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terça-feira, abril 14, 2026

"O Tango de Satanás", László Krasznahorkai

 

Cavalo de Ferro, 2026 (1ªed.1985, Antígona). Tradução de Ernesto Rodrigues
Este tango poderia ser transformado numa peça do absurdo, do grotesco. «O Tango de Satanás» é, sem dúvida, um grande obra do húngaro László Krasznahorkai, embora difícil de ler principalmente quando iniciamos o primeiro contacto. Finalmente, quando entramos na cadência da sua leitura, as imagens, diálogos e situações sucedem-se a um ritmo vertiginoso, quase sempre com consequências inesperadas ou até pela ausência de qualquer resultado após uma acção descrita. As situações surgem desgarradas, sem ligações óbvias entre si. É inegável a existência de uma sociedade estagnada, desesperançada, onde se arrasta um quotidiano miserável, em que as personagens se agridem, se convocam e aproximam como um exercício de quem quer provar que estão efectivamente vivas. Não conseguimos ver um objectivo claro, a não ser a da pura sobrevivência numa existência tornada ferozmente individualista, mesmo se a ordem social seja imposta por uma espécie de «cooperativa» em que nada funciona, ou melhor, o que ainda se move com todo o seu cortejo de absurdos e despautérios é a sempre presente burocracia. Se há um vislumbre de revolta, ela é inconsequente, contraditória, sem qualquer lampejo de substituição porque as personagens que a iniciam são desprovidas de vigor humano, estão exaustas. Essa revolta é protagonizada por uma personagem estranha, Irimiás, cujo nome lembra a sonoridade de um profeta do Antigo Testamento, mas é igualmente um misto de aldrabão, de burlão, de um violento trapaceiro que vende simultaneamente liberdade, armas e empregos. Ele é um «homem das situações desesperadas e pastor de homens sem esperança» (pág.154) que aparece e desaparece, que está prestes a resolver todos os problemas ou se afasta deles impetuosamente, castigando ou favorecendo sem que se perceba a sua lógica. Essa ausência de esperança nas personagens que povoam a história é singularmente exposta no capítulo VI, «O Trabalho da Aranha II - Seios diabólicos, Tango de Satanás» na pág. 136. Dou-vos em extracto:

«Futaki estava convencido de que os fracassos, semana após semana, mês após mês, os projectos cada vez mais confusos, logo abortados, essa dolorosa sede de liberdade, não representavam uma ameaça real; eram, sim, o que os mantinha unidos, porque, entre má sorte e a aniquilação, a estrada era longa, mas aqui, no fim do caminho, já se não podia sucumbir. A verdadeira ameaça parecia ser subterrânea, mas a sua fonte era incerta: irrompia, de súbito, um silêncio assustador, e não nos mexemos mais, enrolamo-nos num canto, à espera de protecção, mastigar é uma tortura, salivar, um sofrimento, e ninguém se apercebe já que o tempo desacelera, que o espaço se estreita ao redor de si mesmo, e neste dobrar-se é que ocorre a coisa mais terrível: a inércia.» (pág.138) 
Segue-se, neste mesmo capítulo, uma das mais poderosas descrições de uma orgia burlesca, numa taberna soturna e miserável, desses desesperançados. Só por si, justifica a leitura atenta deste livro.

alc

quarta-feira, abril 23, 2025

«Trilogia da Cidade de K.» Agota Kristof

 

Relógio D'Água, 2021. Tradução de António Gonçalves
«Eu nunca terei paz!», afirma Lucas no primeiro livro desta trilogia intitulado «O Caderno Grande». Segue-se «A Prova» e «A Terceira Mentira» escritos pela húngara Agota Kristof falecida em 2011, na Suíça. Já editada em Portugal em 1986 é, contudo, a partir de 2000 que alcança alguma notoriedade entre nós pelas editoras Asa, Nós e Cavalo de Ferro. Esta tradução é revista por António Gonçalves, pela Relógio D'Água e junta os três livros antes editados separadamente com o nome de «Trilogia da Cidade de K.» o que terá toda a lógica visto que fazem parte do que a autora entendia ser uma saga que narra a «trilogia dos gémeos».

Voltemos à frase de Lucas «Eu nunca terei paz!» num dos muitos diálogos desenvolvidos pelas personagens que se vão revezando numa espécie de vertigem teatral onde temos dificuldade em distinguir o real do imaginário. Essa densidade vai tornando-se mais opaca quando transitamos a leitura entre os livros. Entre a opacidade psicológica das personagens, principalmente de Mathias e de Lucas (nomes de evangelistas que, creio, não existirem por acaso), os gémeos, dá lugar a uma abertura extraordinária, quase de revelação última, se a autora assim o quisesse. Contudo, volta-se a entrar e a sair de zonas sombrias para uma pura iluminação pessoal. É um livro fortemente impressivo que impõe uma opção clara entre o mal e o bem, mesmo sabendo que se cruzam, que interagem entre si, que todas as personagens do livro, algumas delas decisivas, trazem essa passagem, promovem um ciclo intransponível de actos que se sucedem e se revelam muito para além dessa dicotomia. A crueldade elevada ao extremo, a rudeza de quem já viu tudo, de quem não pode acreditar, de todo, na humanidade encontram-se com a disponibilidade solidária, com o amor, com o desejo, com a preocupação desinteressada com o outro. É evidente que estamos perante um clássico da literatura. 

