sexta-feira, julho 02, 2010

Miguel Carvalho, Prémio Gazeta 2009 com "Joaquim Ferreira Torres - Os segredos do Barro Branco"


O jornalista da Visão Miguel Carvalho ganhou o Grande Prémio Gazeta 2009 pelo trabalho “Os segredos do Barro Branco” sobre Joaquim Ferreira Torres, figura ligada à oposição violenta ao 25 de Abril e assassinado em 1979.  Miguel Carvalho publicou na Deriva "Aqui na Terra"
A REPORTAGEM DISTINGUIDA, na íntegra.
Joaquim Ferreira Torres - Os segredos do Barro Branco

Joaquim Ferreira Torres, industrial e financiador da rede bombista de extrema-direita, foi assassinado a 21 de Agosto de 1979. A morte serviu conveniências privadas e políticas. Mentores e autores não foram descobertos. O crime prescreveu. Trinta anos depois, a VISÃO traz a público novos dados e documentos.


Esta é a história de um homem controverso, de fortuna suspeita, que tentou cair nas graças do fascismo, deu dinheiro à oposição democrática, tirou comunistas da cadeia e ajudou «pides» e empresários a fugir. Um dia, ameaçou «abrir o saco» e calaram-no. A tiro

Naquela manhã, Joaquim Ferreira Torres levantou-se mais tarde do que o habitual. Normalmente, estaria a pé às seis horas. Mas o jantar terminara para lá da meia-noite e ele havia passado a madrugada com dores na coluna. Estava, contudo, bem-disposto ao pequeno--almoço. Era Verão e a família mudara da vivenda das Antas, no Porto, para a sua Quinta de Vila Nova, em Penafiel. A mulher, Elisa, ia para as termas de São Vicente, ali perto. O marido continuava a fazer o percurso diário entre a casa e a fábrica têxtil de que era proprietá rio, em Famalicão, ignorando o significado da palavra férias.

Apesar de discreto e reservado, regressara uma das últimas noites carregando uma mala com mil contos, fruto de um negócio com ciganos.

Atarefado, nem deu importância ao facto de, naquele período, alguém lhe rondar a quinta, questionando os caseiros sobre as suas rotinas. Estranhara apenas as avarias no telefone, quase sempre ao final da tarde. O aparelho parecia ter vontade própria e os técnicos tardavam em descobrir o defeito.


Tal não o impediu de marcar o referido jantar. Encomendara uns melões no restaurante Tanoeiro, em Famalicão, onde almoçava amiúde. O tenente-coronel Oliveira Marques e a esposa eram esperados à noite, vindos de Lisboa. Torres juntou à mesa a mulher, o Quinzinho sobrinho que criou como verdadeiro filho desde os onze meses após a morte de um irmão, a irmã Sãozinha e o cunhado Mota Freitas, major da PSP, entre outros familiares. Antes e depois da refeição, os homens reuniram no escritório. Oliveira Marques foi embora já passava da meia-noite.

Quando acordou, Torres vestiu uma camisa, casaco e calças claras, tipo caqui.
Apertou o cinto de cabedal vermelho e calçou uns sapatos castanho-claros picotados, de pala. No pulso, um Ómega de ouro. Num dedo, o anel, também em ouro, com brilhante de sete quilates.
Guardou a carteira com umas dezenas de contos e numa pequena pasta preta colocou documentos, cerca de 42 mil pesetas e 200 marcos. No casaco, levava a caneta em ouro e a agenda, cheia de contactos.
Nomes de homens de negócios, polícias e militares de várias patentes, velhos conhecidos do antigo regime, cónegos, políticos e cadastrados.
O industrial fez-se à estrada no seu Porsche vermelho 911 T, por volta das oito horas. Em Paredes, comprou os três matutinos do Porto e seguiu viagem. Três quilómetros à frente, na estrada nacional que liga Paredes a Paços de Ferreira, talvez vendo um rosto familiar, abrandou.
Numa emboscada de execução tipicamente militar, desconhecidos, munidos de armas pouco habituais no País, disparam contra ele vários tiros, atingindo-o sobretudo no crânio. Torres tombou, morto, para o lado direito do condutor.
Passavam 15 minutos das oito horas do dia 21 de Agosto de 1979. O Porsche contava mais de 77 mil quilómetros. Duas jovens iam comprar vinho quando deram o alerta. Joaquim Ferreira Torres tinha 54 anos, negócios menos claros, fortuna invejável e ligações íntimas a meios políticos, económicos e militares. Aguardava, em liberdade condicional, a repetição do julgamento da rede bombista de extrema-direita. Garantira que «abriria o saco» sobre os segredos e cumplicidades desse tempo. A morte ficou conhecida como «o crime do Barro Branco», lugar onde o calaram para sempre.
Até ali, ele tinha granjeado fama e fortuna vindo do nada e do esquecimento, ao estilo do mito americano. Nascera no simbólico 13 de Maio, em 1925, em Rebordelo, Amarante, um de 17 irmãos. Fez o ensino básico e vendeu carvão em Vila Pouca de Aguiar, onde o pai trabalhou nas minas. Também passou madeiras para Espanha, clandestino.
Foi marçano numa loja de mercearias finas e, no final dos anos 40, já andava por terras transmontanas, de bicicleta ou motorizada, como comissionista e vendedor de rifas, ganhando bom dinheiro com sorteios de chocolates e navalhas.
Em Murça, conhece Elisa, da aldeia de Noura, com quem haveria de casar. A rapariga trabalhara numa padaria e era governanta.
«Uma lasca de mulher, muito cobiçada», diz quem a conheceu. Namoram pelos quintais. E ela é sua cúmplice nas fugas à polícia, que metiam saltos pelos telhados e esconderijos em tonéis de vinho. Os mandados de captura contra ele sucediam-se. E do tribunal de Chaves desapareceria, mais tarde, o seu registo criminal, que incluiria um historial considerável de abusos de confiança.
Nos anos 60, já negociante de vinhos em Rio Tinto, Torres abre em Angola armazéns «com tudo do bom e do melhor para comer e beber», segundo um antigo inspector da PIDE. As relações e os negócios fluem. A partir de 1964, Sousa Machado, empresário, recorre a ele para fazer face a problemas económicos na Companhia Mineira do Lobito e nos hotéis Presidente e Panorama, em Luanda. Ao longo de anos, pedirá montantes da ordem dos 200 mil contos, empréstimos cuja totalidade não liquidará até à morte do amigo. O filão, porém, são as operações em diamantes e divisas.
Torres conhece Tschombé que, com ajuda da CIA e de diversos mercenários, tenta a secessão da província diamantífera do Katanga, no Congo. Quando o líder africano cai em desgraça, Salazar que lhe cedera armas dá refúgio aos familiares. Mas será o homem de negócios de Amarante a velar pelos interesses dos herdeiros de Tschombé. E pelos seus, claro.

