terça-feira, junho 18, 2024

«Velhos Supérfluos-Teses sobre o Capitalismo e a Velhice», Andreas Urban

 

Antígona, Maio de 2024. Tradução de Boaventura Antunes
Comecemos pelo jovem autor austríaco Andreas Urban. Aliás, é significativo que existam cada vez mais autores jovens que consulto, o que me faz cada vez mais velho e, concomitantemente, um ávido consumidor sobre o tema. Isto anda tudo ligado. O autor, nascido em 1982, pertence a um grupo marxiano, com evidentes ligações a teorias situacionistas e que desenvolvem as suas teses de superação do capitalismo na sua fase actual, em torno de revistas e plataformas digitais como a Krisis, Exit!, a wertkritik.org., para além de várias obras publicadas. A sua influência teórica é marcada pelos trabalhos de Robert Kurz (já desaparecido) e de Roswitha Sholz, mas eu acrescentaria mais uns como Anselm Jappe, Norbert Trenkle e evidentemente, Marx. Todos eles (excepto Trenkle, onde assisti a uma palestra dele na antiga Ler Devagar) foram editados pela Antígona. 

«Velhos Supérfluos-Teses sobre o Capitalismo e a Velhice» é divido em três partes, todas elas importantes. O primeiro capítulo é a explicação teórica óbvia para o tema da velhice que leva o autor a explicar a superação da síntese marxista do livro I do Capital em que Marx desenvolve a teoria do valor de uso e de troca das mercadorias, do lucro e da mais-valia, assim como a criação do fetichismo dessas mesmas mercadorias levado ao extremo. Sem colocar em causa a teoria, o Grupo Krisis e o autor que claramente se revê nele, aponta uma outra visão que é o desenvolvimento dessa mesma teoria, mas num capitalismo que evoluiu para o absurdo do valor e da «dissociação do valor-compulsão» através do aumento exponencial da produção de mercadorias baseadas num «trabalho-abstracto» que visa o lucro e a multiplicação do lucro até valores estratosféricos (riqueza abstracta) e o «trabalho-concreto» que produz os alimentos e os produtos que necessitamos (riqueza concreta). Este último é claramente secundarizado em detrimento do primeiro que leva à desvalorização (igualmente exponencial) do trabalho, visto que o lucro deste último é residual. Sem esta explicação o trabalho não se entenderia mais à frente.

Ora, é aqui que entra a questão da velhice e do envelhecimento, desenvolvida no capítulo II. Do supérfluo que é criado pela ausência de produtividade e do trabalho-concreto pelos velhos e que, para além do capitalismo que o chuta para o lado ao mesmo tempo que o endeusa através de técnicas de active-aging onde vai sacar ainda alguma produtividade e ganhos dos velhos através das políticas sociais do Estado Social e do capitalismo que lhe é associado, em indústrias multinacionais cada vez mais prósperas. É a contradição, quase esquizofrénica, do capitalismo actual no referente ao envelhecimento. Contudo, este facto visível para todos com a glorificação do «jovem-idoso» não impede que se construa obscuramente o anti-aging já numa fase mais avançada da velhice (a quarta idade) em que será impossível a produção de qualquer mercadoria ou actividade lucrativa por evidente incapacidade física. É a ocasião de (re)entrarem as teses de Foucault sobre os lares de idosos no III capítulo do livro de Andreas Urban. Aqui, se dá a custódia observável por todos e que nos levará necessariamente a uma reflexão crítica, embora a análise de relatórios, todos eles sombrios, se centre sobretudo na Alemanha, na Áustria, na Hungria e na Chéquia. Não será muito difícil, em Portugal, revermo-nos nesses relatórios que levam a um aprisionamento dos velhos em lares que impedem a liberdade que podem e devem ter os velhos. Claro que o autor sabe do que fala e aponta para uma crítica que pode ser-lhe formulada e que não deixa de ser venenosa, visto que pode reverter-se contra ela: ou seja, que os ritmos de trabalho de hoje não permitem à família tratar dos velhos como no pré-capitalismo. Estamos a falar de trabalho e de ritmos de trabalho, a maior parte dele, abstracto em termos marxianos, que já vem sendo denunciado desde os anos 60. Lembram-se?

Gostaria de focar mais dois pontos (há muitos mais, neste livro de 169 páginas e vasta bibliografia) que gostaria de relevar: o «active-aging» não deixa de ser o pior e mais visível da relação entre o capitalismo e da velhice. Esta negação do «não fazer nada» «ou fazer o que se gosta, recusando a produção de capital alienado» é recusado liminarmente pelo capitalismo na sua última fase. Pior do que isto, só a cumplicidade da sociedade perante esta proposta obscura. Pessoalmente, ainda não consigo ver imagens de velhos a «abanarem o capacete» em discotecas, à tarde bem-entendido, por cuidadoras vigorosas entusiasmadíssimas ou ver caras completamente desfeitas por cirurgias plásticas multiplicadas por correcções intermináveis defendidas por quem aposta num futuro transhumano ou lares de idosos tratados por robots, tipo Autoeuropa. A segunda questão, terá a ver com a repressão existente nos defensores por agora silenciosos no anti-aging que leva a colocar tudo no mesmo cesto da exclusão. Os velhos são velhos, onde cabem mulheres (geralmente mais frágeis em lares), racializados, queer, migrantes, com desejos sexuais, que aliás são proibidos nos lares sob custódia e cujos cuidadores podem ser postos em tribunal pela família se vier a acontecer, tal como com jovens sob custódia que empreendem contactos sexuais em visitas de estudo!!

No capítulo III, ainda se levanta um tema polémico, nomeadamente quanto à eutanásia e suicídio assistido; no plano do envelhecimento não estaremos muito longe de o ver aprovado por alguns países europeus, livrando-se a UE de se meter em trabalhos que podem levar a extrema-direita a subir ainda mais, mas que podem servir como porta-giratória para esse fim a preços exorbitantes. Extrema-direita que sabe do que fala porque os seus antepassados o fizeram sem qualquer rebuço aos que consideravam supérfluos. E não foi só na Alemanha e na Áustria, convenhamos. Mas não teremos nós uma percepção que nos leva a crer que existe já como prática escondida relativamente aos velhos? É que as taxas de suicídio dos idosos em terceira e quarta idade na Europa são assustadoras.

alc

terça-feira, junho 11, 2024

«Caruncho», Layla Martínez


Antígona, Março de 2024. Tradução e posfácio de Guilherme Pires
Há quem ache que já não há luta de classes. Há quem pense que sim, que existe. Há quem admita que, no futuro, a luta de classes será entre robots e humanos numa cena qualquer trans-humana, pós-humana ou essencialista. Vão por mim: ao acabarem de ler este «Caruncho» (o castelhano «Carcoma» é muito mais expressivo que o português «caruncho»), de Layla Martínez, podem ter a certeza que a luta de classes é muito mais profunda do que se pensa, agora que o liberalismo a conseguiu apartar das mentes democráticas e transformar-nos a todos em colaboradores, empreendedores, masters, prontos a fundar uma startup de gabarito muito multinacional, porque o espaço português será pequeno demais para as expectativas e consequentes posses advindas do lucro que cairá aos roldões nas contas bancárias com juros bonificados para ex-trabalhadores. Hoje, o horror dos trabalhadores é sê-lo. 

