Atualização em outubro:
domingo, outubro 18, 2020
Auschwitz «in progress». O horror como mercadoria barata
«á carga!»
ALC
Coimbra, 15 de outubro de 2020
Samuel Paty
sábado, outubro 03, 2020
«A Rainha Ginga», de José Eduardo Agualusa
Desaconselho vivamente «A Rainha
Ginga - E de como os africanos inventaram o mundo», de Agualusa, a xenófobos e a quem chora pelo império perdido. Não o
compreenderão. Antes de iniciar a minha habitual ficha de leitura (cujas estão
a alcançar mínimos históricos de «gostos» aqui no Facebook) das obras que vou
lendo, informo-vos da coincidência, ou talvez nem tanto, de estar a ler,
igualmente, a «História de África» de J.D. Fage. Mais tarde falarei dela aqui. Mas foi enorme o entusiasmo de encontrar pontos de contacto entre um livro e outro.
A rainha Ginga levou muita gente a
falar dela durante séculos, sendo Sade um dos figurões que a realçou como um
exemplo de «luxúria selvagem», seja lá o que isso quereria dizer nas
elucubrações libidinosas e recreativas do Marquês. Não vejo assim Ginga, embora
hoje sorriamos com o seu harém de travestis, visto que se era rainha teria de
comportar-se como um rei e, sendo rei, teria de ter o seu harém de mulheres.
Compreendo Ginga como uma mulher inteligentíssima, política e diplomaticamente
hábil, ambiciosa e determinada. Por paradoxal que nos pareça hoje, essa ambição
que a levou muitas vezes a eliminar adversários até da sua própria família, não
a impediu de se aconselhar e dialogar com indivíduos de opinião diferente e de
diferentes etnias e paragens; africanas, mas também europeias e americanas,
inclusive. Promotora de grandes «camas», isto é, de assembleias de conselhos
tomava aí as decisões políticas mais audazes que apontavam para uma feroz
independência da região de Angola face aos portugueses.
Ora, essa feroz oposição ao
império português com o seu rasto de esclavagismo, violências, castigos,
estupros, torturas, conversões forçadas e conquistas territoriais, fez com que
Ginga construísse uma fina teia política, ora de negociações difíceis, ora de diálogos
cuidadosos, para levar a liberdade a um povo que se via confinado cada vez mais
para o interior de Angola, à medida que os portugueses, a partir principalmente
de Luanda e do litoral, progrediam para leste em busca de ouro, marfim e escravos
para Lisboa, plantações e minas do Brasil.
O livro de José Eduardo Agualusa
oferece-nos uma Rainha Ginga, dura, implacável, é certo, mas determinada a um
fim que a obrigava a difíceis e efémeras alianças com piratas (lá está a
argelina República de Salé onde pontificavam corsários, piratas, flibusteiros
de toda a espécie e de todo o mundo, entre eles portugueses fugidos da opressão
social e religiosa), holandeses apostados em atacar os territórios portugueses
do império filipino da União Ibérica, índios brasileiros aliados, árabes e
muçulmanos, nações africanas que lhe prestavam uma espécie de vassalagem,
terríveis «jagas» guerreiros que se opunham a todos, mas que sabiam cumprir
acordos, e até portugueses, mercenários e jesuítas, que fugiam da inquisição e
do rei fosse ele de nome Filipe ou João IV. E, em Olinda, Domingos Vaz tem este
diálogo com Lobo, num Brasil holandês:
« - Não sentes? – insistiu Lobo. –
Não sentes quando respiras?
- O quê?!
- O medo, meu amigo! Já não cheira
a medo!
Dei-lhe razão. No tempo dos
portugueses o medo infiltrava-se na roupa, colava-se à pele, a todas as horas,
mesmo quando dormíamos. Era tão presente, tão inevitável, que nem nome lhe
dávamos.»
Sim, exportámos medo e trouxemos
para Lisboa e Terras de Vera Cruz a escravatura, juntamente com ouro e prata,
especiarias, com que engordámos uma pobre elite iletrada, rancorosa e invejosa
sem saber produzir nada que se visse, menos o mesmo ouro e a prata com que se
espraiva, pela tarde, no Rossio. As consequências ainda hoje as estamos a
pagar. Contas de outro rosário. Mas houve, lá longe de Portugale pelo império
onde o sol nunca se punha, quem resistisse e a Rainha Ginga está nesse panteão,
junto com outros que no Brasil, em África e nas Índias o souberam fazer, pondo
em causa tráficos infames e ocupações ilegítimas.
No entanto, no livro de Agualusa,
ou talvez pelo que foi aqui dito, Domingos Vaz, personagem principal, sente
terminar a sua fé. E não é por Muxima ou por outra mulher; é somente pelo que
vê à sua volta, principalmente pela opressão inquisitorial e colonial ou pela
táctica de conversão dos povos, exercida pelos jesuítas. Mesmo que seja difícil,
para nós, acreditar que um padre perca a sua fé de um capítulo para outro, o
autor, a páginas 206, avisa-nos: «Um homem sábio, porém destituído de fé,
falhará sempre. Um homem de fé, pelo contrário, está destinado a triunfar por
mais que lhe falte o engenho e a fortuna – ou mesmo o juízo.» Premonitório. A
Ginga não lhe faltou o engenho, nem provavelmente a fé animista, se assim se
pode utilizar aqui o termo «fé», mas faltou-lhe fortuna. Aliada aos holandeses,
de alguns «jagas» que lhe continuavam fiéis, dos barcos piratas de Jol, dos
índios Janduí e suserana de outros reinos negros, na última batalha que travou
perto da baía de Luanda, perdeu mesmo a guerra por um mito; esse mito era
Salvador Correia de Sá que reconquistou Angola com tropas portuguesas
esfomeadas, maltrapilhas, com poucas armas e munições que seriam facilmente
derrotadas se o mito não se sobrepusesse à realidade e o nome do militar não desse
origem a um temor injustificado. Talvez uma lição política já tardia a Ginga e
aos seus conselheiros e aliados. De qualquer modo, o final da batalha, que não
da guerra, estava traçado. A belíssima Ginga nunca foi aprisionada.
A resistência continuou por
séculos, como sabemos, e os treze últimos anos do império africano matou e
arruinou dezenas de milhar dos nossos jovens.
Há, todavia, uma frase no livro de
José Eduardo Agualusa que me ficou presente e que vos convido a pensá-la,
embora saiba que a conclusão será impossível de ser encontrada. É quando o
governador holandês João Maurício de Nassau (nome aportuguesado) disse a
Domingos Vaz, aliado de Ginga e já pressentindo a derrota: «Talvez nos tenhamos
enganado ao pensar que a natureza não seria mais madrasta para nós, os brancos,
os ocidentais, do que para os portugueses e os levantinos. A verdade é que os
portugueses sempre foram mais africanos do que europeus.»
A nossa tragédia como povo é que nunca fomos uma coisa nem outra.
