sexta-feira, outubro 23, 2026

"L'étranger", Albert Camus

 

Folio Gallimard, 2026.

Não me recordo da primeira vez que li «O Estrangeiro», mas sei que era um jovem estudante liceal e a edição era a da colecção Unibolso que comprava frequentemente. Zangado com a sociedade portuguesa de então, este livro caiu-me de um modo muito impressivo e quase libertador, mesmo que o tema seja em si considerado pesado. Não o larguei durante tempos e continuei a falar dele nos cafés e com amigos que também o liam. Mais tarde afastei-me de Camus de quem não compreendi de todo o seu «O Homem Revoltado», aqui já por motivos políticos. Hoje, tenho-o comigo. Camus é assim: difícil ao início, mas o seu pensamento impõe-se suavemente, como que a pedir licença de ter razão.

Nunca mais esqueci o seu «Aujourd'hui, maman est morte.» com que inicia «L'étranger» agora relido na colecção Folio, de 2026. Meursault é uma figura singular por quem nos aproximamos, compreendemos, através da escrita envolvente de Camus. Dividido em duas partes o romance parte da vida de um homem para quem a vida é a sucessão indiferente dos dias. A sua rotina é o trabalho, o almoço no restaurante perto do emprego, os vizinhos do prédio e Marie, a sua companheira. Pouco lhe interessa saber se Marie quer casar, se a ida ao cinema é uma hipótese louvável, se Raymond bate na namorada, se o cão do vizinho desapareceu, nada o faz intervir no curso dos acontecimentos, assim como no enterro da própria mãe não ter os mesmos gestos acostumados de um filho em luto. No dia seguinte vai a um cinema cómico, à praia com Marie e está com ela à noite. Tudo isso vai ser colocado em cima da mesa de um juíz, num verdadeiro espectáculo judicial em que tudo o que é dito terá um peso determinado e que jogará contra Meursault que assassinou a tiro um homem, porque, segundo ele, o sol o ofuscou quando se pretendia defender. 

O absurdo da existência em toda a sua crueza tem aqui lugar neste romance icónico. Camus faz desta história um forte libelo contra a pena de morte e o sistema prisional pondo em causa o cristianismo e a sociedade que se torna tão ou mais indiferente e cruel que o acto fortuito de Meursault. 

alc