sábado, outubro 24, 2026

sexta-feira, outubro 23, 2026

"L'étranger", Albert Camus

 

Folio Gallimard, 2026.

Não me recordo da primeira vez que li «O Estrangeiro», mas sei que era um jovem estudante liceal e a edição era a da colecção Unibolso que comprava frequentemente. Zangado com a sociedade portuguesa de então, este livro caiu-me de um modo muito impressivo e quase libertador, mesmo que o tema seja em si considerado pesado. Não o larguei durante tempos e continuei a falar dele nos cafés e com amigos que também o liam. Mais tarde afastei-me de Camus de quem não compreendi de todo o seu «O Homem Revoltado», aqui já por motivos políticos. Hoje, tenho-o comigo. Camus é assim: difícil ao início, mas o seu pensamento impõe-se suavemente, como que a pedir licença de ter razão.

Nunca mais esqueci o seu «Aujourd'hui, maman est morte.» com que inicia «L'étranger» agora relido na colecção Folio, de 2026. Meursault é uma figura singular por quem nos aproximamos, compreendemos, através da escrita envolvente de Camus. Dividido em duas partes o romance parte da vida de um homem para quem a vida é a sucessão indiferente dos dias. A sua rotina é o trabalho, o almoço no restaurante perto do emprego, os vizinhos do prédio e Marie, a sua companheira. Pouco lhe interessa saber se Marie quer casar, se a ida ao cinema é uma hipótese louvável, se Raymond bate na namorada, se o cão do vizinho desapareceu, nada o faz intervir no curso dos acontecimentos, assim como no enterro da própria mãe não ter os mesmos gestos acostumados de um filho em luto. No dia seguinte vai a um cinema cómico, à praia com Marie e está com ela à noite. Tudo isso vai ser colocado em cima da mesa de um juíz, num verdadeiro espectáculo judicial em que tudo o que é dito terá um peso determinado e que jogará contra Meursault que assassinou a tiro um homem, porque, segundo ele, o sol o ofuscou quando se pretendia defender. 

O absurdo da existência em toda a sua crueza tem aqui lugar neste romance icónico. Camus faz desta história um forte libelo contra a pena de morte e o sistema prisional pondo em causa o cristianismo e a sociedade que se torna tão ou mais indiferente e cruel que o acto fortuito de Meursault. 

alc

quinta-feira, outubro 22, 2026

"Uma Antologia", W. B. Yeats

 

Assírio & Alvim, 1996. Selecção e tradução de José Agostinho Baptista.
 
A poesia pode ser lida e apreendida através de um ecrã? Por mim, evito-o. Prefiro, de longe, ler poesia no papel e se o fizer num amarelado e já envelhecido por muitos anos, melhor ainda. A cada obcecado a sua mania. Yeats é um caso pouco comum: difícil, metafórico ou alegórico, pleno de hipérboles e elipses, conseguimos, contudo, identificar alguns temas como a proximidade da morte, as torres e lagos que povoam a paisagem irlandesa, o classicismo grego e o amor em estado puro, tão belo quanto doloroso que possa ser. 

Dança aí junto ao mar;
Que te importa
O rugido da água, o rugido do vento?
Sacode a tua cabeleira
Molhada de gotas de sal;
Tu que és tão jovem ignoras
O triunfo do néscio, não sabes
Que o amor mal se ganha e logo se perde,
Nem viste morrer o melhor operário 
E todos os feixes por atar.
Por que hás-de temer
O terrível clamor dos ventos?

Em «A uma criança que dança no vento», «Responsabilities», 1914.

Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;
Ao longo dos enganadores dias da mocidade,
Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores;
Agora posso murchar no coração da verdade.

Em «Com tempo a sabedoria», «The Green Helmet and Other Poems», 1910.

(...)
Fomos os últimos românticos - por tema elegemos
A tradição da santidade e da beleza;
Tudo aquilo que escrito foi no que os poetas chamam
O livro das gentes; o que melhor consagre
O pensamento do homem ou eleve qualquer rima;
Mas tudo mudou, sem cavaleiro vai esse alto cavalo, Ainda que em tal sela cavalgasse Homero
Por onde navegam os cisnes e anoitecem as águas.