UMA FORTUNA INCALCULÁVEL
Regressa, deposita lingotes de ouro na banca e dedica-se à especulação bolsista, mantendo laços com amigos de África.
Os bancos disputam-no e negoceia, fazendo-se caro. «Já ganhei mais mil contos! », ouviam-no, ao telefone, com gestores e administradores. Entre outros investimentos, compra terrenos, uma tipografia, uma casa de câmbios e chegará a ser dono de 27 quintas no Norte do País. Passeia-se num Jaguar 4.2, anda de Porsche e num Mercedes amarelo 350 SLC, desportivo. É amigo do banqueiro Pinto de Magalhães e do empresário Xavier de Lima, quase dono de Setúbal, a quem ajudaria a recuperar a fortuna.
É avalista de negócios no turismo e outras áreas. Devedor dele, Sousa Machado abre--lhe portas nos meios políticos e militares.
Hábil e desconfiado, anota tudo. Dos 110 contos que gasta nuns botões de punho a uma pulseira para a mulher no valor de 90 contos. O círculo íntimo sabe apenas o estritamente necessário. É de fúrias e impõe rotinas de forma quase militar, sem transigências.
Rigoroso, manda repetir textos à máquina por causa de vírgulas.

CULTIVA GOSTOS A PRECEITO

Os fatos e os sapatos são feitos às dúzias, por medida, nas melhores lojas de Santa Catarina, no Porto. De Londres, traz tecidos, sem falar mais do que o português.

Em casa, cultiva uma decoração imponente e aparatosa, com móveis franceses, que convidados classificam como «neobarroco da burguesia». Os jantares são opíparos e a garrafeira não destoa. Comprara mais de cem garrafas de Barca Velha, ao preço de muitos ordenados da época. Preferia colheitas de 64 e 65. Ou um Faustino I, Rioja, de 66. Se acompanhassem uma perdiz cozinhada pela mulher, tanto melhor.

Conquistado o estatuto financeiro, ao ritmo de «pronto-a-vestir», Torres procura a legitimação social que lhe faltava. Os seus ciúmes tinham um nome: Gonçalves de Abreu, comendador, dono de um império industrial, figura prestigiada, presidente da Câmara de Amarante. A autarquia e uma comenda eram o seu sonho. Ele esmera-se. Em finais dos anos 60, compra a fábrica têxtil Silma, em Famalicão, à família do destacado antifascista e comunista Lino Lima. Por mais de uma vez fará uso dos seus contactos para tirar o advogado dos calabouços da PIDE. Na Silma, onde a sirene marcava os ritmos das gentes de Brufe e Calendário, Mário Sousa, Maria de Sousa e Maria da Glória somaram 66 anos de trabalho. «O senhor Torres foi um bom patrão. Tinha as suas manias, mas pagou sempre os ordenados, mesmo quando esteve preso e fugido», contam. A sindicalista Ondina Coutinho travou com ele braços--de-ferro, a doer. «Nada era dado sem luta.

Mas tivemos condições de fazer inveja na região.» Militante do PCP, Ondina garante que Torres «nunca promoveu perseguições políticas na empresa». Já no estertor da ditadura, ele faz, porém, avultados donativos ao partido único, associações, bombeiros, misericórdias e instituições de caridade. As Irmãzinhas dos Pobres agradecem-lhe 50 contos entregues pessoalmente a Marcelo Caetano, presidente do Conselho. Colecciona medalhas de benemérito e benfeitor. Mas antes de tudo isso, já tinha um convite irrecusável...
Torres é nomeado para presidir à Câmara de Murça em 1971. Influências de um amigo salsicheiro a quem emprestara dinheiro. As verbas que faltavam ao município e que o Estado, somítico, não libertava, tinha-as ele. A terra dá um salto, ganha urbanidade. Oferece a cada morador um balde de plástico para o lixo que uma viatura camarária recolhe diariamente. Na rua, homem cénico que era, gesticula e dá ordens. «Exercia o mando, tinha dinâmica e visão», assinala José Gomes, antigo presidente da autarquia.

A COMENDA QUE NÃO VEIO

«Manda electrificar aldeias, abrir caminhos, construir estradas. Aparece de surpresa nas freguesias e, quando a verba se encontra esgotada, abre a bolsa e resolve os problemas», contava o seu vice-presidente.
Deu vida a lugares isolados, escolas.
«Foi um santo homem. Quem não é agradecido, é melhor não andar neste mundo», rende-se o lojista Alfredo Meireles. Adianta dinheiro que o Estado lhe pagará depois, aos bochechos. Estende a sua fábrica têxtil, dá terrenos pessoais para a construção de casas e inaugura uma piscina de fazer inveja na região. «Com ele, Murça seria a Suíça de Trás-os-Montes», crê José Gomes.

O populismo aflora. Empresta dinheiro a munícipes e paga a jornalistas por conta da montra impressa dos seus feitos. Dá banquetes de lagosta e assados, lautos. «Torres, Torres, Torres, és a nossa glória», canta-se.

Embalado, o edil até inaugura fontanários sem água, enquanto funcionários despejam baldes às escondidas para simular a liquidez que faltava ao momento. O Primeiro de Janeiro garante que ele «é o padrão do homem que todos desejariam ter como presidente». Adílio, Pedro, José, António e Mário, velhotes que comentam os assuntos da terra numa garagem da vila, ainda hoje garantem não haver espécie igual. «Até as casas de banho públicas lhe devemos.» Torres sonhou. Alto. Um dia, a vila engalanou-se para receber Américo Tomás e o autarca até pagou um livro para impressionar o Presidente da República na esperança de atribuição da comenda.

O Governo, porém, investigara a vida deste self made man nascido entre montes. «Não sabia nada de política, queria que todos vivessem bem e só pensava no próximo negócio.

Mas descobriram que ele não tinha a folha limpa», conta quem acompanhou o processo. Avisado, Tomás cancelaria a visita, desculpando-se com uma gripe. «Só quiseram dar-me Murça», lamentou-se o industrial, junto de amigos.

Tentara tudo para cair nas graças do fascismo.

Mas não encaixava na moldura do regime, que desdenhava de quem entrava fulminante na vida pública, com ares de novo-rico de extracção duvidosa. A revolução acentuaria o desfasamento, não sem luta. Júlio Montalvão Machado, primeiro governador civil de Vila Real em democracia, só consegue afastá-lo do cargo em Dezembro de 1974, após uma frustrada investida dos militares, recebidos pelo povo com varapaus, sacholas e forquilhas.

«Ele teria saído a bem, mas as pessoas queriam-no e lutaram com tudo. Foi o próprio Torres quem impediu que eu levasse um arraial de porrada.» Segundo Montalvão, era «um homem cordato, um excelente presidente para aquela gente», reconhece.

