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segunda-feira, abril 20, 2026

"Poesia Quase Toda", Zbigniew Herbert

 

Cavalo de Ferro, 2024. Tradução de Teresa Fernandes Swiatkiewicz 
Pode ser tudo o que entenderem, mas Zbigniew Herbert não poderá ser encarado como um poeta obscuro. A sua poesia aqui exposta é aberta, límpida, sem objecções do autor em dar-se a conhecer. De 1956, ano do seu primeiro livro, a 1998, data da sua morte, acompanhamo-lo nas suas palavras e descodificamos os seus poemas através da História não só da Polónia de que nunca se separou, mesmo sendo rechaçado pela burocrática União de Escritores, mas igualmente de um mundo em reconstrução dolorosa após uma guerra, mais uma, humanamente fratricida; dizem que foi a segunda, por uma questão de método, mas somam-se milhares delas e o poeta sabe-o. E é exactamente como exigência da reconstrução do humano que o vemos a discordar de Adorno quando este diz, a respeito da evidente desumanidade e crimes de Auschwitz, a impossibilidade da existência de poesia após 1945. Para Herbert, que num poema chama a Adorno de trágico, a poesia terá de existir sempre porque é expressa pelo Homem em quaisquer condições. Em «Aos Portões do Vale» (1957) poderemos ler:

«Depois da chuva de estrelas
no prado das cinzas
reuniram-se todos sob a guarda dos anjos
(...)
depois do assobio da explosão
depois do assobio do silêncio
uma voz ressoa como fonte de água viva

é conforme nos explicam
o grito das mães a quem tiram os filhos
pelos vistos
seremos salvos individualmente

os anjos da guarda são implacáveis
e reconheça-se têm uma árdua tarefa
(...)» 
(pág.67/68)

A sua poesia é plena de anjos que tomam as variadas formas, numa permanente metamorfose, sejam eles homens, mulheres, guardiães de uma qualquer ordem ou vítimas dessa mesma ordem, adejam para nos avisar do efémero, do indizível, da possível beleza do mundo ou da sua face mais horrível, como a guerra ou a tortura. Se não são anjos, estes pessoalizam-se em heróis gregos, em filósofos latinos ou etruscos porque todos os clássicos nos têm coisas para dizer, mesmo que o poeta não se lembre do nome de um que lhe diziam que a sua leitura lhe mudaria a vida; afinal não mudou nada, expressão máxima da inutilidade da literatura e da poesia, contudo sempre necessária. E subsiste candidamente numa memória vã que depressa esquecemos, como nos avisa Herbert quando se aproxima do fim e lhe invadem o corpo em humilhação de que já nem sente vergonha íntima como expõe dolorosamente nos seus inesquecíveis «breviários», em «Epílogos da Tempestade», de 1998.

O alter ego de Zbigniew Herbert é o Senhor Cogito que encarna várias personagens em diferentes situações. Em «O Jogo do Senhor Cogito» o poeta esclarece-nos com uma notável clarividência a sua posição face a qualquer poder:

«1
A brincadeira preferida
do Senhor Cogito
é o jogo Kropotkin

o jogo Kropotkin
tem muitas vantagens

dá asas à imaginação histórica
ao sentimento de solidariedade
joga-se ao ar livre
abunda em episódios dramáticos
suas regras são nobres
o despotismo perde sempre

no grande tabuleiro da imaginação
o Senhor Cogito dispõe as peças

(...)»
(pág.213)

O despotismo perde sempre num jogo em que as peças são dispostas por um ser livre, um «príncipe dos anarquistas» como é nomeado por Herbert e onde se pode compreender mais claramente a sua ânsia de liberdade que não se compadece com qualquer ordem, seja despótica ou nem tanto. De qualquer modo, não acredita na História, nos monstros que ela criou, posição bem expressa no poema «Elegia para a partida da caneta da tinta lamparina», e 1990: 

