segunda-feira, maio 27, 2024

"Um Terrível Verdor", Benjamin Labatut

Elsinore, Penguin Random House, 2024. Trad. Guilherme Pires
«- Deus não brinca aos dados com o Universo!»
«- Não seremos nós a dizer-Lhe o que deve fazer com ele!»
Este diálogo entre Einstein (a primeira afirmação) e Niels Bohr, após cinco dias exaustivos entre os melhores físicos do mundo, em Copenhaga, fixou uma das maiores polémicas entre - e desculpem o facilitismo de apôr rótulos em gente que não o merece de todo - os «deterministas» onde se encontrava Eisntein que viam o Universo a ser regido por leis únicas e os do «mecanicismo quântico» personalizado por Bohr, que defendiam um aparente caos de expansão e contracção contínua entre espaço e tempo. Pelo que se sabe ambos teriam razão, embora Eisntein tivesse pressentido que os cálculos quânticos estavam certos. Não deixa de ser sintomático que estes últimos o tivessem consultado sempre que apreentavam novos cálculos. Isto é, do que fiquei ciente ao ler este livro tão notável, quanto estranho é que se queremos conhecer as leis universais que nos regem devemos estudar o microcosmos, do átomo e dentro dele as suas partículas elementares. Este não é um livro só de física e de química, é a vida de toda uma panóplia de indivíduos cuja capacidade de abstracção ou de obsessão por uma ideia, seja ela intuitiva ou conclusiva sob os auspícios da matemática pura foi uma constante. Muitos foram levados à loucura, aos descrédito (embora cedo demais), à ostracização ou à autoreclusão. Ou à glória. No fundo é o espelho mais ou menos deformado da nossa vivência como seres humanos.

Este livro traça-nos percursos incríveis de vida de pessoas como Diesbach e Scheele que inventaram a fórmula do cianeto, ou o «ácido prússico» que serviu para o uso de pesticida nas laranjas da Califórnia, o Zicklon A, cujos vagões de comboio ficavam com um azul esplendoroso - o azul da Prússia, com que Van Gogh, por exemplo, deu basto uso nos seus quadros estrelados! Outro uso foi o de ter ajudado ao suicídio de milhares de nazis que, em 1945 e em ampolas escondidas, se fizeram cadáveres, não sem antes darem seguimento ao maior gaseamento da História sobre seres humanos depois da I Guerra Mundial, nos campos da morte, com o mais eficaz Zicklon B. Schwarzschild, morto em combate em 1915, que se correspondeu com Einstein a partir das trincheiras da frente oriental e que no meio do turbilhão das explosões resolveu equações complexas da «Teoria da Relatividade Geral». A uma certa altura, calou-se com a afirmação para um colega: «Chegámos ao ponto mais alto da Civilização. Só nos resta cair!». Pediu a esse matemático amigo para lhe destruir tudo e morreu na tarde seguinte. Histórias exemplares e extremamente inquietantes sobre autênticos génios que preferiram rasgar o que tinham feito durante largos anos, «...porque era bom que a Humanidade não soubesse.» Houve outros que cabe aqui referir pela sua singularidade (atenção que isto é um termo físico bem definido da Teoria Quântica) como Mochizuki que diz ter encontrado a resolução «impossível» da fórmula a+b=c e que rasgou tudo o que tinha feito até então e a descoberta do «coração do coração» da Matemática pura e que proibiu a publicação global dos seus trabalhos, como Grothendieck. Esse fugiu, autorecolheu-se nos Pirinéus e acabou com os seus brilhantes trabalhos. Preferiu isso a que a Humanidade soubesse onde tinha chegado. «Para bem dela, preferia assim!» Heinsenberg que contestou Schölinger e que acompanhou Bohr, porque aquele defendia que as partículas elementares do átomo tinham comportamenos semelhantes ao das ondas e não como as vemos em órbitas fixas em volta do núcleo. De Broglie que editou «Investigação sobre a Toeria Quântica» e cuja vida foi um poço de contradições e de fuga. Acabou igualmente por se recolher definitivamente  É  lógico que a destruição dos estudos e fuga ou reclusão não foi um conselho que Oppenheimer seguisse. Preferiu mostrar ao mundo as maravilhas da fissão sobre os humanos! 

Pessoalmente, acredito que a astrofísica acabará por matar a poesia desde que se descobriu que somos feitos com o pó das estrelas e para lá voltamos. A Inteligência Artificial também o poderá fazer, mas adiante. Creio que em Portugal, Jorge de Sousa Braga já o pressentiu, dedicando os seus mais belos e últimos poemas ao universo. Mas gostava de me despedir deste livro com uma citação sobre Poesia e Física:

«(...) Foi exactamente isso que fez com Heisenberg [em conversa com Bohr]: durante os passeios nas montanhas, convenceu o jovem físico  de que, quando se conversava sobre átomos, a linguagem utilizada tinha sempre de ser poética. Caminhando com Bohr, Heisenberg teve a sua primeira intuição da extrema alteridade do mundo sub-atómico: ''Se uma única partícula de pó contém biliões de átomos'', disse-lhe Bohr enquanto subiam pelos maciços da cordilheira Harz, ''como é possível que alguém se refira com propriedade a algo tão pequeno?'' O físico - como o poeta - não deveria descrever os factos do mundo, mas sim criar metáforas e relações mentais sobre a realidade. A partir desse Verão, Heisenberg compreendeu que aplicar conceitos de Física Clássica - como a posição, a velocidade e o momento - a uma partícula subatómica era um absoluto disparate. esse aspecto da natureza exigia um novo idioma.»
(pág. 160)
 

Um post de Diogo Vaz Pinto sobre a biografia de Manuel de Castro

Às vezes, entre as centenas de livros que se editam, o mais estranho é que, do meio da indiferença que nos gela e que é o maior dos abismos desta época, surge um leitor, um abelhão todo coberto do pólen que se reservou nalgumas páginas, nalgum desses livros feitos quase secretamente e só em nome dessa hipótese de haver mais alguém vivo nesta língua que quase se deixou de falar, e que está, para os efeitos de perturbação profunda e de mudança, praticamente morta. Daí o espanto quando afinal ainda nos surge um leitor pela frente, alguém vindo do outro lado, abrindo uma esperança de não sentirmos o desconhecido como um vazio, mas ainda como um território que nos desafie. Curiosamente, este leitor calha ser um antigo editor, desses que deu tudo e acabou atirado para a berma, muitas vezes também por esse género de autores tomados pela sanha de saltar para algo com um ascendente publicitário maior. Porque a chamada cultura literária entre nós ainda não fez mais que um punhado de escritores com verdadeira vontade de criar tudo outra vez, e por isso vão perfumando os cadáveres de ontem enquanto se queixam por não haver margem para fundar uma razão que diga respeito ao amanhã.

Diogo Vaz Pinto, sobre um artigo referente à edição da biografia de Manuel de Castro, no perfil da editora Língua Morta. Maio de 2024. 

sexta-feira, maio 24, 2024

«Corpo Cru», João Damasceno


Tipografia Damasceno, 2024, Carimbo de desenho e assinatura do autor.
Ilustrações de João Fonte e João Damasceno (capa). Prefácio de João Maria André
Composição em tipos de Odete Paixão (mãe do João)
Ontem foi um dia estranho como são todos que nos levam a recordar um amigo que já não está entre nós há muito. Estive no Centro Cultural Penedo da Saudade, onde se fez a apresentação de mais uma edição de Corpo Cru, do João Damasceno. A 1ª edição foi pela Fenda em 1983. E é o irmão, o Rui Damasceno e a família próxima (ao contrário de muitos exemplos que conhecemos) que tratam do espólio que (nos) deixou quando da sua morte em 2010. Ainda lhe preservam em casa os poemas soltos. Em vida publicou, principalmente na Fenda de Vasco Santos, cinco livros: Corpo Cru, 1983; Cinco Suicídios, 1986; Alma Fria - Scketches Policiários, 1986; Retrato do Artista Quando Jovem aos Pés da Rainha Santa Isabel, 1989 e fora da Fenda, na Tipografia da família, editou-se Carta de Probabilidades de Erosão Celeste, 2015, este já póstumo, evidentemente.

