portuguesas. Tem uma enorme cultura de base, que não se confunde com a cultura de café ou de «títulos jornal» saídos directamente da Wikipédia, com que muitos ditos críticos nos brindam e brincam connosco. É contundente e implacável. É, sem dúvida. Mas as letras lusas há muito que precisavam de uma escrita como a dele. Sentíamos (sentimos) uma modorra, uma corrupção de interesses instalados muito difíceis de suportar para quem usa e teima no costume de ler e que não desiste disso. Uma arrogância sapiente a modos de exportação coimbrã instalada em Lisboa e Porto, mai-la província em bicos de pés. As festas florais em que transformaram os encontros literários, os editores a lixarem outros, o ego insuportável de autores, as sacanices utilizadas e isto sem querer arrolar muita porcaria do que se vê e lê. Não se deduza, contudo, que Diogo Vaz Pinto seja «uma lufada de ar fresco» como é costume dizer-se amiúde quando queremos recuperar alguém. Ele não me parece «recuperável». 

«Não tenho conta para as vezes todas em que, para ir com a rábula insultuosa que me tecem, pegando uns onde outros deixaram, numa cooperativa de imbecis que, sinceramente, me comove, já me quiseram tirar a condição que vem de tudo o que faço. Mais difícil seria desmontar alguma coisa. Resta que, ou ignoram muito vermelhuscos, ou a ideia é revogar-me a carta, licença, prostrar-me na indigência de eu ser uma qualquer abominação, ''Bicho'', monstro que ligam com tudo o que é baixo, e mesmo assim paira sobre eles sem explicação. (...)» (da contracapa)

Pode-se concordar com ele ou não. Em alguns trechos sobre autores, não concordei. Na maioria dos casos, sim. São inegáveis e certeiras as críticas do «anticrítico». Mas é necessário ter o livro à mão para o dizer.

Passo a transcrever um trecho de um capítulo, «Coveiros da Própria Consciência» (pág.605) que mais me deram prazer ao ler e, agora com experiência feita de 15 anos e editado 250 livros, tendo parado há 7 anos a edição e fechado a luz da Deriva, de ter pago a água, entregue a chave ao senhorio, é com total concordância que vos dou aqui a conhecer:

«Seria uma tristeza, uma canalhice, na verdade, fingir que há algum charme na edição literária. É uma vocação desesperada, em nome de um mundo que há muito levantou as âncoras e deslocou deste, tendo deixado apenas o cheiro a despegado, os traiçoeiros ecos de ordem às tripulações, e ainda temos de aturar esses marinheiros de água doce, enchendo a toda a hora a boca com os «ó céu ó mar ó destino», e temos as enfadonhas canções de bêbados, as mais desconchavadas meretrizes com a sua entrega desoladora, e, nisto, no máximo, pode aspirar-se àquela noção romântica que Leminski cunhou para o poema que não se entende, e por isso é digno de nota, com «a dignidade suprema de um navio perdendo a rota».
Assim, editar seria como escrever algo em busca de um desentendimento imensamente desafiante e animador, essa conversa que o escritor israelita Etgar Keret disse ser longa como um túnel debaixo de uma prisão, escavada pelo editor - paciente e dolorosamente - com uma colher, para que possamos sair do lugar onde estamos. A edição está a meio caminho entre a utopia e o pão com margarina servido a um faminto. Há, portanto, muita margem não só para erros audaciosos, mas para aldrabices, e é uma paisagem que se apresenta hoje cheia de lacraus e vigaristas, desses que não apenas acreditam mas, mais, até se deixam embalar nas próprias lérias. (...)» (pág. 617, 618)

Vou continuar a ler e a consultar. Em português bem escrito, acresce-se.

quarta-feira, janeiro 17, 2024

«Tai Pi», Herman Melville

 