Só que não. Layla Martínez é espanhola, madrilena e com raízes em Cuenca, Castela La Mancha. Nascida em 1987 é ainda muito novinha para se meter nestas coisas ditas e reditas nos 60 e 70. Mas meteu-se e bem. Com violência, com frontalidade, sem peias, veio repor a família no lugar que lhe pertenceu desde sempre numa pequena aldeia onde a Guerra Civil foi mais intensa e mais cruel. Os espanhóis não brincam à política, como se sabe. Muito menos com a questão social. Não esquecem, nem perdoam. E a vida de quatro gerações é perpassada a pente fino, com uma síntese literária notável, um apuramento difícil de conseguir mesmo em escritoras/es mais experimentadas/os (alguns e algumas tornaram-se insuportáveis). Uma neta madrilena (ah, talvez da classe média, diz-se agora), com estudos, estabilizada, indaga a vida de uma bisavó e tem uma relação muito chegada à sua avó que ama e odeia, esquece-se da mãe por vezes, é acusada de um crime que possivelmente não cometeu e a luta brutal de quem viveu humilhado durantes séculos vem ao de cima como gasolina numa fogueira, metáfora para este livro incrível. A violência de uma guerra difícil de esquecer, os cadáveres ainda em valas que alguns sabem ainda existir, mas que se calam em silêncios cúmplices, com o ódio comum, colectivo e individual. Inultrapassável. Entra-se pela pele de cada personagem numa casa que se desfaz aos poucos, que não se quer reconstruir para que a memória não se perca. Dos vencedores e dos vencidos. A luta de classes por osmose, de geração para geração, e que não se dá por ela. E isto nada tem a ver com a guerra por que passou Espanha entre 1936 e 39. Tem, isso sim, com a humilhação, violência, prepotência generalizadas dos mais poderosos sob os mais fracos que se defendem, nem que seja com rezas e santos sacrificados também eles violentamente. E também com armas. Mas que no momento vital do confronto entre classes vem à tona com um ódio inusitado, sem qualquer freio. As pessoas, nas nossas sociedades contemporâneas, passam, cruzam-se entre elas em grandes cidades, talvez como Madrid, e nem pensam que algumas (talvez demasiadas) carregam histórias terríveis de antepassados mortos ou desaparecidos que teimam em viver ainda com os netos e bisnetos e que isso terá necessariamente consequências de todo o tipo. Essa «passagem» deixa marcas e elas permanecem como cicatrizes prontas a abrir, ou a esconder como se fosse uma tatuagem mal feita.

Ainda falta muito para acabar o ano de 2024, anos de todos os perigos como sabemos. Mas talvez seja este um livro que não quero esquecer.

