quinta-feira, fevereiro 26, 2026

"Um Bárbaro no Jardim", Zbigniew Herbert

Cavalo de Ferro, 2019. Tradução do polaco de Teresa Fernandes Swiatkiewicz
As impressões de viagens de um poeta pela sua escrita. A História mesclada com errâncias, pensamentos, descrições naturais, construídas pelo polaco Zbigniew Herbert, cuja poesia estou ainda a conhecer. Tenho comigo a sua «Poesia Quase Toda» e faltará pouco para eu iniciar a sua leitura. «Um Bárbaro no Jardim» é um livro que poderemos comparar aos de Claudio Magris ou aos do seu conterrâneo Ryszard Kapuscinsky tal a quantidade de temas díspares num mundo unido por manifestações de beleza e de profundidade que ainda perduram teimosamente, ou ao que dele resta. A ironia, o espanto e até o amor moram nestas páginas.

Imaginem as grutas paleolíticas de Lascaux e as suas pinturas parietais que se movem num espaço sagrado, animista. Herbert lembra-nos uma evidência que por vezes esquecemos quando falamos destas pinturas fantásticas: esses desenhos produzidos por mãos artísticas, para além de belas, não eram estáticas e observadas com luz artificial como a de hoje, mas antes por tochas e fogueiras votivas. As escuras grutas que as envolvem eram palco de rituais que se perderam no tempo e «moviam-se» entre a luz e sombra envolvidas pelo fogo. Enquanto estamos concentrados nessa leitura e necessariamente embrenhados nesse ambiente, surge-nos André Breton, o papa do surrealismo, a mostrar o dedo indicador sujo de ocre de um touro e a bradar «é falso!», não evitando pesada multa e ignorando que as pinturas foram salvas exactamente pela existência de uma humidade salina e calcária que as mantiveram incólumes durante milhares de anos. Breton provocou um claro anti-clímax, o contrário do objectivo último do Surrealismo, que não teve culpa nenhuma da sua autoproclamada chefia. Não saberemos se a opção de edificar uma gruta artificial ao lado da de Lascaux não terá que ver com estes arroubos emocionais, mas hoje encontram-se a salvo. 

As impressões do viajante continuam: a arquitectura dórica, que Herbert dá mostras de conhecer bem, é desfiada ao pormenor, desde as suas colunas e capitéis despidas de ornamentos supérfluos, à anulação das ilusões de óptica que os gregos sabiam que o olho humano estava sujeito. A arquitectura grega dá lugar, então, ao gótico das grandes, enormes, catedrais francesas como em Arles, Saint-Denis ou Nôtre-Dame, mas Herbert não se fica somente pelo pormenor da técnica dos mestres canteiros e dos arquitectos geralmente anónimos ou apócrifos, como se o trabalho destes não fosse importante, se desvanecessem perante o objectivo principal da construção que era, sem dúvida, a obediência a Deus e à cidade que a criou, como se a grandeza do dinheiro e da riqueza burguesa estivesse bem ciente do seu poder debaixo, ou ao lado, de uma omnipotência bem maior. Mas o poeta lembra-nos igualmente do povo que construiu as catedrais que foram feitas literalmente «com as mãos» e que ultrapassavam em muito a consciência espiritual da Igreja: «As catedrais eram motivo de orgulho e um sinal de poder que se avistava ao longe. Mas eram também um lugar de encontros e actividades laicas. O homem medieval sentia-se na igreja como em casa. Às vezes aí comia, dormia e conversava, sem baixar o tom de voz. (...) aí se resguardava do mau tempo. As proibições eclesiásticas que proíbem a realização a realização de reuniões seculares nas igrejas indicam que provavelmente tal deve ter sido uma prática generalizada. Os vitrais não versavam somente sobre a vida dos santos, mas também, caso se possa comparar as coisas grandes com as pequenas, desempenhavam a função de publicidade de néon de hoje, ao anunciarem vendedores de têxteis, carpinteiros ou sapateiros.» (pág.122) Tal como nos avisam vários historiadores da Idade Média, também Zbigniew Herbert lembra-nos que o trabalho (recordo-me de Henri Pirenne sobre este tema) não era uma escravidão absoluta como por vezes somos levados a crer: em 365 dias de um ano, contando com os domingos e com 50 dias santos, trabalhava-se 250 dias efectivos, com várias pausas diárias no verão bem maiores que no inverno. Isto sem contar com os falecimentos, baptizados e casamentos que as corporações convocavam. Coisas tão terrenas, faziam com que as greves fossem igualmente uma oportunidade dos estratos sociais mais carecidos para melhorarem as suas parcas condições salariais. A primeira greve vencedora que o poeta nos dá conta, em pleno século XII, é a da construção do Mosteiro de Obazine. 

Siena foi uma cidade italiana que Herbert visitou e que nos descreve o poder das famílias condottieri que se guerreavam entre si por gerações, muitas delas, esquecendo porque alimentavam tal ódio, diremos nós. Tipos cruéis, sem pingo de compaixão perante os inimigos, sedentos de poder e de riqueza que não olhavam a meios para atingir os seus fins. As comunas e a Igreja só em parte aplacavam esta ira familiar e durante o Renascimento estas famílias tiveram o seu auge político, não sem que o termo «maquiavélico» tivesse ganho o seu significado actual. 

