Gallimard. 2024. Col. Folio, 2026.
Um escritor francês ainda pouco conhecido, nascido em 1991, escreve sobre Cesare Pavese. E de que modo o faz! Muito bom seguir as pisadas de Pavese por onde ele nasceu, trabalhou, passou férias com Calvino, Einaudi, Elsa Morante, Natalia Ginzburg ou Antonioni, lendo cartas breves aos que amou e às mulheres que o descartaram, deslaçando o seu feitio difícil, introvertido e insone. Ler uma obra como esta dá-nos uma confiança que, por paradoxal que possa ser esta afirmação, uma biografia «oficial» não nos daria. Porque estamos perante uma romance admirável sustentado por fontes próximas de Pavese, pelo visionamento de filmes de Antonioni e de outros dos anos 40 e 50, em que teve uma profunda influência, pela leitura atenta de cartas e de trechos dos seus romances que podem dar-nos pistas sobre a sua vida e morte, esta em 1950. Cesare Pavese não deixa de ser um mistério adensado por cada obra que dele se lê. É mais que um enigma, é uma vida constante e o que ela contém de misterioso, perseverante, por um mundo que já não era o seu, como acontece com todos nós chegados a uma certa idade. Com ele foi-o desde sempre. Aquele mundo não era o seu, nunca o foi. A Itália de Resistência, finda a guerra, não lhe levou a mal o seu aparente afastamento. Nunca seria um verdadeiro ''partigiani d'Italia'' já que evitava qualquer conflito, era um pacifista nato, embora próximo do PCI e do seu L'Unità, cuja redacção visitava com frequência, quando não se encontrava na Editora Einaudi. Aliás, chegou a inscrever-se numa secção política de Turim. Era aquilo que se podia chamar de um militante anti-militante, mas um homem que escreveu o melhor que se poderia ler contra a guerra e pela justiça social. Preferia subir as colinas com o seu cão e fumar o seu cachimbo, enquanto observava tudo e sentia o sol do Piemonte.
Todas os romances movidos por uma personagem central deveriam ser escritos assim: em viagem, como o fez Pierre Adrian, sem fôlego, mas que nos deixa um rasto de dúvidas e questões impossíveis de resolver a não ser no nosso íntimo. Aí, tudo é resolúvel, as coisas esclarecem-se sem que sejamos suficientemente desbocados para o dizer. É o que acontece com «Hotel Roma», um hotel em Turim, entre uma estação de comboios, local de partidas constantes, e a casa da sua família há anos. Num domingo, a 27 de Agosto, no quarto 46, Pavese foi encontrado sem vida por um jovem trabalhador do hotel. O seu funeral, conta um amigo ainda vivo, Ferrarotti, contou com imensa gente, embora a Turim que o enlevou se tenha esquecido dele: na livraria ''La Bussola'' na Piazza Vittorio Veneto, que Pavese frequentava bastante, Adrian e uma companheira de viagem, perguntam por obras de Pavese. Depois de uma procura acompanhada pelo sibilar de «Pavese...Pavese...» o livreiro disse que não tinha nada dele. Não é caso único, as livrarias estão como estão e em toda a parte assim é.
Há uma carta de Italo Calvino a Isa Bezzera, sobre o suicídio de Cesare Pavese, que valerá a pena traduzi-la aqui, mas, obviamente, não toda. Talvez aquela parte que demonstra a perda absoluta que significou o desaparecimento do escritor para Calvino:
«- Perguntar-me-ás, como toda a gente: ''Mas por que é que ele se matou?'' Aqueles que o conheceram ficaram petrificados com a notícia, mas não surpreendidos: Pavese era tentado pelo suicídio, desde a sua adolescência, como pela solidão, as suas crises de desespero, a insatisfação que lhe inspirava a vida, o conjunto dissimulado pela sua natureza fugidia e regressiva. Mas completamente revoltado, eu julgava-o, quanto a mim, que ele era verdadeiramente um duro, um coriáceo, uma trincheira: o género de pessoa em quem se pensa a cada momento de desespero, para se ganhar coragem: no entanto, Pavese manteve-se firme.» (pág.196)
Assim é. Talvez agora se esteja preparado para o «Ofício de Viver», obra póstuma de 1952.
alc
