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terça-feira, dezembro 03, 2013

Catarina Nunes de Almeida, no Porto, com alunos do Secundário

As turmas de Língua Portuguesa e Literatura Portuguesa na Secundária Aurélia de Sousa, no Porto

Zaida Braga e Catarina Nunes de Almeida

Foi no dia 27 de Novembro que Catarina Nunes de Almeida se encontrou com estudantes de Língua Portuguesa e Literatura na Escola Secundária Aurélia de Sousa, no Porto. A convite do JornalESAS e do Departamento de Línguas e Literaturas Modernas da mesma escola. A moderar o debate e a apresentar a Catarina esteve Zaida Braga, também ela autora de livros de apoio à disciplina de Português e Literatura (Mensagem http://www.centroatl.pt/titulos/desafios/mensagem.php3 e Lusíadas http://www.centroatl.pt/titulo/desafios/lusiadas.php3 ).
A sessão foi esclarecedora e sentiu-se algum entusiasmo na exposição sobre poesia, como ela deve ser sentida e lida por todos. Falou-se da poesia contemporânea e de nomes marcantes que a Catarina afirmou serem importantes para o conhecimento actual e do que se faz em Portugal: para além da Filipa Leal, que esteve presente neste encontro no ano passado, leram-se poemas de Jorge Sousa Braga, de Daniel Faria e de Gonçalo M. Tavares, citando-se igualmente a obra de Maria Rosário Pedreira (aqui foram alunas que pediram), dos nossos trovadores da Idade Média, de Camões e Fernando Pessoa. 
Espaço também houve para a poesia da Catarina e para a análise, embora fugaz, dos livros Metamorfose das Plantas dos Pés e Bailias. Do seu próximo livro também se falou, mas ainda será cedo para falar nele.

segunda-feira, março 11, 2013

Catarina Nunes de Almeida na Poesia à Mesa


Este ano a Poesia à Mesa, apoiada pela Câmara Municipal de S. João da Madeira vai ter como companhia a Catarina Nunes de Almeida. As informações ainda são escassas, mas fica a promessa de irmos dando notícias do evento. Junto com a Catarina, estará Alice Vieira e Ana Luísa Amaral e dir-se-á poesia de António Nobre, Mário Cesariny e Vinicius. Quase que apostamos que Pedro Lamares vai estar presente a dizê-la como só ele sabe. Mas disso não há ainda confirmação.

sexta-feira, janeiro 18, 2013

Um poema de Catarina Nunes de Almeida


Avistei a boca ao entardecer.
A língua não vinha nos mapas,
mas no palato agrupavam-se diversas constelações
e pertencia-lhes a ventura dos meus dedos.
Não havia notícias de outros povos
nem sequer uma mácula de cerejas.
Plantei o primeiro seio
a que chamámos macieira
e abandonei o ventre
à generosidade vegetal.
Nessa noite dormimos por dentro e por fora
do mundo.

Catarina Nunes de Almeida, A Metamorfose das Plantas dos Pés, Deriva, 2008

quarta-feira, abril 04, 2012

Goethe and the Metamorphosis of Plants, André Masson, 1940. Em Serralves

Em Serralves encontrei este quadro de André Masson titulado Goethe and the Metamorphosis of Plants, pertencendo a uma coleção privada de arte Dadá e Surrealista.
Para a Catarina Nunes de Almeida e para o seu livro, editado pela Deriva, A Metamorfose das Plantas dos Pés (em baixo).

sexta-feira, setembro 30, 2011

Bailias

(foto daqui)



Catarina Nunes de Almeida lembra e recria, neste seu terceiro livro, as medievais cantigas de amigo e de amor. Imaginário de música e cantos de segréis, trovas de poetas e memoráveis danças de donzelas de corpos finos. Nos ecos dessas seroadas segura a música do seu universo poético, que cerziu a mulher à natureza e dessa ligação fez nascer íntimos catálogos de pássaros, árvores e frutos, novos espaços de idioma, pelejas, sínteses e fábulas. Move-se, com passo seguro, do antigo para o novo e do novo para o antigo, com a graciosidade e o assombro das bailadas, entre ‘Folguedos e Noites de Pastoreio’, ‘Barcarolas ou Manhãs Frias’, ‘Mágoas ou Cantos de Alvoroço’ e ‘Cantigas de Romãzeira’. Volta, com Bailias, a colocar a poesia no seu primordial lugar de cântico: «Irei eu em todas as minhas mãos / pégasos e ventanias / o corpo preso por um frio gentil / o corpo a tilintar de sonhos. // Serei eu o que ele for / na cavalgada».