A pintura é outro dos motivos que leva Herbert a escrever as mais belas páginas de «Um Bárbaro no Jardim» e fico-me somente pelas palavras que dedica a Piero della Francesca, recuperado em toda a sua importância, tardiamente, no século XIX. É por causa dele, mas igualmente de Giotto ou Cimabué, que visitamos as Galerias Uffizi, em Florença, e a de Brera, em Milão, onde os pintores estão bem representados. Se conseguirem ultrapassar comodamente a enormes filas de turistas ou tirarmo-los da frente dos quadros a fotografarem-se, diríamos nós.

Páginas impressionantes são dedicadas à heresia cátara pela recém-criada Inquisição dominicana e à dissolução e posterior criminalização dos Templários. Embora completamente díspares nos seus propósitos, Herbert deixa-nos um fio de horror pelo que se passou na repressão aos cátaros do sul francês. A heresia - Herbert coloca bem a possibilidade de não estarmos perante uma heresia, mas sim de uma nova religião, tal a diferença de pressupostos face ao cristianismo - foi, durante dezenas de anos alvo da repressão mais sangrenta por parte do papado e dos dominicanos (os autodenominados «cães de Deus»!) em que se confundia o espiritual com o terreno político mais sórdido. Quem conhece relativamente bem a região d'Oc, a Ocitânia, sabe que o rancor surdo ao Norte francês ainda perdura nos dias de hoje sob múltiplas formas de coesão social e de resistência cultural. A repressão brutal e maquiavélica sobre os Templários é outra questão que o autor não deixa de sublinhar explicando que «Na História, nada se encerra definitivamente. Os métodos aplicados para combater os Templários entraram no repertório das autoridades. Por isso, não podemos deixar este caso distante aos dedos pálidos dos arquivistas.» (pág.202) Num tempo em que as perseguições ao pensamento livre começam a ganhar forma nunca será demais lembrar como se pode urdir uma teia imaginária de factos que podem levar à prisão, à tortura e à morte, mesmo em sociedades aparentemente «abertas» e civilizadas. O improvável está sempre à espreita. 

Por fim, Herbert passeia connosco, solitariamente, na companhia de Rousseau, em Ermenonville. Não só desenvolvendo a chamada teoria dos jardins, mas enveredando pelos meandros do Classicismo e do pré-Romantismo. Nada melhor que esta despedida de um livro notável, na companhia de Rousseau. Passeamos com Jean-Jacques por uma «poética, um catálogo de figuras e de tropos, só que explicáveis por meio de cascatas, pontes, tufos de árvores, ruínas artificiais. Aí havia tudo o que era necessário a um coração afectuoso: ''a gruta dos encontros secretos''; ''o banco da mãe fatigada''; ''a sepultura do amante infeliz''. A história revelou-se cruel para estas plântulas de sentimentalismo.» (pág.244) 
Sim, é possível que a história entre em conflito com o sentimentalismo, mas os românticos nunca o pretenderam saber.

alc

segunda-feira, fevereiro 23, 2026

"Eu Vi o Tempo Assassinar-me", Dylan Thomas

 

Assírio & Alvim, 2024. Tradução de Frederico Pedreira
O que existe de interessante em Dylan Thomas é o que fica em nós após a leitura da poesia densa com que somos brindados em palavras improváveis ou alegorias e metáforas circulares. Se bem que o tema da morte esteja muito presente ela não é, contudo, o seu mote essencial, sendo antes a vida o seu elemento definidor. O esvaziamento gradual da vida, ou o seu fim repentino e absurdo, nos seus múltiplos aspectos é o objectivo radical da escrita de Thomas em poemas impressivos e até violentos. Dou um exemplo único em «Mortes e Entradas» (pág.167):

Quase em vésperas incendiárias
    De muitas mortes próximas,
Quando um no mínimo dos teus mais amados
    E desde sempre conhecidos tem de deixar
Os leões e o fogo do seu sopro alado,
    Esse que dos teus imortais amigos
Os órgãos ergueria do contado pó
    Para caçar e cantar em teu louvor,
Intimado das profundezas ficará em silêncio,
    Sem jamais se afogar ou cessar
    Interminável na sua ferida
Das muitas e conjugais dores de Londres alienada. 
(...)
Pressentimos um movimento de nítido espanto e até de horror neste poema que descreve o que adivinhamos ser um bombardeamento através de imagens como «vésperas incendiárias», «mortes próximas», «sopro alado» ou do silêncio que obriga a uma «interminável ferida». Verificamos a data do poema inscrito nesta antologia - 1946 - e desenha-se quase a certeza que é transmitida, mais à frente, num poema mais tangível em «Cerimónia após um bombardeamento» (pag.181) ou em «Entre os mortos no raide ao amanhecer estava um homem de cem anos» (pag.193) poemas terríveis que nos levam a sentir o pior das guerras. 

Dylan Thomas não é somente a finitude, ele é igualmente o nascimento e o crescimento, é luz e escuridão, animais e vermes, corpo e espírito, matéria e sangue. Morreu muito cedo, talvez cedo demais, com 39 anos e julgamos que teve experiências movidas a sensações humanas limite em que o álcool foi decisivo num fim anunciado.