Minotauro, Junho de 2023. 358pp. Tradução de Miguel Martins
Ah, canibais! Digo-vos desde já que entre os antropófagos que por aí andam nas sociedades contemporâneas e os originais, depois de ler «Tai Pi, Um Olhar sobre a Vida Na Polinésia» de Herman Melville, prefiriria, de longe, conviver com os segundos. O livro foi escrito em 1846, editado recentemente pela Minotauro, e corresponde ao período em que Melville, acabado de observar a ruína financeira da família novaiorquina, parte para a aventura que o leva no navio Dolly para a Polinésia «francesa», ou seja em Nuku Hiva, nas quase virgens Ilhas Marquesas. Foge, com um companheiro de viagem, Toby, do navio que o trouxe a esta baía e fica por lá durante quase meio ano. «Tai Pi» foi o seu primeiro livro, a que se segue «Omoo», sequela do primeiro e que estranhamente não foi traduzido e publicado em português ou nas suas vertentes brasileiras ou africanas. Que eu saiba; e é pena se assim é.

Os canibais de Tai Pi, que em polinésio significa «comedores de carne humana», são no seu quotidiano vegetarianos. Ora, toma! Eles são cocos, bananas, fruta-pão, e só de vez em quando, em grandes festas comunitárias, lá comem um parkuee, porco ou leitão, e uma ovelha ou outra. Peixe, raramente e só cru, acompanhado inapelavelmente por mais festas. Bebidas: água límpida e fresca que brota de múltiplas cascatas e uma «arva» de efeito narcótico e relaxante que escuso aqui de enaltecer porque infelizmente nunca conheci. Melville diz que provoca um sono luxuriante e eu acredito. Fumavam uma espécie de tabaco com cachimbos que rodavam entre mãos, igualmente «relaxante», embora o escritor nunca tenha reparado em plantas de tabaco na ilha. Mistérios. A verdade é que os dias passavam com o «Molee», que em polinésio, era o chamado descanso ou sesta. O tempo, nas sociedades ditas primitivas, não é o mesmo do nosso. Dilata-se. Carne humana? Já lá vamos.

Os hábitos dos Tai Pi, inimigos declarados dos Happares seus vizinhos e igualmente canibais, eram, de facto, formidáveis e, ainda hoje nos encanta, lendo a descrição real de Melville no meio-ano que esteve com eles, quase prisioneiro, visto que não o queriam em contacto com os brancos de onde era proveniente não o deixando descer à baía de Nuku Iva já em comércio inicial com a França. Conclusão: os Tai Pi, por mais canibais que fossem, não mastigaram Herman Melville e deram-lhe a possibilidade de um êxito estrondoso com a publicação deste livro e de Omoo. No fundo, amaram o americano intranquilo, deram-lhe todas as mordomias e simpatias; Kory-Kory foi o seu ajudante e guardador quotidiano, apaixonou-se por Fayaway «a mais bela das nativas» e teve relações privilegiadas com o chefe (não tão chefe assim) Mehevi. Aliás, não havia «chefes» tal como um pobre ocidental habituado miseravelmente à subordinação, o entende. O prestígio de um indivíduo vinha sobretudo das suas façanhas guerreiras contra os brancos ou os Happares. Aí, havia festança no fim das refregas e lutas que paravam aos primeiros ferimentos ou mortos e que não ultrapassavam o número dos dedos da mão de um lado e de outro. Melville, no fim da sua estada forçada por uma perna doente e pela teimosia dos Tai Pi em não o deixarem sair do vale de dois mil habitantes, reconheceu que a festança era nutrida por corpos dos mortos em combate. Nada do outro mundo e até, por consideração ou comiseração, não o convidaram para a grande festa de dois dias não fosse o americano descobrir os ossitos e caveiras humanas a servir de decoração dos Pi-Pi e do Ti a grande cabana de homens. Disseram-lhe que se ele fosse a essa festa particular de guerreiros (houve outras de dias seguidos para que foi convidado) era «tabu» uma expressão que Melville, nunca soube traduzir porque ou tudo era tabu ou nada era tabu. Ou, melhor ainda, os tabus podiam ser levantados, segundo a disposição do chefe Mehevi ou de um sacerdote mais afável para com os preceitos sociais. Embora de índole guerreira os conflitos entre o clã eram inexistentes, as crianças eram poucas e felizes, a poligamia era feminina e não masculina, isto é cada mulher tinha entre um a dois homens que escolhia ou repudiava, nem tinha as habituais tarefas atribuídas às mulheres, mesmo em sociedades não ocidentais e «primitivas». Como não havia agricultura, não havia trabalho, ou propriedade. Talvez o Pi-Pi, a casa, ou a lança, fosse a única propriedade tida como tal, mas eram casas abertas a todos e não havia roubos, conceitos completamente desconhecidos entre os Tai Pi e os Happares. Na baía de Nuku Hiva, onde os barcos ocidentais atracavam em busca de ouro e metais preciosos, já não era assim, obviamente. Daí os povos das montanhas exigirem o isolamento e os contactos em forma de «tabu».

