quarta-feira, março 25, 2026

"Vénus em Chamas", Pedro Vieira

 

Penguin. Fevereiro de 2026.
«E Deus instrumentalizou a mulher» é o subtítulo do livro «Vénus em Chamas», de Pedro Vieira. Compõe-se de sete histórias de mulheres que, na sua maior parte, já conhecemos relativamente bem como Maria, Madalena, Joana d'Arc ou a vidente e prisioneira portuguesa mais conhecida como foi a pobre Lúcia. Algumas nem tanto, como Teodora, Fillide ou Harriet. O que é novo neste livro é a forma extremamente atractiva da escrita junto com uma observação cuidada, sob múltiplos aspectos, de cada personagem feminina  que nos dá a conhecer o autor. São mulheres inesquecíveis na sua impotência perante o rumo da vida, na sua força indómita, nos céus que lhe caíram em cima sem que tivessem para isso feito alguma coisa, cruéis e empoderadas, hereges e castigadas, inteligentes e lutadoras sem entraves de qualquer espécie. O sério aviso que nos dá Pedro Vieira no seu epílogo verifica-se em cada capítulo dedicado a uma destas personagens: «Na grande galeria dos estadistas, guerreiros, génios, filósofos e evangelistas, narradores e líderes, heróis e atletas, os homens brilham. As mulheres são, sobretudo sombras. Há cisnes negros entre algumas delas, clarões. Quando lhes é permitida luz, esta alumia o que é vantajoso para quem tem as rédeas na mão.» (pág.219) E é evidente que quem tem as rédeas das narrativas são os homens a quem se lhes dá o poder de contar à sua maneira o modo como pressentem e manipulam as acções femininas que foram determinantes na história da humanidade (esta, sem género, evidentemente). 

Pedro Vieira dá-nos a possibilidade de ver como Maria, sim a «nossa» Nossa Senhora, de múltiplos nomes como se fossem emprestados por deusas greco-romanas e que, ainda no século XXI, é alvo de diferentes e opostos dogmas papais, cujos fins são, invariavelmente, a sua menorização ou reposição do seu secundário lugar numa igreja masculina. Por ser mulher, tal como Madalena, ela própria, o anátema mais escandaloso, mas nem por isso impossível de a esconder como fizeram os quatro evangelistas, homens portanto, que pouco ou nada a nomearam; só João o fez (o discípulo muito amado de Jesus) e, mesmo assim, de modo exemplarmente fugaz. Quanto a Paulo, o construtor do edifício cristão, será melhor nem falar no triste papel com que presenteou a mulher: a luz da estrada de Damasco trouxe-lhe a cegueira da condição feminina. De resto, viajamos neste livro incontornável por Constantinopla, pela Galileia, pela Itália, pela França da Guerra dos Cem Anos, pela repressão violentíssima da heresia cátara, pela Guerra Civil Americana ou na companhia do irrequieto e violento Caravaggio, pintor de quem Pedro Vieira mostra evidente admiração até pela sua ligação íntima às mulheres pecadoras que santificou, até aos finais dos tempos, nas telas. 

Um livro que se lê com interesse crescente, que se lê num fôlego e que nos põe a pensar ou a urdir inter-relações, uma simultaneidade difícil de observar nos dias de hoje.

alc