quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Ilustr[ações]

 


14 de Fevereiro de 2026. Exposição | Liquidâmbar

Ilustr[ações]

Ilustrações, desenhos, cartoons editados pelo «Jornal Mapa», as revistas «Flauta de Luz» e «A Ideia». Entre 2021 e 2026 fizeram parte de uma sequência onde pontificaram desenhos alusivos à crítica ao capitalismo, ao extrativismo, ao militarismo e à guerra, pelo decrescimento económico e pelo comunitarismo solidário. Por uma verdadeira Vida e uma outra Sociedade, pela Poesia tornada real nos dias que correm. Nestes desenhos não existe neutralidade, escolhe-se um campo-limite, uma zona utópica de liberdade e de construção do comum.

ANTÓNIO LUÍS CATARINO


quarta-feira, fevereiro 11, 2026

«Longe da Multidão», Thomas Hardy

Thomas Hardy
Presença, 2015. Tradução de Catarina F. Almeida
Thomas Hardy é um tardo romântico o que, por si só, explica a forma veemente da sua escrita. Não deixa de ser interessante verificar, contudo, que ele foge à simples circunscrição romântica, antes viajando por um realismo que se pressente nas descrições naturalistas, ambientais e psicológicas das personagens. A sociedade inglesa vitoriana é aqui analisada com grande pormenor, principalmente a sociedade rural de que ele era um observador implacável. Nascido em 1840, em Dorset, e trabalhando na arquitectura e restauro de igrejas góticas, (coerentemente romântico, portanto) escreveu «Longe da Multidão» em 1874, a sua terceira novela, criando na personagem de Bathsheba, uma mulher que, enriquecida por testamento de uma quinta, é movida por uma busca de felicidade que lhe é negada por várias circunstâncias, entre as mais importantes, a própria sociedade fechada ao elevador social, à desconfiança e ao poder masculino. Profusamente criticado pelos meios literários dos finais do século XIX que não o viam como um dos seus, visto que as suas personagens eram muitas das vezes movidas pela sombra e pelo calculismo, tiveram, contudo, de se render a essa força narrativa que imprimia aos seus escritos. Os seus romances «Judas, o Obscuro», «Tess d'Ubervilles» e «O Maior de Casterbridge», foram alvo de críticas violentas, embora conquistasse um grande número de leitores. 

«Longe da Multidão», dizia antes, passa-se no meio rural inglês dos finais do século XIX. A reforma agrária liberal do século anterior, tinha devastado a coesão social de pequenos e médios lavradores, dando aos grandes proprietários todas as ferramentas legais para acumularem cada vez mais poder, através da formação das enclosures, cujos lucros vinham sobretudo da criação de ovelhas, dando matéria-prima abundante para a forte indústria têxtil das cidades e com a consequente mão-de-obra excedente das sucessivas expulsões dos camponeses das terras. É neste ambiente que as personagens de «Longe da Multidão» se movem e a paleta que Thomas Hardy nos dá desse ambiente é de cores fortes e impressivas. O casamento é o meio de atingir o fim, ou seja, a riqueza que, até certo ponto, se confunde com a felicidade de cunho claramente romântico, embora o desejo flua livremente para fora desse contrato. Talvez a crítica da sociedade vitoriana, reticente a apoiar os romances de Hardy, resida no facto de apresentar as mulheres como dependentes únicas da sua própria vontade, situação que uma corte literária e política conservadora não poderia pactuar. E lembremo-nos que era a época das primeiras lutas feministas organizadas, embora Thomas Hardy estivesse longe dessas preocupações políticas e sociais. A bem da verdade a mulher aparece, por vezes, como instável, imprudente e dependente, embora pareça ultrapassar, pela prática de vida, tais pressupostos muito marcados por uma misoginia mal escondida do autor. O que nos conquista é o facto, literariamente impressionante, de o autor conseguir, num mesmo período, descrever-nos uma situação e um ambiente, apresentar-nos uma hipótese, desenvolver uma tese e uma conclusão das suas efabulações e, se ainda for oportuno, uma antítese de tudo o que nos deu a pensar.