Sabe-se pouco, sobre a vida de Agota Kristof (Ágota Kristóf, com a acentuação e grafia originais). Pelo menos sobre o que pesquisei e encontrei. Esta trilogia, que recomendo a todos lerem, inicia-se antes da II Guerra Mundial, atravessa-a; aliás, os húngaros atravessam-na com dois exércitos de ocupação antes e depois da guerra e sofrem com esse movimento quase tectónico de mortes, fome em extremo, vinganças, armas, soldados, abusos, mudanças obrigatórias, fugas permanentes para todo o lado. A zona de fronteira é uma miragem, uma zona tampão, e é lá que os gémeos vivem. Tudo ali se passa num universo concentracionário, vigiado, que os diálogos extremamente contidos entre as personagens nos dão a sentir. No fundo, nada é o que parece, tudo se transforma em coisa má, ou, dentro do mal, arranja-se sempre uma solução onde predomina o auxílio, a partilha e o sentido de comunidade. Não se pense, todavia, que é um livro sobre a guerra. Também o é, visto que a autora não se pode apartar da sua própria vida (nasceu em 1935), mas não se pode esquecer que ela tinha 21 anos em 1956, ano da invasão do Pacto de Varsóvia à Hungria, a primeira grande resistência à burocracia que a morte de Estaline, três anos antes, não modificou. Foi na leva de 200 mil refugiados que abandonaram a Hungria nessa altura, deixando para trás dezenas de milhares de mortos e um país traumatizado, sem entender a repressão sobre operários, camponeses e estudantes que exigiam uma vida melhor e que esse estado não conseguiu sequer equacionar. Com 21 anos acredite-se que não se esquece facilmente uma revolução. Sabemo-lo. A história da trilogia pára no final dos anos 80 após a queda do Muro, sem que Agota Kristof, em determinadas linhas, não dê conta igualmente da desilusão do modo de vida ocidental, demasiado preocupado com o dinheiro e com a solidão. Fica-nos uma espécie de nostalgia por uma vida comunitária de pequenas cidades, de vilas e de aldeias com uma coesão firme, com uma cola social que pensaríamos indestrutível. Não obstante, tudo morreu com o fim dos gémeos e do recomeço de guerras surdas que exigem seguir a sua própria lógica de destruição/reconstrução/repressão. A possível verosimilhança, a realidade que a autora nos propôs é, paradoxalmente, o título do último livro da trilogia: «A Terceira Mentira». Inesquecível.

ps: um obrigado muito especial à Inês Lampreia que me apresentou este livro excepcional.

alc

sábado, maio 11, 2024

«A Porta», Magda Szabó

 

Cavalo de Ferro, Março de 2024 (original de 1959). Tradução do húngaro de Ernesto Rodrigues
Magda Szabó é daquelas escritoras que foram estupidamente perseguidas pelo regime húngaro no pós II Guerra e cuja razão principal era o afastamento  das prioridades literárias do realismo socialista. Em 1949, deixa de escrever poesia e perdeu igualmente o emprego, retomando-o mais tarde quando os húngaros ficaram rendidos aos seus romances, entre os quais o belíssimo «A Porta», editado em 1959, e reconhecido em inúmeras línguas a partir de 1989. A Cavalo de Ferro tem mais títulos dela e a tradução foi efectuada directamente do húngaro por Ernesto Rodrigues. A linguagem de Szabó é límpida, aberta, magra de demasiados recursos literários. Ou seja, é extraordinária.

A narrativa surpreende-nos quer com as personagens, quer pelas situações por elas entrelaçadas. Emerence não é só a empregada de um casal de intelectuais húngaros, ambos relativamente bem na vida, é igualmente uma metáfora do inesperado, do que pode acontecer sem que demos por isso, numa sociedade aparentemente ordeira e em que as pessoas, também ordeiramente, como se fosse um processo burocrático, se suicidam sem razão aparente. E, não, isto deu para as sociedades do leste como também é metáfora para as ocidentais. O que releva deste romance são as relações sociais algo manietadas, duras, embora com a capa de uma suposta decência, seja ela protestante, católica ou das normas impostas por um estado social.

Há, portanto, várias perspectivas de nos encontrarmos com a narrativa de Magda Szabó neste «A Porta». É a inevitável decadência da pessoa, o esquecimento, o desmembramento gradual da personalidade, mas igualmente o sofrimento que causa quem ama e que está presente. Que quer estar presente, apesar das margens brancas da memória decadente. Emerence morreu com dignidade, porque, apesar do Estado Social burocratizado estar omnipresente na sua morte, quem a recolhe e a trata é a rede fina de vizinhos que se conjugam entre si. Uma rede a que o Estado nada pode fazer. Quanto à porta aludida no título só se descobre o que está para além dela, quando é aberta: velhos trapos e móveis que se desfazem ao toque humano. Entenda-se a metáfora do velho, do decadente, aqui também nas coisas materiais.

Não sei, como disseram alguns críticos por aqui, se é ou não um dos maiores romances do século XX, mas não me causa muitos problemas entendê-lo assim. Como também não concordo que a narrativa tenha como alvo o regime comunista húngaro só por si. Szabó tinha conhecimento claro do que se passava e passou depois da queda do Muro de Berlim, das contradições sociais do Ocidente. Morreu em 2007, com 90 anos, e nunca refutou, em entrevistas, e pelo que sei, o que aqui escrevo hoje.