domingo, junho 09, 2024

Revista Triplov. Deriva



Eis um mapa dos navegantes das Ilhas Marshall. As suas derivas eram cartografadas em rotas apontadas para as estrelas do céu. Nunca se perderam nos mares, ao que consta. A Deriva Editores criou-se em 2003 acompanhada por um mapa que obrigava à atenção inconformada dos que não tinham voz ou era tão ténue que mal se ouvia. Foi assim a partida para o largo: recusa de mais literatura anglo-saxónica já de si excedentária nos escaparates e dar voz às literaturas minoritárias com a Galiza, o País Basco, a Bretanha, a Irlanda, a Catalunha, a Áustria, a Argentina. Foram realidades que nos obrigaram a um equilíbrio onde os factores se cruzavam literariamente do bom ao excelente, da luta política autonómica ou independentista, até à denúncia das majestosas democracias europeias que não escondiam a sua tendência centrípeta de engolirem as incómodas culturas minoritárias e lançarem para o ostracismo as riquíssimas línguas periféricas. Alguns pagaram com encarceramentos duradouros a sua ousadia como o basco Anjel Rekalde (20 anos de prisão) «Dorregarai – A Casa-Torre», o francês Jean-Marc Rouillan, (prisão perpétua) «Odeio as Manhãs», os americanos John Zerzan (organizador das manifestações de Seattle) «Futuro Primitivo», Peter Lamborn Wilson (Hackim Bey, o seu nome muçulmano) «Utopias Piratas», o bretão Patrick Raynal «Ex», o escocês a viver na Bretanha, Kenneth White, este último o criador do movimento geopoético e autor de «O Espírito Nómada», os galegos Antón Riveiro Coello «As Rolas de Bakunine», Xurxo Borrazás «Ser ou Não», Xavier Queipo «Bebendo o Mar» ou Gonzalo Navaza «Erros e Tanatos». A edição de «A Mobilização Global, seguido de Estado-Guerra» do catalão Santiago López-Petit veio apresentar a política notívaga de subversão contra o Estado na senda de uma verdadeira tentativa de propor as várias possibilidades de insubmissão permanente. «O nómada que existe em cada um de nós como uma nostalgia, como uma potencialidade, não tem a noção de identidade pessoal, a «consciência de si» é-lhe estranha. Sem dizer «penso» ou «sou», põe-se em movimento e a caminho faz melhor do que «pensar», no sentido denso da palavra, enuncia, articula um espaço-tempo de múltiplas focalizações que é como que um esboço do mundo. O movimento nómada não segue uma lógica rectilínea, com um princípio, um meio e um fim. Tudo aqui é meio. O nómada não segue para qualquer lugar, e para mais em linha recta, mas evolui num espaço e regressa muitas vezes às mesmas pistas, iluminando-as e talvez, se for um nómada intelectual, com novas luzes.» Kenneth White «Só a rejeição total da realidade no-la pode mostrar na sua verdade. Só a rejeição total do mundo nos diz a verdade do mundo. Mas esse gesto radical de rejeição já não é o gesto moderno que, depois da destruição anunciava e preparava um novo começo. Não há começo absoluto porque a «tabula rasa» não nos deixa diante de nenhuma verdade absoluta. A rejeição total da realidade apenas nos oferece «uma» verdade da realidade. Esta é a nossa verdade.» Santiago López-Petit Antes, em 2006 e 2008, publicou-se com Vicente Romano, «A Formação da Mentalidade Submissa» e «Intoxicação Linguística» dois livros que denunciam os media como o alfa e o ómega na formação do indivíduo amorfo, narcisista, muito bem com ele próprio e com a sociedade que o escraviza e que, como bom obediente, o aceita, feliz. O escravo que tem orgulho em sê-lo: «A consciência indiferenciada corresponde à vida sentimental estereotipada. O pensamento mágico acrítico, gera uma consciência conformista, submissa. O que significa deixar por mãos alheias a solução dos problemas próprios, situação em que tudo pode ser facilmente manipulado por esses interesses estranhos. Aí radica o perigo de passar as rédeas dos assuntos pessoais para as mãos dos especialistas ou do novo credo académico. Autodeterminação significa, antes de tudo, libertar-se da angústia e ganhar consciência das determinações impostas por terceiros, para conseguir ultrapassá-las.» Vicente Romano De resto, as coisas fluíam e mais tarde, em 2014, com a edição de «Manual de Sabotagem – Escritos sobre política, memória e capitalismo», de Elfriede Jelinek, tão nobelizada, quanto esquecida e ostracizada na sua própria terra, a Áustria (em Viena, em três livrarias de referência não encontrei um único livro dela), conseguiu-se dar voz a esta autora única do desencanto germânico, afirmando que nunca a Alemanha ou a Áustria do Anchluss conseguiram ultrapassar o nazismo. Não só a culpa, mas o nazismo tal qual. Ele subsiste ainda, vivo. Nos anos 80, suicidaram-se vários operários na fábrica da Peugeot em Sochaux. Editou-se, em 2014, «Crónicas Peugeot» do sociólogo Michel Pialoux em conversas com o operário Christian Corouge, de modo a denunciar o trabalho demente porque repetitivo, mesmo na cadeia robótica que despontava: «Não sei se algum dia partirei da fábrica. Porque vou contar-te uma coisa perfeitamente parva, mas... há um ano, estivemos uma semana no desemprego, mesmo antes das férias, portanto isto dava cinco semanas. Ao fim de quatro semanas de férias – estávamos perto de Cherbourg – já não dava mais. Estava a bater mal lá. Estava a bater mal, fui obrigado a vir embora. Sabes, uma espécie de necessidade masoquista. Não estava bem. Quatro semanas, tudo bem, vês: recuperas fisicamente, fazes o ponto da situação na tua cabeça, tudo bem, descontrais... e depois, dizes para contigo: ‘O que é que me espera quando regressar? Portanto preciso de voltar. Preciso de voltar para ver, para estar ali porque... começo a estar farto das férias, começo a andar às voltas. Ando aqui a coçar os tomates, tenho que bazar’. E foi o que nos aconteceu. Viemos embora uma semana antes. Demos cabo de uma semana de férias para vir embora. Precisava de ir ver a fábrica durante as férias, vês, quando a fábrica está parada. Ir diante da porta e dizer para comigo: ‘Merda, mas como é que a gente vai fazer para desmontar esta coisa?’ Fazer isto... Crónicas Peugeot, de Michel Pialoux e Christian Corouge. Nesta mesma colecção aparecem nas livrarias pela mão da Deriva uma obra de Wittegenstein, «Observações sobre o Ramo Dourado de Fraser» nunca editado neste canto europeu e outro de Mikhail Bakhtin «Para uma Filosofia do Acto». A poesia e a narrativa acompanharam-nos durante os 15 anos de existência, com resultados tão desconcertantes e algo equívocos, como reveladores. Realça-se somente os que se considera terem sido os poetas verdadeiramente genuínos e que entenderam, desde o início, que um editor não é exactamente um promotor no mercado, muito menos do mercado literário ou de gestão de egos excêntricos. Aqui vão os que de uma maneira ou de outra deixaram registadas as melhores páginas e de doces lembranças em vários livros editados que marcaram uma época própria: José Ricardo Nunes, Ricardo Gil Soeiro, o já falecido Joaquim Castro Caldas com o seu «Mágoa das Pedras», Filipa Leal, Catarina Nunes de Almeida, Marilar Aleixandre, João Pedro Mésseder, Henrique Manuel Bento Fialho, António Alves Martins, Pedro Eiras, Maria Leonor C. Figueiredo, entre outros. A parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa deu-nos livrinhos da colecção Pulsar onde sobressaíram nomes como Sarrazac, Pascal Quignard, Antoine Compagnon, Anselm Kiefer, Carlo Ginzburg, Olivier Py, Jean-Claude Pinson, Stephane Mallarmé com o seu «Crise de Versos», Wyndham Lewis e os Manifestos Vorticistas. Também se editaram estudos literários sobre Annemarie Schwarzenbach, Max Frisch, Kafka, Coleridge ou Stevenson. «G. Agamben assinala que desde Miguel Ângelo o inacabamento é teimosamente exaltado pela arte e que se pode explicar este gosto por uma espécie de prazer derivado do fetichismo. Schlegel mostrava que, como as obras que admirávamos mais - quer dizer, desde a Renascença, as obras da Antiguidade - tinham chegado no estado de fragmentos, as obras dos modernos procuravam assumir esse estado logo ao nascerem, imputando o fascínio que exercem à fragmentação e julgando que estes pedaços, que evocavam totalidades indizíveis e ausentes ao provocarem o desejo do todo, ampliavam a emoção.» Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos, Pascal Quignard «A autodestruição foi sempre a finalidade mais íntima, a mais sublime da arte, cuja vaidade se torna desde logo percetível. Pois, qualquer que seja a força do ataque, e mesmo que tivesse chegado ao limite, a arte há de sobreviver às suas ruínas. (…) O Colégio de França convidou um artista plástico na esperança, presumo, de que vos fale de arte, vos informe acerca do que é a arte, demonstre a sua origem. Dir-vos-ei que não há definição da arte. Toda a tentativa de definição se desfaz no limiar do seu enunciado, tal como a arte, que não deixa de oscilar entre a sua perda e o seu renascimento. Nunca está onde contamos com ela, onde se espera apreendê-la e, referindo-me ao Evangelho segundo São João, direi: ‘Onde estiver, não o podemos alcançar’.» A arte há de sobreviver às suas ruínas, Anselm Kiefer Seguiu-se, pois, a denúncia com mais parcerias, agora com os livros editados com a edição portuguesa do Le Monde Diplomatique e com a Cultra, uma cooperativa cultural alternativa do Porto onde se editou Regina Guimarães com um libelo contra as chamadas «indústrias culturais», seja o que isso for. Mas é com uma intervenção, em Julho de 2016, no último livro que se editou pela Deriva, «Cidades Materiais», de António Alves Martins, que talvez esteja plasmada toda a génese, leitmotiv e o fim anunciado da Deriva. Não por acaso, reside nesta declaração tudo o que levou à sua criação e ao fim da editora e que exponho uma parte significativa: «Em meados dos anos 80, tínhamos todos 20 e tal anos. Miúdos da Faculdade de Letras que dizíamos abominar, sob a fórmula de palavrosas parábolas coimbrãs: ‘faça-se luz, incendeie-se a universidade!’. A verdade é que nos foi ensinado muito mais nos cafés adjacentes à Praça da República onde o prazer de falar, de conhecer e de debater era superior a tudo. Com algumas substâncias e segmentos aditivos que o facto de já terem prescrito, e apesar de uma louvável loucura que contrastava por vezes com imprevisíveis depressões, não me fazem aqui desenvolver e muito menos pormenorizar, por irrelevante. O agir concreto apareceu com o convite para fazer parte de um colectivo editorial da Centelha, e, mais tarde, da Fora do Texto. O espírito da revolta. In girum imus nocte et consumimur igni, o último filme de Debord realizado em 1978 e editado finalmente em 1981, com peripécias várias que, mais tarde, inclusive, levaram ao assassinato do editor da Champ Libre, Gerard Levobici (não foi o único), constrói a ideia do consumo e da alienação como alfa e ómega do capitalismo em fase de mutação para a pós-modernidade. Esta frase latina atribuída a Virgílio é a descrição real do que nos levou à deriva nocturna e à necessidade imperiosa de lutar contra a alienação do público que nos olhava de soslaio. Consumimos a noite e pegávamos-lhe fogo mesmo com acendalhas já usadas por outros. Creio não me enganar que entre blusões negros e echarpes negras ou canadianas verdes militares, construímos à nossa maneira um fogo permanente que nos devorou igualmente na ânsia da revolta e na dramatização do sem sentido de uma vida quotidiana que negávamos. Recusávamos o tédio. Recusávamos a mercadoria, recusávamos qualquer valor de troca. Preferíamos a poesia e o pensamento como as únicas vertentes que não se podem domar. E o amor. Esse, sempre presente no fogo quotidiano em que geríamos a noite em chamas. As chamas, essas, devoraram-nos? É possível, mas nas regras do Potlacht primitivo, este com coincidências inquietantes com o cristianismo também ele primitivo, quem perde ganha, quem ganha, perde. A noite consumiu-nos, sim, mas com a voragem da revolta romântica. (…) ‘Numa sociedade invertida, o verdadeiro é o momento do falso’. Isto foi dito em 1967 e corresponde a uma realidade já indesmentível e com contornos que o seu autor, Debord, provavelmente, não imaginaria na enorme dimensão espectacular que nos rodeia hoje. Assim, se nenhum movimento reivindicativo da arte revolucionária foi superado desde 1916 com Dada, esta tornou-se uma mera mercadoria, que vale o que vale consoante o valor das trocas. Nos anos 80, vivia-se por toda a Europa a ressaca dos anos de chumbo criados por Andreas Baader e Ulrike Meinhof que proclamava em livro ‘vocês falam do tempo, nós não!’ e pelas Brigadas Vermelhas de Renato Curccio na Itália, estas últimas teleguiadas, como se soube, pela polícia secreta. Tudo isto gerou uma impossibilidade poética, uma forma de ver a política e de destinar uma vida quotidiana não marcada pelo tédio e pelo aborrecimento, ou, se quiserem, pelas cadeias infernais do trabalho. Mas como promover isto mesmo numa sociedade alienada pelo medo, pela vingança dos anos pós-Prec e pelo espartilho terrorista no Portugal mesquinho dos anos 80 e da recuperação yuppie? Foi a altura também dos anos criadores e libertadores do rock com o aparecimento de Johnny Rotten, dos Clash, de um Lou Reed já sem os Velvet Underground, do Bowie tornado pop, de Ian Curtis dos Joy Division e depois com os New Order, de Iggy Pop, de trautearmos Jim Morrison pelas ruas desertas de Coimbra e aclamando o Jazz, recuperando para nós o be-bop e o free como forma de dizermos: ‘Falem do tempo, falem do tempo, nada temos a ver convosco!’ Aderimos à arte contemporânea e às possibilidades do vídeo, do teatro e da performance sendo que estas foram, exceptuando alguns, poucos, casos rapidamente recuperados. Identificávamo-nos pela música e pela deriva. A deriva consubstanciada todos os dias numa cidade que cada vez mais se tornava um labirinto de cimento corbusiano. A deriva que aqui se fala é a de Thomas de Quincey que, nas suas «Confissões de um Opiómano Inglês», tradução forçada, diga-se, afirmava haver uma rede subterrânea, marginal, na cidade de Londres, não cartografada pela polícia e pelas instituições políticas. Era terreno livre. Os dadaístas, os letristas e os surrealistas e muito mais tarde os situacionistas praticaram-na na forma de desconstrução da palavra e da deambulação livre em corredores libertários. Na construção de situações irreversíveis. Mas sem se superarem. Precisamente: o verdadeiro aqui, não superou o falso. Assim, toda a deriva que realizámos, muitas vezes sem sentido, nas ruas e becos nocturnos, só teve consequências na construção de mercadorias irrevogáveis: os livros e as ideias que eles trazem. O teor do que são feitos. A forma. A cadência e a recusa da «inovação». Até porque, sabemo-lo, quando o patrão exige inovação, o escravo honesto é o primeiro a proclamá-la.» Nunca quisemos aderir à escravatura. António Luís Catarino, Abril de 2024