Apesar das ambições caídas por terra, ele não seria propriamente apanhado de surpresa pelo 25 de Abril. Dias antes das eleições de 1973, perspicaz e bem informado, convida César Príncipe a aparecer na casa das Antas. A relação entre ambos é boa, mas o jornalista do JN, relevante figura da oposição democrática, ligado ao PCP e calejado nas conspirações, receia as vigilâncias da PIDE. Arrisca. E Torres vai directo ao assunto: «Sei que está com a oposição.
Nada contra. Como sabe, tenho de defender o regime para proteger os meus interesses.
Vou dar mais dinheiro à ANP e alugar um helicóptero para a campanha. Mas também quero ajudar a oposição.» César escuta, estupefacto. «Ele queria começar a dialogar com o pré-poder e eu era quem estava mais à mão.» A oferta, «um envelope com algumas centenas de contos », tinha atrelado um pedido. «Sei que vai discursar num comício do Coliseu e queria que fizesse um ataque ao comendador Abreu.» César rejeita a condição. O donativo entra à mesma nas contas. «Anónimo, claro.» Torres joga em dois tabuleiros e, na despedida, confidencia: «Este regime está para acabar. É a PIDE quem mo diz.»

AS PRATAS, AS BOMBAS E A FUGA

Com as fervuras da revolução, Torres previne-se. Vende património incluindo 18 quilos de barras de ouro e prepara refúgio na Galiza. Ajuda «pides» a «dar o salto».
Nunca deixará, porém, de tentar pontes com os protagonistas do momento, como fez com Macedo Varela, militante comunista.
«Quis fazer um donativo ao MDP/ /CDE, mas com o objectivo de queimar alguém.
Recusei, claro», conta o advogado de Famalicão. Para ele, o industrial «não era esquisito em matéria de ideologias. Queria estar bem com Deus e com o Diabo». Mas ele teme o demo da foice e do martelo.
No início de 1975, é o fiel depositário de diversos valores de banqueiros, industriais e empresários nortenhos em fuga para Espanha.
Pratas, ouro, marfins, jóias e obras de arte de pessoas das suas relações são colocadas em casas e armazéns seguros, entre Tuy e Vigo, levadas por vezes em furgões atulhados. Ele controla a fronteira de Valença: guardas-fiscais escolhem na sua fábrica peças de vestuário. Abre contas para amigos em bancos galegos. Gere ele os dinheiros e os juros e aluga garagens para que possam esconder os Porsches, Mercedes e Jaguares.

O general Spínola foge para o estrangeiro e funda o MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal).

O braço-direito é Alpoim Calvão, militar responsável pelo sector operacional do movimento. No Norte de Portugal, Torres põe e dispõe e os apoios surgem de todo o lado. O presidente Mobutu, do antigo Zaire, oferece 5 mil espingardas semiautomáticas.

O comendador Abílio de Oliveira passa um cheque de um milhão de pesetas para a compra de armas. Dos quartéis, também saem algumas. O MDLP destrói, incendeia e faz explodir dezenas de sedes, casas, carros e estabelecimentos ligados, sobretudo, ao PCP e seus militantes. Há mortes. A rede bombista congrega autarcas, empresários e militares de diversas safras, sacerdotes, mercenários angolanos, ex-pides, seguranças do PSD, CDS e PS e gente para todo o serviço, com cadastro condizente. «Mais a direita de aldeia, caceteira e borrachona», refere um inspector da PJ desse tempo. Enquanto oferece roupa e dinheiro a retornados das ex-colónias, Torres ordena atentados e paga. Empresários compram-lhe dólares a um preço mais elevado e contribuem para a causa.

O movimento é despesa cara: as viagens de Spínola e os gastos de Alpoim custam mais de 3 mil contos por mês.

Com pouco de ingénuo, Torres sabe que o dinheiro é também usado para outras aventuras. Dirigentes no exílio compram casacos de peles de 900 contos e gastam «como lhes apetece». Um bombista queixa-se de passar fome, «enquanto outros se banqueteavam nos melhores hotéis». Por cá, a democracia pode esperar. Bombas explodem por conta de ódios de estimação e desavenças pessoais. O movimento comporta-se como «uma autêntica mafia», descreve quem o viveu por dentro.

As conspirações do MDLP com os moderados do Conselho da Revolução (Vítor Alves e Canto e Castro) sucedemse.

Torres, porém, diz-se «traído» quando os mentores do 25 de Novembro de 1975, liderados por Eanes, não cumprem o que alegadamente prometeram ao saudosismo de direita: Angola é entregue ao MPLA e o PCP iria continuar na legalidade. As bombas não param. Nem quando Vítor Alves e Canto e Castro reúnem novamente com o movimento, na casa de Valentim Loureiro, no Mindelo. Há armas e operacionais em roda livre. Sem perder de vista os alvos políticos, com o dedo de Torres. Em Abril de 1976, é assassinado o padre Max e dá-se o atentado à Embaixada de Cuba, em Lisboa.

Eanes é eleito em Junho para Belém, o País tenta normalizar. Torres é então detido com outros elementos ligados à rede bombista, entre os quais o seu cunhado Mota Freitas e o operacional Ramiro Moreira.

DO EXÍLIO À MORTE


O industrial é preso em Caxias, onde assina cheques e despacha assuntos relacionados com os seus negócios. Mas é libertado, alegadamente corrompendo um magistrado na fase de instrução do processo, a troco de vários milhares de dólares.

Na sequência das investigações da PJ, o Conselho Superior de Magistratura receberia uma recomendação oficial para abrir, no mínimo, um processo disciplinar ao magistrado. Nos arquivos do Conselho, confirmou a VISÃO, não consta que tal tenha sido feito.

Em Março de 1977, Torres é avisado um dia antes da emissão de novos mandados de captura e foge para Espanha. O irmão Avelino leva o Mercedes por Chaves, ele segue com o irmão Adelino por Valença, num BMW. Irado, desabafa contra «os pulhas» da magistratura e do Conselho da Revolução. «Dei milhares de contos àqueles filhos da puta para me ver livre deles e agora tentam mandar-me novamente para a cadeia.» Em Vigo, ocupa o quarto 710 do Hotel Nisa, que já lhe é familiar. Tem uma linha de PBX só para ele e controla, na recepção, todos os passaportes de portugueses ali hospedados. Se desconfia de alguém, diz ao dono do hotel: «Para este, da próxima, não há quartos.» Gere contas bancárias abertas na cidade e tem um cofre na Suíça.
A família visita-o aos fins-de-semana.
Almoça e janta no Las Bridas, onde uma sala mais recolhida é construída a seu pedido.
Aluga um apartamento junto ao El Corte Inglés. Atribuem-lhe relações amorosas com mulheres de amigos e de presos da rede bombista. Improvável, porém. Os seus devaneios eróticos ter-se-ão limitado a envolvimentos com meninas de cabaret, às quais não precisava pagar o silêncio.

Torres seria julgado à revelia, mas absolvido no processo da rede bombista, a 6 de Julho de 1978, talvez ainda escudado pelo magistrado «amigo». Mantém-se entre Vigo e o Porto, sente-se inseguro. Vendera a Valentim Loureiro a antiga casa de câmbios, em Lisboa, e o Porsche, carro que recuperará nesse ano. Uma parte dos seus terrenos e quintas está nas mãos de Castro Martins, o Mata-o-Pai, envolvido em negócios duvidosos. Fictícias ou não, o amigo demora a acertar contas das transacções.
Elisa Torres chega a apontar-lhe uma pistola em Valpaços. Mas tudo já estaria saldado quando Castro Martins aparece morto, nos anos 80, a boiar no Douro, no enfiamento do restaurante Mal Cozinhado.
No Brasil, Torres leva «uma banhada» num negócio de ouro. Zanga-se com Alpoim Calvão e Sousa Machado (ver caixa).