Desenho para «Se as lanternas brilhassem» (pág.99)

Se as lanternas brilhassem, a face sagrada,
Capturada num octógono de luz desusada,
Acabaria por definhar, e todo o rapaz do amor
Olharia duas vezes antes de cair em desgraça.
Os traços em sua privada penumbra
São de carne formados, mas venha o dia falso
E dos lábios dela cairão debotados pigmentos,
Dos seus trapos de múmia espreitará antigo seio.
(...)
alc

terça-feira, fevereiro 17, 2026

"Thérèse Raquin", Émile Zola

 

Relógio D'Água, 2024. Tradução de João Gaspar Simões. 
Segundo Guy de Maupassant, que assina um prefácio traduzido por Miguel Serras Pereira, Émile Zola sente que o modelo da sua literatura «[não é outro] senão a vida, uma vez que não concebemos nada para lá dos nossos sentidos; por conseguinte, deformar a vida é produzir uma obra má, uma vez que é produzir uma obra de erro.» «Thérèse Raquin», publicado em 1867, cumpre copiosamente esta ideia. Anti-romântico, mas criando um ambiente naturalista, psicologicamente denso, trágico, leva as personagens ao limite das suas acções que, na altura, foram consideradas pelos críticos como «literatura pútrida», segundo palavras do próprio Zola no prefácio da 2ª edição da obra, logo em 1868. Percebe-se porquê: à volta de um crime passional comum, desenrola-se uma narrativa em que o pior do humano é exposto em toda a sua crueza. Há descrições inesquecíveis em «Thérèse Raquin» como, após ter cometido o assassinato de Camille, Laurent se dirige a um restaurante e come vários pastéis seguidos para acalmar a fome que lhe advém subitamente, tornando assim a transgressão como coisa comum, válida, passageira. A forte impressão que sentimos nas páginas que decorrem na morgue é inigualável e só existem devido à capacidade de observação minuciosa e claramente naturalista de Zola. Ou como Thérèse que, para esquecer o crime de que foi cúmplice, se enreda furiosamente na leitura de romances, tal como sente o fim doloroso do desejo sexual por Laurent após o crime ser consumado e se vê submergida por uma espiral de ódio e violência na relação com este e que levará à morte, pressentida desde o início, de ambos. 

Conheci Zola, nos anos anteriores à liberdade, numa colecção de bolso, creio que da Europa-América, com «Nana», «Germinal» e «A Taberna», este último da Guimarães, creio, e retirado da biblioteca do meu pai. Voltámos, vários de nós muito jovens militantes de esquerda, a ele no período revolucionário e hoje questiono-me por que o faríamos; provavelmente, pela descrição dos ambientes lúgubres de gente cuja vida social era marcada pelo desejo ou de felicidade, ou de riqueza que não atingiam por vicissitudes várias, gente explorada sem saber que o era, ou sabendo-o, com objectivos de conquistarem um quinhão que lhes era negado. Se não fosse por isso, era-o pela justificação de uma ideologia que abraçávamos, pouco importa. Líamos Zola, como o fazíamos com Gorki, Steinbeck ou Balzac, ou ainda Tolstói ou Dostoievski, embora creia hoje que a literatura não terá o condão de redenção como nos anos 70 a encararíamos. E ainda bem que assim é. 

alc

domingo, fevereiro 15, 2026

"Terra Queimada", Jonathan Crary

Antígona, 2023. Tradução de Nuno Quintas

Conhecido em Portugal com o seu «24/7», também editado pela Antígona, Jonathan Crary avisa-nos nesse livro para o projecto sub-reptício do capitalismo em ver-nos disponíveis para o trabalho durante 24 horas, 7 dias por semana. Numa altura em que o governo de Milei impôs 12 horas de trabalho cujo salário pode ser pago em géneros, habitação ou comida e os laboratórios científicos de empresas multinacionais ligadas à saúde e à defesa desenvolvem medicamentos capazes de levar a humanidade a não dormir, ou a dormir cada vez menos, para aumentar a produção de bens, é mesmo para levar a sério. Se olharmos igualmente para o nova Lei Laboral em Portugal somos levados a crer que existe um programa que mimetiza todo um projecto de claro retrocesso civilizacional.