Revi a biografia de João Damasceno pelas redes sociais e pelos blogues literários e, sinceramente, não vi nada que se aproximasse ao que ele foi realmente para quem o conheceu e que muitos (agora críticos) vociferavam contra as suas atitudes provocatórias de quem nunca se reviu numa cidade que iniciava então o seu percurso cultural mesquinho, de grupos de amizade e afinidades várias. Salvam-se alguns registos filmados por Rui Damasceno e outros, que lhe são fiéis, pela dicção, cadência e leituras impecáveis que estão à vossa disposição na net. O deserto que se aproximava era sentido por João Damasceno que contra ele, e por sua vez, utilizava não só a ironia, mas também o insulto, a provocação, a atitude diletante. Conheci-o a avançar para a sua fase mais autodestrutiva, como muitos de nós. Alguns pararam, outros foram-se embora daqui, muitos morreram, outros enlouqueceram, outros casaram e arranjaram emprego público ou privado, que para o caso tanto faz. O João, não. Ele era já incontrolável, optou pela comunicação com os outros através da poesia e será talvez caso único, em Coimbra, dos que levaram a poesia para dentro de si próprios. E isso paga-se caro em sítios assim. Ele vivia as palavras com poesia, eventualmente também no teatro. Assumiu a atitude poética no seu corpo e na sua totalidade crua. 

Hoje cantam-no, dramatizam-no, dizem-lhe os poemas. Alguns deles, bem. Mas sugere-se o início de uma biografia necessária de um antiautoritário, de um espírito livre, de um homem incontrolável que sabia amar. Ou seja, de um poeta inimitável. 

«Porque quisemos perguntar aos rostos os segredos:
fomos punidos, vagueámos...»

Corpo Cru, pág.54

quinta-feira, maio 23, 2024

«O Poeta passeia-se pelo seu túmulo», uma biografia de Manuel de Castro, Nuno dos Santos Sousa

Língua Morta, Novembro de 2023
É muito possível que quem não se emocionar com esta biografia de Manuel de Castro em jeito de cumplicidade e diálogo com o autor, desaparecido em 1971, guiada por Nuno dos Santos Sousa, tenha, nas suas veias, Água das Pedras, caldeadas por Frizes de morango para as colorir, ao menos.

Ninguém pode ficar indiferente a esta biografia, o que é simplista de se dizer. Aliás, o sub-título já explica por si: «Subsídios, Esmolas, Aforismos e umas Rodadas para a Biografia Teratológica de Manuel de Castro». Portanto, é mais que isso. Nuno dos Santos Sousa não é meigo com a linguagem utilizada, pelos que convoca para aqui, pelo que é escolhido das cartas do poeta ou pelos poemas que sabemos de «Zona», «Estrela Rutilante», «Paralelo W» e «Escorpião» (este desapareceu ou está em mãos desconhecidas, como se pode aventar) e «Bonsoir Madame». Esta biografia não é como as outras, não é um tijolo pessoano ou camoniano, de vastas posses, é uma obra bonita, que respeita o biografado literário e o homem, o que em Manuel de Castro é uma e a mesma coisa. O editor da Língua Morta soube-lhe dar casa e isto não se esquece. Não me retenho sequer a fazer qualquer consideração sobre a sua poesia. Não posso, não tenho estofo e vai daí também a emoção de o ter lido e de o ter desenhado em ex-voto (ver em baixo) não me deixa escrever porque adivinho o desprezo de quem é «interpretado», ou o caraças! Só direi que Manuel de Castro é inesquecível pela raiva, pelo amor, pela ruptura surrealista e abjeccionista, embora não se fique só por estes ismos. Morreu com 37 anos, depois de uma doença prolongada de que não quis tratar-se completamente. Morreu devagar, num suicídio lento num país que está longe de o merecer, sequer. Ele di-lo com clareza, não quer ficar por cá e parte para Paris e Alemanha, estacionando por lá 5 anos. E os seus amigos, Herberto Helder, Helder Macedo, João Rodrigues, Carlos Loures, José Manuel Simões, Pedro Oom, António Barahona (o único que está vivo desse grupo do Gelo, que não era bem um grupo, antes pelo contrário), Fernando Madureira, António José Forte, Virgílio Martinho, Ernesto Sampaio, Luiz Pacheco e mais, muitos mais... Cesariny e Mário-Henrique constam aqui e ali. 

Nuno dos Santos Sousa dialoga com Manuel de Castro. Com um carinho límpido, que um leitor atento sabe atentar, sim senhor. «Menos na política, Manel», menos na política, que dá merda! Chama igualmente por quem o convocou como «poeta sonegado» no dizer de Luiz Pacheco. Não fosse a «A Ideia» e António Cândido Franco ou António Barahona, e editoras que o vão lembrando e ainda estaríamos em maré de nada. E até hoje foram alguns, se bem que persista o esquecimento que já nada tem de involuntário. É voluntaríssimo e infame, porque é impossível imitar Manuel de Castro sem se dar conta. É único. E os poetíssimos e poetíssimas contemporâneos não o querem perto, porque pode haver desmascaramento e o Herberto Helder ainda dá para se arrevesarem e dar uns ares da sua graça, treslendo-o ou coincidindo, sem se saber, claro. Escreveu para revistas, para jornais, para editoras. Bebeu demasiado, e dava-se à noite lisboeta e aos bordéis. Estava pronto para a porrada, sempre que fosse necessário e também com os amigos, porque era uma nobre prova de amor (chamava aos amigos de «rosas brancas»). Era um incontrolável, o que lhe daria combustível para as melhores páginas escritas no Gelo, no Royal, ou nos cafés que já não existem hoje.

Companheiros do programa biográfico de Manuel de Castro, Nuno dos Santos Sousa chamou à obra, Cioran, Jünger, Raúl Brandão, Drieu La Rochelle, Ingeborg Bachmann com um belíssimo texto e, além de outros, Jean Cocteau. 

Não porei aqui nenhum poema de Manuel de Castro. Pela simples razão que toda a poesia (como afirmou, «nem todo o poema é poesia!») é nele, um continuum, é muito difícil separá-la em extractos. Compre-se os livros e manuseie-se devagar ou com raiva, cheios de pressa. É convosco. Mas leiam este livro que é igualmente poesia.

António Luís Catarino, Abjectos Surreais, Manuel de Castro, 2022

segunda-feira, maio 20, 2024

«Camões», Ezra Pound

Fenda Edições, 2ª edição, 2005. (1ª, 1980). Tradução de Isabel Pedro dos Santos, Posfácio Stephen Wilson, Design de João Bicker
Ah, Camões! Se soubesses o interesse público e aeronáutico que há por ti nos teus 500 jovens aninhos! Antes de ir ao Jorge de Sena, aguentemos a desertificação com Ezra Pound.