António Luís Catarino
Coimbra, 3 de Outubro de 2010
quinta-feira, outubro 01, 2020
Quino deixou-nos Mafalda. O que nos deixou não foi pouco, foi enorme.
Sempre tive o enorme prazer de dar, em aniversários ou no natal, o Livro de Mafalda a amigos verdadeiros e críticos o suficiente para a amarem. Mafalda não era só a criação de Quino. Este deu-lhe inteligência, mordacidade, graça, leveza e um espírito crítico arrasador, contudo não era um gosto universal e neutro. Quino deixou-nos. Provavelmente teremos de esperar muitas décadas até aparecer um igual. Adeus, Quino.
terça-feira, setembro 29, 2020
Hipermercados, comida processada, literatura processada
Um tipo vai ao hipermercado comprar produtos de higiene, pão, uma lâmpada led, barras bio e congelados pré-feitos e dá-se com isto:
terça-feira, setembro 22, 2020
Viva la Muerte! ou a «ideologia» de uma moção
Eu nem me apetece sequer dar atenção a uma certa moção que nos enojou, neste domingo. Quero lembrar-vos que a extrema-direita nunca aceitou o corpo humano. Porque este lhe é profundamente estranho. Cortar, impedir, sufocar, matar, retirar, fazer ablações, castrar, torturar, ferir, são propostas recorrentes da extrema-direita cuja ideologia é o triunfo da morte pela morte, tal como foi proferida por José Millán-Astray. Este culto da força, do músculo, atrofia no corpo humano toda a hipótese de desejo, do acto comum, solidário, dramatizado por dois corpos juntos. Eles não o conhecem, por isso são contra.
segunda-feira, setembro 21, 2020
«Vírus soberano? A asfixia capitalista», de Donatella Di Cesare. Algumas colagens
Este livro não faz parte da teoria da conspiração sobre o Covid-19. Pelo contrário. A filósofa italiana Donatella Di Cesare analisa a pandemia que atravessamos de modo cabal, claro e sintético como só os mais capazes o fazem em temas desta complexidade. Não por acaso foi António Guerreiro a traduzi-lo, o que nos deixa sossegados. Presumo que foi dele a responsabilidade de propor às Edições 70 a sua edição. Trata-se da melhor exposição sobre o vírus que nos mudou a vida totalmente. A análise está aí para quem quiser adquirir este livrinho. Mas inquieta-nos muito e leva-nos a reflectir sobre as causas que levaram ao culminar de uma catástrofe anunciada por muitos. Mas quem lê, hoje, filósofos e escritores? Talvez uma imensa minoria, todavia, incapaz de fazer mudar o que quer que seja da «distanciação social» política da nossa «democracia imune». O capitalismo, no seu estádio actual, a não ser combatido, levar-nos-á à morte que ele próprio nos propõe abolir através das leis do mercado e do domínio mais que insano da natureza. Estamos a pagar muito caro, talvez com a morte, a aceitação da acumulação especulativa de capitais e da conquista fictícia da amortalidade que a propaganda das mercadorias nos propõe diariamente. Claro que é um paradoxo. Donatella Di Cesare explica-nos porquê, nestas breves «colagens» que vos proponho que conheçam e, principalmente, que adquiram o livro.
Algo vai mal quando metade da população mundial, ou seja, 4
biliões de seres humanos, foi confinada numa prisão domiciliária desde Março de
2020 falando à varanda uns para os outros, sem poder sair, com todos os
serviços fechados, hospitais a abarrotar, escolas e universidades fechadas,
comércio encerrado, a cultura barrada, tendo por única «comunicação» a
acomunicação por excelência: as redes sociais, o videotrabalho, as
videoconferências, a televisão, os «especialistas». A polis, a praça pública,
fechou e não se sabe quando abre ou se irá abrir no futuro; o processo,
contudo, vinha já muito detrás, quando nos anos 80, o «there are no
alternative» neoliberal se tornou um mantra e toda a contestação foi amordaçada
paulatinamente, retirando às manifestações constantes de revolta a capacidade
transformadora. O Estado imunizou-se, imunizando os seus cidadãos contra o
Outro, o estranho, que podem ser o estrangeiro, o turista ou migrante, as
minorias sexuais, os velhos, os sem-abrigo... a conquista da imunidade
defendida pelos cidadãos que aceitam sem protesto a distanciação, a ausência do
toque dos corpos, a teletemperatura, as app vigilantes e denunciadoras de
infectados, a presença do mal assintomático, veio, escrevia eu, juntamente com
a imunidade, a anestesia.
A palavra, em colagens, de Donatella Di Cesare:
«O mal que vem é um biovírus assassino, um germe
catastrófico. Mas desta vez não é uma metáfora. É o corpo físico que adoece – o
corpo exausto de humanidade, o organismo nervoso, cansado, sujeito durante anos
a uma tensão intolerável, a uma agitação extrema. Até à apneia. Talvez não seja
coincidência o facto de o vírus proliferar nas vias respiratórias, onde passa o
ar vital. O corpo subtrai-se ao ritmo acelerado, não se aguenta, cede, pára.»
(pág. 15)
«Não se pode esconder o desejo de mudança que nos últimos
anos vem aumentando devido a um sistema económico injusto, perverso, obsoleto,
cujos efeitos são a fome e a desigualdade social, a guerra e o terror, o
colapso climático do planeta, o esgotamento dos recursos. Agora, porém, é um
vírus que abala o mundo. (...) O vírus inesperado suspendeu o inevitável sempre
igual, interrompeu um crescimento que entretanto se tornou uma excrescência
incontrolável, sem medida e sem fim.» (pág. 17)
«O mal que vem, olhando bem, já tinha chegado. Era preciso
sermos cegos para não ver a catástrofe à porta, para não reconhecer a
velocidade maligna do capitalismo que não sabe nem pode ir além e tudo envolve
na sua espiral devastadora, no seu vórtice compulsivo e asfixiante. » (pág.
