Relógio D'Água, 2026. Tradução de Tânia Ganho
Como dizia Joyce, também ele irlandês como Maggie O'Farrell, «a vida é demasiado curta para ler maus livros», e assim é. «Terra» é um livro maravilhoso, mas pleno de grande realismo, em que se entrecruzam histórias de uma família apegada a um bairro de Dublin e que parte para uma Irlanda rural como forma de fugir a uma pobreza endémica no país. Este romance literariamente interessante é o facto de surgirem personagens solidamente construídas que evoluem para situações limite, contudo inteiramente verosímeis. E essa verosimilhança, na Irlanda do século XIX, passará pelos quatro anos da Grande Fome, pela emigração massiva para novos continentes e pelo ódio aos terratenentes dos senhorios rurais que se obstinavam pela continuação dos seus privilégios o que significava a permanência da exploração miserável do povo irlandês. Também a luta contra o colonialismo inglês está bem presente em Maggie O'Farrell num inteligente jogo de uma personagem importante de «Terra», o pai da família, que é contratado para registar num mapa uma península a quem é dada nomes ingleses substituindo o gaélico antigo. Com esses nomes roubados e outros inventados estabelece-se uma deriva através das lendas e de animais mitológicos que povoam a cultura irlandesa que, naquele século, foi subvertida com uma violência incomparável, mesmo nas experiências coloniais mundiais que foram férteis então. O romance «Terra» transmite-nos a luta, a resistência, mas igualmente o amor e o ódio, a incongruência e a sobrevivência perante a adversidade. Seguirei com atenção merecida Maggie O'Farrell.
alc