Fui procurar esta edição de Ezra Pound, creio que sobre a responsabilidade de Stephen Wilson e de Vasco Santos, ambos habituais do Tropical e da noite da Clepsidra dos anos 80, que ainda por cima editaram um Ezra Pound que tinha alguns engulhos para com o estilo épico de «Os Lusíadas», isto bem exposto no seu «The Spirit of Romance» de 1910, imagine-se, ainda o fascismo era larvar e ainda não teria rebentado a I Guerra Mundial, sequer. Por aqui vivia-se na liberdade republicana, acabadinha de ser inaugurada. Ezra Pound preparava-se em palestras universitárias londrinas para ganhar a vida e fermentava-se nas ideias fascistas. Se não gostava do épico camoniano, menos, ao que diz, do Canto III relativo à senhora dona Inês de Castro, suficientemente lírico para ele gostar, encarava-o como um dos grandes. Segundo ele, era aí, no lírico, que residia toda a gloriosa poesia de Camões. 

De qualquer modo, Pound, pela interpretação que se pode retirar de «Camões» não lhe é completamente hostil como o é para com Virgílio, Tasso, Spencer, Milton ou mesmo Homero da Ilíada (não da Odisseia, evidentemente), mas antes usa «Os Lusíadas» nas palestras, que editou depois em livro, para ressalvar as características do épico. Aliás, chega a dizer que Camões inaugura a forma épica da Antiguidade na era tardia do Renascimento, aproximando-o de Dante de quem era um devoto assumido. Para além disso, chama a atenção para a falta de musicalidade da nossa língua que Camões consegue ultrapassar, quer com a métrica quer por recursos vocabulares o que não deixa de ser uma contradição de Pound. E da efemeridade da nossa gloriosa pátria, bem exposta nas suas palavras por uma decadência já antiga e que os portugueses adoptaram como felicidade colectiva, até hoje, digo eu. Já a estafada diatribe da falta de filosofia de Camões é remetida para uma «retórica colorida». Pound engana-se: Camões não é um filósofo, é certo, mas podemos considerá-lo um grande, enorme, pensador. Comparando-o com Dante, Pound comete um erro (a que Wilson chama no posfácio de pouco científico) e cai na sua própria ratoeira: o seu «The Cantos» não conseguiu ser épico, muito menos lírico. E longe de qualquer preocupação filosófica, diga-se. 

Diz Pound em «Camões»:

«''Os Lusíadas'' é melhor do que um romance histórico; dá-nos o tom do pensamento da época. (...) Camões sentiu a glória de Portugal como nenhum outro, mas esta glória foi efémera.»

«Camões escreve num estilo resplandecente e bombástico - que por vezes é poesia. A língua portuguesa, pouco musical, é subjugada, e os seus acordes dissonantes harmonizados. Como retórica colorida, ''Os Lusíadas'' dificilmente será ultrapassado, em minha opinião. O encanto deve-se ao vigor do autor, à sua unanimidade, à firme convicção da glória das coisas do mundo exterior - é há igualmente um certo prazer no contacto com o tipo de espírito de Camões, o espírito de um homem com suficiente entusiasmo para escrever um poema épico de dez Cantos sem nunca se deter em qualquer tipo de reflexão filosófica. Ele é o Rubens da poesia.»

Clarifica Stephen Wilson, no seu posfácio o seguinte:

«(...) Embora a definição desta tradição [Wilson refere-se à ''tradição épica''] seja drasticamente redutora, algo periférica e de certo modo bizarra, é importante, contudo, entendê-la bem como a atitude de Pound em relação a Camões, como sendo mais do que mera excentricidade , idiossincracia ou ignorância. Em termos simples e de algum modo grosseiros, as objecções de Pound a ''Os Lusíadas'' provêm do facto de ele considerar a obra como um poema que ''fala de História'' e nada mais; faltar-lhe-ia o ''carácter mágico da poesia'' e só teria ''o interesse da prosa''; seria, para utilizar a terminologia caracteristicamente pouco científica de Pound,''sem vida'', ''seco'' e ''aborrecido''. (...)» (pág.44)

Nota: sendo uma 2ª edição a Fenda poderia ter reparado nalgumas gralhas arreliadoras que persistiram desde a 1ª e corrigi-las. Não dava grande trabalho. Tiveram 25 anos para o fazer!

II Feira de Livros de Arte. Centro de Artes Visuais, Coimbra

 


Na II Feira do Livro de Arte, no CAV de Coimbra, um fartote de aquisições de livros bonitos. Poesia de Heiner Müller, traduzida por Adolfo Luxúria Canibal e ilustrações de José Pereira, Jornal Punkto sobre a Palestina, "Existenzgrunder" de Anna Klos, um fabuloso "In the End, it was the economy" da Ghost Editions, "O livro da Patrícia" da mesma editora e "RIP", colagens de Pedro Teixeira Neves da Paper View Books. Claro que me escusei de adquirir os 5 livros de António Alves Martins das Artes Breves edições, porque já os tinha! Nada como realmente.

sábado, maio 18, 2024

«Menez | Pomar, Cartas»

 

Documenta, Cadernos do Atelier-Museu Júlio Pomar, 1ª ed. Outubro de 2022

A edição e apresentação desta publicação coube a Sara Antónia Matos e Pedro Faro. Não são cartas de amor ou de confissões mais ou menos privadas. Melhor dito: são também cartas de amor e privadas. É que este livrinho, em boa hora editado, circunspecto, em nada pedante, trata o processo de criação entre dois pintores consagrados como deve ser tratado: em jeito de confidência, vamos tomando nota das suas dificuldades e crises não só materiais, mas igualmente o terror da tela em branco, as interrupções nas séries temáticas, as impossibilidades várias que de tempos a tempos assolam a criação ou mesmo a destruição de telas, diria, por desespero. Que ninguém se iluda: se houvesse dúvidas que todo o acto criativo é também dor e isolamento, estas cartas, escritas entre 1979 e 1982, provam-no sem  qualquer apelo ou agravo. Mas, mostra, igualmente, a alegria e o contentamento de verem os seus quadros expostos, a tarefa terminada, ou já em vias de ser ultrapassada ou revista pelos próprios autores, muitas vezes em interrelação com os amigos.

Nestas cartas e postais (de Paris, Londres, do Báltico até ao Algarve e Lisboa) em que se revela um carinho e amizade profunda entre Menez e Pomar, lemos algumas confidências sobre galeristas, marchands, editores de catálogos, entrevistas, críticos. E aqui se vê, não sem algum incómodo como é difícil escrever sobre arte, ou sobre a obra criada (coloco a poesia neste saco). É até constrangedor ver como algumas figuras da nossa praça são tratadas pelas críticas que elaboram depois de se deslocarem a exposições «como se fossem a passar pelo Chiado», diz Menez. Mas mais do que isso: parece-me uma recusa, assumida quer por Menez, quer por Pomar, de ser interpretado por quem quer que seja. A tela está ali, o quadro chegou ao fim (processo que confessam ser um dos mais difíceis na criação da obra de arte), qualquer «apreciação» é votada a algum desprezo mais implícito do que explícito, excluindo um outro caso comentado ironicamente pelos dois.

Sobre o processo criativo, deixo um trecho de uma carta de Pomar a Menez que achei interessante de relevar aqui: 
«Porque falar não é mais que buscar companheiros - mesmo quando falas só por falar, por passatempo, buscas um eco de companhia nos que te cercam. E se exteriorizas meditações, se dás formas a pensamentos, ideias, sensações, é com o íntimo fito de ligar a ti os que, sentindo ou pensando do mesmo modo, não tiveram, ou não têm possibilidades de o fazer ainda. Falas, porque desejas que estejam contigo. Fazes um trabalho de ordem colectiva. Comunicas. E só do livre intercâmbio dessas comunicações poderá nascer caminho para qualquer real avanço.» (págs. 14 e 15)

Esta epistolografia também me obriga a levantar algumas questões que se colocam nos dias de hoje se entendermos a importância destas publicações. Hoje, já quase ninguém escreve cartas. O email é o mais usado, já para não falar nos SMS, ou WhatsApp. Valha-nos ainda algumas publicações digitais públicas ou os já antiquados Blogues, que ainda podem reter algumas indicações entre autores e criadores, ou mesmo trocas de opiniões entre eles. Espero que um dia se faça a história epistolográfica, principalmente através de emails, e que seja baseada na pesquisa digital, com a necessária autorização familiar, bem-entendido, como aliás aconteceu neste livrinho. Que muita coisa destas não se perca na nuvem.

segunda-feira, maio 13, 2024

«Planeta» e «De Humani Corporis Fabrica», José Ricardo Nunes

«De Humani Corporis Fabrica» e 
«Planeta», Fotos de Pedro Bernardo, Não Edições, Abril de 2024
«Talvez a poesia se assemelhe às prateleiras
dos supermercados e somente me caiba repor
quando as vejo vazias, por reflexo,
não porque tenha algo de importante a dizer,
imprescindível mesmo, tão implausível
que não possa deixar de ser dito.»

