terça-feira, março 24, 2026

"A Morte de Virgílio", Hermann Broch

 

Relógio D'Água, 2014. Tradução de Maria Adélia Silva Melo 
Segundo Hermann Broch, Virgílio esteve por um fio para destruir a «Eneida» no final da sua vida, momentos que são descritos pelo autor entre o desespero e a incompreensão de toda a experiência humana, seja ela a mais simples baseada num gesto quotidiano ou a complexidade de um pensamento filosófico. Virgílio está profundamente agastado com o imperador Augusto que se serve dele para aumentar o seu prestígio, quando a poesia podia dar-se ao luxo de emprestar tal vantagem ao ganho do poder político. Virgílio pouco se importa com este desígnio, entregando-se à decadência física do seu corpo e observando na Natureza o que ainda lhe pode oferecer de belo. A «Eneida» está ao seu lado, numa arca, ao sabor da vontade do poeta que, por fim, a salva até aos dias de hoje, como sabemos. 
Hermann Broch, austríaco, preso pela Gestapo em 1938 e dos poucos que conseguiu sair das suas masmorras por pressão internacional, exilou-se logo depois nos EUA tornando-se cidadão americano. Morre em 1951 não retornando à Europa. Dele, li «Os Sonâmbulos», já aqui referido. Mas este «A Morte de Virgílio» é mais do que a vida e morte do poeta romano; escrito o romance em 1945, no final da II Guerra, do consequente massacre de 60 milhões de vidas e a destruição completa da Alemanha e a rendição da Áustria, é com profunda dor que o autor revela aqui o seu sentimento de perda mais premente. Por mim, não consegui lê-lo completamente, o que é raro. Quando inicio uma leitura, por mais que me custe, tento sempre finalizá-la o que me tem dado algumas agradáveis surpresas, mas com Hermann Broch pressente-se a desilusão, a enorme incomodidade, a incongruência das acções humanas, a toada depressiva da escrita. Transmite o fim da decência moral e do valor e beleza da vida, após 1945. Como diz Corto perante a «Utopia» de More, talvez um dia acabe de o ler.

alc