«Terra Queimada» leva-nos por um caminho complementar a «24/7». Não é somente o que se está ao fazer ao planeta tornando-o literalmente inabitável, mas realçar o fim do que resta de coesão social através de um programa letal do capitalismo seja na forma de neoliberalismo, seja pelo capitalismo chamado cinicamente de «verde». Hoje, encontram-se activos 500 mil poços e jazidas minerais extrativas em todo o mundo que empregam 50 milhões de pessoas quase escravizadas e com um rasto de assassínios de ambientalistas e de povos indígenas por forças de segurança privadas. E isto só para o fabrico de componentes para microprocessadores, painéis solares, turbinas eólicas e veículos eléctricos, não contando com a extração carbonífera e de petróleo que tiveram um novo alento com a administração Trump, de Putin e de Xi Jiping. O desastre total ao virar da esquina: «Os paladinos do capitalismo verde e das ''renováveis'' dão garantias enganosas de que, mediante fiscalização, se poderiam extrair recursos sem destruir habitats, ecossistemas e comunidades, mas sabem que isso nunca vai acontecer. A História demonstrou categoricamente que o capitalismo é irreconciliável com qualquer espécie de conservação e preservação.» (pág.41) Trata-se pois de exercer a objectificação da Natureza «que nos separa da nossa inerência com a criatividade e a variabilidade ilimitadas do mundo físico» que foi exemplarmente demonstrado por Marx, Debord ou Agamben para só citar alguns que Crary chama profusamente no seu livro. E esta separação já desenhada e criticada nos anos 60 do século XX teve um novo desenvolvimento socialmente tóxico com a nova «era digital» em que assenta a construção de enormes centro de dados e torres de servidores para gerir o aumento imenso de produção de dados que exigem forças energéticas assombrosas e levam ao gasto de milhões de litros de água por dia para arrefecer os níveis de calor que causam danos aos circuitos integrados. Não pensem, portanto, que a utilização da internet é «neutral». Antes pelo contrário. 

O trabalho aturado de Jonathan Crary, neste «Terra Queimada», leva-nos directamente para o que designamos por um isolamento do indivíduo enquanto ser social faze à ditadura dos ecrãs sejam eles dos telemóveis, dos computadores ou do trabalho online, aumentado desde a pandemia de 2019/20. E a viagem até aos pressupostos da biopolítica é uma evidência clara e a que nos leva a formulações mais inquietantes:

«Conforme o complexo internético se expande e agrega, masi facetas da nossa vida convergem nos protocolos das redes digitais. A calamidade é a irredimível incompatibilidade das operações online com a amizade, o amor, a comunidade, a compaixão, o livre curso do desejo ou a partilha da dor e da dúvida. Muito disso desaparece ou recompõe-se em pobres simulações, sem singularidade nem inefabilidade, infundidas de ausência e superficialidade. Não há alegria ou tristeza, beleza ou exuberância na internet. Encontraremos poemas, mas poesia não. Como avaliar as consequências plenas de uma restrição tão drástica da abundante e inesgotável potencialidade humana na desolação e na monotonia dos sistemas digitais? Por toda a parte se evidenciam a loucura e a violência desta dissonância, mas, ao mesmo tempo, turva-a a crença delirante na inevitabilidade de vivermos a vida online, onde inexoravelmente se dissipam as nossas esperanças e energias criativas.» (pág.103)

Uma das críticas mais interessantes e talvez as mais contundentes de Crary é a que elabora relativamente à esquerda radical entre os anos 60 e 80. Exceptuando o caso de Guy Debord que nas suas teses já apontava a destruição do planeta e da Vida perpetrado pelo capitalismo espectacular, é a ausência de uma crítica radical face ao lento, mas sustentado, ocaso da Terra com as perspectivas cada vez mais sombrias das alterações climáticas, do extractivismo e do neocolonialismo baseado na rapina dos recursos naturais em todo o mundo. Enquanto os ecologistas e ambientalistas bradavam contra o que se passava, os intelectuais de esquerda, menosprezavam esses clamores óbvios, realçando os temas que segundo eles estariam na primeira página das lutas empreendidas: o desemprego, o tráfico de armas, as guerras interétnicas, a guerra nuclear ou o terrorismo. O terror do fim do planeta não se encontrava nas suas maiores preocupações. E assim tudo se manteve até aos anos 90. Se ainda vamos conseguir lutar contra o negacionismo entranhado socialmente é a grande questão com que temos de lidar nos próximos tempos, não tão distantes como isso. 

alc

Ilustr[ações]. Apresentação no Liquidâmbar. 14/02/2026

 





Ilustr[ações]

Ilustrações, desenhos, cartoons editados pelo «Jornal Mapa», as revistas «Flauta de Luz» e «A Ideia». Entre 2021 e 2026 fizeram parte de uma sequência onde pontificaram desenhos alusivos à crítica ao capitalismo, ao extrativismo, ao militarismo e à guerra, pelo decrescimento económico e pelo comunitarismo solidário. Por uma verdadeira Vida e uma outra Sociedade, pela Poesia tornada real nos dias que correm. Nestes desenhos não existe neutralidade, escolhe-se um campo-limite, uma zona utópica de liberdade e de construção do comum.

ANTÓNIO LUÍS CATARINO

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Ilustr[ações]

 


14 de Fevereiro de 2026. Exposição | Liquidâmbar

Ilustr[ações]

Ilustrações, desenhos, cartoons editados pelo «Jornal Mapa», as revistas «Flauta de Luz» e «A Ideia». Entre 2021 e 2026 fizeram parte de uma sequência onde pontificaram desenhos alusivos à crítica ao capitalismo, ao extrativismo, ao militarismo e à guerra, pelo decrescimento económico e pelo comunitarismo solidário. Por uma verdadeira Vida e uma outra Sociedade, pela Poesia tornada real nos dias que correm. Nestes desenhos não existe neutralidade, escolhe-se um campo-limite, uma zona utópica de liberdade e de construção do comum.