Para se gostar de poesia não é necessário gostar-se de toda a poesia. Não tem sentido. Como também não o terá se nos acantonarmos à impossibilidade da ditadura do gosto ou se não nos ativermos às emoções que a sua leitura produz. Emociono-me ao ler José Ricardo Nunes e com atrevimento posso declarar que é um poeta «meu». Não o perco. Volto a ele quando me encontro face às estantes de casa. Folheio os vários livros publicados com um critério e rigor que adivinhamos no início da leitura e que nos certificamos quando fechamos o seu livro que irá descansar uns tempos, porque parecem vivos. 

Não falarei sobre «De Humani Corporis Fabrica». A última Colóquio/Letras, número 216 de Maio a Agosto de 2024, cujo artigo de Miguel Martins está no site da não editores) analisou-o com detalhe o que me impede de o fazer aqui por manifesto reconhecimento das minhas dificuldades.

Já «Planeta» é um caso que me atrevo a dizer que é dos melhores livros de poesia portuguesa que li. José Ricardo Nunes não se amedronta com o universo, com o macrocosmos e «desce» rapidamente para o jornal, o café, os seixos dos rios, os corpos em ebulição ou na dor indizível atacado pela doença e a própria noção da poesia. 

«Dantes havia mais clareiras
mas então o teu corpo era apenas o teu corpo, não
também memória dele. E mesmo eu
desapareço agora quase por inteiro,
já nem sei onde meter ali o rosto.
Se der com ele é porque chegou ao fim
o tempo que nunca há-de chegar?»

Isto não é para qualquer um, principalmente quendo este exercício é realizado com inegável mestria que nos remete para uma fragilidade tão humana, quanto natural, mesmo que esta ideia se transforme num oxímoro.  Lá está o recurso a uma androginia (será uma página em branco?) e metamorfose magnífica chamando Bowie que surpreendentemente o liga ao poema deste modo ímpar.
Não vou colocar aqui poemas completos, mas sim versos, os tais que me emocionaram. Se quiserem os livros, encomendem-nos à Não Editores ou mandem vir pelas plataformas habituais. Ora vejam este extracto:

«Mas o meu Bowie não o das canções,
Rebel, Rebel, Life on Mars e por aí fora
até chegar a uma falésia e voltar
a não ver a escuridão do mar,
não é o camaleão do show business
que acreditava a cada passo ser diferente
e tanto acreditava nas sucessivas mutações
que todas haveriam de reter um pouco de verdade
que há numa página em branco.»

José Ricardo Nunes termina «Planeta» de uma forma magistral:

«Continuo a viver um dia único.
Já não acredito em nada.
Posso agora realmente acreditar 
que sou mesmo feliz. E não
escalei, não contornei
montanha nenhuma, não mudei
nenhuma montanha de lugar, nunca
dinamitei uma montanha, não
sei para que serve este rastilho.»

É o fogo que arde nestas páginas de «Planeta».

sábado, maio 11, 2024

«A Porta», Magda Szabó

 

Cavalo de Ferro, Março de 2024 (original de 1959). Tradução do húngaro de Ernesto Rodrigues
Magda Szabó é daquelas escritoras que foram estupidamente perseguidas pelo regime húngaro no pós II Guerra e cuja razão principal era o afastamento  das prioridades literárias do realismo socialista. Em 1949, deixa de escrever poesia e perdeu igualmente o emprego, retomando-o mais tarde quando os húngaros ficaram rendidos aos seus romances, entre os quais o belíssimo «A Porta», editado em 1959, e reconhecido em inúmeras línguas a partir de 1989. A Cavalo de Ferro tem mais títulos dela e a tradução foi efectuada directamente do húngaro por Ernesto Rodrigues. A linguagem de Szabó é límpida, aberta, magra de demasiados recursos literários. Ou seja, é extraordinária.

A narrativa surpreende-nos quer com as personagens, quer pelas situações por elas entrelaçadas. Emerence não é só a empregada de um casal de intelectuais húngaros, ambos relativamente bem na vida, é igualmente uma metáfora do inesperado, do que pode acontecer sem que demos por isso, numa sociedade aparentemente ordeira e em que as pessoas, também ordeiramente, como se fosse um processo burocrático, se suicidam sem razão aparente. E, não, isto deu para as sociedades do leste como também é metáfora para as ocidentais. O que releva deste romance são as relações sociais algo manietadas, duras, embora com a capa de uma suposta decência, seja ela protestante, católica ou das normas impostas por um estado social.

Há, portanto, várias perspectivas de nos encontrarmos com a narrativa de Magda Szabó neste «A Porta». É a inevitável decadência da pessoa, o esquecimento, o desmembramento gradual da personalidade, mas igualmente o sofrimento que causa quem ama e que está presente. Que quer estar presente, apesar das margens brancas da memória decadente. Emerence morreu com dignidade, porque, apesar do Estado Social burocratizado estar omnipresente na sua morte, quem a recolhe e a trata é a rede fina de vizinhos que se conjugam entre si. Uma rede a que o Estado nada pode fazer. Quanto à porta aludida no título só se descobre o que está para além dela, quando é aberta: velhos trapos e móveis que se desfazem ao toque humano. Entenda-se a metáfora do velho, do decadente, aqui também nas coisas materiais.

Não sei, como disseram alguns críticos por aqui, se é ou não um dos maiores romances do século XX, mas não me causa muitos problemas entendê-lo assim. Como também não concordo que a narrativa tenha como alvo o regime comunista húngaro só por si. Szabó tinha conhecimento claro do que se passava e passou depois da queda do Muro de Berlim, das contradições sociais do Ocidente. Morreu em 2007, com 90 anos, e nunca refutou, em entrevistas, e pelo que sei, o que aqui escrevo hoje.

terça-feira, maio 07, 2024

«Leviathan», Paul Auster

Asa, 2022. Tradução de José Vieira de Lima. Capa: Alex Gozblau
Paul Auster faleceu há muito pouco tempo. Eis um livro dele, de 1992, que nunca li. Penso que, mais do que qualquer homenagem completamente inútil, será uma forma boa de o lembrar como um grande escritor. Escreve como que para um filme e não se pense que isto é menorizá-lo. Há quem o faça muito bem, como é o caso dele. Provavelmente descobriu a pólvora e o sucesso, mas isso é outra conversa que não é para aqui chamada. Mas, mais do que isso, sabe bem do que fala e é um incomparável leitor de almas, atentíssimo às mensagens subliminares ou explícitas que as suas personagens transmitem neste romance. Acreditamos na verosimilhança de cada uma delas, mesmo que as situações sejam as mais inesperadas ou impossíveis. Com Paul Auster isso não acontece. Neste livro, neste romance de amor e morte, claramente novaiorquino, cremos, contudo, que ele tem medo da América, do que ela será capaz contra a democracia e liberdade que diz defender. Compromete-se e livra de qualquer recalcamento público todo aquele que se lhe opõe. Mesmo pela violência. Já devia ter lido «Leviathan» há uns tempos. Mas chegou a oportunidade que não recusei. Ainda bem. 