Meu amigo perdoa-me
se espantei as gazelas
para um canto do sótão
se me cresceram músculos
neste olhar-te neste cuidar que dá cuidado.

Mas do alto dos seios
no ruir das lamparinas
vale a pena olhar-te. Daqui
da mais sincera pobreza
onde permaneces apenas tu
adão e erva
e o céu manchado pelas libelinhas.

Catarina Nunes de Almeida, in Bailias

terça-feira, julho 19, 2011

Arte de folgar, Bailias por José Mário Silva, na Ler



Bailias
Autora: Catarina Nunes de Almeida
Editora: Deriva
N.º de páginas: 62
ISBN: 978-972-9250-77-4
Ano de publicação: 2011

No seu terceiro livro de poemas, Catarina Nunes de Almeida apropria-se dos temas, ritmos e vocabulário das cantigas de amigo medievais. Os poemas são delicadamente atribuídos a donzelas cheias de graça e leveza, tão disponíveis para o amor como para o espectáculo grandioso da natureza. Este é um mundo de folguedos, uma espécie de primavera eterna, declinada em cânticos que ecoam nas «noites bem bebidas». Um mundo de cavalgadas e pomares, florestas e «pasto aceso», tranças e ramos, pão e uvas, lençóis e remos, «ancas ondeadas» e carne viva. As raparigas bailam «rente aos caules / pelos caminhos curvos do vento», ensaiando a «perfeição de um delito» que é sempre um excesso de felicidade, um alvoroço, a manifestação «de uma alegria que tem flores e frutos».
Catarina Nunes de Almeida deixa-se levar por estas criaturas diáfanas, aéreas, luminosas (embora não necessariamente inocentes), abre-lhes as dobras dos seus poemas, inventa-lhes um rasto e enquadra-as num universo verbal bem cerzido, feito de regras antigas que se estilhaçam com garbo, quase sempre através de subtis jogos de palavras («o grande aqueduto das éguas livres»; «adão e erva»; «árvore de rapina»). Aqui, a arte de folgar representa também a liberdade de fazer da linguagem o palco de todas as brincadeiras, de todos os desvios, de todas as reinvenções. É com «brandura épica» que acedemos às veredas que levam ao coração de cada texto. Como nos versos iniciais da secção intitulada “Barcarolas ou Manhãs Frias”:
Começávamos o dia por baixo
pelo tempo da pedra. A escarpa muscular onde ia gastando os teus sapatos. Manhãs compridas que chegavam ao mar. Trazíamos as letras inclinadas trazíamos na ponta da língua o nome dos naufrágios e estávamos à mesa como um corpo de baile.
Avaliação: 7,5/10
[Texto publicado no n.º 102 da revista Ler]

sexta-feira, maio 27, 2011

Bailias, de Catarina Nunes de Almeida


 «Catarina Nunes de Almeida lembra e recria, neste seu terceiro livro, as medievais cantigas de amigo e de amor. Imaginário de música e cantos de segréis, trovas de poetas e memoráveis danças de donzelas de corpos finos. Nos ecos dessas seroadas segura a música do seu universo poético, que cerziu a mulher à natureza e dessa ligação fez nascer íntimos catálogos de pássaros, árvores e frutos, novos espaços de idioma, pelejas, sínteses e fábulas. Move-se, com passo seguro, do antigo para o novo e do novo para o antigo, com a graciosidade e o assombro das bailadas, entre ‘Folguedos e Noites de Pastoreio’, ‘Barcarolas ou Manhãs Frias’, ‘Mágoas ou Cantos de Alvoroço’ e ‘Cantigas de Romãzeira’. Volta, com Bailias, a colocar a poesia no seu primordial lugar de cântico: «Irei eu em todas as minhas mãos / pégasos e ventanias / o corpo preso por um frio gentil / o corpo a tilintar de sonhos. // Serei eu o que ele for / na cavalgada». 


O único maremoto de que há memória

aconteceu nos teus cabelos que hoje são lisos
e deixam a água pelos tornozelos
até ser de manhã.

Agora até a terra passou.
Cruzam-se valsas e expedições na curva do seio
a música não cabe na boca das aves

e nós, meninas, bailaremos i.


