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segunda-feira, novembro 02, 2026

"Elise e os Novos Partisans", Dominique Grange e Tardi

 

Ala dos Livros, 2023. Tradução de Catherine Labey e Maria José Magalhães Pereira. 

O argumento desta Banda Desenhada é de Dominique Grange e os desenhos de Tardi, ambos já bastante conhecidos no círculo. Não se trata sómente, como numa primeira impressão se poderia pensar, do Maio 68 francês. Também o é, mas esse acontecimento que mudou o mundo, é só uma parte da história. Tudo começa com a guerra da Argélia e com os crimes perpetrados pelo estado francês e pela OAS. Depois sim, a história decorre em 68 com as ocupações das faculdades e das fábricas num movimento que levou à luta milhões de operários e de estudantes radicalizados. É será agora que o centro da história de Dominique Grange e de Tardi se desenvolve com a fundação de um dos mais importantes movimentos maoístas que a França conheceu: a Gauche Prolétarienne e o seu jornal La Cause du Peuple que chegou a ser dirigido por Jean-Paul Sartre, após as prisões sucessivas dos seus directores e apreensão das tiragens do jornal. Tinham o objectivo de acção directa e eram radicais nas suas acções junto aos mais fracos: operários explorados e imigrantes, principalmente. Chegaram a entrar na clandestinidade até à sua direcção decretar o fim do partido em 1978,com receio de iniciar-se uma lógica "brigadista", como na Itália. Isso levou ao desânimo e desmobilização de grande parte da organização da Gauche Prolétarienne. Casos idênticos se verificaram em Portugal, que é referido nesta excelente BD, com alguns pequenos grupos que se autodissolveram após o 25 de Novembro de 1975. 

Dominique Grange deixa-nos um pósfacio em que explica a sua adesão de juventude ao maoísmo e atrevo-me a dizer que não perceberem os nada se não compreendermos o que as citações do Presidente Mao tiveram na formação política de milhões de jovens ocidentais que apelavam a uma revolução política, social e cultural, mesmo após do desconforto assinalado nestes mesmos jovens sobre crimes que foram cometidos na China durante o período da Revolução Cultural e até à morte de Mao em 1976. Ter-se-á de entender o grau excepcional da violência de Estado que na Europa se praticou para que o direito à resistência não fosse sómente uma palavra de ordem vazia de sentido. Foi o que uma geração inteira fez, sublevando-se durante mais do que uma década. 

Está BD está repleta de canções revolucionárias que podemos ter acesso através de dois QR codes logo de início, mas dentro da própria história há uma referência a José Mário Branco e às suas canções de apoio aos desertores e refractários ao exército colonial português que ele organizava em França e particularmente em Paris. Aliás, uma canção que dá nome ao título "Les Noveaux Partisans" foi, numa nota inicial de Dominique Grange, adaptada e gravada em português, pelo GAC-Vozes na Luta" com o título de "Até à Vitória Final". 

alc