Unicórnios, Jornal Mapa 41

Ilustração para o Jornal Mapa 41
Artigo de L. Silva: «Startups: não é um ecossistema, é uma plantação»

 

quinta-feira, maio 02, 2024

«Tomás Nevinson», Javier Marías

Alfaguara, 2021. Tradução de Vasco Gato
«Tomás Nevinson» é uma personagem ambivalente. Não simpatizamos logo de início com ele, até pelo que faz. Trata-se de um agente secreto, um detective, por vezes mais espanhol, outras mais inglês, ex-estudante de Oxford, onde ainda se recrutam agentes do MI5, MI6 ou no caso de Espanha faz uns favores ao Cesid. 

O seu trabalho leva-o, pelos olhos do leitor, a vê-lo como uma espécie de sacana (no mínimo), que não vê a família e os filhos durante anos, para se esconder no Ulster e ter uma outra mulher que abandona junto com a pequena filha. E aproxima-se novamente da primeira por conveniência dos serviços secretos. Devem reconhecer o nome da sua primeira mulher: Berta Isla, que deu o nome ao romance homónimo. Não direi mais, porque sei o risco que corro, numa página de leitura nas redes sociais, a contar tudo, mas, no final, não poderemos deixar de lhe dar alguma razão. Recusa-se a matar (mais uma vez) porque se sente velho e reconhece que um acto de ódio já não condiz com a sua idade. Envelheceu: «Desde que tenho memória, pensei ódio, deitei-me com ódio no coração, sonhei ódio e acordei com ódio.»

Ódio contra aqueles que matam deliberadamente com ódio. Em atentados cegos, para matar inocentes, tão culpados como as estruturas militares e serviços secretos que nem se importam que eles continuem a matar porque lhes justificam a permanência e a «roupa suja» que lavam. Ou eliminam. Tomás Nevinson já deixou de ter ódio. É um empecilho. Torna-se inútil e age por si. Acabamos por simpatizar com o homem.

Deixo-vos com um seu pensamento que se lhe soltou quando, embora ateu, se dirigiu a uma igreja: «Não acreditamos, mas podemos ter o hábito de rezar, ou de murmurar, tanto faz. A quem? Não a Deus nem a nenhum santo ou virgem, a ninguém em particular, não é preciso destinatário para isso. Limitamo-nos a sussurrar com o pensamento: 'Por favor, por favor.' Ou: 'Ainda não, ainda não.' Ou até: 'Desculpa, desculpa.'Costuma haver silêncio nas igrejas; ou cânticos bonitos, se se tiver muita sorte; ou música de órgão, se ainda se tiver mais. Está-se bem lá...» 

Pergunto a quantos de nós, principalmente a ateus e agnósticos, não se sentiram bem dentro de uma igreja, em busca de silêncio e paz sem que nos dirigíssemos a alguém em particular. Quantos de nós encontram num simples exercício de leitura, o silêncio e a paz cada vez mais difícil de encontrar. Um livro muito bom, que seguimos com verdadeiro prazer de leitura. 

quarta-feira, maio 01, 2024

Carta Aberta a todos os jovens delinquentes

 

Sem referência ao autor. in blogue de Amanda Ferraz
Caros Jovens Delinquentes:
Nunca em tempo algum, sem que tivésseis aberto a boca, agísseis com as vossas costumadas maldades, dito seja o que for que levantasse o repúdio generalizado das gentes honestas, levassem as vossas proezas às primeiras páginas da CMTV ou do JN, eis que estivestes a ser referidos durante horas intermináveis, por todos os media, por vos quererem enviar para a tropa!
Creio-vos atónitos e sem palavras, como sói dizer-se agora. Castigo maior do que estar numa cela limpa, institucionalizada, liofilizada e (céus!) electrocutada é mandarem-vos para a tropa, pelo simples facto de serem simples delinquentes. Pois sim, limpastes vós umas carteiras, acometestes ao porta-moedas da avó, chapastes uma cabeçada a um tipo de outro clube, praticastes, pois, malfeitorias. Perguntais vós, nessa sanha castigadora dos agora ministros, quem foi (ou foram) os responsáveis da ideia peregrina de vos fardarem e irem para as casamatas, munidos de G3 e ensinados à luta corpo a corpo, como se não já a soubessem de antemão! Foi um delinquente ressabiado? Não. Esses não são delinquentes. São pessoas sérias que já viram de tudo e que sabem o que dizem. Já viram muito por esse mundo fora: comissões de vendas de submarinos alemães, assaltos aos paióis de quartéis, atrasos nas obras de quartéis antigos para receberem o guito primeiro. Mas esses não são delinquentes. Isso sois vós, seus bandalhos!
Também, as associações sindicais não vos quereis porque, entre outras, vós tendes de obter registo criminal limpo! É a vossa sorte. Continuai assim mesmo no conforto dos vossos lares improvisados pois um tanque não se guia como um carro ligeiro a fugir às autoridades, muito menos à noite. Acreditai que um submarino alemão, armas de paióis e falcatruas na construção de velhos quartéis, são muito mais fáceis de esconder.

segunda-feira, abril 22, 2024

Jornal Mapa 41, ilustração de artigo de L. Silva

 

A minha contribuição para o Jornal Mapa 41. Ilustração do artigo de L. Silva (Sandra Faustino) "Startups: não é um ecossistema, é uma plantação"

domingo, abril 21, 2024

Jornal Mapa 41

 

Saiu o número 41 do Jornal Mapa. O SAAL, a Coimbra radical dos anos 70, o 25 de Abril nos liceus de Leiria, o associativismo contra a especulação, as startups e os unicórnios, a gentrificação, a crise ecológica, mulheres: o 25A começou em África, as notas de Júlio Henriques, Phil Mailer e a Revolução portuguesa, poemas, ilustrações... Um número a não perder.

sábado, abril 20, 2024

«Empúsio», Olga Tokarczuk

 

Cavalo de Ferro, 2024, Tradução de Teresa Fernandes Swiatkiewicz
Passado em 1913, um ano antes da I Guerra Mundial, ainda os impérios e as monarquias dominavam politica e geograficamente uma Europa hoje quase irreconhecível, «Empúsio», da polaca Olga Tokarczuk, prémio nobel (não sendo por isso que deixa de ser uma grande escritora, ironia minha!), coloca o centro deste romance extraordinário numa Polónia que então não existia. Como sabemos, era território dividido pelo Império Russo, Alemão e Austro-Húngaro. E é numa aldeia deste último que a narrativa se desenvolve, nas paredes quer de um sanatório, a Kurhaus, quer na «Pensão para Cavalheiros» (assim mesmo) para quem esperava vaga na primeira. É evidente que não separamos esta história com a «Montanha Mágica» do austríaco, igualmente nobelizado, Thomas Mann. E é Olga Tokarczuk que não o esconde. Assim, se o primeiro romance é uma metáfora do nazismo que aí vinha tudo passado numa indiferença total face à morte e ao confinamento, aqui não deixa igualmente de ser uma metáfora do que aí vinha, mas com uma variante literária que torna este romance incontornável. Neste sanatório, onde se morre, se discute a vida até ao limite do cansaço, onde se bebe e come com o prazer de ser, talvez, coisa efémera, há uma viagem até aos nossos dias. Aí está uma das razões que não conseguimos largar este livro. Além de bem escrito (e bem traduzido, diga-se), com o português etimologicamente límpido de antes do AO90, Olga Tokarczuk reserva-nos uma surpresa no final do livro. Só levanto uma ponta do véu: perante discursos misóginos contra as mulheres que julgamos ser da época, qual o nosso espanto quando... afinal, era retirado de nomes literários que num momento ou outro as proferiram, não há muito tempo, e que a autora, num momento de maldade precisa e necessária, as colocou como sendo as personagens do princípio do século XX a dizerem-nas. Alguns destes autores conhecemo-los bem demais... os seus nomes estão lá todos. Um livro que me prendeu totalmente tal como os igualmente bons «Viagens» e «Outrora e Outros Tempos».