***

Meu amigo perdoa-me
se espantei as gazelas
para um canto do sótão
se me cresceram músculos
neste olhar-te neste cuidar que dá cuidado.

Mas do alto dos seios
no ruir das lamparinas
vale a pena olhar-te. Daqui
da mais sincera pobreza
onde permaneces apenas tu
adão e erva
e o céu manchado pelas libelinhas.

Catarina Nunes de Almeida, in Bailias

domingo, abril 24, 2011

Cântico das Nervuras | Catarina Nunes de Almeida

Cântico das Nervuras

São tãu largas as noites
para a concisão de um corpo.
Tão escuro o soriso que as pernas abren
ao mundo
e no entanto animal que passe
aloira-se nas águas e geme
de uma alegria que tem flores e frutos.

Catarina Nunes de Almeida, in Bailias

sábado, abril 02, 2011

Bailias, hoje no Expresso, por Pedro Mexia

BAILIAS,
de Catarina Nunes de Almeida Deriva, 2010, 68 págs., | Poesia
Pedro Mexia


Em vez de um discurso ‘feminista’, crítico, sarcástico ou desconstrutivo, Catarina Nunes de Almeida (n. 1982) tem escolhido um tom aparentemente anacrónico para proceder, por dentro e de mansinho, a uma revisão empática e irónica do ‘feminino’ em poesia. Veja-se como em “Prefloração” (2006), mas também em “A Metamorfose das Plantas dos Pés” (2008), recuperou um universo vegetal, mais diáfano ou mais sensual, conforme os casos, mas voluntariamente antigo. O recente “Bailias” prossegue esse caminho, convocando desta vez a memória das cantigas de amigo. Os poemas são folguedos, bailes, barcarolas, miniaturas bucólicas, e nem faltam vocábulos arcaicos e outras remissões para a poesia galaico-portuguesa. Uma poesia inicial e canónica, que ecoa em contemporâneos como Eugénio de Andrade (que é por isso citado). Tal como em Eugénio, o erotismo vigiado das cantigas de amigo é aqui chamado para primeiro plano. As “meninas”, correndo pelos bosques e pinhais, pelas noites e as ermidas, descalças até aos ombros, vão ter com os “amigos”, numa sucessão ritualista de anseios, hesitações e glórias. O imaginário medieval apenas nomeava, em chave simbólica, os cabelos e as tranças, mas agora surgem também o “ventre” e a “vulva”, além de subtis deslocações de sentido, corruptelas, alusões. E assim somos guiados de volta a esse tempo genesíaco, tempo de cântico das criaturas: “Dai-me só mais este passo, meu amigo,/ às escuras às curvas/ pelas ervas abaixo./ Dai-me desse certeiro espinho desse derradeiro laço/ às escuras às escuras:/ só mais esse poço primitivo (...)// Alguém atire a primeira perna./ Alguém diga/ desta espádua beberei.” Um cântico violentamente delicado. Pedro Mexia

Bailias, de Catarina Nunes de Almeida, por Pedro Mexia

«Um cântico violentamente delicado», Pedro Mexia,

terça-feira, março 15, 2011

Bailias, de Catarina Nunes de Almeida


 «Catarina Nunes de Almeida lembra e recria, neste seu terceiro livro, as medievais cantigas de amigo e de amor. Imaginário de música e cantos de segréis, trovas de poetas e memoráveis danças de donzelas de corpos finos. Nos ecos dessas seroadas segura a música do seu universo poético, que cerziu a mulher à natureza e dessa ligação fez nascer íntimos catálogos de pássaros, árvores e frutos, novos espaços de idioma, pelejas, sínteses e fábulas. Move-se, com passo seguro, do antigo para o novo e do novo para o antigo, com a graciosidade e o assombro das bailadas, entre ‘Folguedos e Noites de Pastoreio’, ‘Barcarolas ou Manhãs Frias’, ‘Mágoas ou Cantos de Alvoroço’ e ‘Cantigas de Romãzeira’. Volta, com Bailias, a colocar a poesia no seu primordial lugar de cântico: «Irei eu em todas as minhas mãos / pégasos e ventanias / o corpo preso por um frio gentil / o corpo a tilintar de sonhos. // Serei eu o que ele for / na cavalgada». 


O único maremoto de que há memória

aconteceu nos teus cabelos que hoje são lisos
e deixam a água pelos tornozelos
até ser de manhã.

Agora até a terra passou.
Cruzam-se valsas e expedições na curva do seio
a música não cabe na boca das aves

e nós, meninas, bailaremos i.