29/30)
«O coronavírus chama-se assim por causa da auréola
característica que o envolve. Uma auréola sugestiva e temível, uma coroa
poderosa. É um vírus soberano, a começar pelo nome. Escapa, sobrevoa, transpõe
as fronteiras, passa para além. Escarnece da soberania que pretendia ignorá-la
grotescamente ou aproveitar-se dele. E torna-se o nome de uma catástrofe
ingovernável que por todo o lado desmascarou os limites de uma ‘’governance’’
política reduzida a administração técnica. Porque o capitalismo – como sabemos –
não é um desastre natural.» (pág. 37)
«O poder totalitário é antes um vínculo férreo que funde
todos em um; em vez de ser instrumento, é o próprio terror que governa,
enquanto devora o povo, isto é, o próprio corpo, e contém já os germes da
autodestruição. E hoje? O terror tornou-se uma atmosfera. Cada um fica entregue
ao vazio planetário, exposto ao abismo cósmico. Não é necessário um aviso
directo porque os riscos parecem vir do exterior. Na sua aparente ausência, o
poder ameaça e tranquiliza, exalta o perigo e promete protecção – uma promessa
que não pode cumprir. Porque a democracia pós-totalitária requer medo e
funda-se no medo. Eis então o círculo perverso desta fobocracia.» (pág. 64)
«A abolição do outro faz-se agora por decreto – em troca de
segurança e imunidade. O corpo de cada cidadão é de facto uma fortaleza que
deve ser protegida contra inúmeros perigos e imponderáveis ameaças. Prudência e
suspeita devem determinar as relações sempre necessariamente mediadas por
dispositivos capazes de separar, conter, garantir segurança e preservar. O ‘’distanciamento
social’’ é, portanto, o selo da política imunitária.» (pág. 83)
«O que perturba nas disposições tomadas durante a emergência
da Covid-19, não é apenas a posição da distância em relação ao outro e,
portanto, o veto implícito de qualquer abraço, de qualquer efusão espontânea,
mas também a expulsão obscura de todas as relações não protegidas, da
co-presença, do encontro dos corpos. As consequências são políticas. É nesse
sentido que se deve apreender aqui o laboratório de novas e inéditas
disposições.» (pág. 84)
«O aviso da democracia imunitária não é assim tão ilegível:
afasta o perigo da massa viva e incontrolável, põe à distância o espectro da
revolta, assegurando condições saudáveis de sobrevivência.» (pág. 86)
«As praças e os lugares de encontro espontâneos foram sendo
progressivamente substituídos pelo espaço virtual da web.» (pág.87)
«Viver e trabalhar ‘’à distância’’ significa estar rodeado
de ecrãs. Na ambiguidade do ecrã resume-se todo o paradigma imunitário: ao
mesmo tempo que protege, tutela resguarda, abre o acesso ao mundo.» (pág. 87)
«O risco da prisão domiciliária em massa é uma implosão
psíquica com resultados imponderáveis. Os medos multiplicam-se: ficar doente,
perder o emprego, ser abandonado, ficar entubado. O choque viral causa
tristeza, raiva, irritabilidade, depressão, insónia. As irrupções de violência
atingem as mulheres. Sem dúvida que não se ressentem do confinamento apenas
aqueles que já têm problemas mentais. A existência de muitos mudou do dia para
a noite.» (pág. 92)
«A brutalização securitária requer mais paredes, mais arame
farpado, mais prisões.» (pág. 95)
«A vigilância da rede, aquele retículo gigantesco em que
todos são espiados por um imenso olho invisível atrás do ecrã, é a versão mais
recente do panóptico. Só que aceitamos ser exilados na transparência – e fazemo-lo de bom grado.» (pág. 100)
«Talvez acabemos por sair com uma certificação de imunidade
que atesta os nossos anticorpos. Passaremos, quase por hábito, entre
sofisticados scanners térmicos e densos circuitos de vídeo-vigilância, em
lugares e não-lugares esterilizados, mantendo a distância de segurança, olhando
à volta com cautela e desconfiança. As máscaras não nos ajudarão a distinguir
os amigos e a ser reconhecidos. Por muito tempo, continuaremos a ver por todo o
lado assintomáticos que, sem o saberem, alojam no interior a ameaça intangível
do contágio. Talvez o vírus já se tenha retirado do ar desaparecido,
dissolvido; mas o seu fantasma permanecerá por muito tempo. E ainda teremos
falta de ar, a respiração constrangida.» (pág. 117)
São estas colagens que apontam para a necessidade de uma
leitura mais atenta do «Vírus Soberano? A asfixia capitalista» de Donatella Di Cesare. Não há uma só
afirmação da filósofa italiana que não concorde, principalmente, na construção
dessa «democracia imunitária» distopia assente numa catástrofe respiratória que
iremos pagar muito caro se não agirmos contra ela e contra o capitalismo que
aqui vê uma forma lógica de tentar perpetuar-se: pela apropriação da atmosfera
e do corpo. O bioterror está aí.
António Luís Catarino
Coimbra, 21 de Setembro de 2020.
domingo, setembro 13, 2020
«O Gesto que Fazemos para Proteger a Cabeça», de Ana Margarida de Carvalho
«O Gesto que Fazemos para Proteger a Cabeça», de Ana
Margarida de Carvalho é Mahler. A musicalidade que a escritora imprime à obra é
simplesmente notável. Pela pontuação, pela trama da história que nos entranha
na pele e não somente pela leitura pautada, mas também pela identificação das
personagens que a povoam. A sua leitura é perigosa:
Primeiro, nunca vimos um Alentejo e um Algarve descritos
assim secos, áridos, ventosos, pantanosos, rancorosos e revoltados. Múltiplos
pensamentos enxameiam a nossa imagem estereotipada do Alentejo. Esta imagem é
única. Não existe outra assim.
Segundo, as personagens estão envoltas numa espessa névoa
onde a autora pode ou não desvendar o decorrer da acção. Isso convida-nos à
reflexão constante tentando perscrutar o significado dos diálogos ou descrições
e o que podem querer dizer, procurando encontrar um fio lógico, nem sempre
condizente com o que esperamos.
Terceiro, nesta história nem tudo o que parece, é.
Quando nos certificamos que uma personagem terá um destino eventualmente
coerente e conforme à sua personalidade, somos surpreendidos com uma outra
narrativa dentro daquela em que a psicologia de uma personagem determina o seu comportamento.
Acontece isso com Simão e com Constantino. O primeiro, canhoto,
dado à mão do diabo – como se dizia – e intrinsecamente bom, afastado do povo
de Nadepiori, a aldeia, filho não se sabe de que pai e de uma mãe bonita
que não sabia negar-se, criado por uma avó e desprezado pela população, dado ao
contacto com os animais e a um falcão-peregrino fêmea com nome de mulher, Maria
Angelina, e uma abetarda. Animais com sortes diferentes na trama. Nunca vi, em
literatura (talvez com Miguel Torga ou Aquilino), uma descrição tão vívida do
voo de um falcão como nos é apresentado aqui. Mas a descrição do sofrimento
animal às mãos dos homens é apresentada com toques de horror. E, leitores mais
novos, acreditem no realismo descrito no livro. A maldade para com os animais
era mesmo assim. Constantino, um gémeo de Camilo, sétimo filho de sete irmãos, filho
não amado pela mãe, a «tenenta» mestra do contrabando e das mercancias
desonestas juntamente com o pai salteador e dado a mortes várias, ele, coxo de
uma perna por decisão da mãe que a parte propositadamente, violento desde miúdo,
chefe de um bando de adolescentes que distribuía terror gratuito a rodos pelo
quilombo e pelas aldeias, mas capaz de amar, também ele, tornado amigo de Simão
para o final da história, quando assume a chefia das permutas ilegais, matando
o pai e expulsando a sua mãe de Nadepiori.