Grande parte dos livros de Hardy foram passados para o cinema, sendo que talvez o mais importante seja o «Tess» («Tess d'Ubervilles») de Roman Polanski, com Natassja Kinski no papel principal. Conhecendo-o, tive a curiosidade de ver o filme de 2015, «Longe da Multidão», e asseguro-vos que é uma prova evidente que um livro tornado guião de um filme nem sempre tem o melhor resultado. Nada tem a ver com as descrições pormenorizadas da natureza, dos ambientes e das pessoas, nas suas diferentes classes sociais, que nos envolvem como um filme é incapaz de o fazer. Essa intimidade, ouso dizê-lo, só se consegue plenamente através da leitura solitária de um livro. A literatura romântica, seja ela «tardo» ou com laivos realistas, ainda nos prende a um certo tipo de entrega individual que só uma leitura atenta pode oferecer.

alc

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

"Partida", Julian Barnes

 

Quetzal, 2026. Tradução de Salvato Teles de Menezes
É necessário muita coragem para escrever um anunciado último livro. Não é só ser destemido, é ter um enorme respeito pelos leitores, é saber antecipadamente que este não terá a importância de um primeiro, ou mesmo de um segundo e um terceiro livros, talvez estes últimos dos mais decisivos para uma chamada «carreira» literária. Trata-se igualmente de não cair em clichés abundantes nos romances actuais e que Julian Barnes nos avisa, evitando repetições escusadas que podem ter sido usadas em narrativas anteriores ou tornar-se uma espécie de registo cansado, sem a subtileza e inteligência que deu mostras; daí, a coragem de um último livro. Já se escreveu bastante sobre «Partida» que, segundo Julian Barnes, pode ser uma nova chegada. Assim é. Prenuncia-se os temas que estão presentes no livro: a memória e o seu significado a partir da tal madalena embebida no chá de tília de Marcel, de «Em busca do tempo perdido», que nos obriga a desenrolar todo um novelo de memórias da nossa infância e adolescência. Não por acaso. A memória está connosco de um modo autoritário, sem pedir licença, sem que saibamos o seu sentido ou por que umas se transcendem a outras. É o que Barnes chama de MAI, «memória autobiográfica involuntária» que, feliz ou infelizmente, povoa a nossa consciência com múltiplas facetas e imagens. Muitas, já nem sabemos se são verdadeiras, pouco importa, aliás. Com a memória, vive-se no nascimento, na degenerescência e na morte que Barnes nos apresenta com uma elegância e um cuidado britânicas. E os amigos e familiares que faleceram, cujas memórias ainda mantemos vivas em nós, sem que pensássemos se seria assim que queriam que fossem lembrados. Será que Julian Barnes, ao escrever este livro e desenvolvesse todos os pensamentos que o acompanham, não estaria certo que o leitor pudesse circunscrevê-los à sua própria vida? Mesmo com o receio que as ondas de choque e suicídios que teve no século XVIII, por exemplo, o «Werther» de Goethe, se pudessem mimetizar com «A Partida»? Mesmo que isso fosse pouco provável numa sociedade hedonista e pouco dada a essas influências românticas, Barnes não deixa de colocar a possibilidade e isso deixa-nos inquietos; esse desconforto não é bem o da finitude, coisa que estaremos já familiarizados com a idade, mas sim com aquilo que deixamos aos que ficam e quase com algum alívio o vemos «partir» numa fase terminal de cancro e com a descrição dolorosa como o faz. O mundo que resta não será o melhor de todos para dizer o mínimo dos mínimos; é, antes, um amontoado de ódios, de desprezo pelo que ainda há de democracia e de liberdade, de uma aposta na guerra e no genocídio, de um inverno nuclear ou da destruição do que ainda resta de altruísmo pelo egoísmo. Um presente já apocalíptico, «à beira de um penhasco». De qualquer modo, Julian Barnes despede-se com a elegância já referida: 
«É óbvio que, como agnóstico/ateu, não vejo muitas vantagens em estar morto. Apenas me são disponibilizados pequenos consolos. A sorte do tempo de vida (em grande parte, pacífico, com muitas e maiores liberdades do que gerações anteriores), a a sorte da minha vida (livre da pobreza, não mutilada pela religião, em grande parte feliz, sempre interessante - pelo menos para mim - e na segunda metade profissionalmente bem-sucedida).» (pág.183). Como ele nos diz: «sentirei a vossa falta».
Lido, com a entrega que exige, não nos deixa outra opção senão lembrá-lo vivamente. 