«(...)
3
Nunca acreditei no espírito da história
monstro inventado com olhar de assassino
besta dialéctica na trela dos carrascos

nem em vós - quatro cavaleiros do Apocalipse
Hunos do progresso a galope pelas estepes do céu e da terra
destruindo pelo caminho tudo o que era respeitável antigo e indefeso

passei anos a conhecer os motores simplistas da história
procissão monótona luta desigual
de bandidos à cabeça de turbas estupidificadas
contra um punhado de gente recta e sensata
pouco me resta
aliás muito pouco

(...)»
(pág.308)

Mesmo no final do século XX, um dos piores séculos que a história conheceu (a da tal dialéctica científica ou de outra qualquer), Herbert demonstra a sua esperança, um fio ténue que pode sempre partir, perante a brutalidade do Apocalipse, os tais «hunos do progresso» que se movem dentro de «turbas estupidificadas» que têm sempre apoio nos «motores simplistas da história». Com Herbert não sentimos a necessidade de (sobre)viver em tirania para saber o valor da liberdade, ou da vacuidade social de uma opinião burocrática. Intuímos certamente do que os poderosos são capazes para nos reduzir a escombros humanos. Desconfiemos pois dos arautos do progresso e retiremos lições sobre a necessidade imperiosa de ser poder. 

Uma poesia livre. Um poeta livre.

alc

quinta-feira, fevereiro 26, 2026

"Um Bárbaro no Jardim", Zbigniew Herbert

Cavalo de Ferro, 2019. Tradução do polaco de Teresa Fernandes Swiatkiewicz
As impressões de viagens de um poeta pela sua escrita. A História mesclada com errâncias, pensamentos, descrições naturais, construídas pelo polaco Zbigniew Herbert, cuja poesia estou ainda a conhecer. Tenho comigo a sua «Poesia Quase Toda» e faltará pouco para eu iniciar a sua leitura. «Um Bárbaro no Jardim» é um livro que poderemos comparar aos de Claudio Magris ou aos do seu conterrâneo Ryszard Kapuscinsky tal a quantidade de temas díspares num mundo unido por manifestações de beleza e de profundidade que ainda perduram teimosamente, ou ao que dele resta. A ironia, o espanto e até o amor moram nestas páginas.

Imaginem as grutas paleolíticas de Lascaux e as suas pinturas parietais que se movem num espaço sagrado, animista. Herbert lembra-nos uma evidência que por vezes esquecemos quando falamos destas pinturas fantásticas: esses desenhos produzidos por mãos artísticas, para além de belas, não eram estáticas e observadas com luz artificial como a de hoje, mas antes por tochas e fogueiras votivas. As escuras grutas que as envolvem eram palco de rituais que se perderam no tempo e «moviam-se» entre a luz e sombra envolvidas pelo fogo. Enquanto estamos concentrados nessa leitura e necessariamente embrenhados nesse ambiente, surge-nos André Breton, o papa do surrealismo, a mostrar o dedo indicador sujo de ocre de um touro e a bradar «é falso!», não evitando pesada multa e ignorando que as pinturas foram salvas exactamente pela existência de uma humidade salina e calcária que as mantiveram incólumes durante milhares de anos. Breton provocou um claro anti-clímax, o contrário do objectivo último do Surrealismo, que não teve culpa nenhuma da sua autoproclamada chefia. Não saberemos se a opção de edificar uma gruta artificial ao lado da de Lascaux não terá que ver com estes arroubos emocionais, mas hoje encontram-se a salvo. 