Quarto, podemos situar a narrativa nos finais dos
anos trinta quando se levantava o Estado Novo e a raia era palco da Guerra
Civil de Espanha onde contrabandistas, passadores, refugiados, republicanos,
malteses, ciganos, clandestinos comunistas e opositores eram moeda de troca de
todas as traficâncias de gente sem escrúpulos, vendidos por quem desse mais
dinheiro. A revolta surda dos camponeses alentejanos eram uma realidade tal
como a escravatura dos pescadores de atum do Algarve. Tudo moeda do mesmo saco.
«Um dia a terra há-de ser de quem a trabalha».
Quinto, o ódio e a raiva, sempre o ódio omnipresente
em cada frase, em cada gesto, em cada violação de mulheres, numa agressão à
faca ou a murro, em cada gesto (universal) para proteger a cabeça - sinal
de protecção íntima e de humilhação -, em cada vocábulo, e que força lhes dá
Ana Margarida de Carvalho!, uma escritora que se torna fundamental na nossa
literatura e que a tenho, felizmente e com prazer, acompanhado.
Sexto, a conclusão óbvia da existência de uma
irmandade de mulheres que, no Alentejo, é uma realidade sentida por quem o
conhece. O capítulo III é um verdadeiro guião para um diálogo trocado por
mulheres que sabem o sentido da vida e possibilitado em escala menor pela
opressão do poder e pelo patriarcado. Mas não se enganem, – elas têm poderes
fátuos ou bem reais. Sentimos uma atracção grande por essas mulheres ao longo
de todo o livro.
Sétimo, a presença da guerra. Sempre a guerra e os horrores
que traz, descrita por um inglês sem nome, amigo de Simão e dono do falcão,
que, descobrimos nós no final, terá sido morto pela população de Nadepiori tal
como a sua ave. Por maldade. É ele que nos descreve a guerra tal como ela é e a
necessidade de lutar contra a opressão e por um mundo diferente, melhor que
este.
Oitavo, o recurso ao teatro, à cena construída no
palco de um quilombo, ou da aldeia de Nadepiori e a vez da tragédia grega e
shakespeariana com que Ana Margarida de Carvalho nos atira à cara, literalmente.
E faz muito bem porque é a raiz de tudo e as coisas não são assim tão
diferentes há 2500 ou, tão só, há 500 anos. Estão lá Medeia e Jasão, Ulisses,
Apsirto e Eurípides. Quanto a Shakespeare, embora não nomeado directamente, é
descrito magistralmente pela boca do estrangeiro ruivo, militante das Brigadas
Internacionais: «(…) o estrangeiro contava histórias, tão longínquas das
fábulas a que Simão estava acostumado, falava-lhe de um certo génio da margem
sul do Tamisa, de um príncipe atormentado da Dinamarca, que muito intrigava
Simão e dava-lhes horas de discussão, porque é que ele não matava de uma vez o
padrasto usurpador do trono e da cama da mãe (…)». É, algo vai podre…
Nono, o amor que a escritora mostra para com as suas
personagens que a fazem dialogar com elas sem que lhe sobeje tempo ou paciência
para apontar ao leitor o caminho da narrativa. Nem tinha de o fazer. Aquelas
páginas são dela e dos actores que criou. Fez, mais uma vez muito bem, e a
página 230 é verdadeiramente uma nota aos incautos. Só que agora o livro é
«nosso». Está aí para o ler e adoptarmos as personagens em nós, leitores.
Décimo e último ponto: Mahler. Repita-se que este
livro tem uma música própria. Poderemos até dançar com ele. Como conseguiu isso
Ana Margarida de Carvalho? Pela cadência da pontuação? Pela escolha criteriosa
das palavras e dos vocábulos? Pelo recurso ao trabalho contínuo da
experimentação da sonoridade das palavras conjugadas entre si? Pouco importa. O
registo é esse. Que o livro tem génio, que passa da musicalidade suave à
tempestade absoluta é sentido pelos leitores habituados à escrita que não cede
a estereótipos nem à facilidade. Um bem absoluto para a literatura portuguesa
contemporânea.
António Luís Catarino
Coimbra, 13 de Setembro de 2020.
quarta-feira, setembro 09, 2020
«No Labirinto de Outubro - Cem Anos de Revolução e Dissidência», de Rui Bebiano
Quem pensa que sabe tudo sobre a Revolução de Outubro de 1917, desengane-se. Este livro de Rui Bebiano dá-nos pistas fundamentais para um melhor conhecimento sobre um acontecimento fulcral da História e não só do século XX. E tão mal conhecido, correndo até o risco de ser ostracizado e subvalorizado nos bancos da escola. Perante algum desânimo do autor, assente no desconhecimento cada vez mais confrangedor que os alunos demonstram sobre a Revolução Russa, quer a de Fevereiro, quer a de Outubro, resta dizer que a coisa já vem detrás respeitante aos curricula do ensino secundário. Sendo um item estruturante das aprendizagens essenciais do 9º e do 12º ano, bastas vezes conteúdo tratado em exames nacionais do último ano de escolaridade, é, contudo, tratado de modo rápido e sumaríssimo no básico e no secundário. Tal como, aproveito para dizê-lo, os movimentos artísticos modernos e contemporâneos.
Neste «Labirintos de Outubro – cem anos de revolução e
dissidência» o autor avisa-nos que este labirinto não deve ser o de Dédalo em
Creta quase impossível de resolver (menos para Ariadne, digo eu); para Rui
Bebiano um labirinto humano é «(…) um ingresso e uma saída, que podem estar ligadas
a uma mesma porta ou a duas diferentes, pois aquilo que conta neste tipo de
arquitectura não é a forma de a ela se aceder, mas sim a complexidade máxima do
trajecto interior que comporta.»(pág. 328). Sejamos pois Ariadne e deixemos por lá o fio condutor. E esta será a única citação que utilizo
aqui sem correr o risco de descontextualizar a ligação (esta querida palavra
para as esquerdas) que o autor faz de um modo irrepreensível. De facto, o livro
tem uma consistência interna e mostra um poder de síntese do historiador que
devemos saudar. Os «mil marxismos», expressão usada por André Tosel, está em
todas as páginas do livro e vemo-nos confrontados com a enorme variedade
política em que o conflito e a hostilidade estiveram sempre presentes com diversas
facções a digladiarem-se entre si, mesmo trazendo consigo o último sacrifício de
seres humanos. E não foram poucas as vezes em que isso aconteceu. Mas, aqui, o
historiador não cai na ratoeira que o anticomunismo armou, nomeadamente o de se
analisar as consequências sem analisar as múltiplas causas que deram origem à
revolução. Assim, é-nos exposto de um modo notável a consciência transformadora
da Revolução de Outubro de 1917 como se fosse um livro aberto em que todos os actores
foram convidados a apresentar as suas convicções e caminhos a percorrer.