Revista Digital Triplov. Este número: «As Vanguardas», sob a responsabilidade de António Barros

https://triplov.com/revistaTriplov/

Este é um dos números da Triplov que devem guardar. Revista de arte e opinião digital, este que vos apresento é da responsabilidade de António Barros. O índice das intervenções estará presente logo de início, mas atentem no cuidado gráfico, nas ilustrações e trabalhos de artistas que povoam este número obrigatório de leitura cuidada. O tema: «As Vanguardas».

segunda-feira, junho 03, 2024

«As Altas Montanhas de Portugal», de Yann Martel

 

Presença, 2016. Trad. de Isabel Nunes e Helena Sobral
Yann Martel é essencialmente lembrado pelo romance transformado num filme de levar às lágrimas ao canto do olho «A Vida de Pi». Ora, este tipo lembrou-se de, aos 20 anos, fazer um livro assim o que, de imediato, isto é, passadas umas largas dezenas de anos, veio a concretizar com este «As Altas Montanhas de Portugal». Li-o, porque cada vez que passava por ele numa livraria perguntava-me a mim mesmo (passe o óbvio da afirmação) onde é que ficariam as tais montanhas, altas a bem dizer, ainda por cima com o nome «Portugal» chapado na capa. Ou seja, desde 2016, que me andava a chatear. E só depois de o ter lido é que me levou a chatear-me ainda mais. Não esperem grande literatura por aqui, farão o favor de acreditar em mim. Por vezes, de tão pueril, sentimos que o Martel está a gozar connosco, o grande macacão! Tantos adjectivos, tanta alegoria, tanta metáfora, tanta elipse, tanta comparação, fogo! Cansa. E aquela de comparar Jesus Cristo a Agatha Christie, S. Paulo a Poirot (como construtores de personalidades, vá!) é de chorar a rir, sim senhor. E já viram que não será por acaso que o Christie da Agatha se chama Christie? É ou não uma ligação óbvia com Cristo, caraças? As descrições de uma viagem de um Peugeot de 1904 pelas estradas portuguesas é uma canseira que raia a exaustão psíquica do leitor. Um tipo que alimenta com moto-nafta o depósito do seu carro e que aproveita para o usar em si por ter tido um ataque de piolhos por, imaginem, ter estado em contacto com o povo numa aldeia perdida, que esmurram o carro como obra do diabo, só mesmo o Martel. Depois, há uma descrição de uma autópsia que evito aqui resumir, sendo mais sensato dizer que são páginas de descrições absolutamente intragáveis e que eu prefiro excluir de todo porque, reconhecendo faltar-me algum bom senso para as coisas práticas da vida, ainda tenho algum de sobra para o bom gosto dos amigos que não quero de modo algum ferir. Tenho contudo de assinalar que o amor de uma mulher por um autopsiado a leva a coser-se dentro dele e... até chimpanzés da barriga e ocarinas no pénis do dito, o médico-legista foi encontrar! É pá, ó Martel, isso nem com cogumelos mágicos!

O melhor fica para o fim. Um senador no Canadá, sente-se deprimido, cansado após a morte da mulher. Decide acabar tudo e (opção muito discutível e bem problemática) ir até Portugal a uma aldeia chamada Tuizelo nas ditas Altas Montanhas de Portugal, que afinal é o planalto de Trás-os-Montes. Era de lá que vinham os seus antepassados. Nada a fazer! O homem pirou de vez só por esta decisão e não por ter comprado um chimpanzé triste de um laboratório e trazê-lo para a aldeia, depois de alugar um 2CV que, pela descrição feita do veículo, deveria levar o autor a tribunal pelos amigos do icónico automóvel cuja mecânica é extremamente difícil de perceber para um cidadão americanizado e habituado em mustangues. Mas isso não é nada. O romance vai de mal a pior à medida que tenta acabar, mas de tão estúpido e incongruente, mete-se pelo nosso hipotálamo e cria ofuscações e, muito mais grave, não nos deixa esquecê-lo de todo, alertando-nos para os perigos iminentes de comprar uma coisa destas igual, embora seja difícil. É esse o objectivo do dito cujo, não é? Do hipotálamo...

Não há nenhum filme disto? É para eu não me enganar e não me levar a vê-lo.

«Trilogia», Jon Fosse

 

Cavalo de Ferro, 2021. Trad. do norueguês de Liliete Martins
Pouco importa se é Nobel e como ouvi dizer com alguma propriedade, há muito tempo, por um amigo, «Para Nobel até escreve bem!» É o caso. «Trilogia», de Jon Fosse, tem um sub-título esclarecedor: «Vigília. Os Sonhos de Olav. Fadiga.» O tempo e o espaço alternam-se segundo uma narrativa tão bem construída como bela. Com uma pontuação «saramaguiana», se assim se pode dizer, ou não a utilizando de todo. não deixa de ter uma cadência firme que leva o leitor a imaginar as falas muito dramatizadas, quase teatrais, e os espaços visualmente críveis, quer se trate de um barco ao largo do mar da Noruega ou na entrada por entre fiordes, ou, ainda, a atracagem de um barco à vela numa cidade costeira. As casas de madeira e os seu interior são descritas em poucas palavras, mas que se revestem igualmente de um grande rigor visual. Este livro, esta «Trilogia» cheira a mar e sentimos o vento nórdico gelado nas nossas caras, para além da rudeza da terra e do gado que alimenta uma população norueguesa, no século XIX, marcada pelo protestantismo e, concomitantemente, pela ética do trabalho duro e honesto, pela culpa e castigo.

E é nesse caldo que cultura que jovens como Asle e Alida cometem crimes terríveis de que não sentem a mínima noção do mal. É aqui que reside toda a liberdade do livro. Eles cometem crimes para se apoderarem de bens materiais que os levariam a uma paz exigida por e para si próprios. Não se julgam, nem julgam, nem pedem perdão. Agem somente na ânsia de serem felizes. Se cometem os crimes é para atingirem esse desejo de amor, fosse ele o roubo de um barco, o assassinato de uma mulher e de uma idosa, ou de um velho. Para isso, usam subterfúgios e mudam quer de nome, quer de origem ou família de modo a não serem encontrados; a fuga torna-se constante, o mar e a estrada a sua morada contínua. Por fim «Fadiga», e Alida desiste após o desaparecimento de Asle (não cometerei aqui a indelicadeza de dizer como) e entrega-se, por cansaço, a uma nova realidade que, simultaneamente, a ameaça e a recolhe.

Mesmo muito bom.

segunda-feira, maio 27, 2024

"Um Terrível Verdor", Benjamin Labatut

Elsinore, Penguin Random House, 2024. Trad. Guilherme Pires
«- Deus não brinca aos dados com o Universo!»
«- Não seremos nós a dizer-Lhe o que deve fazer com ele!»
Este diálogo entre Einstein (a primeira afirmação) e Niels Bohr, após cinco dias exaustivos entre os melhores físicos do mundo, em Copenhaga, fixou uma das maiores polémicas entre - e desculpem o facilitismo de apôr rótulos em gente que não o merece de todo - os «deterministas» onde se encontrava Eisntein que viam o Universo a ser regido por leis únicas e os do «mecanicismo quântico» personalizado por Bohr, que defendiam um aparente caos de expansão e contracção contínua entre espaço e tempo. Pelo que se sabe ambos teriam razão, embora Eisntein tivesse pressentido que os cálculos quânticos estavam certos. Não deixa de ser sintomático que estes últimos o tivessem consultado sempre que apreentavam novos cálculos. Isto é, do que fiquei ciente ao ler este livro tão notável, quanto estranho é que se queremos conhecer as leis universais que nos regem devemos estudar o microcosmos, do átomo e dentro dele as suas partículas elementares. Este não é um livro só de física e de química, é a vida de toda uma panóplia de indivíduos cuja capacidade de abstracção ou de obsessão por uma ideia, seja ela intuitiva ou conclusiva sob os auspícios da matemática pura foi uma constante. Muitos foram levados à loucura, aos descrédito (embora cedo demais), à ostracização ou à autoreclusão. Ou à glória. No fundo é o espelho mais ou menos deformado da nossa vivência como seres humanos.