Em «Coole Park e Ballylee», 1931.

(...)
Nós Irlandeses, nascidos dessa seita antiga
Mas atirados à imunda maré moderna
Náufragos da sua fúria informe e da sua rebentação,
Escalamos a nossa própria treva, para assim definir
As linhas de um rosto medido a prumo.

Em «As Estátuas», «Last Poems»,1936-39.

Restam quadros e livros,
Um acre verde de erva
Para ar e exercício,
Agora que o corpo se esgota;
Meia-noite, uma velha casa
Onde apenas se move um rato.

Calou-se a minha tentação.
Aqui, no fim da vida,
Nem a liberta imaginação, 
Nem o moinho do pensamento
Seus desperdícios consumindo,
Podem revelar a verdade.
(...)

Em, «Um Acre de Verde», «Last Poems», 1936-39.


segunda-feira, outubro 19, 2026

"Mundo Belo, onde Estás", Sally Rooney

 

Relógio D'Água, 2021. Tradução de Marta Mendonça.

Sally Rooney. É este o nome de uma jovem escritora irlandesa que foi cancelada pela sua editora inglesa, a Faber. Estou a ler, neste momento, o seu "Mundo Belo, onde Estás" editado em Portugal pela Relógio D'Água, onde tem outros títulos. Qual o seu crime para ser assim censurada? Apoiou abertamente o Palestine Action que, segundo o governo inglês, é uma organização terrorista e sem que por um momento se interrogue sobre o genocídio diário de palestinos perpetrado por Israel. Sally Rooney opôs-se, tomou partido. Foi o que bastou para recolherem os seus livros em Inglaterra. Tem 35 anos e vê assim a carreira diminuída, ou talvez não, se ainda houver pessoas que não se dobrem desta maneira. Não venho falar dos seus livros, que são extremamente interessantes pela dimensão humana, pela preocupação climática e civilizacional, pelo seu anticapitalismo. Subiu entretanto alguns degraus na minha consideração. Só espero que a sua editora portuguesa, a Relógio D'Água, repete-se, tenha em consideração estes factos e que a consiga proteger da censura e do cancelamento.

É notória a frontalidade que Sally Rooney nos oferece neste «Mundo Belo, onde Estás». As suas jovens personagens são acometidas por uma incomodidade, uma insatisfação que se pressente a cada diálogo ou em qualquer descrição narrativa. Essa postura marca todo o livro. Não que sejam pessoas egoístas, autocentradas ou egocêntricas, mas não se permitem serem infelizes quando tudo aponta para que sejam pessoas sós, isoladas socialmente. A comunicação é ela própria omnipresente através de computadores portáteis e telemóveis, mas quando existe uma presença física, parece que tudo desaba numa má onda, ou se eleva a um ambiente de euforia. Não há meio termo, tudo é envolvido numa espécie de vórtice que atrai as personagens para um abismo sentimental em jogos que podem magoar a sério. è a família que já não tem sentido, é o capitalismo que eleva o preço das casas de Dublin à estratosfera, são empregos de merda (para parafrasear David Graeber) mal pagos, ou empregos com ordenados de luxo e inúteis, são relações fictícias e tristes, expectativas de amor sentido e partilhado e a possibilidade do apocalipse que já se vai sentido num planeta doente e um capitalismo predatório. Acusam, e Sally Rooney di-lo sem complexos, que o seu estilo roça a obscenidade. Não creio que seja assim: o seu «Mundo Belo...» é cru, frontal, sem rodriguinhos e é isso que nos atrai. Por outro lado, não se vê que a profusão de diálogos em mensagens sms ou em email's diminua um estilo literário já de si muito interessante.