ANTÓNIO LUÍS CATARINO


quarta-feira, fevereiro 11, 2026

«Longe da Multidão», Thomas Hardy

Thomas Hardy
Presença, 2015. Tradução de Catarina F. Almeida
Thomas Hardy é um tardo romântico o que, por si só, explica a forma veemente da sua escrita. Não deixa de ser interessante verificar, contudo, que ele foge à simples circunscrição romântica, antes viajando por um realismo que se pressente nas descrições naturalistas, ambientais e psicológicas das personagens. A sociedade inglesa vitoriana é aqui analisada com grande pormenor, principalmente a sociedade rural de que ele era um observador implacável. Nascido em 1840, em Dorset, e trabalhando na arquitectura e restauro de igrejas góticas, (coerentemente romântico, portanto) escreveu «Longe da Multidão» em 1874, a sua terceira novela, criando na personagem de Bathsheba, uma mulher que, enriquecida por testamento de uma quinta, é movida por uma busca de felicidade que lhe é negada por várias circunstâncias, entre as mais importantes, a própria sociedade fechada ao elevador social, à desconfiança e ao poder masculino. Profusamente criticado pelos meios literários dos finais do século XIX que não o viam como um dos seus, visto que as suas personagens eram muitas das vezes movidas pela sombra e pelo calculismo, tiveram, contudo, de se render a essa força narrativa que imprimia aos seus escritos. Os seus romances «Judas, o Obscuro», «Tess d'Ubervilles» e «O Maior de Casterbridge», foram alvo de críticas violentas, embora conquistasse um grande número de leitores. 

«Longe da Multidão», dizia antes, passa-se no meio rural inglês dos finais do século XIX. A reforma agrária liberal do século anterior, tinha devastado a coesão social de pequenos e médios lavradores, dando aos grandes proprietários todas as ferramentas legais para acumularem cada vez mais poder, através da formação das enclosures, cujos lucros vinham sobretudo da criação de ovelhas, dando matéria-prima abundante para a forte indústria têxtil das cidades e com a consequente mão-de-obra excedente das sucessivas expulsões dos camponeses das terras. É neste ambiente que as personagens de «Longe da Multidão» se movem e a paleta que Thomas Hardy nos dá desse ambiente é de cores fortes e impressivas. O casamento é o meio de atingir o fim, ou seja, a riqueza que, até certo ponto, se confunde com a felicidade de cunho claramente romântico, embora o desejo flua livremente para fora desse contrato. Talvez a crítica da sociedade vitoriana, reticente a apoiar os romances de Hardy, resida no facto de apresentar as mulheres como dependentes únicas da sua própria vontade, situação que uma corte literária e política conservadora não poderia pactuar. E lembremo-nos que era a época das primeiras lutas feministas organizadas, embora Thomas Hardy estivesse longe dessas preocupações políticas e sociais. A bem da verdade a mulher aparece, por vezes, como instável, imprudente e dependente, embora pareça ultrapassar, pela prática de vida, tais pressupostos muito marcados por uma misoginia mal escondida do autor. O que nos conquista é o facto, literariamente impressionante, de o autor conseguir, num mesmo período, descrever-nos uma situação e um ambiente, apresentar-nos uma hipótese, desenvolver uma tese e uma conclusão das suas efabulações e, se ainda for oportuno, uma antítese de tudo o que nos deu a pensar.

Grande parte dos livros de Hardy foram passados para o cinema, sendo que talvez o mais importante seja o «Tess» («Tess d'Ubervilles») de Roman Polanski, com Natassja Kinski no papel principal. Conhecendo-o, tive a curiosidade de ver o filme de 2015, «Longe da Multidão», e asseguro-vos que é uma prova evidente que um livro tornado guião de um filme nem sempre tem o melhor resultado. Nada tem a ver com as descrições pormenorizadas da natureza, dos ambientes e das pessoas, nas suas diferentes classes sociais, que nos envolvem como um filme é incapaz de o fazer. Essa intimidade, ouso dizê-lo, só se consegue plenamente através da leitura solitária de um livro. A literatura romântica, seja ela «tardo» ou com laivos realistas, ainda nos prende a um certo tipo de entrega individual que só uma leitura atenta pode oferecer.

alc

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

"Partida", Julian Barnes

 