«Neste estado de espírito, todos os objectos que captavam a minha atenção infundiam-me uma perspectiva diferente, e as oportunidades de que agora desfrutava de observar as atitudes dos nativos tendiam a fortalecer as minhas impressões favoráveis. Uma peculiaridade que me provocou admiração foi a permanente hilaridade que reinava ao longo de toda a extensão do vale. Pareciam não existir quaisquer preocupações, tristezas, problemas ou contrariedades em todo o Tai Pi. As horas passavam tão alegremente como os casais sorridentes num baile rural. [...] Tudo era alegria, diversão e muito boa-disposição. O desalento, a hipocondria e as depressões dolorosas iam esconder-se no meio dos recantos e das fendas das rochas.» páginas 174 e 175.

Sendo assim, Herman Melville voltou para Nova Iorque, após mais dois anos na Polinésia. Quer «Tai Pi», quer «Omoo» foram um êxito comercial, o que não aconteceu com os posteriores «Moby Dick» e «Bartleby» na ocasião ostracizados e hoje considerados os melhores livros de Melville. Regressou então para, palavras dele, a «civilização» onde encontrava as execuções hipotecárias, letras protestadas, contas a pagar, dívidas de honra, alfaiates ou sapateiros injustos, obstinados em serem pagos, cobradores, advogados que fomentavam a discórdia, familiares pobres a ocuparem permanentemente o quarto de hóspedes, viúvas desamparadas com os seus filhos a passarem fome nas instituições de caridade deste mundo, mendigos, prisões para devedores. Continua: «Em Tai Pi, não havia quaisquer nababos orgulhosos e insensíveis; ou, para resumir tudo numa palavra, não havia dinheiro! Essa ''raiz de todos os males'' não se encontrava no vale.» (pág.175)

Escolha dele. Gauguin não o fez. Um livro admirável que deve ser lido com sofreguidão abundante.

Minotauro, Junho de 2023. 358pp. Tradução de Miguel Martins

sexta-feira, janeiro 12, 2024

«Felizes anos de castigo», de Fleur Jaeggy

 

Alfaguara, Outubro de 2023. Tradução de Ana Cláudia Santos
Não é costume, mas inicio esta ficha de leitura com um comentário de Joseph Brodsky sobre «Felizes anos de castigo» da suíça Fleur Jaeggy, livro publicado na Itália, em 1989: «A caneta de Fleur Jaeggy é como a agulha de um entalhador a desenhar raízes, os galhos e os braços da árvore da loucura - uma prosa extraordinária. Tempo de leitura: quatro horas. Tempo de recordação: a vida inteira.»

