segunda-feira, junho 15, 2026

"Triunfo do Triunfo", Luísa Costa Gomes

 

D. Quixote, Março de 2026
Ler um novo livro de Luísa Costa Gomes é um exercício de controlo de comportamentos considerados quase anti-sociais. Se não vejamos: ler um livro em público, hoje em dia, num jardim ou café, é já considerado coisa estranha. Pior do que ler um jornal em papel. Se nos ativermos na leitura de «Triunfo do Triunfo» é bom não mostrarmos as emoções se considerarmos que rir, perante este conto homónimo, e em local público, poderá ser considerado sinal claro de menoridade mental acentuada. Digamos que rir, chorar, pensar enquanto se lê, não é pelos ajustes das sociedades hodiernas, a menos que seja frente a um telemóvel onde se podem revelar todas e quaisquer atitudes como falar alto e rirmo-nos à gargalhada, insultar ou ameaçar o marido ou a mulher, ver reels de porrada até avermelharem-se os olhos, suspirar por um encontro mal sucedido, tudo, desde que em telemóvel, será perdoado. Num livro proibir-se-á toda e qualquer interacção emocional porque não é bem de ver. Ora, ler este livro leva-nos direitinhos a esses arroubos literários de imediata conjunção às personagens desfiladas em cada conto. Todas elas diferentes, todas com segredos infindos, todas com desejos congruentes, explicáveis, genuínos. Saber que o herói improvável do conto «Triunfo do Triunfo», pessoa normal, portuguesa e tudo, deseja ser como «a média europeia» é todo um manifesto do paroxismo intelectual pátrio, uma louvável ascensão à mais fina filosofia eduardo-lourenciana, a um miguel-realismo de primeira água. Ser a «média europeia» tornou-se a mais alta aspiração de um português de gema, de um honrado e servil aspirante a político da praça, de um Inácio Carlos e de uma Cláudia Filipa, aspirantes a gestores de cemitérios modernos transformados em espaços para louvor da vida, um novo lifestyle que os portugueses demorarão a perceber não fossem as suas ideias eleitas em votação autárquica, sendo que «o facto de ter havido votantes já era uma grande vitória da democracia.» Luísa Costa Gomes é assim: livre, anárquica, justamente descendente do melhor do abjeccionismo luso, com olho de lince para o irrisório, o ridículo de que somos todos feitos. 

alc