Este livro traça-nos percursos incríveis de vida de pessoas como Diesbach e Scheele que inventaram a fórmula do cianeto, ou o «ácido prússico» que serviu para o uso de pesticida nas laranjas da Califórnia, o Zicklon A, cujos vagões de comboio ficavam com um azul esplendoroso - o azul da Prússia, com que Van Gogh, por exemplo, deu basto uso nos seus quadros estrelados! Outro uso foi o de ter ajudado ao suicídio de milhares de nazis que, em 1945 e em ampolas escondidas, se fizeram cadáveres, não sem antes darem seguimento ao maior gaseamento da História sobre seres humanos depois da I Guerra Mundial, nos campos da morte, com o mais eficaz Zicklon B. Schwarzschild, morto em combate em 1915, que se correspondeu com Einstein a partir das trincheiras da frente oriental e que no meio do turbilhão das explosões resolveu equações complexas da «Teoria da Relatividade Geral». A uma certa altura, calou-se com a afirmação para um colega: «Chegámos ao ponto mais alto da Civilização. Só nos resta cair!». Pediu a esse matemático amigo para lhe destruir tudo e morreu na tarde seguinte. Histórias exemplares e extremamente inquietantes sobre autênticos génios que preferiram rasgar o que tinham feito durante largos anos, «...porque era bom que a Humanidade não soubesse.» Houve outros que cabe aqui referir pela sua singularidade (atenção que isto é um termo físico bem definido da Teoria Quântica) como Mochizuki que diz ter encontrado a resolução «impossível» da fórmula a+b=c e que rasgou tudo o que tinha feito até então e a descoberta do «coração do coração» da Matemática pura e que proibiu a publicação global dos seus trabalhos, como Grothendieck. Esse fugiu, autorecolheu-se nos Pirinéus e acabou com os seus brilhantes trabalhos. Preferiu isso a que a Humanidade soubesse onde tinha chegado. «Para bem dela, preferia assim!» Heinsenberg que contestou Schölinger e que acompanhou Bohr, porque aquele defendia que as partículas elementares do átomo tinham comportamenos semelhantes ao das ondas e não como as vemos em órbitas fixas em volta do núcleo. De Broglie que editou «Investigação sobre a Toeria Quântica» e cuja vida foi um poço de contradições e de fuga. Acabou igualmente por se recolher definitivamente  É  lógico que a destruição dos estudos e fuga ou reclusão não foi um conselho que Oppenheimer seguisse. Preferiu mostrar ao mundo as maravilhas da fissão sobre os humanos! 

Pessoalmente, acredito que a astrofísica acabará por matar a poesia desde que se descobriu que somos feitos com o pó das estrelas e para lá voltamos. A Inteligência Artificial também o poderá fazer, mas adiante. Creio que em Portugal, Jorge de Sousa Braga já o pressentiu, dedicando os seus mais belos e últimos poemas ao universo. Mas gostava de me despedir deste livro com uma citação sobre Poesia e Física:

«(...) Foi exactamente isso que fez com Heisenberg [em conversa com Bohr]: durante os passeios nas montanhas, convenceu o jovem físico  de que, quando se conversava sobre átomos, a linguagem utilizada tinha sempre de ser poética. Caminhando com Bohr, Heisenberg teve a sua primeira intuição da extrema alteridade do mundo sub-atómico: ''Se uma única partícula de pó contém biliões de átomos'', disse-lhe Bohr enquanto subiam pelos maciços da cordilheira Harz, ''como é possível que alguém se refira com propriedade a algo tão pequeno?'' O físico - como o poeta - não deveria descrever os factos do mundo, mas sim criar metáforas e relações mentais sobre a realidade. A partir desse Verão, Heisenberg compreendeu que aplicar conceitos de Física Clássica - como a posição, a velocidade e o momento - a uma partícula subatómica era um absoluto disparate. esse aspecto da natureza exigia um novo idioma.»
(pág. 160)
 

Um post de Diogo Vaz Pinto sobre a biografia de Manuel de Castro

Às vezes, entre as centenas de livros que se editam, o mais estranho é que, do meio da indiferença que nos gela e que é o maior dos abismos desta época, surge um leitor, um abelhão todo coberto do pólen que se reservou nalgumas páginas, nalgum desses livros feitos quase secretamente e só em nome dessa hipótese de haver mais alguém vivo nesta língua que quase se deixou de falar, e que está, para os efeitos de perturbação profunda e de mudança, praticamente morta. Daí o espanto quando afinal ainda nos surge um leitor pela frente, alguém vindo do outro lado, abrindo uma esperança de não sentirmos o desconhecido como um vazio, mas ainda como um território que nos desafie. Curiosamente, este leitor calha ser um antigo editor, desses que deu tudo e acabou atirado para a berma, muitas vezes também por esse género de autores tomados pela sanha de saltar para algo com um ascendente publicitário maior. Porque a chamada cultura literária entre nós ainda não fez mais que um punhado de escritores com verdadeira vontade de criar tudo outra vez, e por isso vão perfumando os cadáveres de ontem enquanto se queixam por não haver margem para fundar uma razão que diga respeito ao amanhã.

Diogo Vaz Pinto, sobre um artigo referente à edição da biografia de Manuel de Castro, no perfil da editora Língua Morta. Maio de 2024. 

sexta-feira, maio 24, 2024

«Corpo Cru», João Damasceno


Tipografia Damasceno, 2024, Carimbo de desenho e assinatura do autor.
Ilustrações de João Fonte e João Damasceno (capa). Prefácio de João Maria André
Composição em tipos de Odete Paixão (mãe do João)
Ontem foi um dia estranho como são todos que nos levam a recordar um amigo que já não está entre nós há muito. Estive no Centro Cultural Penedo da Saudade, onde se fez a apresentação de mais uma edição de Corpo Cru, do João Damasceno. A 1ª edição foi pela Fenda em 1983. E é o irmão, o Rui Damasceno e a família próxima (ao contrário de muitos exemplos que conhecemos) que tratam do espólio que (nos) deixou quando da sua morte em 2010. Ainda lhe preservam em casa os poemas soltos. Em vida publicou, principalmente na Fenda de Vasco Santos, cinco livros: Corpo Cru, 1983; Cinco Suicídios, 1986; Alma Fria - Scketches Policiários, 1986; Retrato do Artista Quando Jovem aos Pés da Rainha Santa Isabel, 1989 e fora da Fenda, na Tipografia da família, editou-se Carta de Probabilidades de Erosão Celeste, 2015, este já póstumo, evidentemente.

Revi a biografia de João Damasceno pelas redes sociais e pelos blogues literários e, sinceramente, não vi nada que se aproximasse ao que ele foi realmente para quem o conheceu e que muitos (agora críticos) vociferavam contra as suas atitudes provocatórias de quem nunca se reviu numa cidade que iniciava então o seu percurso cultural mesquinho, de grupos de amizade e afinidades várias. Salvam-se alguns registos filmados por Rui Damasceno e outros, que lhe são fiéis, pela dicção, cadência e leituras impecáveis que estão à vossa disposição na net. O deserto que se aproximava era sentido por João Damasceno que contra ele, e por sua vez, utilizava não só a ironia, mas também o insulto, a provocação, a atitude diletante. Conheci-o a avançar para a sua fase mais autodestrutiva, como muitos de nós. Alguns pararam, outros foram-se embora daqui, muitos morreram, outros enlouqueceram, outros casaram e arranjaram emprego público ou privado, que para o caso tanto faz. O João, não. Ele era já incontrolável, optou pela comunicação com os outros através da poesia e será talvez caso único, em Coimbra, dos que levaram a poesia para dentro de si próprios. E isso paga-se caro em sítios assim. Ele vivia as palavras com poesia, eventualmente também no teatro. Assumiu a atitude poética no seu corpo e na sua totalidade crua. 

Hoje cantam-no, dramatizam-no, dizem-lhe os poemas. Alguns deles, bem. Mas sugere-se o início de uma biografia necessária de um antiautoritário, de um espírito livre, de um homem incontrolável que sabia amar. Ou seja, de um poeta inimitável. 

«Porque quisemos perguntar aos rostos os segredos:
fomos punidos, vagueámos...»

Corpo Cru, pág.54

quinta-feira, maio 23, 2024

«O Poeta passeia-se pelo seu túmulo», uma biografia de Manuel de Castro, Nuno dos Santos Sousa

Língua Morta, Novembro de 2023
É muito possível que quem não se emocionar com esta biografia de Manuel de Castro em jeito de cumplicidade e diálogo com o autor, desaparecido em 1971, guiada por Nuno dos Santos Sousa, tenha, nas suas veias, Água das Pedras, caldeadas por Frizes de morango para as colorir, ao menos.

