Thomas Hardy
Presença, 2015. Tradução de Catarina F. Almeida
Thomas Hardy é um tardo romântico o que, por si só, explica a forma veemente da sua escrita. Não deixa de ser interessante verificar, contudo, que ele foge à simples circunscrição romântica, antes viajando por um realismo que se pressente nas descrições naturalistas, ambientais e psicológicas das personagens. A sociedade inglesa vitoriana é aqui analisada com grande pormenor, principalmente a sociedade rural de que ele era um observador implacável. Nascido em 1840, em Dorset, e trabalhando na arquitectura e restauro de igrejas góticas, (coerentemente romântico, portanto) escreveu «Longe da Multidão» em 1874, a sua terceira novela, criando na personagem de Bathsheba, uma mulher que, enriquecida por testamento de uma quinta, é movida por uma busca de felicidade que lhe é negada por várias circunstâncias, entre as mais importantes, a própria sociedade fechada ao elevador social, à desconfiança e ao poder masculino. Profusamente criticado pelos meios literários dos finais do século XIX que não o viam como um dos seus, visto que as suas personagens eram muitas das vezes movidas pela sombra e pelo calculismo, tiveram, contudo, de se render a essa força narrativa que imprimia aos seus romances. Os seus romances «Judas, o Obscuro», «Tess d'Ubervilles» e «O Maior de Casterbridge», foram alvo de críticas violentas, embora conquistasse um grande número de leitores.
«Longe da Multidão», dizia antes, passa-se no meio rural inglês dos finais do século XIX. A reforma agrária liberal do século anterior, tinha devastado a coesão social de pequenos e médios lavradores, dando aos grandes proprietários todas as ferramentas legais para acumularem cada vez mais poder, através da formação das enclosures, cujos lucros vinham sobretudo da criação de ovelhas, dando matéria-prima abundante para a forte indústria têxtil das cidades e com a consequente mão-de-obra excedente das sucessivas expulsões dos camponeses das terras. É neste ambiente que as personagens de «Longe da Multidão» se movem e a paleta que Thomas Hardy nos dá desse ambiente é de cores fortes e impressivas. O casamento é o meio de atingir o fim, ou seja, a riqueza que, até certo ponto, se confunde com a felicidade de cunho claramente romântico, embora o desejo flua livremente para fora desse contrato. Talvez a crítica da sociedade vitoriana, reticente a apoiar os romances de Hardy, resida no facto de apresentar as mulheres como dependentes únicas da sua própria vontade, situação que uma corte literária e política conservadora não poderia pactuar. E lembremo-nos que era a época das primeiras lutas feministas organizadas, embora Thomas Hardy estivesse longe dessas preocupações políticas e sociais. A bem da verdade a mulher aparece, por vezes, como instável, imprudente e dependente, embora pareça ultrapassar, pela prática de vida, tais pressupostos muito marcados por uma misoginia mal escondida do autor. O que nos conquista é o facto, literariamente impressionante, de o autor conseguir, num mesmo período, descrever-nos uma situação e um ambiente, apresentar-nos uma hipótese, desenvolver uma tese e uma conclusão das suas efabulações e, se ainda for oportuno, uma antítese de tudo o que nos deu a pensar.
Grande parte dos livros de Hardy foram passados para o cinema, sendo que talvez o mais importante seja o «Tess» («Tess d'Ubervilles») de Roman Polanski, com Natassja Kinski no papel principal. Conhecendo-o, tive a curiosidade de ver o filme de 2015, «Longe da Multidão», e asseguro-vos que é uma prova evidente que um livro tornado guião de um filme nem sempre tem o melhor resultado. Nada tem a ver com as descrições pormenorizadas da natureza, dos ambientes e das pessoas, nas suas diferentes classes sociais, que nos envolvem como um filme é incapaz de o fazer. Essa intimidade, ouso dizê-lo, só se consegue plenamente através da leitura solitária de um livro. A literatura romântica, seja ela «tardo» ou com laivos realistas, ainda nos prende a um certo tipo de entrega individual que só uma leitura atenta pode oferecer.
alc