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terça-feira, março 31, 2026

"Cânone de Câmara Escura", Enrique Vila-Matas


D. Quixote, 2026. Tradução de J. Teixeira de Aguilar 
Valha o escritor que gosta imenso de si próprio, que olha para si e observa, entusiasmado e satisfeito, uma absoluta inteligência, tão viva que o enternece e comove. A verdade é que ser traduzido em 37 línguas e ter um rol de prémios que nascem como cogumelos numa floresta húmida, dispõe positivamente o seu ego literário. Não há nenhum mal nisso, antes pelo contrário, porque a autoestima é um estado cada vez mais enevoado no comum dos mortais de que são feitos os leitores e os escritores querem-se essencialmente felizes. Não para os andróides. Aí, o caso é outro, visto que o novelo da programação informática pode-lhe oferecer toneladas de autoconvencimento e de narcisismo, o que é coisa verdadeiramente humana. E a narração de «Cânone de Câmara Escura» é apresentada e escrita por um andróide. Evidentemente que, sem Vila-Matas os nomear, o leitor que viu o inesquecível «Blade Runner», de Ridley Scott, ou leu o «Será que os Androides sonham com Ovelhas Elétricas?» de Philip K. Dick, na Relógio D'Água, perguntar-se-á onde já tinha lido coisa igual como, por exemplo, a vida de um andróide ter somente quatro anos, terem a tendência assassina para matarem o seu criador, exigirem mais tempo de vida e não terem qualquer referência da sua infância, somente imagens fragmentárias. Tal como a narrativa é apresentada por fragmentos. Nada contra, mas se se me permitem a nota de fim de página em que consiste este texto, é necessário alguma contenção em saber dosear esses mesmos fragmentos num todo comum como faz Pascal Quignard, Emmanuel Carrère, ou Christian Bobin. Ou, ainda, Gonçalo M. Tavares e Fernando Pessoa, este último com a «Tabacaria», tornado o poema lisboeta para turistas, referidos por Vila-Matas. O que este pensa sobre os fragmentos? Cito-o: «Os fragmentos! Não são, não são, como tanto se julga, uma parte do todo, mas sim uma parte importantíssima do todo. Por isso têm de ter a potência suficiente para que possamos abrir um livro em qualquer página e ler sem necessidade de saber o que sucedeu antes ou sucederá depois.» (pág.40). Ficamos avisados, embora algo desprevenidos perante o curso e recurso com que é feita a história que afinal não existe de todo. Enrique Vila-Matas é contra a narrativa? Esclarece deste modo: «Recorde-se bem: ao contrário do que se pensa e que leva àquela alegria de publicar todo o tipo de narrativas, no mundo já não existe a simplicidade inerente à ordem narrativa, essa simples ordem que consiste em poder dizer às vezes: ''Depois de se passar aquilo, passou-se isto, e depois passou-se aqueloutro, etc.'' Desde já não sei quando nos tranquilizou a simples sequência, a ilusória sucessão de factos. Não obstante, há uma grande divergência entre uma prazenteira narrativa e a realidade brutal do mundo. ''Tudo se tornou agora não narrativo'', dizia Musil, frequentador de um universo multidimensional, fragmentário, de um mundo sem possibilidades reais de alcançar uma ordem como a que porventura pôde alguma vez ter existido.» (pág.132). Não sei (reivindico agora o papel de leitor) se o tempo narrativo morreu devido aos males do mundo, também ele fragmentário, segundo Vila-Matas, nem me preocupa saber se ele tem ou não a razão do seu lado no campo literário; o que sei é que é necessário contar, narrar, descrever, exactamente pelo mundo estar como está, exige-se o todo como uma possibilidade de compreensão. E isto nada terá a ver com o real ou a sua inversão tantas vezes necessária. Falo somente do fragmento.

Qual o objectivo último do nosso amigo andróide? O de criar uma biblioteca baseada num cânone de 71 livros e aí encontraremos Sterne, Cervantes, Cortázar, Borges, Duras, e muitos outros numa panóplia de escritos e frases que constituem peças soltas de um enorme puzzle cujo fim demora a descobrir, mas como afirma o autor seria necessário criar um cânone «Mentalmente deslocado e intempestivo, como todos os Cânones interessantes» (pág.41).