alc

sábado, janeiro 31, 2026

"A Trilogia de Copenhaga", Tove Ditlevsen

"A Trilogia de Copenhaga", D. Quixote, 2022. Tradução do dinamarquês de João Reis
Há livros cuja leitura deixam marcas que permanecem durante longo tempo. Creio que este é um deles. A autora é a dinamarquesa Tove Ditlevsen que faleceu em 1976, induzindo a morte a si própria com 58 anos. O livro, tal como o nome indica, é dividido em três partes: «A Infância», «A Juventude» e «Relações Tóxicas», sendo que este último livro é titulado de «Gift» em dinamarquês que significa «Casamento». A trilogia é claramente confessional tendo sido editado em 1967 e percorre toda a vida da escritora para quem escrever é uma necessidade quase física. Nascida no seio de uma família da classe trabalhadora dinamarquesa, com o pai e irmão militantes social-democratas, apercebe-se cedo da luta de classes, embora se afaste da política partidária. A infância, mesmo com algumas dificuldades ligadas ao desemprego temporário nos membros da família, é relativamente saudável surgindo em Tove a ligação íntima com a escrita, particularmente à poesia. Parte da juventude é passada sob a ocupação alemã, empregos temporários, alojamentos arrendados em pensões e relações fugazes. A sua vida reparte-se entre festas, empregos, a escrita e uma vaga adesão à resistência através de um seu companheiro. Nada adivinhava o que se veio a verificar após o seu primeiro casamento com o seu editor. O que escreve em «Relações Tóxicas», ou seja, no período referente ao casamento e algumas relações fortuitas que manteve por pouco tempo, é de tal modo directa que a empatia por ela cresce à medida que lemos o livro, mesmo que algumas relações e estados de espírito sejam claramente fora daquilo a que chamamos de «normalidade». Ela não é propriamente uma burguesa, mas apercebemo-nos que ela reivindica para si um espírito livre de quaisquer amarras, nomeadamente as masculinas. Ficamos vivamente impressionados com as descrições de um casamento que se esvai pouco a pouco até ao silêncio, com o nascimento do primeiro filho e principalmente com a última parte em que é descrito o processo penoso de um aborto e, mais tarde, da sua adição toxicodependente. É raro uma frontalidade tão arrasadora como a que é descrita quando é sujeita a um aborto, tal como a sua dependência a drogas que lhe são induzidas em mais uma ligação falhada. É evidente que não estamos perante um conto de fadas e a força da escrita de Tove Divletsen é directamente proporcional à tragédia que constituiu a sua vida, sem que transpareça, contudo, uma chispa de lástima ou de auto-comiseração. Inesquecível.

alc

quinta-feira, janeiro 29, 2026

Nota de Rodapé 29/01/2026

O mundo a desabar entre o autoritarismo e a violência das guerras e da repressão e nós aqui entalados entre um odioso e ridículo Ventura e um autodenominado moderado e humanista pela mão de Seguro. Mesmo que a escolha entre um e outro seja clara na defesa do que ainda há de liberdade nas sociedades actuais, não deixa de ser singular a falta de debates em temas verdadeiramente importantes e que terão a ver com a nossa vida, como a recusa da guerra e do militarismo, a possibilidade cada vez mais necessária de decrescimento económico, a crise climática e o papel do capitalismo verde (a IL, de mansinho, veio colocar a agenda na substituição das energias renováveis pelo extractivismo, pelo carvão e pelo petróleo), a profunda crise do capitalismo liberal que pretende destruir o estado social e a pobre discussão em torno da Constituição já completamente empobrecida com sucessivas revisões. Mesmo o abandono do interior e a destruição de equipamentos sociais e comunitários no interior do país (na Europa é igual) e de que se gosta de proclamar soluções em períodos eleitorais, este discurso é inexistente. Por muito que custe a alguns sectores da sociedade (não tão pequenos como isso) o anticapitalismo é ultrapassado a grande velocidade pelo antifascismo, e aí se vê a importância política do Chega e dos espécimes que o compõem e que ainda não compreenderam o seu triste papel: construir uma união forçada em torno da ideia democrática pela anulação dos seus opostos.

