Penguin. Fevereiro de 2026.
«E Deus instrumentalizou a mulher» é o subtítulo de «Vénus em Chamas», de Pedro Vieira. Compõe-se de sete histórias de mulheres que, na sua maior parte, já conhecemos relativamente bem como Maria, Madalena, Joana d'Arc ou a prisioneira portuguesa mais conhecida como foi a pobre Lúcia. Algumas nem tanto, como Teodora, Fillide ou Harriet. O que é novo neste livro é a forma extremamente atractiva da escrita junto com uma observação cuidada, sob múltiplos aspectos, de cada personagem feminina que nos dá a conhecer o autor. O sério aviso que nos dá Pedro Vieira no seu epílogo verifica-se em cada capítulo dedicado a uma destas personagens: «Na grande galeria dos estadistas, guerreiros, génios, filósofos e evangelistas, narradores e líderes, heróis e atletas, os homens brilham. As mulheres são, sobretudo sombras. Há cisnes negros entre algumas delas, clarões. Quando lhes é permitida luz, esta alumia o que é vantajoso para quem tem as rédeas na mão.» (pág.219) E é evidente que quem tem as rédeas são os homens a quem se lhes dá o poder de contar à sua maneira o modo como pressentem e manipulam as acções femininas que foram determinantes na história da humanidade (sem género).
Pedro Vieira dá-nos a possibilidade de ver como Maria, sim a «nossa» Nossa Senhora, de múltiplos nomes como se fossem emprestadas por deusas greco-romanas e que, ainda nos século XXI, é alvo de diferentes e opostos dogmas papais, cujos fins são, invariavelmente, a sua menorização. Por ser mulher, tal como Madalena, ela própria, o anátema mais escandaloso, mas nem por isso impossível de a esconder como fizeram os quatro evangelistas, homens portanto, que pouco ou nada a nomearam; só João (o discípulo amado de Jesus) e mesmo assim de modo fugaz. De resto, viajamos com o autor por Constantinopla, pela Galileia, pela Itália e pela França da Guerra dos Cem Anos, pela Guerra Civil Americana ou na companhia do irrequieto e violento Caravaggio, pintor de quem o autor mostra evidente admiração até pela sua ligação íntima às mulheres pecadoras que santificou nas telas.
Um livro que se lê com interesse crescente, que se lê num fôlego e que nos põe a pensar ou a urdir inter-relações, uma simultaneidade difícil de observar nos dias de hoje.
alc