Quetzal, 2026. Tradução de Salvato Teles de Menezes
É necessário muita coragem para escrever um anunciado último livro. Não é só ser destemido, é ter um enorme respeito pelos leitores, é saber antecipadamente que este não terá a importância de um primeiro, ou mesmo de um segundo e um terceiro livros, talvez estes últimos dos mais decisivos para uma chamada «carreira» literária. Trata-se igualmente de não cair em clichés abundantes nos romances actuais e que Julian Barnes nos avisa, evitando repetições escusadas que podem ter sido usadas em narrativas anteriores ou tornar-se uma espécie de registo cansado, sem a subtileza e inteligência que deu mostras; daí, a coragem de um último livro. Já se escreveu bastante sobre «Partida» que, segundo Julian Barnes, pode ser uma nova chegada. Assim é. Prenuncia-se os temas que estão presentes no livro: a memória e o seu significado a partir da tal madalena embebida no chá de tília de Marcel, de «Em busca do tempo perdido», que nos obriga a desenrolar todo um novelo de memórias da nossa infância e adolescência. Não por acaso. A memória está connosco de um modo autoritário, sem pedir licença, sem que saibamos o seu sentido ou por que umas se transcendem a outras. É o que Barnes chama de MAI, «memória autobiográfica involuntária» que, feliz ou infelizmente, povoa a nossa consciência com múltiplas facetas e imagens. Muitas, já nem sabemos se são verdadeiras, pouco importa, aliás. Com a memória, vive-se no nascimento, na degenerescência e na morte que Barnes nos apresenta com uma elegância e um cuidado britânicas. E os amigos e familiares que faleceram, cujas memórias ainda mantemos vivas em nós, sem que pensássemos se seria assim que queriam que fossem lembrados. Será que Julian Barnes, ao escrever este livro e desenvolvesse todos os pensamentos que o acompanham, não estaria certo que o leitor pudesse circunscrevê-los à sua própria vida? Mesmo com o receio que as ondas de choque e suicídios que teve no século XVIII, por exemplo, o «Werther» de Goethe, se pudessem mimetizar com «A Partida»? Mesmo que isso fosse pouco provável numa sociedade hedonista e pouco dada a essas influências românticas, Barnes não deixa de colocar a possibilidade e isso deixa-nos inquietos; esse desconforto não é bem o da finitude, coisa que estaremos já familiarizados com a idade, mas sim com aquilo que deixamos aos que ficam e quase com algum alívio o vemos «partir» numa fase terminal de cancro e com a descrição dolorosa como o faz. O mundo que resta não será o melhor de todos para dizer o mínimo dos mínimos; é, antes, um amontoado de ódios, de desprezo pelo que ainda há de democracia e de liberdade, de uma aposta na guerra e no genocídio, de um inverno nuclear ou da destruição do que ainda resta de altruísmo pelo egoísmo. Um presente já apocalíptico, «à beira de um penhasco». De qualquer modo, Julian Barnes despede-se com a elegância já referida: 
«É óbvio que, como agnóstico/ateu, não vejo muitas vantagens em estar morto. Apenas me são disponibilizados pequenos consolos. A sorte do tempo de vida (em grande parte, pacífico, com muitas e maiores liberdades do que gerações anteriores), a a sorte da minha vida (livre da pobreza, não mutilada pela religião, em grande parte feliz, sempre interessante - pelo menos para mim - e na segunda metade profissionalmente bem-sucedida).» (pág.183). Como ele nos diz: «sentirei a vossa falta».
Lido, com a entrega que exige, não nos deixa outra opção senão lembrá-lo vivamente. 

alc

sábado, janeiro 31, 2026

"A Trilogia de Copenhaga", Tove Ditlevsen

"A Trilogia de Copenhaga", D. Quixote, 2022. Tradução do dinamarquês de João Reis
Há livros cuja leitura deixam marcas que permanecem durante longo tempo. Creio que este é um deles. A autora é a dinamarquesa Tove Ditlevsen que faleceu em 1976, induzindo a morte a si própria com 58 anos. O livro, tal como o nome indica, é dividido em três partes: «A Infância», «A Juventude» e «Relações Tóxicas», sendo que este último livro é titulado de «Gift» em dinamarquês que significa «Casamento». A trilogia é claramente confessional tendo sido editado em 1967 e percorre toda a vida da escritora para quem escrever é uma necessidade quase física. Nascida no seio de uma família da classe trabalhadora dinamarquesa, com o pai e irmão militantes social-democratas, apercebe-se cedo da luta de classes, embora se afaste da política partidária. A infância, mesmo com algumas dificuldades ligadas ao desemprego temporário nos membros da família, é relativamente saudável surgindo em Tove a ligação íntima com a escrita, particularmente à poesia. Parte da juventude é passada sob a ocupação alemã, empregos temporários, alojamentos arrendados em pensões e relações fugazes. A sua vida reparte-se entre festas, empregos, a escrita e uma vaga adesão à resistência através de um seu companheiro. Nada adivinhava o que se veio a verificar após o seu primeiro casamento com o seu editor. O que escreve em «Relações Tóxicas», ou seja, no período referente ao casamento e algumas relações fortuitas que manteve por pouco tempo, é de tal modo directa que a empatia por ela cresce à medida que lemos o livro, mesmo que algumas relações e estados de espírito sejam claramente fora daquilo a que chamamos de «normalidade». Ela não é propriamente uma burguesa, mas apercebemo-nos que ela reivindica para si um espírito livre de quaisquer amarras, nomeadamente as masculinas. Ficamos vivamente impressionados com as descrições de um casamento que se esvai pouco a pouco até ao silêncio, com o nascimento do primeiro filho e principalmente com a última parte em que é descrito o processo penoso de um aborto e, mais tarde, da sua adição toxicodependente. É raro uma frontalidade tão arrasadora como a que é descrita quando é sujeita a um aborto, tal como a sua dependência a drogas que lhe são induzidas em mais uma ligação falhada. É evidente que não estamos perante um conto de fadas e a força da escrita de Tove Divletsen é directamente proporcional à tragédia que constituiu a sua vida, sem que transpareça, contudo, uma chispa de lástima ou de auto-comiseração. Inesquecível.