No final desta auto-apoteose, deste exercício de estilo sazonal como convém a um escritor premiado, Vila-Matas finaliza o seu trabalho com «Eu e a Minha Chaminé» de Melville, e «O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde», de Stevenson, junto com os «Ensaios», de Montaigne. Também refere uma obra que lhe chamou a atenção: «La última frase», de Camila Cañeque constituído com a 452 últimas frases de 452 livros, um exemplo claro da ideologia fragmentária que alugou para este livro. Fico-me pela última frase de «Cânone de Câmara Escura»: 
«E até no ar percebo o Mal indefinido que está para chegar.»

alc

domingo, março 15, 2026

"Nada", Carmen Laforet

 

Cavalo de Ferro, 2024. Tradução de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu.
Só a ficção permite este facto singular: sem falar abertamente de política, um romance pode dar-nos o retrato fiel de um país, Espanha, mergulhado numa espiral de paranóia e violência após a guerra civil de 1936-39. «Nada», de Carmen Laforet, descreve-nos uma Barcelona exausta, faminta, castigada como poucas cidades foram após a vitória de Franco e dos fascistas. E com ela toda a Catalunha. Estamos em 1945, data da publicação e descoberta literária de Carmen Laforet a quem é atribuído o Prémio Nadal. Não é só Barcelona, das Ramblas e do mar, que é descrita com os seus odores, o seu frio e canícula do verão, as suas casas gradeadas nas janelas e as suas árvores frondosas. Com estas imagens sobrevive uma família da classe média estrangulada pela violência intrínseca, pela fome, pela depressão e pela ruína, onde o catolicismo coexiste com o pior que o ser humano pode oferecer de cupidez, de violência e de medo. Um medo que se sente em cada linha, como se se abatesse naquela família todo o peso de uma desgraça que se pode declarar a cada instante e sob diversas formas. Não admira, pois, que o fim seja inesperado, tal como inesperado parece ser o futuro que se guarda para a jovem universitária Andrea, a protagonista solitária deste romance e onde, paradoxalmente, as outras personagens se arrastam num verdadeiro quotidiano de um remanso preguiçoso e tóxico. Ela tenta remar contra a maré negra que a invade na sua casa de família entregando-se ao estudo, a uma amizade real com Ena e a uma boémia artística que lhe pode granjear algum bem-estar, mas a sociedade espanhola é demasiado fechada para se atingir um grau de liberdade que essa mesma boémia lhe poderia permitir atingir. Não será por acaso que são os jovens ricos que se entregam à fuga pela arte, como bem nota subtilmente a autora. 

Carmen Laforet merece ser conhecida não só como autora de referência, mas também pela sua vertente existencialista. Nasce em 1921 em Barcelona, publica pela primeira vez em 1945 e o seu último romance, «A Insolação» data de 1963. A partir daí, conta com alguns textos dispersos e abandona o meio literário. Morre em 2004 com Alzheimer, contando com um romance póstumo. A edição portuguesa conta com um prefácio de Mario Vargas Llosa e, na badana, uma nota inócua de Ana Cristina Leonardo; mesmo assim não desmerece a leitura de «Nada». Antes pelo contrário.

alc 

segunda-feira, janeiro 06, 2025

«Viva L' Anarchie!», Tomos 1 e 2. Bruno Loth e Corentin Loth

 

«Viva L'Anarchie!», Tomos 1 e 2. Bruno Loth (argumento e desenho) e Corentin Loth (côr)
Subtítulo: «O Encontro entre Makhno e Durruti. La Boîte à Bulles, 2020

Um regresso feliz à BD com este «Viva L'Anarchie!» pelo argumento e desenho de Bruno e Corentin Loth. Revivo, com esta forma popular que adquiriu o nome pomposo de «novela gráfica» nos dias de hoje, uma relação íntima com esta forma de arte. Claro que a BD pode ser lida em conjunto, mas não é de modo nenhum uma forma muito agradável de o fazer. Tal como a leitura de um livro, quando é feita a dois é já uma multidão, o que, como sabemos, não acontece com a pintura, o cinema, a música, a performance, ou o teatro. Daí, considerar a Banda Desenhada uma arte (a nona?) com um carácter muito particular. 

