quarta-feira, setembro 16, 2026

"Estrilho", Luhuna Carvalho

Língua Morta, 2026.
O subtítulo «Movimento, Destituição, Autonomia» acompanha «Estrilho», de Luhuna Carvalho, o seu último livro, e é composto por escritos datados entre 2010 e 2025. Tendo uma amplitude de 15 anos conseguimos verificar não só uma grande variedade de temas e situações, algumas das quais poderemos esquecer tão efémeras que foram, mas também algumas repetições de ideias que se observam de artigo para artigo e que constituem o cerne do pensamento do autor. As ideias explanadas por Luhuna Carvalho são, essencialmente, a construção de possibilidades em torno de outras vidas para além do capitalismo. Penso que o plural será mais correcto exercer-se na palavra «vida», visto que perante a leitura de «Estrilho», ficamos com a impressão clara da diversidade ética de uma construção humana em torno da autonomia ou do comunismo. O leque de opções é variável conforme a acção que estará na sua génese e que é multiforme. Essa acção (não uma só, mas várias) prende-se com o conceito de «movimento» que não se firmará somente no protesto, demasiado recuado como opção comunista ou anarquista, ambas as opções derrotadas ou paralisadas pelas derrotas que os anos 80 do último século e os primeiros anos do século XXI, mostraram. Contam-se pois quase 50 anos de recuo em recuo; a ideia comunista perdeu fulgor e já não é o «espectro» que aterrorizava as classes possidentes do mundo inteiro. Mas nem por isso, segundo Luhuna Carvalho, a ideia comunista, baseada no jovem Marx ou nos escritos «perdidos» do último Marx que vão sendo analisados nestes últimos anos, ou anarquista segundo o apoio mútuo de Kropotkine, deixou de ser experimentada em fluxos de solidariedade em fortes movimentos de base nos protestos de Seattle e Génova, de Tiennamen, de uma Primavera Árabe, dos subúrbios de Paris, dos liceais de Londres, do movimento quase insurreccional de George Floyd nos EUA, da Grécia ou dos fortes protestos anti-troika em Portugal nos anos de 2011 e 2012. O comunismo estaria aí bem vivo nas redes de solidariedade e apoio que juntaram centenas de milhares de pessoas (talvez milhões) provindas de classes e lugares diversas. O comunismo deixa então de ser uma utopia a atingir, passe o pleonasmo, mas uma experiência já realizada em momentos únicos de revolta e afirmação.

Não interessa para este levantar de ideias que Luhuna Carvalho nos propõe, saber se a esquerda está ou não viva ou se terá ou não de se «renovar». Para esta discussão é melhor procurar outro livro. O que é interessante em «Estrilho» é que todas as possibilidades estão em aberto, sendo que a única saída será a superação do capitalismo que se tornou ontológico, que se radiculou em todas as formas da vida, tornando-a um sistema de produção contínua e total. O recurso crítico às ideias de Agamben, Adorno, Debord, Benjamim, Tronti ou Negri são, exactamente por isso, uma constante. Do Biopoder à Autonomia italiana do final dos anos 70, ou ao Maio de 68 francês, há um viajar, uma recuperação destas ideias e experiências que, queiramos ou não, fazem parte de um adn dos inconformistas, dos que ainda veem no «estrilho» uma forma última de dizer que não:

«A festa, o motim, o bloqueio, a greve selvagem, a cultura subproletária, etc., seriam fenómenos politicamente mais ricos do que qualquer aparelho partidário, do que qualquer grupelho activista, do que qualquer produção académica ou artística. As formas sociais exteriores à razão de estado reproduzem-se carecendo de estruturas formais, sendo, em si, a alteridade ao capital. Não há nada de «espontaneísta» nessa análise. A «espontaneidade» é uma colagem acrítica ao que nos está mais próximo do que a infinita burocratização da vida.» (pág.11) 

O que aí vem fará dos horrores do século XX um piquenique, diremos nós. Também o afirma o autor, mas avisa que a queda no desespero é a pior das receitas para os que necessariamente se oporão ao estado de coisas que ainda estarão para vir. A beleza das palavras de ordem dos situacionistas e «enragés» do Maio francês, juntar-se-ão ao «Volliamo Tutto» da autonomia italiana e ao fumo negro dos pneus de Génova, não duvidem. E é nessas situações limite que veremos as ondas comunitaristas e anarco-mutualistas a marcarem uma opção de vida que valerá mais em assumirem-se como «poder destituinte», como nos propõe Luhuna Carvalho, do que todos os palácios de inverno das nossa desilusões colectivas. Aliás, um dos pontos centrais e provavelmente o mais desenvolvido de «Estrilho» é exactamente a construção conceptual de «poder destituinte» e de «poder constituído» quando se analisa o processo de conquista do poder.

Uma outra crítica que será impossível de contornar é a análise do processo revolucionário de Portugal em 74/75. Aqui, embora não sejam ideias totalmente novas, reconhece-se a ineficácia do tão propalado «poder popular» que foi corroído pelas inúmeras organizações de tipo leninista que se infiltraram no campo autónomo que esse poder de índole conselhista poderia alcançar. Na esteira de um Phil Mailer, de um Charles Reeve, ou mesmo de João Bernardo, editor do jornal Combate e autor de várias obras de carácter anarco-comunista e conselhista nos anos «quentes» do Prec.

Luhuna Carvalho é autor de «Depois da Lei», 2022 e «Uma Nova Violência», 2024, publicados pela Língua Morta.

alc