Cavalo de Ferro, 2024. Tradução de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu.
Só a ficção permite este facto singular: sem falar abertamente de política, um romance pode dar-nos o retrato fiel de um país, Espanha, mergulhado numa espiral de paranóia e violência após a guerra civil de 1936-39. «Nada», de Carmen Laforet, descreve-nos uma Barcelona exausta, faminta, castigada como poucas cidades foram após a vitória de Franco e dos fascistas. E com ela toda a Catalunha. Estamos em 1945, data da publicação e descoberta literária de Carmen Laforet a quem é atribuído o Prémio Nadal. Não é só Barcelona, das Ramblas e do mar, que é descrita com os seus odores, o seu frio e canícula do verão, as suas casas gradeadas nas janelas e as suas árvores frondosas. Com estas imagens sobrevive uma família da classe média estrangulada pela violência intrínseca, pela fome, pela depressão e pela ruína, onde o catolicismo coexiste com o pior que o ser humano pode oferecer de cupidez, de violência e de medo. Um medo que se sente em cada linha, como se se abatesse naquela família todo o peso de uma desgraça que se pode declarar a cada instante e sob diversas formas. Não admira, pois, que o fim seja inesperado, tal como inesperado parece ser o futuro que se guarda para a jovem universitária Andrea, a protagonista solitária deste romance e onde, paradoxalmente, as outras personagens se arrastam num verdadeiro quotidiano de um remanso preguiçoso e tóxico. Ela tenta remar contra a maré negra que a invade na sua casa de família entregando-se ao estudo, a uma amizade real com Ena e a uma boémia artística que lhe pode granjear algum bem-estar, mas a sociedade espanhola é demasiado fechada para se atingir um grau de liberdade que essa mesma boémia lhe poderia permitir atingir. Não será por acaso que são os jovens ricos que se entregam à fuga pela arte, como bem nota subtilmente a autora.
Carmen Laforet merece ser conhecida não só como autora de referência, mas também pela sua vertente existencialista. Nasce em 1921 em Barcelona, publica pela primeira vez em 1945 e o seu último romance, «A Insolação» data de 1963. A partir daí, conta com alguns textos dispersos e abandona o meio literário. Morre em 2004 com Alzheimer, contando com um romance póstumo. A edição portuguesa conta com um prefácio de Mario Vargas Llosa e, na badana, uma nota inócua de Ana Cristina Leonardo; mesmo assim não desmerece a leitura de «Nada». Antes pelo contrário.
alc