«Viva L' Anarchie!» é História. Os factos, documentados e cujas personagens são biografadas, relatam a luta travada por Nestor Makhno e Buenaventura Durruti, nos anos 20 e 30 do século passado, respectivamente na Ucrânia e na Catalunha para a construção de uma terra verdadeiramente livre e partilhada por todos. Mas as geografias utópicas não ficam só nessas regiões, não fosse o projecto anarquista ser assumidamente internacionalista. O mundo era um lugar sem fronteiras, tal como o dinheiro e o capitalismo não as têm, igualmente. A clarividência e a exigência do impossível foram sempre atributos anarquistas. Principalmente, quando acompanhados por milhões de camponeses e operários sem nada, explorados até ao tutano, morrendo de fome, reprimidos e humilhados em todos os continentes como foi presenciado também na América do Sul por Durruti e Ascaso. Esta história pode e deve ser contada, mas infelizmente não há editores portugueses que o façam. Na França, na Grã-Bretanha, na Bélgica, nos Países Baixos e em Espanha, não há receio de assumir uma história de luta que está entranhada no adn do país ou da região. Aqui em Portugal, que temos uma enorme história de construção do anarco-sindicalismo e no comunismo libertário, temos parece que uma amnésia, um véu, que desce sobre as lutas dos operários e camponeses por vidas mais dignas. 

Pouco antes da Guerra Civil de Espanha de 1936-39, Durruti encontra-se em Paris com Makhno (este já «derrotado» e a trabalhar, com várias doenças entre as quais a tuberculose que o vai matar, na Renault) e com a sua mulher Galina e Yelena, a filha. Durruti faz-se acompanhar por Ascaso, Louis Lecoin e Yakov, entre outros e outras companheiras. É essa conversa de recordações e de projecções de futuros que a história se desenvolve com um ritmo argumentativo de assinalar. Nessas recordações vimos a violência extraordinária de Guerra Civil de 1918 a 21 na Rússia e, principalmente, na Ucrânia, visto que foi lá que a força da Makhnovchtchina (expressão que Makhno não aceitava, aliás) se fez sentir derrotando os nacionalistas ucranianos aliados dos austro-húngaros e alemães ocupantes após Brest-Litovsk, esmagando igualmente os Brancos de Denikine e, depois, de Wangrel. Contudo, o mais importante, o que levou ao ao apoio entusiástico das populações ucranianas em torno de Makhno, foi o projecto igualitário e colectivista levado a cabo pelos comunistas libertários no campo e na cidade. Reconhecemos demasiado bem, hoje, diria que infelizmente, o mapa da Ucrânia e lá vem as zonas libertadas, o rio Dniepre, o Donbass, a Crimeia sempre fonte de conflito e de acesso ao Mar Negro. As vitórias de Makhno só se poderiam dar com o apoio da população, visto que o número e as forças em presença eram gritantes tal a sua diferença. De vitória em vitória, até à derrota da Makhnovchtchina pelos bolcheviques de Trotsky, já quando desgastados depois da campanha da Crimeia e este não considerando sequer a sua antiga inclusão no Exército vermelho. Quase todos foram presos, alguns desaparecidos e muitos eliminados, executados por ordem de Estaline, como aconteceu com Galina e Yelena, presas mais tarde em Berlim Oriental após a II Guerra Mundial. 

Quanto a Durruti, morreu, como sabemos, em plena Guerra de Espanha em circunstâncias estranhas em que não há certezas de onde vieram os tiros. Aliás, como Ascaso e tantos outros e outras da CNT-FAI que morreram, não só metaforicamente, com tiros nas costas. Uma história verdadeira onde se misturam traições, ódios, amores e principalmente a enorme vontade de edificar algo que ainda não temos. Talvez um dia. Para já, em plena regressão humana, é sempre bom ter estes livros bem perto.

alc

quarta-feira, julho 03, 2024

«Novo Iluminismo Radical», Marina Garcés

 

Orfeu Negro, Out. 2023, Tradução de Helena Pitta
Conheci brevemente a filósofa catalã Marina Garcés em 2010 quando acompanhou Santiago López-Petit nas II Derivas de Maio que a editora organizou sob o tema «Com uma Faca nos Dentes: Educação, Revolução, Realidade». Aí, Santiago López-Petit apresentou o seu livro «A Mobilização Global, seguido de O Estado-Guerra», com tradução e prefácio de Rui Pereira, que a Deriva publicou. Ambos pertenciam ao grupo de pensamento «Espai en Blanc» sediado em Barcelona. O Ípsilon, do Público, entrevistou-a há umas semanas devido à publicação deste livrinho pela Orfeu Negro. Não cheguei a ler. De qualquer modo, as intervenções que Marina Garcés protagonizou no espaço do então Esmae do Porto, onde decorreram as II Derivas de Maio já apontavam para claras alternativas ao capitalismo e à (sobre)vida.