***

Meu amigo perdoa-me
se espantei as gazelas
para um canto do sótão
se me cresceram músculos
neste olhar-te neste cuidar que dá cuidado.

Mas do alto dos seios
no ruir das lamparinas
vale a pena olhar-te. Daqui
da mais sincera pobreza
onde permaneces apenas tu
adão e erva
e o céu manchado pelas libelinhas.

Catarina Nunes de Almeida, in Bailias

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Inês Fonseca Santos conversa com Catarina Nunes de Almeida

Inês Fonseca Santos. A Adília Lopes escreveu a sua autobiografia sumária (e é uma autobiografia simultaneamente ligada ao real e à poesia; à vida e à obra). Consegues escrever a tua?

Catarina Nunes de Almeida . Dificilmente. Não tenho jeito nenhum para falar de mim com ironia. Até lá ainda tenho que aprender a fazer umas quantas caretas à frente do espelho!

IFS. Lembras-te do primeiro poema/verso que escreveste? Tinha alguma palavra no feminino?

CNA. Raramente memorizo versos de poemas, nem mesmo dos meus. Mas lembro-me que aquilo que escrevi, logo desde cedo, tinha uma dimensão física muito grande – creio que, de certo modo, o meu crescimento nas palavras acompanhou o crescimento do meu corpo. Além disso, quando começamos a escrever, estamos muito comprometidos com as nossas experiências pessoais, com a nossa aldeia de afectos, com o nosso umbigo. Há muita inocência, muita sinceridade, porque ainda não retiramos grande gozo a brincar aos poetas-fingidores e a ampliar os pontos de vista. Falta geralmente, nos primeiros poemas, um pouco de sombra. Por isso, a dimensão feminina dessas minhas primeiras palavras, por certo, saltava à vista de forma muito evidente.

IFS. Hoje, no século XXI, ainda se escreve poesia no feminino ou o(s) género(s) caiu(caíram) em desuso?

CNA. Não sei se sei falar sobre isto. A escrita ou é uma apropriação de experiências de outros, ou é uma reciclagem de experiências próprias, ou é devaneio puro. Nessa medida, creio que a poesia pode corresponder a todos os géneros, inclusive ao neutro (aquele que, na verdade, não morreu com o latim). Julgo que o importante é estar apto para separar aquele que escreve daquele que é escrito – ou seja, o sexo do poeta não deve ser confundido com a sua expressão, com a sua voz. Mas como disse: não sei se sei falar sobre isto. Por enquanto, para mim, são questões que podem ficar à margem.

IFS. E voltando a este nosso século XXI, ainda temos palavras para usar, para gastar nos poemas (quer seja no feminino, quer seja no masculino)? Ou já foi tudo dito, como se anunciava nos anos 70 do século passado?

CNA. Penso que neste nosso século XXI o exercício pode ser bem mais interessante do que foi até aqui. Eu creio que a escrita ganha muito ao passar por outros processos criativos que não a simples busca de palavras raras ou novas. O meu terceiro livro, «Bailias», nasceu através de um desses processos, a que chamaria mesmo de “reciclagem”. Podemos resgatar uma linguagem ou uma estética datada e perdida no tempo, e conceder-lhe um novo fôlego ou um efeito inesperado. É uma grande ousadia e um grande desafio. Outra forma de escrever pode ser também contrariar a própria escrita. É um processo que ponho em prática muitas vezes, sobretudo quando comecei a conhecer com mais profundidade as poéticas do Extremo Oriente. A poesia não tem que ser a procura desmedida de palavras – pode muito simplesmente passar por uma prática de “higiene” na linguagem (para usar a expressão de Ezra Pound): uma limpeza do verso, uma redução do mundo ao seu grãozinho essencial. Assim é mais difícil que as palavras se desgastem.

IFS. E há palavras para recuperar? Como, por exemplo, a palavra "poetisa"?

CNA. O que mais existe são palavras para recuperar. Quanto mais recuamos na língua, mais nos surpreendemos com palavras-monumento. O poeta já não é só um fingindor; o poeta é um arqueólogo da linguagem, cada vez mais. Sobre a palavra “poetisa” é que não tenho muito a dizer: eu não distingo o poeta da poeta, assim como ninguém distingue o malabarista da malabarista.

IFS. Tu és poeta ou poetisa?

CNA. Poeta.

