terça-feira, fevereiro 17, 2026

"Thérèse Raquin", Émile Zola

 

Relógio D'Água, 2024. Tradução de João Gaspar Simões. 
Segundo Guy de Maupassant, que assina um prefácio traduzido por Miguel Serras Pereira, Émile Zola sente que o modelo da sua literatura «[não é outro] senão a vida, uma vez que não concebemos nada para lá dos nossos sentidos; por conseguinte, deformar a vida é produzir uma obra má, uma vez que é produzir uma obra de erro.» «Thérèse Raquin», publicado em 1867, cumpre copiosamente esta ideia. Anti-romântico, mas criando um ambiente naturalista, psicologicamente denso, trágico, leva as personagens ao limite das suas acções que, na altura, foram consideradas pelos críticos como «literatura pútrida», segundo palavras do próprio Zola no prefácio da 2ª edição da obra, logo em 1868. Percebe-se porquê: à volta de um crime passional comum, desenrola-se uma narrativa em que o pior do humano é exposto em toda a sua crueza. Há descrições inesquecíveis em «Thérèse Raquin» como, após ter cometido o assassinato de Camille, Laurent se dirige a um restaurante e come vários pastéis seguidos para acalmar a fome que lhe advém subitamente, tornando assim a transgressão como coisa comum, válida, passageira. A forte impressão que sentimos nas páginas que decorrem na morgue é inigualável e só existem devido à capacidade de observação minuciosa e claramente naturalista de Zola. Ou como Thérèse que, para esquecer o crime de que foi cúmplice, se enreda furiosamente na leitura de romances, tal como sente o fim doloroso do desejo sexual por Laurent após o crime ser consumado e se vê submergida por uma espiral de ódio e violência na relação com este e que levará à morte, pressentida desde o início, de ambos. 

Conheci Zola, nos anos anteriores à liberdade, numa colecção de bolso, creio que da Europa-América, com «Nana», «Germinal» e «A Taberna», este último da Guimarães, creio, e retirado da biblioteca do meu pai. Voltámos, vários de nós muito jovens militantes de esquerda, a ele no período revolucionário e hoje questiono-me por que o faríamos; provavelmente, pela descrição dos ambientes lúgubres de gente cuja vida social era marcada pelo desejo ou de felicidade, ou de riqueza que não atingiam por vicissitudes várias, gente explorada sem saber que o era, ou sabendo-o, com objectivos de conquistarem um quinhão que lhes era negado. Se não fosse por isso, era-o pela justificação de uma ideologia que abraçávamos, pouco importa. Líamos Zola, como o fazíamos com Gorki, Steinbeck ou Balzac, ou ainda Tolstói ou Dostoievski, embora creia hoje que a literatura não terá o condão de redenção como nos anos 70 a encararíamos. E ainda bem que assim é. 

alc