Relógio D'Água, 2025. Tradução do chinês de Tiago Nabais
Um livro de um grande fulgor imaginativo em que a realidade se confunde inúmeras vezes com o inefável, com um sonho nunca terminado. As personagens são voláteis, etéreas, cuja consistência psicológica é tragada pela torrente de situações irreais numa geografia urbana, a Cidade dos Seixos, ou num ambiente natural, A Montanha de Neve. Entre esses dois lugares imaginários, jardins sobrepõem-se às casas que permanecem abertas, sem intimidade, tais como as personagens despidas de qualquer interrelação verdadeira, cruzando-se e dialogando como autómatos.
Podemos, contudo, lobrigar algum arremedo à realidade chinesa: trabalhos irrazoáveis em departamentos inúteis, brigadas de reeducação, tarefas do Partido, institutos vazios de projectos e de pessoas; mas toda a narrativa é travada pelo desligamento, pelo desfasamento. As relações são deslaçadas e opacas, a autora recusa a profundidade apostando antes na ilusão onírica.
Segundo a sua biografia, Can Xue conhece e estuda Borges, Kafka e Dante. Essas influências literárias ajudam a compreender o seu estilo embora, salve melhor opinião, ainda bem longe de atingir a maturidade que leve o leitor a reconhecer, nas suas linhas, uma força narrativa exemplar.
