sexta-feira, janeiro 23, 2026

"A Parede", Marlen Haushofer

 

«A Parede», Marlen Haushofer. Antígona, 2024. Tradução de Gilda Lopes Encarnação 
Verdadeiramente o que mais me impressionou em «A Parede», de Marlen Haushofer, foi a cadência diarística de uma distopia que junta um estilo narrativo límpido com uma repetição sistemática de dias, noites, semanas e meses sem que nos canse a leitura. Vi o filme homónimo de 2012 e não se compara à beleza do livro, mas alguma coisa ficou daquele porque ainda me lembro de algumas imagens soltas. Imagino Bela Tàrr a fazê-lo com a mesma sequência de «Cavalo de Turim». Esse sim, seria inesquecível. Trata-se de uma distopia imaginada pela autora, em 1963, em plena guerra fria, no ano seguinte à crise dos mísseis de Cuba, cuja guerra nuclear, sabemo-lo hoje, esteve mais perto que nunca. Uma arma poderosa é lançada sobre a Terra deixando vastas zonas incólumes de destruição física, embora toda a vida biológica seja erradicada. Hoje já existem e são desenvolvidas armas assim, o sonho de qualquer potência beligerante que deixa intactas as infraestruturas, enquanto determina o fim da vida biológica tornada supérflua. Por algum motivo a personagem principal, uma mulher de meia-idade, é poupada à morte, vendo-se sobrevivente num mundo natural primeiramente hostil, mas que se vai habituando paulatinamente junto com animais com quem convive todos os dias. Os seus pensamentos, que brotam entre verdadeiros trabalhos de campo, fazem parte do que melhor a literatura já criou: a vacuidade da vida urbana, o sentido da família, a tecnologia inútil, a educação que nada cria, a doença e a saúde, a vida e a morte. Para além de reflexões acerca da cultura e do poder dos livros e do que representa o saber, aliado ao amor pelos animais e da natureza. A envolvência que provoca esta leitura extraordinária é o que mais agrada, sendo que Marlen Haushofer foi seguida atentamente por outras escritoras feministas austríacas também elas muito importantes: Ingeborg Bachmann e Elfriede Jelinek. 

alc