Se concordo com este comentário de Brodsky, já não me reconheço noutros que a editora deu a conhecer nas badanas e contracapa. A narrativa centra-se na relação obsessiva de duas jovens (a própria Fleur e Frédérique) num colégio interno na Suíça, mas não me parece ser esse o seu principal fio condutor. Trata-se, antes, de uma descrição de um universo concentracionário, absurdo e paradoxalmente bem real, pesado, violento, de um colégio interno onde se passaram os melhores anos da vida de muitas jovens. No entanto, e reside aqui a singularidade do estilo literário de Fleur Jaeggy, este clima de quase pesadelo não perpassa totalmente para a escrita. A autora sabe ver através do vidro das janelas dos quartos fechados as estações do ano, a Primavera que desponta, a neve que cai, o Outono das folhas caídas e o calor do estio no Lago Constança. Também nos armários individuais os objectos, as cartas, os sinais que vêm de fora, da família ausente e dos comboios libertadores que as levam nos períodos de férias que, nem por isso, são melhores. A sua escrita é límpida.

Para além da prosa que nos prende completamente ao livro de uma escritora desconhecida para os portugueses, embora nascida em Zurique em 1940 e já com uma obra algo vasta, a sua leitura foi-me acompanhada por vários sobressaltos. Um deles começa logo na primeira página do livro: Escreve Fleur que tinha apenas 14 anos, quando teve conhecimento da morte próxima de um homem na floresta de Appenzell quando dava o seu passeio na neve. Esse homem era Robert Walser. Não era ainda reconhecido como escritor em 1956, ano da sua morte a 25 de Dezembro (aqui deve haver um engano de datas da escritora, visto que então teria 16 ou 15 anos e não 14 como refere), nem a sua professora de Literatura o conhecia. Talvez por isso se tenha debruçado, posteriormente, pela história trágica de Walser, também ele internado e durante trinta anos, no manicómio de Herisau a muito pouca distância do Bausler Institut, o colégio de Fleur. Mais tarde torna-se amiga de escritoras e escritores de que aqui dei nota: Ingeborg Bachmann, Thomas Bernhard, Italo Calvino ou o já citado Brodsky. Traduziu igualmente Marcel Schowb, entre outros.

O outro sobressalto estará relacionado com a vivência de Fleur Jaeggy no colégio interno. Só por quem lá passou, e na idade entre os 6 e os 15 anos vividos por ela, é que poderá compreender na sua totalidade os sentimentos contraditórios de amor e ódio, de revolta intensa, de vontade poderosa de fuga, de violência explosiva ou de impotência que guardam as paredes de um colégio. Sei do que falo, daí o sobressalto mais que justificado perante o título irónico de «Felizes anos de castigo». O espanto que cresce à medida que lemos Jaeggy é a triste certeza do que fala e do que viu transcrito para este livro admirável. Acreditem que, em colégios internos, o inferno está mais perto do que se pensa:

«Eu compreendia aquelas crianças que se atiravam do último andar de um colégio só para fazerem alguma coisa desregrada, e disse-lho [a Frédérique]. A ordem era como as ideias, uma posse, uma possessão. (...)» Pág.54. 

Num colégio interno ou, calculo, numa prisão, a necessidade de ordem chega a ser uma obsessão perante o caos da violência, dos castigos gratuitos ou dos afectos em ebulição, mesmo que não se manifestem durante uma eternidade. Porque o tempo, aí, torna-se uma eternidade. Tem-se de ter os armários fechados a cadeado, a roupa bem arrumada, a carteira da sala igualmente fechada, separada com os cadernos das disciplinas, os manuais, os estojos em que não falte nada para evitar não só os castigos, mas também que as ideias estejam em «ordem», naturalmente em ordem. Fleur descreve o seu armário e a carteira como o seu mundo. 

Depois vem o desejo, a necessidade de prazer que se confunde com a tristeza e a solidão. Não há escolha: «Mas perseverava no prazer de ir até às profundezas da tristeza, como se faz com uma humilhação. O prazer do desapontamento. Não me era novo. Apreciava-o desde que tinha oito anos e era aluna interna no primeiro colégio, religioso. E se calhar foram os melhores anos, pensava. Os anos de castigo. Há como uma exaltação, ligeira mas constante, nos anos de castigo, nos felizes anos de castigo.» Pág.80.