Seja como for, «Novo Iluminismo Radical» é composto por intervenções em conferências que, penso, foram obviamente reescritas pela autora na edição deste livro, de modo a ajustá-las à expressão escrita. Num mundo como o que observamos e sentimos na pele, hoje, Marina Garcés arrisca-se a ter razão na descrição e nas metástases que o corroem. Como diz Marx, que ela cita também, descrever o mundo todos os filósofos o fazem, transformá-lo é do que necessitamos. E quando falo em «razão» o termo foi usado propositadamente, como que a dizer ao que vem. Voltar a Kant? Nem tanto assim, mas voltar talvez ao Kant crítico de Kant, ao Hegel crítico de Hegel, ao Voltaire e a Rousseau, críticos igualmente deles próprios. A receita, não sendo nova e não constituindo qualquer novidade em si, contém um conceito entretanto perdido nas sociedades pós-pós-modernas, a que Garcés chama de «condição póstuma», em que o passado (defendido pelos saudosistas e retrotopistas que Baumann já tinha identificado) e o futuro são uma e a mesma coisa. Interessante é referir-se a Chernobyl como marca deste presente através da nobelizada Alexandra Alieksevitch quando afirma que as imagens daquela catástrofe não indicam claramente se é o passado ou o futuro. 

Sabemos igualmente que a crítica ao Iluminismo já foi elaborada pela esquerda nomeadamente desde 1949, com Adorno e Horkheimer, ou Braudillard, Agamben e outros, mas Marina Garcés propõe-nos ir mais longe, partindo do princípio que é possível um outro mundo que falhou todas as utopias a que se propôs levar a cabo, como, e cito, o anarquismo, o socialismo e o comunismo. O que ela vê de interessante e revolucionário é a luta pela vida digna, por um decolonialismo horizontal e universal, a crítica do homem branco, imperialista e colonialista, racista e eurocêntrico, ocidentalizado, patriarcal. Afirma mesmo que os verdadeiros revolucionários, nestes tempos sombrios e violentos, são os que salvam vidas no Mediterrâneo ou em Gaza, ou onde há guerras, valorizando a Vida que entretanto se volatilizou na educação e na formação dos homens actuais. Diz ela no seu Preâmbulo:

«O mundo contemporâneo é radicalmente anti-iluminista. Se, em 1784, Kant anunciava que as sociedades europeias de então eram tempos iluministas, hoje podemos dizer que estamos, em todo o planeta, em tempos de anti-iluminismo. Ele usava o termo com um sentido dinâmico: o iluminismo não era um estado, era uma tarefa. Nós também: o anti-iluminismo não é um estado, é uma guerra.
As faces desta guerra anti-iluminista são muitos e multiplicam-se todos os dias. No domínio político, cresce uma apetência autoritária que faz do despotismo e da violência uma nova força mobilizadora. Podemos chamar-lhe populismo, mas esse é um termo confuso. Do que se trata é de um novo autoritarismo que permeia toda a sociedade. No plano cultural triunfam as identidades defensivas e ofensivas. A cristandade branca e ocidental refugia-se nos seus valores, ao mesmo tempo que se desencadeia uma revolta antiocidental em muitas partes do mundo, mesmo por parte do pensamento crítico ocidental, que rejeita a sua própria genealogia.(...)»

Partindo da premissa que hoje é o tempo onde tudo se acaba, tudo morreu ou está em vias de morrer literalmente, a nossa espécie e um planeta feito à nossa medida, Marina Garcés descreve onde se encontram esses perigos e aponta como o alfa e o ómega da morte programada o capitalismo, o pós-humanismo que lhe está associado e a inteligência «delegada», num mundo cada vez mais ignorante e estupidamente indiferente, o que é distinto do conceito socrático do «não-saber» como forma inicial de atingir a «emancipação pelo saber». Baseada em Agamben e Antonio Negri afirma:

«Actualmente, a biopolítica está a mostrar o seu rosto necropolítico: na gestão da vida, a produção de morte já não é vista como um défice ou excepção, mas como normalidade. Terrorismo, populações deslocadas, refugiados, feminicídios, execuções massivas, suicídios, fomes ambientais... a morte não natural não é residual ou excepcional, não interrompe a ordem política; colocou-se no centro da normalidade e capitalista e das suas guerras não declaradas.(...)» 