As impressões do viajante continuam: a arquitectura dórica, que Herbert dá mostras de conhecer bem, é desfiada ao pormenor, desde as suas colunas e capitéis despidas de ornamentos supérfluos, à anulação das ilusões de óptica que os gregos sabiam que o olho humano estava sujeito. A arquitectura grega dá lugar, então, ao gótico das grandes, enormes, catedrais francesas como em Arles, Saint-Denis ou Nôtre-Dame, mas Herbert não se fica somente pelo pormenor da técnica dos mestres canteiros e dos arquitectos geralmente anónimos ou apócrifos, como se o trabalho destes não fosse importante, se desvanecessem perante o objectivo principal da construção que era, sem dúvida, a obediência a Deus e à cidade que a criou, como se a grandeza do dinheiro e da riqueza burguesa estivesse bem ciente do seu poder debaixo, ou ao lado, de uma omnipotência bem maior. Mas o poeta lembra-nos igualmente do povo que construiu as catedrais que foram feitas literalmente «com as mãos» e que ultrapassavam em muito a consciência espiritual da Igreja: «As catedrais eram motivo de orgulho e um sinal de poder que se avistava ao longe. Mas eram também um lugar de encontros e actividades laicas. O homem medieval sentia-se na igreja como em casa. Às vezes aí comia, dormia e conversava, sem baixar o tom de voz. (...) aí se resguardava do mau tempo. As proibições eclesiásticas que proíbem a realização a realização de reuniões seculares nas igrejas indicam que provavelmente tal deve ter sido uma prática generalizada. Os vitrais não versavam somente sobre a vida dos santos, mas também, caso se possa comparar as coisas grandes com as pequenas, desempenhavam a função de publicidade de néon de hoje, ao anunciarem vendedores de têxteis, carpinteiros ou sapateiros.» (pág.122) Tal como nos avisam vários historiadores da Idade Média, também Zbigniew Herbert lembra-nos que o trabalho (recordo-me de Henri Pirenne sobre este tema) não era uma escravidão absoluta como por vezes somos levados a crer: em 365 dias de um ano, contando com os domingos e com 50 dias santos, trabalhava-se 250 dias efectivos, com várias pausas diárias no verão bem maiores que no inverno. Isto sem contar com os falecimentos, baptizados e casamentos que as corporações convocavam. Coisas tão terrenas, faziam com que as greves fossem igualmente uma oportunidade dos estratos sociais mais carecidos para melhorarem as suas parcas condições salariais. A primeira greve vencedora que o poeta nos dá conta, em pleno século XII, é a da construção do Mosteiro de Obazine. 

Siena foi uma cidade italiana que Herbert visitou e que nos descreve o poder das famílias condottieri que se guerreavam entre si por gerações, muitas delas, esquecendo porque alimentavam tal ódio, diremos nós. Tipos cruéis, sem pingo de compaixão perante os inimigos, sedentos de poder e de riqueza que não olhavam a meios para atingir os seus fins. As comunas e a Igreja só em parte aplacavam esta ira familiar e durante o Renascimento estas famílias tiveram o seu auge político, não sem que o termo «maquiavélico» tivesse ganho o seu significado actual. 

A pintura é outro dos motivos que leva Herbert a escrever as mais belas páginas de «Um Bárbaro no Jardim» e fico-me somente pelas palavras que dedica a Piero della Francesca, recuperado em toda a sua importância, tardiamente, no século XIX. É por causa dele, mas igualmente de Giotto ou Cimabué, que visitamos as Galerias Uffizi, em Florença, e a de Brera, em Milão, onde os pintores estão bem representados. Se conseguirem ultrapassar comodamente a enormes filas de turistas ou tirarmo-los da frente dos quadros a fotografarem-se, diríamos nós.

Páginas impressionantes são dedicadas à heresia cátara pela recém-criada Inquisição dominicana e à dissolução e posterior criminalização dos Templários. Embora completamente díspares nos seus propósitos, Herbert deixa-nos um fio de horror pelo que se passou na repressão aos cátaros do sul francês. A heresia - Herbert coloca bem a possibilidade de não estarmos perante uma heresia, mas sim de uma nova religião, tal a diferença de pressupostos face ao cristianismo - foi, durante dezenas de anos alvo da repressão mais sangrenta por parte do papado e dos dominicanos (os autodenominados «cães de Deus»!) em que se confundia o espiritual com o terreno político mais sórdido. Quem conhece relativamente bem a região d'Oc, a Ocitânia, sabe que o rancor surdo ao Norte francês ainda perdura nos dias de hoje sob múltiplas formas de coesão social e de resistência cultural. A repressão brutal e maquiavélica sobre os Templários é outra questão que o autor não deixa de sublinhar explicando que «Na História, nada se encerra definitivamente. Os métodos aplicados para combater os Templários entraram no repertório das autoridades. Por isso, não podemos deixar este caso distante aos dedos pálidos dos arquivistas.» (pág.202) Num tempo em que as perseguições ao pensamento livre começam a ganhar forma nunca será demais lembrar como se pode urdir uma teia imaginária de factos que podem levar à prisão, à tortura e à morte, mesmo em sociedades aparentemente «abertas» e civilizadas. O improvável está sempre à espreita. 