alc

quinta-feira, janeiro 29, 2026

Nota de Rodapé 29/01/2026

O mundo a desabar entre o autoritarismo e a violência das guerras e da repressão e nós aqui entalados entre um odioso e ridículo Ventura e um autodenominado moderado e humanista pela mão de Seguro. Mesmo que a escolha entre um e outro seja clara na defesa do que ainda há de liberdade nas sociedades actuais, não deixa de ser singular a falta de debates em temas verdadeiramente importantes e que terão a ver com a nossa vida, como a recusa da guerra e do militarismo, a possibilidade cada vez mais necessária de decrescimento económico, a crise climática e o papel do capitalismo verde (a IL, de mansinho, veio colocar a agenda na substituição das energias renováveis pelo extractivismo, pelo carvão e pelo petróleo), a profunda crise do capitalismo liberal que pretende destruir o estado social e a pobre discussão em torno da Constituição já completamente empobrecida com sucessivas revisões. Mesmo o abandono do interior e a destruição de equipamentos sociais e comunitários no interior do país (na Europa é igual) e de que se gosta de proclamar soluções em períodos eleitorais, este discurso é inexistente. Por muito que custe a alguns sectores da sociedade (não tão pequenos como isso) o anticapitalismo é ultrapassado a grande velocidade pelo antifascismo, e aí se vê a importância política do Chega e dos espécimes que o compõem e que ainda não compreenderam o seu triste papel: construir uma união forçada em torno da ideia democrática pela anulação dos seus opostos.

sexta-feira, janeiro 23, 2026

Nota de rodapé 20/01/2026

É quase uma pequena nota no Público de hoje: "a revista científica Lancet [estima] que 14 milhões de mortes possam ocorrer até 2030 com o fim dos programas alimentares e de saúde da USAID". Não posso deixar de ligar isto a um facto descrito em "Terra Queimada", de Jonathan Crary, que citando o "Lugano Report", de 1999, dá conta das perspectivas neoliberais desenhadas pelos autocratas e conselheiros trumpistas que defendem a redução drástica da população mundial afirmando, sem qualquer pudor, que "não podemos defender o sistema liberal de mercado livre e, ao mesmo tempo, continuar a tolerar a presença de milhões e milhões de pessoas supérfluas e improdutivas".

alc

"A Parede", Marlen Haushofer

 

«A Parede», Marlen Haushofer. Antígona, 2024. Tradução de Gilda Lopes Encarnação 
Verdadeiramente o que mais me impressionou em «A Parede», de Marlen Haushofer, foi a cadência diarística de uma distopia que junta um estilo narrativo límpido com uma repetição sistemática de dias, noites, semanas e meses sem que nos canse a leitura. Vi o filme homónimo de 2012 e não se compara à beleza do livro, mas alguma coisa ficou daquele porque ainda me lembro de algumas imagens soltas. Imagino Bela Tàrr a fazê-lo com a mesma sequência de «Cavalo de Turim». Esse sim, seria inesquecível. Trata-se de uma distopia imaginada pela autora, em 1963, em plena guerra fria, no ano seguinte à crise dos mísseis de Cuba, cuja guerra nuclear, sabemo-lo hoje, esteve mais perto que nunca. Uma arma poderosa é lançada sobre a Terra deixando vastas zonas incólumes de destruição física, embora toda a vida biológica seja erradicada. Hoje já existem e são desenvolvidas armas assim, o sonho de qualquer potência beligerante que deixa intactas as infraestruturas, enquanto determina o fim da vida biológica tornada supérflua. Por algum motivo a personagem principal, uma mulher de meia-idade, é poupada à morte, vendo-se sobrevivente num mundo natural primeiramente hostil, mas que se vai habituando paulatinamente junto com animais com quem convive todos os dias. Os seus pensamentos, que brotam entre verdadeiros trabalhos de campo, fazem parte do que melhor a literatura já criou: a vacuidade da vida urbana, o sentido da família, a tecnologia inútil, a educação que nada cria, a doença e a saúde, a vida e a morte. Para além de reflexões acerca da cultura e do poder dos livros e do que representa o saber, aliado ao amor pelos animais e da natureza. A envolvência que provoca esta leitura extraordinária é o que mais agrada, sendo que Marlen Haushofer foi seguida atentamente por outras escritoras feministas austríacas também elas muito importantes: Ingeborg Bachmann e Elfriede Jelinek. 

alc

domingo, janeiro 18, 2026

"Além da Memória", Sebastian Barry

 

Relógio D'Água, 2024. Tradução de José Mário Silva 
Da Irlanda chega-nos este romance em que o estranho se mistura com o sórdido. A meio caminho entre o literário e o policial, as personagens movem-se num clima negro dos abusos sexuais de crianças e de crimes de pedofilia perpetrados pela igreja católica irlandesa de que sabemos alguns dos seus contornos macabros e o luto pesado de um polícia reformado que vive numa solidão dura. 

