Col. Mil Folhas, Público. [1ªedição póstuma, 1979], 2003.
Li-o nos anos 80 e não me lembro já das impressões com que fiquei, mas não foi coisa extraordinária. Hoje, numa época em que me interesso pelas releituras que fiz, tenho a certeza de que «Sinais de Fogo» me perturbou o suficiente para afirmar que o romance cumpriu o seu dever. Portanto, estamos perante uma obra ímpar. O que para mim é novo foi ler a longa introdução de Mécia de Sena que nos informa que um livro que foi póstumo (Jorge de Sena morre em 1978) iniciou-se em 1964 pelas mãos do poeta e escritor, sem que se ponha de lado a hipótese de ter sido escrito em cadernos logo nos finais dos anos 30. Mécia de Sena considera-o inacabado e não revisto completamente por Jorge de Sena, o que nos leva a observar algumas incongruências em nomes de personagens que se trocaram e repetições, para além de longos pensamentos paradoxais e íntimos que nos lembram muito o «jogo» psicológico pessoano.
Seja como for, seria impublicável durante o Estado Novo e mesmo na sua continuidade como foi o do marcelismo, desconhecendo eu se essa quase certa censura seria por motivos políticos, por pudor ou ambos. Penso que por ambos os motivos. Todos os que conhecem Sena sabe que «Sinais de Fogo» se passa na Figueira da Foz, abrange o ano de 1936 e o início de 1937, a Guerra Civil de Espanha atravessa-o e obriga as jovens personagens de uma burguesia politicamente dividida e em crise moral, a optarem por um dos lados. Ninguém é neutro ou consegue sê-lo. Mas Jorge, a principal personagem, não é um libertino, um livre pensador. É, antes, o retrato fiel de um filho de «boas famílias», femeeiro, por vezes até cruel, perfeitamente ambientado aos costumes burgueses de uma moral hipócrita, subterrânea, que permitia aos mais ricos violar criadas, apoucar e ameaçar homossexuais, falar de política enquanto se participa numa orgia, «possuir» mulheres... Aliás, o verbo «possuir» é repetido à exaustão, mesmo quando Sena descreve uma relação amorosa «quando dois corpos se tornam um», o que não deixa de nos surpreender. Quem possui quem? Diz-nos Mécia de Sena, que foi a guardiã abnegada do espólio de Jorge de Sena, que não se trata de um romance autobiográfico, mesmo que algumas personagens tenham existido de facto, como o inesquecível Justino. Como também afirma que ela não é a Mercedes do romance, única personagem plenamente livre, pela escolha individual que faz, não pelo jugo familiar que se abate sobre ela. Em todas as páginas a violenta ditadura dos anos 30 imposta por Salazar, logo após a Constituição plebiscitada de 1933, estava claramente em ascensão e, historicamente, ela surge-nos como uma «ditadura de massas» coisa que o ditador demoraria pouco a pôr-lhe fim, apoiando-se nas polícias, mocidades e legiões, bem enquadradas para perseguir, prender, torturar, fazer desaparecer, matar.
Mas sobre o romance em si, e o seu carácter sórdido impossível de esconder porque espelho de uma sociedade assim, prendamo-nos antes nas palavras do próprio autor:
«Quando eu correspondera à imagem de mim que ela [Mercedes] aceitara noutros, e lhe impusera, em troca, mais ou menos que a minha pessoa,, o meu corpo, eu abdicara de tê-la como pessoa, porque ela não podia ser uma pessoa dentro de uma imagem, do mesmo modo que eu não podia possuir a minha própria imagem. Mas quem não seria, no amor dos outros, todas as imagens de pessoas com que elas tinham sonhado? Quem era si mesmo nas imagens dos outros? Não era, afinal, a mulher ideal ou o homem ideal o que procurávamos nos outros; mas nós mesmos nos idealizávamos, éramos idealizados com a imaginada realidade dos que, se sonhados, não haviam sido possuídos, ou que, se possuídos, não tinham sido sonhados. Esta idealização não tinha nada que ver com pureza, com inocência, com gratuitidade. Era, pelo contrário, uma soma, uma acumulação, uma confusa mistura de toda a sordidez que não nos atrevíamos a sonhar nos outros ou pelos outros (...)» (pág.259)
alc