Por fim, Herbert passeia connosco, solitariamente, na companhia de Rousseau, em Ermenonville. Não só desenvolvendo a chamada teoria dos jardins, mas enveredando pelos meandros do Classicismo e do pré-Romantismo. Nada melhor que esta despedida de um livro notável, na companhia de Rousseau. Passeamos com Jean-Jacques por uma «poética, um catálogo de figuras e de tropos, só que explicáveis por meio de cascatas, pontes, tufos de árvores, ruínas artificiais. Aí havia tudo o que era necessário a um coração afectuoso: ''a gruta dos encontros secretos''; ''o banco da mãe fatigada''; ''a sepultura do amante infeliz''. A história revelou-se cruel para estas plântulas de sentimentalismo.» (pág.244) 
Sim, é possível que a história entre em conflito com o sentimentalismo, mas os românticos nunca o pretenderam saber.

alc

sábado, abril 20, 2024

«Empúsio», Olga Tokarczuk

 

Cavalo de Ferro, 2024, Tradução de Teresa Fernandes Swiatkiewicz
Passado em 1913, um ano antes da I Guerra Mundial, ainda os impérios e as monarquias dominavam politica e geograficamente uma Europa hoje quase irreconhecível, «Empúsio», da polaca Olga Tokarczuk, prémio nobel (não sendo por isso que deixa de ser uma grande escritora, ironia minha!), coloca o centro deste romance extraordinário numa Polónia que então não existia. Como sabemos, era território dividido pelo Império Russo, Alemão e Austro-Húngaro. E é numa aldeia deste último que a narrativa se desenvolve, nas paredes quer de um sanatório, a Kurhaus, quer na «Pensão para Cavalheiros» (assim mesmo) para quem esperava vaga na primeira. É evidente que não separamos esta história com a «Montanha Mágica» do austríaco, igualmente nobelizado, Thomas Mann. E é Olga Tokarczuk que não o esconde. Assim, se o primeiro romance é uma metáfora do nazismo que aí vinha tudo passado numa indiferença total face à morte e ao confinamento, aqui não deixa igualmente de ser uma metáfora do que aí vinha, mas com uma variante literária que torna este romance incontornável. Neste sanatório, onde se morre, se discute a vida até ao limite do cansaço, onde se bebe e come com o prazer de ser, talvez, coisa efémera, há uma viagem até aos nossos dias. Aí está uma das razões que não conseguimos largar este livro. Além de bem escrito (e bem traduzido, diga-se), com o português etimologicamente límpido de antes do AO90, Olga Tokarczuk reserva-nos uma surpresa no final do livro. Só levanto uma ponta do véu: perante discursos misóginos contra as mulheres que julgamos ser da época, qual o nosso espanto quando... afinal, era retirado de nomes literários que num momento ou outro as proferiram, não há muito tempo, e que a autora, num momento de maldade precisa e necessária, as colocou como sendo as personagens do princípio do século XX a dizerem-nas. Alguns destes autores conhecemo-los bem demais... os seus nomes estão lá todos. Um livro que me prendeu totalmente tal como os igualmente bons «Viagens» e «Outrora e Outros Tempos».

segunda-feira, novembro 28, 2022

«Andanças com Heródoto», de Ryszard Kapuscinsky

 