sexta-feira, janeiro 23, 2026

Nota de rodapé 20/01/2026

É quase uma pequena nota no Público de hoje: "a revista científica Lancet [estima] que 14 milhões de mortes possam ocorrer até 2030 com o fim dos programas alimentares e de saúde da USAID". Não posso deixar de ligar isto a um facto descrito em "Terra Queimada", de Jonathan Crary, que citando o "Lugano Report", de 1999, dá conta das perspectivas neoliberais desenhadas pelos autocratas e conselheiros trumpistas que defendem a redução drástica da população mundial afirmando, sem qualquer pudor, que "não podemos defender o sistema liberal de mercado livre e, ao mesmo tempo, continuar a tolerar a presença de milhões e milhões de pessoas supérfluas e improdutivas".

alc

"A Parede", Marlen Haushofer

 

«A Parede», Marlen Haushofer. Antígona, 2024. Tradução de Gilda Lopes Encarnação 
Verdadeiramente o que mais me impressionou em «A Parede», de Marlen Haushofer, foi a cadência diarística de uma distopia que junta um estilo narrativo límpido com uma repetição sistemática de dias, noites, semanas e meses sem que nos canse a leitura. Vi o filme homónimo de 2012 e não se compara à beleza do livro, mas alguma coisa ficou daquele porque ainda me lembro de algumas imagens soltas. Imagino Bela Tàrr a fazê-lo com a mesma sequência de «Cavalo de Turim». Esse sim, seria inesquecível. Trata-se de uma distopia imaginada pela autora, em 1963, em plena guerra fria, no ano seguinte à crise dos mísseis de Cuba, cuja guerra nuclear, sabemo-lo hoje, esteve mais perto que nunca. Uma arma poderosa é lançada sobre a Terra deixando vastas zonas incólumes de destruição física, embora toda a vida biológica seja erradicada. Hoje já existem e são desenvolvidas armas assim, o sonho de qualquer potência beligerante que deixa intactas as infraestruturas, enquanto determina o fim da vida biológica tornada supérflua. Por algum motivo a personagem principal, uma mulher de meia-idade, é poupada à morte, vendo-se sobrevivente num mundo natural primeiramente hostil, mas que se vai habituando paulatinamente junto com animais com quem convive todos os dias. Os seus pensamentos, que brotam entre verdadeiros trabalhos de campo, fazem parte do que melhor a literatura já criou: a vacuidade da vida urbana, o sentido da família, a tecnologia inútil, a educação que nada cria, a doença e a saúde, a vida e a morte. Para além de reflexões acerca da cultura e do poder dos livros e do que representa o saber, aliado ao amor pelos animais e da natureza. A envolvência que provoca esta leitura extraordinária é o que mais agrada, sendo que Marlen Haushofer foi seguida atentamente por outras escritoras feministas austríacas também elas muito importantes: Ingeborg Bachmann e Elfriede Jelinek. 

alc

domingo, janeiro 18, 2026

"Além da Memória", Sebastian Barry

 

Relógio D'Água, 2024. Tradução de José Mário Silva 
Da Irlanda chega-nos este romance em que o estranho se mistura com o sórdido. A meio caminho entre o literário e o policial, as personagens movem-se num clima negro dos abusos sexuais de crianças e de crimes de pedofilia perpetrados pela igreja católica irlandesa de que sabemos alguns dos seus contornos macabros e o luto pesado de um polícia reformado que vive numa solidão dura. 

Ficamos algo atónitos com os epítetos dos principais críticos literários ingleses e irlandeses com que os editores, apressadamente, vieram publicar na generosa contracapa: desde a «obra-prima» e o «extraordinário» romance à «experiência milagrosa» da sua leitura, não se poupam a elogios a uma obra que apresenta alguns escolhos. A leitura é, de algum modo, difícil de gerir por algumas incongruências narrativas que se observam ao longo das situações descritas, onde não se compreende bem o que o autor nos quer fazer crer: um violoncelista que é ao mesmo tempo um sniper de corvos marinhos, crianças que são vistas para logo desaparecerem ser qualquer explicação, um assassinato de um padre pela mulher abusada, entrevistas com polícias sem que se perceba o móbil, um tiro longínquo a um pai que rapta o seu filho, seguido do suicídio da personagem principal. Tudo demasiado forçado, assim como forçadas são as referências à política irlandesa, que surgem desfasadas e extemporâneas. 

alc

terça-feira, janeiro 13, 2026

"A Curva da Estrada", Ferreira de Castro

 