«O Alpoim saiu-me um grande filho da puta», desabafa, perante família e amigos.

Mesmo em dificuldades, ajuda famílias de presos da rede bombista e antigos operacionais a refazer a vida no estrangeiro. Recebe ameaças. E não perdoa nem esquece.

Um dia, sentado no sofá de casa, vê Vítor Alves na televisão. Irrita-se: «Filho da puta, bem me enganaste! E andaste a beber do meu vinho e a comer do meu presunto!» No início de 1979, parte das fortunas e valores retirados de Portugal no pós-revolução continuava em contas e cofres estrangeiros.

Ou adormecida em garagens e quintas de Ourense, na Galiza. À porta dos mais estrelados hotéis de Vigo, ainda abundavam os carros de luxo, com as indisfarçáveis matrículas negras de Portugal. A revista espanhola Sábado Gráfico repara nos portugueses que gastam generosamente dólares e marcos, enquanto outros compatriotas, despejados, pelas excursões, no porto daquela cidade galega, comiam a tigela de caldo nos passeios. Por cá, Torres recebe a má notícia: o julgamento da rede bombista, da qual saíra absolvido, é anulado e será repetido. Paga uma caução de 250 contos e aguarda em liberdade.

A INVESTIGAÇÃO POSSÍVEL

Inconsolável, diz a amigos e família, que, se for a tribunal, abrirá o livro. Falaria das páginas negras do MDLP, incluindo o furto da coroa de Nossa Senhora da Oliveira, do museu de Guimarães. E na utilização de grandes quantias de dinheiro e armas pertencentes ao movimento. Tinha vivido por dentro as conspirações e reuniões anteriores ao 25 de Novembro.

Lidava com bombistas e contrabandistas.
Sabia quem lhe devia dinheiro e porquê.

A poucas semanas de se sentar no banco dos réus, tudo terminaria, porém, numa curva do lugar do Barro Branco. E num silêncio ensurdecedor.

O crime apanha a PJ do Porto ainda a digerir a democracia. No activo, permanecem agentes do tempo em que eram dispensados do serviço para colar os cartazes do partido único. Em carros da Judiciária, também tinham saído objectos de valor para Espanha no pós-25 de Abril. Geram--se conflitos. Fausto Saraiva, o inspector que primeiro chega ao local do crime e logo devolve à viúva objectos pessoais da vítima, junta pistas avulsas em abono de uma tese «ideológica», inclinando a autoria do crime para a extrema-esquerda. As suas diligências, na fase decisiva, «dificultaram, para não dizer aniquilaram, quaisquer futuras hipóteses de abordagem» de diversas fontes anónimas, dirá, mais tarde, um relatório da própria PJ. As audições formais de testemunhas ou possíveis implicados iniciaram-se onze meses depois dos factos. Por essa altura, já a família de Torres tinha mudado as contas no estrangeiro de sítio e um irmão da vítima se tinha suicidado, tendo a seu lado recortes de jornais e fotografia do crime. Rigoroso, só um relatório do inspector Mouro Pinto, que também esteve no local.
O andamento do processo teve situações anómalas e caricatas. Avelino, o irmão que mudaria nos anos 80 os sobrenomes Torres Ferreira para Ferreira Torres para cavalgar a memória e o mito do mano Joaquim, pôs um carro à disposição da PJ e pagou viagens, refeições e outras despesas aos investigadores, com cerca de 7 mil contos entretanto pedidos à viúva. Apesar de anunciado várias vezes, um prometido livro da sua autoria a denunciar os implicados no crime ainda aguarda publicação.
Manuel Macedo, também MDLP, assistiu a interrogatórios e gastava 50 a 60 contos em almoços de perdizes e cabritos com jornalistas e inspectores da Judiciária.
O ex-MDLP Ângelo do Nascimento, sobre o qual pendiam vários mandados de captura, é encontrado com armas e caçadeiras, mas mandado embora.
Em 1982, Artur Pereira, da Secção Regional de Combate ao Banditismo da PJ, assume a investigação, dá ordem e alguma solidez ao processo. Alpoim Calvão, Vítor Alves e Canto e Castro são ouvidos, sem adiantarem contributos para o desvendar do crime. Há teses para todos os gostos, com a alegada vendetta do Barro Branco a oscilar entre 3 mil e 4500 contos para os executantes.

O processo atravessaria três gerações da PJ. E acabaria nas mãos de Vítor Alexandre, na Direcção Central de Combate ao Banditismo. Mesmo com arquivamentos pelo meio, a Judiciária faz escutas e novas inquirições que ajudam a sustentar uma acusação no crime do Padre Max, que acaba em julgamento. Mas o caso Torres, «enfim. é um enigma muito grande. Até depois de morto dá problemas», diria Manuel Macedo, apanhado nas escutas.
Ao longo de anos, vários dos visados em notícias e citados no processo ameaçaram recorrer aos tribunais, rejeitando «calúnias e difamações». A PJ rende-se em meados dos anos 90. Alpoim Calvão, com depoimentos contraditórios, gera a «forte suspeita» de intervenção nos factos ocorridos, mas faltam indícios sólidos.
O despacho de arquivamento assinala «alguma lógica» na lista de motivações relacionadas com os «negócios escuros » do MDLP e as conspirações da rede bombista com o Conselho da Revolução.
O crime prescreve em 1995.
A 21 de Agosto de 1979, quando ameaçara «abrir o saco», Joaquim Ferreira Torres não tinha percebido o timing da democracia.
Conspiradores de outros tempos tinham sido reciclados para o conforto dos cargos, das instituições e do poder político.
Outros andavam envolvidos nos negócios.
Queriam iniciativa privada, lucros e normalidade democrática. E sossego, por favor.

Passos de uma investigação

Para esta reportagem, a VISÃO realizou dezenas de entrevistas a pessoas que contactaram com Joaquim Ferreira Torres ou que, por alguma razão, estiveram por dentro de passos da sua vida e da evolução dos acontecimentos. Muitas solicitaram anonimato.

Outras, como Joaquim Costa Torres, a quem a vítima sempre tratou como filho, recusaram «terminantemente» prestar declarações. A VISÃO teve ainda acesso a diversas cartas, fotos e outra documentação que permanece à guarda de um advogado a quem a viúva falecida em 2008 confiou vários arquivos. Foram ainda consultadas, com precioso empenho da Secção Central do Tribunal Judicial de Paredes, as mais de 1800 folhas do processo de instrução.

Últimas cartas
Em 1978, por alegado intermédio de um amigo, Torres emprestara 20 mil dólares para os negócios de Alpoim e do empresário Francisco José Sousa Machado. Passados os prazos, Torres não havia recebido o dinheiro.