IFS. Muitas feministas odeiam o Pessoa. E o Pessoa falava dos casos de "feminino mental", referindo-se a uma determinada sensibilidade e ao modo de a expressar. Ainda existe essa sensibilidade feminina? Fazes uso dela? Ou ela apenas serve (e estimula) a ironia?

CNA. Acredito nesse “feminino mental”. E sim, faço uso da minha experiência enquanto mulher em quase todos os momentos da minha escrita. Ser mulher não é para mim um acto isolado – no meu caso, essa condição aderiu visceralmente às palavras e nunca procurei afastar-me disso.

IFS. O mês de Março é também o mês da Primavera, e a Primavera costuma associar-se à mulher, ao feminino. Lembro-me de uma história do Manuel António Pina em que ele dizia ter levado anos para conseguir usar a palavra "pétala" num poema. Conseguiu, mas assumiu que sempre teve medo dessa palavra. Alguns poetas - sobretudo homens - têm realmente medo de algumas palavras. E tu, Catarina, consegues identificar palavras que te assustam, de que desconfias, e que recusas quando escreves?

CNA. Não descobri ainda nenhuma palavra que considere “interdita”. Mas a poesia é para mim um veículo essencial de Beleza, pelo que mantenho uma postura muito selectiva e resistente em relação às palavras. Procuro, principalmente, trazer para os poemas palavras com um certo grau de nevoeiro, que facultem um pouco de sombra, que potenciem a placidez das imagens. À parte disso, devo confessar que gosto muito de advérbios de modo. E de dar o braço a torcer em relação a certos adjectivos.

[versão completa publicada por Inês Fonseca Santos no Facebook]

sábado, fevereiro 05, 2011

Palavras, Palavras [poetas na Elle de Março]

[por Inês Fonseca Santos, Elle, Março 2011]


«A matéria delas são as palavras. Simples, como elas definem as dos poemas que escrevem. Mesmo que às vezes lhes faltem, ou demorem a cair no papel, as palavras delas permanecem; mesmo que se fechem as páginas que elas têm publicado, as vozes delas continuam a ouvir-se. Porquê? Porque nos levam pela mão e «grande é a mão que toma a de outrém/ sem prepotência».
Elas são Margarida Vale de Gato (autora dos versos citados), Catarina Nunes de Almeida, Filipa Leal, Margarida Ferra e Renata Correia Botelho. Nasceram entre o fim dos anos 70 e o início dos 80, e é mais antiga do que elas a relação que têm com a poesia. De que outro modo poderiam dialogar com poetas medievais, como faz Catarina; com Borges, como faz Renata; com Sylvia Plath, como faz Margarida V.G.; com Marguerite Duras, como fazem Filipa e Margarida F.? São exemplos, apenas. Ou provas de que os poetas escrevem com a memória. «Não é uma condenação, é uma benção», assegura Renata. «Se um dia não for capaz de dialogar com a memória e com o que nela vive (filmes, quadros, vozes, os pássaros e o mar, roulotes no meio da neve), quero ter a certeza de que não escrevo mais».


Assim se cumpre o ofício destas poetas. Ou poetisas? Pouco lhes importa, até pelo facto de, como sublinha Margarida F., «as palavras não valerem por si, mas pelo lugar que lhes é dado». Catarina, para quem «o poeta é um arqueólogo da linguagem», não o distingue da poeta, tal como não distingue o malabarista da malabarista. «A palavra é um género em si mesma», acrescenta Filipa. E lembra um verso da brasileira Marize Castro: «Amo as palavras./ Por elas também virei homem». Na verdade, apenas porque Filipa um dia deixou escrito: «Esta sou eu que fiz uma pausa na palavra».

E a palavra pode ser «bolso, miopia, pássaro» (Margarida F.) ou «chuva e pólvora» (Margarida V.G.); seja qual for, ao tornar-se habitante dos poemas destas autoras, adquire «um certo grau de nevoeiro» (Catarina), aproxima-se das «fronteiras silenciosas dos mundos» (Renata). Significa mais – e, por isso, escolhemos lê-las. Aqui, são elas que escolhem. E assinam autobiografias sumárias. Como um dia fez Adília Lopes. Desviam-se dela. A poesia é isso mesmo: um desvio capaz de transformar atalhos em v(e)ias principais, comunicantes.

A poeta que, em Bailias, o terceiro livro, recria cantigas de amor e amigo diz não ter jeito para falar de si. Mas deixa pistas.