O entusiasmo perante o significado da Revolução de 17 na
Rússia foi mundial. E citando Enzo Traverso, Rui Bebiano é claro quando afirma
que não devemos esquecer a vontade matricial desta revolução, para alguns
historiadores o corolário lógico da Revolução Francesa de 1789, apostada em
mudar a sociedade e dar aos explorados uma vida melhor, em detrimento do enumerar os milhões
de sacrificados por diatribes burocráticas e fanáticas. O comunismo é, será
sempre, uma luta pelos «impossíveis», como disse Sousa Dias. E esse impossível
esteve desenhado nos primeiros anos de 1917 até 1928, dando ao comunismo
soviético uma real possibilidade de libertação humana. O desejo, a festa, a
realização e a luta por uma outra produção, não aviltada pelo trabalho
assalariado e muito menos pelo trabalho emulativo, estiveram bem presentes nos
inícios da Revolução. Com a figura de Lenine sempre presente (e não é nenhum santo como é demonstrado), mas acompanhado por
bolcheviques como Trostsky, Bukarine, Zinoviev, Kamenev, Radek, Alexandra Kollontai, personalidades que tiveram
percursos pessoais e políticos e que, na estratégia e na táctica, por vezes
chocaram com a linha adoptada pelo partido que então tomava o poder na Rússia. O «caso» de Estaline não é, para Rui Bebiano, a continuidade lógica do processo
revolucionário configurado totalmente pela tomada do poder em 1928 e mais
tarde pela brutal repressão de meados dos anos 30 em que os seus antigos
aliados se tornaram o inimigo a abater. Não nos esquecemos, e o livro lembra
bem, que as primeiras vítimas foram comunistas e com eles os
socialistas-revolucionários, mencheviques, anarquistas, trotsquistas, membros da Oposição Operária, gente sem partido, cada qual com o seu programa diferenciado para a
Revolução.
Quando se fala da Revolução de Outubro de 1917, fala-se igualmente
de alegria. De facto, até 1928, dançou-se em Moscovo e Leninegrado, nas
fábricas e nos campos, nas escolas e nos quartéis. E é desta Revolução que traz
consigo as diversas estradas diferentes no campo da esquerda, desde a
social-democracia até à ultra-esquerda que nos faz gostar imenso deste livro
(embora tenha alguma reticência em atribuir a Estaline o epíteto de ultra-esquerdista, seguindo a taxonomia de Richard Gombin). Não que Rui Bebiano evite falar das
mortes, dos processos fabricados ou do Gulag. Antes pelo contrário; vimos, em
Labirintos de Outubro, que são utilizadas novas fontes históricas,
recentemente trazidas à luz nos arquivos russos, da verdadeira demência
persecutória, a estalinista mas não só, que enviou para a morte, tortura e campos
de trabalho, milhões de homens e mulheres que discordavam do caminho que a
Revolução levava. O que me leva a exaltar a seriedade deste livro é, repita-se, exactamente
a linha histórica levada a cabo para não esquecer o motivo da Revolução, ou
seja, a matriz que lhe deu corpo e que a levou à vitória, à sua realização posterior, ao seu aviltamento burocrático e ao desmembramento de 1989-91: a revolução dos produtores contra uma sociedade
intrinsecamente injusta e baseada na exploração do homem pelo homem. Não convém
esquecer, na ocasião e hoje talvez mais premente que nunca, a necessidade de
construir novos «impossíveis», mas com as lições do passado. Para os que não as têm presentes, um aviso sério do historiador: a
História não perdoará a quem repetir os erros cometidos.
Seria, todavia, fastidioso estar aqui a citar o índice
onomástico das rupturas e dissidências já nossas conhecidas e familiares, visto
que estamos a falar no domínio da esquerda marxista ou marxiana (para os que pensam que Marx
nunca foi marxista). Gostaria que falasse mais na «minha» dissidência? Claro
que sim. E os «longos anos sessenta» foram riquíssimos nesses cortes. Mas, para
isso, esta síntese notável de Rui Bebiano dá-nos um caminho seguro de
referências bibliográficas. Depois, bom, será com cada leitor, mas que se nota
um equilíbrio e um prazer visíveis a cada leitura e a cada capítulo (com mais força para o
final, diga-se) dessa enorme paleta de cores que são as esquerdas, é uma
verdade que dificilmente será contestada.
O conhecimento e a interiorização histórica das esquerdas
fazem-se também pela leitura deste No Labirinto de Outubro. Que lastro nos
ficará na construção desses «impossíveis» bem desenhados por Rui Bebiano é uma
demanda que será sempre individual, mas com a certeza razoável de que as «novas
subjectividades» serão sempre colectivas.
António Luís Catarino
Coimbra, 9 de Setembro de 2020
segunda-feira, agosto 31, 2020
«Epítome de Pecados e Tentações», de Mário de Carvalho
Há poucos escritores assim. E talvez não erre se disser que Mário de Carvalho será o único escritor que conhece como ninguém a nossa classe média criada com Cavaco Silva lá pelos anos 80, da Bolsa e toda caganças, possuidores de Jaguares, Rolex, plenos de Joana Vasconcelos e José Rodrigues dos Santos, visto que também são dados às artes. Elas são mais cultas e sensíveis que eles, mas também cruéis, estilo «não estar apaixonada mais de 12 horas seguidas». E será necessário ter acompanhado a escrita dele para notar o seu poder de síntese e de observação que, em poucas linhas, nos leva a perceber as características físicas e psicológicas das personagens. A arte do conto não é fácil de fazer, suponho, mas, quando é conseguida, lê-se com um interesse crescente. Foi o que aconteceu comigo: comecei a ler «Epítome de Pecados e Tentações» ainda na livraria e acabei-o no mesmo dia em casa. Como as mulheres que povoam os contos a engatar homens desajeitados, machos latinos, imberbes ou hesitantes. Foi tiro e queda! Quem, senão Mário de Carvalho, pode escrever assim uma cena de amor «(…)O ror de tempo que ele demorava, festas, festinhas, mais aqui, mais além, agora o do lado direito, agora o do lado esquerdo, depois os dois, agora mais abaixo…Não era inteiramente desagradável, mas vinha muito cheio de lances, confusões e cócegas. O meu homem do matrimónio avia esta coisa despachadamente, em força, acima, a fundo, mas este era todo de caganifâncias. Chupava, soprava, lambia, intrometia mão, nariz, dedos… Fazia-me impressão. Tive que lhe dar um par de sapatadas. Se era para entrar, que entrasse como Deus manda, usando o meio competente, eu esperava e consentia. Agora atravessamentos pianistas… era só sentir corpos estranhos onde não deviam estar. Fazia-me impressão. Arredei-lhe a mão, com força. E ele a dar-lhe. Nova berlaitada minha.(…)» e as sapatadas continuam pelo livro todo em cima de homens cheios de convicção, mas algo rebaixados com as mulheres de iniciativa confirmada. O que os deixa em baixo.