Em várias cartas a Alpoim confessa, desesperado, atravessar «grave crise financeira». É violento com o destinatário e manda recados ao Chico Zé, que, refere, não demonstrara vontade de resolver o problema. «O que mais me custa é não poder cumprir com as minhas obrigações», diz. E termina uma das missivas, ameaçando Alpoim. «Peço-lhe, caro Guilherme, não me obrigue a ter de pensar de si o que não desejaria nunca.» Já em 1979, Torres troca correspondência com Carlos Bernardo Vieira, empresário guineense, primo e «irmão de sangue» de Nino Vieira, Presidente da Guiné-Bissau. Nas missivas, falam de um negócio e sabia-se que Torres sonhava com um banco naquele país. Carlos Vieira garante que Valentim Loureiro é conhecedor das suas influências e diligências junto do poder político da Guiné. E diz estar a esforçar-se «para que o seu negócio se concretize de forma a ter margem para eu ganhar também algum para a educação das minhas filhas», escreve. A dada altura, percebe-se, o negócio parece emperrar. Torres morreria semanas depois da última carta.


POR MIGUEL CARVALHO

EKPHRASIS, pelo SINDICATO DE POESIA

Nos dias 2, 3 e 4 de Julho, às 21h45, no Museu Nogueira da Silva, o SINDICATO DE POESIA apresenta EKPHRASIS.



Grande Prémio Gazeta 2009 do Clube de Jornalistas atribuído a Miguel Carvalho. Parabéns, Miguel!

O Miguel na primeira apresentação, no Porto, do seu livro Aqui na Terra

Reunido na sede do Clube de Jornalistas, o Júri dos Prémios Gazeta decidiu atribuir o Grande Prémio Gazeta 2009 a Miguel Carvalho, da revista Visão, pelo seu trabalho “Os segredos do Barro Branco”, centrado em Joaquim Ferreira Torres, controversa figura ligada à oposição violenta ao 25 de Abril e assassinado em Agosto de 1979.

Com base numa investigação em que aos testemunhos actuais de pessoas que de algum modo estiveram ligadas a Joaquim Ferreira Torres se junta um aprofundado trabalho de recuperação de variada documentação, parte da qual inédita ou pouco explorada, Miguel Carvalho traça o perfil, o percurso, os relacionamentos e os contextos que acabaram por conduzir o protagonista ao trágico desenlace final. Numa linguagem concisa e num estilo fluido, Miguel Carvalho devolve-nos, reconstrói e enriquece a memória de um passado demasiado recente para poder ser esquecido ou ignorado, o que reveste “Os segredos do Barro Branco” de uma inegável actualidade.

Para nós aqui na Deriva, um grande abraço de parabéns, Miguel.

Pedro Eiras apresenta hoje na Índex (18:30) o primeiro livro de prosa de José Ricardo Nunes, Alfabeto Adiado


Pedro Eiras
José Ricardo Nunes
É hoje, pelas 18:30, que quem acompanha a obra de José Ricardo Nunes poderá ter uma inquietante surpresa (mas também, por isso mesmo, agradável) com o primeiro contacto com o seu primeiro livro em prosa, Alfabeto Adiado. Depois de Luís Mourão o apresentar nas Caldas da Raínha há poucos dias, é agora a vez de Pedro Eiras falar desta nova experiência do autor. Aguarda-se, com interesse, o que irá dizer o Pedro sobre Alfabeto Adiado.

quarta-feira, junho 30, 2010

WENDY & LUCY - estreia quinta-feira [Medeia Filmes, Teatro Campo Alegre]

Apesar do encerramento das quatro salas de cinema no  espaço no Bom Sucesso, as exibições da Medeia Filmes no Cine-teatro do Campo Alegre  vão continuar.

Quinta-feira, dia 1 de Julho, estreia , no cinema Medeia Teatro do Campo Alegre,  WENDY & LUCY. 
O quarto filme da cineasta americana Kelly Reichardt, e o primeiro a estrear comercialmente em Portugal. Apadrinhada por Gus Van Sant e Todd Haynes (diz-me que padrinhos tens...), Reichardt adapta um conto do escritor Jonathan Raymond, com quem já trabalhara, que escreve sobre este “estado variado, com florestas, cidades, deserto.”
Cinema Medeia Teatro do Campo Alegre. Todos os dias às 18h30 e 22h.

segunda-feira, junho 28, 2010

Apresentação de Alfabeto Adiado, de José Ricardo Nunes, dia 2, pelas 18:30 no Porto (Livraria Índex)



Apresentação de Alfabeto Adiado, de José Ricardo Nunes, por Pedro Eiras, dia 2 de Julho, pelas 18.30, na Livraria Índex.

TEatroensaio apresenta "As Espingardas da Senhora Carrar" de Bertolt Brecht


O TEatroensaio apresenta "As Espingardas da Senhora Carrar" de Bertolt Brecht, com encenação de António Durães.  De 30 de Junho a 24 de Julho de 2010, de quarta a sábado, pelas 22 horas.
(excepto 7 e 8 de Julho). Apresentação extra domingo, 11 de Julho de 2010

Local: Oficina 1, Cace Cultural do Porto (antiga central eléctrica do freixo, Rua do Freixo 1071, estacionamento gratuito)
Sinopse:
 Durante a Guerra Civil espanhola, uma família de pescadores luta pela sua sobrevivência, mas também pela sua honra.  Mãe Carrar procura proteger os filhos, impedindo-os de lutar mesmo contra os generais fascistas de Franco. Não lhe falta coragem nem força, pretende apenas a neutralidade que a seus olhos evitará o derramamento de sangue. Apesar do Medo e da crítica de todos os que a rodeiam.  A guerra não a deixa em paz e traz-lhe injustamente a morte do filho mais velho, lançado à pesca pela mãe, na tentativa frustada de o afastar do conflito. Ao sofrimento ninguém pode fechar os olhos e Mãe Carrar envolve-se, entrega as armas que havia escondido ao esforço da guerrilha, juntando-se à resistência juntamente com o seu filho mais novo.

Porto, naçom de falares, de Alfredo Mendes


Quarta-feira, dia 30 de Junho, pelas 18.30, será apresentado  Helder Pacheco, o livro  Porto, Naçom de Falares, de Alfredo Mendes, da Âncora Editores, no Palacete dos Viscondes de Balsemão.

Pimenta Negra (versão em papel) n.º2 já em circulação


A edição do 2º número do Pimenta Negra (versão em papel), correspondente ao mês de Junho, já está pronto para ser lido e descarregado via internet, e amanhã estará em circulação gratuitamente.


O conteúdo desta edição contém textos sobre ecologia social, transgénicos, permacultura, cidades em transição, massa crítica (bicicletada)  e uma citação de Gilles Deleuze. Traz ainda notícias da produção de pão rebelde e de pizzas populares, do GAIA (Grupo de Acção e Intervenção Ambiental), uma extensa  listagem de livros e leituras recomendadas,  sobre o o horror futebolístico,  e um texto do livro «A Mobilização Global, breve tratado para atacar a realidade, seguido do texto «O Estado-Guerra, do filósofo catalão Santiago López-Petit, conhecido pelo seu pensamento radical, próximo de Deleuze e Foucault.