«O que escrevi, desde cedo, tinha uma dimensão física grande. De certo modo, o meu crescimento nas palavras acompanhou o cres¬cimento do meu corpo. Quando começamos a escrever, estamos comprometidos com a nossa aldeia de afectos, com o nosso umbigo. Não retiramos grande a brincar aos poetas-fingidores. Falta, nos primeiros poemas, pouco de sombra»




Uma canção: Hey, That's no Way to Say Goodbye, de Leonard Cohen.
Uma cantiga de amigo: Cantiga de Amigo, dos meus amigos Guta Naki.
Uma cantiga de amo: Valsinha de Chico Buarque.


 
Filipa Leal

Um dia será conhecida a verdadeira autobiografia de Filipa Leal. Menos sumária do que a de Adília Lopes.
«Nasci em 1979, ano em que Mar­garet Thatcher se tornou a pri­meira primeira-ministra britânica. Quando era pequena queria ser cientista ou palhaço. Tinha, como se calcula, a mania das grandezas. O primeiro poema que escrevi não era um poema. Era uma folha de Outono que apanhei do chão e que pedi à minha avó Isabel para enviar à tia Zélia»


Um filme. India Song, de Marguerite Duras.
Uma cidade. Porto, meu marido; Londres, minha ex-mulher.
Um verso que sabe de cor. As coisas. Que tristes são as coisas consideradas sem ênfase. (G. Drummond de Andrade)



[por Inês Fonseca Santos, Elle, Março 2011]

Bailias, Catarina Nunes de Almeida, na Notícias Sábado

Bailias, Catarina Nunes de Almeida
Obcecada com os pós-modernismos e demais ismos, a poesia actual (a esmagadora maioria da poesia, para sermos mais exactos) esquece-se das origens. Por isso, preocupada como se revela com o presente, que se esgota no imediato sem que nos apercebamos, relega e desconsidera a herança literária, como se de uma curiosidade inútil se tratasse. O resultado é uma desmemória que, embora acrescente uma suposta actualidade a estes escritos fortemente ancorados no quotidiano, apenas empobrece o seu conteúdo. Caminho inverso é o que percorre Catarina Nunes de Almeida no seu novo livro - o terceiro -, que assume corajosamente como referências primordiais as cantigas de amor e de amigo. Todavia, a leveza e o ritmo que percorrem estes poemas não os aprisionam num passado remoto. Pelo contrário. Estabelecendo um diálogo permanente entre o ontem e o presente, a autora de A Metamorfose da Planta dos Pés, cuja escrita límpida não descarta a influência de poetas como Eugénio de Andrade ou Sophia de Mello Breyner, assegura uma evidente transcendência que encontra na musical idade extrema a maior virtude. [Notícias Sábado '265]




segunda-feira, janeiro 31, 2011

Bailias no Botequim da Graça


Quarta-feira, dia 3, pelas  22:00, apresentação de Bailias, de Catarina Nunes de Almeida., no renovado Botequim da Graça, fundado por Natália Correia, em 1968, com Isabel Meyrelles, Júlia Marenha e Helena Roseta. Foi ali, no Botequim que, durante as décadas de 70 e 80, se reuniu grande parte da intelectualidade portuguesa, de Fernando Dacosta a David Mourão-Ferreira, António Alçada Baptista, José-Augusto França, Luiz Pacheco, Ary dos Santos e José Cardoso Pires.

 
Botequim da Graça | Largo da Graça, 79/80 | Lisboa, Portugal

               Na sessão estarão presentes além de Catarina Nunes de Almeida, Duarte Braga, Ana Salomé e os   Belle Route.

domingo, dezembro 26, 2010

Duas Bailias de Catarina Nunes de Almeida

O único maremoto de que há memória

aconteceu nos teus cabelos que hoje são lisos
e deixam a água pelos tornozelos
até ser de manhã.

Agora até a terra passou.
Cruzam-se valsas e expedições na curva do seio
a música não cabe na boca das aves

e nós, meninas, bailaremos i.


***

Meu amigo perdoa-me
se espantei as gazelas
para um canto do sótão
se me cresceram músculos
neste olhar-te neste cuidar que dá cuidado.

Mas do alto dos seios
no ruir das lamparinas
vale a pena olhar-te. Daqui
da mais sincera pobreza
onde permaneces apenas tu
adão e erva
e o céu manchado pelas libelinhas.

Catarina Nunes de Almeida, in Bailias