Kapuscinsky conheceu o mundo. Nascido em 1932 e falecido em 2007, escreveu este livro três anos antes e fá-lo como uma espécie de homenagem a Heródoto. Não segue o seu roteiro geográfico ou cronológico. Escreve que aprendeu com ele a distinguir o que é aproximação da verdade e o que é totalmente mentira ou efabulação não voluntária. Chama-lhe repórter o que é uma grande provocação para os historiadores e académicos que ensinam aos seus alunos a desconfiar de Heródoto, embora lhe apontem o epíteto do primeiro historiador. Kapuscinsky na sua corrida pelo mundo real em todos os continentes do planeta conseguia levar os tomos da «Histórias» do grego de Halicarnasso, hoje Godum na Turquia. Portanto, os dois são conhecedores do que melhor e de pior é capaz a Humanidade. E no pior vem sempre a guerra, esse vírus que não nos larga pela cobiça e pelo poder. E isto não é de humanismo serôdio. É a realidade que convém não esquecer ao optimimista que teima ainda em construir algo de novo. Heródoto, seguido por Kapuscinsky, tem explicações para o facto das guerras serem permanentes. No fundo, pagamos ainda hoje por erros de antepassados, por vinganças e cobiça de poder e riquezas que se arrastam por séculos num turbilhão de ódio que aparentemente não tem fim. Heródoto apresenta-nos duas causas para as guerras e meios para as debelar: 1) assinalar aquele que eu sei ter sido o primeiro a cometer actos injustos; 2) a felicidade humana nunca permanece firme, sendo que esta última será a pior das causas porque a ambição pela chamada felicidade é ilimitada. Viver com o que se tem e com o necessário para uma vida digna e ser feliz com isso é um dos limites mais difíceis para a humanidade seguir. Parecem coisas simples a que um intelectual ocidental, habituado às complicadas teses filosóficas, poderá nem dar a importância que merece, mas não esqueçamos que quem nos escreve são dois homens que calcorrearam desde as regiões mais cosmopolitas até às mais inóspitas e desérticas. Conversaram com pessoas, viram guerras, viveram a paz, provaram de tudo e separaram o trigo do joio nos factos que lhes comunicavam. Se Heródoto conheceu ou relatou as guerras entre Persas e Gregos entre aqueles e Citas e se chegou a escandalizar com a crueldade inominável a que assistiu ou viu referida, também Kapuscinsky não lhe fica atrás com os massacres e torturas na América do Sul, na Ásia ou em África. Disso, ainda estamos como antes. Pior, talvez: a ciência e a tecnologia deram uma ajuda no aumento do sofrimento em teatros de guerra!

Sempre com Heródoto na mochila, Kapuscinsky conheceu a Índia dos anos 50 e a secessão do Paquistão com 1 milhão de mortos e 5 milhões de refugiados, o Egipto de Nasser, a Argélia de Ben Bella, a guerra civil do Congo, o Uganda, o Gana, os primeiros passos para a independência africana, o Senegal de Leopold Senghor e a negritude, a América do Sul, a China das «Cem Flores» de Mao e o início da Revolução Cultural, a Rússia, a Checoslováquia e a «sua» Polónia. Digo «sua» entre aspas porque duvido que ele se sentisse, no fim da vida e após tantas viagens, inteiramente polaco. Antes um cidadão do mundo, um passaporte inexistente mas pertencente a uma qualidade que muito poucos a conseguem atingir. Tal como Heródoto que duvidando de muito do que lhe diziam ou aceitando as coisas com reservas, ia dando conta da diversidade riquíssima da Europa, Ásia e África. Como ele dizia, «continentes todos com nomes de mulheres».

Conhecendo outras obras de Kapuscinsky, esta não é a mais enérgica e longe do que esperamos dele, mas o registo das Histórias de Heródoto que cruza com as suas experiências no mundo faz com que o tenhamos junto a nós. Nem que seja para nos lembrar que não somos assim tão diferentes dos de há 5 mil anos atrás. Tal como os deuses que nos guiam que, desconfiava Heródoto com algum cuidado desprezo, não seriam assim tão diferentes uns dos outros e que eram objecto de imitações entre povos com as mesmas necessidades e sonhos.