alc


quarta-feira, outubro 14, 2026

"Terra", Maggie O'Farrell

Relógio D'Água, 2026. Tradução de Tânia Ganho

Como dizia Joyce, também ele irlandês como Maggie O'Farrell, «a vida é demasiado curta para ler maus livros», e assim é. «Terra» é um livro maravilhoso, mas pleno de grande realismo, em que se entrecruzam histórias de uma família apegada a um bairro de Dublin e que parte para uma Irlanda rural como forma de fugir a uma pobreza endémica no país. Este romance literariamente interessante é o facto de surgirem personagens solidamente construídas que evoluem para situações limite, contudo inteiramente verosímeis. E essa verosimilhança, na Irlanda do século XIX, passará pelos quatro anos da Grande Fome, pela emigração massiva para novos continentes e pelo ódio aos terratenentes dos senhorios rurais que se obstinavam pela continuação dos seus privilégios o que significava a permanência da exploração miserável do povo irlandês. Também a luta contra o colonialismo inglês está bem presente em Maggie O'Farrell num inteligente jogo de uma personagem importante de «Terra», o pai da família, que é contratado para registar num mapa uma península a quem é dada nomes ingleses substituindo o gaélico antigo. Com esses nomes roubados e outros inventados estabelece-se uma deriva através das lendas e de animais mitológicos que povoam a cultura irlandesa que, naquele século, foi subvertida com uma violência incomparável, mesmo nas experiências coloniais mundiais que foram férteis então. O romance «Terra» transmite-nos a luta, a resistência, mas igualmente o amor e o ódio, a incongruência e a sobrevivência perante a adversidade. Seguirei com atenção merecida Maggie O'Farrell.

alc

quinta-feira, outubro 08, 2026

«Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?», Philip K. Dick

 

Relógio D'Água, [1ªed.1968] 2016. Tradução de Raquel Martins.

Um filme inesquecível de um Ridley Scott muito irregular no que toca à realização de bons filmes. De qualquer modo, «Blade Runner» impôs-se por si, pelo ambiente criado e pelas fortes personagens que lhe deram corpo. As últimas imagens do replicant Roy Baty perante o caçador de prémios Rick Deckart é de antologia do cinema, assim como a música de Vangelis que as acompanhavam. O livro «Será que os Andróides Sonham com Ovelhas Eléctricas?» (agora em português pré-AO90), produz aquele ambiente soturno, pesado, que o filme transforma em chuva contínua. O lixo acumulado, as cidades quase abandonadas perante uma população reduzida a um punhado de residentes em urbanizações vazias, a polícia toda poderosa assim como as grandes corporações de fabricantes de robots e andróides ou de animais eléctricos, falsos, são uma constante da ficção de Philip K. Dick. A guerra mundial terá destruído vastas regiões do planeta que era assolado por nuvens de pó radioactivo e que obrigou grande parte da população a emigrar para as colónias planetárias.

O que é interessante observar em «Será que os Andróides Sonham com Ovelhas Eléctricas?» é a dualidade de sentimentos que temos perante os replicants (traduzidos por Raquel Martins por ''andróides''); a tradução é muito boa, mas não traduziria o termo inglês de «replicant», porque tem duplo sentido de «réplica», como andróide, e replicante, que nos transporta para um indivíduo ou humanóide insubmisso ou insubordinado. Nesse sentido, seria muito capaz de deixar o termo replicant, sem tradução. Essa dualidade surge, sobretudo, porque o autor deixa-nos quase sempre na dúvida sobre a autodeterminação de um robot, sobre a vontade inata de um humanóide fabricado por humanos, assim como as leis de apartheid que são regidas numa sociedade em que há um  controlo excessivo sobre as acções daqueles. São «retirados» pela polícia, através de uma caça impiedosa quando se rebelam. Numa sociedade artificial, em que tudo é clonado (até os animais e os homens e mulheres), não será difícil imaginarmos um totalitarismo em que os princípios de uma possível rebelião ou motim, ou uma simples dissidência, seria seriamente reprimida e castigada tratassem-se ou não de andróides ou de humanos. 

alc

domingo, outubro 04, 2026

"A Origem", Graça Pina de Morais

 