Ninguém pode ficar indiferente a esta biografia, o que é simplista de se dizer. Aliás, o sub-título já explica por si: «Subsídios, Esmolas, Aforismos e umas Rodadas para a Biografia Teratológica de Manuel de Castro». Portanto, é mais que isso. Nuno dos Santos Sousa não é meigo com a linguagem utilizada, pelos que convoca para aqui, pelo que é escolhido das cartas do poeta ou pelos poemas que sabemos de «Zona», «Estrela Rutilante», «Paralelo W» e «Escorpião» (este desapareceu ou está em mãos desconhecidas, como se pode aventar) e «Bonsoir Madame». Esta biografia não é como as outras, não é um tijolo pessoano ou camoniano, de vastas posses, é uma obra bonita, que respeita o biografado literário e o homem, o que em Manuel de Castro é uma e a mesma coisa. O editor da Língua Morta soube-lhe dar casa e isto não se esquece. Não me retenho sequer a fazer qualquer consideração sobre a sua poesia. Não posso, não tenho estofo e vai daí também a emoção de o ter lido e de o ter desenhado em ex-voto (ver em baixo) não me deixa escrever porque adivinho o desprezo de quem é «interpretado», ou o caraças! Só direi que Manuel de Castro é inesquecível pela raiva, pelo amor, pela ruptura surrealista e abjeccionista, embora não se fique só por estes ismos. Morreu com 37 anos, depois de uma doença prolongada de que não quis tratar-se completamente. Morreu devagar, num suicídio lento num país que está longe de o merecer, sequer. Ele di-lo com clareza, não quer ficar por cá e parte para Paris e Alemanha, estacionando por lá 5 anos. E os seus amigos, Herberto Helder, Helder Macedo, João Rodrigues, Carlos Loures, José Manuel Simões, Pedro Oom, António Barahona (o único que está vivo desse grupo do Gelo, que não era bem um grupo, antes pelo contrário), Fernando Madureira, António José Forte, Virgílio Martinho, Ernesto Sampaio, Luiz Pacheco e mais, muitos mais... Cesariny e Mário-Henrique constam aqui e ali. 

Nuno dos Santos Sousa dialoga com Manuel de Castro. Com um carinho límpido, que um leitor atento sabe atentar, sim senhor. «Menos na política, Manel», menos na política, que dá merda! Chama igualmente por quem o convocou como «poeta sonegado» no dizer de Luiz Pacheco. Não fosse a «A Ideia» e António Cândido Franco ou António Barahona, e editoras que o vão lembrando e ainda estaríamos em maré de nada. E até hoje foram alguns, se bem que persista o esquecimento que já nada tem de involuntário. É voluntaríssimo e infame, porque é impossível imitar Manuel de Castro sem se dar conta. É único. E os poetíssimos e poetíssimas contemporâneos não o querem perto, porque pode haver desmascaramento e o Herberto Helder ainda dá para se arrevesarem e dar uns ares da sua graça, treslendo-o ou coincidindo, sem se saber, claro. Escreveu para revistas, para jornais, para editoras. Bebeu demasiado, e dava-se à noite lisboeta e aos bordéis. Estava pronto para a porrada, sempre que fosse necessário e também com os amigos, porque era uma nobre prova de amor (chamava aos amigos de «rosas brancas»). Era um incontrolável, o que lhe daria combustível para as melhores páginas escritas no Gelo, no Royal, ou nos cafés que já não existem hoje.

Companheiros do programa biográfico de Manuel de Castro, Nuno dos Santos Sousa chamou à obra, Cioran, Jünger, Raúl Brandão, Drieu La Rochelle, Ingeborg Bachmann com um belíssimo texto e, além de outros, Jean Cocteau. 

Não porei aqui nenhum poema de Manuel de Castro. Pela simples razão que toda a poesia (como afirmou, «nem todo o poema é poesia!») é nele, um continuum, é muito difícil separá-la em extractos. Compre-se os livros e manuseie-se devagar ou com raiva, cheios de pressa. É convosco. Mas leiam este livro que é igualmente poesia.

António Luís Catarino, Abjectos Surreais, Manuel de Castro, 2022

segunda-feira, maio 20, 2024

«Camões», Ezra Pound

Fenda Edições, 2ª edição, 2005. (1ª, 1980). Tradução de Isabel Pedro dos Santos, Posfácio Stephen Wilson, Design de João Bicker
Ah, Camões! Se soubesses o interesse público e aeronáutico que há por ti nos teus 500 jovens aninhos! Antes de ir ao Jorge de Sena, aguentemos a desertificação com Ezra Pound.

Fui procurar esta edição de Ezra Pound, creio que sobre a responsabilidade de Stephen Wilson e de Vasco Santos, ambos habituais do Tropical e da noite da Clepsidra dos anos 80, que ainda por cima editaram um Ezra Pound que tinha alguns engulhos para com o estilo épico de «Os Lusíadas», isto bem exposto no seu «The Spirit of Romance» de 1910, imagine-se, ainda o fascismo era larvar e ainda não teria rebentado a I Guerra Mundial, sequer. Por aqui vivia-se na liberdade republicana, acabadinha de ser inaugurada. Ezra Pound preparava-se em palestras universitárias londrinas para ganhar a vida e fermentava-se nas ideias fascistas. Se não gostava do épico camoniano, menos, ao que diz, do Canto III relativo à senhora dona Inês de Castro, suficientemente lírico para ele gostar, encarava-o como um dos grandes. Segundo ele, era aí, no lírico, que residia toda a gloriosa poesia de Camões. 

De qualquer modo, Pound, pela interpretação que se pode retirar de «Camões» não lhe é completamente hostil como o é para com Virgílio, Tasso, Spencer, Milton ou mesmo Homero da Ilíada (não da Odisseia, evidentemente), mas antes usa «Os Lusíadas» nas palestras, que editou depois em livro, para ressalvar as características do épico. Aliás, chega a dizer que Camões inaugura a forma épica da Antiguidade na era tardia do Renascimento, aproximando-o de Dante de quem era um devoto assumido. Para além disso, chama a atenção para a falta de musicalidade da nossa língua que Camões consegue ultrapassar, quer com a métrica quer por recursos vocabulares o que não deixa de ser uma contradição de Pound. E da efemeridade da nossa gloriosa pátria, bem exposta nas suas palavras por uma decadência já antiga e que os portugueses adoptaram como felicidade colectiva, até hoje, digo eu. Já a estafada diatribe da falta de filosofia de Camões é remetida para uma «retórica colorida». Pound engana-se: Camões não é um filósofo, é certo, mas podemos considerá-lo um grande, enorme, pensador. Comparando-o com Dante, Pound comete um erro (a que Wilson chama no posfácio de pouco científico) e cai na sua própria ratoeira: o seu «The Cantos» não conseguiu ser épico, muito menos lírico. E longe de qualquer preocupação filosófica, diga-se. 

Diz Pound em «Camões»:

«''Os Lusíadas'' é melhor do que um romance histórico; dá-nos o tom do pensamento da época. (...) Camões sentiu a glória de Portugal como nenhum outro, mas esta glória foi efémera.»

«Camões escreve num estilo resplandecente e bombástico - que por vezes é poesia. A língua portuguesa, pouco musical, é subjugada, e os seus acordes dissonantes harmonizados. Como retórica colorida, ''Os Lusíadas'' dificilmente será ultrapassado, em minha opinião. O encanto deve-se ao vigor do autor, à sua unanimidade, à firme convicção da glória das coisas do mundo exterior - é há igualmente um certo prazer no contacto com o tipo de espírito de Camões, o espírito de um homem com suficiente entusiasmo para escrever um poema épico de dez Cantos sem nunca se deter em qualquer tipo de reflexão filosófica. Ele é o Rubens da poesia.»

Clarifica Stephen Wilson, no seu posfácio o seguinte:

«(...) Embora a definição desta tradição [Wilson refere-se à ''tradição épica''] seja drasticamente redutora, algo periférica e de certo modo bizarra, é importante, contudo, entendê-la bem como a atitude de Pound em relação a Camões, como sendo mais do que mera excentricidade , idiossincracia ou ignorância. Em termos simples e de algum modo grosseiros, as objecções de Pound a ''Os Lusíadas'' provêm do facto de ele considerar a obra como um poema que ''fala de História'' e nada mais; faltar-lhe-ia o ''carácter mágico da poesia'' e só teria ''o interesse da prosa''; seria, para utilizar a terminologia caracteristicamente pouco científica de Pound,''sem vida'', ''seco'' e ''aborrecido''. (...)» (pág.44)

Nota: sendo uma 2ª edição a Fenda poderia ter reparado nalgumas gralhas arreliadoras que persistiram desde a 1ª e corrigi-las. Não dava grande trabalho. Tiveram 25 anos para o fazer!

