Quetzal, 2026. Tradução de Margarida Amado Acosta.
Já não basta a edição ser grafada com o malfadado e inútil desacordo ortográfico de 1990, mas prefaciar o maravilhoso «Lazarillo de Tormes» por alguém que o critica, ainda por cima pelas piores razões, já é um bocadinho demais. O culpado é o grande mamífero Francisco José Viegas e o prefaciador, autor espanhol falecido em 1960, Gregorio Marañón y Posadillo! Valha o grafismo da edição e a tradução de Margarida Amado Acosta que me parece perfeita e conforme o picaresco da linguagem do «Lazarillo». Ler este livro leva-nos, por inteiro, ao século XVI ibérico. Digo ibérico e não somente espanhol, visto que a sua leitura remete-nos, por afinidade social óbvia, para Gil Vicente, principalmente para o «Auto da Barca do Inferno», peça onde ninguém sai incólume da crítica social, como sabemos. A novidade em «Lazarillo» é que, diz-se, é a primeira obra em forma de romance. Seja. O que é admirado pelo leitor é a escrita escorreita, a crítica explícita, a linguagem bem calibrada e a ironia que tem como alvo principal as classes, ou ordens, possidentes. O pequeno Lázaro passa por tudo e por todos e safa-se sempre com astúcia, não sem alguns engulhos, aflições e tristezas, estados de espírito que se colam sistematicamente aos subordinados. É esta a condição de quem nasce pobre: ser explorado até ao tutano, passar fome, não ter o que vestir ou calçar, mas manter-se alerta e ser esperto o suficiente para conseguir sobreviver. É o que o prefaciador chama de «romance picaresco» que, como se disse atrás, não é de bom tom para a «alma espanhola», porque transmite uma ideia diferente do que é realmente o espírito ibérico ou, ainda pior, provocar «a influência indubitável que esta literatura teve na depressão dos valores fundamentais de Espanha», seja lá o que isso for. Não fosse Gregorio Marañón um amigo e contemporâneo de Unamuno que «descobriu» a constante suicida na alma portuguesa! Pior vem a seguir, páginas adiante do infeliz prefácio, quando é afirmado que a censura não era particularmente violenta a não ser para assuntos teológicos (pág.24). E continua sem qualquer rebuço, o senhor Marañón y Posadillo: «E quanto à censura religiosa, o espanhol acomoda-se a ela docilmente. Mais ainda, ter-se-ia acomodado voluntariamente a ela, sem necessidades de repressões, porque, quase sem exceção, era sinceramente católico.» Claro que este autor tem para si que «Lazarillo de Tormes» era uma crítica social e política e que não seria objecto de censura. Mas foi-o, logo cinco anos após a sua publicação, pela sempre presente Santa Inquisição, sendo que a versão completa só foi conhecida em pleno século XX. Em Portugal só foi conhecido, e em parte, a partir de 1712! Ainda há uma outra questão tão óbvia que até impressiona: não se é anónimo porque sim! E assim permaneceu até hoje, anónimo, tal como com o «nosso» «Arte de Furtar». Mas evitemos Gregorio que já lhe dei linhas a mais. Mas esta teimosa opção por prefácios mal amanhados é uma tendência editorial que não se compreende.
«Lazarillo de Tormes» ombreia com os melhores romances e autores deste estilo literário que nos aparecem a partir de um Renascimento, mesmo quando a sua força literária seja muito díspar na Europa. Ao ler esta maravilha, não podemos de deixar de lembrarmo-nos de Rabelais, de Swift, de Bocaccio ou de um Chaucer, para não falar igualmente do já citado Gil Vicente. Que não se perca uma linha desta leitura amiga e cúmplice.
alc
