Actes Sud (Col. Babel), 2016.
O que haverá de comum entre Lissagaray, Orwell, John Reed e Éric Vuillard? Se Lissagaray descreveu aqueles gloriosos 72 dias da Comuna de 1871, se Orwell dissertou sobre a Guerra Civil de Espanha e John Reed contou-nos aqueles 10 dias da Revolução Russa, Éric Vuillard realizou uma experiência literária que nos conduz a um só dia da Revolução Francesa: o 14 de Julho de 1789. Não exagero se me atrevo a dizer que este livro nos conduz de um modo extremamente vívido ao povo que, pacientemente, Vuillard retira do anonimato quando decidiu assaltar violentamente a Bastilha e tomar em mãos os destinos da França e, provavelmente, sem tomar total consciência disso, os destinos do mundo. Só existe uma diferença entre os nomes que referi e o nosso autor já aqui citado várias vezes: Vuillard não «assistiu» ao início da Revolução; de resto, ele é um nosso contemporâneo e soube descrevê-la ao ponto de sentirmos o bater do coração do povo em fúria, do desespero que o levou a entregar-se à morte face aos canhões e às espadas, da necessidade de transmutar-se em peças inseparáveis de uma enorme roda que esmagava o Antigo Regime e os seus representantes de uma velha ordem que entendiam como «natural». Não era e o povo de Paris apresentou os seus argumentos na violência regeneradora por uma sociedade igualitária, livre e fraterna. Nesse mesmo dia, o 14 de Julho, Éric Vuillard soube transmitir-nos o pulsar de uma revolução na rua, o início de uma realidade que pode resgatar uma utopia, mostrar, com uma inteligência literária viva, as contradições de classe já existentes na explosão revolucionária. É um livro que viaja por um só dia e cujo ritmo nos leva quase ao minuto, à hora, em que sentimos o calor abafado de Julho e o que ele provoca nos corpos comprimidos como uma massa única; ouvimos os gritos dos feridos e a sensação de abandono que sentem os que lentamente morrem frente aos portões da Bastilha, adivinhamos o sentimento de revolta profunda dos que sentiram fome ou que nunca puderam dar de comer aos seus, a doença e o desemprego, enquanto Versalhes se afundava no luxo e na infâmia dos enormes gastos e na repressão mais hedionda. A burguesia soube ser revolucionária, como a caracterizou Marx quase um século depois, mas não deixou de ser astuta e oportunista, usando a força popular para os seus próprios interesses. Interessante verificar que Vuillard já nos dá esta visão política com as descrições das delegações dos «representantes do povo» nas negociações pela rendição da Bastilha, tentando ultrapassar e moderar as decisões populares saídas directamente da rua em ebulição e isto tudo na cronologia de um só dia.
Um livro que não foi traduzido e editado em Portugal. Vá lá saber-se porquê.
alc