II Feira de Livros de Arte. Centro de Artes Visuais, Coimbra

 


Na II Feira do Livro de Arte, no CAV de Coimbra, um fartote de aquisições de livros bonitos. Poesia de Heiner Müller, traduzida por Adolfo Luxúria Canibal e ilustrações de José Pereira, Jornal Punkto sobre a Palestina, "Existenzgrunder" de Anna Klos, um fabuloso "In the End, it was the economy" da Ghost Editions, "O livro da Patrícia" da mesma editora e "RIP", colagens de Pedro Teixeira Neves da Paper View Books. Claro que me escusei de adquirir os 5 livros de António Alves Martins das Artes Breves edições, porque já os tinha! Nada como realmente.

sábado, maio 18, 2024

«Menez | Pomar, Cartas»

 

Documenta, Cadernos do Atelier-Museu Júlio Pomar, 1ª ed. Outubro de 2022

A edição e apresentação desta publicação coube a Sara Antónia Matos e Pedro Faro. Não são cartas de amor ou de confissões mais ou menos privadas. Melhor dito: são também cartas de amor e privadas. É que este livrinho, em boa hora editado, circunspecto, em nada pedante, trata o processo de criação entre dois pintores consagrados como deve ser tratado: em jeito de confidência, vamos tomando nota das suas dificuldades e crises não só materiais, mas igualmente o terror da tela em branco, as interrupções nas séries temáticas, as impossibilidades várias que de tempos a tempos assolam a criação ou mesmo a destruição de telas, diria, por desespero. Que ninguém se iluda: se houvesse dúvidas que todo o acto criativo é também dor e isolamento, estas cartas, escritas entre 1979 e 1982, provam-no sem  qualquer apelo ou agravo. Mas, mostra, igualmente, a alegria e o contentamento de verem os seus quadros expostos, a tarefa terminada, ou já em vias de ser ultrapassada ou revista pelos próprios autores, muitas vezes em interrelação com os amigos.

Nestas cartas e postais (de Paris, Londres, do Báltico até ao Algarve e Lisboa) em que se revela um carinho e amizade profunda entre Menez e Pomar, lemos algumas confidências sobre galeristas, marchands, editores de catálogos, entrevistas, críticos. E aqui se vê, não sem algum incómodo como é difícil escrever sobre arte, ou sobre a obra criada (coloco a poesia neste saco). É até constrangedor ver como algumas figuras da nossa praça são tratadas pelas críticas que elaboram depois de se deslocarem a exposições «como se fossem a passar pelo Chiado», diz Menez. Mas mais do que isso: parece-me uma recusa, assumida quer por Menez, quer por Pomar, de ser interpretado por quem quer que seja. A tela está ali, o quadro chegou ao fim (processo que confessam ser um dos mais difíceis na criação da obra de arte), qualquer «apreciação» é votada a algum desprezo mais implícito do que explícito, excluindo um outro caso comentado ironicamente pelos dois.

Sobre o processo criativo, deixo um trecho de uma carta de Pomar a Menez que achei interessante de relevar aqui: 
«Porque falar não é mais que buscar companheiros - mesmo quando falas só por falar, por passatempo, buscas um eco de companhia nos que te cercam. E se exteriorizas meditações, se dás formas a pensamentos, ideias, sensações, é com o íntimo fito de ligar a ti os que, sentindo ou pensando do mesmo modo, não tiveram, ou não têm possibilidades de o fazer ainda. Falas, porque desejas que estejam contigo. Fazes um trabalho de ordem colectiva. Comunicas. E só do livre intercâmbio dessas comunicações poderá nascer caminho para qualquer real avanço.» (págs. 14 e 15)

Esta epistolografia também me obriga a levantar algumas questões que se colocam nos dias de hoje se entendermos a importância destas publicações. Hoje, já quase ninguém escreve cartas. O email é o mais usado, já para não falar nos SMS, ou WhatsApp. Valha-nos ainda algumas publicações digitais públicas ou os já antiquados Blogues, que ainda podem reter algumas indicações entre autores e criadores, ou mesmo trocas de opiniões entre eles. Espero que um dia se faça a história epistolográfica, principalmente através de emails, e que seja baseada na pesquisa digital, com a necessária autorização familiar, bem-entendido, como aliás aconteceu neste livrinho. Que muita coisa destas não se perca na nuvem.

segunda-feira, maio 13, 2024

«Planeta» e «De Humani Corporis Fabrica», José Ricardo Nunes

«De Humani Corporis Fabrica» e 
«Planeta», Fotos de Pedro Bernardo, Não Edições, Abril de 2024
«Talvez a poesia se assemelhe às prateleiras
dos supermercados e somente me caiba repor
quando as vejo vazias, por reflexo,
não porque tenha algo de importante a dizer,
imprescindível mesmo, tão implausível
que não possa deixar de ser dito.»

Para se gostar de poesia não é necessário gostar-se de toda a poesia. Não tem sentido. Como também não o terá se nos acantonarmos à impossibilidade da ditadura do gosto ou se não nos ativermos às emoções que a sua leitura produz. Emociono-me ao ler José Ricardo Nunes e com atrevimento posso declarar que é um poeta «meu». Não o perco. Volto a ele quando me encontro face às estantes de casa. Folheio os vários livros publicados com um critério e rigor que adivinhamos no início da leitura e que nos certificamos quando fechamos o seu livro que irá descansar uns tempos, porque parecem vivos. 

Não falarei sobre «De Humani Corporis Fabrica». A última Colóquio/Letras, número 216 de Maio a Agosto de 2024, cujo artigo de Miguel Martins está no site da não editores) analisou-o com detalhe o que me impede de o fazer aqui por manifesto reconhecimento das minhas dificuldades.

Já «Planeta» é um caso que me atrevo a dizer que é dos melhores livros de poesia portuguesa que li. José Ricardo Nunes não se amedronta com o universo, com o macrocosmos e «desce» rapidamente para o jornal, o café, os seixos dos rios, os corpos em ebulição ou na dor indizível atacado pela doença e a própria noção da poesia. 

«Dantes havia mais clareiras
mas então o teu corpo era apenas o teu corpo, não
também memória dele. E mesmo eu
desapareço agora quase por inteiro,
já nem sei onde meter ali o rosto.
Se der com ele é porque chegou ao fim
o tempo que nunca há-de chegar?»

Isto não é para qualquer um, principalmente quendo este exercício é realizado com inegável mestria que nos remete para uma fragilidade tão humana, quanto natural, mesmo que esta ideia se transforme num oxímoro.  Lá está o recurso a uma androginia (será uma página em branco?) e metamorfose magnífica chamando Bowie que surpreendentemente o liga ao poema deste modo ímpar.
Não vou colocar aqui poemas completos, mas sim versos, os tais que me emocionaram. Se quiserem os livros, encomendem-nos à Não Editores ou mandem vir pelas plataformas habituais. Ora vejam este extracto:

«Mas o meu Bowie não o das canções,
Rebel, Rebel, Life on Mars e por aí fora
até chegar a uma falésia e voltar
a não ver a escuridão do mar,
não é o camaleão do show business
que acreditava a cada passo ser diferente
e tanto acreditava nas sucessivas mutações
que todas haveriam de reter um pouco de verdade
que há numa página em branco.»

José Ricardo Nunes termina «Planeta» de uma forma magistral:

«Continuo a viver um dia único.
Já não acredito em nada.
Posso agora realmente acreditar 
que sou mesmo feliz. E não
escalei, não contornei
montanha nenhuma, não mudei
nenhuma montanha de lugar, nunca
dinamitei uma montanha, não
sei para que serve este rastilho.»

É o fogo que arde nestas páginas de «Planeta».

sábado, maio 11, 2024

«A Porta», Magda Szabó

 

Cavalo de Ferro, Março de 2024 (original de 1959). Tradução do húngaro de Ernesto Rodrigues
Magda Szabó é daquelas escritoras que foram estupidamente perseguidas pelo regime húngaro no pós II Guerra e cuja razão principal era o afastamento  das prioridades literárias do realismo socialista. Em 1949, deixa de escrever poesia e perdeu igualmente o emprego, retomando-o mais tarde quando os húngaros ficaram rendidos aos seus romances, entre os quais o belíssimo «A Porta», editado em 1959, e reconhecido em inúmeras línguas a partir de 1989. A Cavalo de Ferro tem mais títulos dela e a tradução foi efectuada directamente do húngaro por Ernesto Rodrigues. A linguagem de Szabó é límpida, aberta, magra de demasiados recursos literários. Ou seja, é extraordinária.