A descrição de Marina Garcés, até agora, não constitui novidade por aí além na crise do planeta e do capitalismo global que lhe é inerente. O mais interessante do livro são as suas Cinco Hipóteses no ponto 3, «Humanidades em Transição». Fiquemos pela Hipótese 1 de ultrapassagem do capitalismo por essa humanidade em transição e isto no campo da educação e do projecto educativo actualmente em curso por todo o mundo:

«O projecto educativo que o capitalismo actual desenvolve situa-se nesta moldura epistemológica. A escola do futuro já começou a construir-se e não está a ser pensada pelos estados ou pelas comunidades, mas pelas grandes empresas de comunicação e pelos bancos. Não tem paredes nem muros mas plataformas online e professores durante vinte e quatro horas. Não será necessário ser-lhe excludente, porque será individualizadora de talentos e de percursos de vida e de aprendizagem. Praticará a universalidade sem igualdade: uma ideia na qual temos de começar a pensar, porque há-de ser, se não o é já, a condição educativa do nosso tempo.(...)» 

E assim por diante passando os olhos pelas outras quatro hipóteses finais de suposta transformação da humanidade «em transição». Não tenho o direito de discordar inteiramente de Marina Garcés, mas tenho-o em ser menos optimista que ela. Custa-me acreditar numa exaustão universal contra o(s) Estado(s) e na criação de bolsas autónomas e libertas da escravatura do trabalho cada vez menos pago e trabalhadores em depressão que, para fugir dela, criam contra-alienações. A História prova-nos que é numa situação de escravidão com um bem-estar pouco digno, é certo, mas ainda assim bem-estar, que não há oportunidade de revolta e muito menos de hipóteses revolucionárias que Marina não aborda, assim como só muito superficialmente toca na questão da produção alienada e do lucro e valor. É que isso tem tudo a ver com as hipóteses futuras de uma insurreição mundial, mesmo que a vejamos muito longínqua e os gérmenes tenham aparecido e desaparecido muito depressa. Mas que existem, existem. Por agora, resistiremos ao neofascismo mundial vindouro, esse sim, igualmente e violentamente anti-iluminista como o foi contra a modernidade do século XX, o que retira, por recuada, qualquer hipótese de luta insurrecional, mesmo que seja para nos salvarmos como espécie. 

Mas a Orfeu Negro tem razão quando apresenta esta colecção onde se insere este livrinho: «Microleituras - Efeito prolongado».

alc

quinta-feira, dezembro 22, 2022

«Mortos ou Coisa Melhor», de Violeta Hernando

 

«Mortos ou Coisa Melhor», foi escrito por uma miúda de 14 anos em 1996. A Antígona publicou-o então do castelhano e foi traduzido por Júlio Henriques. Hoje, a miúda terá 40 anos e não sei mais nada dela, a não ser que trabalha numa editora, ilustra e desenha gerindo cursos online. Continua bonita aos 40, asseguro-vos.
A leitura do livro abalou-me bastante. Na altura encontrava-me como ainda jovem professor em Lisboa, na Margem Sul e no distrito de Setúbal e foi uma bomba lê-lo, como já disse atrás. O cavaquismo tinha acabado, seguindo-se o pântano de Guterres e a revolta estudantil no secundário mantinha-se, digamos que em proporção à falta de perspetivas e expetativas de vida. A saída mais comum da pasmaceira da vida nos subúrbios dos meus alunos/as era o rock e as drogas. A cerveja igualmente. Às segundas-feiras entravam nas salas brancos, com ressacas monumentais e não era raro pedirem-me para sair da sala à pressa para se meterem nas casas de banho a vomitar. O livro de Violeta Hernando saiu nessa altura e li-o de uma assentada. Creio tê-lo compreendido em cada linha, permanecendo focado em muitos dos meus alunos e alunas. Querendo saber que cultura pós-punk e pós-new wave, que eu tinha passado com entusiasmo mesmo acreditando no seu «no future», era aquela. «Mortos ou Coisa Melhor» deu-me essa perspetiva, embora Violeta Hernando, com uma mestria literária surpreendente e precoce, tivesse levado a sua experiência em Barcelona para o palco dos Estados Unidos. O vazio demonstrado aos que a liam, as drogas, mesmo as mais duras, os ácidos, as bebidas brancas, os roubos e as armas, a violência latente em cada linha de escrita era por si própria atirada à nossa cara. Com uma altivez impressionante e com um conhecimento literário admirável apontava-nos o dedo como sendo nós os culpados de um tédio infinito, mesmo que o tivéssemos sentido como ela. 
Admiradora de Courtney Love, Iggy Pop e de Sam Shepard termina o seu livro com o «The End» dos Doors. Antes disso, oferece-nos o poema de Cristina Rosenvige:

Julga este idiota que pode tratar-me por boneca,
sou capaz de jogar pinguepongue na sua cabeça oca,
vou subir à roda grande para dizer adeus,
antes de nos vermos mortos ou coisa melhor
antes de ambos nos vermos mortos ou coisa melhor,
antes de ambos nos vermos mortos...
ou coisa melhor...