segunda-feira, abril 15, 2024

«Os Galifões e a luta contra a praxe na Coimbra dos anos 70, seguido de Os Quentes Anos 70 em Coimbra», M. Ricardo de Sousa e F. Carmichael

 


Letra Livre, col. Anátema, 2024
Livro interessante e um contributo importantíssimo para a história da radicalidade em Coimbra nos anos 70. Mais visivelmente entre o final dos anos 60, com a crise de 69 na cidade estudantil, o final dos anos 70 e início dos anos 80. Ricardo Sousa, que assina «Os Galifões e a luta contra a praxe na Coimbra dos anos 70», sendo seguido por F. Carmichael numa pequena nota em «Os quentes anos 70 em Coimbra» apresenta-nos um breve ensaio sobre a República dos Galifões e a centralidade revolucionária desta casa/comuna para as intervenções radicais de uma Coimbra que se ergueu contra a praxe académica e trilhou um caminho alternativo e provocador a uma cidade que preferiu a desgraçada tradição basbaque com o seu cortejo de imbecilidades e fluxos de autoritarismo político das direitas e das esquerdas reformistas, baseados em conceitos hierárquicos de chefias, mandos e violências sobre os caloiros que, ávidos de serem castigados, as aceitaram, servis. A grande maioria da população juntou-se à astúcia restauracionista fascista, à cupidez comercial e ao comprometimento universitário, levando Coimbra ao estado comatoso em que encontra hoje. Acelerou-se, então, a destruição do operariado sempre incómodo para a universidade que já ensinava pouco, os bairros operários com tradições de luta que passaram, por exemplo, na participação de ferroviários no 18 de Janeiro de 1934, ou ainda antes, em confrontos abertos contra os Camisas Azuis de Rolão Preto em plena baixa de Coimbra e que se soldaram por dezenas de feridos. Muitos desses operários anarquistas acabaram (e morreram) no Tarrafal. Tudo isso fez parte do passado de Coimbra que esta teima em ostracizar. 

Coimbra revolta-se em 1962 e, principalmente, em 69 com a greve estudantil que levaram muitos estudantes à prisão, à tortura, à clandestinidade, à fuga para o estrangeiro e à incorporação militar forçada na Guerra Colonial. Esta luta está relativamente bem documentada. Para além disso, em 69, como também trata o ensaio de Ricardo Sousa, existiu um laivo de modernidade e de resistência ao fascismo que fugia claramente ao que era proposto pela oposição democrática, liderada pelo PCP e, em 1972, com a recém-formada UEC. Valham os estudos de Manuela Cruzeiro, Rui Bebiano ou Miguel Cardina, entre outros, assinalados por Ricardo Sousa, que referem a existência destas correntes, e teria esta luta sido atirada para o esquecimento histórico, não fosse, aqui e ali, sido lembrada, embora de um modo disperso, diga-se. Este livro é uma prova de que há uma resistência ao esquecimento.

A luta contra a praxe toma a dianteira na análise de Ricardo Sousa que lembra igualmente o seu percurso pessoal, juntamente com outros estudantes radicais onde sobressai a acção do Karpa e de muitos outros, citados no livro da Letra Livre. Mas há igualmente o cuidado de referir as bases teóricas de um movimento que era extremamente diverso e plural dentro daqueles que acreditavam ainda numa retoma do que foi a alegria popular do PREC e o movimento das ocupações por todo o país. Em Coimbra, praticamente toda a Sé Velha e Praça da República era domínio dos estudantes revolucionários enquadrados nas repúblicas onde pontificavam comunistas, maoístas, trotskistas, anarquistas, conselhistas e situacionistas para além de muitos que não tinham a pachorra para rótulos mas que alinhavam nesse espaço de liberdade que era, sem dúvida, a chamada «zona vermelha» com que o Diário de Coimbra, jocosamente e por analogia com a mesma zona de Amesterdão, apelidava o conjunto da teia urbana que recusava serenatas e capas e batinas. Queria-se muito mais, mas não esperávamos que o DC o compreendesse. Miserável foi o fim desta liberdade conquistada. O jornal publica em 1979, as fotografias, em primeira página, do desastre de viação horrível em que morreram, carbonizados, cinco estudantes (Victor, Pinto, Freitas, Patrícia e Luísa) que eram repúblicos dos Galifões. O choque foi, então, grande para quase toda a população estudantil e sentimos que algo mais se perdeu para além daquelas vidas. A recuperação da praxe e com ela os governos do PS e da AD levaram a um reforço da repressão sobre as repúblicas e a uma «normalização» das instituições que no Prec levaram um abanão consistente. A violência e raiva fascistas e «democráticas» continuaram e em 1985 (pessoalmente já não estava em Coimbra) um estranho fogo acabou com a Comuna dos Galifões, sem que houvesse um inquérito digno desse nome.

Este livro de Ricardo Sousa merece ser lido. Não só pela revisitação dos lugares que nos foram comuns em anos seguidos de liberdade em que fizemos Coimbra um lugar onde valia a pena a «arte de viver» tão caro a Vaneigem, mas também pelo cruzar de filamentos revolucionários e de resistência ao capitalismo que tivemos (alguns de nós ainda têm) a ousadia de o confrontar. Citados pelo autor lembramo-nos ainda do GAME (Grupo Anti-Militarista e Ecológico da AAC onde pontificava o Francisco Pedroso Lima e Pais de Sousa, para além do próprio Ricardo Sousa), do CITAC, da Centelha de Soveral Martins (onde, para além de literatura política alternativa, se criou a Ekomedia, mais tarde, em rede com a antiga Indymedia) para além de muitas secções da AAC quando esta se mostrava independente e em contactos íntimos com as repúblicas onde, sem dúvida, os Galifões não deixaram de ter um papel muito peculiar e frontal. No deve e haver da recuperação de direita, alguns destes estudantes e jovens trabalhadores que se juntavam entre si, escolheram trilhos mais difíceis de luta e aí pagaram demasiado caro, mas tão legítimos quanto os que escolheram as derivas do trabalho da «sobrevida», de expressões artísticas ou de cooperação de afinidades políticas e sociais, nunca esquecendo que a vigilância do estado nunca nos deixou totalmente em paz.

Hoje, a cidade pode gabar-se de comemorar de ano para ano o seu cortejo tão bárbaro, quanto entediante, a superioridade moral do vómito em alcatrão quente, sempre pelos idos de Maio. Os comerciantes de uma baixa decadente agradecem, a universidade lambe-se de entusiasmo, a polícia é condescendente com os futuros «dótores» e os hospitais mobilizam tendas e ambulâncias por todo o lado não vão eles sujar os corredores. A população com dinheiro suficiente consegue fugir para outros sítios menos poluentes e regressa, após uns dias, para o mar de lixo que entupiu as ruas. 