A versão em papel pode ser descarregada aqui.

domingo, junho 27, 2010

Alfabeto Adiado, de José Ricardo Nunes apresentado nas Centro Cultural das Caldas da Raínha

Luís Mourão, José Ricardo Nunes e cá o editor.
Fotos de Margarida Araújo

Centro Cultural das Caldas da Raínha a 25 de Junho. Sala cheia e amigos muitos. Algum calor. A Margarida Araújo tirou a(s) foto(s) e acompanhou-nos sempre com um sorriso e simpatia. A Isabel Castanheira, da Livraria Loja 107, uma referência da cultura caldense, também. O jantar foi óptimo no Restaurante Pachá (um robalo cozido envolto em massa, com batatas e bróculos, mais um vinho do Douro que era de repetir, sempre, teimosamente). As Caldas da Raínha sabem receber como ninguém, razão pela qual quero ir já ao próximo lançamento... o Luís Mourão que não se lembrava de ter ido às Caldas, não se cansava de dizer que voltaria (teve uma intervenção excelente durante a apresentação, diga-se). Quanto ao actor José Ramalho que leu a prosa irónica e algo cruel do autor foi de uma competência extraordinária. Leu-a muito bem.
O José Ricardo Nunes e a Margarida Araújo apresentaram-nos igualmente uma edição de autor surpreendente de uma Viagem à Costa Rica. As fotografias e o arranjo gráfico são, claro, dela própria. Mas disso falaremos num outro post.

Petição contra o fecho da Biblioteca Nacional por dez (!!) meses

Custou-me a acreditar. É, contudo, verdade: A BNP vai fechar dez meses - coisa pouca.
http://www.peticao.com.pt/encerramento-bnp

quinta-feira, junho 24, 2010

Alfabeto Adiado, de José Ricardo Nunes [pré-lançamento]


PAINTER WORKING (Lucian Freud)

    Não acreditava no meu corpo.
   Estendia o braço na minha direcção. Empunhava o pincel a escorrer tinta e veracidade, delineando a figura ausente: tudo próximo. Mais amplamente.
    Não lhe reconhecia legitimidade. Transpunha de si para a imagem. Eu, de seguida. E no jornal – página inteira – o retrato acabado ainda antes de a tinta aderir à tela. Antes da descoberta da pigmentação. Antes de cada coisa ter um nome. Antes de se dividir.
   Um corpo expectante, sem instinto predador, que assumiu posição defensiva. A recuar, na minha direcção, até ao negrume que o envolve a partir das minhas mãos.
    Equivalente.
   À margem desse acontecimento, as palavras não serviam de explicação. Frágeis. Referências perdidas no desabamento dos conceitos e das alusões.
   Fechava. Encobria com a opacidade da revelação.
   Qualquer história redundante. Nenhuma lhe acrescentaria peso e dimensão: versos repetidos, manchas de tinta – gestos mecânicos que lançavam a suspeita sobre a figura. Sem olhar. Queima quando atinge, eu sei, mas não porque tenha o poder de acrescentar algo de novo com a sua assinatura. Unicamente pelo imperativo da preservação.
   As palavras não lhe serviram. Nunca servem. O ditado e a sua melodia, de carteira em carteira, aperfeiçoados até ao eco. Depois, nas escadas do metropolitano ou na corrente da sala de espera de um médico, por exemplo: assassinas.
    Compondo. O sentido não se deixa captar – músculos, tensão, energia. A morte rompia até me abandonar. Alfabeto Adiado, de José Ricardo Nunes


[Aos leitores que o desejem, a Deriva pode fazer chegar um exemplar autografado e com dedicatória]

Apresentação de Alfabeto Adiado, de José Ricardo Nunes, por Luís Mourão, dia 25 de Junho, pelas 21.30, no Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha.

quarta-feira, junho 23, 2010

Alfabeto Adiado, José Ricardo Nunes [pré-lançamento]


 Reflection, Lucian Freud, 1985

[Pré-lançamento de Alfabeto Adiado]
EU, EM 1963

Em 1963 eu ainda não tinha nascido e por isso não poderia ter ouvido essas palavras, pronunciadas por alguém, de súbito iluminado, subitamente alguém, alguém que lê à janela, vai o meu pai a passar
A fractura não me separara, não me erguera ainda nos ossos quebradiços para repetir um ritmo alheio, a entoação difusa que já existia antes de ser criada
Não era ainda eu, em 63, essa curta palavra, desprezível, que deita abaixo as árvores e depois separa os ramos do tronco e sacrifica as folhas e verga florestas inteiras pelo puro prazer de deitar à terra nomes que não lhe sobrevivem
Porque se trata de uma palavra verdadeiramente estranha, eu, ofensiva, protagonista da discórdia, de um desentendimento
Eu não tinha sido ainda derrotado, em 63, pelo anónimo pulsar que desde o início contamina as ascendências
Havia ninguém de um lado e doutro e o meu pai vinha puxar a vara que crescia na areia com uma ideia de origem no rosto, eu suspendia a minha própria concepção, vazio, como se o mar me revirasse
O mal não alastrara, a funda secura que remete ao silêncio não tomara conta das aldeias mais remotas, ainda o terror abençoado de quem escuta não começara a dissipar-se depois do inaudível ter tomado um pouco de carne e aparecer na boca de alguém, porventura o meu pai
Não sei porque penso sempre nas analogias, como se escrever na tábua das comparações devesse salvar-me de um destino mais verdadeiro, mas depois procuro uma razão e o sangue solta-se um pouco por dentro e oiço a voz do meu pai numa fotografia, eventualmente revelada em 63
Havia autocarros de dois andares e a juventude perseguidora do meu pai, um rosto esclarecido, com vontade de mim, perdido na fantasia de um abismo, já um pouco eu ali desenvolvido
Eu já era verdadeiramente o meu pai, nesse ano distante, quando os papéis consumiam tudo e o futuro deixava de ser possível
Eu, o meu pai, um livro obscuro e o ano de 1963, agora que a praia está deserta e se aproxima o cinquentenário e eu posso livremente desenvolver-me, expandir-me, configurar-me, sentindo que as barreiras se dissolvem à medida que se erguem
Ninguém me toma, vontade dispersa na areia
Eu não é palavra que se diga muitas vezes e espalha-se com lentidão e não acode assim que o nome fica cativo da memória
Eu queria falar mas estou longe de um centro e a ignorância que me desvia o sangue guarda apenas acolhimento para as crianças que brincam longe de mim
Adopto, recebo, incorporo, tal como nesse ano remoto foi permitido que o mal viesse a nascer e a ganhar volume assinalável
As coisas nunca são o que parecem e posso encontrar, eu, numa raiz, num veio valioso de minério, a feroz contaminação que prolonga o conhecimento e a ausência, o instinto feliz e uma oratória desadequada aos nossos tempos
Como se eu desistisse de ir ao meu encontro e escutasse de um outro, tudo ainda informulável, aí por 63


José Ricardo Nunes, Alfabeto Adiado, Deriva Editores, 2010




[Aos leitores que o desejem, a Deriva pode fazer chegar um exemplar autografado e com dedicatória]

Apresentação de Alfabeto Adiado, de José Ricardo Nunes, por Luís Mourão, dia 25 de Junho, pelas 21.30, no Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha.


