terça-feira, março 31, 2026

"Cânone de Câmara Escura", Enrique Vila-Matas


D. Quixote, 2026. Tradução de J. Teixeira de Aguilar 
Valha o escritor que gosta imenso de si próprio, que olha para si e observa, entusiasmado e satisfeito, uma absoluta inteligência, tão viva que o enternece e comove. A verdade é que ser traduzido em 37 línguas e ter um rol de prémios que nascem como cogumelos numa floresta húmida, dispõe positivamente o seu ego literário. Não há nenhum mal nisso, antes pelo contrário, porque a autoestima é um estado cada vez mais enevoado no comum dos mortais de que são feitos os leitores e os escritores querem-se essencialmente felizes. Não para os andróides. Aí, o caso é outro, visto que o novelo da programação informática pode-lhe oferecer toneladas de autoconvencimento e de narcisismo, o que é coisa verdadeiramente humana. E a narração de «Cânone de Câmara Escura» é apresentada e escrita por um andróide. Evidentemente que, sem Vila-Matas os nomear, o leitor que viu o inesquecível «Blade Runner», de Ridley Scott, ou leu o «Será que os Androides sonham com Ovelhas Elétricas?» de Philip K. Dick, na Relógio D'Água, perguntar-se-á onde já tinha lido coisa igual como, por exemplo, a vida de um andróide ter somente quatro anos, terem a tendência assassina para matarem o seu criador, exigirem mais tempo de vida e não terem qualquer referência da sua infância, somente imagens fragmentárias. Tal como a narrativa é apresentada por fragmentos. Nada contra, mas se se me permitem a nota de fim de página em que consiste este texto, é necessário alguma contenção em saber dosear esses mesmos fragmentos num todo comum como faz Pascal Quignard, Emmanuel Carrère, ou Christian Bobin. Ou, ainda, Gonçalo M. Tavares e Fernando Pessoa, este último com a «Tabacaria», tornado o poema lisboeta para turistas, referidos por Vila-Matas. O que este pensa sobre os fragmentos? Cito-o: «Os fragmentos! Não são, não são, como tanto se julga, uma parte do todo, mas sim uma parte importantíssima do todo. Por isso têm de ter a potência suficiente para que possamos abrir um livro em qualquer página e ler sem necessidade de saber o que sucedeu antes ou sucederá depois.» (pág.40). Ficamos avisados, embora algo desprevenidos perante o curso e recurso com que é feita a história que afinal não existe de todo. Enrique Vila-Matas é contra a narrativa? Esclarece deste modo: «Recorde-se bem: ao contrário do que se pensa e que leva àquela alegria de publicar todo o tipo de narrativas, no mundo já não existe a simplicidade inerente à ordem narrativa, essa simples ordem que consiste em poder dizer às vezes: ''Depois de se passar aquilo, passou-se isto, e depois passou-se aqueloutro, etc.'' Desde já não sei quando nos tranquilizou a simples sequência, a ilusória sucessão de factos. Não obstante, há uma grande divergência entre uma prazenteira narrativa e a realidade brutal do mundo. ''Tudo se tornou agora não narrativo'', dizia Musil, frequentador de um universo multidimensional, fragmentário, de um mundo sem possibilidades reais de alcançar uma ordem como a que porventura pôde alguma vez ter existido.» (pág.132). Não sei (reivindico agora o papel de leitor) se o tempo narrativo morreu devido aos males do mundo, também ele fragmentário, segundo Vila-Matas, nem me preocupa saber se ele tem ou não a razão do seu lado no campo literário; o que sei é que é necessário contar, narrar, descrever, exactamente pelo mundo estar como está, exige-se o todo como uma possibilidade de compreensão. E isto nada terá a ver com o real ou a sua inversão tantas vezes necessária. Falo somente do fragmento.

Qual o objectivo último do nosso amigo andróide? O de criar uma biblioteca baseada num cânone de 71 livros e aí encontraremos Sterne, Cervantes, Cortázar, Borges, Duras, e muitos outros numa panóplia de escritos e frases que constituem peças soltas de um enorme puzzle cujo fim demora a descobrir, mas como afirma o autor seria necessário criar um cânone «Mentalmente deslocado e intempestivo, como todos os Cânones interessantes» (pág.41).

No final desta auto-apoteose, deste exercício de estilo sazonal como convém a um escritor premiado, Vila-Matas finaliza o seu trabalho com «Eu e a Minha Chaminé» de Melville, e «O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde», de Stevenson, junto com os «Ensaios», de Montaigne. Também refere uma obra que lhe chamou a atenção: «La última frase», de Camila Cañeque constituído com a 452 últimas frases de 452 livros, um exemplo claro da ideologia fragmentária que alugou para este livro. Fico-me pela última frase de «Cânone de Câmara Escura»: 
«E até no ar percebo o Mal indefinido que está para chegar.»

alc