Autores: Ricardo Sousa e F. Carmichael
Ano: 2024
Pedidos à Editora Letra Livre

«Du Traité de savoir-vivre à l'usage des jeunes générations à la nouvelle insurrection mondiale», Raoul Vaneigem

 

le cherche midi, 2023
«A poesia não cai do céu. Ela nasce no bas-fonds da existência»
Raoul Vaneigem, pág.164

Um dos erros em que não cairei é comparar este livro com o já icónico «Arte de Viver das Gerações Novas» publicado em 1967 pelo então membro da Internacional Situacionista, Raoul Vaneigem, hoje com a idade de 90 anos. Como sabemos, foi editado em Portugal, em 1975, no Porto. A mesma tradução de José Carlos Marques, foi recuperada pela Letra Livre em 2014 e já vai na 3ª edição! Mais que nunca a lucidez e o desenho de vastas possibilidades de substituir o capitalismo por uma realidade em que se possa dar azo à verdadeira arte de viver. Raoul Vaneigem publica «Do Tratado da arte de viver das novas gerações à nova insurreição mundial» (tradução livre, minha), em 2023 e aponta para a criação de novas subjectividades consequência das estruturas hierárquicas estatais, ambientais e sociológicas que entretanto foram tomando forma no espaço de 56 anos. Digamos que é um discurso denso, fragmentário, mas, paradoxalmente, de uma coerência e coesão teóricas a que sempre nos habituou. No ocaso da sua vida física, apresenta-nos possibilidades reais de transformação pela emergência da Vida e da Autonomia baseada na autogestão generalizada. Possivelmente sem o vigor do final dos anos 60 que conduziu à «carga de cavalaria», para citar Debord, do Maio de 68, mas com um traço de conhecimento e de experiência entretanto adquirido. Dizia-se dele, quando abandonou a IS, que era o lado solar dos situacionistas e Debord o seu lado lunar. Não tenho essa opinião, mas classifico este livro como uma prova límpida que, numa insurreição futura, é tão necessário o amor, quanto o confronto contra as hierarquias tomem elas as roupagens estatais, como as burocráticas. 

Aqui, pela mão de Vaneigem, pode-se sentir a luta contra a desumanização propagada pelo capitalismo e muitas vezes retransmitido por um anticapitalismo mais do que uma vez anunciando a escravização do proletariado que recusa o consumismo e o trabalho assalariado (hoje, bem diferente do que era antes) sob o argumento de o emancipar. Mas reconhece que até esses burocratas estão cansados de já ninguém os ouvir. Uma insurreição da vida quotidiana propaga, em França e no mundo, uma guerrilha que sem matar, está apostada em erradicar a engrenagem que destrói o que está vivo. Necessário será, pois, destruir as empresas do Lucro e a criação de zonas autónomas e de criação livre. A luta das mulheres contra o patriarcado (uma constante neste livro, sem que defenda um matriarcado tão nefasto quanto aquele) tornou-se exemplar. O indivíduo emancipa-se do individualismo, tão caro igualmente em Stirner. O estado afunda-se. A autodefesa do que é vivo, confronta-se com o envenenamento generalizado. O exercício do Poder ensombra-se no ridículo. A verdadeira imagem de quem nos governa são autênticos demiurgos da morte programada contra o Natural e pela guerra permanente. O seu glossário, inscrito neste livro, é de algum modo uma esperança revolucionária, sem que Raoul Vaneigem deixe de nos avisar que ter esperança sem nada fazer é tão negativo quanto à desesperança. 

Seria muito importante a tradução deste livro para o português. Haja quem.

terça-feira, abril 09, 2024

Tradução por IA?

 

Tentei ler, num ebook, um livro de Mons Kallentoft editado pela D. Quixote. «Sangue Vermelho em Campo de Neve». Não sei se por sua culpa ou não, o que é certo é que fiquei com a sensação de estar a ser enganado. Na ficha técnica não constava o nome de qualquer tradutor/a, a revisão (se é que se pode chamar assim) era de um tal «Soares dos Reis» (??? O escultor que deu nome ao museu do Porto???), a foto de capa é de um misterioso A. Mateur (amador?), embora a capa seja atribuída a Rui Garrido. A edição tinha um nome: Maria da Piedade Ferreira.

A leitura era impossível. havia períodos que nada se compreendia e os parágrafos tinham uma linha de espaçamento, o que comprometia a fluidez da leitura. Acabei por desistir à página 20.
Perante a desconfiança generalizada que as traduções em algumas editoras estão a utilizar a Inteligência Artificial eis uma boa oportunidade de virem aqui desmentir esta enorme dúvida que tenho. A ser verdade é um insulto à nossa bolsa e aos livros.

«O Mistério da Estrada de Sintra», Eça de Queirós e Ramalho Ortigão

 

BNP, segundo o Acordo Ortográfico de 1945, edição de 1844. Capa de Ana Ferreira
Atentem bem, seguidores indefectíveis de policiais contemporâneos, crentes no ADN helicoidal e no CSI de cadáveres falantes, consumidores de péssimas leituras nórdicas tão infantilizadas quanto brutais, satisfeitos com a descoberta de assassinos impiedosos pelas imagens de videovigilância, de consultas aos movimentos dos cartões electrónicos, e presos por corpos policiais de choque, sem que haja necessidade da mínima dedução lógica dos investigadores: «O Mistério da Estrada de Sintra» pode dar-vos lições (a mim deu!) de como se interpretava a existência de um cabelo louro (de mulher) na cama de um cadáver que se presumia ser inglês. Isto, mesmo que Eça e Ramalho tenham apodado o seu romance de «execrável» e que «nele, há um pouco de tudo quanto um romancista lhe não deveria pôr e quase tudo quanto um crítico lhe deveria tirar.» Cá para nós, temos uma certeza quase absoluta: divertiram-se «a valer». Embora não seja o melhor deles, o romance é inesquecível. Atentem dizia eu, nesta prosa do tal cabelo louro:

«(...) Prolongou-se a minha dolorosa surpresa. Aquele cabelo luminoso, languidamente enrolado, quase casto, era o indício de um assassinato, de uma cumplicidade pelo menos! Esqueci-me em longas conjecturas, olhando, imóvel, aquele cabelo perdido.
A pessoa a que ele pertencia era loura, clara, decerto, pequena, «mignonne», porque o fio de cabelo era delgadíssimo, extraordinariamente puro, e a raiz branca parecia prender-se aos tegumentos cranianos por uma ligação ténue, delicadamente organizada.
O carácter dessa pessoa devia ser doce, humilde, dedicado e amante, porque o cabelo não tinha ao contacto aquela aspereza cortante que oferecem os cabelos pertencentes a pessoas de temperamento violento, altivo e egoísta.
Devia ter gostos simples, elegantemente modestos e dona de tal cabelo, já pelo imperceptível perfume dele, já porque não tinha vestígios de ter sido frisado, ou caprichosamente enrolado, domado em penteados fantasiosos.
Teria sido talvez educada em Inglaterra ou na Alemanha, porque o cabelo denotava na sua extremidade ter sido espontado, hábito das mulheres do Norte, completamente estranho às meridionais, que abandonam os seus cabelos à abundante espessura natural.» (págs. 41/42)

Sim, isto é dedução. Cerebral, inteligente, perspicaz. Forçada? Talvez um pouco, mas põe a um canto o que hoje para aí se vê de muito mau. Teremos sido fadados somente para Eça e Camilo? E o português de 45? Não vos cria inveja? Ora digam lá de vossa justiça... 

BNP, segundo o Acordo Ortográfico de 1945, edição de 1844. Capa de Ana Ferreira


terça-feira, abril 02, 2024

«Caçadores de Cabeças», Jo Nesbo

Mais do Jo Nesbo. É evidente que ele sabe o que a maioria dos leitores quer ler, o que, em princípio, não é sinal de qualidade. No caso do norueguês Jo Nesbo, junta uma certa expectativa na narração que nos prende e, ao mesmo tempo, sabe que o policial mudou muito desde o século passado. Hoje, a brutalidade é maior, o adn e o csi vieram modificar a pesquisa cerebral, portanto dedutiva, dos detectives para encontrar um assassino e nem sempre o crime não compensa. Neste caso, compensou, sim. 