Por uma questão de respeito para com uma turma em que debatemos o livro, após um amigo de um deles ter morrido a fazer mosh do 1º balcão para a plateia num concerto de uma banda heavy metal, não vos direi a reação deles. Mas sei que o livro andou de mão em mão. 

Agora bem perto da reforma, olho para trás e vejo-os, a essas turmas, e provavelmente, neste momento, com os seus 40 anos, a viverem num outro tédio, num outro espelho, talvez tatuados/as com as suas lembranças na pele. Alguns não sei se sobreviveram. Esses são os que nos fazem lembrar que não ultrapassámos tédio nenhum, muito menos revolucionário. Não tenho tatuagens visíveis no corpo. Nunca as fiz, o que não quer dizer que não as tenha comigo.

domingo, setembro 04, 2022

«Os Cátaros», Jesús Mestre Godes

 

«Os Cátaros - Origens, Desenvolvimento, Perseguição e Extinção», do catalão Jesús Mestre Godes, não é um livro histórico no sentido mais científico do termo porque influenciado por um nacionalismo algo exacerbado do autor. É verdade que se socorre de historiadores contemporâneos e escritos evos de trovadores e clérigos, mas trata-se mais de uma súmula de investigações alheias do que propriamente nascidas de Godes. Depois, este livro de 1995, e publicado em português pela Pergaminho em 2001, ignora alguns estudos essenciais sobre o tema na sua bibliografia. Um apontamento singular: a tradução é de Jorge Fallorca.

O livro é um bom início para se introduzir um tema histórico bem mais complexo do que parece à primeira vista e em que o turismo do sul de França conseguiu arredar a seriedade necessária para o analisar. Ainda me lembro da primeira vez que visitei o castelo de Carcassone, um dos locais cátaros de maior evidência: as muralhas estavam então cercadas literalmente por autocaravanas que assediavam o local com crianças munidas de espadas de madeira e elmos combatendo-se e berrando com ímpetos de vitória. Uma disneylândia! O calor era bastante e os franceses banhavam-se em chuveiros improvisados bebendo cerveja dita artesanal com rótulos de gordos abades cátaros. Nem parei ou entrei no castelo! Saí logo dali para fora em direção à Montolieu, uma pequena vila occitânica onde se pode encontrar 30 livrarias e alfarrabistas. Permaneci lá durante 3 dias incríveis, visto que o programa cultural era exatamente ao contrário do que se faz aqui, onde o novo-riquismo impera: bastava um piano e um pianista e tínhamos uma noite perfeita! No outro dia uma contrabaixista e mais um dia com uma saxofone. De livros, falaremos noutra ocasião tal a diversidade e importância.

Tudo indica que os cátaros defendiam, dentro do cristianismo, um maniqueísmo com influências, ao que tudo indica, do filósofo persa dualista Mani que também inspirou o zoroastrismo. Para eles, que se chamavam «puros» havia dois mundos: o mundo do mal, material, e o mundo do bem, o das ideias, onde estava Deus e que era intangível. Acreditavam em Jesus, filho de Deus, enviado à Terra e que fazia parte de um plano mais geral, que terminaria no apocalipse, numa luta gigantesca entre Deus e o diabo, com a vitória do Bem. Não será de estranhar pois, que a Igreja do século XII começasse a ser criticada pelos cátaros pelos seus luxos, simonias, indulgências, pecados ditos venais dos clérigos e demasiado ligada ao poder temporal feudal das violências e ocupações de terras e lugares. Nada que não esperássemos, mas que tiveram razão antes de Lutero é verdade, e talvez isso explique a fúria inexplicável, nalguns pontos da história, contra os albigenses, ou seja, os cátaros. A inquisição dominicana (com o próprio Domingos de Gusmão à cabeça) liderou esse conflito, primeiro de um modo conciliar, depois, de pura repressão brutal principalmente após a sua morte. Daí a antipatia e afastamento que muitos cristãos católicos ainda hoje sentem por esta ordem. Os franciscanos esses, embora tenham pregado no Languedoc estão longe de terem responsabilidades nas fogueiras levantadas pelos dominicanos e pelos príncipes franceses. Os papas que de uma maneira ou de outra criaram bulas anticátaras, nos vários concílios de Latrão, foram Inocêncio III, Honório III e Gregório IX, todos bem conhecidos da História de Portugal.