Mas voltemos à burguesia tão cara à observação atenta de
Mário de Carvalho. Notem esta introdução à caracterização de um certo auditor, uma
personagem ímpar do livro: «Descendente de campónios, aquela sagacidade
instalada, a inteligência de lidar com a diversidade, o domínio sereno das nomenclaturas,
a compreensão dos modismos, o complexo lastro casuístico causavam nos colegas
uma interrogação atónita. Eles, ao fim e ao cabo, eram filhos de
pequeno-burgueses urbanos, não sabiam o nome dum pássaro, dum insecto, duma
árvore, mas tinham sido acostumados, desde muito novos, a dares e tomares, com
as camadas sociais intermédias. Palavras, gestos, atitudes, pausas.» O mote e o
ambiente estão dados e a entrada triunfal do auditor acontece agora perante a
submissão do resto dos colegas. Agora o homem poderá falar da mulher como
«minha esposa» e usar advérbios como «tocantemente» e «talqualmente». Digam-me
que nunca viram pessoas assim. Eu, pela minha parte, encontro-os quase todos os
dias. São uma chusma de gente em cada repartição, instituição ou acomodação
política.
Um livro a ler com a urgência necessária, mesmo que para
isso tenhamos de nos interrogar a cada linha: «’pera aí! Eu já fiz isto?», «mas
este sou eu?», ou pior um pouco «já tratei alguém por você? Alguém me tratou
por você?». É que eu sou doutor. Se possível com um largo e complexo lastro
casuístico! Impagável, este livro.
António Luís Catarino
Coimbra, 31 de Agosto de 2020
«O Vermelho e o Negro», de Stendhal

Houve quem dissesse que «O Vermelho e o Negro», de Stendhal, era uma história da luta de classes… mas ao contrário! Embora não saiba já quem o disse, a verdade é essa. Julien Sorel é um sacana, aliás, mais que um sacana. Um verdadeiro filho da mãe que não a nomeia sequer uma única vez em todo o romance. Só o ódio pelo pai, carpinteiro, e pelos dois irmãos que não suportavam o ar pedante do herói de Stendhal. Conseguimos mesmo embirrar com a hipocrisia e o ar angélico de quem estudou pelos jesuítas no seminário e se preparava para ser padre, ou talvez bispo. Julien subiu todos os degraus da escala social da época francesa da Restauração aristocrática iniciada em 1830. Embora devoto de Deus e de Napoleão, nunca mostrou publicamente a admiração deste último, porque isso o poderia embaraçar. Inteligente, mas pouco culto, sabia somente os Evangelhos de cor e em latim o que fazia com a burguesia e aristocracia abrissem, com espanto e denodo, as suas bocas em jantares e salões que frequentava. Depois de amar Madame de Rênal, cujo marido serve de trampolim social a Sorel, vai para casa do Marquês de Mole que lhe abre as portas da nobreza lembrando-lhe sempre a sua pobre ascendência pequeno-burguesa. Julien não se verga continuando a mostrar-se bastante adestrado para a casa De Mole, enquanto lhe seduz a filha, Matilde, que engravida. A sua «carreira», de um extremo calculismo, sofre um abalo fatal e o fim do livro é pungente do romantismo mais exacerbado, mesmo que Stendhal seja conotado com o início do realismo: tenta matar a senhora Rênal a tiro e após a sua mulher tentar corromper o júri do tribunal, após várias tramas políticas, Julien é condenado à morte pela guilhotina, o que acontece. A sua cabeça é colocada literalmente no colo de Madame Rênal!
No fundo, a aristocracia triunfa sobre a burguesia, mas «O
Vermelho e o Negro» traduz bem a luta por vezes surda, outras, completamente
aberta, entre as várias personagens pertencentes às classes sociais opostas. O
medo da revolução ou da revolta das classes subalternas, ou seja, o medo de
1789 ou, mais concretamente, do «Terror» de 1793, está sempre presente em todo
o romance e as decisões são tomadas tendo em conta o domínio político e social
da aristocracia após a época imperial. Marquês de Mole, numa reunião política
secreta em que Julien a secretaria, chega a afirmar que se o projecto
aristocrático falhar depois de 1830, a Europa só conhecerá repúblicas e os castelos
e igrejas serão pilhados sem piedade. Ainda faltava algum tempo até 1848 e 1870!
Stendhal foi um soldado de Napoleão e, como tal, esteve na
Itália em serviço militar. Observador, sabia do que falava e não esconde a sua
simpatia por Napoleão, mas é igualmente explícita a sua antipatia quer pela aristocracia,
quer pela burguesia, que lhe chama balofa e ávida de subir socialmente, seja a
que preço for. Entra aqui Julien que é bem o retrato desta mesma classe e que
paga com a sua vida esse propósito.
Mas o autor de «O Vermelho e o Negro» é clarividente: a
burguesia substituirá, pela paz ou pela força e pela violência, o que nunca se saberá,
a ridícula nobreza já mais morta que viva, praticamente dizimada entre 1789 e
93, alvo de expropriações, conhecedora de dificuldades nunca antes sentidas na
emigração, endividada e sempre aberta a receber prebendas dos governos, tentando
aumentar os impostos e direitos sobre o povo, que odeia. O que é retribuído por
este, aliás. O ressentimento existe em cada página do livro. O ódio que
alimenta Julien contra toda a nobreza que o recebe em casa e que lhe dá a
perspectiva de ascensão social é disso testemunho. Mas a nobreza sabe que
poderá perder a sua prevalência política e social e, para a evitar, nada melhor
do que imitar o liberalismo, seu inimigo, criando condições para eleições,
jogando o jogo da política e comprando apaniguados, apoiando-se na igreja e no
exército. De Mole, opõe-se a um golpe de estado para restabelecer um governo
mais radical que poderia fazer entrar em guerra a França contra a Áustria e a
Prússia ou mesmo contra a Inglaterra. Para quê criar um exército de leais ao
absolutismo se depois de morrerem os soldados, vinham outros e outros, acabando
o exército de ser composto, se isso acontecer, por camponeses? É este o terror
da nobreza; que as armas se virem contra ela. Lutar contra a revolução,
substituindo 1789? Não seria possível. Aqui está a clarividência de Stendhal e
uma lembrança do absolutista De Maistre: «lutar contra a Revolução é o mesmo
que tentar engarrafar o lago de Genebra e colocá-lo numa adega!»
António Luís Catarino
Coimbra 31 de Agosto de 2020
quinta-feira, agosto 27, 2020
«O Ouriço e a Raposa», de Isaiah Berlin

Era uma vez um ouriço e uma raposa... este ensaio de Isaiah
Berlin poderia iniciar-se assim mesmo, que não levaríamos a mal. Poderia tomar
a forma de uma fábula, mas não é disso que se trata. É uma adaptação de versos
de Arquíloco quando este afirma «A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe
uma coisa muito importante.» Quereis ser raposa ou ouriço? Aqueles que veem o
mundo através de um princípio organizador único serão um ouriço. Raposas serão
os que interpretam o mundo através de várias pontas e vários prismas. I.B. dá
então um exemplo: como raposas estão inseridos Dante, Heródoto, Aristóteles,
Montaigne, Erasmo, Molière, Goethe, Púchkin, Balzac e Joyce; ouriços, embora em
graus diferentes, são Platão, Lucrécio, Pascal, Hegel, Dostoiévski, Nietzsche,
Ibsen e Proust.