Editado em «Mostra o que estás a ler» Facebook

quarta-feira, março 27, 2024

«Há mundo por vir?», de Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro

 

Antígona,2023, grafia brasileira, ilustração da capa de Gonçalo Duarte
Livro mais que necessário para ficarmos a conhecer as diversas correntes de pensamento e acção dos que esperam o apocalipse climático anunciado, os que pensam ainda poder evitá-lo, os «aceleracionistas» de esquerda que, culpando o capitalismo, querem o seu fim desejando simultaneamente uma nova ordem climática, ecológica e social, os «singularistas» defensores do capitalismo verde e das grandes multinacionais como a Google, Amazon, o troglodita do Musk e quejandos, mais (não poderia deixar de ser) os negacionistas que tentam negar tudo acertando na única coisa de que são realmente bons: provarem que são negacionistas até para eles próprios, erradicando todo e qualquer laivo de pensamento estruturado nos seus cérebros. De qualquer maneira estamos todos lixados. O relógio do apocalipse aí está a meros dois segundos do fim. Os «sobrevivalistas» de todos os matizes da extrema-direita americana aos anarquistas, outro dos ramos, já não estão nesta discussão. Abrem o canivete suíço, o isqueiro enquanto tiver gás, constroem uma cabana de ramos de eucalipto e aí estão eles na caça e pesca pelas montanhas. Acho muito bem, sabendo que os ursos, lobos e águias lhes podem fazer a folha em menos de um minuto. É a natureza, estúpido!

Depois, vem a ainda presente polémica sobre o Antropoceno. Que sim, pois se ele existe, continuará depois de nós. Foi o nosso legado. Mas sendo assim, não haverá ninguém para o dizer ou proclamá-lo porque estaremos todos mortos sem sepultura. Ficará o betão armado por mais uns largos anos, e o urânio das centrais a aniquilarem os animais e aves que se aproximarem das grandes chaminés de arrefecimento. O resto, talvez alcatrão, a ferrugem do que foram automóveis, as baterias a escorrerem líquidos corrosivos, minas das guerras passadas a explodirem quando ratos (os sobreviventes) lhes passarem por cima e a Torre de Belém no canto de um país esquisito que durante uns míseros 900 anos (uns nanossegundos do Holoceno e do Antropoceno) se armou aos cucos e não deixou rigorosamente nada a não ser um montão de ruínas com que se deu sempre bem.

Nada mau para uma leitura de páscoa. Imprescindível para as outras partes do ano.

segunda-feira, março 18, 2024

«O Princípio de Tudo - Uma nova História da Humanidade», David Graeber e David Wengrow

 

Bertrand, 2022. Trad. Paulo Tavares e Sara M. Felício
É mesmo uma perspectiva original. Aqui não há embustes com o adjectivo «novo» que muitos autores utilizam para vender o seu produto, muitas vezes com hipóteses mal construídas ou sem verificação científica. David Graeber (1961-2020), juntamente com David Wengrow, apresentam-nos um livro tão consistente quanto interessante de se ler. As questões formuladas variam quer no grau de provocação académica no campo da Antropologia e na História, quer na inteligência viva como são apresentadas. Muitas delas são óbvias e, por isso mesmo, desconcertantes. Por exemplo: a História tendo teimado durante tanto tempo na cronologia evolucionista, isto é, do Paleolítico ao Neolítico e das «civilizações» urbanas e teocráticas à Idade Clássica, desta aos Impérios, seguindo-se depois as conhecidas «idades», não se limitou a criar compartimentos estanques que «esqueceram» períodos intermédios de séculos, se não mesmo de milénios, em que, faltando registos escritos ou arqueológicos, foram arrumados numa espécie de «idades das trevas», mas provavelmente tão ricas sociológica e politicamente como as que foram estudadas mais profundamente? Isto dar-se-ia essencialmente naquilo a que chamamos de Pré-História. A velha sequência de caçadores recolectores, logo nomadismo, agricultores, logo sedentarismo, criação de cidades, logo hierarquias políticas e aparecimento de estados teocráticos, não será demasiado simplista? E se nada disto se tivesse passado e as estruturas socias do nomadismo conviveram amiúde com o sedentarismo que nunca o terá sido verdadeiramente? E se os nómadas recolectores a que vulgarmente associamos a sociedades «igualitárias» não o fossem tanto assim, nem os primeiros agricultores permanecessem em sociedades «desiguais»? E se se complementassem em sociedades onde o predomínio da recolecção fosse de algum modo complementado com uma agricultura «a brincar»? Isto durante milénios, não vendo a humanidade qualquer vantagem numa agricultura intensiva. E se, nas grandes cidades como Uruk ou Çatal Hüyük, no chamado Crescente Fértil, houvesse menos desigualdade quanto imaginamos hoje ou que o poder sacerdotal e político convivesse com grandes assembleias populares e organizações de bairro, tornando os primeiros uma espécie de poder teatral? E se a agricultura não teve origem só no Crescente Fértil, mas ao mesmo tempo, ou até muito antes, em cidades maiores na Ucrânia e na América Central?  E se as sociedades primitivas fossem de facto igualitárias, com chefes que não eram obedecidos ou só o fossem em caso de guerra? E se os filósofos iluministas tivessem tido conhecimento destas sociedades igualitárias nomeadamente as das Cinco Nações índias que iam do Québec e Ontário ao que é hoje St. Louis e Florida e que as críticas indígenas à sociedade europeia branca tivessem sido estudadas por Rousseau ou Montesquieu, tendo-as passado para os seus ensaios em «As Origens da Desigualdade...» ou o «Espírito das Leis», respectivamente? Os autores apresentam dados convincentes para que estes factos tenham sido bem reais do que à primeira vista podem parecer. O mesmo quando se aplica o conceito de «guerra» e escravatura em sociedades ditas primitivas.

Mas fiquemos com um trecho dos autores na conclusão de «O Princípio de Tudo»: «Os teóricos sociais têm uma tendência para escrever sobre o passado como se tudo o que aconteceu pudesse ter sido previsto antecipadamente. Esta postura é um pouco desonesta, pois todos sabemos que, quando tentamos realmente prever o futuro, quase sempre nos enganamos - e isto aplica-se tanto aos teóricos sociais como a todas as outras pessoas. Não obstante, é difícil resistir à tentação de escrever e pensar como se o estado actual do mundo, no início do século XXI, fosse o desfecho inevitável dos últimos dez mil anos de História, apesar de, evidentemente, não termos uma verdadeira ideia de como será sequer o mundo em 2075, quanto mais em 2150.
Quem sabe? Se a nossa espécie perdurar e um dia olharmos para trás, a partir desse futuro ainda desconhecido, talvez os aspectos do passado remoto que agora parecem anomalias - como, por exemplo, as burocracias que funcionavam a uma escala comunitária; as cidades governadas por conselhos de bairro; os sistemas de governo em que as mulheres tinham uma preponderância nas posições formais; ou os modos de gestão da terra baseados no cuidado e não na posse e na extracção - venham a ser considerados os verdadeiros avanços significativos e as grandes pirâmides ou estátuas de pedra se pareçam mais com curiosidades históricas. E se partíssemos agora dessa abordagem e olhássemos, digamos, para a Creta minóica ou a cultura hopewell [indígenas do leste americano] não como pequeos desvios aleatórios num caminho que leva inexoravelmente a Estados e Impérios, mas como alternativas: estradas não tomadas?» (págs. 589/590)

Bertrand, 2022. Trad. Paulo Tavares e Sara M. Felício