Ficamos algo atónitos com os epítetos dos principais críticos literários ingleses e irlandeses com que os editores, apressadamente, vieram publicar na generosa contracapa: desde a «obra-prima» e o «extraordinário» romance à «experiência milagrosa» da sua leitura, não se poupam a elogios a uma obra que apresenta alguns escolhos. A leitura é, de algum modo, difícil de gerir por algumas incongruências narrativas que se observam ao longo das situações descritas, onde não se compreende bem o que o autor nos quer fazer crer: um violoncelista que é ao mesmo tempo um sniper de corvos marinhos, crianças que são vistas para logo desaparecerem ser qualquer explicação, um assassinato de um padre pela mulher abusada, entrevistas com polícias sem que se perceba o móbil, um tiro longínquo a um pai que rapta o seu filho, seguido do suicídio da personagem principal. Tudo demasiado forçado, assim como forçadas são as referências à política irlandesa, que surgem desfasadas e extemporâneas. 

alc

terça-feira, janeiro 13, 2026

"A Curva da Estrada", Ferreira de Castro

 

Cavalo de Ferro, (1ªed. 1950) 2024. 
«A Curva da Estrada» era para ser uma peça de teatro como Ferreira de Castro nos diz no prólogo da obra. A narrativa passa-se na Espanha republicana antes da guerra civil e é, talvez, das mais densas que o autor produziu, não só pelo tema que se desenrola dentro da política parlamentar protagonizada por um socialista descrente, como pela descrição psicológica que empresta às várias personagens que se vão desfilando no romance. Soriano sente que a ideia socialista se esvai paulatinamente dentro de si e, com isso, vê-se confrontado quer com os seus companheiros, quer com a família e consigo próprio. Essa luta é-nos contada de uma forma magistral por Ferreira de Castro que nos faz acompanhar pelas dúvidas e acções que são geradas pelo pensamento inquieto da personagem principal, Álvaro Soriano. Os diálogos são autênticas peças filosóficas e políticas extremamente reais e sem que a situação portuguesa e espanhola, presente nas respectivas ditaduras, não é alheia. Um libelo à verticalidade e à liberdade humanas, condição essencial na luta por um mundo melhor e por uma sociedade igualitária. Para além de tudo isto, admiramo-nos com a actualidade de «A Curva da Estrada» o que faz deste livro um autêntico clássico.

alc

sexta-feira, janeiro 09, 2026

"Fronteira", Can Xue

 

Relógio D'Água, 2025. Tradução do chinês de Tiago Nabais
Um livro de um grande fulgor imaginativo em que a realidade se confunde inúmeras vezes com o inefável, com um sonho nunca terminado. As personagens são voláteis, etéreas, cuja consistência psicológica é tragada pela torrente de situações irreais numa geografia urbana, a Cidade dos Seixos, ou num ambiente natural, A Montanha de Neve. Entre esses dois lugares imaginários, jardins sobrepõem-se às casas que permanecem abertas, sem intimidade, tais como as personagens despidas de qualquer interrelação verdadeira, cruzando-se e dialogando como autómatos. 

Podemos, contudo, lobrigar algum arremedo à realidade chinesa: trabalhos irrazoáveis em departamentos inúteis, brigadas de reeducação, tarefas do Partido, institutos vazios de projectos e de pessoas; mas toda a narrativa é travada pelo desligamento, pelo desfasamento. As relações são deslaçadas e opacas, a autora recusa a profundidade apostando antes na ilusão onírica.

Segundo a sua biografia, Can Xue conhece e estuda Borges, Kafka e Dante. Essas influências literárias ajudam a compreender o seu estilo embora, salve melhor opinião, ainda bem longe de atingir a maturidade que leve o leitor a reconhecer, nas suas linhas, uma força narrativa exemplar.

sexta-feira, janeiro 02, 2026

"Artigo 353", Tanguy Viel

 

Antígona, 2024. Tradução de Luís Leitão
Os anos 80 significaram, em quase todo o mundo ocidental, o início de uma época em que o capitalismo se chamou a si próprio de «popular». Coincidiu essencialmente com os governos de Reagan e Thatcher em que se observou o desmantelamento das instituições públicas e da indústria, entre outras. O liberalismo em roda livre e sem freio pelas oposições tradicionais fizeram com que desaparecesse uma classe operária envelhecida, mas com um espírito vivo de antagonismo social contra a burguesia. Tudo estava à venda, quer na bolsa, quer na vida quotidiana e nos espaços públicos. Assim foi em França no tempo de Miterrand, um socialista também ele influenciado pelas virtudes liberais, particularmente na Bretanha, onde as antigas relações sociais de anos a fio, foram substituídas por vínculos onde ganhava a avidez e o lucro. Esta história passa-se numa pequena localidade piscatória onde existiu um antigo arsenal desactivado e onde os desempregados, recentemente indemnizados, serviram de bóias de salvação para «empresários» sem escrúpulos que os exploraram e seduziram com investimentos turísticos. Investimentos esses que lhes dariam lucros fabulosos e que foram respaldados por instituições políticas locais. A narrativa passa-se num tribunal e o modo de apresentá-la surgiu pela pena extremamente lúcida e verosímil na personagem principal a que Tanguy Viel deu forma. Nada que o nosso país não conheça ou que ainda conhece. A especulação imobiliária não tem fronteiras e as consequências na vida das pessoas que se deixam levar pelo canto das sereias do lucro fácil são, na sua maior parte, destruidoras de uma coesão social que ainda possa existir nas pequenas comunidades. É este estado de coisas, descrito na vida de um ex-operário bretão, que este livro tão bem nos conta.

alc