Disse «franceses» propositadamente. A população do Languedoc nunca se sentiu francesa. Faria parte de uma «renaixence» cultural muito assente na prática trovadoresca e literária onde pontificava igualmente a música e o teatro. Isto em pleno século XII e XIII onde o comércio florescia e enriquecia os burgueses de Montpellier, Toulouse, Foix, Pérpignan, Agen ou Narbonne. Não é impossível que este comércio com rotas orientais tivessem tido influência na criação da religião cátara trazida por comerciantes da Pérsia ou mesmo por comerciantes do Languedoc vindos dessas paragens.

A verdade é que a chamada heresia existiu e promovia a pobreza, a errância pregadora, a humildade, a austeridade e até um novo papel da mulher na condução dos serviços religiosos cátaros. Viviam em comunidades e repartiam tudo em igualdade. Tinham bispos, perfeitos e perfeitas e mantinham com o povo uma constante presença o que originava um processo de simpatia que irradiava por todo o Laguedoc e para lá dele: pensa-se que havia cátaros na Catalunha, em Aragão e até em Marselha e Grenoble. Ora, esta vida cultural e comercialmente mais ativa gerou um afastamento de um norte francês mais rural, feudal que invejava e ambicionava estes territórios incorporando-os em França, o que veio a acontecer com Luís IX, após batalhas, conflitos legais, repressões, ataques, traições de toda a espécie e principalmente, entre 1209 e 1219, em cercos violentos que originaram centenas de milhares de mortos, não contando os que sofreram as torturas e as fogueiras da Inquisição e as sevícias para alguns «inenarráveis» nomeadamente para historiadores da época, mesmo que estes fossem do «outro lado». Assim foi que até o Papa Honório III teve de lembrar a Simão de Montfort, o principal verdugo e militar de França, e já conhecida a sua brutalidade em cruzadas contra Constantinopla e Jerusalém, que «nem se trataram assim os sarracenos!» pedindo-lhe mais moderação e razoabilidade na repressão, conselho que não foi de todo seguido.
Mas foi assim que a história se passou: a dos Cátaros e do catarismo que ainda se «mexia» no início do século XIV até à tomada mítica de Montségur com a autoimolação dos principais perfeitos e perfeitas cátaros. A rendição do seu povo veio depois, com aniquilação pensa-se que total, da sua população.

As questões que me tem atravessado desde sempre, como licenciado em História, é a falta de elementos escritos do catarismo o que se compreende até uma certa parte: para os perseguidos era necessário esconder qualquer vestígio da sua religião, assim como para os perseguidores era necessário cortar o mal pela raiz destruindo tudo o que encontravam que lembrasse a «heresia». Só dispomos, ao que se sabe, de quatro fontes escritas cátaras. Quanto à arqueologia, esta tem sido mais feliz, embora o mito turístico do «Santo Graal templário escondido em Montségur» ter estragado tudo! Ou quase tudo, não exageremos...

No entanto, há a última questão, esta, quanto a mim, a mais densa: para onde foram os refugiados cátaros? Sabemos que os houve, em diversas vagas, e o contrário é que seria para admirar. Há provas da presença deles no século XIII e XIV em Aragão e nos Condados de Barcelona e sabemos que Pedro I de Aragão (que vem precisamente a morrer na Batalha de Muret) tinha simpatias cátaras assim como milhares de nobres e cavaleiros do Languedoc que tiveram de jurar obediência a França após a derrota de Muret e principalmente na de Toulouse, cuja resistência condal e popular ficou nos anais da História. 

Mas os cátaros que conseguiram fugir, permaneceram somente nas faldas dos Pirenéus? Ora, aqui reside a minha principal dúvida: se Castela estava politicamente com os cátaros porque via neles a possibilidade de enfraquecer o reino francês, tal como a Inglaterra e o Imperador do Sacro Império alemão, (prometeram ao cátaro Conde de Toulouse, Raimundo VII, ajuda em Muret que depois traíram por influência papal), será que encontraram no lado de cá dos Pirenéus algum refúgio? Se sim, foram mais avante até Portugal? Vejamos: não é de todo impossível porque no século XII o recentíssimo Portugal estava a braços com problemas sérios de povoamento e as nossas casas senhoriais tinham bastantes contactos com Aragão como sabemos. No século XIII começa-se a povoar as arroteias em Portugal e será não com alguma estranheza ou pela pura convicção (como queiram!) que vemos o nome Catarino que nos remete para o étimo de «cátaro» difundido nas regiões onde pontuavam os pântanos e as arroteias como Viana do Castelo, Ílhavo, Aveiro, Cantanhede e Grândola, por exemplo. Mais tarde estes territórios também serviram para as alforrias dos escravos, como é comprovado por várias monografias destas regiões. Fica a dúvida, que ainda permanece, por que razão este pedaço importantíssimo da História europeia, a da «heresia cátara» e da consequente debandada dos seus fiéis da Occitânia nunca foi estudada a fundo em Portugal.

