Assírio & Alvim, 2024. Tradução de Frederico Pedreira
O que existe de interessante em Dylan Thomas é o que fica em nós após a leitura da poesia densa com que somos brindados em palavras improváveis ou alegorias e metáforas circulares. Se bem que o tema da morte esteja muito presente ela não é, contudo, o seu mote essencial, sendo antes a vida o seu elemento definidor. O esvaziamento gradual da vida, ou o seu fim repentino e absurdo, nos seus múltiplos aspectos é o objectivo radical da escrita de Thomas em poemas impressivos e até violentos. Dou um exemplo único em «Mortes e Entradas» (pág.167):
Quase em vésperas incendiárias
De muitas mortes próximas,
Quando um no mínimo dos teus mais amados
E desde sempre conhecidos tem de deixar
Os leões e o fogo do seu sopro alado,
Esse que dos teus imortais amigos
Os órgãos ergueria do contado pó
Para caçar e cantar em teu louvor,
Intimado das profundezas ficará em silêncio,
Sem jamais se afogar ou cessar
Interminável na sua ferida
Das muitas e conjugais dores de Londres alienada.
(...)
Pressentimos um movimento de nítido espanto e até de horror neste poema que descreve o que adivinhamos ser um bombardeamento através de imagens como «vésperas incendiárias», «mortes próximas», «sopro alado» ou do silêncio que obriga a uma «interminável ferida». Verificamos a data do poema inscrito nesta antologia - 1946 - e desenha-se quase a certeza que é transmitida, mais à frente, num poema mais tangível em «Cerimónia após um bombardeamento» (pag.181) ou em «Entre os mortos no raide ao amanhecer estava um homem de cem anos» (pag.193) poemas terríveis que nos levam a sentir o pior das guerras.
Dylan Thomas não é somente a finitude, ele é igualmente o nascimento e o crescimento, é luz e escuridão, animais e vermes, corpo e espírito, matéria e sangue. Morreu muito cedo, talvez cedo demais, com 39 anos e julgamos que teve experiências movidas a sensações humanas limite em que o álcool foi decisivo num fim anunciado.
Desenho para «Se as lanternas brilhassem» (pág.99)
Se as lanternas brilhassem, a face sagrada,
Capturada num octógono de luz desusada,
Acabaria por definhar, e todo o rapaz do amor
Olharia duas vezes antes de cair em desgraça.
Os traços em sua privada penumbra
São de carne formados, mas venha o dia falso
E dos lábios dela cairão debotados pigmentos,
Dos seus trapos de múmia espreitará antigo seio.
(...)

