quinta-feira, junho 11, 2026

"Nevoeiro", Pedro Eiras

 

Assírio & Alvim, Maio de 2026. 
«Que tempos são estes, em que é preciso defender o óbvio?» esta epígrafe, atribuída a Bertolt Brecht, remete-nos para o início desta investigação ficcionada que Pedro Eiras nos convida a seguir. Não é uma contradição nos termos. É o rigor a que tudo imprime Pedro Eiras, quer como professor de Literatura, quer como autor ou, ainda, como leitor inserido na polis, não disposto a uma neutralidade irritante que, ao contrário dos que muito defendem e praticam, afasta toda a gente. Nos tempos que correm, avisa-nos na sua Nota Final, que a memória é fundamental para compreender uma fatia importante dos factos que correm à frente dos nossos olhos. Trata-se de um conjunto de peças que são colocadas numa engrenagem a três dimensões. A engrenagem da crítica política, outra da Literatura e outra ainda da História de que é feita a memória enevoada ou, se quisermos, ficcionada através das evidências factuais. Essa memória foi construída, em «Nevoeiro», como se fosse uma bruma densa que inicia logo o primeiro capítulo. Fernando Pessoa, o Chiado, o palácio de S. Bento onde, em 1935, Salazar tratava de consolidar o Estado Novo numa Europa em convulsão e hipnotizada pelo autoritarismo. O levantamento paulatino desse nevoeiro é clarificado com o decorrer da leitura.

Pedro Eiras não cede. É este o seu estilo literário que assim escolheu para este livro, conhecendo-se o que antes foi editado e mesmo escrevendo em «Nevoeiro» que tem a liberdade de tergiversar nos campos infinitos da escrita, que não se pode remeter a um só formato. Chega a ser terrivelmente honesto connosco, leitores: «Por que motivo, então, adio os livros que desejo, e avanço nesta investigação sobre a escrita e o poder? Desisti mil vezes de escrever este livro, tão distante de todos os outros. Vez após vez este projecto de investigação assaltava-me, seduzia-me, assustava-me. E desistia, ainda antes de começar.» (pág.53) Adivinhamos alguma luta interior que atravessa um largo tempo, facto que seduz igualmente quem lê, pela intimidade que se abre. Com efeitos mais do que interessantes. Estamos perante um livro que se deve guardar e relê-lo de tempos a tempos.

Pedro Eiras não é neutral: contradiz os falsos baluartes do autoritarismo fascista de Salazar, admirador de Mussolini e paternalista perante o seu «enfant terrible» António Ferro, dado às vanguardas futuristas e modernistas e que conheceu Fernando Pessoa na Orpheu, tentando levá-lo para o Secretariado da Propaganda Nacional através da «Mensagem» a quem, ironicamente, foi outorgado o 2º prémio do seu primeiro concurso. Deixo-vos a liberdade de lerem com a atenção e entusiasmo que merece a segunda parte de «Nevoeiro» e entrarem na trama cuidadosamente elaborada por Pedro Eiras sobre Fernando Pessoa ortónimo e os seus heterónimos, mais as dúvidas, contradições e certezas deste. Também não é neutral sobre Os Lusíadas e Camões, como o não é para Vieira e Bernardes e sobre as violências coloniais de um Império que o salazarismo tentou mitificar, com algum sucesso para os tolos ou imbecis, diga-se. Tal como não é neutro, agora pela positiva, para Fernando de Oliveira, Diogo de Couto ou João de Castro que denunciaram, em pleno século XVI, as violências da escravatura e do Império. Sendo assim, este livro torna-se um importante libelo em torno da liberdade e da veracidade, tal como uma questão central da literatura pós-colonial, como seja o do anacronismo das críticas actuais sobre a violência do esclavagismo (já em 2009, Pedro Eiras tinha escrito «Um Punhado de Terra», uma peça de teatro que foi a palco no Porto sobre este mesmo tema). Em «Nevoeiro» podemos ler «(...) Mas qualquer leitura é sempre feita no presente; qualquer leitura é anacrónica - ou supercrónica. Nunca leremos Homero como na Antiguidade, nem Dante como na Idade Média, nem Shakespeare como no Renascimento; ler implica assumirmos o nosso anacronismo. Falácia seria, isso sim, fingir que podemos esquecer o conhecimento que temos do passado, pôr a nossa consciência entre parênteses.»(pág.80)

«Nevoeiro» transporta Pedro Eiras para uma dimensão inigualável na literatura contemporânea. 

alc