Para um liberal como Isaiah Berlin esta preocupação de
catalogar personalidades tão ricas, de ambos os lados, não deixa de nos espantar
e mesmo preocupar, pensando nós que esta necessidade de compartimentação
intelectual, não se sabe bem porquê, pertenceria eventualmente à esquerda,
traduzida do «gauche» francês por
canhestro, desajeitado, do italiano «sinistra», belíssimo termo que nos
transporta a uma entidade suspeita de muitos males e a portuguesa «esquerda»,
esquerda que, até meados do século XX, ainda era conotada com o diabo, razão
pela qual os canhotos eram obrigados na escola a corrigirem, por vezes à pancada,
a mania estúpida de escrever sem ser com a mão direita! E, já agora, Lenine para quem o
esquerdismo era uma doença infantil do comunismo, tipo sarampo ou escarlatina.
Mais nos admiramos com a prelecção de Berlin, considerada
pelo The Guardian como o 28º melhor ensaio de todos os tempos (nada meigos!),
quando este se debruça sobre o «Guerra e Paz» de Tolstói e sobre o autor,
ele-mesmo. Tolstói não figura, se repararem naqueles rótulos, como raposa ou
ouriço. Isaiah Berlin coloca-o num limbo afirmando que Tolstói era um ouriço
que queria ser raposa, devido à sua visão unitária do mundo, mas com dúvidas
imensas que o levavam a analisar tudo sob várias perspectivas. Até se
compreende mas, ao afirmar que Stendhal era a «dívida» de toda a obra de
Tolstói o que ele teria corroborado numa entrevista, porque não o colocou
aquele como raposa? Mas a surpresa maior é que esta alocução, que teve vários
títulos diferentes, críticas a rodos e contrariedades várias, e que nos
apercebemos nesta edição, tem o sub-título de «Ensaio sobre a visão da História
de Tolstói» e aqui, com a devida proporção, surgem tantas dúvidas quantas as
que teve Tolstói durante toda a sua vida! Como se pode afirmar o positivismo de
Tolstói no epílogo de «Guerra e Paz» que, como nos lembramos, é dedicada às
questões históricas? Ora, como sabemos, o positivismo trouxe consigo algumas
correcções necessárias às Ciências Humanas, mas limitou-se, em História, a uma
descrição interminável de factos e acontecimentos datados, que teriam como
protagonistas actores de vulto fossem eles somente reis, presidentes, ministros
ou cabos de guerra. Quando lemos o epílogo da obra de Tolstói reparamos que
nada disto é seguido optando este por descrever a História como uma sucessão de
factos em que os agentes políticos ou militares nada mudam, nunca transformam
nada de facto, julgando-se, ao mesmo tempo, donos do devir do mundo. Tolstói
apresenta-nos a sucessão de acontecimentos históricos como sendo originados por
forças ocultas, telúricas, criadas por uma mole imensa de vontades estranhas e
que se conjugam aqui e ali numa forte torrente. Chega a desdenhar os grandes
vultos do seu tempo, como Kotuzov, Napoleão, Alexandre, Catarina ou os
Habsburgos que julgam poder mudar alguma coisa. Portanto, Tolstói positivista?
Há, contudo, outras afirmações que não são menos polémicas
por parte de Isaiah Berlin. Já sabemos que ele era um liberal adverso de todos
os totalitarismos. Se pensarmos que este ensaio foi escrito em 1953, oito anos
após o derrube do nazi-fascismo em que os sentimentos antifascistas estavam
muito vivos (mais do que hoje, diga-se), compreende-se que se possam ver
teorias fascistas de um modo exacerbado, mas Tolstói precursor do fascismo indo
buscar a Proudhon e a De Maistre as suas ideias não será um pouco demasiado?
Mesmo que no fim de um capítulo do ensaio I.B. seja mais suave. Vejamos o que diz Berlin: «A analogia [com De
Maistre] não pode, ainda assim, ser excessivamente vincada: é verdade que tanto
Maistre e Tolstói atribuem a maior importância possível à guerra e ao conflito,
mas Maistre, como Proudhon depois dele, exalta a guerra e declara-a misteriosa
e divina, enquanto Tolstói a detesta e a considera, em princípio, explicável,
desde que saibamos o suficiente acerca das muitas pequenas causas – o famoso
«diferencial» da história. (...) A visão de Maistre é a de um mundo de
criaturas selvagens que se atiram umas às outras sem dó nem piedade, matam por
matar, coisa que vê como a condição normal de toda a vida animada. Tolstói está
longe de tal terror, crime e sadismo, e não é, com a devida licença de Albert
Sorel e Vogüé [estes verdadeiros arautos do fascismo moderno], em sentido
nenhum, um místico: não receia questionar nada e acredita na existência de uma
qualquer resposta simples – basta que não insistamos em torturar-nos a
procurá-la em lugares estranhos e remotos quando ela está sempre à nossa frente.»
E as diferenças continuam por mais páginas a seguir a esta.
Pergunta-se agora: de que vale levantar uma questão através de uma afirmação
polémica, como exemplo «...seria Tolstói um seguidor de De Maistre [ou já agora
de Bossuet] paladinos do absolutismo e seguidos por fascistas?», para depois
passar o resto do ensaio (o 28º oitavo melhor de todos os tempos, repita-se!) a dizer o
contrário e a sublinhar as diferenças? Será esta a verdadeira metodologia para
um êxito ensaístico?