terça-feira, janeiro 22, 2019

Violência e Literatura: um mal nunca vem só / 28


Na capa da inominável revista: «O romance que derrotou a ETA»

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Algo na capa da última LER (nº149) chamou-me a atenção. Um exclusivo de Eduardo Mendoza, editado pela Seix Barral em forma de livro em Espanha, foi aqui publicado nesta revista com o seguinte título: «O que é que se está a passar na Catalunha?». A outra chamada de capa tinha um título mais bombástico. Literalmente. «País Basco. O romance que derrotou a ETA». Ora, depois de desembolsar a quantia nada meiga da revista em causa, pus-me a ler de imediato o segundo artigo sobre o País Basco e tratava-se de uma crítica do livro «Pátria» de Fernando Aramburu, editado aqui em Portugal há pouco tempo. Mas um livro que derrota uma organização paramilitar como a ETA? Afinal, quando abro na página do artigo em causa, o título era outro: «Pátria, a derrota LITERÁRIA da ETA». Ah, literária! Depois de lido o artigo na íntegra onde Aramburu nada tem de sua responsabilidade, chega-se à conclusão que «Depois da derrota nos planos operacional e legal, Pátria deixa a derrota literária da ETA a um passo», Afinal em que ficamos? Derrota final, derrota assim-assim ou vitória nem que seja de Pirro? É minha convicção que não se vence nenhuma luta desta natureza com qualquer livro por muito bem escrito que esteja. E está. Se fosse assim Savater tê-la-ia derrotado antes. A literatura não salva ninguém. Não é redentora. Não se desculpa nem se exorciza. Não derrota ninguém. Talvez nos dê a vaga sensação de catarse, e aí talvez tenha alguma utilidade. O campo da derrota ou da vitória prende-se somente com a política e com a vontade dos homens e mulheres que a fazem.
Já Eduardo Mendoza começa por dizer que não vive na Catalunha (tal como Aramburu não vive no País Basco) mas dá-nos uma visão nítida do que se passa nas terras de Barcelona. É uma perspetiva que é apresentada aos «estrangeiros» como nós, certo. Mas incomoda a não identificação do fascismo com o franquismo e por assim dizer ao salazarismo visto ambos serem de matriz católica. Ora, a estrutura do estado estava assente no fascismo corporativista italiano e segundo Michael Mann o que diferencia estes dois regimes é a não existência de grupos paramilitares promotores de terror sobre as massas. Não o seu catolicismo. Sabemos como foram tratados os radicais de direita nestes regimes. Perseguição em Espanha aos falangistas e às JONS e, em Portugal, aos «Camisas Azuis» de Rolão Preto, que criticavam ambos os regimes. Quer Franco, quer Salazar odiavam a desordem. Mas isso não quer dizer, segundo a minha opinião, que no caso da Catalunha, não sofresse a repressão do franquismo (que Mendoza e Aramburu aliviam cada um à sua maneira e na sua região de origem), proibindo a fala do catalão (tal como o galego e o basco) e cujo desenvolvimento económico levou Espartero a pronunciar a frase «Há que bombardear Barcelona a cada 50 anos». Isto é fascismo. Os dois regimes, espanhol e português, souberam como ninguém criar uma sólida cultura de propaganda e de falso folclore, criando uma espécie de espectáculo popularucho, inventando trajes, músicas e falsos costumes, estereótipos franquistas que Mendoza nos apresenta nesta frase: «o catalão é trabalhador, um pouco lerdo de expressão, bastante tacanho. O seu modo de se comportar é tosco. A sua imagem é a de um homem barrigudo, de meia-idade, careca, risonho, devoto de Moreneta, sócio do Barça desde o berço. Comparado com o andaluz gracioso e preguiçoso, o madrileno jeitoso, o basco algo nobre e duro de moleirinha, o aragonês teimoso ou o galego astuto, mas impreciso, a caricatura poderia ser pior». Por isso, não admira que Mendonza nos atire à cara que a burguesia catalã também não tem literatura e daí a sua derrota frente à intelectualidade espanhola. A existir, o que é pouco provável, salvai-nos da literatura que derrota povos inteiros. E de literatos ou poetas em governos!

António Luís Catarino, 13/07/2018