Antígona, [1ªed.1958], 2022.
    As histórias de casas interessam-me. Graça Pina de Morais, que conheço desde «Jerónimo e Eulália», tem o dom de escrever para além das pedras, das portas e das janelas que as compõem. Aqui, a trama da história são mais as personagens que desfilam entre as salas de uma casa de família com todas as suas contradições e idiossincrasias, mas igualmente com os seus múltiplos afectos e sentidos. Nos anos cinquenta do século anterior, a vida era claustrofóbica, dividida entre espaços confinados por uma repetição contínua dos mesmos gestos e atitudes, muitos deles já automatizados por um tédio insuportável. No entanto, não nos enganemos, porque, mesmo nessas condições, haveria lugar para o surgimento de euforias e arrebatamentos inesperados, observados na profunda análise psicológica da adolescência que Graça Pina de Morais sabe descrever tão bem. Poucos escritores portugueses se atreveram a entrar nos labirintos intrincados da adolescência, vá-se lá saber porquê. Não exigiríamos um Proust, mas sendo uma idade de fervores inauditos, contradições insanáveis e traumas tão arrasadores como rapidamente superáveis, seria uma matéria de exploração literária inesgotável. Provavelmente, não foi coisa que entusiasmasse muito a academia das letras lusas. A vida de um jovem adulto é, quase invariavelmente, tratada como um rol de enganos vários, erros e má fortuna, sofrimentos atrozes, ou quando não, uma espécie de estoira vergas abertos a todos os excessos. Graça Pina de Morais oferece-nos uma adolescência tal como ela é: um tempo de profunda agitação, uma explosão interiorizada de sentidos, um leve temor irónico sobre a vida que lhe é aflorada a todo o momento. A escritora trata a adolescência com uma elegância que não é habitual.

    Não será por acaso, certamente, que as personagens adultas padecem de doenças. Graça Pina de Morais era médica e talvez seja este um motivo para a observação desse facto, mas quem a conhece medianamente e aos seus livros, sabe que poderá não ser essa a razão principal, porque não teria sentido. Algumas personagens padecem de doenças físicas, bem reais, outras nem tanto; essas doenças teriam causas na solidão imposta por normas sociais e tradições familiares que se eternizavam num sociedade quase esquizofrénica em que o papel atribuído a cada um não permitia qualquer fuga dentro desse círculo infligido. Nesse aspecto, «A Origem», as causas de tudo, está na deformidade das relações sociais dentro de uma família fechada, o que torna a leitura do romance tão pesada, como necessária para o tornarmos imprescindível. 

    «Era bom aluno, mas não levava muito a sério as aulas e os professores. Sempre lhe parecera que esses homens circunspectos e geralmente severos, que entravam nas aulas, vestidos de escuro, para expor, por forma mais ou menos fastidiosa, assuntos que não lhe interessavam, estavam simplesmente a brincar aos professores. No entanto, não havia ninguém mais convencido do seu papel do que o professorado daquele liceu de província; formavam, juntos, na sala de reuniões de conselho, uma pequena ditadura rígida e destituída de imaginação, que se fora convencendo do seu poderio e importância com a continuação de governar e de ser temida por uma população de crianças.
    Eram na maioria homens anónimos, indistinguíveis por coisa alguma, arrastando na cidade uma vida insípida e rotineira. 
    João nunca lhes deu individualidade própria, e, depois de abandonar o liceu, esqueceu-os. Apenas guardou por eles um vago reconhecimento pela maneira imponderável como tinham entrado na sua vida, desempenhado um papel e desaparecido sem nunca ocupar qualquer lugar.» (pág.130)

    «João e Catarina viviam numa quase completa liberdade, apenas defendidos pela virgindade mútua: o rapaz, porque era um ser tímido, retraído, um pequeno Narciso cheio de desconfiança sobre si mesmo, que no fundo sentia um certo terror perante as revelações novas que a existência lhe trazia; Catarina, porque instruída no colégio, graças à leitura de livros e folhetins mais ou menos rocambolescos, em que filhas perdidas eram postas fora de casa por pais implacáveis e cobertos de vergonha, acabara de considerar a virgindade como um atributo imprescindível. De resto, muito sensual e instintiva, possuía, como a maioria das mulheres desse género, uma notável intuição. (...) Catinha pressentia que o desejo insatisfeito a tornava mais preciosa aos olhos de João. Estas eram, aliás, as suas únicas vitórias.» (pág.145)

«A verdade é que o misticismo do rapaz não conhecia o freio de nenhuma religião.» (pág.203)

alc