Assírio & Alvim, 2026. Versões e introdução de Jorge Sousa Braga.
É um livro belíssimo de Matsuo Baschô e que nos é apresentado e guiado com cuidado extremo por Jorge Sousa Braga. As notas são fundamentais para o acompanhamento interessado da leitura dos poemas. Logo na Introdução, deparamos com uma sumária descrição da vida de Bashô (o nome dele era, de facto, Kinsaku); tendo nascido em 1644, em Ueno, teve uma educação que o levaria a ser samurai, tal como o seu pai. Mas foi a poesia que se atravessou no seu caminho através da escola de haikai Teimon. Não parou de viajar, fixando-se muito novo ainda em Edo, que é a Tóquio actual. Podemos acompanhar os poemas pelos mapas disponibilizados para esta edição, o que é uma boa opção para quem gosta de «acompanhar» nómadas. Viajar, conversar, observar, caligrafar e escrever. Meditar, igualmente. Amar o silêncio e observar os pequenos gestos e fenómenos da vida. Conhecer a singularidade das poesias japonesa e chinesa e tentar contornar os lugares-comuns ocidentais ligados a esta arte milenar. Como, por exemplo, a ideia errada que a poesia japonesa é radicalmente diferente da chinesa. Bashô foi beber às escolas chinesas muito do que escreveu, ou, então, inscrever a sua poesia no muito ocidental desejo recente do homem se integrar na Natureza (esta culpabilização!), mesmo que Bashô tenha referido existir, ou procurar, essa fusão total com o poeta. Essa ligação surge a partir do zen, profundamente inscrita nas sociedades japonesas e chinesas e, paralelamente, nas suas expressões artísticas e poéticas. Cometeremos um erro se tentarmo-nos afastar das comoções que uma leitura de poemas escritos por Bashô nos permitem ter, porque se embrenham numa teia pré-concebida, naturalista e académica que nos são apresentadas pelas universidades ocidentais. Os haikai de Matsuo Bashô são vivos porque têm esse condão de nos convidar a saborear, a ver, a ouvir, a tactear, isto é, a sentir totalmente o fio do poema, exemplarmente demonstrado em «O Caminho Estreito para o Longínquo Norte» (pág.73):
depressa se vai a primavera
choram os pássaros e há lágrimas
nos olhos dos peixes
ou ainda este:
que glória
folhas verdes de vários tons
brilhando ao sol
É verdade, contudo, que não se pode «conhecer» Bashô somente com este livro, mas ajuda-nos muito, principalmente pelas muitas notas de leitura de Sousa Braga que não devemos deixar de consultar, mesmo que tenhamos de voltar a ler o poema de novo. Creio ser esse o segredo mais bem guardado dos haikai: voltarmos sempre a eles. Nunca os deixarmos sós, tentarmos senti-lo de novo e de modo diferente da leitura anterior.
Mas, antes de desvendar seja o que for dos «Diários de Viagem» de Matsuo Bashô, não quero deixar de referir a penúltima carta de viagem inscrita em «Poemas em Prosa». Trata-se do sublime «A Moradia Irreal», escrita no «Sétimo Mês de 1690». Nunca li coisa assim escrita. Só levanto este pequeno véu, nunca deixando de me inquietar (tal como a poesia e pintura provocaram em Bashô, confidenciou-nos este numa outra carta de viagem) se por acaso, aparecer-vos desligado do contexto belíssimo desta prosa poética:
«(...) E quando o sol começa a pôr-se por detrás das colinas, sento-me calmamente à espera da lua, para que possa ter uma sombra como companhia ou acendo um candeeiro para discutir o certo e o errado com a minha silhueta.(...)»
alc
