Antígona [Primeira edição, 1969], 2000.
Que livro notável! Não conhecia Graça Pina de Morais, mas é daqueles acasos fortuitos, uma entrevista a Luís Oliveira, editor da Antígona, já não sei onde, foi o que me levou a conhecê-la e a ler este romance passados largos anos. Dizia então Luís Oliveira que «Jerónimo e Eulália» lhe «tinha dado a volta à cabeça» e que «não mais se tinha esquecido dele quando o leu pela primeira vez» razão, julgo eu, para ter publicado grande parte da obra da autora na sua Antígona. Eu sigo-lhe os passos e pretendo dar nota de outros livros dela tornando-me talvez mais um leitor a alimentar o pequeno círculo à volta dos seus livros, formando um verdadeiro culto, este no bom sentido. Mas antes de ir ao livro fixemo-nos na autora: nasce no Porto em 1927 e faz Medicina em 1951, tornando-se professora na FMUP, caso raro para uma mulher na altura. Antes, a participação do pai na tentativa falhada do golpe de 1927 para acabar com a novíssima ditadura militar, levou-a para França onde passa grande parte da sua infância. Inicia a sua carreira literária em 1955 com a publicação de «Origem» e passa algumas temporadas na sua casa no Douro e em Mesão-Frio. Este «Jerónimo e Eulália» é publicado em 1969 (ano de todas as esperanças) e com ele é premiada como sendo o melhor livro do ano, coisa pouca para um livro, como já disse, notável, embora seja estranhamente o seu último livro publicado. Afasta-se irremediavelmente da cena literária portuguesa, diz-se que talvez por orgulho, talvez por não a aguentar muito tempo a sua vacuidade, ou por ser mulher e secundarizada por isso, embora fosse amiga de Agustina, Urbano, Bernardo Santareno, Herberto Helder ou Alberto Pimenta. Morre em 1992 e gostaria de vos dar a conhecer mais dela se o soubesse. Infelizmente, os jornais que a entrevistaram, como o Público ou o Expresso, exigem a assinatura para conhecermos melhor o seu pensamento e o que a levou a afastar-se.
«Jerónimo e Eulália», tal como o foi expressado por Luís Oliveira, não se esquece facilmente. Permanece em nós passado tempos após a sua leitura e a personagem de Jerónimo marca todo o romance. Tal como Eulália embora de um modo tão forte, como fugaz. A narrativa tem um período temporal de 20 anos de 1945 a 1965 e inicia-se com a proclamada paz mundial, facto aparentemente irrelevante para a narrativa, mas que catapulta uma série de acontecimentos pessoais em Jerónimo bem longe de uma plenitude que só uma certa contemplação permite. Se o mundo consegue a paz, as personagens estão longe de a atingir. Duas pessoas em procura de si mesmas, sem terem a veleidade de incomodar quem se aproxima delas, quase indiferentes perante tudo. Mesmo que depois essa plenitude se venha a produzir no final da uma depressão e fuga não assumida, Jerónimo não ultrapassa a sua recordação de uma mulher fantástica que é Eulália, mais velha que ele vinte anos. A sua relação não é física, mas o amor existe, em páginas inesquecíveis de uma grande profundidade e análise psicológicas. Aliás, essas descrições são uma constante em Graça Pina de Morais, não fosse ela igualmente uma psicóloga, com curso tirado em Genève, quando em Portugal ainda não existia ou era olhado de soslaio. Tal como era apartado tudo o que cheirasse a modernidade num país triste, tão acabrunhado como acabrunhadas eram as famílias burguesas de que a escritora deu conta no seu romance. Tudo se passava de um modo irremediável, de factos construídos por uma moral destruidora dos desejos individuais, em que o casamento e as relações surgiam como se fossem peças teatrais encenadas pela igreja e pelo estado. Um país pobre, de nevoeiros intensos à beira-mar e um frio terrível que assola as personagens que nascem no romance. Não por acaso (nada é por acaso neste romance) a primeira longa conversa entre as duas figuras principais é realizada numa noite de invernia, nevada, em que a única fonte de calor é a de uma salamandra, numa sala caótica numa aldeia perdida. Aí, nesse diálogo, é dito por Eulália uma frase repetida no final do romance: «Como são duras as pessoas felizes!» De resto, a continuidade da vida de toda a panóplia de personagens que percorrem a narrativa nada tem de esperado, antes pelo contrário: todas elas têm, apesar da modorra de uma vida desenhada desde o início, um percurso estranho e até inesperado em que a ironia de que a vida é feita não está de todo afastada. Graça Pina de Morais dá uma força impressiva a esse inesperado, tornando a leitura inadiável, contínua.
De qualquer modo, Graça Pina de Morais parece-me única no panorama da literatura em Portugal. Há um halo de liberdade naquelas palavras que não se vislumbra facilmente noutras experiências literárias. Tal como a liberdade, existe igualmente uma ironia fina, não condizente com os lugares-comuns que nos impingiram e que ainda perduram neste país e nos meios ditos cultos, como a falsa adversidade face à brutalidade dentro das famílias, com a ignorância ou com a inutilidade de um pensamento repetido mil vezes para se tornar uma verdade inquestionável. Diz Eulália: «Pertenço a uma geração diferente, antiga e palavrosa, com mania de tudo exprimir através das palavras.» (pág.191) Em Graça Pina de Morais é necessário prescrutar fora das palavras escritas, sentir uma ética própria que a autora nos propõe conduzir, sem estarmos preparados totalmente, até ela. É o segredo da boa literatura: tornar possível uma vivência que nos envolve para além das palavras impressas.
alc