António Luís Catarino
Coimbra, 27 de Agosto de 2020
quarta-feira, agosto 19, 2020
«Guerra e Paz», de Lev Tolstói
O que dizer após uma leitura de «Guerra e Paz»? Um manancial
de dúvidas se sobrepõe no seu final. Não as dúvidas elaboradas por Lev Tolstói,
muitas do domínio metafísico com que encerrou a sua vida, nem pelo seu estranho
epílogo em que interroga sobre o papel da História no desenvolvimento dos
acontecimentos humanos, mas tão só pelos papéis de André, Pedro e de Karataiev,
ou de Natacha e de Maria. Por mais que se leia e tente interpretar aquelas
personagens nunca chegaremos a entender o seu papel determinante no decorrer da
saga. Creio que esse facto é o que faz um verdadeiro romance. Serão todos alter
egos de Tolstói? Escreveram-se páginas infindáveis sobre «Guerra e Paz» e, não
me atrevendo a qualquer análise pequena que seja, aquilo que me vem à cabeça é
que Tolstói dividiu a sua existência atribulada e contraditória nestas
personagens bem reais com sentimentos múltiplos e diversos em que já passámos
na nossa vida. É isso que faz a utilidade e unidade de um romance, se bem podemos
expressar-nos desta maneira. E as imagens que «Guerra e Paz» nos dá! Um
imperador da Rússia, imberbe, rancoroso, quase imbecil e permeável que se
mostra da varanda do seu palácio comendo uma bolacha, acenando, e, endeusado por
uma multidão, entusiasma-se de tal modo que, pedindo um prato cheio, as atira ao povo! André, quando é ferido gravemente em Austerlitz, olhando para o céu e
para os campos, abandona-se a uma grande calma e plenitude, amando naquele
instante a humanidade e a natureza. Também a imagem de Napoleão fugindo de Kotuzov
que nem o chega a atacar frontalmente, de uma Moscovo destruída deixando as
suas tropas para trás com todos os sofrimentos possíveis e este marechal, como
uma raposa sabida, que contra todos os arrivistas, segue a sua própria
estratégia de desgaste do inimigo e confia na sua Mãe-Rússia que expulsa os
soldados franceses como um corpo estranho se tratasse. E Pedro, conde ilegítimo,
herdeiro de uma imensa fortuna da nobreza que por fastio e aborrecimento o seu
pai lhe deixa, e que encontra a felicidade no despojamento material, espiritual
e também no segundo casamento com a ingénua Natacha, enquanto se comove com a
sua própria filantropia para com os miseráveis camponeses russos, dando-lhes
escolas, hospitais e abolindo as corveias que quase o arruínam. Admira-se
quando estes, habituados à escravidão, o não compreendem. Maria, esse miasma
criado por um pai absoluto, teocrata, que humilha a sua fé e que só se liberta
casando (por conveniência? Nunca o saberemos.) com um Rostov, da grande nobreza
já endividada, no início do século XIX.
Este mosaico de personagens é de uma riqueza impressionante
só ao alcance de alguns. Não sei se acreditam na genialidade, mas gostava de
ver o caixote de lixo de Tolstói e ver o quanto teve de trabalhar para chegar a
este apuramento narrativo. Juntamente com questões mais comezinhas como esta e
que me poderão responder: a) quem era Madame de Souza que é citada numa festa
nobre de um salão? b) porque aparece várias vezes o nome de Conde Tolstói ou
Ostermann-Tolstói como sendo um importante membro do conselho superior militar
do imperador, Alexandre I, quase cinquenta anos antes de «Guerra e Paz»? Será
este um ascendente do escritor?
António Luís Catarino
Atalaia, 19 de Agosto de 2020.
segunda-feira, agosto 17, 2020
Ler um suicídio. Ver um suicídio.

Vista do miradouro da Catedral de Lausanne
Ler a notícia de um suicídio é uma coisa. Ver um suicídio é
outra. Bate-nos forte cá dentro. No dia 9 de Agosto, subíamos para a Catedral
de Lausanne ao fim da tarde. Havia à frente da porta principal um promontório
onde se poderia ver grande parte da cidade, o lago Léman e os Alpes já despedidos,
devido às alterações climáticas, das suas neves perpétuas. Era o último dia que
passávamos em Lausanne.
Saímos de casa pelas vinte. Poucos minutos depois a polícia
barra-nos o caminho no passeio para peões. Achámos estranho porque víamos uma
alteração de trânsito que nos pareceu um pequeno choque entre automóveis e uma
moto. Mas isso era na via rápida, não no passeio. Na sequência da conversa com
o polícia tentando perceber a razão de não podermos circular, vimos, então, o
corpo de um homem que me pareceu de cerca de quarenta anos. Vestia calças
castanhas e um pólo creme. Faziam-lhe a reanimação. Um transeunte disse-nos que
se tratava de um suicídio. O homem tinha-se atirado de um viaduto de trinta
metros de altura e encontrava-se logo atrás de um Audi e ladeado por uma moto.
O automobilista e o «motard» estavam nitidamente alterados. A polícia
interrogava as testemunhas. Teriam visto o corpo a cair? Certamente que sim. No
viaduto, por cima de nós, a polícia também fechou o trânsito e falava com um
grupo de adolescentes que viram o homem a saltar. Havia jovens de lágrimas nos
olhos, outros que choravam abertamente, mesmo uma hora depois do que aconteceu
e quando passávamos pelo viaduto que pensávamos então livre.
A reanimação continuava e convencemo-nos, à medida que
descíamos da Catedral e ainda sob comoção, que todo aquele acto de reanimação era
para descansar os transeuntes que paravam nas redondezas. Alguém poderia
sobreviver a uma queda daquela altura? Fiquei, ficámos, transtornados com a
vista do corpo inerte. Passou-me tudo pela cabeça; quem seria? Donde vinha,
onde residia? Seria suíço, um migrante, um refugiado? Que levaria aquele homem
a cometer um suicídio à vista de todos, sinal de profunda depressão e de raiva
não contida? Aquele grito seria para nós? Terá sido por amor? Por desemprego ou
por perder a casa? Gostaríamos de saber pelo menos o seu nome. Naquelas
condições passa-nos tudo pela cabeça e ficamos prostrados, impotentes perante o
corpo. Tentamos uma explicação o mais possível racional para o que acabámos de
ver.
O que vimos foi um ponto final numa vida. Um homem pôs-lhe
termo de uma forma brutal, dirigida a nós. Sem apelo, nem agravo. Não quis
viver mais e nós nunca havemos de compreender isso, pensando que há sempre uma
saída e mesmo que em certas situações, qualquer pessoa saudável, tenha pensado
no seu próprio suicídio.
O poema cínico de Álvaro de Campos «Se te queres matar, por
que não te queres matar?/ Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a
vida,/ Se ousasse matar-me, também me mataria.../Ah, se ousares, ousa! veio-me
à memória quando olhei (...)» veio-me então à memória e fiz desfilar em mim
alguns suicídios que marcaram, de uma forma indelével, os meus amigos que
escolheram essa estrada da memória e da vida, pondo-lhe fim, de uma forma violentíssima. Dirigidos, provavelmente, aos que cá ficaram.
Aquela morte em Lausanne marcou-nos. Como seria esse o
objectivo do homem que se suicidou. Uma pessoa não consegue esquecer.
António Luís Catarino
Atalaia, 17 de Agosto de 2020
terça-feira, julho 28, 2020
«Vida de Ramon», de sobrenome Llull, de Luísa Costa Gomes

terça-feira, julho 21, 2020
«Eternidade», de Ferreira de Castro
segunda-feira, julho 20, 2020
«Le Lambeau», de Phillipe Lançon

![]() |
| A ironia e o sarcasmo sempre presente em Charlie Hebdo. E a liberdade de expressão também. |
quarta-feira, julho 08, 2020
«Teoria da Viagem», de Michel Onfray