Mobilização Global e El Taxista Ful no Gato Vadio, dia 26




Debate sobre A Mobilização Global de Santiago Lopéz-Petit, no Gato Vadio, seguido da projecção de El Taxista Ful,  dia 26 de Junho, pelas 21:30.  Com o António Alves da Silva (Pimenta Negra) e com o Rui Pereira (responsável pela tradução e notas de A Mobilização Global )
 

Alfabeto Adiado, de José Ricardo Nunes [Apresentação]



«Quem sou eu, na voragem dos rostos?
Era só uma palavra o que mendigava às pessoas. 
Palavra atrás de palavra. Até nada sobrar desse alfabeto adiado.
Passados anos percebi. Eu, sentado a escrever. Indigente.»  
[texto da contracapa]



Apresentação de Alfabeto Adiado, de José Ricardo Nunes, por Luís Mourão, dia 25 de Junho, pelas 21.30, no Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha.

[Aos leitores que o desejem, a Deriva pode fazer chegar um exemplar autografado e com dedicatória]

Un xeito de pensar, Cen mil saramagos, Xavier Queipo

                
                 Cen mil saramagos, Xavier Queipo
Saramago, é sabido, ademais do apelido do único escritor portugués ao que lle concederon o Premio Nobel de Literatura (logo de esquecer a Eça de Queiros), é tamén o nome común dunha planta salvaxe, desas que medran á beira dos camiños. Como todas as plantas que non teñen unha utilidade culinaria ou estética -o saramago é planta ruín- nace de natural molestosa e pouco apreciada.

Ás veces as opinións do Saramago escritor eran tamén molestosas e incordiantes (que lle pregunten aos veciños portugueses sobre e unión ibérica ou a Igrexa católica sobre as relación entre Xesús e a Magadalena)

Saramago -o escritor- tivo vontade última de ser incinerado. Un xeito, se cadra, de evitar que se establezan peregrinacións ou visitas indesexadas á súa tumba (como sofren Borges, Kafka ou Castelao, por poñer exemplos de tres sistemas diferentes). Hai xente que considera que visitar camposantos e dialogar cos mortos famosos lles vai reportar un extra de sabedoría. Xa saben, hai xentiña para todo.

Eu non entro en decisións tomadas, pois isto da vida é estar e non estar, mais espero que no lugar onde repousen ou se estendan as cinzas de Saramago agromen flores, aínda que non cheguen ás cen mil das que falaba Mao, o seu próximo. Saramagos no acaso, mais tamén patalugas, margaridas, mexacáns, estralotes, abeirotase outras que iluminen o noso camiño con ideas incordiantes e molestosas. Espero que así sexa, pois diferenzas ideolóxicas e estéticas á parte, o que precisamos neste mundo absurdamente homoxéneo, é precisamente de algún que outro Saramago coas súas ideas incordiantes, que faga reaccionar a sociedade, adormecida como está polo binomio produción-consumo, pola laminación ética, polo politicamente correcto. O dito, cen mil flores, cen mil saramagos.  Xavier Queipo, Galicia Hoxe

UM POEMA DE JOSÉ SARAMAGO (1922-2010)


Não me peçam razões...

Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

José Saramago, Os Poemas Possíveis
 
[poema distribuído na sessão de autógrafos de Conto de Travessa das Musas, 20.06.2010]

terça-feira, junho 22, 2010

Do Vaticano a Belém, Manuel António Pina [JN 21.6.10]

 Do Vaticano a Belém, por Manuel António Pina

O oficioso "Osservatore romano", que o Vaticano costuma usar para atirar pedras escondendo a mão, achou que a morte de Saramago seria boa altura para o apedrejar, tanto mais que, agora, ele já não pode defender-se. O apedrejador de serviço meteu, por isso, mãos à vaticana obra e, mesmo não percebendo por que motivo terá Deus deixado Saramago viver até à "respeitável idade de 87 anos" e andar por aí a exibir uma "crença obstinada" não nos dogmas da Igreja mas nos do materialismo histórico, condenou-o às chamas do Inferno (infelizmente a Igreja já não tem poder para condenar gente como Saramago à fogueira na Terra). Também Cavaco tem queixas de Saramago mas, no seu caso, só protocolares pois, ao contrário do Vaticano, Cavaco não é rancoroso.  Saramago não teve, de facto, o cuidado de acertar a data da morte com a agenda da Presidência, o que impediu o presidente de ir ao funeral.  Saramago devia saber que Cavaco "gosta de cumprir promessas" e que prometera "à família que no dia 17 partiria com eles para a ilha de S. Miguel". Ora regras de concordância gramatical podem interromper-se, férias não.  MANUEL ANTÓNIO PINA  / JN 21-6-10

Em força para Brecht


O TEatroensaio apresenta "As Espingardas da Senhora Carrar" de Bertolt Brecht, com encenação de António Durães.
A peça será levada à cena na Oficina 1 do Cace Cultural do Porto, elas 22h, de 30 de Junho a 24 de Julho de 2010, de quarta a sábado (excepto 7 e 8 de Julho, apresentação extra a 11 de Julho).

Informações e Reservas
telf: 918626345 ou 937017575
mail: teatroensaio@gmail.com
blog: teatroensaio-teatreia.blogspot.com

«Asclépio, o Caçador de Eclipses», Pedro Teixeira Neves


Pedro Teixeira Neves, que escreveu O Sorriso de Mona Lisa, seguido de Quatro Contos de Fronteira, na Deriva, faz parte do restrito lote de autores que constam de um manual da Porto Editora.
O conto de Pedro Teixeira Neves intitula-se  «Asclépio, o Caçador de Eclipses».

domingo, junho 20, 2010

Conto da Travessa das Musas [sessão de autógrafos]

t
No último dia da Feira do Livro do Porto, dia 20 de Junho, com  rebuçados Flocos de Neve à mistura aconteceu uma concorrida sessão de autógrafos graças ao  Conto da Travessa das Musas (texto de João Pedro Mésseder e ilustração de Manuela São Simão).


sexta-feira, junho 18, 2010

Apresentação do "Conto da Travessa das Musas", 20 de Junho - 16 horas - Feira do Livro do Porto


Conto da Travessa das Musas - Texto de João Pedro Mésseder e  ilustração de Manuela São Simão - dia 20 de Junho - 16 horas - Feira do Livro do Porto - stand A11 e A13


quarta-feira, junho 16, 2010

Pedro Eiras, sexta, 18 de Junho, 21h30 | LEITURAS CRUZADAS [Praça Azul]


sexta, 18 de Junho, 21h30 | LEITURAS CRUZADAS [Praça Azul]

  Pedro Eiras - Tentações – Ensaio sobre Sade e Raul Brandão e Rui Zink - Anibaleitor

Se eu escrevesse, num livro, por exemplo:
… com a fúria de um envangelista…
De quem estaria a falar ?