Cavalo de Ferro, (1ªed. 1950) 2024. 
«A Curva da Estrada» era para ser uma peça de teatro como Ferreira de Castro nos diz no prólogo da obra. A narrativa passa-se na Espanha republicana antes da guerra civil e é, talvez, das mais densas que o autor produziu, não só pelo tema que se desenrola dentro da política parlamentar protagonizada por um socialista descrente, como pela descrição psicológica que empresta às várias personagens que se vão desfilando no romance. Soriano sente que a ideia socialista se esvai paulatinamente dentro de si e, com isso, vê-se confrontado quer com os seus companheiros, quer com a família e consigo próprio. Essa luta é-nos contada de uma forma magistral por Ferreira de Castro que nos faz acompanhar pelas dúvidas e acções que são geradas pelo pensamento inquieto da personagem principal, Álvaro Soriano. Os diálogos são autênticas peças filosóficas e políticas extremamente reais e sem que a situação portuguesa e espanhola, presente nas respectivas ditaduras, não é alheia. Um libelo à verticalidade e à liberdade humanas, condição essencial na luta por um mundo melhor e por uma sociedade igualitária. Para além de tudo isto, admiramo-nos com a actualidade de «A Curva da Estrada» o que faz deste livro um autêntico clássico.

alc

sexta-feira, janeiro 09, 2026

"Fronteira", Can Xue

 

Relógio D'Água, 2025. Tradução do chinês de Tiago Nabais
Um livro de um grande fulgor imaginativo em que a realidade se confunde inúmeras vezes com o inefável, com um sonho nunca terminado. As personagens são voláteis, etéreas, cuja consistência psicológica é tragada pela torrente de situações irreais numa geografia urbana, a Cidade dos Seixos, ou num ambiente natural, A Montanha de Neve. Entre esses dois lugares imaginários, jardins sobrepõem-se às casas que permanecem abertas, sem intimidade, tais como as personagens despidas de qualquer interrelação verdadeira, cruzando-se e dialogando como autómatos. 

Podemos, contudo, lobrigar algum arremedo à realidade chinesa: trabalhos irrazoáveis em departamentos inúteis, brigadas de reeducação, tarefas do Partido, institutos vazios de projectos e de pessoas; mas toda a narrativa é travada pelo desligamento, pelo desfasamento. As relações são deslaçadas e opacas, a autora recusa a profundidade apostando antes na ilusão onírica.

Segundo a sua biografia, Can Xue conhece e estuda Borges, Kafka e Dante. Essas influências literárias ajudam a compreender o seu estilo embora, salve melhor opinião, ainda bem longe de atingir a maturidade que leve o leitor a reconhecer, nas suas linhas, uma força narrativa exemplar.

sexta-feira, janeiro 02, 2026

"Artigo 353", Tanguy Viel

 

Antígona, 2024. Tradução de Luís Leitão
Os anos 80 significaram, em quase todo o mundo ocidental, o início de uma época em que o capitalismo se chamou a si próprio de «popular». Coincidiu essencialmente com os governos de Reagan e Thatcher em que se observou o desmantelamento das instituições públicas e da indústria, entre outras. O liberalismo em roda livre e sem freio pelas oposições tradicionais fizeram com que desaparecesse uma classe operária envelhecida, mas com um espírito vivo de antagonismo social contra a burguesia. Tudo estava à venda, quer na bolsa, quer na vida quotidiana e nos espaços públicos. Assim foi em França no tempo de Miterrand, um socialista também ele influenciado pelas virtudes liberais, particularmente na Bretanha, onde as antigas relações sociais de anos a fio, foram substituídas por vínculos onde ganhava a avidez e o lucro. Esta história passa-se numa pequena localidade piscatória onde existiu um antigo arsenal desactivado e onde os desempregados, recentemente indemnizados, serviram de bóias de salvação para «empresários» sem escrúpulos que os exploraram e seduziram com investimentos turísticos. Investimentos esses que lhes dariam lucros fabulosos e que foram respaldados por instituições políticas locais. A narrativa passa-se num tribunal e o modo de apresentá-la surgiu pela pena extremamente lúcida e verosímil na personagem principal a que Tanguy Viel deu forma. Nada que o nosso país não conheça ou que ainda conhece. A especulação imobiliária não tem fronteiras e as consequências na vida das pessoas que se deixam levar pelo canto das sereias do lucro fácil são, na sua maior parte, destruidoras de uma coesão social que ainda possa existir nas pequenas comunidades. É este estado de coisas, descrito na vida de um ex-operário bretão, que este livro tão bem nos conta.

alc