Este livro rasa ao de leve nos «educadores» e nas suas taras, incongruências, desejos escondidos, na sua crueldade. Tal como Fleur Jaeggy, também senti essa violência discricionária, gratuita, exercida por indivíduos que se diziam professores a alunos e que nem sequer se deviam aproximar de uma instituição educativa, quanto mais ensinar ou educar. O mesmo para os prefeitos aceitados para castigar e que não tinham hipóteses de ter um emprego normal, alguns deles criminosos da guerra colonial. Em Portugal, só conheço uma ou outra obra que trata esta violência (cito de cor): a de Vergílio Ferreira em «A Manhã Submersa», a de Nuno Bragança em «A Noite e o Riso» em que ele foge do colégio que frequentei, e ultimamente «A Gorda», de Isabela Figueiredo (presumo na parte feminina do mesmo colégio conhecido pela sua brutalidade). Mas foi um artigo de uma crónica de António Guerreiro, no Público, que chamou a atenção sobre este fenómeno mais que usual nos colégios portugueses: a crueldade exercida sobre alunos e alunas por professores que deveriam pedir desculpa a gerações inteiras dessa gratuitidade movida por autênticas taras. Talvez um dia a República a peça. Mas quando, hoje, ouço professores a defenderem a retoma de castigos físicos com o «argumento» de «a mim não me fizeram mal nenhum», duvido que, em vida, assista a tal acontecimento. 

Mas o que diz Fleury sobre esses educadores? «Rancor é coisa que os educadores parecem possuir, um rancor à superfície da pele e no tom de voz, um rancor, ousaríamos dizer, quase pela humanidade em geral. E é talvez graças a este rancor que eles, os educadores, são em substância bons educadores.» Pág.91. Talvez. Um educador é sempre um reactivo, um disciplinador.

Termino adiantando, espero que não abusivamente para quem ler este livro, que Frau Hofstetter, a directora do colégio, acabou por morrer num desastre de automóvel em pleno temporal no Appenzell, junto com o marido e com o filho. As mortes pouco significaram para Fleur. Já tinha outro colégio interno que frequentava e Frédérique, sempre tão racional durante a estadia na instituição como aluna, encontrava-se num manicómio, despojada de tudo, por tentar deitar fogo à casa, com a sua mãe lá dentro. Nunca mais se encontraram. Fiquemos então com as palavras de doce ironia e maldade criativa de Jaeggy:

«Éramos maleáveis, ela [Frau Hofstetter] modelou-nos. Mas como podiam os seus olhos vigiar um temporal, que se calhar queria pregar-lhe uma partida? Os educadores, pelo menos aqueles que conhecemos, não têm uma vida dupla. Durante o ano ensinam, depois descansam. Nunca vão à aventura. Não temos saudades dos nossos educadores. Talvez por vezes os tenhamos respeitado demasiado, mas isso fazia parte da educação que recebemos, e, se todas as noites beijei a mão à Mére Préfète, sem nunca me rebelar, foi porque, por vezes, além das regras, havia também a volúpia. A volúpia da obediência. Ordem e submissão, não se pode saber que resultados darão na idade adulta. Há quem se torne criminoso ou, por desgaste, bem-pensante. Mas ficámos marcadas, sobretudo aquelas raparigas que passaram sete a dez anos num internato. Não sei o que lhes aconteceu, já não sei nada delas. É como se estivessem mortas.» Páginas 92 e 93.

Em 1989, presumo, Fleur Jaeggy foi procurar o Bausler Institut. Já não existia e as pessoas, disseram-lhe que estava enganada. Ali nunca houve um colégio, agora o edifício era um instituto para cegos. Talvez fosse melhor procurar noutro local. A memória levou esse colégio como o vento. Tal como o meu colégio, hoje coberto de heras e de osgas, ratazanas e vidros partidos, de morcegos e de pombos que entram nas antigas salas de aulas. Quando também há pouco tempo passei por lá, não deixei de me sentir bem ao vê-lo assim. Mas ainda há memória dele.

Fleur Jaeggy está viva. Está em casa, em reclusão, há anos.

Alfaguara, Outubro de 2023. Tradução de Ana Cláudia Santos