Caminho, 2026.
Este romance é como um políptico que possui, consigo, várias linhas narrativas que se interligam e cruzam com uma elegância não muito habitual no romance português contemporâneo. Por isso o lemos com um entusiasmo crescente até à última página. E se é verdade que o leitor atento intui que a autora é honesta, que nos escreve com a sua essência, com o que sente e o que pensa sem subterfúgios, também é verdade que percepcionamos muito trabalho. Um romance com estas características não se fará de um dia para o outro, nem está ao sabor de modas.
A partir dos quadro de Goya, «Os Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808», Patrícia Portela leva-nos a vários enredos entre os quais sobressai a vida e a obra do pintor espanhol, mas igualmente a sua vivência no Museu do Prado, na sala 64, em que se prostrava longamente face ao quadro. É aí um dos pontos mais interessantes do romance: a partilha connosco da sua forma muito singular de observar o quadro a partir de diferentes visões e de análise da vida de cada personagem que o habita. Dos que foram fuzilados e dos que fuzilaram. Do momento em suspenso antes de se ouvir o estampido dos tiros. E assim permaneceu em suspenso no tempo e no espaço até hoje e para todo o futuro.
E depois há a morte, o processo de tanatognose que a escritora nos evidencia através de páginas onde se confunde a sua própria experiência desconfortável de pruridos na pele enquanto vive em Madrid e observa longamente o «Os Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808» no Museu do Prado com a morte sempre presente dos fuzilados e dos que morreram na luta contra a invasão francesa. É, talvez, o mais inquietante de todo o romance, embora existam outros temas paralelos desse políptico de que falava. A História, a Ciência e a Filosofia desenrolam-se inteligentemente em «Hoje, 3 de Maio» interferindo com o decurso da vida quer de Goya, quer das personagens que ele criou no quadro ou, tão-só, pela existência do espaço e do tempo. Torna-se então uma certeza de que o diálogo entre o pintor e a autora despontará num dos mais impressivos trechos desta obra inesquecível.
alc