Durante mais de dez anos desejei escrever este ensaio.
Estudei Raul Brandão em Esquecer Fausto; tentei pensar um trabalho de luto incompleto pela morte de Deus, um complexo de coveiro, motivos de irrealismo; evito repetir neste ensaio o que já desenvolvi nesse livro. Noutros lugares, dispersos, publiquei outros pequenos estudos, e discuti Húmus, O Avejão, O Pobre de Pedir com alunos. Sobre Sade, escrevi muito menos: só algumas citações, insinuações, aqui e ali.
Mas havia a tentação de ler Sade através de Brandão e vice-versa. Ler, especialmente, Húmus com Justine, e Diálogo entre um Padre e um Moribundo com O Avejão. Sobre esses encontros se gerou este livro.
Concluindo agora estas Tentações de leitura, percebo quão evidentes elas são, e ao mesmo tempo quão improváveis. Como se este livro admitisse apenas um prefácio, um posfácio uma intuição. O resto: metodologias desmontadas de um livro a haver, estranho, impossível, evanescente, meia-dúzia de palavras apenas, ou talvez nem isso.


Colecção Cassiopeia -
Através desta colecção, o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa pretende divulgar o pensamento dos seus investigadores e também dar a conhecer trabalhos que, dialogando com as linhas de pesquisa em curso, se inscrevem numa mesma constelação. Desenhando entre si nexos, relações, os livros publicados nesta colecção integram-se no campo de reflexão dos Estudos Comparatistas.

terça-feira, junho 15, 2010

sexta, 18 de Junho, 18h30 | LEITURAS CRUZADAS (auditório) António Mega Ferreira, Filipa Leal



ESTE LIVRO FOI ESCRITO HÁ MUITO TEMPO.

Era uma mulher que estava dentro de uma sala muito branca.
Ouviu: – Não fujas. Não esqueças.
Era uma mulher lívida de medo de não conseguir esquecer

*
À volta da sala, havia um pomar redondo que a envolvia de maçãs
avermelhadas, difusas. Ela estava lívida e suja, entre a castidade
e o remorso.
Ouviu: – Esquece o arrependimento. Fica.

*
Ao redor do pomar, existira um rio que secara nos últimos
anos. Se o seguisse, junto à margem, em linha curva e longa,
encontraria uma cidade desconhecida. Embora nenhuma cidade
seja desconhecida se soubermos onde está.

Ouviu: – Perder-te-ás na ausência
de água do rio.
*
Não havia um único espelho na sala. Ela não sabia o que era o
princípio e o fim. Desconhecia os conceitos de vida e de morte.
Nunca medira a sala, nem o pomar, nem o terror. Se desejasse,
abriria a porta.

Ouviu: – Assustar-te-á a existência
de dia e de noite
*
Sabia o seu nome. Chamava-se Eva. Nunca questionara. Porque
haveria de questionar um nome simples e breve? Desconhecia o
texto bíblico, e o simbolismo das palavras. Se se chamasse mar,
ou cálice, ou manhã, não o questionaria.

A Inexistência de Eva, de Filipa Leal, Deriva, 2009

sábado, junho 12, 2010

Catarina Nunes de Almeida na próxima Poesia em Vinyl (17 de Junho)

Depois de Filipa Leal, Catarina Nunes de Almeida é a convidada da próxima edição do Poesia em Vinyl. que terá  lugar no próximo dia 17 de Junho, pelas 21 horas, como habitualmente, no Restaurante Vinyl, em Lisboa.
 Catarina Nunes de Almeida  recebeu o Prémio Internacional de Poesia Castello di Duino, em Trieste, Itália e o Prémio Daniel Faria, em 2006.
Na Deriva Editores, publicou A Metamorfose da Planta dos Pés.


 
Para ler a sua poesia, estará presente a actriz Margarida Cardeal.
O momento musical estará a cargo dos Dead Combo.

O Poesia em Vinyl é um evento mensal, organizado por Raquel Marinho e Luís Filipe Cristóvão.

Fernando Pinto Amaral, Paulo Kellerman [Chega de Fado], domingo, 13 de Junho, 17h30 | LEITURAS CRUZADAS (auditório)



Em dia de Santo António, pelas 17.30, Paulo Kellerman e  Fernando Pinto Amaral estarão no Auditório da feira do Livro para  algumas Leituras Cruzadas.

Chega de Fado, o quarto volume de contos de Paulo Kellerman editado pela Deriva, representa a consolidação do percurso discreto mas sólido, e em diversos aspectos ímpar, que este escritor tem vindo a desenvolver. Explorando ao máximo as potencialidades da narrativa breve e marcado por uma construção original, Chega de Fado é um livro habitado por vinte personagens que, unidas em duplas, compõem os dez capítulos que o formam; em cada um destes capítulos (verdadeiros esquissos de potenciais romances), as estórias vão-se sucedendo sob diversas formas narrativas (contos, micro-narrativas, diálogos dramáticos) e evoluindo ou desevoluindo até à inevitável, e por vezes inconsequente, confrontação final.

quarta-feira, junho 09, 2010

Hoje, na Feira do Livro do Porto, Miguel Carvalho e Álvaro Domingues. Pelas 21:30 no Auditório

«Pelos Caminhos de Portugal» será o tema que levará hoje o jornalista Miguel Carvalho e o geógrafo Álvaro Domingues a encontrarem-se na Feira do Livro do Porto pelas 21:30, no Auditório. A moderação será de António Costa e o tema promete mais pelas afinidades das obras de ambos - compreender este Portugal que nos surpreende a cada esquina: para o mal e para o bem, aliás.

sexta-feira, junho 04, 2010

O Conto da Travessa das Musas [texto de João Pedro Mésseder, ilustração de Manuela São Simão]

Dia Mundial da Criança: Manuela São Simão numa workshop na Fnac do Gaiashopping

No dia 1 de Junho, Dia Mundial da Criança, Manuela São Simão apresentou as suas ilustrações de Conto da Travessa das Musas a uma plateia de 44 alunos do 1º Ciclo, no Gaiashopping. Pelo que vemos, a sessão foi animada e a Manuela não se fica só pelas belíssimas ilustrações que fez para este novo livro de João Pedro Mésseder. Foi ter com os miúdos e conquistou-os. E olhem que não é fácil.

quarta-feira, junho 02, 2010

Os autores da Deriva na Feira do Livro do Porto [programação]

Sábado 5 de Junho, 21h30 |  LEITURAS CRUZADAS [Praça Azul]
João Paulo Sousa (O Mundo Sólido) e valter hugo mãe



domingo, 6 de Junho, 18h
Bando dos Gambozinos (Com quatro pedras na mão)
(praça ESMAE)




quarta, 9 de Junho, 21h30 | Pelos Caminhos de Portugal (auditório)
Álvaro Domingues, Miguel Carvalho (Aqui na Terra)













domingo, 13 de Junho, 17h30 | LEITURAS CRUZADAS (auditório)
Fernando Pinto Amaral, Paulo Kellerman [Chega de Fado]




sexta, 18 de Junho, 18h30 | LEITURAS CRUZADAS (auditório)
António Mega Ferreira, Filipa Leal



sexta, 18 de Junho, 21h30 | LEITURAS CRUZADAS [Praça Azul]

Pedro Eiras, Rui Zink