Assírio & Alvim, 1996. Selecção e tradução de José Agostinho Baptista.
A poesia pode ser lida e apreendida através de um ecrã? Por mim, evito-o. Prefiro, de longe, ler poesia no papel e se o fizer num amarelado e já envelhecido por muitos anos, melhor ainda. A cada obcecado a sua mania. Yeats é um caso pouco comum: difícil, metafórico ou alegórico, pleno de hipérboles e elipses, conseguimos, contudo, identificar alguns temas como a proximidade da morte, as torres e lagos que povoam a paisagem irlandesa, o classicismo grego e o amor em estado puro, tão belo quanto doloroso que possa ser.
Dança aí junto ao mar;
Que te importa
O rugido da água, o rugido do vento?
Sacode a tua cabeleira
Molhada de gotas de sal;
Tu que és tão jovem ignoras
O triunfo do néscio, não sabes
Que o amor mal se ganha e logo se perde,
Nem viste morrer o melhor operário
E todos os feixes por atar.
Por que hás-de temer
O terrível clamor dos ventos?
Em «A uma criança que dança no vento», «Responsabilities», 1914.
Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;
Ao longo dos enganadores dias da mocidade,
Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores;
Agora posso murchar no coração da verdade.
Em «Com tempo a sabedoria», «The Green Helmet and Other Poems», 1910.
(...)
Fomos os últimos românticos - por tema elegemos
A tradição da santidade e da beleza;
Tudo aquilo que escrito foi no que os poetas chamam
O livro das gentes; o que melhor consagre
O pensamento do homem ou eleve qualquer rima;
Mas tudo mudou, sem cavaleiro vai esse alto cavalo, Ainda que em tal sela cavalgasse Homero
Por onde navegam os cisnes e anoitecem as águas.
Em «Coole Park e Ballylee», 1931.
(...)
Nós Irlandeses, nascidos dessa seita antiga
Mas atirados à imunda maré moderna
Náufragos da sua fúria informe e da sua rebentação,
Escalamos a nossa própria treva, para assim definir
As linhas de um rosto medido a prumo.
Em «As Estátuas», «Last Poems»,1936-39.
Restam quadros e livros,
Um acre verde de erva
Para ar e exercício,
Agora que o corpo se esgota;
Meia-noite, uma velha casa
Onde apenas se move um rato.
Calou-se a minha tentação.
Aqui, no fim da vida,
Nem a liberta imaginação,
Nem o moinho do pensamento
Seus desperdícios consumindo,
Podem revelar a verdade.
(...)
Em, «Um Acre de Verde», «Last Poems», 1936-39.