A narrativa surpreende-nos quer com as personagens, quer pelas situações por elas entrelaçadas. Emerence não é só a empregada de um casal de intelectuais húngaros, ambos relativamente bem na vida, é igualmente uma metáfora do inesperado, do que pode acontecer sem que demos por isso, numa sociedade aparentemente ordeira e em que as pessoas, também ordeiramente, como se fosse um processo burocrático, se suicidam sem razão aparente. E, não, isto deu para as sociedades do leste como também é metáfora para as ocidentais. O que releva deste romance são as relações sociais algo manietadas, duras, embora com a capa de uma suposta decência, seja ela protestante, católica ou das normas impostas por um estado social.

Há, portanto, várias perspectivas de nos encontrarmos com a narrativa de Magda Szabó neste «A Porta». É a inevitável decadência da pessoa, o esquecimento, o desmembramento gradual da personalidade, mas igualmente o sofrimento que causa quem ama e que está presente. Que quer estar presente, apesar das margens brancas da memória decadente. Emerence morreu com dignidade, porque, apesar do Estado Social burocratizado estar omnipresente na sua morte, quem a recolhe e a trata é a rede fina de vizinhos que se conjugam entre si. Uma rede a que o Estado nada pode fazer. Quanto à porta aludida no título só se descobre o que está para além dela, quando é aberta: velhos trapos e móveis que se desfazem ao toque humano. Entenda-se a metáfora do velho, do decadente, aqui também nas coisas materiais.

Não sei, como disseram alguns críticos por aqui, se é ou não um dos maiores romances do século XX, mas não me causa muitos problemas entendê-lo assim. Como também não concordo que a narrativa tenha como alvo o regime comunista húngaro só por si. Szabó tinha conhecimento claro do que se passava e passou depois da queda do Muro de Berlim, das contradições sociais do Ocidente. Morreu em 2007, com 90 anos, e nunca refutou, em entrevistas, e pelo que sei, o que aqui escrevo hoje.

terça-feira, maio 07, 2024

«Leviathan», Paul Auster

Asa, 2022. Tradução de José Vieira de Lima. Capa: Alex Gozblau
Paul Auster faleceu há muito pouco tempo. Eis um livro dele, de 1992, que nunca li. Penso que, mais do que qualquer homenagem completamente inútil, será uma forma boa de o lembrar como um grande escritor. Escreve como que para um filme e não se pense que isto é menorizá-lo. Há quem o faça muito bem, como é o caso dele. Provavelmente descobriu a pólvora e o sucesso, mas isso é outra conversa que não é para aqui chamada. Mas, mais do que isso, sabe bem do que fala e é um incomparável leitor de almas, atentíssimo às mensagens subliminares ou explícitas que as suas personagens transmitem neste romance. Acreditamos na verosimilhança de cada uma delas, mesmo que as situações sejam as mais inesperadas ou impossíveis. Com Paul Auster isso não acontece. Neste livro, neste romance de amor e morte, claramente novaiorquino, cremos, contudo, que ele tem medo da América, do que ela será capaz contra a democracia e liberdade que diz defender. Compromete-se e livra de qualquer recalcamento público todo aquele que se lhe opõe. Mesmo pela violência. Já devia ter lido «Leviathan» há uns tempos. Mas chegou a oportunidade que não recusei. Ainda bem. 

Unicórnios, Jornal Mapa 41

Ilustração para o Jornal Mapa 41
Artigo de L. Silva: «Startups: não é um ecossistema, é uma plantação»

 

quinta-feira, maio 02, 2024

«Tomás Nevinson», Javier Marías

Alfaguara, 2021. Tradução de Vasco Gato
«Tomás Nevinson» é uma personagem ambivalente. Não simpatizamos logo de início com ele, até pelo que faz. Trata-se de um agente secreto, um detective, por vezes mais espanhol, outras mais inglês, ex-estudante de Oxford, onde ainda se recrutam agentes do MI5, MI6 ou no caso de Espanha faz uns favores ao Cesid. 

O seu trabalho leva-o, pelos olhos do leitor, a vê-lo como uma espécie de sacana (no mínimo), que não vê a família e os filhos durante anos, para se esconder no Ulster e ter uma outra mulher que abandona junto com a pequena filha. E aproxima-se novamente da primeira por conveniência dos serviços secretos. Devem reconhecer o nome da sua primeira mulher: Berta Isla, que deu o nome ao romance homónimo. Não direi mais, porque sei o risco que corro, numa página de leitura nas redes sociais, a contar tudo, mas, no final, não poderemos deixar de lhe dar alguma razão. Recusa-se a matar (mais uma vez) porque se sente velho e reconhece que um acto de ódio já não condiz com a sua idade. Envelheceu: «Desde que tenho memória, pensei ódio, deitei-me com ódio no coração, sonhei ódio e acordei com ódio.»

Ódio contra aqueles que matam deliberadamente com ódio. Em atentados cegos, para matar inocentes, tão culpados como as estruturas militares e serviços secretos que nem se importam que eles continuem a matar porque lhes justificam a permanência e a «roupa suja» que lavam. Ou eliminam. Tomás Nevinson já deixou de ter ódio. É um empecilho. Torna-se inútil e age por si. Acabamos por simpatizar com o homem.

Deixo-vos com um seu pensamento que se lhe soltou quando, embora ateu, se dirigiu a uma igreja: «Não acreditamos, mas podemos ter o hábito de rezar, ou de murmurar, tanto faz. A quem? Não a Deus nem a nenhum santo ou virgem, a ninguém em particular, não é preciso destinatário para isso. Limitamo-nos a sussurrar com o pensamento: 'Por favor, por favor.' Ou: 'Ainda não, ainda não.' Ou até: 'Desculpa, desculpa.'Costuma haver silêncio nas igrejas; ou cânticos bonitos, se se tiver muita sorte; ou música de órgão, se ainda se tiver mais. Está-se bem lá...» 

Pergunto a quantos de nós, principalmente a ateus e agnósticos, não se sentiram bem dentro de uma igreja, em busca de silêncio e paz sem que nos dirigíssemos a alguém em particular. Quantos de nós encontram num simples exercício de leitura, o silêncio e a paz cada vez mais difícil de encontrar. Um livro muito bom, que seguimos com verdadeiro prazer de leitura. 

quarta-feira, maio 01, 2024

Carta Aberta a todos os jovens delinquentes

 

Sem referência ao autor. in blogue de Amanda Ferraz
Caros Jovens Delinquentes:
Nunca em tempo algum, sem que tivésseis aberto a boca, agísseis com as vossas costumadas maldades, dito seja o que for que levantasse o repúdio generalizado das gentes honestas, levassem as vossas proezas às primeiras páginas da CMTV ou do JN, eis que estivestes a ser referidos durante horas intermináveis, por todos os media, por vos quererem enviar para a tropa!
Creio-vos atónitos e sem palavras, como sói dizer-se agora. Castigo maior do que estar numa cela limpa, institucionalizada, liofilizada e (céus!) electrocutada é mandarem-vos para a tropa, pelo simples facto de serem simples delinquentes. Pois sim, limpastes vós umas carteiras, acometestes ao porta-moedas da avó, chapastes uma cabeçada a um tipo de outro clube, praticastes, pois, malfeitorias. Perguntais vós, nessa sanha castigadora dos agora ministros, quem foi (ou foram) os responsáveis da ideia peregrina de vos fardarem e irem para as casamatas, munidos de G3 e ensinados à luta corpo a corpo, como se não já a soubessem de antemão! Foi um delinquente ressabiado? Não. Esses não são delinquentes. São pessoas sérias que já viram de tudo e que sabem o que dizem. Já viram muito por esse mundo fora: comissões de vendas de submarinos alemães, assaltos aos paióis de quartéis, atrasos nas obras de quartéis antigos para receberem o guito primeiro. Mas esses não são delinquentes. Isso sois vós, seus bandalhos!
Também, as associações sindicais não vos quereis porque, entre outras, vós tendes de obter registo criminal limpo! É a vossa sorte. Continuai assim mesmo no conforto dos vossos lares improvisados pois um tanque não se guia como um carro ligeiro a fugir às autoridades, muito menos à noite. Acreditai que um submarino alemão, armas de paióis e falcatruas na construção de velhos quartéis, são muito mais fáceis de esconder.